O Carrasco de Victor Hugo José Alves
Chapter 10
Vivia D. Marianna de Portugal fóra de portas, quando D. Miguel a viu. Sua sexta avó D. Catharina Arrais soprara a mesma lavareda no peito de Affonso VI. Mas o real amante, graças á brandura de costumes d'este seculo, não a tosquiou, antes lhe beijou as tranças, e se deixou encadear por ellas. Tambem não consta que Marianna se doêsse do pejo da maternidade, á imitação da freira de Santa Anna, consoante o duque de Cadaval a calumniou. Muito pelo invéz: ella adorava o principe, e sentia-o na alma e no sangue quando a creança lhe palpitava no seio.
Attesta o coronel José Joaquim do Cabo Pinto, no opusculo reeditado por Victor Hugo José Alves, que D. Marianna visitava D. Miguel de dois em dois dias. Isto não me parece exacto. Pendo a crêr que ella o visitasse todos os dias. Quanto á espionagem, que lhe assaca o desbragado commendador d'Aviz em estylo de tarimba, isso é calumnia a descambar em parvoice. As espias absolutistas não tratavam com o rei directamente: começavam no Miguel alcaide, e tocavam o ápice do valimento se levavam a denuncia até ao intendente geral da policia.
D. Marianna de Portugal empobreceu durante a sua intimidade com o rei. Para sustentar carruagem, libré e uma apparente abastança, vendeu as joias da mãe, depois que exhauriu o peculio que amealhara nos cofres do desembargador. Animo isempto e estreme de vil ganancia ostentou-o nobremente quando o coração predominou e abafou os baixos sentimentos que a pertinacia do desembargador lhe implantara na alma plebeamente educada. Um amor grande com os luzimentos verberados da corôa real, devia ser segundo baptismo para o coração da neta de reis.
Acabada a guerra e desterrado o infante, D. Marianna estava pobre e tinha uma filha.
O desembargador Ferraz volveu a procural-a como amigo, como protector, e como velho inveterado de paixão, agora exacerbada pelos realces que o amor de D. Miguel haviam resurtido da belleza de D. Marianna.
Se é preciso confessar que a desvalida senhora acceitou a protecção do magistrado por amor á filha e desamor á penuria, diga-se o delicto bem alto, e haja de lhe perdoar em silencio a notoria sensibilidade do leitor.
Voltou a neta de D. Catharina Arrais a equipar sege e lacaios; mas, em 1838, o desembargador, aquelle Merlin cupidineo, levou comsigo para o inferno dos desembargadores a lanterna milagrosa que fazia prodigios de ouro á volta de Marianna.
Recorreu a mãe de Maria José ao expediente da hospedaria. N'esse trato, ia provendo á educação da filha, e costeando certas pompas um tanto desbotadas, mas incongruentes ainda assim com o seu estado. Contrahiu dividas, precipitou a queda na rampa da uzura; e é bem de presumir que o agiota, de quem a filha herdou, a desbalisasse a termos de lhe não poder a consciencia com o roubo. Exemplo unico.
O insulto publicado em 1840 impeçonhou a vida da infausta vergontea de Bragança. Os tres annos que ainda arrastou á volta da filha, como quem se estorce e despedaça entre o amor de mãe e a necessidade de morrer, foram expiação acerba, purificação que nos torna respeitavel a memoria d'esta senhora de tão illustre sangue.
Em 1842 devia ter D. Marianna de Portugal quarenta annos proximamente, e vivia ahi por perto da Praça dos Romulares, com o seu hotel bastante luxuoso ainda, para dignamente hospedar o principe Lichnowsky.
Este principe viu-a, admirou-lhe as graças, comquanto já desluzidas, e então soube que uma linda menina, que ali se via, era filha do principe proscripto. Nas suas _Recordaçoens, do anno de 1842_, escreveu elle: _Fui recebido na rua de... em uma hospedaria...[8] A dona da casa, uma_ ci-devant _bella mulher com ainda classicos vestigios de depostos encantos, esteve antigamente na posse de ternas relaçoens com D. Miguel. Ha mesmo alguem assás atrevido para chegar a assegurar que existem provas vivas d'aquella perdilecção real._[9]
Poucos mezes mais disputou a vida atormentada, a desgraça, que, de dia para dia, lhe esvasiava os guarda-fato e os bahús. Não é mister rendilhar phrases lugubres, que deixem transparecer as dilaceraçoens que a levaram ao suicidio.
Duas palavras bastam: vergonha e pobreza. Vergonha dos opprobrios d'aquelle folheto, e ninguem que a defendesse. Pobreza, que explicava o desamparo dos protectores, e a impunidade da injuria.
Morreu, descansou.
XVI
RESSURREIÇÃO DE UMA ALMA
_Nec sine premio virtutes._
Não ha virtude despremiada.
BOETIUS, da Consolação da Philosophia, Liv. IV.
A medicina, informada da origem da enfermidade moral da condessa, aconselhou viagens como distracção. O caracter intermittente dos accessos de lagrimas, e a incongruencia das palavras, delirantes sem febre, eram symptomaticas de perturbação de juiso. Todo seu empenho apontava em provar ao marido que as affrontas atiradas á sepultura de sua mãe eram calumniosas. O conde esforçava-se por convencêl-a de estar d'isso bem persuadido; ella, porém, sobrevinha na mesma prova, se despertava apoz um breve espaço de repouso.
Assim que a desfigurada condessa ganhou forças e se docilisou ás carinhosas supplicas do marido, aprestou-se tudo rapidamente para a viagem.
Da casa e direcção dos negocios do conde ficou encarregado Damião Ravasco. O mulato exultou quando o dispensaram de os acompanhar, sem todavia manifestar o intento que o prendia a Lisboa. Toda a sua esperança era descobrir o publicador do folheto, bem que de si para comsigo devia ser um dos dois que elle esmurraçára, sem embargo de lhe dizer Christovão Tavares que suspeitava muito d'um tal Victor Hugo. Queria muito o mulato que lh'o mostrassem a fim de o não procurar longo tempo, se um dia o diabo o atraiçoasse. E, com effeito, chegou a vêl-o á porta do Marrare do Chiado. Contemplou-o com disfarce, e disse entre si: «deve ser este!» Entretanto, as cartas vindas de differentes paragens da Europa, não davam esperanças do restabelecimento da condessa. A monomania da justificação da mãe resistia ás diversoens, aos rogos, ás caricias, e á therapeutica dos banhos, frios da Allemanha.
No outono de 1860, chegaram a Baden, esperançados nas aguas mineraes. Ao mesmo tempo, chegava D. Miguel de Bragança com sua esposa e alguns filhos.
O conde levou alvoroçado a noticia á enferma, que teimava em não sahir do seu quarto. A condessa agitou-se, riu-se, chorou, bateu as palmas, abraçou o marido, beijou a sua amiga Ernestina, e exclamou com febril vertigem:
--Vou vêr meu pae!... vaes vêl-o, Raul!... verás o que elle te diz de minha mãe... verás que é tudo calumnia!...
Mas o conde receiava que o infante desconfiasse da sanidade intellectual de uma senhora que lhe saisse ao encontro a chamar-lhe pae, sem de antemão se haver prevenido para tal apresentação.
Contida no seu enthusiasmo a condessa por considerações de etiqueta indispensaveis com os principes, o conde fallou a um sacerdote da pequena comitiva do infante, e industriou-o sobre a maneira de precaver D. Miguel para ser cumprimentado por uma dama portugueza, a condessa de Baldaque.
O principe alegremente mostrou vivo desejo de conhecer a esposa de um cavalheiro a quem elle e os legitimistas portuguezes deviam relevantes finezas.
Incutia receios o arquejar do peito da condessa, quando apeou da carruagem á porta do infante.
Sahiu D. Miguel de Bragança ao patamar da escada a recebel-os. Quando, com a mais lhana cortezia, o principe offerecia a mão á dama, ella ajoelhou; e, suffocada por soluços, cobriu de lagrimas e beijos a mão que não pôde esquivar-se áquelle estranho transporte.
--Ó minha senhora!--exclamava o infante--por quem é! peço-lhe que se levante...
E olhava para o conde, como a pedir-lhe a explicação da anciedade da dama.
E o conde, com os olhos turvos de lagrimas, disse:
--Vossa magestade comprehenderá a perturbação de minha mulher, sabendo que ella é Maria José de Portugal, filha da snr.ª D. Marianna...
--Ah!--exclamou o infante--já sei... já comprehendo...
E, com maior esforço, inclinando-se até poder levantal-a dos seus pés, abraçou-a, beijou-a na testa, correu-lhe as mãos pelas fontes, e murmurou:
--Vi-a creancinha... de seis mezes...
E, tomando-lhe o braço, conduziu-a á sala, sentou-a na othomana, ao seu lado, lançou-lhe o braço pela cintura, e disse-lhe quasi em segredo:
--Sua mãe... é morta?
--Ha muitos annos...--balbuciou a condessa.
--Porque me não escrevia, quando me enviava...--tornou elle, feita uma longa pausa.
--Oh!--atalhou D. Maria--peço-lhe que não se lembre... vossa magestade...
--Que me não lembre?... Eu não me esqueço senão dos ingratos... minha filha!...--E voltando-se para o conde:--sênte-se, senhor... Como se chama seu marido?--perguntou á condessa.
--Raul--respondeu ella.
--Sênte-se, snr. Raul... Sei que é brazileiro... Agradeço-lhe esta boa hora da minha vida--proseguiu tomando entre as suas a mão de Maria.--Mal diria eu!... Ella aqui está... aquella creança que eu via como um anjo lá ao longe da vida... um ponto branco e luminoso do passado... um sonho!...
D. Miguel alongou os olhos tristes para o horisonte azul que as montanhas recortavam. Que visão! que saudade! que escuridade ia dentro d'aquella alma, purificada na onda das lagrimas, na fragua da indigencia, no cadinho ardente do desesperar!
O conde, embevecido no aspecto respeitavel e triste d'aquellas cans geadas dos invernos de vinte e oito annos, escutava-o tão admirado, quanto em Portugal a opinião da plebe das letras malsinava de ignorancia o principe. D. Miguel interrogava, ora o conde, ora a filha sobre coisas e pessoas da patria, alheando-se da politica, e instando a sua dolorosa curiosidade em miudezas de certos sitios, dourados pelo sol da infancia, e esmaltados de indeleveis côres pelo archanjo da saudade, que lá de longe nos segue até nos entregar ao archanjo da morte.
Quando um criado entrou á sala annunciando que a rainha se recolhera do banho, o infante disse ao conde:
--Minha mulher ha de querer cumprimental-os em occasião mais opportuna.
A condessa levantou-se, dobrou o joelho ao lado do esposo, beijaram as mãos do principe, que deu o braço á dama, até ajudal-a a subir ao estribo da carruagem.
Desde esta hora, raiou luz nova no espirito da condessa. As lagrimas do enthusiasmo filial diluiram a mancha negra que lhe ennoitecia, a intervallos, a razão. Se a causa d'aquelles crepusculos da escuridade da alma tinha sido julgar-se abatida pela calumnia aos olhos do marido, a cura operou-se pelo exalçamento que lhe dera a consideração do pae em presença do conde. Só assim: nenhuma outra ancora salvaria do golpho das trevas aquelle espirito. A ferida escalavrara o orgulho da neta de Affonso VI, por sua mãe e por seu pae.
Demorou n'aquella paragem o conde até que D. Miguel recolheu a Heubach. Depois, deteve-se em Allemanha. Por espaço de anno, raros dias se não viram as duas familias. A felicidade de Maria José era o céo, como raras vezes a virtude n'este mundo o encontra, na consciencia, e nas alegrias inalteraveis da vida exterior.
O conde, adivinhando os discretos silencios da esposa, disse que nunca mais voltaria a Portugal. Projectou, pois, deter-se na Europa mais dois annos, e voltar para o Brazil, onde o chamavam as memorias da infancia, como quem queria continuar as doçuras da vida adulta e lá esperar a quietação da velhice.
N'este proposito ordenou ao seu procurador e mormente a Damião Ravasco a venda de todos os seus haveres em Lisboa, com ordem ao leal amigo de o ir encontrar a Marselha, levando comsigo Christovão Tavares e toda a familia do afortunado velho.
Quando Damião, grandemente desconsolado por ter de sahir de Portugal sem vingar o conde, obedecia ás ordens recebidas, foi colhido de sobresalto por uma noticia que, segundo elle affirmou, por pouco o não matava de prazer.
Christovão Tavares mostrou-lhe uma gazeta liberal em que o articulista, em polemica virolenta com o redactor d'outra gazeta, escrevia estas lisonjas: «... Quem é este sevandija que nos falla em moralidade, em caracter, em firmeza de principios, em dignidade jornalistica? Quem é o gaiato, o fundibulario das esnogas d'Alfama, que nos despede a pedra, sem receio que o recochête lhe vá bater no stigma infamante da testa, onde a lei já não deixa escrever LADRÃO com ferro em braza? Quem é, e donde veio este Victor José Alves, que incravou no nome plebeu o «Hugo» tão honrado no mundo? Quem lhe disse a elle que onde estava o _Alves_, para memoria de um certo _Diogo_, devia intervir o sobrenome do primeiro poeta do universo?
«Victor Hugo! elle, o filho da estalajadeira, que ainda tem, como brazão de familia, atraz da porta o cacete do marido, que quiz mercadejar com as costas dos septembristas, como com os coiros de vacca onde se levantou subindo pela tripeça do pae!
«Victor Hugo! elle que imbaiu uma certa luveira a dar a D. Miguel uns tres contos de reis, que o _escroc_ desbaratou em pasteis de camarão e orgias nos bordeis!
«Victor Hugo! elle que depois prefaciava um apontoado de injurias aleivosas que haviam matado a infeliz mãe da luveira roubada, e levaram depois ao cairel do sepulcro moral a razão de certa condessa, que hoje erra foragida da patria em companhia de seu honrado marido!
«Elle, Victor Hugo, que apoz tantas protervias, umas culminantes de infamia, outras de irrisão, exerce hoje um logar de confiança politica, o secretariato d'um governo, e pendura na lapella da casaca, que devia ser blusa de forçado, duas commendas, uma que lhe dá o foro de fidalgo, e outra que o representa benemerito das consideraçoens litterarias!... Elle que...»
Damião Ravasco arrojou o jornal, e atirou-se aos braços de Tavares exclamando:
--É meu o homem! Se alguem lhe põe a mão, arranco-lhe os figados pela bocca!
E parecia jorrar ascuas de forja afogueada por ambos os olhos.
CONCLUSÃO
É immolado um porco á terra.
HORACIO, Epist. I, Livro II.
Corria o mez de agosto de 1862.
Na estação de seges de praça, que descorrem pela cidade baixa, notaram os boleeiros a concorrencia de um mulato, que elles tinham visto, adestrando as soberbas parelhas do conde de Baldaque, ou aderençando pôtros rebelloens e alfarios com a galhardia de consummado picador. Reputavam-no mordomo do millionario; porém, quando o viram na praça, boleando uma sege numerada, inquiriram d'elle mesmo se deixára o serviço do conde. E elle respondeu:
--O conde foi-se embora para França, e eu, que me dou bem por cá, empreguei as minhas soldadas n'este trem, e vou vivendo.
O serviço de Damião agradava sobre modo aos rapazes do Chiado. O mulato era já conhecido da mocidade de pechisbeque, versão genialmente portugueza da _jeunesse dorée_ lá d'álem. Em dia de toirada era ditoso quem o emprazava de vespera.
Victor Hugo rara vez sahia de sua caza na Travessa do Estevão Galhardo--aonde voltára reconciliado com a mãe e um tanto fallido ao dinheiro--que não visse o mulato convidando-o a acceitar-lhe o seu serviço.
Uma vez, entrou na sege, e disse:
--Ás camaras!
A sege voou. Victor, apeando, disse:
--Isso é que é andar, rapaz! Como te chamas?
--O mulato.
--Mas como é o teu nome?
--Mulato.
--Mulato não é nome, é côr. Tu deves ser Simão ou André ou Belchior...
--Sou mulato.
--Pois então, mulato--voltou sorrindo o commendador da Conceição--queres ir amanhã levar-me a Cascaes?
--É longe, meu amo. Faz muito calor. Estafo os cavallos á torreira do sol; e eu não sei andar a passo. É para lá! bem vê V. Ex.ª... Eu não poupo o gado...
--Pois vamos de noite, queres?
--De noite? A que horas?
--Ás tres.
--Isso é de dia.
--Ás duas, serve-te?
--Convem. Chegamos lá ás sete.
--Sabes onde moro?
--Parece-me que sei... é...
--No Hotel da Travessa...
--Do Estevam? já sei... Lá estou ás duas em ponto.
--Sem falta? palavra?
--De mulato. Quer que espere?
--Não. Pega lá...
E deu-lhe, com fidalga bizarria, dez tostoens. Damião recebeu-os na luva de algodão. Subiu á almofada, largou para a rua de S. Bento, e deixou caír as duas corôas no regaço de uma mendiga cega.
Á uma hora da manhã Victor Hugo recolheu do Gremio, e sevou o seu rewolver de seis tiros. Depois trajou-se á campezina, fato inteiro azul anil, luva amarella, chapéo de palha, uma gravata de muitas pontas com muitas flores e muitas borboletas. O espelho lisongeava-o, occultos os dentes, o vestibulo infecto d'aquella caverna do peito, as navalhas podres do javali que esfoçava lá dentro.
Victor Hugo ia a Cascaes á cata d'uma grega que, por aquelles dias, alvorotára os galans enfrascados em damarias d'aquella casta. Farto de amores peninsulares, o poeta Alves almejava um amor grego, perfumado das auras do Bosphoro, coisa que lhe désse uma vez ao menos as morbidezas do oriente na Travessa do Estevam Galhardo.
A grega perseguida dos caens vadios de Lisboa, que se lhe penduravam de cauda de murzêlo, fugira para Cascaes, no intuito outro sim de traduzir o Alkorão para uso dos seus cathecumenos.
Victor Hugo ia procurar a grega, fugida do serralho de Bysancium, e disposto a enrodilhar o turbante na cabeça, mahometanizar-se, restaurar a Grecia por amor d'ella, dar a casca em Missolonghi, e almoçar com ella, se pudesse.
Ás duas horas rodou a sege na calçada e parou. D. Rozenda, quando o filho passava no corredor, disse lá de dentro da alcôva:
--Onde vaes tão cedo, Victor?
--Vou a Cascaes.
--Que vaes fazer a Cascaes, homem?!
--Respirar as brizas do mar.
--Forte asno!--murmurou a mãe, e adormeceu. A sege abalou velocissima.
Ahi por Paço d'Arcos, Victor perguntou ao boleeiro, quando a sege ia muito a passo:
--A quem compraste esta boa parelha?
--No leilão do conde de Baldaque. V. Ex.ª conhece-os?
--Conheço o conde, os cavallos não.
--Não me saberá dizer porque é que o conde se foi embora?
--Sei: casou com uma aventureira...
--Que vendia luvas...
--Isso...
--E depois?--tornou o mulato.
--A opinião publica fez-lhe troça e elles safaram-se.
--Ah!... então a troça como foi?... Acho que havia de ser um folheto que ouvi ler, a dizer o diabo da mãe da tal condessa...
--É isso...
--E aqui, ha de haver um mez, leram-me um jornal onde se dizia que o folheto fôra publicado por um snr. Victor Hugo, que tinha roubado grande chelpa á tal luveira. Sempre ha cada malandro! O senhor conhece-o?
--Quanto déste pela parelha?--perguntou Victor, como se a pergunta fosse feita a um pavão, que berrava no arvorêdo dos Palhas.
--Cincoenta libras--respondeu o mulato, muito mais delicado que o seu interlocutor.
--Não foi cara.
--Todo o trem do conde se vendeu ao desbarato. Contou-me um criado d'elle, meu patricio, quero dizer, tambem mulato, que a condessa fôra de Lisboa doida, por causa do tal folheto, publicado pelo larapio que a roubou. Veja V. Ex.ª que patife aquelle! O mulato é levadinho de dez milhoens de diabos, e disse-me que não se vae embora de Portugal sem cortar a cabeça ao tal Victor Hugo!
--Quem, o preto?--perguntou sorrindo o commendador.
--Sim, o preto...
--Ha de ser um que dava sôcos nos namoros da luveira...
--Hade ser esse, provavelmente...
--Pois, se o vires, dize-lhe que o tal Victor Hugo só deixa cortar o pescoço depois que mette seis balas na cabeça de quem lh'o quer cortar.
--Então o homem pelos modos é têzo?
--É: fia-te em mim.
--Não duvido, patrão; mas a valentia não tira que elle seja um ladrão; e um malvado que roubou a alegria e o juizo a uma senhora que lhe não fez mal nenhum, que eu saiba.
--Elle lá teve as suas rasoens... Olha lá, não deixes adormecer os cavallos... Ainda agora vamos em Oeiras...
--Temos muito tempo, patrão... V. Ex.ª não conhece um caminho por onde se atalha uma legua boa?
--Não.
--Quando chegarmos ao fim do muro da quinta do marquez, eu lh'o mostrarei.
Damião chicotou os cavallos com frenezi. Era a onda de sangue que já lhe girava como meandro de vitriolo por entre os seios do cerebro. As chicotadas eram uma maneira de se desafogar d'aquella congestão.
Chegados á extrema do muro, o mulato metteu por uma vereda estreita, desterroada e pedregosa.
--Não é por ahi!--disse Victor--por onde diabo vaes?
--Por aqui é o atalho--respondeu Ravasco.
--Deixemo-nos de atalhos agora de noite!
--Não tenha medo, patrão. O snr. não traz rewolver?--dizia e affoitava a parelha.
--Trago rewolver; mas...
--Então que medo tem?
--Não é medo de ladroens; é medo que esbarrondes a sege! Olha que o caminho vae já bater ahi n'uma charneca fechada, não vês? Volta para traz, bruto!
Damião Ravasco não respondeu. Levou impetuosamente os cavallos aos sacoens até entestal-os com um comoro eriçado de piteiras e socavado nas margens resvaladias, e saltou de golpe da almofada, quando as bestas se escabravam trepando á valla.
Este abrupto salto, depois da pertinacia do cocheiro em fustigar os cavallos contra o vallado, incutiu em Victor Hugo a suspeita de estar em perigo de ser roubado pelo mulato. Instinctivamente arrancara do rewolver, quando o boleeiro saltou. E, no conflicto em que Damião arremettendo á sege, puchava de repellão pelas cortinas embreadas, Victor desfechou-lhe um tiro na face, e o segundo no respaldo da sege, porque o pulso lhe estalou e revirou-se na mão do mulato como se os ossos se deslocassem dos ligamentos estorcidos por uma tenaz.
E do mesmo impeto fincou-lhe na garganta a garra esquerda, e empuchou-o para fóra da sege.
Victor, escabujando de encontro aos raios da roda, rugia gritos de soccorro, luctando em balde para arrancar a mão ainda armada á torquez que lhe desarticulava o pulso.
O mulato remessou-lhe um joelho ao ventre, e disse-lhe n'um rouquejar de voz, mudada em bramido pela ferocidade da ira:
--Hasde saber quem sou, perverso ladrão! Sou o preto do conde de Baldaque. Dá-me seis tiros na cabeça antes que eu te corte a tua. Um já cá o tenho no rosto; se morrer delle, perdoo-te.
Á ultima palavra vociferou elle um rispido regougo, coisa parecida ao soturno urrar da féra; e, no mesmo acto, arrancou da navalha espanhola já aberta entre a manga da jaleca e o braço, e cravou-lh'a através da garganta.
Era cadaver o insultador da condessa de Baldaque; mas o leão não desenterrára os gryphos aduncos das carnes do tigre morto.
A cólera recrudescia ao compasso da dôr atroz que lhe sangrava na cara. Levou a mão ao olho direito, e retirou-a empapada em sangue e humores. Receiou morrer, e este mêdo dava-lhe vertigens, e um raivar de demonio, cada vez que o sangue barbotando lhe tolhia a vista.
Talvez que a vingança ficasse áquem das raias da barbaridade, se Victor o não houvesse ferido mortalmente, como elle suppunha. Travou dos cabellos ao cadaver, e correu-lhe á volta do pescoço repetidos golpes até o degolar. Atirou para dentro da sege a cabeça, e deixou o restante no chão ensopado da sangueira.
Antes de repontar o sol, sege e cavallos estavam na cocheira do conde.
A cabeça de Victor Hugo foi submersa em álcool n'uma vasilha negra. E Damião Ravasco, entregue aos cuidados de Chistovão Tavares e d'um cirurgião, soffria a dolorosa anatomia da extracção do olho direito e esquirolas da orbita correspondente.
Ai! elle não poderia mais vêr a cabeça de Victor Hugo José Alves senão com um olho!
Do apparecimento do cadaver descabeçado na Azinhaga das Cobras deve lembrar-se perfeitamente o leitor de Lisboa. Primeiro, disse-se que era uma victima das vinganças clandestinas dos carbonarios. Alguem pensou que fosse o administrador do concelho de Oeiras, que n'esse dia estava sadio e incolume em Cascaes namorando a grega. Outros, os mais sensatos, pediam a cabeça do sujeito para fazerem o seu juiso ácêrca da identidade da pessoa. A final soube-se quem era, por causa d'umas cartas de namoro que lhe encontraram na algibeira, dirigidas a _Victor Hugo_; mas tambem isto foi motivo a conjecturar-se que o auctor do _Napoleon--Le petit_, viera incognito a Lisboa, e o imperador dos francezes o mandára assassinar, decapitar, _etc._, _etc._ O que é certo é que muita gente, quando se disse que o descabeçado era o Victor, filho do Alves dos coiros, respondeu brutalmente: _Foi bem feito_.