O Bem e o Mal: Romance

Part 8

Chapter 83,867 wordsPublic domain

—É por que os seus livros são bons—atalhou Casimiro Bettancourt—A corrompida sociedade da Roma imperial não tinha gazetas; mas tinha historiadores e poetas. Se meu compadre os ler, imagina que maus inventores o querem deleitar com fabulas hediondas. O homem foi sempre mau; será mau até ao fim. A sociedade parece melhor do que foi, olhada collectivamente: é parte n’isto a lei, e grande parte o calculo. Cada individuo se constrange e infrea no pacto social para auferir as vantagens de o não romper: porém, o instincto de cada homem, em communidade de homem, está de continuo repuchando para a desorganisação. Eu acceito, como puros os corações formados na solidão, a não se dar a segunda hypothese do proverbio, que disse: homem sósinho, das duas uma: ou Deus ou bruto[4]. Melhor seria dizer, com Santo Agostinho, ou anjo ou demonio. Ladislau formou-se aqui, rescende virtudes extraordinarias; mas, se fôr ás cidades, á feira dos vicios, sentirá coar-lhe um veneno corrosivo nas entranhas; e, a meia volta, perderá de vista a benigna estrella d’estas suas montanhas. Ó meu amigo, não se alongue do seu paraizo! não queira saber que nome tem, a dez leguas da sua aldeia, o que meu compadre chama dever, civilisação, amor, caridade e Deus.

Os gosos da vida domestica aligeiravam os mezes da inactividade de Casimiro. Ao quinto de residencia em Villa Cova, realisou-se a ventura saudada por Peregrina na estalagem de Gouvea: Christina foi mãi de uma menina, que trouxe do céu o seu quinhão de felicidade, do qual todos participaram.

Queria o pai que Ladislau e Peregrina fossem padrinhos; mas o vigario, consoante as velhas praxes de filhos casados contra vontade paternal, pediu que fosse convidado o avô, por carta de D. Christina.

Escreveu ella com humildade sem baixeza uma carta, onde se lia este periodo:

«É uma ternura filial que me anima a escrever a meu pai: não é a necessidade que me obriga. Se sou pobre, ainda não tive occasião de sentir desejos de ser rica. O perdão de meu pai é que eu desejo e peço, se foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade. Quizera um dia beijar as mãos de meu pai e dizer-lhe que tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro.»

Foi lida a carta e discutida. O vigario achou duras algumas palavras d’aquelle relanço, e pediu a illisão das palavras: «_se foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade_»; bem como: «_tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro_.» As primeiras palavras foram substituidas: as ultimas não. Christina nem ao marido obedeceu.

Ruy de Nellas recebeu a carta, e leu-a sem rancor até ás expressões rebeldes á censura do vigario; mas, n’este ponto, rasgou o papel e disse ao portador:

—A resposta é esta: diz lá que eu é que não tenho vaidade nenhuma em ser padrinho de um filho do sr. Casimiro.

Tal resposta magoou medianamente a familia de Villa-Cova.

—É soberbo!—disse Ladislau.

—Preconceitos de raça—acrescentou o vigario.

—Não tem outra falha a excellente alma do sr. Ruy.

—Pois ha de ser padrinho da neta!—tornou Ladislau.

—Que capricho é esse, meu compadre?—perguntou Casimiro.

—Não é capricho: é batalha dada contra a soberba: havemos de amolgal-a com a brandura.

Na segunda dominga, posterior ao nascimento da menina, sahiu, ante-manhã, de Villa Cova Ladislau, uma ama de leite, e a creancinha. Chegaram a Pinhel ás nove horas, e elle entrou á igreja parochial, onde, por informações de mestre Antonio carpinteiro, Ladislau soubera que o fidalgo ia ouvir missa. A ama sentou-se no adro, e esperou, rodeada de meninos, que se acotovellavam para ver o rosado rosto da baptisanda.

Ladislau apresentou-se ao abbade, com uma carta do padre João Ferreira, e conversaram.

Ás dez horas tangeu a sineta á missa, e chegou o fidalgo com suas filhas, e foram ajoelhar na alcatifa da sua capella privativa. Antes do terceiro toque, o abbade aproximou-se de Ruy de Nellas, e disse-lhe:

—Faz v. ex.ª a esmola de fazer christã uma creancinha?

—Sim, abbade, pois não!

—E de escolher a madrinha?

—Será minha filha Mafalda.

Chamou elle a menina, e acercaram-se do baptisterio.

A ama entrou com a creança, chamada pelo sachristão.

A um lado, estava Ladislau com uma tocha, escondendo-se ao lance d’olhos de Ruy de Nellas.

Ao descobrimento da menina, Mafalda exclamou:

—Ai! tão linda que é!... Veja, papá! Ó manas, venham ver que perfeição!...

—Quem são os pais?—disse o fidalgo.

O abbade, como tivesse começado as ceremonias do sacramento, não respondeu; e, pouco depois, perguntou:

—Qual é o nome?

—É o meu—disse Mafalda.

Findo o acto, foram á sachristia lavrar no livro o assento baptismal.

O abbade escreveu á vista dos apontamentos, e leu depois para conhecimento dos padrinhos:

«Mafalda, natural de Villa-Cova, termo de Pinhel, filha legitima de Casimiro Bettancourt, natural de Santarem, e da ill.ᵐᵃ e ex.ᵐᵃ sr.ª D. Christina Elisiaria de Nellas Gamboa de Barbedo»...

—Como?!—exclamou o fidalgo—Como se intende isto? Que abuso foi este, sr. abbade?!

Ladislau sahiu do escuro da sachristia, e disse:

—O abuso é meu, sr. Ruy de Nellas. E v. ex.ª não me castiga, porque eu vou pôr em seus braços a creancinha a implorar o meu perdão e o de sua mãi.

E tomou a menina dos braços da ama, e depositou-a nos da madrinha, dizendo-lhe:

—Seja v. ex.ª a intercessora de sua irmã!

—Dê-lhe um beijo, papá! rogou maviosamente D. Mafalda.

O velho poz a mão na face da creança, e disse:

—Não tens culpa tu, pobre innocente!...

E o abbade continuou a leitura do assento baptismal, sorrindo, e olhando por cima dos oculos, para ver Ruy de Nellas, que deixava chupar-lhe a creança no dedo mendinho.

Ao sahirem da sachristia, o fidalgo disse á ama da creança.

—Vá lá a casa, depois da missa, mulher, e o sr. tambem se quizer.

Ladislau fez um signal de agradecimento.

Finda a missa, a menina foi levada a casa do avô. As quatro tias deram inquietações á ama, temerosa de que lhe abafassem a creança com beijos.

Entretanto, Ladislau contava a Ruy de Nellas os successos de Coimbra e os aleives da correspondencia da «Vedeta da Liberdade».

O velho ouviu-o em silencio; mas com ar de satisfação, em quanto aos brios de seu genro no justo castigo de Alexandre; porém, quando soube que as gazetas traziam o seu nome aparelhado com o do carpinteiro, irritou-se, e clamou:

—Quando pensei eu de andar pelas gazetas!... É o que minha filha me arranjou!...

Este accesso durou alguns segundos.

Continuaram a conversar serenamente. Eram horas de partir para Villa-Cova. O fidalgo mandou entrar a afilhada, e deu-lhe um beijo, e duas peças á ama.

E—caso unico!—apertou a mão do lavrador de Villa-Cova, e disse-lhe por ultimo:

—O tempo fará o resto. É cedo por ora! A ferida sangra ainda!

—O balsamo do Evangelho, sr. Ruy de Nellas...—respondeu Ladislau, sahindo.

XI

Guilherme Lira

Seria ocioso, bem que alegre trabalho, contar os jubilos de Christina, retomando ao seio a filha, que seu pai e irmãs tinham beijado. Casimiro, homem não estranho a vanglorias, que parecem ser condição das indoles arremessadas ás glorias uteis, folgava de ver sua filha acariciada pelo fidalgo, cuja prosapia, o moço, nas verduras dos dezoito annos, sinceramente invejava. Ó barro humano!

Disse Ladislau que Ruy approvára a sahida de Coimbra, e esperava que o anno decorrido esfriasse a vingança de D. Alexandre, estando elle de mais a mais como vingado, fazendo crer que lhe fugia Casimiro. Era tambem este o parecer do vigario e de Ladislau. Casimiro, ainda assim, dizia contrariando:

—Não, meus amigos: o odio dos fracos é inextinguivel; é a unica força, a energia tenebrosa, que lhes deu a natureza.

No seguinte anno lectivo, voltou a Coimbra, com maior familia, o pobre grangeador do futuro. Doia-lhe ter de augmentar suas despezas, sahidas todas dos celleiros de Villa-Cova. Era grande magoa para o aberto coração de Ladislau entender em pacificar o espirito do seu amigo, fazendo-lhe sentir que escassamente lhe emprestava uma parte das sobras de suas colheitas. E santamente mentia Ladislau! A sua lavoura, comquanto grande, era toda de cereaes, vendidos por baixo preço, e urgentes ao consummo e vestir de sua familia. O que elle estava dispendendo era dinheiro antigo, que encontrára, ouro do seculo XVI, peculio amuado ao canto do armario de pau santo, em que seus tios padres iam annumerando algumas moedas, muitas menos que as derramadas pela pobreza.

Lembrava-se Christina de escrever ao pai, a pedir-lhe sua legitima materna. Casimiro, antes que ella expendesse o seu pensamento, atalhou-a n’estes termos:

—Sendo preciso, iria primeiro pedir a meu tio carpinteiro metade do seu estipendio de cada dia.

Peregrina, sabedora do intento, revelara-o ao marido.

Ladislau, a sós com a filha de Ruy de Nellas, queixou-se, observando-lhe que era crueldade obrigal-o a faltar á sua palavra, tendo elle dito a Ruy de Nellas que sua filha e marido nunca lhe pediriam meios de vida.

Os raros amigos de Bettancourt, assim que o viram em Coimbra, repetiram-lhe as calumnias divulgadas, fingindo não acredital-as. O mais sincero e rude ousou dizer-lhe:

—Déste um mau passo em fugir.

—Não fugi. O amigo, a quem devo a minha subsistencia em Coimbra, chamou-me, e eu fui.

—Não devias ir, tendo sido desafiado por D. Alexandre.

—Nunca fui desafiado.

—Como não foste!?

—Nunca fui desafiado; e, no caso de o ter sido, regeitaria a proposta. Não jogo friamente a vida, que é de minha mulher e de minha filha, contra a vida de D. Alexandre, que é um homem abjecto, nem contra a vida do mais extremado em probidade. Nunca para mim alguem provará a sua honra, batendo-se com victoria, nem o vencido terei em conta de deshonrado. O duello póde significar algumas vezes coragem, mas sentença absolutoria de um infame, nunca.

—Mas decididamente não fugiste ao duello?

—Offende-me a renitencia—respondeu Bettancourt molestado.

—Desculpa, que é a renitencia de um amigo zeloso de tua dignidade. A academia acreditou em D. Alexandre e nos propagadores do boato. Appareceram homens a dizerem que tinham sido agentes do desafio.

—Mentiram.

—Mas a mentira vingou.

—Estou resignado: já a vi impressa n’um jornal, e achei-me forte na minha consciencia.

—Mas a opinião publica...—voltou o academico, espicaçando, em nome da opinião publica, o animo impenetravel do marido e pai.

—Que queres que eu diga á opinião publica?

—Que a desmintas: escreve uma correspondencia.

—Não desço.

—Descer! pois é descer acudires por tua honra!?

—Se a consciencia me não accusa, que logro eu em constituir a academia meu juiz? Além de que, meu amigo, eu venho estudar. Falta-me o tempo para o util: como hei de eu ir dispendêl-o a entreter a curiosidade publica? Diz aos teus amigos que eu sou calumniado, e elles julguem-me a seu sabor.

—Faz o que quizeres: dou por cumprida a minha missão de amigo.

* * * * *

Christina vivia tranquilla. Ladislau, que lançara espias em Miranda, soubera que D. Alexandre sahira para Coimbra, e o desertor ficára. A nova agradou a Casimiro, receioso dos sustos da senhora.

Recomeçou o academico os estudos do segundo anno com fervor. Sabia que seus mesmos condiscipulos o detrahiam, lamentando, como usam lamentar inimigos, a nodoa da farda de um militar. O facto estrondoso do botequim da rua Larga tinha esquecido, ou era interpretado de varios modos, todos estupidos; que a malquerença faz timbre em ser estupida, quando não póde ser feroz. Todavia, a frechada não lhe vasava ao coração. O pai extremoso abroquellava-se com a filhinha, e dizia á esposa:

—Sêde o meu mundo. Aos teus olhos sou quem sou, minha amiga. Infamam-me lá fóra; mas diz-me tu, filha, que eu sou digno de ti.

N’um sabbado ao cahir da tarde, passaram á Ponte, vindos da Quinta das Lagrimas, Casimiro, e sua mulher.

D. Alexandre de Aguilar estava sentado com numerosos estudantes nas guardas da ponte. Ao perpassar Casimiro, o fidalgo de Miranda tossiu aquelle grunhido peculiar do insulto. Os academicos de sua parcialidade, em respeito á dama, abstiveram-se de acompanhar o amigo na _trossa_.

D. Alexandre, desenfreado como costumam os covardes no momento em que persuadem-se não o serem, disse:

—Não se envergonha aquella dama! Que ostentação e baixeza d’alma.

Christina ouviu. O que o amor nobre faz d’uma alma timida! Voltou-se contra o parente, e respondeu:

—É muito infame!

—Silencio!—disse Casimiro, apertando-lhe convulsivamente o braço.

D. Alexandre expediu uma cascalhada; e os academicos, indifferentes ao conflicto, disseram-se:

—Com effeito! é muito covarde o Bettancourt, que deixa assim insultar a mulher! Comprehendam lá a decantada historia do botequim!

Na extremidade da ponte, estava o academico, já conhecido por seus dialogos com Casimiro. O marido de Christina aproximou-se d’elle e disse-lhe:

—Conserva-te aqui um instante ao pé de minha mulher, que eu volto já.

—Não!—exclamou Christina.

—Christina—disse elle com um aspecto, que a esposa nunca lhe vira.

E caminhou ao longo da ponte, sem denotar arrebatamento na serenidade do passo.

Os academicos do bando de D. Alexandre disseram:

—É elle que vem!

O fidalgo desceu-se da guarda como quem se prepara a receber o aggressor. Não era isso. O mêdo pesa como chumbo na região abdominal. Foi o gravame do mêdo que mecanicamente o desceu.

Casimiro lançou-lhe a mão esquerda á garganta, e com a direita levou-lhe a cabeça a aresta da guarda.

Depois como o atordoado fidalgo escouceasse os couces instinctivos da defeza, o aggressor abarcou-o pela cintura, no proposito de o despejar ao Mondego. Acudiram-lhe muitos, sem, comtudo, arremetterem contra o furriel. Casimiro sentiu nas barbas mão estranha. Olhou com impetuosa furia, e viu Christina, que punha as mãos supplicantes. Descurvou os dedos da garganta do estudante, e deu o braço a sua mulher. Pelo ar quieto, com que elle sahiu ao fim da ponte haviam de imaginar que o sujeito acabava de abraçar um amigo!

Grande parte da academia parecia andar envergonhada depois d’este successo. Os detraidores, chamados por algum amigo de Bettancourt, a dizerem ácerca do facto, corriam-se, e gargarejavam o desmentido, que os suppliciava.

O academico, mais dolorido do descredito de Casimiro, seguiu-lhe os passos a casa, abraçou-o com transporte, e exclamou:

—Tu és um grande homem!

—Vem vêr minha filhinha como dorme docemente!—respondeu Casimiro.

—Que dirão agora os calumniadores?—tornou o academico.

—Que eu sou um assassino.

—Um bravo! um modêlo de dignidade.

—Como quizerem. Vem ver minha filha, se gostas de creancinhas.

Foram. A mãi, que, uma hora antes, sentira denodo viril para aggredir o insultador, estava agora chorando sobre as faixas da filhinha. Casimiro aconchegou-a de si e murmurou:

—Então? que é isso, filha?

—Tremo pela tua vida, Casimiro!

—Convence-te, Christina: eu não posso ser morto por D. Alexandre, nem por assassinos de sua paga.

O fidalgo dos Vitos Alarcões tractou da cabeça na cama uns quinze dias: parece que o granito lhe entrou dentro obra de meia pollegada, sendo que em tal cabeça nunca tinha penetrado cousa alguma outra. Fechada a brecha, metteram-se as ferias de Natal, e o convalescente foi para casa.

Ladislau, sempre attento aos passos do desertor, soube que chegara a Miranda D. Alexandre de Aguilar, de cujo infortunio na ponte já estava informado por carta de Christina, que incessantemente lhe pedia toda a vigilancia sobre o scelerado.

D. Sueiro deu logo tento da cicatriz da cabeça fraterna, e disse:

—Levaste ou cahiste, mano?

—Cahi do cavallo.

—Bom tombo! ias ficando sem um olho! Estás um limpo cavalleiro, não tem duvida!

E ficaram n’isto; mas as familias d’outros academicos de Miranda, de bocca em bocca, fizeram chegar ás orelhas de D. Sueiro de Aguilar a rija sova, que levara o irmão.

O senhor dos Coutos de Fervença e Caçarelhos Estevães e Villariça disse ao irmão:

—Como assim?

—Assim quê?—perguntou D. Alexandre.

—Corre que essa cicatriz foi bordoada que levaste! Foi ou não?

—Foi desordem: dei e levei.

—E ficaste mal?

—Fiquei ferido; mas sem deshonra. O adversario era valente como as armas.

—Quem?

—O marido de tua cunhada.

—O villão? E vive!...

—Por em quanto... vive.

—De que serve aqui o Ayrão?

Ayrão era a graça do desertor.

D. Sueiro acrescentou:

—Leva-o, e mostra-lh’o. Acabemos com isto de uma vez... Estou a ver quando o tio Ruy de Nellas recebe o genro em casa. Já lhe baptisou o filho, e, escrevendo a Guiomar, fallou-lhe de Christina com piedade. O tio Ruy degenerou. Se viver muito, ha de envergonhar-nos.

* * * * *

Foi para Coimbra D. Alexandre.

Ladislau recebeu a ponto a informação: o desertor ficára. Avisou-o de Villa-Cova. Christina exultou; mas, seis dias depois, recebeu novo aviso: o sicario partira aforrado, e em disfarce. A pontualidade d’estas informações deviam-se a um jornaleiro de Villa-Cova, o qual, industriado por Ladislau, fôra a Miranda pedir trabalho á casa dos Alarcões, e lá ficára servo de lavoura.

D. Alexandre concertára o plano do homicidio, com estupido ardil: já se lhe não dava que se lhe imputasse a morte de Casimiro; e, para desviar suspeitas de braço estranho, escondia o matador em casa.

Ayrão entrou de noite, e sumia-se de dia nos quartos escusos da casa. Os frequentadores dos jantares de D. Alexandre guardavam delicada reserva ácerca da desgraça do mez anterior. O amphitrião é quem, uma vez por outra, dizia:

—Tenho sêde de sangue!

Ou, bebendo até cahir, exclamava:

—Á saude do assassino, que ha de vingar a honra de vinte gerações de fidalgos de solar conhecido!

Defronte de D. Alexandre morava o estudante de direito Guilherme Lira.

Lira foi o mais esforçado e turbulento academico dos seis annos subsequentes á restauração da liberdade. Presidiu á famigerada «Sociedade da Manta»[5]. Era o pau mais valente do riba-Tejo, e o mais figadal inimigo de poltrões.

Do fidalgo de Miranda tinha elle nojo, nojo favoravel ao covarde; se fosse odio, tel-o-ia desorelhado.

Observou Guilherme Lira que em casa do visinho D. Alexandre estava um homem de cara sinistra, o qual se escondia no escuro da casa assim que nas janellas fronteiras assomava gente. Lira espreitou, e viu-o, accendendo o cachimbo no charuto do amo, e gesticulando com aquelle especial geito das féras humanas, vesadas ao tracto da taverna, da feira, e da encruzilhada.

Guilherme sympathisava d’alma com Casimiro Bettancourt. Depois do facto da ponte, estando elle com o seu bando de bravos na Calçada, viu Casimiro, que vinha com sua esposa. Lira sahiu da roda, foi á frente do furriel, e disse, com os olhos em Christina:

—Dê-me v. ex.ª licença que eu abrace seu marido.

E pegou d’elle ao alto soffregamente, exclamando:

—Que pena que tu sejas casado, homem de figados, que te queria entregar o macête da minha loja!

Casimiro sorriu, agradeceu, e apertou-lhe affectuosa e modestamente a mão.

Isto explica a espionagem de Lira, e o aventar de prompto que o ignobil visinho traçava a morte de Casimiro.

Foi logo d’alli em procura do estudioso mathematico, e disse-lhe:

—Olha que o covarde tem uma besta-féra em casa. Estuda socegado, que eu te guardarei, porque não estudo, nem tenho que fazer.

—Agradeço—disse Casimiro—mas, em verdade te juro que não temo a besta-féra.

—Bem sei, rapaz, bem sei; mas o que eu te venho dizer é que não penses mesmo no modo de a mandar ao diabo. Isso cá se arranja. Adeus: não te quero roubar tempo.

Descubriu Guilherme que D. Alexandre sahia de noute, e com elle outro academico sobre quem a capa mal ageitada ia delatando a contrafacção.

Fez-se Lira encontrado com elles, metteu-lhes a cara, e reconheceu o assassino, sob o disfarce de estudante.

A traça do homicidio era desesperada. Como Casimiro passava as noutes estudando, Ayrão lembrara il-o matar em casa. O rancor applaudiu o alvitre, e accelerou a execução. D. Sueiro esporeava de lá os brios do mano e pasmava da demora.

Descubriu Lira que os visinhos por volta de dez horas paravam á sombra do Arco, que faz a extrema da _Couraça dos Apostolos_, onde morava Casimiro, e depois subiam distanceados a calçada, e o mais corpulento, que era o disfarçado, contra-punha de leve o hombro a uma porta de quintal, ou remirava a janella alumiada pelo clarão do candieiro, ao qual Casimiro estudava até duas horas da manhã.

As portas apalpadas não davam de si; arrombal-as com estrondo seria derrancar o plano.

Accudiu nova idéa ao homicida: chamar Casimiro á janella, e desfechar-lhe um tiro.

Reflexionou D. Alexandre, e previu que a opinião publica havia de reprovar o covardissimo feito.

Regeitou, por tanto a idéa, e reforçou-se na do assalto.

Casimiro Bettancourt ignorava o que ia cá fora em sete noutes successivas. Guilherme achou inutil avisal-o. Queria elle egoistamente para si a cabal satisfação de castigar os miseraveis, sem incommodo do estudante. A muito custo se refreára, durante as sete noutes, á espera de lhes comprehender o intento, e cahir sobre elles no momento de o praticarem.

Guilherme Lira desvellava-se e preoccupava-se d’esta catastrophe, como se vida de pai, irmão, ou amada corressem perigo!

Sublime doido! Sympathica loucura!

XII

Serenidade da innocencia

Ás dez horas de uma noute de janeiro de 1840, Christina, convidada pela limpidez da lua, tão brilhante n’aquellas noutes, se o céu está desannuviado, chegou á janella, sem correr as vidraças. Do exterior não podia ser vista, que era completa a escuridade dentro; viu, porém, Christina, dous homens parados na rua, com as cabeças muito conchegadas, em agitada e inaudivel conversação. Teve mêdo, e correu ao gabinete do marido a chamal-o. Casimiro, pé ante pé, segundo a esposa lhe recommendava, espreitou, e, sem hesitação, disse:

—Um é D. Alexandre; o outro não conheço. Vejamos o que fazem.

—Vê!—disse Christina—olharam para a janella do teu quarto.

—É uma contemplação estupida!—redarguiu Casimiro.

—Agora esconderam-se debaixo das janellas.

—Quererão escalar a casa?!—tornou elle em ar de mofa.

—Quem sabe?! Olha... lá deram um encontrão á porta do quintal!

—É que são ratoneiros de couves. Que podem elles querer do quintal senão as tuas couves gallegas?

—Tu brincas, meu Casimiro!... Olha que isto é sério!... E não passa patrulha nenhuma!...

—Calla-te, creança! Se te ouvem, perderemos este espectaculo gratuito. Deixa vêr no que isto dispara. Lá vem outro estudante, rente pela parede d’alem! como elle se embuça!...

—Parou!—disse Christina agitada.

—Será da malta?! As couves não chegam para todos.

—Lá vai para baixo.

—E os outros seguem-no.

—Já não seguem.

—Elles ahi voltam, outra vez para a sombra.

—Outro empurrão á porta da escada!—murmurou Christina alvoroçada e tremula.

—Então o negocio não é de horta! Teremos hospedes assim mal-criados! Ver-me-hei forçado a recebêl-os com igual delicadeza!

A arma unica de Casimiro Bettancourt era uma enferrujada espada de seu pai. Tirou-a de baixo do leito, e disse á esposa:

—Deixa-me a escada livre, e não temas.

—Á escada não vais: póde vir um tiro!

—Não vem tiro nenhum: apaga todas as luzes.

Dous estrondosos encontrões metteram dentro a fragil porta. Christina soltou um ai, e involuntariamente correu ao leito onde a menina chorava acordada pela rija pancada.

Casimiro estava no topo da escada, e viu do lado da rua um homem de batina academica apanhar de hombro a hombro com um pau as costas, do que elle affirmára ser D. Alexandre. Os dous aggressores saltaram ao meio da rua, e Casimiro, ia na colla d’elles, quando Christina, com a menina nos braços, lhe estorvou o passo, exclamando:

—Casimiro, Casimiro! pela tua filhinha te rogo!

A catastrophe, tão almejada de Guilherme Lira, rematava assim na rua.

Ayrão, logo que o amo levou a primeira pancada, correu de faca sobre Guilherme, e recebeu em cheio peito uma choupada, e segunda no ventre. Já cambaleava moribundo, quando recebeu a terceira, e bateu nas lages com a face morta.