O Bem e o Mal: Romance

Part 7

Chapter 73,875 wordsPublic domain

—Com tanto que não o esteja ás seis...

—Isso é raro. Quando o está ás seis, é porque já se tinha embriagado ás tres.

—Optimo! Espera-me lá.

Este dialogo correu na alamêda fronteira á casa. O academico escondia-se de sua mulher.

No seguinte dia, disse Casimiro a Christina:

—Depois de jantar, vou ver um condiscipulo doente. É a primeira tarde que passas sem mim, filha.

—É verdade!...

—Mas não has de soffrer, não? A saudade é uma companhia.

—Dizes-me isso com ar tão triste, Casimiro?

—É a saudade, minha querida!

—Pois não vás.

—Prometti ir; mandei-lhe dizer que ia...

—Deixa-me ver os teus olhos...—exclamou ella aproximando-se de golpe.

—Que tem os meus olhos?!

—Lagrimas! tu choras, Casimiro!

—Não...

—Um segredo! um segredo para a tua Christina!

—Serei eu um fraco!—disse elle como a si proprio, imaginando-se sósinho.

—Fraco por chorar? Se não tens razão, és... mas tu, Casimiro, nunca assim te vi!... Não sahirás hoje mais... juro-t’o.

—Não jures, filha, que hei de sahir...

—E dizes-m’o assim com esse imperio!?

—É a honra...

—A honra!... Tu não vaes ver um condiscipulo doente.

—Não. Menti-te, Christina. Perdôa-me.

—Pois que é?!—atalhou ella sobresaltada.

Casimiro relatou exactamente o facto descripto, mostrou umas cartas recem-chegadas de Villa-Cova, e perguntou:

—Devo ir, Christina?

—Vai!—exclamou ella—Vai, já que eu sou mulher!

E momentos depois, porque era mulher, abraçou-se n’elle, e soluçou:

—Ó Casimiro!...

—Quê, filha?

—Sê prudente, sim?

—Recommendas-m’o a mim?! Não viste que eu soffri oito dias, em silencio, a affronta!?

E desprendeu-se dos braços d’ella.

Entrou no botiquim da Rua-larga com tão pacato semblante, como se ali não fosse para mais que aligeirar as horas felizes da mocidade.

Os que o conheciam encararam em D. Alexandre de Aguilar.

O fidalgo de Miranda não conhecia Casimiro. Viu aquelle sugeito fardado de infanteria 6, e disse:

—Isto é já botiquim de soldados?

—É um academico: o primeiro premiado de mathematica.

—É aquelle—ajuntou outro—de quem tu contaste as proezas casamenteiras.

—Ah! o sobrinho do mestre Antonio! lá me quiz parecer que devia ser furriel.

Isto fôra dito, muito á puridade, aos circumstantes, que não se riram.

O amigo de Casimiro aproximou-se da meza e disse-lhe:

—Estão todos.

—D. Alexandre como visse esta aproximação, ponderou:

—Elles conhecem-se?!... Quem é este academico, que lhe falla? este que chamam Vilhena?

—É filho segundo de uma casa distincta de Braga.

—Cuidei que fosse filho primeiro de algum chapeleiro de Braga...

Casimiro pagou a chavena de café, ergueu-se e foi a passo mezurado á banca de D. Alexandre.

O fidalgo encarou n’elle, e logo nos circumstantes, como quem diz: «que quer o tolo?!»

E os academicos que, formavam cerco á meza, abriam fileiras ao lado, arrastando os bancos.

Bettancourt fez um gesto cortez aos rapazes, e disse:

—O senhor D. Alexandre de Aguilar conhece-me?

—Se o conheço...

Casimiro fez um gesto de cabeça affirmativo.

Conheço-o de o ver agora ahi, e dizerem-me quem o sr. é.

—Que sabe o sr. da minha vida?—tornou Casimiro.

—Que sei da sua vida?!

—Dispensemos o ecco, sr. D. Alexandre. Quem pergunta sou eu. Que sabe da minha vida?

—E se eu lhe disser que não lhe dou satisfações? Agora sou eu quem pergunta.

—Respondo-lhe que o sr. é um infame, e depois arranco-lhe a lingua.

O fidalgo Alarcão Parma d’Eça ia a dizer o quer que era, e engasgou-se.

Casimiro Bettancourt continuou no mesmo tom de serena conversação:

—Disse v. ex.ª que eu era sobrinho de um carpinteiro. Disse verdade. Que eu raptara uma senhora, cujo marido sou. É certo. Ajuntou que eu estava vivendo das joias, que minha mulher roubára a seu pai. Mentiu. Vejo que esta palavra não inquieta grandemente o sangue azul de v. ex.ª Ainda assim, quero imaginar que o sr. D. Alexandre me pede provas da sua aleivosia.

Tirou Casimiro do bolço interno da fardêta duas cartas. Abriu a primeira, lançou-a sobre a meza, e disse:

—Conhece essa lettra?

—Conheço—respondeu D. Alexandre—é de meu tio Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo.

—Pai de minha mulher—ajuntou Casimiro, voltando-se aos academicos circumpostos; e fallando para elles, continuou:

—Como eu soubesse que o sr. D. Alexandre me alcunhava de receptador dos furtos de minha mulher, escrevi a um homem de bem, pedindo-lhe que se apresentasse ao sr. Ruy de Nellas, meu sogro, perguntando-lhe se sua filha, no acto da fuga, subtrahira de casa algum objecto de valor, e o declarasse por escripto. Esta segunda carta é a resposta da pessoa encarregada; e diz:

«O correio só dá tempo a dizer-lhe que o sr. Ruy de Nellas, apenas me ouviu, e escreveu a declaração que contheuda remetto, e mostrou-se espantado de que a calumnia propale o que elle nunca disse; e de o não ter dito m’o jurou pela alma de sua mulher, e honra de suas filhas. Sem mais. Seu amigo, _P. João Ferreira_.»

—Leia-a agora o sr. D. Alexandre a declaração de seu tio.

—Leia-a o senhor!—bradou com grande esforço de falsa coragem o calumniador esmagado.

—Leia-a!—tornou Casimiro com um lançar de olhos fulminante.

O fidalgo tomou o papel nas mãos convulsas, e deixou-o logo cahir.

—A covardia cega-o!—disse Casimiro sorrindo—Algum dos cavalheiros tem a bondade de ler?

O mais chegado de D. Alexandre leu o seguinte:

«Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha filha Christina Elisiaria, não subtrahiu de minha casa valor algum, nem os seus proprios vestidos e adresses, quando fugiu para casar-se com Casimiro Bettancourt. E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e com juramento aos santos Evangelhos o declaro agora e sempre. Pinhel, 22 de abril de 1839.—_Ruy de Nellas_, etc.»

—Está reconhecida a assignatura?—disse Casimiro.

—Está—respondeu o estudante, que lera—E quando não estivesse já o sobrinho a tinha reconhecido.

—Isso não valia nada—tornou o furriel.—Nenhum dos cavalheiros prestaria fé ao reconhecimento do sr. D. Alexandre de Aguilar. Declare, pois, o sr. D. Alexandre que mentiu infamissimamente e offereça a cara para que todos lhe cuspam n’ella.

O fidalgo ergueu-se, e bramiu:

—O senhor!...

—Que mais?—perguntou Casimiro.

—Insulta-me?

—Não. Obrigo-o a sentar-se, que me incommoda vel-o de pé.

E, dizendo, baixou-lhe no alto da cabeça uma palmada, que effectivamente o fez apoiar-se sobre as ilhargas.

E, voltando-se com rosto faceto aos academicos disse:

—O espectaculo foi feio, que o miseravel não dá sequer um soffrivel truão com medo. Agradeço a attenção dos cavalheiros, mórmente com o sobrinho de um carpinteiro, que, por não ser nobre tem vontade de ser honrado.

Sahiu do botiquim acompanhado de quasi todos os estudantes. Os poucos, que ficaram como petrificados, por não saberem que dizer a D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça, retiraram-se cabisbaixos.

Casimiro estugou o passo, caminho de Santo Antonio dos Olivaes, e encontrou a esposa anciada, fóra de casa.

Contou-lhe, sem fatuidade, o essencial do acontecido, e reservou o facto da monumental palmada na cabeça. O delicado moço julgou melindrar sua mulher, dizendo-lhe que castigára com a mão um seu parente.

Foi o successo estrondosamente contado e applaudido em Coimbra, tanto porque era de razão applaudil-o como por ser no tempo em que a mocidade academica, popular e burgueza na maxima parte, desadorava os fidalgos castellãos, e não perdia lanço de os metter a riso.

D. Alexandre, no dia seguinte, foi para Miranda, em busca de romanso e solidão para pensar na vingança de covarde, que não podia já ser de outra natureza.

Vamos no rasto d’este reptil.

O extraordinario da chegada do estudante, quando as aulas estavam abertas e os actos não começados, devia ser de algum modo explicado a D. Sueiro e á parentella alvorotada. Contou elle que tinha tosse; e o caso foi que tossiu. O medico da casa apalpou-o, auscultou-o, e decidiu-se pela tosse, em concordancia com a faculdade medica de Coimbra, que mandára a ares patrios o mancebo, ameaçado de coisa séria. Em verdade, a pertinacia da embriaguez reduzira D. Alexandre a um viver morbido, asthenico, e analogo ao do ethico; e já não admira que a palmada capital do sadio Casimiro o fizesse sentar.

Suppunha D. Sueiro que o casamento de Christina era muita parte na doença do irmão, e curava de remediar o mal de amor com os amores novos da cunhada que tinha em casa, galante menina, Mafalda de nome. Era a vigessima nona Mafalda n’aquella familia de Pinhel. Entrando n’este numero a santa infanta Mafalda, fundadora do mosteiro de Arouca, irmã de D. Affonso II, que tambem era da familia, pelos modos, e sem duvida nenhuma.

Se a menina o amava não sei, nem averiguei, por ser demais na pauta d’este escripto; o que me consta é que D. Alexandre, tão adentrado estava com os seus calculos de vingança, que não dava pela prima, nem se lisongeava do seu amor.

A unica pessoa de Miranda, com quem se abria o fidalgo, era um desertor de cavallaria, muito dos Alarcões, especie de molosso da casa, sob cujas telhas estava a seguro.

As intelligencias de D. Alexandre com o desertor são obvias; curava de comprar-lhe o braço vingador; mas, tão em segredo, que nunca viesse á luz a sua segunda ignominia.

Conchavaram-se de barato. D. Alexandre daria ao desertor basta quantia a transportal-o ao Brasil, e o desertor, em mesquinha paga de tamanho beneficio, mataria Casimiro Bettencourt.

N’este accordo, pediu D. Alexandre ao morgado que lhe deixasse levar como creado o desertor, visto que a plebe academica se bandeara contra os estudantes fidalgos e devotos da causa vencida. Annuiu promptamente o irmão, contente de vêr que D. Alexandre recobrava côres, e olvidara Christina.

Abertas as aulas voltou o moço á Universidade, com o seu vingador, por tal arte disfarçado, que dava de si um rustico cavallariço, incapaz de fazer mal a folego vivo.

Os amigos dos annos anteriores fugiam-lhe, e novos nenhum lhe apertava a mão. O opprobio do fidalgo era ainda materia de ociosos, revivido com a sua presença.

Preoccupava-o a traça de fazer conhecido Casimiro ao seu matador: cousa não facil na multidão de mil e tantos moços, entre os quaes raro se via o solitario de Santo Antonio dos Olivaes.

O solicito confidente de D. Alexandre tomou sobre si o encargo de conhecer Casimiro, e esperava tiral-o pelas feições que lhe vira em Pinhel, quando elle era mocinho de quinze annos.

N’este intento, foi como de passeio a Santo Antonio dos Olivaes; e, logo por fortuna, ao dobrar o combro de uma azinhaga, viu um sujeito de farda militar com uma senhora pelo braço.

—Cá está o homem!—disse entre si, e deteve-se a examinal-o, sem attentar em Christina, que o examinava a elle. Casimiro, por sua parte, nem deu tento do reparo do caminheiro.

Ora, Christina tinha visto aquelle homem em Pinhel, recebêra da mão d’elle uma carta de D. Alexandre, e lembrava-se de ter ouvido dizer ao primo D. Sueiro que aquelle soldado de dragões era o seu guarda fiel, e com elle iria ao inferno atacar Satanaz.

O desertor, porém, olvidou-se-lhe Christina, e nem por sombra imaginou ser reconhecido.

A senhora estremeceu... e duvidou. Já elle se havia sumido, quando ella disse:

—Acautella-te, meu filho!

—De quê?

—Vi agora um creado dos de Miranda... Não póde deixar de ser elle... Veio com o Alexandre, e anda a espreitar-te.

—Que tem isso, Christina?

—Tem, que elle é um malvado... Ai meu Deus! d’aqui em diante não tenho momento de socego! Queres que nos vamos embora d’este ermo? Aluga casa na cidade. Pódes ser assaltado no caminho. Tu és valente, meu Casimiro; mas d’uma traição ninguem se livra!

—Os prevenidos livram-se—atalhou Casimiro.—Não vejo causa para mêdo; mas, se has de viver inquieta, mudemos, filha.

—Sim: faz-me isso, que é annos de vida que me poupas!

Andava Casimiro em procura de casa, quando recebeu a seguinte carta de Ladislau:

«Meu compadre. Vai ser surprehendido com a minha petição, á qual subscrevem minha mulher e meu cunhado. Logo que esta receber, metta-se a caminho com a sua senhora, e venham direitos á sua casa de Villa Cova. Iremos os tres esperal-os a meio caminho. Perder um anno da Universidade não faz implicancia á sua futura sorte, se ella tem de ser boa. Esperamol-os; porque não posso acreditar que meus compadres faltem ao seu _Ladislau_.»

Casimiro leu, e disse:

—Vamos, e vamos hoje.

X

A victoria d’uma creancinha

D. Mafalda de Nellas, voltando de Miranda a Pinhel, trazia a escalavrar-lhe o coração o espinho do despeito. Isto não induz a liquidarmos que a menina amasse o primo D. Alexandre. O despeito das senhoras basta a explical-o a indifferença mesma dos homens que ellas desamam.

Como quer que fosse, Mafalda saira de Miranda, odiando o cunhado de sua irmã, no dia seguinte ao da ida d’elle para Coimbra.

Eis aqui o que ella contou ao pai, logo que chegou:

—Estava eu n’uma das grutas da quinta, quando o primo Alexandre, sentando-se, sem me vêr, nas costas da gruta, deu um grande assobio. Fez-me curiosidade aquillo, e estive quieta para vêr o que sortia d’ali. Pouco depois, chegou um homem de grandes barbas, que eu já tenho visto em nossa casa, em companhia do mano Sueiro.

—Bem sei, o desertor—atalhou o pai.

—É isso: eu já tinha ouvido lá dizer á mana, que elle era desertor.

—E depois?

—Depois o primo, assim que elle chegou, disse-lhe:—Olha que vaes commigo para Coimbra. Está decidido—e o desertor respondeu: «Pois isso é que é preciso!»—Mas vê se aparas essas barbas, que tens cara de facinora—disse o primo—eu tenho medo que, em apparecendo morto o Casimiro, todos digam que foi obra do meu creado.—Eu quando tal ouvi comecei a tremer, e tive medo d’aquelle homem! Quiz dizel-o á mana Guiomar; mas ella falla tão mal do Casimiro e da mana Christina, que julguei imprudente dizer o que ouvira.

—E depois?—atalhou o velho com inquietação.

—Depois, estiveram a fallar em facadas e tiros. E o desertor dizia: «são dous palmos de ferro, fidalgo.» E tirou da algibeira uma navalha, que relusia, e tamanha, meu pai, como eu nunca vi! Ainda disseram mais coisas que não me lembram, e foi cada um para seu lado. Ó papá, elles irão matar o marido da mana Christina? Coitado!... por que é que o matam?

—Dá me papel e tinteiro, e um creado que apparelhe o macho para ir immediatamente a um recado.

Ruy de Nellas escreveu esta carta.

«Sr. Ladislau. Sei que alguem intenta matar em Coimbra o marido de Christina. Ha tres dias que para ali partiu o assassino ou assassinos. Avise-o como seu amigo, para que se acautelle, ou se retire. Eu aborreço os infames, e as vinganças covardes: por isso me apresso a participar-lhe este plano, que oxalá não esteja executado, quando chegar a sua carta. Espero em Deus que não. Do seu amigo, _Ruy de Nellas_.»

O creado partiu a toda a brida.

Ladislau leu a carta em suores frios. Escreveu duas linhas de agradecimento a Ruy, e preparou-se para ir a Coimbra. Acaso entrára o vigario, e, lendo a carta, impediu de ir, allegando que o correio chegava primeiro.

Padre João e seu cunhado, sabiam os successos de Coimbra, e, sem se consultarem, nomearam D. Alexandre.

—Casimiro está vivo—disse com firmeza o padre.

—Quem n’ol-o assevera?!—perguntaram Peregrina e Ladislau.

—É o raciocinio. Alexandre é incapaz de matar de rosto ou á traição. Precisamente leva um sicario assalariado que eu conheço ha dez annos. Os faccinoras por estipendio são muito covardes, porque amam tanto a vida que, para sustental-a se expõem a perdel-a. Se D. Alexandre offendido vergonhosamente carece de animo para se desaffrontar, devemos crêr que ao carnifice alugado falte a coragem para accommetter o homem que o não offendeu. Além de que eu vou jurar que Casimiro se prepara contra as insidias do seu inimigo, e terá só de pelejar com um homem. Sobre todas essas conjecturas, roguemos a Deus pela vida do nosso amigo, e escreve-lhe a chamal-o em termos, que não assustem Christina.

Escreveu Ladislau a carta copiada no anterior capitulo; e, no dia seguinte, sahiram de Villa Cova, e, á segunda jornada, pernoitaram em Gouvea. Dous dias depois chegaram Casimiro e Christina.

A esposa de Ladislau, para abraçar sua comadre, pousou sobre o leito a creancinha que lhe adormecêra ao seio.

Christina, porém, como se não visse o fervor da amiga, ajoelhou á beira do leito, e beijou soffregamente o menino, que sorria aos affagos de algum anjo. Era bello de verem-se todos cinco, em redor da creança, como se para outro fim se não reunissem! Parece que ella lhes estava dizendo: «Distrahi vosso espirito de dores, que eu estou pedindo a Deus que vos defenda.»

Peregrina pôde furtar as caricias de Christina, tomando-a para si com força.

—Estava a invejar-te, minha comadre!—disse a esposa de Casimiro—mas olha, não devo invejar-te, não!...

E disse-lhe ao ouvido breves palavras, explicadas pela exclamação de Peregrina:

—Sim? e não m’o tinha dito!... que ditosas seremos com os nossos filhinhos!

O vigario sorriu-se, e murmurou:

—Não ha creanças mais creanças que as mães! Estas alegrias raras vezes lh’as recomeçam depois os filhos!...

Casimiro concentrou-se tristemente, e Christina disse:

—Não fallem em mãe diante de meu marido, por quem são!

—Fallem, fallem—disse Casimiro—que eu tenho de encontral-a no ceu pelo muito que a desejei n’este mundo.

E, tomando o braço de Ladislau, chegou a uma janella, e perguntou:

—Que é isto? Que significa esta chamada?

—Não m’o pergunte diante de sua senhora.

—Porque não? ella é forte. Se um dia me fraquearem os esteios da honra, minha mulher ha de fortalecer-m’os. Diga, meu compadre.

Ladislau mostrou a carta de Ruy de Nellas; e Christina, ouvindo-a ler, exclamou:

—Não te disse eu?... Era o desertor ou não?

—Era o desertor—respondeu o vigario.

—Pois sabia?—acudiu Christina.

—Disse-m’o a razão e a pratica dos _valorosos barões_ de Miranda. V. ex.ª viu-o?

—Vi: mostrou-m’o o nosso anjo da guarda!... E meu pai é que te avisa, Casimiro! Quem me déra poder beijar-lhe a mão!

—Seu pai é um homem de bem ás direitas, minha senhora—disse o vigario—Seria um modêlo de virtuosos, se os preconceitos de raça o não molestassem. Porque não ha de v. ex.ª ainda beijar-lhe a mão? Esperemos.

—E agora?—disse Casimiro—que querem de mim? Será airoso que eu me vá esconder a Villa Cova das iras de D. Alexandre?

—É dever de marido e pai fugir o perigo—disse Ladislau—Sabemos que lhe sobra animo; porém agora, quer-se e requer-se que o coração seja maior que o animo. Sua senhora manda; o vigario aconselha; e minha mulher e eu rogamos. Falta-lhe paciencia para viver alguns mezes na tristonha casa da serra? É assim ingrato áquella terra agreste onde desabrocharam todas as flores da sua felicidade, meu compadre?!

—Ó meu amigo, meu generoso irmão!—exclamou Casimiro, nos braços de Ladislau—Vamos, vamos para Villa-Cova. Lá sei eu que tenho segura a vida, a alegria, e sempre viçosas as flores de felicidade, que se abriram no seu nobre coração, e para mim! Não é covardia fugir. Covardes são os que não tem uma esposa, e fogem; covardes são os que não tem amigos como vós, e fogem!

—E no filhinho não fallas?—disse Christina sorrindo-lhe com incantadora meiguice.

—Não o disse eu!—acudiu o vigario—Agora, quer s. ex.ª que todo o coração de seu marido esteja embebido do futuro filhinho! Valha-vos Deus, mães loucas do amor de vossos filhos, que sois capazes de ceder do coração dos maridos em beneficio dos pequerruchos, anjos purissimos a quem basta o bafejo do Senhor!

N’estas doces praticas, que eu, a mêdo, submetti á benevolencia do leitor, se passaram as horas do descanço, até ao repontar da alva, em que proseguiram sua jornada. Lá vão os felizes, escoltados por suas mesmas virtudes.

Entretanto, recebeu D. Alexandre de Aguilar a nova de ter sahido de Coimbra Casimiro Bettancourt, e o mesmo foi assoalhar, mediante alguns necessitados de sua recheada bolça, que o furriel se evadira, sabendo que ia ser desafiado a duello de morte. Correu o boato, justificado por circumstancias: a precipitação da sahida, o estarem abertas as aulas, o ignorar-se o intento da retirada, o ter dito Casimiro, na vespera, que procurava casa em Coimbra, tudo induzia a crer a atoarda molesta á reputada intrepidez do militar.

A _Vedeta da Liberdade_, jornal portuense, publicou uma correspondencia de Coimbra, em que se dizia em grypho: _que um estudante militar, appellidado Bettancourt, fugira com a mulher para se não bater com D. Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no anno anterior, insultára_. E accrescentava: _O tal militar é avezado a fugas: uma vez fugiu com a filha d’um nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava agora; fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro não sabe endireitar costellas quebradas._

O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a Casimiro de Bettancourt.

Casimiro leu a correspondencia em voz alta.

E Ladislau perguntou:

—Que é isso?

—É uma gazeta—disse o vigario.

—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau.

—Sim.

—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como se faz isso?

—Isso que, meu irmão?

—Como se estampam esses insultos?

—Estampam-se.

—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as gazetas servem de insultar? quem quer infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é isto?

—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de que o dono do jornal recebe tanto por linha do insulto publicado.

Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia, e exclamou:

—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente é a barbaria, é o escarneo de Deus e das leis de nosso paiz!

Casimiro sorriu, e disse:

—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom rapaz vive do mundo culto! Quer elle, talvez, que a civilisação esteja em Villa Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario lhe não mostrou, e é que, se eu quizer insultar d’aqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e meu. O dono d’este papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os homens livres passam deante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, os ataques á moral de cada individuo servem de o abrir, á luz da analyse, e ver tudo o que elle lá tem dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chammas do auto-de-fé sahiram almas purificadas, no crer de alguns theologos; e da alma da imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, no entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre.

—Pois, sim—disse Ladislau—mas deixe-me render louvores a Deus por me ter dado o nascimento n’estas serras! Eu não cuidei que era assim o mundo. N’este ultimo anno quantas paixões más que eu não conhecia! Meu mestre decerto as ignorava; senão, ter-m’as-ia dito. Os meus livros tambem m’as não disseram...