O Carrasco de Victor Hugo José Alves
Chapter 2
Nise gentil, que até á sepultura Terás d'esta minh'al_ma a mona_rchia...
(Não podia deixar de ter a drastica _mamona_ o verso).
Por algum tempo, o filho de Rozenda conciliou a mansidão de bardo amoriscado com as fumaças de publicista revolucionario; mas, por 1855, encontra-o a historia litteraria e politica da Europa a desviar-se notavelmente da vereda do Hugo, que lhe havia de ser bussola entre o Marrare-das-Sete Portas e o templo da memoria, se elle antes não pudesse trocar o nicho perpetuo do Pantheon por um logar vitalicio de aspirante de alfandega de raia sêcca.
Este genio, cujas guedelhas serpejavam, revoltas e besuntadas, como idéas a espumejarem-lhe do cerebro á feição do muco esverdinhado que esvurma das fauces de um chacal, revirou-se com effeito, perguntando ao governo se era decoroso que a um filho do snr. D. João VI--a um rei vencido e exul, se roubasse perversamente o seu patrimonio.
«Á casa do infantado, ao pão do proscripto, que lhes fizestes, ladrões?» bradava Victor Hugo José Alves no seu periodico socialista.
E acrescentava:
«Roubastes o throno, desterrando o principe espoliado, como em encruzilhada da Calabria. Não vos bastava a usurpação de um titulo?
«Roubastes o altar, expulsando os seus ministros mendigos. Não quizestes que sobrevivesse no cenobio um só homem de bem que testimunhasse os vossos latrocinios!
«Salteadores!
«Á barra!
«Aos tribunaes! aos tribunaes!»
N'aquelle tempo, o pudor dos ministros era mais historico e provavel que o da Lucrecia de Collatino.
O ministerio publico deu a suspirada querella. Inaugurou-se, pois, o martyrio do Victor Hugo portuguez. Condemnaram-no em vinte dias de gloriosos ferros, e nas custas.
É o que elle queria.
Queria a hecatomba, para elle sosinho a gloria, que nos sacrificios antigos tinham os cem bois: _hecaton_, cem: _boûs_, boi. (Lardo de erudição que não fecha as portas da academia a ninguem). Queria a hecatomba, a via dolorosa da Boa Hora até ao Limoeiro, para depois, nobilitado pelo holocausto, se consubstanciar no coração de D. Maria. O carcere sorria-lhe como um templo em que, velando as armas, sairía de espora d'oiro, nobre e digno paladim da dama a quem se devotára, apostatando do Evangelho de Mazini, de Cabet, e do Herminigildo do pão barato.
Declarou-se. Ousou remetter directamente á neta dos Braganças o manifesto nem sempre humilde das suas aspirações. Estabeleceu confrontos de casamentos em que a desigualdade do sangue era retemperada pelo amor.
Respigando exemplos na propria familia da noiva requestada, contou a alliança do representante dos senhores de Biscaia com uma neta de um duque de Bragança. Bem é de vêr que o filho de Rozenda ousava equiparar-se aos senhores d'Azambuja e Val de Reis, inculcando-se producto de coito damnado entre o dom abbade de Cistér e a ama sêcca dos condes de Povolide.
E mais despejada petulancia foi livelar-se elle hombro a hombro com o fidalgo gentilissimo de quem as mais augustas e bellas damas de Portugal solicitavam á competencia um sorriso, um relance dos olhos requebrados, uma phrase languida de deliciosa pachorra. Elle, Victor Hugo José Alves, a medir-se com as graças plasticas do garboso môço de quem um principe prussiano escrevera isto:... «O marquez de Loulé, com os vestidos dos grandes de Philippe II, pareceria decerto um Buckingham, ou o bem-quisto de todas as rainhas galanteadoras dos tempos feudaes... Esse portuguez admiravelmente bello e verdadeiramente perigoso... tinha enlouquecido tantas cabeças femininas...»[2]
Como quer que parvoejasse em displantes de tal atrevimento, Victor cerrava a missiva fazendo votos por que o mais ditoso lance de sua vida fosse o instante em que elle Alves, dobrando os joelhos ás plantas do rei legitimo, pudesse exclamar: «Pae, e senhor!»
«Para servir-vos, braço ás armas feito; Para cantar-vos, mente ás musas dada.»
Donde havemos de inferir que para uso de muitos tolos creou Deus as mulheres formosas, e creou Camoens os formosos versos.
III
D. ROZENDA
Dizem que disse assim.
BERNARDIM RIBEIRO, Menina e Moça.
D. Maria José de Portugal, bem que muito grata ao denôdo civico do litterato, não entendeu que as filhas dos reis desenthronisados devessem pagar com a moeda do matrimonio um artigo condemnado, que, por via de regra, os emprezarios das gazetas costumam pagar á razão de 800 reis a publicistas de maior pôlpa.
Extremamente delicada, respondeu a Victor Hugo em termos pautados pela mais atilada prudencia, mantendo-se na alteza da sua dignidade, sem aviltar os brios do pretendente. Escreveu ella muito bem que as mulheres, nascidas nas grimpas culminantes, estavam, por isso, nas borrascas da vida, mais ao alcance dos raios da adversidade;--que não podiam essas invejadas infelizes ser arbitras do seu destino, principalmente, se, como ella, tinham pae a quem a proscripção, usurpadora do throno, não podéra usurpar direitos sobre a alma de uma filha que o respeitava e adorava. _Etc._
Com os acicates do orgulho cravados no epigastrico, onde a sciencia diz que as paixões amorosas espoream mais, replicou o bardo absolutista. Dispensando os naturaes raciocinios que desfazem chiméras de castas, combateu as razoens de D. Maria de Portugal, inculcando-lhe a procedencia visigothica de seu avô D. Guterres Pelayo, e o parentesco ainda não safado pelo atrito de dous seculos entre os duques de Bragança e os condes de Povolide.
Maria não replicou, retransida de espanto. Sua mãe havia-lhe dito que as duas irmãs estalajadeiras eram filhas do estribeiro da casa de Povolide, e que Rozenda era viuva de um negociante de bezerro, que malbaratava os seus haveres no partido dos Cabraes. Era-lhe por tanto espantosa nova o parentesco de Victor Hugo José Alves com a casa real.
Como Rozenda a visse meditativa depois que leu a carta do neto de D. Guterres Pelayo, perguntou-lhe o que tinha, suppondo que o amor motivasse aquella abstracção.
A menina respondeu com innocente reparo que o snr. Victor lhe escrevera coisas de fazerem receiar que elle tivesse a razão alterada.
Pediu explicaçoens a sobresaltada mãe.
Hesitou algum tempo D. Maria José; mas, obrigada pelas instancias, mostrou a carta.
O carão da viuva, já enfiado de susto, ganhou côres quando viu, no contheudo da epistola, o infundado medo da menina.
--Ai! não se assuste, snr.ª D. Maria José...--disse Rozenda velhaqueando certo pudor no tregeito das maxillas--Meu filho está muito em seu juizo... Elle diz a verdade...
--Como?--tornou D. Maria José espantada--Pois a snr.ª D. Rozenda é parenta da casa real?!
--Sou, sim, minha senhora--volveu a filha do ferrador, baixando os olhos com pudicicia que parecia pedir misericordia para as fragilidades da mãe. E proseguiu, tirando dois, suspiros do esôphago, e rolando os olhos na direcção do céo, d'onde provavelmente a estava ouvindo a alma do pae:
--Perdoae-me, minha santa mãe, se offendo a vossa memoria!
E, expectorando outro bafejo a modo de gemido puchado do diaphragma, continuou:
--Minha mãe era galante, e foi educada no mosteiro de Odivellas, onde tinha já estado tambem minha avó, que era sobrinha de uma ama de leite que creou um filho da freira d'el-rei D. João V, a qual freira se chamava por signal a Garça, e o menino chamava-se Antoninho. Não sabia d'estes amores do rei com a Freira, snr.ª D. Maria?
--Ouvi contar...--respondeu a outra, um tanto pezarosa de recordar esta fraqueza do seu quarto avô.
--Talvez não saiba uma coisa que minha bisavó contou a minha mãe... E era que a freira recebia o rei na cella, e que o rei saía de lá até á portaria debaixo do pallio com a abbadeça atraz e mais a communidade.
--Não me conte similhante desatino, que isso é calumnia!--acudiu a neta do fundador da egreja patriarchal de Lisboa.--Affligem-me...--tornou D. Maria molestamente nervosa--Affligem-me essas funestas e deturpadas paginas da historia de minha familia.
--Eram usos d'aquelle tempo, minha senhora--observou ethnographicamente D. Rozenda Picôa.--As freiras tinham enguiços que enfeitiçavam toda a fidalguia e mais os frades, que era mesmo uma pouca vergonha--perdôe-me a expressão, que não é muito civilisada. E então o snr. D. João V? Isso era um ratão! Olhe que ajuntou na Palhavan tres filhos de differentes mulheres! Mas bom pae era elle, honra lhe seja! Dizia minha avó que os poz todos ao serviço da egreja, fazendo-os inquisidores, e arcebispo um d'elles, chamado o _Flor da Murtha_. E os amores que elle teve com aquella cigana, chamada Margarida do Monte...
--Acabe com isso, snr.ª D. Rozenda!--interrompeu D. Maria José offendida pela teimosia de escavar escandalos nas cinzas do creador da capella de S. Roque.
--Pois sim, menina, eu vou acabar o que tinha a dizer. Como eu vinha contando, minha mãe foi educada em Odivellas com uma freira muito pronóstica, que eu ainda conheci na rua da Bombarda a viver com o prégador da casa real, o padre José Agostinho de Macedo, muito amigo do seu paezinho. Ora minha mãe casou com um sujeito que ella imaginava cavalleiro, porque o viu a cavallo na companhia de alguns fidalgos que namoravam as freiras; e, só depois que casou, é que soube que elle era estribeiro dos condes de Povolide. Ora imagine, minha rica senhora, a embaçadella que levou a noiva quando soube com quem estava casada, tendo rejeitado as offertas de muitos titulares que lhe tinham querido pôr casa e sege em Lisboa! Emfim, não havia remedio a dar-lhe. Resignou-se com a sua sorte, e foi viver ás Picôas no palacio onde estava o impostor do homem. Minha mãe era tão querida das fidalgas que até a levavam comsigo a visitas como aia e mestra dos meninos. Os senhores da casa e de fóra perseguiam-na de dôr de ilharga, perdôe-me a expressão, que não é muito civilisada; ao mesmo tempo que o libertino do marido andava á gandaia por touradas e pagodes, sem se importar com ella. As mulheres não são santas, não é verdade, menina? Minha mãe era uma perola! Ai! que anjo do céo aquelle! Já não nas ha d'aquella raça! Resistiu ás tentaçoens, passante de dois annos; mas, por fim, o coração desconsolado da infeliz esposa enfraqueceu, e... rendeu-se!
Deteve-se D. Rozenda algum tempo recolhida na sua dôr, e continuou:
--Depois d'aquella desgraça, nasci eu. Meu pae era um alto dignatario da egreja, que morreu d'apoplexia, na véspera mesmo de um sabbado em que tencionava reconhecer-me e fazer testamento a meu favor e da minha irmã Euphemia, legando-nos os appellidos e uma herança em harmonia com o nosso nascimento.
Aqui, D. Rozenda, a malograda herdeira, limpou os olhos onde apenas espumava a humidade serosa d'uma ophtalmia chronica. Depois, ajuntou com suspirosas intercadencias:
--Minha pobre mãezinha morreu de saudades de meu pae... sim, de meu pae... quero dizer do outro, percebe a menina? O homem d'ella morreu primeiro d'uma borracheira em Queluz, onde foi com os fidalgos de bambochata. Achei-me sósinha com minha irman, tidas e havidas na baixa conta de criadas de nossas primas. Esta posição não se dava com a nobreza do meu sangue. Quiz vêr se me admittiam como criada ordinaria do paço. A mãezinha de v. ex.ª, que tinha então muito valimento, e nós conheciamos desde que a vimos, linda como as estrellas do céo, a passeiar leites na quinta das Galveas, pediu por nós; mas não havia logar. Resolvi casar-me com o primeiro homem endinheirado que me fizesse a côrte, fôsse elle o proprio diabo em pessoa. Appareceu-me neste comenos o meu defunto Alves, que constava ter cincoenta mil cruzados em sola e dinheiro. Casei-me. Ai! foi outra logração como a que levou minha mãe que Deus haja! Ora oiça, menina. O meu esposo, desde que os chamorros o fizeram pedreiro-livre e regedor, e lhe deram o habito de Christo, não quiz saber mais de negocio. Entregou os armazens aos caixeiros, que nos roubaram; e, á volta e meia, foi-se tudo, e aqui fiquei eu viuva, na flôr da edade, com o meu Victor no berço, e... quer saber? Ainda tive de pagar as custas d'uma querella por causa d'umas cacetadas que meu marido dizem que dera nas eleições!
D. Rozenda, neste agoniado lance da sua chronica, escumou os olhos com o lenço, e proseguiu, em quanto D. Maria a contemplava com enternecido semblante:
--Poucas viuvas se portariam como eu me portei... ficando pobre e bonita, sem amparo de alguem, senão da snr.ª D. Marianna de Portugal, sua mãezinha, que nos valeu em grandes apêrtos...
--Não esteja agora a lembrar-se d'isso, minha senhora...--atalhou D. Maria José--Está bom, está bom, conversemos n'outra coisa...
--Tudo isto que eu disse--volveu a viuva do pedreiro-livre--veio a proposito do meu filho escrever n'esta carta que os seus avós são parentes da familia real. Se eu sou filha de quem sou, e elle é meu filho como de facto é, ninguem póde duvidar que nobreza não nos falta... assim nós tivessemos dinheiro, não acha?--E ajuntou sorrindo e festejando as faces de D. Maria com dengosas meiguices:--Socegue, menina, socegue que meu filho não está doudo nem para lá caminha. O que elle aqui diz na carta é verdade pura, e bem certa estou que foi a paixão que o obrigou a declarar isto; porque elle foi sempre republicano e nunca se lhe importou com os avós; pelo contrario, quando eu lhe contava quem era meu pae, o rapaz mettia-me a ridiculo, e até uma vez lhe preguei uma bofetada por elle me dizer que acreditava que eu fôsse fidalga por ser muito burra.
D. Maria deu visiveis signaes de enfastiada da longa pratica, e assim tratou de cortar o discurso por onde Rozenda pendia a lhe propôr francamente o enlace com o filho.
Voltando despeitada a casa, contou a albergueira o succedido, e concluiu por estas acrimoniosas palavras aceradas com um perverso sorriso:
--Ella não quer casar com o nosso Victor... tu verás... Enfeita-se para o primo duque de Cadaval provavelmente... Ora queira Deus que eu não venha a pôr-lhe a calva á mostra... O folheto ainda ali está na gaveta...
--Ó mulher!--accudiu Euphemia--não me falles no folheto, que já foi a causa da morte de D. Marianna! Tu bem sabes que tudo que ali escreveram é falso... Não mettas a tua alma no inferno! Deixa-a lá casar com quem ella quizer.
Ora este folheto...
A seu tempo.
IV
O ESTOMAGO DE VICTOR HUGO
Da vara de Epicuro idoneo porco.
HORACIO, Epist., Liv. 1.
E o litterato, como a filha do infante lhe não contradissesse a linhagem realenga, nem lhe nevasse desdens sobre o coração ardente, pediu explicaçoens á mãe, que lh'as deu, senão lisonjeiras, inoffensivas do seu orgulho.
Era muito para lastimas vêr aquelle rapaz tão soberbo dos desaforados brazoens que lhe procediam da deshonestidade da avó! Tolejando chimeras da sua mascavada jerarchia, cachoava-lhe o sangue como no empenho que, mezes antes, desvelára em nivelar-se com a plebe, no intento de lhe trepar aos hombros sordidos para de lá ser visto. E ahi, no atascadeiro da escumalha social, era elle mais nauseativo, porque toda a gente limpa se arreda do cerdo que sahe d'um esgoto, sacudindo-se.
Operou-se, todavia, notavel mudança no genio e costumes de Victor Hugo, restituido á liberdade. Os mais aristocratas fautores do grupo absolutista acarearam-no ao seu gremio, ás suas assemblêas clandestinas, ás suas novenas secretas, e á sua maçonaria, se tal nome quadra á ordem de S. Miguel da Ala, na qual o adepto foi armado cavalleiro, chamando-se _Fuas Roupinho_--nome de guerra.
Entretanto, a menina revelava-lhe candidamente sentimentos de affectiva gratidão, e folgava que elle se nobilitasse na convivencia de pessoas distinctas e amigas de seu real progenitor, as quaes lhe confiavam cartas do principe para que a filha as visse, e por ellas lhe repontasse aurora de esperança na longa noite da sua saudade filial.
Mas, na correnteza d'estes successos, Victor, por muito que melindrosamente escrutasse o coração de D. Maria José, não se via lá. Sem embargo, o cavalleiro de S. Miguel da Ala, cobrando alentos, prudencia e heroismo do seu patrono Fuas, confiára-se aos lances do acaso, ás transformaçoens do tempo, á versatilidade femeal, e, em fim, a um imprevisto rapto de amor, não raro em peitos sensiveis das senhoras.
Outra coisa agora.
Não é vulgar contarem romancistas de que vivem os poetas das suas novellas. Provavelmente, como os desenham mais em espirito que em substancia adiposa, esgalgados, esbatidos, fumarentos, na vigesima dynamisação de fibrina, mais ethereos que azotados, o publico incauto cuida que elles não comem, e se nutrem das brisas lusitanas, pelo mesmo systema physiologico das eguas portuguezas que concebiam das mesmas brisas, segundo assevera algures frei Bernardo de Brito e eu tambem.
Muitos annos ha que escrevo biographias de poetas e outras pessoas phantasticas, sem descurar o capitalissimo predicado da sua maneira de se alimentarem.
Bem sei que vae n'isto prosaismo plebeu, e por isso me hão de malsinar de immortalisador de bagatellas com egual razão da que apódam Camoens por entremetter na vida epica de Vasco da Gama o tacanho caso de não se ter podido vender de prompto a pimenta que o heroe ia negociando nas feitorias asiaticas. Ora os criticas fingem não saber que a pimenta, o cravo e a canella explicam melhor que todo o restante poema o patriotismo de D. Vasco; e que, na mesma razão explicativa, está para Victor Hugo José Alves o bife do Mata, a dobrada do Penim, o pato da Praça da Alegria, e o linguado da Taverna ingleza.
Não me dispenso, por tanto, de espreitar com um olho o coração, e com o outro a cozinha d'este sujeito, e tambem o guarda-roupa, desde que elle se nos estadêa vestido com apontado primor, e nutrido nos mais selectos restaurantes da capital. Não era elle assim quando esbombardeava contra o altar e o throno. Parecia querer então inculcar que se vestia na «feira da ladra» e que ao abysmo profundo do seu desprezo das frioleiras humanas atirára os figurinos do Keill e do Catarro, juntamente com a carta constitucional, com o codigo do bom-tom, e com os tratadistas hygienicos, quanto a lavagem de cara, orelhas e dentes. Haviam-lhe dito ao sordido que Cabet e Proudhon andavam sujos; e devéras lhe doia desconfiar que o Victor Hugo francez se lavava todos os dias. Este requinte de limpeza tinha para elle o fortum burguez improprio do genio.
A sua alimentação predominante era alface, espinafre, e a fava em grande cópia no tempo. Rejeitava carnes vermelhas e brancas, porque o azote era elemento infesto ao cerebro e por tanto obnoxio ás funcçoens do intellecto. Em compensação, comia á tripa fôrra pescadinhas marmotas em razão de abundar no peixe o phósphoro que é grande parte na estructura do cerebêllo.
Afóra as indicaçoens da sciencia, este regimen era-lhe aconselhado por intuitos de ordem assás psycologica e social. Como o seu proposito fôsse caldear e refundir o genero humano, recuando-o á simplicidade dos costumes patriarchaes, estudava em si mesmo o retrocesso do _fillet-aux-trouffes_ á bolota crua, affrontando com selvatica heroicidade os appetites, as cubiças, as fomes, as tantalisaçoens que separam Apicio de Epicuro.
Esta lucta do eu-abdomen com o eu-psyche trazia-o magro e esgrouvinhado. Da cabeça revolta, onde toda a vitalidade se lhe congestionára, estourava-lhe a idéa com umas fulguraçoens indicativas de excesso de phósphoro, extrahido do goraz e do carapau. O seu rancor ás praxes triviaes da arte commum de fallar da rhetorica mercieira--como elle dizia--manifestava-o em discursos e escriptos com argumentos _ad odium_ contra quem comia bons bocados. Os preceitos da grammatica e os canones da logica--coisas crassas e sandias--asseverava elle que tinham sido ideadas por monges atoicinhados em alma e corpo pelo pingue refeitorio da orelheira afeijoada.
Além da injuria que Victor Hugo José Alves irrogava á grammatica, aos frades e ás vitualhas saborosas, acrescia que esfusiava tempestades de phrases horridas contra as ucharias reaes, inventariando as vitelas e bois que semanalmente eram espostejados nos paços, depois de haverem atravessado as ruas de Lisboa amortalhados em xareis com as armas brigantinas. O disparate da censura faria rir á desgarrada os ouvintes, se a cara do orador não estivesse pregoando ao mesmo tempo quanto é para sagrados horrores a eloquencia dyspeptica da fome, e as refulguraçoens acendidas pela superabundancia do phósphoro. Segundo elle, a sanguinea lubricidade dos sujeitos gordos procede da demasia dos globulos rubros do sangue enriquecido pelas carnes esmoídas nos vinhos seculares.
Depois, na ladeira destas supremas semsaborias, esbarrava na lista civil. Era então o remontar-se a raptos propheticos em toada biblica, e assomos de Ezequiel, e conclusoens tanto a frisar que eu, uma vez, assim admirado quanto aterrado, lhe ouvi dizer que elle, sonhador da felicidade do povo, tinha visto uma visão de sete vaccas magras escornarem sete vaccas gordas, e derrubal-as. O meu terror não seria escorreito, se elle depois não acrescentasse que as vaccas magras eram a republica, e as vaccas gordas a monarchia!
Tal era o discolo nos seus dias de gloria, de fome civica, de quinzena cossada, e do phósphoro dos safios e caçoens.
Como se fez por fóra a transfiguração que mal pode explicar-se pelo reviramento do espirito?
A nediez da epiderme, os caracoes da cabelleira, os camapheus da abotoadura, a phantasia das gravatas que pareciam aves do Amazonas, a luneta de ouro, o bigode encalamistrado, o lemiste do fraque, a bota do Sthelpflugg, a badine de unicornio, o galhardear das attitudes, e, sobre tudo, a nutrição--quem lhe deu tudo aquillo ao filho de Rozenda?
O chamar-se _Fuas Roupinho_ politicamente, o afivelar a espora de cavalleiro da Ala, não nos auctorisa a decidir que elle, em arrancadas contra sarracenos, se apossasse christãmente do thesouro de algum rei mauritano. Conjecturar que os partidarios da realeza se fintassem para arraçoarem no presepio o futuro continuador da _Besta esfolada_, tambem não é racional, attendendo á pleiada de talentos que lá reluzem com habilidade para mais.
Então que era?
V
O CORAÇÃO DE D. ROZENDA
_Agnosco veteris vestigia flammæ._
Ca sinto 'inda o calor da antiga brasa.
VIRGILIO, Eneida, Liv. IV, V. 23.
Estava um dia D. Maria José de Portugal lendo a _Nação_, e de subito as lagrimas lhe turvaram os olhos. Acabava de ler a piedosa senhora uma invocação aos esmoleres amigos do principe desterrado, tanto mais compungente quanto o tragico articulista historiava as penurias do filho de D. João VI, desde o dia em que D. Miguel, conforme o testimunho do visconde de Arlincourt, não tivera em Roma com que comprar o leite para o almoço.
Da concentração lagrimosa passou D. Maria, de repente, a uns transportes de alegria desacostumada, exclamando de golpe:
--Como é bom ser rica!
E, feita breve pausa, acrescentou já menos expansiva:
--Rica!... eu não sou rica!... mas em comparação de meu pae, tão pobre, tão infeliz, tenho muito!
Em seguida, escreveu a D. Rozenda Picôa, annunciando-lhe _a primeira radiação de jubilo em sua vida, e a ancia em que ficava de lhe revelar os seus anhelos_.
A mãe de Victor, lendo a carta, disse alvoroçada á irman:
--Tenho nora!
--Tens nora? exclamou Euphemia--Então diz-t'o? ella quer?
--Não se explica bem; mas eu já lhe entendo o palavriado. Ouve lá, mana.
E releu a carta, accentuando cada palavra com intimativa perspicaz para emfim interpretar complexamente que D. Maria José de Portugal se achára de salto possuida do amor que ella, em sua linguagem perlicteta, chamava _anhelos_.
--Essa palavra _anhelos_--observou D. Euphemia, arregaçando o beiço de baixo, com o dedo indicador--parece-me que é isso mesmo que tu dizes, mana Rozenda... Não te lembras... ora pucha pela memoria... não te lembras das cartas que te escrevia aquelle furriel de lanceiros quando ficaste viuva? Chamava-te _meu anhelo_.
--Não era o furriel--corrigiu Rozenda.--Quem me chamava seu _anhelo_ era o Peixoto.