O cancioneiro portuguez da Vaticana
Part 1
THEOPHILO BRAGA.
O Cancioneiro portuguez da Vaticana e suas relações com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV.
(Zeitschrift für Romanische Philologie, 1877)
O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa individual sobre a estabilidade inerte das instituições collectivas que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no pó do archivo de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios os esforços para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci: "voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto oggetto di studj novelli. È solo nella fonte delle tradizioni patrie che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p. XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se não comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer traducções de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nação, cabia primeiro do que a todos á Academia real das Sciencias de Lisboa responder pela seguinte forma:
1°. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lição diplomatica em grande parte illegivel fóra de Portugal.
2°. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se possa alcançar noticia, para sobre elles basear a historia externa da formação do Cancioneiro.
3°. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dicção provençalesca da poesia palaciana.
4°. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana.
É para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os governos as subsidiam, e que os seus membros têm o fôro de sabios. Em quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa não cumpre este seu dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos perdido pelas bibliothecas estrangeiras.
N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as relações intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham representadas as duas correntes da inspiração popular e palaciana ou erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos é desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos aí têm a sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e nos feitos de armas no periodo da constituição da nossa nacionalidade aí se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados ás damas da côrte, que serviam. Finalmente, ali está o documento mais vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforço para de inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, é a joia de uma bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido da nossa tradição nacional? Estudando-o.
A primeira questão que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere é determinar as suas relações com os antigos cancioneiros provençaes portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filiação. Tal é o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes litterarias n'elle representadas, pela allusão aos grandes successos, pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes trovadores e pelo estado da lingua portugueza, é uma exploração de tal forma vasta, que qualquer d'estas questões excede as proporções de uma noticia. Começamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que contribuiram para a sua formação, procurando ao mesmo tempo o nexo que existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as collecções que se perderam sem chegarem a ser conhecidas.
1. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos.
No testamento do Conde D. Pedro, feito em Lalim em 30 de Março de 1350, se lê esta clausula: "Item, mando o meu _Livro das Cantigas_ a el rei de Castella". Interpretando esta clausula, Varnhagem quiz por ella attribuir o Cancioneiro da Ajuda ao Conde de Barcellos, imprimindo-o em 1849 n'esse presupposto, com o titulo de _Trovas e Cantares... ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_. Esta hypothese cedo caiu diante da evidencia dos factos; mas além d'este primeiro erro, existe n'esta affirmacão um outro, que é o julgar o _Livro das Cantigas_ formado de canções unicamente compostas pelo Conde de Barcellos. Era antigamente vulgar terem os principes cancioneiro seu, como objecto sumptuario, isto é, uma collecção contendo as melhores poesias de seu tempo; sabendo-se a tendencia compiladora e erudita do Conde Dom Pedro, e a sua amisade com a aristocracia portugueza e gallega por causa do seu _Nobiliario_, é mais no espirito da historia litteraria a hypothese, que o _Livro das Cantigas_ era seu pelo facto material da propriedade ou da colleccionação, e que este titulo designa um cancioneiro contendo composições de diversos trovadores. Vamos fundamentar esta hypothese: Primeiramente, o Conde D. Pedro, pelas canções que d'elle restam na collecção do Vaticano, era um mediocre trovador, e d'elle diz Affonso XI, a quem elle deixara em testamento _o seu Livro das Cantigas:_
Pois se de quant'el tem errado _serve Dom Pedro_, nem lhi dá em grado.
Alludia á inferioridade das canções de Bernal de Bonaval, que serviam ao gosto do Conde Dom Pedro. Em segundo logar, pelo Nobiliario se vê quanto o Conde era versado nas tradições bretans que adoptava como factos historicos; e no indice do Cancioneiro de Angelo Colocci se acham enumeradas como começo d'esse codice: "1. Elis o baço, duque de Sansonha, quando passou na Gram Bretanha, qual ora chamam Ingraterra, al tempo del Rey Arthur ad combater com Tristano por que lhi avia occiso o padre em uma batalha. E andando um dia em sa busca foi por Giososa Guarda ú era a reyna Isouda de Corualha, e enamorou-se ali elle, e fez por ella aquesta lais, o qual lais poemos aqui, porque era o melhor que fora feito.--2. Quatro donzellas, a Morouet de Irlanda, al tempo del rei Arthur.--3. Dom Tristan enamorado.--4. Dom Tristan.--5. D. Tristam para Genebra".
Por este conteúdo do começo do Cancioneiro que pertenceu a Colocci, e por que no codice da Vaticana mais de uma vez se citam as formas poeticas bretãs dos _lais_, podemos concluir que esses cinco Lais pertenceriam ao _Livro das Cantigas_, o qual foi encorporado em uma grande collecção formando talvez a parte que vae até as canções de el-rei D. Diniz que eram tambem um cancioneiro avulso. Por este mesmo codice de Angelo Colocci, de que resta o indice, achamos que antes da parte que constitue a colecção de el-rei D. Diniz, estavam colligidas varias canções de Dom Affonso Sanches, bastardo do rei, as canções de Dom Affonso rei de Leão, as de D. Affonso XI de Castella, e depois d'estar as do proprio Conde de Barcellos, que são ao todo nove, e tambem as de seu irmão el rei D. Affonso IV. Não era qualquer compilador ocioso que poderia satisfazer a sua curiosidade obtendo d'estes principes e monarchas as canções mais ou menos pessoaes; o Conde de Barcellos estava em uma posição especial, sabia metrificar, era estimado na côrte de D. Diniz e na de Affonso XI, e tendo passado algum tempo em Hesphanha de lá podia trazer canções de varios trovadores que nunca estiveram em Portugal. Por tanto o seu _Livro das Cantigas_ fôra formado n'estas condições particulares, e o apreço que se lhe ligava é que o fez com que o deixasse em testamento ao elegante trovador Affonso XI de Castella. A posse de um livro de cantigas era quasi um titulo nobiliarchico; na canção 76 da Vaticana, feita á maneira de sirvente por Affonso XI contra o Dayão de Calez, diz que elle tinha um _Livro de Sons_, por meio do qual seduzia todas as mulheres. Foi tambem pelo seu gosto pela poesia provençalesca que o Conde de Barcellos manteve a sympathia de D. Affonso IV, filho legitimo de D. Diniz, e por isso em uma canção de louvor é chamado o _rimante d'el-Rei_. Por tudo isto é mais crível que o _Livro das Cantigas_ do Conde fosse o primeiro nucleo com que se formou por juxta-posição o grande cancioneiro portuguez, do qual um dos apographos é o codice da Vaticana; dizemos por juxta-posição, por que se lhe segue o de el-rei Dom Diniz, e porque muitas canções de codice de Roma se acham aí mesmo repetidas, indicação inevitavel de terem sido colligidas de fontes diversas. Quando o Conde Dom Pedro falleceu já era morto Affonso XI, e isto explica como poderia extraviar-se em Castella esse _Livro das Cantigas_, e como Pero Gonçalves de Mendoza viria a obter a copia que se guardava em um grande volume em casa de D. Mecia de Cisneros, e pela primeira vez citada por seu neto, o Marquez de Santillana.
2. Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz
O corpo das canções de el-rei Dom Diniz occupava uma grande parte do codice de Dona Mecia de Cisneros; occupava tambem uma parte importante no apographo de Colocci, bem como no codice da Vaticana. O modo como esta grande quantidade de canções de el-rei Dom Diniz entrou em uma vasta compilação explica-se naturalmente, por isso que pelo catalogo dos livros de uso de el rei Dom Duarte acha-se citado o _Livro das Trovas de el-rei Dom Diniz_, do qual se pode inferir terem existido varias copias, por que o numero das canções varia entre as enumeradas no indice de Colocci e as contidas no codice da Vaticana, contando este ultimo cincoenta e uma canções a mais. Alem d'isso, na parte do codice que encerra as canções de D. Diniz, a canção 116 acha-se repetida outra vez sob o numero 174 com variantes e differente disposição de estrophes, o que denota que essa parte foi compilada de copias secundarias, mas classificadas, como vemos pelo titulo das _Cantigas de Amigo_ dado a um certo genero de canções, especialmente de imitação popular. É provavel que os autographos que serviam para os traslados nitidos dos amanuenses fossem por vezes aproveitados por outros compiladores; de el-rei Dom Diniz andava tambem um codice poetico em poder dos Freires de Christo de Christo de Thomar. Os muitos jograes da Galiza, de Castella e de Leão, que frequentavam a côrte de Dom Diniz, tambem colligiriam esses corpos de canções de _Serranilha_ e de _Mal-dizer_ que os privados dos monarchas trovaram, e que elles decoravam para cantarem de officio. Os jograes formaram collecções dos melhores cantares para recitarem ou acompanharem á citola, pelo que recebiam dinheiro; o costume de ter jograes de _Segrel_ ao serviço da casa real levava tambem a formar estes pequenos cancioneiros escolhidos.
3. O Cancioneiro da Ajuda (ou do Collegio dos Nobres).
O facto de se encontrarem _cincoenta e seis_ canções communs ao Codice da Ajuda e ao da Vaticana, torna indispensavel o resumir aqui o que se sabe da historia externa do Cancioneiro da Ajuda. As suas folhas são de pergaminho, a duas columnas, com pauta para a musica das canções que se deveria escrever em seguida, e com varias vinhetas separando os diversos grupos de canções de cada trovador e com letras historiadas. O cancioneiro está truncado, pois que começa na folha 41, e não existe o final, não só por incuria dos possuidores, que o baralharam encadernando-o tumultuariamente com o Nobiliario, grudando algumas folhas ás capas, mas tambem por que o estado da copia, sem assignatura ou designação dos trovadores, letras historiadas incompletas, e falta de notação musical, nos revelam que o codice não foi dado por acabado. Esta collecção começou-se ainda no reinado de D. Diniz, por que juntando-se as folhas lê-se escripto no córte d'ellas: _Rei Dom Diniz_, e d'isto tambem se pode deduzir, que se não perderam muitas folhas do principio e do fim. D'este codice foram encontradas mais 24 folhas avulsas na Bibliotheca de Evora, e é tradição corrente que na de Coimbra existiam algumas outras tambem.
A inspecção do Codice da Ajuda, confrontado com outros Codices europeus, mostra-nos que elle pertencia indubitavelmente a diversos trovadores; Varnhagem notou que existiam dezaseis vinhetas imperfeitamente coloridas, que estão desenhadas junto ás canções 2, 36, 37, 149, 157, 170, 173, 184, 190, 231, 233, 249, 253, 255, 259 e fragmento _h_. (Notas ás _Trovas e Cantares_, p. 348.)
Alem d'este vestigio paleographico, o confronto com o Codice da Vaticana levou a achar os seguintes trovadores, communs aos dois Cancioneiros: Pero Barroso, Affonso Lopes Baião, Mem Rodrigues Tenoyro, João de Guilhade Estevam Froyam, João Vasques, Fernão Velho, Ayres Vaz, D. João de Aboim, Pero Gomes Charrinho, Ruy Fernandes, Fernam Padrom, Pero da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, Pero Solaz, Pero d'Armêa, e João de Gaia. Todos estes nomes são de fidalgos grandes privados de el-rei D. Diniz, e alguns já figuram em doações de D. Affonso III, como D. João de Aboim e Affonso Lopes Baião; Mem Rodrigues Tenoyro vivia na côrte de D. Affonso IV, e foi entregue a Pedro cruel em troca dos assassinos de Inez de Castro.[1] A parte não assignada e que não se encontra no Cancioneiro da Vaticana será por ventura o corpo das canções escriptas durante o tempo em que a côrte de D. Affonso III esteve fixa em Santarem. Alem d'isso a parte commum tem a particularidade de conservar a mesma ordem nas canções, e ao mesmo tempo as variantes mais fundamentaes n'essas lições. D'aqui se conclue, que já existia um Cancioneiro formado, d'onde este da Ajuda estava sendo trasladado, mas que d'esse cancioneiro existiam differentes copias formadas, não directamente sobre elle, mas por meio dos cancioneiros particulares que o constituiram. A parte não commum ao codice de Roma, prova nos tambem que alguns d'esses cancioneiros parciaes se perderam, ou eram já tão raros que não chegaram a ser encorporados na collecção. Admittida a hypothese de que o Cancioneiro da Ajuda, pelo facto de ter pertencido a el-rei D. Diniz e de andar encadernado junto do Nobiliario do Conde D. Pedro, fosse o proprio _Livro das Cantigas_, como primeiro quiz Varnhagem, o facto de apparecerem aí outros trovadores prova-nos a nossa hypothese, que o Conde D. Pedro compilara sob esse titulo as canções dos trovadores seus contemporaneos. O numero de vinhetas imperfeitamente coloridas do cancioneiro da Ajuda são dezaseis; isto leva a inferir que esse codice era formado de dezeseis corpos de canções que pertenciam a dezassete trovadores. De facto a coincidencia aqui é pasmosa: o numero dos trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda e da Vaticana é de dezesete! Note-se que este numero é o que se perfaz com os nomes de _Fernam Padrom, João de Gaya, e Pero d'Armêa_, que achámos alem d'aquelles que primeiro descobriu Varnhagem. D'este numero se tira a conclusão que o Cancioneiro da Ajuda pertence exclusivamente a esses dezessete trovadores, e que as cincoenta e seis canções communs ao Codice da Ajuda eram as que andavam por cancioneiros parciaes, como as mais conhecidas, e pelas variantes que appresentam, as mais repetidas. Alem d'isso, pode suppor-se que o Cancioneiro da Ajuda não foi acabado, por que o estylo _limosino_ em que está escripto, passou de moda, preferindo-se os _Cantares d'amigo_, as _serranilhas_, as _pastorellas_, os _lais_ e as _sirventes_, mudança de gosto proveniente da grande affluencia de jograes gallegos, leonezes e castelhanos á côrte de Dom Diniz; e sob o gosto da côrte de Dom Affonso IV prevaleceram tambem as canções e musicas bretans, cuja corrente parece ainda reflectida no Cancioneiro da Ajuda, em um remotissimo vestigio, no fragmento de canção em que se lê a palavra _guarvaya_, com que o trovador allude aos seus infelices amores. Nas _Leges Wallice_, XXIII, I, encontra-se o dom das nupcias, _kyvarus_, que se pagava ao cantor da côrte: "Penkered (musicus primarius) debet habere mercedes de filiabus poetarum sibi subditorum; habebit quoque munera nuptiarum, id est _kyvarus neythans_, á feminibus nuper datis, scilicet XXIIIIor denarios."[2] A connexão historica e a interpretação litteral mostram que a _guarvaya_ do trovador portuguez é o mesmo facto ou costume bretão _kyvarus_; a verificação pelos processos da alteração phonetica pertence para outro logar. Em todo o caso este vestigio é um dos nexos mais intimos que se pode achar com o codice perdido de Colocci, em que estavam já colligidos alguns _lais_ bretãos.
A musica do Cancioneiro da Ajuda tambem foi abandonada, por que foram substituidos nos costumes outros instrumentos e outras tonadilhas; no poema francez de Bertrand Du Guesclin, fala-se de cantores bretãos na côrte de D. Pedro I de Portugal. Foi já n'esta nova corrente poetica e com o fervor que ella despertara que se começou a formar o vasto cancioneiro, de cuja existencia se sabe por quatro apographos. Crêmos que o compilador que trasladou ou organisou o texto authentico d'onde saíu o apographo do Vaticano, não soube da existencia do Cancioneiro da Ajuda, apezar das cincoenta e seis canções communs a ambos. Este facto será mais amplamente explicado.
4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros.
Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o Marquez de Santillana, no § XV, diz que se recordava de ter visto, quando era bastante menino, em poder de sua avó Dona Mecia de Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas.... O Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua avó Dona Mecia, na companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418, em Palencia. Em primeiro logar "o _grande volume de Cantigas_, e _outros livros_" citados na carta, existiam em casa de D. Mecia de Cisneros por que provinham de Garcilasso de la Vega, e de Pero Gonzales de Mendoza, como claramente o affirma Amador de los Rios: "passo su infancia en casa Doña Mencia de Cisneros, su abuela, donde hubo de aficionar-se à la lectura de los poetas en los codices que poseyeron Garcilasso de de la Vega y Pero Gonzales de Mendoza..."[3] Garcilasso de la Vega, bisavó do Marquez, morrera em 1351, e esta data, e as suas relações de parentesco com a aristocracia portugueza explicam como a elle ou a Pedro Gonzales de Mendoza chegou o volume das cantigas. Portanto esse grande cancioneiro não existia em Hespanha antes poucos annos de 1351 e foi pouco antes de 1418 que o joven Marquez de Santillana o consultou. Pedro Gonzales de Mendoza era tambem poeta do côrte de Don Pedro e de Don Enrique (Amador de los Rios, _op.cit._, p. 623), e isto mostra o interesse que o levaria pelo seu lado a conservar o grande cancioneiro portuguez.
A descripção que faz o Marquez de Santillana d'esse codice, coincide com o que existe na Bibliotheca do Vaticano em copia do seculo XVI: _"un grande volume de Cantigas serranas e dizeres portuguezes e gallegos"_. São ao todo mil duzentas e cinco cantigas compostas no genero descripto por Santillana, e os poetas são em grande numero galegos. Em seguida accrescenta: _"dos quaes a maior parte eram do rei D. Diniz de Portugal"_. Effectivamente o trovador que mais canções appresenta no codice da Vatícana é el-rei D. Diniz, cujas composições estão compiladas entre o numero 80 e 208, sendo ao todo cento e vinte nove. Accrescenta mais o Marquez de Santillana: _"cujas obras aquelles que as liam, louvavam de invenções subtis, e de graciosas e doces palavras"_. Esta affirmação, sobendo-se que o Marquez escreve sobre uma recordação da sua infancia, não podia resultar se não dos gabos ouvidos a Pero Gonzales de Mendoza, poeta do Cancioneiro de Baena, gabos que fizeram com que o livro se conservasse em casa de D. Mecia de Cisneros, e d'onde se tirara por ventura essa outra copia que hóje existe em poder de um grande de Hespanha, segundo uma affirmação de Varnhagem. N'esta mesma carta ao Condestavel de Portugal, allude o Marquez aos talentos poeticos de seu avô e cita varias das suas composições: _"E Pero Gonzales de Mendoza, meu avô, fez boas canções"_. Crêmos que por esta via é que o cancioneiro foi copiado para Castella, copiado dizemos nós porque se conforma com um grande cancioneiro já organisado, de que o de Roma é um apographo terciario. O Marquez de Santillana cita de memoria os principaes trovadores que vira transcriptos n'essa vasta collecção: "Havia outras (sc. canções) de _Joham Soares de Paiva_, o qual se diz que morrera em Galiza por amores de uma infanta de Portugal; e de outro _Ferrant Gonçalves de Senabria"_. Pela referencia a estes dois trovadores se vê qual o estado do cancioneiro manuscripto ou volume de Cantigas de D. Mecia de Cisneros. No apographo da Vaticana se acha uma canção de _João Soares de Paiva_, quasi no fim da collecção, (n°. 937) ao passo que no cancioneiro que pertenceu a Colocci e de que apenas resta o indice dos trovadores (cod. vat. n°. 3217) se acha logo sob o numero 23 o nome de _João Soares de Paiva_ com sete canções successivas. Em seguida a este trovador cita _Ferrant Gonçalves de Senabria_, porem no Codice de Colocci acha-se sob o numero 384 citado _Gonçalves de Seaura_ com dez canções a seguir. Isto concorda com a phrase do Marquez, referindo-se a essas canções: "Havia outras....." O motivo d'esta referencia especial seria por ter este trovador o apellido de _Gonçalves_, de seu avô, e por isso ainda pertencente á sua linhagem. No Codice da Vaticana agora publicado, acha-se um fragmento de canções de _Fernão Gonçalvis_, e só sob o numero 338 outra canção de _Fernão Gonçalves de Seavra_, a qual corresponde segundo Monaci ao numero 737 do Codice perdido de Colocci.
Portanto, o Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros era completo pelo que se deduz da citação d'estes dois trovadores, cujas obras se achavam antes da folha 42 do actual Codice Vaticano, na qual começa. No Cancioneiro de Colocci, em vez de _cento e vinte nove_ canções, el-rei Dom Diniz é representado com _setenta e outo;_ mas ainda assim era uma grande collecção para o Marquez poder dizer d'ella em relação ao volume das Cantigas _uma maior parte_. Em seguida a estas preciosas referencias cita tambem na sua carta _Vasco Peres de Camões_, poeta do Cancioneiro de Baena e contemporaneo de Pedro Gonçalves de Mendoza por cuja via seria conhecido em casa de Dona Mecia de Cisneros, e pelos eruditos que tinham o cuidado da educação do Marquez. Por ultimo, infere-se que o Codice de D. Mecia era uma copia castelhana, por que transcreve o nome de _Fernão_ em _Ferrant_, e o de _Seavra_ em _Senabria_, o que se não pode attribuir a vicio de ortographia do Marquez de Santillana. Estes topicos bastam para considerar a copia de D. Mecia mais proxima do texto autographo do que a da Vaticana.
5. Cancioneiro de Angelo Colocci. (_Catalogo di Autori portoghesi compilato da Angelo Colocci sopra un antico Canzoniere oggi ignoto._ Ms. 3217 da Bibl. Vat.)