O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Chapter 11

Chapter 111,235 wordsPublic domain

Sarado da ferida, mas cego do olho, e esburacado no bordo inferior da orbita, Damião Ravasco, liquidado o trem da homicida façanha, fez-se ao mar e mais o official realista e as filhas e os netos. Marselha era o itinerario prescripto pelo conde. Dirigiram-se á rua Camebiere, _hotel des Empereurs_.

Entraram juntos á sala privativa do conde. Damião ia na frente, sobraçando uma caixa de estanho, com argolas lateraes. Quando se defrontou com o conde e a condessa, ambos exclamaram espantados da tão differente cara de Ravasco:

--Que é isso!?--bradou o conde--Vens cego de um olho, Damião?

--E que profunda cicatriz elle tem na face!--disse a condessa.

--Que foi isso?--tornou o irmão.

--Este olho que me falta--respondeu Ravasco pousando o caixote sobre uma banca; e repetiu:--Este olho, que me falta, tirou-m'o um sujeito chamado Victor Hugo José Alves.

--Porque, meu Deus?--disse a condessa.

--É possivel!?--exclamou o conde--E tu...

--Eu sempre ouvi dizer ao meu mestre de latim: «olho por olho, dente por dente»--respondeu Ravasco;--mas, a fallar a verdade, não me accommodo com esta lei. Quem me tira um olho a mim ha de ficar sem dois, pelo menos.

E, dizendo, destapava a caixa de estanho. A condessa tremia convulsamente. O conde encarava-o estupefacto. O ex-brigadeiro e as filhas e netos agrupavam-se á volta da condessa. E Damião continuou:

--Ora eu que não tinha vagar, nem a occasião era a melhor, para tirar os dois olhos ao sujeito que me tirou um, achei que o mais summario e seguro era cortar-lhe a cabeça. Eil-a aqui! Vejam se a conhecem!--disse o mulato, mostrando a cabeça tragica, mergulhada em espirito de vinho, no amplo frasco extraído da caixa.

A condessa parecia desmaiar nos braços do marido, exclamando em extrema afflicção:

--Jesus! que horror! que barbaridade!...

--Horror, sim, minha filha!--disse o conde--mas barbaridade... Não culpes Damião sem o escutar.

E Ravasco, aproximando-se da condessa, fallou serenamente:

--Eu tenho pouco que dizer em minha defesa, snr.ª condessa. Em Lisboa sahiu um folheto no qual se dizia que sua mãe roubava padeiros de quem era amazia...

--Silencio!--bradou o conde.

--Deixe defender-se o barbaro, snr. conde!--volveu Damião--N'esse folheto havia uma nota em que se dizia que o conde de Baldaque casára com uma aventureira. Se o snr. conde casasse com uma mulher perdida, eu não o vingaria, por entender que era justo o castigo; mas como eu sei que V. Ex.ª era uma senhora honesta, entendi que devia cortar a cabeça d'onde sahiram os insultos a V. Ex.ª e a um homem que me chamou irmão. Não tenho mais que dizer. Cá levo a cabeça para lhe dar honrosa sepultura nos esgotos de Marselha.

E sahiu com o caixote debaixo do braço. Na sala era tetrico e profundo o silencio. Nem que aquillo fosse a cabeça de Holofernes, ou de Pompeu! E as lagrimas derivavam copiosas no rosto de Maria José.

Ó egregia alma, como essas lagrimas deviam ser abençoadas do soberano e inexprimivel Espirito que tão perfeita scintilla de sua divindade te bafejou no berço!

EPILOGO

Os condes de Baldaque, n'este anno de 1872, viajam no Oriente, com o filho mais velho.

Damião Ravasco, reconhecido irmão do conde, e quasi millionario, vive no Ceará com sua mulher D. Luiza Tavares, a mais nova das filhas do ex-brigadeiro já fallecido.

As outras filhas, exceptuada Ernestina que acompanha a condessa, casaram e são ricas.

Os netos do brigadeiro, doutorados na universidade de S. Paulo, estão estabelecidos no imperio brazileiro.

D. Rozenda Picôa é mestra regia na Porcalhota.

D. Eufemia, dada ao mysticismo, e repêza de escrupulos purificantes, está no seminario de Brancanes, encarregada da limpeza dos jesuitas.

Obrigado pelas leis da transmigração, Victor Hugo José Alves resuscitou nos corpos e almas de tres sujeitos que hão-de prosperar n'este paiz, se não encontrarem mulatos...

FIM

[1] Veja os amores deste fidalgo com a filha d'el-rei D. Duarte.

[2] PORTUGAL, Recordações do anno de 1842, pelo principe Lichnowsky. Lisboa, 1844.

[3] Pag. 5.

[4] Elidem-se phrases que ressumbram de mais á cazerna onde o commendador d'Aviz escrevia o seu despejado depoimento.

[5] A pagina 111, penultima do _ms._, lê-se o seguinte: «Este Epytome da vida d'Affonso VI, foi copiado exactamente do original, que se achava na livraria do duque de Cadaval, composto sobre as «Memorias» de Luiz Teixeira de Carvalho, que foi official maior da secretaria de estado, por cuja mão correram as ditas «Memorias»; porém, ha n'ellas circumstancias tão particulares que persuadem serem ditadas pelo duque D. Nuno Alvares Pereira, que teve tanta parte na deposição deste monarcha. Suas queixas o fizeram esquecer das grandes acções do governo d'este infeliz rei e das gloriosas victorias do seu reinado. Veja-se sua vida por o auctor mais critico.»

Segue outra declaração:

«A copia a que se allude, e da qual esta foi tirada, pertence a D. Miguel Antonio de Mello; e hoje possue-a o conselheiro Antonio Joaquim Gomes de Oliveira, official maior da secretaria de estado dos negocios estrangeiros. Lisboa, 29 de Maio de 1845. _Jacintho da Silva Mengo._»

[6] Mosteiro onde se recolhera D. Maria de Saboya.

[7] Á margem do livro-genealogico donde vou trasladando esta linhagem, está escripta uma nota curiosa: «Salvador Fagundes era um homem ordinario de Pinhel, que andava a vender meias, e neste tracto o viu o padre Francisco Xavier da Mesquita Pimentel, frade loio, que m'o disse, em Fevereiro de 1775. E diz que haverá setenta annos que lhe vira vender as ditas meias. Outros me dizem que fôra pintor; emfim, sempre foi pessoa humilde. Porém, enriquecendo, foi pagador d'um regimento, e ajuntou tanto cabedal, que era já muito estimado. A um general que de Castella veio andar nas guerras de Portugal fez grandes offertas; e, quando se recolheu a Hespanha, lhe mandou por todas as partes offerecer todo o dinheiro que quizesse e na forma que lhe parecesse; e por ultimo, julgando o general que aquillo seria bazofia, disse em uma parte que queria 50$000 cruzados; e, como logo lh'os dessem, os não acceitou, e ficou muito agradecido por ver que era verdade, e escreveu a el-rei de Portugal, dando-lhe parte de tudo, e pedindo-lhe que premiasse aquelle homem que tantos obsequios lhe fizera, João Pinto Ribeiro de Castro Vella me disse que o dito Fagundes ajuntára muito cabedal, quando fôra assentista e pagador nos tempos da guerra; e que, suspeitando que o governador o queria culpar pelo muito que furtára, lhe foi fallar; e como o governador o não quizesse receber, o Fagundes fingira um flato ou accidente, deixando uma bengala que trazia, na qual, pegando um criado do governador, e achando-a muito pezada, a levara ao amo que, admirado do pezo, a entrou a examinar e a achou cheia de moedas de 6$400 reis, com as quaes se accommodou, etc.»

Viessem cá hoje Fagundes com taes bengalas, que levavam com ellas... depois de vasias.

[8] Não percebo o pudor de quem traduziu, omittindo o nome da proprietaria do hotel.

[9] _Portugal. Recordaçoens do anno de 1842_--pag. 18.

INDICE

I A LUVEIRA DA RUA NOVA DA PALMA II PERFIL DE VICTOR HUGO JOSÉ ALVES III D. ROZENDA IV O ESTOMAGO DE VICTOR HUGO V O CORAÇÃO DE D. ROZENDA VI O SANTO CORAÇÃO DE FILHA VII OS TRES CONTOS DE REIS VIII RAUL IX DAMIÃO RAVASCO X FRUCTA DO BRAZIL XI SOLEMNIA VERBA XII EXPLOSÃO DE AMOR XIII DESASTRE DO GATUNO XIV A VINGANÇA XV A PROLE DE D. AFFONSO VI XVI RESSURREIÇÃO DE UMA ALMA CONCLUSÃO EPILOGO