O Bem e o Mal: Romance

Part 9

Chapter 93,899 wordsPublic domain

D. Alexandre ia fugindo, com a maxima velocidade de sua prudencia, quando uma segunda bordoada o apanhou pela nuca. Rugiu e afocinhou, forçado por um doloroso raspar de ferro na orelha direita.

Guilherme volveu a sondar a respiração do desertor, e responsou-o ao diabo.

D’alli correu á escada de Casimiro, e chamou-o.

—Quem é?—respondeu Casimiro com a espada apontada.

—O Lira. Creio que estão ambos mortos; um de certo. Agora, acautella-te... Já está gente nas janellas. Posso sahir pela porta de traz? Aqui reconhecem-me.

—Sahe—disse Casimiro—Vem por aqui... Quem mataste?

—Boa pergunta! A besta-féra não se levanta mais; o outro desconfio que está vivo. Deixal-o viver... Por aqui?... bem... Adeus! Segredo de sepultura, ouviste?

—A recommendação é indigna de mim.

Guilherme Lira entrou no Becco das Flores, e sumiu-se de travessa em travessa, reapparecendo, vestido á futrica, na Couraça dos Apostolos.

Quando chegou occupavam a rua centenares de pessoas. Em redor do cadaver de Ayrão estavam muitos estudantes de envolta com a policia. Nenhum academico reconhecia o morto, que trajava batina, bem que tivesse illeso o rosto. Emquanto a este, esperou-se o dia para lavrar-se auto.

D. Alexandre já tinha sido transportado em braços, e moribundo, segundo diziam os que lhe viram o rosto ensanguentado, e ouviram o archejar estertoroso do peito comprimido pelo derramamento das costas.

A visinhança dizia que vira entrar um homem de batina e capa nas escadas de Casimiro Bettancourt. A opinião geral decidiu que fôra Casimiro o assassino, visto que o sugeito entrado não sahira.

Christina chorava, e dizia, ouvindo as vozes da rua:

—Que será de nós? Prendem-te, Casimiro. Fujamos... vamos para Villa Cova.

—Socega, filha. Se me prenderem, hão de soltar-me! Attende-me, Christina: Nunca dirás uma só palavra com referencia a este acontecimento. Nunca proferirás o nome de Guilherme Lira. Nunca dirás que eu estou innocente. Juras-m’o?

—E tu... perdido, meu infeliz amigo... perdido!—atalhou ella, archejante de gemidos—desgraçado por minha causa!

Casimiro apertou-a ao seio, e disse-lhe:

—Crês em Deus?

—Se creio em Deus...

—Crês que a justiça divina me faça padecer innocentemente?...

—Mas a justiça humana...—interrompeu ella.

—Mulher de pouca fé!... Se visses a serenidade do meu espirito, vias em mim a influição de Deus!

* * * * *

As authoridades superiores, avisadas do acontecimento e do author indigitado do crime, mandaram guardar por soldados as avenidas da casa de Casimiro, para o prenderem de dia.

O academico deitou-se á sua hora regular, e obrigou a alvoroçada esposa a deitar-se com a filhinha inquieta.

Ás tres horas e meia da manhã rebentou de subito um ruido estridoroso na rua, depois de alguns repetidos brados das sentinellas.

Chegava a «Sociedade da Manta» acaudilhada por Guilherme Lira, em numero de vinte e tantos bravos, armados de refes e clavinas.

Os soldados outros tantos seriam. Á primeira carga inesperada, a tropa titubeou entre fugir ou defender-se, e, n’esta perplexidade, soffreu o desaire de ser desarmada e contundida com as proprias armas.

Libertas as portas, Guilherme chamou Casimiro, subiu e disse imperiosamente:

—Foge!

—Não fujo.

—Como não foges?

—Não: salva-te tu, que eu me livrarei da justiça.

—Não livras: diz toda a gente que tu mataste o homem. Alexandre está vivo, e diz que foste tu quem mataste o seu creado, e lhe tiraste a elle a orelha.

—Deixaste sem orelha o homem?

—Nada de riso: foges ou não?

—Já te disse, Guilherme: vai na certeza de que o teu nome nunca será envolvido na minha justificação.

Uma vez de fóra disse:

—Olha que tocam as cornetas na Sophia, ó Lira! Vem, que não temos partido contra o regimento.

—Adeus!—concluiu Guilherme—Oxalá que te não arrependas!

—Fujamos!—exclamou Christina.

—Porque me não attendes, filha? disse maviosamente Casimiro, e desceu a fechar a porta.

Poucos segundos depois, estava a rua cogulada de soldados, e muitas vozes diziam que o assassino tinha fugido com os academicos.

—O melhor é arrombarem as portas, camaradas!—dizia um cidadão—Que fazem vossês ahi, se elle fugiu? É arrombar que não ha outro modo de saber se elle está.

—Arrombar!—contrariou um alferes—a Carta Constitucional prohibe arrombar; mas bate-se a ver se falla alguem.

—Ou isso—disse o cidadão prudente.

O alferes bateu urbanamente. Casimiro abriu de prompto a janella do seu quarto, e perguntou:

—Quem é?

—Ah!—disse o alferes—está em casa?

—Estou em casa. Não quer mais nada?

—Não sr. Foi para sabermos... dizia-se que não estava lá ninguem... Perdoará o incommodo.

—Boas noutes—respondeu Casimiro. Depois, baixou a vidraça, e disse a Christina—A rua está vistosa! As armas refrangem a lua, e dão a lembrar uma illuminura da idade média! Apaga a luz da saleta, que eu gosto de ver este arraial de batalha, que me parece um sonho!

—Ó Casimiro!—balbuciou ella—como tu pódes rir, e eu sinto-me aqui morrer!

—És fraca. Nunca te tinha conhecido esse aleijão! Parecias-me uma natureza perfeita em amor, em brios, e em força. A força é que te falta, minha debil filha!

—Enganas-te, Casimiro!—replicou ella—É que eu era tão feliz!...

—E ámanhã que impede que o sejas?

—Ámanhã... estarás preso!....

—E então? A luz do teu amor teme de romper as grades da cadeia?! A nossa filhinha hesita entrar lá comtigo? Não vai commigo a imperturbavel consolação da consciencia?

—Mas eu tambem vou...

—Pois irás, filha. Quem te veda de estar com teu marido preso?!

Conversaram n’este sentido longo tempo; e já a final, Christina estava conformada com a ideia da prisão, e logo cuidou em enfardelar os fatinhos da filhinha, emquanto o marido escrevia a seguinte carta:

«Meu caro compadre.

«D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu creado está morto. Este acontecimento deu-se á porta da minha caza, ha cinco horas. O povo, a academia, e as authoridades indigitam-me como author do successo. Esperam que nasça o sol para me prenderem.

«Escrevo-lhe agora, 4 horas da manhã, receando que os interrogatorios me tirem o tempo no correr do dia.

«Minha mulher tem estado attribulada, mas, como appelei do seu coração para a sua coragem, vejo-a reanimado e esperançosa da minha absolvição em despeito do povo, da academia e das authoridades.

«Peço aos meus amigos que não se afflijam, e me creiam forte bastante para luctar com o mal do mundo. Refugio-me na vossa estima, e sou o vosso irmão agradecido, _C. Bettancourt_.»

Ao apontar o sol, a authoridade administrativa, auxiliada pela militar, bateu á porta de Casimiro, e esperou instantes. O proprio academico desceu a abrir, e offereceu ceremoniosamente a sua casa.

—Está o sr. preso—disse o administrador.

—Já o sabia—respondeu Casimiro.

—Bem. V. s.ª acompanha-me. Irá comnosco o sr. alferes da companhia.

—Como queiram: vou só, vou com v. sr.ᵃˢ, vou com a escolta: para mim é de todo o ponto indifferente.

—Dispenso a força, sr. alferes, disse o administrador: póde v. s.ª mandal-a recolher com o sargento; o sr. alferes tem de ficar para solemnisar a prisão d’este academico que é furriel.

—Se querem subir...—disse o preso.

—Não, senhor: vá, e volte, que nós esperamos.

O administrador, em quanto Casimiro subiu a dar as ultimas palavras de conforto a sua mulher, disse ao commandante da força:

—Este homem ou está innocente, ou excede tudo que eu tenho visto em coragem!

—Será cynismo? replicou o militar.

—É cynismo, não pode deixar de ser cynismo—optou o cidadão que propozera o arrombamento das portas.

No entanto, Casimiro dizia a Christina, depois de beijar Mafalda:

—Eu escrevo-te de casa do administrador, dizendo-te o meu destino; naturalmente irei de lá para a cadeia; e tu, como boa gerente da casa—continuou elle jovialmente—irás lá ter, depois de ter dado as ordens para o jantar. Olha que a instauração de um processo por crime de morte não obriga a jejum, minha filha. Lembra-te que as consciencias puras concorrem muito para o bom appetite, e são optimas auxiliares do estomago. E adeus, até logo.

Christina ajoelhou com a filha nos braços, e orou. E, orando, ouvia dizer fóra:

—Mas como elle vai direito e senhor seu!

—Elle se entortará quando lhe pezarem nas costas os caibros da Portagem!

—Terá pena ultima?—perguntava uma rapariga de má vida, e acrescentava: coitadinho! é tão novo, e de mais a mais casado, e tem uma filhinha!...

—Deixal-o ter!—atalhava uma velha, que vinha da missa d’alva, e ia ouvir a segunda, para depois ir ouvir a terceira—Deixal-o ter! Quem mata, morra! As forcas não se inventaram para os que morrem, é para os que matam.

O axioma foi applaudido pelo cidadão prudente, e outros sujeitos honestos, cuja garganta zombára muitas vezes da corda de esparto do Livro V das Ordenações.

E Christina callava a oração para escutar, e orava para não ouvir.

Perguntou a authoridade a Casimiro Bettancourt o nome, a naturalidade, os annos, o estado, a profissão, etc. E proseguiu:

—A voz publica e as apparencias dão-no ao senhor como homicida de um homem ainda desconhecido, e tambem o incriminam de espancador de D. Alexandre de Aguilar, cuja vida está ainda duvidosa. O sr. Bettancourt é réu d’estes crimes?

Casimiro não respondeu.

—Ouviu a pergunta que lhe fiz?—tornou a authoridade suspeitando a surdez do preso.

—Ouvi, sim, senhor.

—Que responde?

—Nada.

—Nada?! é boa essa!... Matou ou não matou?

—Se ha provas de que fui eu, porque m’as pedem? Se as não ha, porque me prendem?

—A lei manda interrogar os réus.

—Póde ser; mas não obriga os réus a responder.

—O silencio é uma confissão—redarguiu o administrador.

—É o anexim «quem calla consente» arvorado em axioma juridico. Boa hermeneutica!

—Modere as suas ironias, que a occasião é inopportuna, sr. Bettancourt. D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça diz que fôra atacado pelo sr. Casimiro, quando passava á sua porta.

—Se o diz, elle o provará.

—A visinhança depõe que v. s.ª entrára em sua casa depois de ter deixado morto um homem e o outro cahido.

—Já sei: ouvi o parecer de meus visinhos antes de v. s.ª os interrogar.

—E que diz a isto senhor?

—Nada.

—Diz que está innocente?

—Já tive a honra de dizer a v. s.ª que não digo nada. As provas responderão por mim, e a lei me julgará.

—Está claro. Vai v. s.ª recolher-se á cadeia, e esperar lá a nota da culpa.

—Posso ser visitado por minha mulher e minha filha?

—Sim, senhor, em quanto a policia julgar isso indifferente ao processo.

—E quando póde impecer ao processo que eu veja minha familia?

—Ha casos...

—Bom. Recebo as suas ordens.

—Vai acompanhal-o um official do juizo. O sr. Bettancourt inspira-me confiança, e por isso o allivio do vexame de ir com soldados.

—Agradeço a confiança; mas os soldados não me vexam: cumpra v. s.ª o seu dever de authoridade.

—Vá, e pense sériamente na sua situação, que é grave, sr. Bettancourt. Póde ser que o senhor esteja innocente; mas as suas desavenças anteriores com D. Alexandre condemnam-no. Póde ser que v. s.ª matasse em justa defeza: se assim foi, convém attenuar a culpa com essa circumstancia. Esse seu systema de responder com o silencio, sobre ser excentrico, é confirmativo da imputação. Dou-lhe este conselho, movido pela sympathia que me causa a sua abnegação e como despreso da vida. Sei que tem familia, e avalio as angustias de sua consorte; por isso lhe peço que se abstenha d’esse stoicismo inutil, e—peior ainda—prejudicial. Se póde, decline de si a responsabilidade de um homicidio, que é sempre e em todos os casos deshonra. Se matou, negue, negue sempre!—acrescentou o administrador, collando-lhe no ouvido os labios.

Casimiro agradeceu o conselho com um sorriso, e sahiu á direita do official de justiça.

Á porta da authoridade, quando Casimiro sahiu, agglomerava-se um cento de pessoas, gentio baixo, regateiras da praça de Sansão, serventes, gaiatos, e alguns cidadãos honestos, nomeadamente o oraculo da Couraça dos Apostolos. A custo rompeu o aguazil a multidão, que se premia em redor de Casimiro, e lhe roçava as faces com o halito acre da aguardente.

—Chamo soldados!—bradou o official de justiça.

—Não é preciso—disse um academico, que estanceava mais distante n’um grupo de estudantes.

E, tirando a carreteira das mãos de um lavrador, cresceu sobre a multidão, e apanhou quatro cabeças da primeira paulada. A rua, momentos depois, estava deserta, como se passasse n’ella a ira do Senhor.

—Foge que é o Lira!—diziam muitas vozes, convulsas de terror, menos o cidadão da Couraça dos Apostolos, que levou a sua cabeça ao visinho boticario.

Era, com effeito, Guilherme Lira, cujo sangue refervia em phrenesi, e sêde de beber o sangue da humanidade. Infurecia-o o remorso de ter deixado vivo D. Alexandre! Saber elle que o vil declarava ter sido assaltado por Casimiro, espicaçou-lhe o odio e a ancia de ir estrangulal-o em casa. Depois, via Casimiro preso, sabia já as suas respostas á authoridade, pungia-o o arrependimento de o perder, quando cuidava salval-o de inimigos infames, e não poder salval-o, sem se declarar elle mesmo o aggressor!

O governador civil, o reitor, as authoridades subalternas, receiosas de sublevação academica, instigada por Guilherme Lira, preveniram a tropa, e assignaram ordens de prisão dos mais celebres desordeiros, no caso de motim.

A este tempo estava na cadeia Casimiro Bettancourt, contrastando, com sua quietação, o reboliço que fremia cá fóra. Christina seguira-lhe os passos, e entrara apoz elle. Mafalda ia muito risonha e fagueira. Não fallava, mas gesticulava as suas caricias, e pendurava-se do collo do pai, beijando-lhe os olhos.

E Christina observava em redor de si a nudez, a sombra, a immundicie da salêta. Queria chorar; mas pejava-se do esposo, e retinha-se para o não affligir.

—Voltas a casa, minha filha?—disse Casimiro—Olha que são dez horas, e nós costumamos almoçar ás nove. Basta de sacrificio á justiça humana, Christina! Uma hora é de mais!

—Tu não estás muito triste, pois não, meu Casimiro?—exclamou ella, cingindo-lhe o pescoço, com quanto carinho podem exprimir as angustias supremas.

—Se estou triste!... Quando me viste mais risonho, Christina!... Alegre, minha esposa, alegre como esta creança que te sorri! A minha consciencia está serena como a d’esta menina; por isso nos vês tão contentes ambos!

XIII

O Réu

A carta, recebida em Villa Cova, foi a primeira grande angustia que alanceou o coração de Ladislau.

Correu á igreja, e d’ali a uma aldeia da serra, onde estava o vigario sacramentando um enfermo. Leram a carta, e ambos inferiram que o matador era Casimiro; justa inferencia dos termos d’ella.

—Matar!—disse o vigario consternado.—Matar!... Eu não cuidava isto de Casimiro! Nem ao menos diz que matou defendendo sua vida, a vida de sua mulher, e de sua filha!... Repara tu na serenidade com que elle diz: _D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu creado está morto. Este acontecimento deu-se á porta de minha casa ha cinco horas. O povo, as authoridades, e a academia, indigitam-me como author do successo..._ Se não fosse elle o author, diria: _indigitam-me falsamente!_... E mais abaixo: _Minha mulher tem estado attribulada, mas como appelei do seu coração para a sua coragem, vejo-a reanimada e esperançosa de minha absolvição em despeito do povo, da academia e das authoridades!_... De que elle fia a sua absolvição, se as provas o condemnam a tal ponto que tudo lhe é contra!... Ó meu Deus, meu Deus! que conta havemos de dar á nossa consciencia de termos trabalhado para o casamento de Christina com este malfadado!

Ladislau ouviu a mais larga exclamação do attribulado sacerdote, e disse com pausa:

—Eu estou em crêr que Casimiro não matou.

—Ó homem, tu não intendes esta carta?

—Penso que intendi. Onde diz elle que matou?

—E onde diz elle que não matou?—retorquiu o padre.

—É verdade: não confessa nem nega. Diz que o apontam como matador. Isto é differente. Eu leio no Evangelho que Jesus Christo, quando o arguiam...

—Calla-te meu irmão! esses confrontos são sacrilegos!—atalhou o sacerdote, inflammado em zelo santo.

—A minha intenção era boa, Deus o sabe. Seja o que fôr, eu creio que o meu compadre está innocente. Um homem, que mata, não escreve assim com este socego. Aqui ha mysterio, e continuará a havel-o. As cartas demoram-se; e, quer demorem quer não, amanhã vou para Coimbra e Peregrina vai comigo. Desgraçada Christina!... E que terá elle penado? que fará sósinha a pobre menina com sua filha?...

—Vai a Coimbra, Ladislau, vai!—disse o vigario—Se é criminoso, amparemol-o; se não é, ajudemol-o a vencer as iniquidades do mundo, querendo Deus que nós sejamos instrumentos de sua divina justiça. Eu tambem iria, se podesse: escrever-lhe-hei as consolações da religião.

No dia proximo sahiram de Villa Cova Ladislau, Peregrina, e o menino, a grandes jornadas para Coimbra. O lavrador levava todo o seu peculio, o ouro de sua mulher, e alfaias de antiga prata, que havia em casa. Apearam na estalagem, e foram d’alli á cadeia. Encontraram Casimiro sentado á meza de jantar com a filha no collo, e Christina a um canto da salleta aquecendo café n’um fogareiro.

—Não t’o disse eu?!—exclamou Christina, quando o chaveiro abriu a porta, e deu entrada aos visitantes—Não veio carta, vieram elles!

As duas senhoras abraçadas fallavam em soluços. Ladislau rompeu tambem em pranto desfeito. Casimiro, porém, sereno e com os braços abertos, dizia:

—O compadre tambem é dama?! Não rivalisemos com as nossas mulheres no seu privilegio de chorar!... Conversemos como homens.

—Está innocente, meu amigo?—perguntou de sobresalto Ladislau.

—Que pressa!...—respondeu em ar de graça o prezo—Parece que o meu compadre sahiu de casa com essa pergunta á flor dos beiços. Ora, diga-me: se eu lhe responder que matei o desertor, e feri de morte o fidalgo, o meu amigo retira-me a sua mão pura e generosa?

—Não. Casimiro só mataria um homem defendendo-se. Foi em defesa que o matou?

—Vou responder-lhe; porém, requeiro á sua nobre alma um juramento antes de me ouvir. Não lhe digo que me jure por seu pai, pela vida de sua esposa ou filho: jure por sua honra.

—Jurei.

—Agora saiba que eu não matei, nem mandei matar.

—Oh meu amigo!—clamou com agitada vehemencia Ladislau.

—Não falle mais alto que eu, meu compadre, que póde ser ouvido. Não matei nem mandei matar, nem folguei com a morte do assassino trazido para mim, nem com os ferimentos de D. Alexandre. Houve um homem que me quiz salvar dos dous inimigos, que me esperavam, e matou-os, no momento em que me arrombavam as portas. O nome d’este homem irá commigo e com minha mulher á sepultura: nunca m’o pergunte. A sociedade proclama-me assassino: embora. Deus me defenderá e salvará. Aos interrogatorios nada respondo que me absolva ou condemne. Veremos se o jury me vê provado assassino. Agora, meu amigo, tem o sr. a sua honra de sentinella á sua lingua. Tomemos café. São só duas as chavenas; mas tambem ha dous pires: as chavenas para os hospedes; os pires para nós, Christina. Arranja lá isso.

Ladislau fitava nos olhos Casimiro, e murmurava:

—Que homem! que desgraçado tão digno d’outra sorte!

—Veja lá o que são as cousas! eu cuidei que meu compadre me estava invejando esta paz de coração!—disse Casimiro.

Horas depois, sahiram duas senhoras a transferir a bagagem da estalagem para a casa da Couraça dos Apostolos. Concordaram em viver juntas, nas horas em que era vedado o ingresso no carcere.

O processo proseguiu seus termos, com desvantagem de Casimiro, sem embargo de ser vigiado pelo primeiro advogado de Coimbra, que alcançára procuração do réu, depois de muitas instancias suas e de Guilherme Lira.

D. Sueiro de Aguilar tinha descido a Coimbra, com comitiva de dois lacaios, e dinheiro grosso para, consoante a sua phrase, _erguer, sendo preciso, uma forca de ouro, onde perneasse o assassino de seu irmão_.

D. Alexandre erguera-se ao cabo de vinte dias, e composera as melênas de modo, que o logar da extincta orelha ficasse coberto de lustrosas espiraes. A orelha cancerára e cahira, deixando um orificio hediondo e pustuloso. Guilherme Lira, quando acertava de o encontrar, dizia-lhe sempre:

—Cuidado com a outra.

—A outra quê?—animou-se a perguntar D. Alexandre.

—A outra orelha, patife!

O epitheto gelou de neve as cavernas d’aquelle vil peito que esvasiava o pus pelo esqualor do ouvido.

D. Sueiro accelerava o processo, e descia de sua prosapia regirando do advogado para o escrivão, do procurador para o delegado, do juiz para os influentes do jury.

N’uma d’essas suadas correrias, passando ao escurecer no bêco de D. Sisenando, encontrou um academico, que lhe cingiu ao pescoço umas mãos, que pareciam golilhas de ferro, e lhe jogou a catapulta da cabeça, tres vezes, contra a hombreira do floreado granito da porta do palacio, onde morreu apunhalada a irmã da rainha D. Leonor Telles. Depois, largando-o atordoado, disse:

—Primeira admoestação!

E andou.

D. Sueiro, ao outro dia, escreveu a todos os governadores possiveis de Coimbra. A policia fingiu que se mechia, e D. Sueiro não sahiu da cama.

O leitor já sabe que só Guilherme Lira podia tentar a destruição da melhor pedra monumental de Coimbra com a cabeça de D. Sueiro de Aguilar Vito etc.

Um homem sisudo da policia disse ao rico-homem de Miranda:

—O meu parecer é que v. ex.ª vá para sua casa. A meu vêr, o fidalgo traz á perna a _sociedade da Manta_. Dê louvores a Deus em o não terem matado como fizeram a um lente, ha dous mezes: e perdoará o atrevimento do seu servo em o aconselhar. Em quanto a mim quem quebrou a cabeça de v. ex.ª foi o Guilherme Lira! Mas vão lá prendêl-o, e, de mais a mais, sem provas! Bem aviado estava eu! Elle bate-se com um regimento, e é capaz e mais os seus trinta companheiros, de arrasar Coimbra.

—Então isto aqui é um sertão de selvagens!—bradou D. Soeiro—As leis...

—As leis estudam-se aqui—disse o cadimo aguazil—e o Guilherme Lira sabe-as bem, que é quintanista de direito; mas o malvado despreza as leis de papel, e tem lá umas de pau para seu uso, não digo bem: para uso d’aquelles que as levam impressas nas costas. Em fim...

O homem da justiça encolheu os hombros, e despediu-se.

No dia seguinte, D. Sueiro foi para Miranda, e levava ainda uns parches de alvaiade na testa, e uns pontos nos tegumentos sobrejacentes aos ossos parietaes.

D. Alexandre ficou; porém, assim que o sol inclinava ao poente, recolhia-se. Guilherme Lira entrava em casa todas as noutes, e espreitava-o da janella. Cada noute, ao vêr-lhe a luz no quarto, arrepellava-se. Dizia com picaresco chiste o feroz academico a Casimiro: «a vida d’aquelle homem peza-me como um burro sobre o peito!»

E Bettancourt pedia-lhe encarecidamente que o deixasse, por ser um estorvo nullo á sua liberdade.

Ruy de Nellas, conscio do successo, mandou chamar o vigario de S. Julião da Serra, e informou-se. Padre João Ferreira relatou de cór o contheudo da primeira carta de Casimiro, e mostrou duas linhas de outra de Ladislau, que dizia: _Casimiro está innocente. Casimiro é victima da sua honra. Nada mais te digo, porque só isto me é permittido dizer, e a ti só, meu irmão._

—E tu crês na innocencia de Casimiro?

—Creio, meu padrinho, como creio que vivo.

—E elle deixa-se ir á revelia?

—Não posso, nem sei responder a v. ex.ª

—É preciso que eu o proteja. É preciso, que elle é marido de minha filha! Os de Miranda não hão de levar a melhor.

—Que quer v. ex.ª que se faça?

—Que vás a Coimbra, e leves dinheiro para elle, e para a justiça.

—É desnecessario dinheiro. Meu cunhado foi prevenido.

—Deixal-o ir. O dinheiro que eu mando, é meu; quero que minha filha o receba! Eu vou mandar o meu capellão substituir-te na igreja, e tu partes já para Coimbra.

—Recebo as ordens de v. ex.ª