O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Chapter 1

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O CARRASCO

DE

Victor Hugo José Alves

O CARRASCO

DE

Victor Hugo José Alves

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO

Os cantaré un estraño cuento que no le avreis oydo tal en toda vuestra vida.

M. CERVANTES--_Novellas_.

PORTO LIVRARIA CHARDRON DE Lello & Irmão, editores 1902.

_Porto--Imprensa Moderna._

I

A LUVEIRA DA RUA NOVA DA PALMA

Il y a ici quelque chose... une fleur... cherchez!

SAINT-BEUVE, Portraits des Femmes.

Á volta de uma mesa do _café Martinho_, em Lisboa, estavam, por 1857, cinco ou seis sujeitos saturados de politica. Estava tambem eu em principio de _saturação_--palavra pedida de emprestimo á chimica para bem materialisar a idéa do corpo abeberado d'aquelle civico enthusiasmo que salva as nações... nos botequins.

N'aquella noite, os meus interlocutores eram todos mais ou menos republicanos. Havia tal que dizia acreditar na metempsycose, porque sentia dentro do seu ventre os figados de Robespierre; e outro, que arredondava musicamente os periodos corrosivos, revelava-nos, com modestia parelha do talento, que sentia coriscar-lhe no craneo o cérebro de Mirabeau;--coriscos, se o eram, todos para dentro; que do fogo, que lhe faiscava da fronte, não havia que receiar combustão em armazem de sulphureto de carbonio.

Os outros não me lembra quem tinham dentro de suas pessoas.

Pelo que me diz respeito, recenseando longa fileira de defuntos historicos, suspeitei ser eu a paragem de dois pedaços transmigrados, um de Falstaff, outro de Sancho, por me sentir rasamente lerdo á beira d'aquellas pessoas trabalhadas por crudelissimas almas de torna-viagem.

Suppunha Gerard de Nerval, que Méry, pela admiravel intuição que tinha das coisas da India, devia ser a metempsycose d'um mouni do Indostão na pelle d'um marselhez; ora eu, se é licita a comparação ambiciosa, á vista da sisuda pachorra com que assistia aos projectos regicidas d'aquelles cavalleiros andêjos, devo presumir que ha em mim o que quer que seja do pagem do cavalleiro triste, antes de intontecido pelas lisonjas dos ilheos que o degeneraram.

Havia ali um que esmurraçava o marmore das mesas, protestando que os thronos seriam aluidos, quando a lava, escandecente no seio da Liberdade, irrompesse, resfolegando para si os monarchas, e revessando para fóra, com o novo baptismo de fogo, uns evangelhos novos.

O meu terror foi grande. Encarei n'aquelles homens exterminadores, e agourei-lhes mentalmente que morreriam justiçados para descanço do genero humano, e particularmente dos possuidores de inscripçoens e outros fundos.

Agora é de saber que todos aquelles regicidas, hoje em dia, vampirisam as veias desangradas do paiz, pisam alcatifas do paço, e fumam, nos aposentos dos camaristas, charutos da munificencia real, pelos quaes se lhes vaporaram os figados de Robespierre, o encephalo de Mirabeau, e toda a mais peçonha que lhes petrolisava as entranhas, tirante a do estomago, que ainda é corrosiva, como sempre.

Revertendo aos assumptos debatidos n'aquella roda de trogloditas, cujas caras a lavareda do ponche azulejava terrificamente, dizia um que os monarchas lusitanos, em seculos de bons costumes e fé viva, procreavam filhos illegitimos.

Esta noticia fez-me calafrios.

Em confirmação da these, individuou o sujeito, com prodigiosa retentiva, os filhos bastardos de cada soberano, e não sómente os abonados pelos chronistas, senão outros muitos denunciados pela tradição, e sonegados pelos historiadores em preito a insignes familias.

Occasionou-se-me então o ensejo de observar que o senhor D. Miguel de Bragança, bem que malsinado de frasqueiro e muito dado a damarias, não deixára filhos illegitimos reconhecidos, ou sequer suspeitos: d'onde eu inferia que a calumnia superfluamente lhe encarecêra os vicios, não querendo imputar-lhe sómente á descultura do espirito e aos ruins companheiros da mocidade os funestos casos do seu reinado.

Redarguiu de prompto o malsim das reaes progenituras que o snr. D. Miguel podia ser menos fecundo que seus avós, sem ser mais casto que D. Diniz; e acrescentou que affirmava a existencia de filhos do principe proscripto, e me desculpava da ignorancia por eu ser da provincia, e desconhecer as entranhas tuberculosas da côrte.

Estimulado por este dizer oriental e therapeutico, pedi que me dissessem quem eram os notorios filhos do snr. D. Miguel Maria do Patrocinio.

O sujeito interrogado nomeou cinco ou seis pessoas de ambos os sexos, umas que eu conhecia de vista, e outras dos appellidos heraldicos dos seus progenitores legaes.

Feita a resenha, um dos circumstantes ajuntou:

--Ainda te falta uma.

--Quem é?--acudiu o outro.

--A luveira da Rua Nova da Palma.

--É verdade... a luveira, a mais sympathica e adoravel e florida vergontea d'um tronco roído e verminoso. Hei de mostrar-lhe a vossê a luveira, a dôce creatura que faz lembrar a borboleta iriada que saíu de uma crysalida paludosa. Quer?

--Com a mais ardente curiosidade--respondi.

--Ámanhã.

No dia seguinte, o pontual amigo levou-me á Rua Nova da Palma, e ahi entramos em uma pequena loja de luvas e camisaria.

A dentro do balcão estava sentada a costurar uma senhora, singelamente vestida, e formosa quanto a mais descompassada phantasia podéra cobiçar. Figurava, quando muito, vinte annos; mas eu já ia prevenido de que ella não podia contar menos de vinte e sete; e, se o não fosse, desde logo, em vista da sua edade apparente, refutaria a procedencia que lhe davam, se queriam que houvesse nascido durante o reinado de D. Miguel.

José Parada cortejou-a gravemente, chamando-lhe D. Maria José. Ella recebeu o cumprimento com agraciado rosto, e correspondeu á minha cortezia, depois que lhe fui apresentado como homem de letras... maiusculas, minusculas, cursivo, bastardinho, etc.--letras, que, longe de serem ganancia, seriam o desdouro d'um cambista e a fallencia de dois bancos.

Logo percebi que a dama luveira era mais ou menos entendida em romances, pelo benevolente sorriso com que acceitou a minha apresentação; e tambem observei, de passagem, que esta senhora, se estimava livros, não se parecia extremamente com os avós--dessimilhança, porém, que não fazia implicancia á magestade da sua origem.

Não duvidei, por tanto, que D. Maria José em verdade houvesse a prosapia realenga que lhe attribuiam; antes me quiz parecer que o seu porte altivo sem soberba, e um certo natural nada commum, sem laivo de artificio, estavam inculcando uma senhora de fidalga condição.

--Aqui tem uma filha do snr. D. Miguel de Bragança--disse o meu amigo com urbana e grave seriedade, mais do que eu esperava de tamanho republicano; e ajuntou logo, coherente com os seus principios:--N'esta honrada posição é que eu unicamente respeito os descendentes dos reis. No sublime abatimento do trabalho é que as pessoas, nascidas para a ociosidade principesca e devoradora das nações se me figuram regeneradas para a humanidade laboriosa, e repostas pela mão do Christo na plana da egualdade a que elle chamou todos os filhos de Deus. Deante d'esta operaria, sinto o reverente enthusiasmo que os abjectos sentiriam se a vissem a roçagar nos pavimentos vellosos da Ajuda o manto de princeza.

D. Maria abaixou ligeiramente a cabeça, depois de haver relançado os olhos com suave magestade ao rosto do seu admirador. E eu, que tinha entrado com animo indisposto para tão solemne colloquio, compenetrei-me de involuntaria sisudeza e compostura como se ali estivesse uma princeza de lista civil, uma genuina vergontea das senhoras Dona Carlota de Bourbon e Dona Maria de Saboya.

Como sou de natureza bastante monarchica, e fui creado com o bom leite do antigo amor portuguez aos seus reis, grande foi o enleio em que me vi, rosto a rosto de tão egregia dama!

Com quanto acatamento e cortezania pude, enviei-lhe umas tartamudas palavras significativas de respeitosa vassallagem. E ella, sem descompor-se do seu palaciano aprumo, proferiu estas vozes:

--Contento-me com ser respeitada como costumam sêl-o as mulheres que vivem decorosamente. Algumas vezes tenho sido alvo de motejos por ser filha de um principe desafortunado; mas ainda não fui escarnecida por quem pudesse reprehender os actos da minha vida. O ter nascido grande não deve desmerecer-me pela resignação com que me sujeito á humildade da minha posição.

E, levantando-se, foi vender um peito de camisa a uma mulher que lhe chamava «Dona Mariquinhas».

Pouco depois entrou na loja um rapaz, asseiado a primôr, mui fragrante de cosmeticos, e todo elle uma bonita caçoula a recender perfumes de mocidade. O meu amigo apertou-lhe a mão, chamando-lhe Raul Baldaque, e acotovelou-me. Não percebi o intento espirituoso do cotovelo de José Parada.

O paralta encarou-me do alto da sua importancia, arregaçando a face direita para prender no olho correspondente um vidro. N'aquelle olhar preponderante, o sujeito parecia querer-me annunciar que era o filho unico do famoso capitalista conde de Baldaque, chegado da America, seis annos antes.

Sahimos os dous sem haver dispendido no estabelecimento mais que o ouro puro das nossas phrases. Eu ainda quiz comprar duas camisas e um par de luvas verde-gaio; mas acanhei-me de mercadejar com tamanha senhora, receiando desafinar da linguagem aulica e tom de côrte em que não fui de todo bajoujo.

Contou-me, depois, José Parada que D. Maria José de Portugal, a luveira, havia sido requestada, para casamento, de homens não só abastados, mas tambem fidalgos da raça cavalleirosa e da industrial, e até--o que mais importa--de litteratos.

--Não duvide vossê--proseguiu elle, derivando do meu ar desconfiado a incredulidade com que escuto, em geral, historias de desprendimento, quando são de ouro os ganchos com que a alma d'um homem pretende acolchetar-se na alma d'uma mulher.--Não duvide--insistiu Parada.--Eu não faço romances, nem invento prodigios. Nego a existencia da virtude em quanto a não palpo e lhe não sacudo a poeira dos preconceitos; mas se chego a convencer-me, o systema de duvidar não póde tanto comigo, que, por amor de seita, hesite em crer que ha princezas não refesteladas em almadraques de setim, princezas que não disputam ás nações pobres a enxerga dos desherdados, para quem o dormir é a consolação da fome.

D'este phraseado bem é de perceber que o meu interlocutor não erguia mão de sobre a mais singela resposta sem lhe esponjar exordios para discurso sedicioso.

Não inquiri quem fossem os ricos e fidalgos pretendentes de D. Maria José de Portugal; quanto, porém, aos concorrentes litteratos, desejei, por affecto á classe, reconhecer os meus collegas, ambiciosos de se aparentarem tão affins com a casa reinante. Satisfez-me a curiosidade o meu amigo, nomeando um poeta de piano, um prosador de calendario, um redactor do _Jardim das Damas_, charadista historico dos almanaks de Castilho. D. Maria José havia recusado as mãos d'estes litteratos pobres assim como já tinha recusado os pés d'alguns capitalistas.

E acrescentou José Parada:

--Um homem que morre por ella é aquelle Raul que lá ficou na loja. Ali tem vossê um rapaz que ha-de herdar mil e duzentos contos. A figura é correcta, não acha? Dá jantares, e empresta dinheiro aos convivas insoluveis, que o lisongeiam e escarnecem alternadamente. As mulheres, que o amam, são tantas como as abelhas á volta d'um favo que tem dentro a essencia de todas as flores de mil e duzentos contos. Pois sabe que mais? quer um milagre em pleno seculo XIX? A luveira repelle com fidalga delicadeza, e ouve com supremo desdem a apotheose dos milhões do conde de Baldaque. Não é isto, em tempos de infame positivismo, um caso assombroso?

E concluiu emphaticamente:

--Quando as filhas dos marquezes, com dezoito avós aforados, não se desaforam, confundindo nas veias dos filhos o seu sangue ostro-godo com a lama dos argentados escapados ao cruzeiro, não é de espantar que a obscura filha de um principe, pobre e chasqueada, recuse abastardar a sua regia stirpe, adjudicando-se ao ouro de um plebeu? Devo repetir-lhe que desprézo o prejuiso das distincções, posto que procedo de avós honrados no serviço da patria; entretanto, se os instinctos fidalgos alam o espirito ao de cima das idéas villissimas d'esta quadra de chatins, eu me curvo então, repassado da religiosa reverencia, e comprehendo que a nobreza das indoles não é phantasmagoria obsoleta; será antes divina loucura, se de uma parte reluz a pobreza radiosa com a sua aureola do trabalho humilde, e da outra rutila a fascinação explendida dos milhões.

--_Puff!_--disse eu entre mim--ou mais exactamente, disseram dentro de mim o pedaço do Falstaff ao pedaço do Sancho.

Aquelle _puff_, interpretado pelos glossologicos da ultima camada, quer dizer: «Bem me fio eu em ti e n'ella!»

II

PERFIL DE VICTOR HUGO JOSÉ ALVES

Personne de servile condition et de race servile.

AMYOT, ALCIB., Vers. de Plut.

Tudo quanto este homem arengou me pareceu acertado.

A luveira não se me delia da idéa.

Ao outro dia fui lá, resolvido a derrear bastante o estylo, de feição que me não ficasse canhestro comprar, nem a D. Maria José de Portugal vender, seis collarinhos. Por onde, a toda a luz se mostra com que innocentes intençoens lá fui.

N'este proposito mercantil, entrei; mas, feita a cortezia, não pude aparrar a linguagem ao raso de um freguez de collarinhos.

Não se póde. Um homem capaz de aconsoantar uma quintilha, não sabe regatear com damas camisolas de flanella. O que logo lembra, em presença da filha de um principe, se ella é bonita, e os amores lhe esvoaçam á volta da regia fronte, é a mandóra dos provençaes, o enamorado Macias, as trovas suspiradas no harpejar do bandolim, á barbacan do castello, ou mais dentro, se é possivel.

Assim foi que nossos decimos avós, se eram menestreis e cytharistas, procederam com as filhas e açafatas dos reis, não contando com as portuguezas, tirante as inspiradoras de D. João da Silva[1] e de Bernardim Ribeiro--que as restantes princezas saíram todas muito descaroadas de poetas, de theorbas e cytharas, bem que a musica foi sempre bemquista dos nossos monarchas, desde D. Pedro I, que tangia trombeta bastarda, até D. João IV, que tocava tudo, compunha motetes, e escrevia livros ácerca da musica. E, se D. João V não exercitava pessoalmente a formosa prenda, folgava de ouvir retroar os cento e quinze badalos do carrilhão de Mafra, que comprou por mil e trezentos contos de reis. Depois, encontramos o snr. D. João VI cantando psalmos entre os seus frades; e, hoje em dia, o snr. D. Luiz I, basso primoroso, revive os saraus melicos da sala da Ajuda, como elles foram em Queluz, quando, na orchestra real, regida por David Peres, se viam as loiras infantas de Bragança tocando rebeca.

Revertamo-nos, em boa hora, ao conto.

Estava a dama lendo a _Nação_. Depoz cortezmente a gazeta para me attender. Pedi-lhe que por minha causa não interrompesse leitura tão lenimentosa para as dores do seu filial coração. D. Maria José, penhorada por estas suaves expressoens, fitou-me brandamente e murmurou:

--Mal sabe......

--O quê, minha senhora?

--Quantas lagrimas eu tenho chorado sobre este jornal...... lagrimas inuteis, que fariam até sorrir de piedoso motejo as pessoas felizes......

Todas as fibras sensiveis e sonoras da minha alma se desataram então em plangentes melodias de coisas, de que não tomei apontamento; porém, taes e tão insinuantes lh'as influí no animo, que vinguei merecer-lhe confiança e desafôgo de sentimentos circumspectamente abafados.

Esta confiança, com as visitas diarias, fez-me digno de lhe ouvir, interpoladamente, revelaçoens que vou compendiar, de mistura com esclarecimentos obtidos, Deus sabe com que perspicacia e finura.

D. Maria José havia nascido em Lisboa, no anno de 1832. Seu pae era o snr. D. Miguel de Bragança, rei n'aquelle anno. Sua mãe tinha sido D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, senhora portugueza, nascida em Lisboa, e descendente de fidalgos de régia plana por bastardia, como ao diante se dirá. Vivêra D. Maria em companhia de sua mãe, rodeada de pompas, aias, mestras e caricias, até á edade dos quinze annos. Lembrava-se de sua mãe ter carruagem brazonada, librés, e relaçoens de grande posição na aristocracia; e, em meio d'esta disfarçada felicidade, a vira frequentemente lavada em lagrimas, que de dia para dia lhe iam desbotando a formosura deslumbrante.

Observou mais que as alfaias valiosas desappareceram umas depós outras; que a sege foi vendida; que os convivas rarearam á mesa; que os hospedes da noite foram tambem rareando, e que em fim ninguem entrava na casa desbalisada de sua mãe, senão duas senhoras de baixa origem que a não desampararam até á morte.

Lembrava-se tambem de que sua mãe, nos derradeiros annos da vida, abrira um hotel; e, n'essa posição decahida, morrêra.

A morte de sua mãe não sabia ella dizer se foi natural, se violenta. Conjecturava, porém, que houvesse sido suicidio com veneno contido em um frasco de crystal, que depois se encontrara vasio. Era esta hypothese confirmada pelo caso de sua mãe, na véspera do dia em que se finou, lhe haver dado um cofre de sandalo, dizendo que lhe não podia legar outro patrimonio; mas que, n'aquella caixa, encontraria titulos que a elevassem sobranceira ás primeiras senhoras de Portugal.

Ora o cofre encerrava cartas do snr. D. Miguel--cartas que ella me não mostrava por conterem coisas intimas e segredos de estado de maximo melindre.

Fallecida D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolim de Portugal, a orphã, que então vicejava uns quinze annos, como facil me foi imaginar-lh'os, passou para a companhia das duas mulheres, unicas pessoas que assistiram aos funeraes de sua mãe.

Por conselho d'estas, escreveu a alguns homens insignes e relaçoens de sua casa, participando-lhes que estava orphã. Contava ella que cada palavra escripta lhe custava uma lagrima por sentir-se abatida n'aquella mal dissimulada supplica de esmola. Ninguem lhe respondeu, exceptuado um agiota de raça judaica e humilde extracção que devia, não sabia ella como, a sua prosperidade á mãe, de quem havia sido escudeiro, mordomo, ou coisa assim.

Quiz este homem leval-a para sua casa; mas, como ella se esquivasse a deixar as duas senhoras, o generoso agiota offereceu-lhe abundante mesada, que ella acceitou para soccorrer as amigas que a não podiam alimentar e vestir sem sacrificio.

Aos desoito annos, D. Maria José alcançara notaveis conhecimentos litterarios, sem descuidar-se de outras prendas mais caseiras e accommodadas ao seu sexo.

N'aquelle anno de 1850, falleceu o caridoso rebatedor, testando á filha de D. Marianna de Portugal nove contos de reis em inscripçoens e um predio pequeno na rua Nova da Palma.

Longo tempo indecisa no destino que melhor lhe quadrava, foi habitar a casinha herdada, porque, primeiro que tudo, almejava a soledade, a tristeza, o recolhimento, a leitura, o chorar sem testimunhas nem consolaçoens importantes. Os ultimos lances da vida de sua mãe, e a penuria do seu proscripto pae davam-lhe horas muitissimo amarguradas. N'aquella doentia compleição havia que receiar quebra de juizo por excesso de sensibilidade, ou morte prematura.

Divulgou-se a residencia da filha de D. Miguel. Muita gente duvidou-lhe da filiação. Outra acreditou, poetisando o caso de sua natureza prosaico e vulgar como todos os phenomenos d'esta especie. Uns e outros, ainda assim, forcejaram debalde por vêl-a.

D. Maria José, ao abrir da manhã, em dias santificados, ia á missa d'alva, e voltava a horas em que nenhum homem de siso sairía da cama para vêr a propria Semiramis. Á casa da Rua Nova da Palma entravam apenas as duas amigas de sua mãe, conhecidas pelas Picôas, e presumidas descendentes bastardas dos condes de Povolide. Com certeza, porém, estas duas irmãs, Rozenda e Euphemia, nasceram e criaram-se na casa chamada das Picôas, onde seu pae tinha sido estribeiro-ferrador, e sua mãe ama sêcca dos fidalguinhos.

Redarguindo contra este argumento dos linhagistas de estrebaria, Rozenda e Euphemia asseveraram--por lh'o haver affirmado a mãe com tal qual competencia, ao que é de suppôr--que o pae d'ellas não era o ferrador; mas sim um monsenhor parente da casa. Não me recordo bem se diziam monsenhor da patriarchal, se dom abbade de bernardos, declaro. N'este livro, se alguma vez a verdade gretar, é involuntariamente. Assim que me pruem escrupulos, coço-os com a rectificação. Escrever para a posteridade é assim.

Aquellas duas senhoras, ambas prolificas, iam com os seus meninos já pennugentos de buço a casa de D. Maria José; e uma d'ellas, D. Rozenda Picôa, proprietaria d'um hotel na Travessa do Estevão Galhardo, levava comsigo um filho já barbaçudo que dizia ser litterato-politico, e se chamava Victor.

Este sujeito é quem nos botequins andava pregoando a belleza e os dotes espirituaes da filha do snr. D. Miguel; e tão a miudo e encarecidamente o fazia que sobrava rasão a desconfiar que elle, amando honestamente D. Maria, queria subir pelo estribo do avô ao cavallo branco do timbre ducal das armas bragantinas, ou guindar-se ao _banco de pinchar_, para não ficar estatellado sobre o banco do ferrador. E D. Rozenda, mãe d'este litterato-politico, algumas vezes deu a perceber á princeza que as suas entranhas maternaes estremeciam de jubilo, quando sonhava com o hymeneu de Victor e Maria.

É certo que a neta dos reis se nauseava, se a indiscreta albergueira repetia similhante injuria; mas tanto era seu juizo que nunca levou a desaffronta além do silencio.

Convem saber que Victor, nos seus primordios litterarios, quando se viu no Chiado, com a republica a fervilhar-lhe nos miolos, ajuntou ao nome o sobrenome _Hugo_, crendo que o chamar-se _Victor_ era predestinação que o fizera sahir já republicano da pia: e d'ahi o assanhar-se contra os monarchas, á imitação d'aquella sublime vêspa que zunia estrophes demagogas em Gersey.

Obrigado pelo sobrenome, Victor fez versos vermelhos como sangue de javali. As suas quadras cheiravam a gamella de fressureira. E tambem, nas prosas d'elle, as testas coroadas não eram tratadas com mais caridade que a syntaxe.

No emtanto, os criticos ordeiros, vituperando a ira republicana do rapaz, diziam que não admirava raivasse tanto contra os nobres quem era filho de um sapateiro, ao qual muitos fidalgos não haviam pagado os remontes, e neto d'um ferrador a quem outros fidalgos não haviam pago as ferraduras.

Esta matraca, impressa nas gazetas, desvairou o litterato que forçou a mãe a declarar pelos prélos que seu defunto marido não havia sido sapateiro; mas sim negociante de couros. Ninguem contestou; já por ser verdade, já porque ninguem podia desfazer na palavra da snr.ª Picôa, quanto á mercadoria do snr. João José Alves, seu marido. Pelo que respeita ao ferrador, guardou ella judicioso silencio em attenção ás cinzas do dom abbade de bernardos.

Manteve-se o politico, não obstante, socialista e orador de assemblêas populares até 1854. N'este anno, porém, ahi por maio, quando as arvores florejam, e as calhandras trilam, e nas quebradas dos montes hervecidos ornejam as poesias lyricas da preceptora de Balaam, achou-se Victor Hugo José Alves invadido d'amor.

Se não amaria! Era maio portuguez, sasão de paraizo terreal, em que a todos nos quer parecer que o matrimonio foi inventado pelos cardeaes na primavera.

Notou-se então no paiz, e particularmente desde o Chiado até ao Rocio, que o Hugo da travessa do Estevão Galhardo gorgeava umas endeixas passarinheiras que ninguem creria destiladas do mesmo craneo que trovejara Nemesis clangorosas de odes republicanas! Elle, o Victor, que dissera em dous versos:

Eu hei-de avassallar os reis ao genio, E pol-os histriões sobre um proscenio, E... etc.

Elle, que escrevêra aquillo, vinha agora offertando a uma _mulher-rainha_ a monarchia da sua alma, á similhança de Filinto Elysio que offerecêra a sua em dous versos de um soneto salobro como infusão de chicorea: