# O cancioneiro portuguez da Vaticana

## Part 3

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/o-cancioneiro-portuguez-da-vaticana-11299/index.md

_Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo Colocci_.--Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n°. 3217 o Indice do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo Colocci, ja elle determinara pela forma por que está escripto o Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio Colocci, quem é que tinha feito o confronto. O illustre Monaci comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples inspecção fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relações entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e setenta e cinco canções, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco, isto é, quatrocentas e setenta canções a menos, por ventura as que occupavam até a _fol_. 90. O numero das canções de cada trovador pode tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canções de Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador é precedido pelo numero que limita as canções do antecedente. Assim, como já acima vimos, as canções de D. Diniz são no Codice da Vaticana cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas _desunt multa_ provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais rico, como se vê pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da Vaticana:

Diego Moniz, que tinha ali uma canção; Pero Paes Bazoco, com sete canções; João Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes o Freyre; João Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de Taveirós; Pay Soares de Taveirós; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual existiam dezessete canções; João Coelho; Pero Montaldo; duas canções do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonçalo Garcia; Dom Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D. Diniz, com quatro canções. No Codice de Colocci, as canções de D. Diniz não estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro composições destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem é omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que aí se encontram outra vez trovadores dos supracitados, como João Garcia, D. Fernam Garcia Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de Briteiros, Fernam Soares de Quiñones, etc. Pelo confronto do Indice de Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante do fim, por que só deixaram de ser copiadas algumas sirventes de Julião Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1°. que o codice d'onde se extraíu a copia da Vaticana differia no numero das canções e na sua disposição do de Colocci; 2º. que as relações mutuas accusam fontes communs, mas colleccionação arbitraria no agrupamento dos differentes cancioneiros parciaes.

_Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda_. -- Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na collecção da Vaticana a canção de João Vasques, _Muyt'ando triste no meu coraçom_, que existe anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais quarenta e nove canções communs aos dois codices, e nós mesmo ainda viemos a encontrar mais seis canções repetidas. São ao todo cincoenta e seis canções communs, facto importante para estabelecer as relações, que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o Cancioneiro da Vaticana foi já copiado de um codice truncado, como por exemplo: a canção 43 tem a rubrica final: _"Fol.97 desunt multa"_ e a canção seguinte está truncada no principio; porem estas canções de João Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, canção n°. 272 e 273 (ed. _Trovas e Cantares_). Isto prova, que embora o Cancioneiro da Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canções do codice de Roma (_y_, das _Trovas_ == n°. 38, _Canc. da Vat._) ambos provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis canções communs existem notaveis variantes:

_Nostro senhor_, que lhe bom prez foi dar. (Vatic.) _Deus_ que lhe _mui_ bom _parecer_ foi dar. (Ajuda)

N'esta variante o original do codice vaticano mostra-se mais archaico na linguagem. Na canção 46, de Fernão Velho (no codice da Ajuda, n°. 92) no primeiro verso da 2ª strophe vem uma variante que denota erro do copista portuguez conservado inconscientemente pelo antigo copista italiano:

E _mha_ senhor fremosa de bom _parecer_ (Vatic.) E _mia_ senhor fremosa de bom _prez._ (Ajud.)

_Prez_ é uma contracção de _preço_, e d'aqui resultou que o copista portuguez traduziu inconscientemente; como organisado no paço, o Cancioneiro da Ajuda seria formado directamente da contribuição dos muitos trovadores que o frequentavam; o Cancioneiro de Roma era já derivado de um apographo secundario, truncado no principio, meio e fim, e em certos pontos mais archaico.

Na canção 47 da Vaticana (93 da Ajuda) pertencente a Fernão Velho, vem:

Quant' eu, _mha senhor, de vós_ receei... (Vatic.) Quant' eu _de vós, mia senhor_ receei (Ajud.)

E vos dix'o _mui_ grand'amor que ei (Vatic.) E vos dix'o grande amor que _vós_ ei (Ajud.)

A canção 48 da Vaticana, apesar das imperfeições da copia italiana, pode ser reconstruida pelo typo strophico, porem a nº. 94 da Ajuda ficou incompleta:

_Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_

E mal dia naci, senhor, E mal dia naci, senhor, Pois que m'eu d'u vós sodes, vou; pois que m'eu d'u vos sodes, vou; Ca mui bem sou sabedor ca mui bem som sabedor Que morrerei u nom jaz al; que morrerey hu nom ey al; Pois que m'eu d'u vós sodes, vou. poys que m'eu d'u vos sodes, vou, ............. pois que de vos ei a partir _por mal._

............. E logo hu m'eu de vós partir ............. morrerey se me deus nom val.

A canção 53 da Vaticana (Ajuda, nº. 99), tem uma strophe mais imperfeita do que no codice da Ajuda; mas en compensação tem o _Cabo_, que falta no codice portuguez:

_Ajuda: Vaticana:_

Meus amigos, muito me praz.... Meus amigos muyto mi praz _d'amor._ Cá bem pode partir da mayor Ca bem me pode partir da mayor Coita de quantas eu oy falar, coyta de quantas eu oy falar, De que eu fuy muyt'_y_ a soffredor; do que eu fuy muyt'ha sofredor Esto sabe deus, que me foy mostrar _e sabe deus hu a vi bem falar_ Uma dona que eu vi bem falar e parecer, por meu mal, eu o sey. E parecer por meu mal, e o sei. ............. Ca poys m'elles nom querem emparar ............. e me no seu poder querem leixar, ............. nunca por outra emparado serey.

A canção 395, de Payo Gomes Charrinho, repetida no cancioneiro da Ajuda, n°. 276, tambem revela duas fontes diversas:

e nom lh'ousey mays _d'atanto_ dizer (Vatic.) e nom lh'ousey mais _d'aquesto_ dizer. (Ajud.)

nem _er cuidey_ que tam bem parecia (Vatic.) nem _cuidava_ que tambem parecia (Ajud.)

mays _quand'_eu vi o seu bom parecer (Vatic.) mais _u_ eu vi o seu bom parecer. (Ajud.)

No codice da Vaticana tem esta canção apenas trez estrophes; porem no da Ajuda termina com uma quarta:

E por esto bem consellaria quantos oyrem-no seu bem falar nom a vejam, e podem-se guardar melhor ca m'end'eu guardei, que morria, e dixe mal, mais fez-me deus aver tal ventura, quando a fui veer que nunca dix'o que dizer queria. (Ajuda)

Evidentemente as alterações de linguagem não foram do copista italiano, porque, comparativamente, a expletiva _er_ é mais archaica; e por tanto a omissão da 4ª strophe não foi casual, mas resultante do estado d'outra fonte.

A canção 400, da Vaticana, tambem de Payo Gomes Charrinho, tem leves variantes na canção 278 da Ajuda, mas importantissimas omissões; assim no Codice de Roma, falta na primeira strophe o verso:

me quer matar e guaria melhor (Vat.)

e tambem faltam duas strophes completas com o seu Cabo.

A canção 428, ainda de Charrinho, tambem no Codice da Ajuda, n°. 285 offerece leves variantes; porem no Codice da Vaticana alternam-se a segunda com a terceira strophe, e falta este Cabo da lição da Ajuda:

E entend'eu cá me quer a tal bem em que nom perde, nem gaano en rem.

A canções 485, 486 e 487 da Vaticana, do trovador Ruy Fernandes, acham-se nos pequenos fragmentos legiveis nas folhas do Cancioneiro da Ajuda, que serviram de guardas á encadernação do Nobiliario; esses fragmentos, seguindo a edição do Varnhagem são _m, n, o_; ainda assim se conhece por elles que existiam divergencias entre os dois codices:

_Ajuda, (m):_ _Vaticana_, n°. 485: A _guisa_ de vos elevar a _forza_ de vos elevar Por mia morte nom _aver_. por mha morte nom _aduzer_.

_Ibid., (n):_ _Ibid._, n°. 486: _Amigos_, começa o meu mal. _Ora_ começa o meu mal.

As canções de Fernão Padrom, n'os. 563, 564, 565, a que achámos as analogas nos numeros 126, 127 e 128 do codice da Ajuda, tambem apresentam variantes.

As canções n°. 566, 567, 568, 569 e 570, que andam em nome de Pero da Ponte no codice da Vaticana e apparecem anonymas no Cancioneiro da Ajuda, n'os. 112, 113, 114, 115 e 116 não appresentam mais variantes que a simples modificação ortographica em _mha_ e _mia_, que poderia provir das differentes epocas das copias. Esta conformidade entre o texto da Vaticana e o da Ajuda, leva-nos a concluir que pequenos cancioneiros entraram na coordenação de um grande cancioneiro, e que as canções mais conformes são aquellas que andaram em menor numero de copias antes de se agruparem na collecção geral.

Já com relação ás Canções de Vasco Rodrigues de Calvelo, apparecem variantes e deturpações que não provêm do copista do seculo XVI, mas de codices diversos ja corruptos; a canção 580 comparada com a 265 da Ajuda tem uma lição menos pura, incompleta, mas differente:

_Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_ Per uma dona que quero gram bem ..... que quero gram bem.

Com'a mim _fez_; ca des _que eu_ naci Como a mim _faz_; que des _quando_ naci nunca vi ome _en_ tal coita _viver_ nunca vi ome tal coita _sofrer_ como eu _vivo_ por melhor bem querer como eu _sofro_ por melhor bem querer

Com'_a mim fez muy_ coitado d'amor Com'el _faz mim muy_ coitado d'amor.

A lição da Ajuda termina com este Cabo, que falta no codice da Vaticana:

Com'a mim fez, e nunca me quiz dar Bem d'essa dona, que me fez amar.

A canção 581, tambem de Vasco Rodrigues de Calvelo, sob a designação _e_ da lição da Ajuda (ed. _Trov. e Cant._) alem das mutuas variantes, tem a 2ª e 3ª a strophes alternadas:

E se _soubess'_em qual coyta d'amor (Vatic.) Se _lh'eu dissess'_em qual coita d'amor (Ajud.)

per nulha guisa, _pero m'_ey _sabor_ (Vatic.) Per nulha guisa, _ca_ ey _gram pavor._ (Ajud.)

De mais no Codice de Roma falta este Cabo:

Mais de tod'esto nora lhi dig'eu rem, Nem lh'o direy, cá lhe pesará bem.

Na Canção 582, do mesmo trovador, ha esta divergencia:

E rogo _sempre_ por mha morte a deus (Vatic.) Et rogo _muito_ por mia morte a deus (Ajud.)

Na Canção 584, tambem de Calvelos, falta esta terceira estrophe, que vem no codice da Ajuda:

Como vós quiserdes será De me fazerdes mal e bem E pois é tod'em vosso sen Fazed'o que quizerdes já...

A canção 677, de Pero de Armêa, acha-se imitada no codice da Ajuda, nº. 56, por forma que a da Vaticana apresenta um caracter de maior vulgarisação, e por isso de proveniencia jogralesca:

_Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

Muitos me veem preguntar, Muytos me veem preguntar, mia senhor, a quem quero bem; senhor, que lhes diga eu quem e nom lhes queró end'eu falar est a dona que eu quero bem com medo de vos pesar en, e com pavor de vos pesar nem quer'a verdade dizer, nom lhis ouso dizer per rem, mais jur'e faço lhes creer senhor, que vos quero bem. mentira, por vos lhe negar.

Duas canções de Pedro Solás, confrontadas com as do codice da Ajuda, acabam de separar definitivamente estes dois cancioneiros:

_Lição da Ajuda_ (nº. 123): _Lição da Vaticana_ (nº. 824):

Nom est a de Nogueira _E_ nom est a de Nogueira A freira, que _mi poder tem;_ a freira que _eu quero bem,_ Mays _est_ outra _a_ fremosa mays outra mais fremosa A que me _quer'eu mayor bem;_ _e_ a que _mim em poder tem;_ E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira. ...................................................................

Se eu a _freira visse o dia _E_ se eu _aquella freyra O dia que eu quizesse_ hum dia veer podesse_ Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo Nem _mingua_ que houvesse nem _pesar_ que _eu_ ouvesse E moiro-me ... e moyro-me ...

_Se m' ela mi amasse _E seu aquella freyra Muy gram dereito faria, veer podess'um dia Cá lher quer'eu mui gram bem nenhuã coita do mundo E punh'y mais cada dia;_ nem pesar nom averia_ E moiro-me ... e moyro-me ...

Estas duas variantes são elaborações differentes do mesmo trovador em epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provêm effectivamente de duas fontes. A canção 825 da Vaticana, que se acha sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois cancioneiros, apresenta uma composição (1061 da Vaticana, 253 da Ajuda) que pertence a João de Gaya, escudeiro da côrte de D. Affonso IV, por onde se fixa não só a epoca da colleccionação do codice de Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais completa:

_Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

Conselho, e quer-_se_ matar Conselho e quer-me matar. E assi me tormenta amor de tal coyta, que nunca par ouv'outr'ome, a meu cuydar, assy morrerey pecador, e, senhor, muyto me praz en que prazer tomades por en non no dev'eu arrecear.

E bem o _podedes fazer_ E bem o _devedes saber_, etc.

Por todos estes factos se vê, que umas vezes o Codice de Roma é omisso com relação ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a incuria do copista; esta hypothese não pode ter logar, porque o Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omissões. Por tanto essas cincoenta e seis canções communs aos dois codices, entraram n'essas respectivas collecções provindo de codices parciaes e de differente epoca.

_Relações do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente possuido por um Grande de Hespanha_. -- No _Cancioneirinho de Trovas antigas_, Varnhagem dá noticia no prologo, de ter encontrado em 1857 na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez, que, pela canções de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n°. 4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Começavam ambas as copias com a trova de _Fernão Gonçalves_, seguindo-se-lhe as duas canções de _Pero Barroso;_ ambos os codices combinam nos mesmos nomes de trovadores, na ordem das canções, e em geral nos erros dos copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam ambos do mesmo original? Não; apezar de Varnhagem não ser mais explicito na descripção do codice madrileno e guardar no mysterio o nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composições do _Cancioneirinho_ se descobrem profundas _variantes_, que se não podem attribuir a erro de leitura, ainda assim tão frequente em Varnhagem.

Copiamos aqui essas variantes, para que se conclua pela existencia de um outro codice mais antigo, tambem perdido. Na canção II, a strophe 3ª _(Cancioneirinho)_ acha-se assim:

Os cavalleiros e cidadãos d'aqueste rey aviam dizer e se deviam com sas mãos poer outrosi donas e escudeiros que perderam a tam bem senhor de quem poss'eu dizer, sem pavor, que não ficou dal nos christãos.

Pelo codice de Roma vê-se a strophe construida da outro modo:

Os cavalleiros e cidadãos que d' este rey aviam dinheiros e outrosi donas e escudeiros, matar se deviam por sas mãos ... (Canç. n°. 708.)

Na canção VI, a strophe segunda e terceira _(Cancioneirinho)_ estão incompletas e interpolladas d'esta forma:

_Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

E as aves que voavam E as aves que voavam Quando sayam canções quando saya _l'alvor_ Todas d'amor cantavam todas de amor cantavam Pelos ramos d'arredor; pelos ramos d'arredor;

Mais eu sei tal que escrevesse mais nom sei tal que _i estevesse_ Que em al cuidar podesse que em al cuidar podesse Se nom todo em amor. se nom todo em amor.

Em pero dix'a gram medo: _Aly stive eu muy quedo quis falar e nom ousey_ em pero dix'a gram medo: -- Mha senhor, falar-vos-ey -- Mha senhor, falar-vos-ey Hum pouco, se m' ascuitardes um pouco, se m'ascuitardes Mais aqui nom estarey. _e ir-m'ey quando mandardes_ mais aqui nom estarei.

(Canc. nº. 554.)

Pela lição da Vaticana, onde se vêem as duas strophes completas se infere que o defeito no _Cancioneirinho_ provem de um texto imperfeito e differente, porventura tirado do apographo hespanhol.

Na canção XV _(Cancioneirinho)_ vem uma strophe imperfeita, porque é formada com duas, que lhe alteram o typo:

_Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

E foi-las aguardar E fui-las aguardar E nom a pude ver; e nom o pude achar e moiro-me d'amor. e moiro-me d'amor! E fui-las atender, e nom no pude veer E moiro-me d'amor.

A canção XVII do _Cancioneirinho_ tem só trez strophes; na lição do Codice da Vaticana, ha mais esta:

Estas doas mui belas el m'as deu, ay donzelas, nom vol-as negarey; mas cintas das fivelas eu nom as cingirei.

Com certeza esta deficiencia proveiu do apographo madrileno. Na canção XXI, a strophe 4ª está interpollada, e segundo a lição da Vaticana é que se conhece a proveniencia de outro codice:

_Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

Cá novas me disserom Ca novas me disserom Que vem o meu amigo ca vem o meu amado C'and'eu mui leda. e and' eu mui leda, poys migu'é tal mandado; _E cuido sempre no meu coraçom poys migu'é tal mandado Pois nom cuid'al, des que vos vi, que vem o meu amado. Se nom en meu amigo, E d'amor sei que nulh'ome tem,_ Pois migo é, tal _mandades;_ Que vem o meu amado.

Os versos sublinhados do _Cancioneirinho_, são visivelmente d'outra canção, porque tem outro typo strophico, e essa interpolação não se pode attribuir a erro de leitura de Varnhagem.

Na canção XXV, ha uma 4ª strophe, que é repetição da 1ª; na lição da Vaticana não existe esta forma; evidentemente o editor do _Cancioneirinho_ seguiu aqui o codice madrileno.

Na canção XLV falta esta strophe, que pela lição do texto da Vaticana se vê que é a segunda:

Nom ja em al d'esto som sabedor de m'algum tempo quizera leixar e leix'e juro nom a ir matar mays poys la matam, serey sofredor sempre de coyt'em quant'eu viver, cá sol y cuido no seu parecer ey muyto mais d'outra rem desejar.

Na canção XLVI, falta esta 4ª strophe da lição da Vaticana:

Por en na sazom em que m'eu queixey a deus, hu perdi quanto desejei oy mais poss'en coraçom deus loar; e por que me poz em tal cobro que ey por senhor a melhor de quantas sey eu, que poz tanto bem que nom ha par.

A canção XLVIII encerra a prova definitiva de que o codice madrileno serviu de base da edição do _Cancioneirinho_, e que esse codice proveiu de uma fonte diversa do da Vaticana; aí se acham essas duas strophes, que faltam no codice de Roma:

O que se foi comendo dos murtinhos E a sa terra foi bever os vinhos, Nom vem al Maio.

O que da guerra se foi com espanto E a sa terra se foi armar manto Nom vem al Maio.

Por outro lado no codice madrileno tambem faltam cinco strophes, por que são omissas no _Cancioneirinho:_

O que da guerra se foi com'emigo pero nom veo quand'a preyto sigo nom vem al Maio.

O que tragia o pendou a _aquilom_ e vendid'é sempr'a traiçom nom vem al Maio.

O que tragia o pendou sen oyto, e a sa gente nom dava pam coyto, nom vem al Maio.

E no final da canção:

O que tragia pendom de cadarço macar nom veo no mez de Março, nom vem al Maio.

O que da guerra foy por recaùdo macar em Burgos fez pintar escudo, nom vem al Maio.

Indubitavelmente o codice madrileno provém de uma outra fonte, por que tem omissões e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da Vaticana; mas a ordem das canções e os nomes dos trovadores, communs aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros já organisados dos quaes um era já apographo. A circumstancia de começarem ambos pela trova de _Fernão Gonçalves_, e de se lêr no codice do Roma a nota: _"Manca da fol. ij in fino a fol. 43"_ provam-nos que o original primitivo já andava truncado e é isto o que dá a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido que era a cópia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava ainda completo. Monaci não desconheceu o valor das variantes do _Cancioneirinho_.

Depois de toda esta discussão sobre os diminutos vestigios que restam de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a aproximação de numerosos factos secundarios, e as inducções que se formam sobre elles, exigem uma recapitulação clara para que se possam tirar a limpo algumas conclusões geraes. Representamos os cancioneiros que são conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia se pode inferir pelas variantes são notados por letras minusculas; com estes signaes formaremos uma tentativa de filiação de todos esses cancioneiros em um schema, que poderá, ser modificado á medida que se descobrirem novos subsidios:

A.] _O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_,--citado no seu testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o _Livro das Cantigas_ não era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilação sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canções do Conde, de Affonso XI e grupos de canções do Codice da Ajuda em numero de cincoenta e seis assignadas por fidalgos da côrte de D. Diniz.

