Part 5
—Muitas afflicções, sr. Ladislau! Cahiu em minha casa um raio!... Deus... não sei que mal lhe fiz! Eu, que faço o bem que posso, que dou tudo quanto me sobeja aos pobres, que eduquei minhas filhas na religião de meus avós, estou aqui esmagado por uma vergonha, que me está cavando a cova!... Quando ha sete annos me morreu minha mulher, pedi a Deus a morte: oxalá que elle me tivesse ouvido!... Logo, em seguida, morreu o meu unico filho varão. Resisti ainda. Depois vi cahir o Senhor D. Miguel do throno á miseria da proscripção, e fiquei ainda em pé. Agora... agora... esta punhalada corta-me o ultimo fio! Nos tres infortunios passados, o Senhor Deus dos afflictos collocou a meu lado um dos seus apostolos, que me amparou, e me fechou as chagas com o balsamo da religião. Era um frade da sua freguezia, creio eu: Fr. Braz Militão do convento de Vinhaes. Morreu o santo, que passou tres noutes á cabeceira do meu leito, quando enviuvei. Elle tinha experimentado a minha dôr, porque vestira o habito de frade mendicante, quando Deus lhe chamou sua mulher...
—Esse frade era meu pai—disse Ladislau.
—Seu pai!—exclamou o fidalgo, erguendo-se a abraçal-o.—Pois o marido de Peregrina é filho d’aquelle predestinado, a quem eu recorro ainda nas minhas angustias?
—E eu recorrerei tambem para que meu bom pai alcance do Senhor o socego de v. ex.ª
—Desculpe-me, que eu estou todo absorvido pela minha magua! Ainda não fiz senão carpir-me; porém o sr. Ladislau calculará, quando fôr pai, a natureza da minha dor... Que motivo o traz a esta casa?
—O seu infortunio, sr. Ruy.
—Pois sabia que minha filha fugiu? Já lá chegou a noticia? Foi sua mulher que o mandou saber a atroz verdade? É certo, é horrivelmente certo que essa desgraçada fugiu ha cinco dias, e todas as diligencias em procural-a com o infame raptor se tem baldado!
—A sr.ª D. Christina está em minha casa—atalhou Ladislau.
Ruy de Nellas aproximou-se, quasi rosto a rosto, de Ladislau, e exclamou:
—Que diz?! em sua casa? com elle?
—Não, sr. Ruy. Em casa do filho de fr. Braz Militão não se agasalham amantes fugitivos, salvo se elles forem tão desgraçados que não tenham pão nem tecto. Em minha casa está unicamente a filha de v. ex.ª; em casa do vigario está Casimiro Bettancourt.
—E meu afilhado—interrompeu iroso o fidalgo—consente que se recolha em sua casa o roubador de minha filha, da filha de Ruy de Nellas, a quem elle deve tudo o que é?!
—Lamento,—disse Ladislau—que meu cunhado aqui não esteja para dignamente responder a v. ex.ª. Eu não tenho a virtude nem as expressões santas, persuasivas, e affectuosas do afilhado de v. ex.ª. Estou aqui, porque a doença ha tres dias o tem a elle na cama: apressei-me a vir para que o padre, despresando a enfermidade, não viesse por este mau tempo arriscar a vida. As intenções, todavia, de meu cunhado, acolhendo em sua casa Casimiro Bettancourt, são obvias e justas. Os dous, desgraçados pela cegueira do amor, foram pedir ao sacerdote a benção matrimonial; o sacerdote não podia abençoal-os sem consentimento de v. ex.ª, e não podia tambem abandonal-os sem faltar á caridade que professa, á sua propria consciencia, e ao que deve ao sr. Ruy de Nellas. Abrir mão d’elles, na situação em que os viu, o mesmo seria declarar-lhes que não ha divina nem humana misericordia. Elles iriam porta fóra desconfiados da virtude do ministro de Deus, em que tinham posto sua esperança, e julgar-se-iam desquites de serem ou procurarem ser virtuosos...
—Bem!—atalhou Ruy, a que vem o senhor?
—Implorar a v. ex.ª consentimento...
—Para se casarem?
—Sim, senhor.
—Sabe o que pede? o sr. Ladislau sabe o que pede?!—bradou o fidalgo com os olhos afuzilando ira e gestos descompostos.
—Sei que peço, segundo meu cunhado diz, o unico remedio de tal desgraça.
—Seu cunhado é um parvo!—rebradou o velho, batendo rijamente com o punho fechado sobre a meza.—Repito: seu cunhado é um parvo, e não tem desculpa nenhuma, porque sabe quem é o pai de Christina, e quem são os parentes d’esse ninguem que roubou minha filha. Não lhe disse elle que Casimiro é sobrinho d’um carpinteiro?
—Sim, senhor, disse.
—E então? Parece-lhe que é bem arranjado o casamento do sobrinho do carpinteiro com a filha de Ruy de Nellas? Responda!... Que pena eu tenho que, em lugar do senhor, não estivesse ahi o padre, a ver que me respondia!...
—Parece-me que o padre responderia a v. ex.ª que a sr.ª D. Christina...
—Diga, diga!
—Casada com o sobrinho do carpinteiro está mais honrada que na situação em que se acha agora.
—Quer isso dizer que da parte do mariola é muito grande favor casar-me com a filha!?
—Não, sr. Ruy; eu não quiz dizer semelhante cousa; não vim aqui offender v. ex.ª.
—Pois então?... A vontade do meu amigo padre (replicou o fidalgo, sorrindo á palavra _amigo_) é que eu admitta em minha casa os noivos?
—Não lhe ouvi isso. O que elle unicamente pede é a certeza de que v. ex.ª lhe levará a bem que elle os case, embora o seu consentimento não seja escripto.
—Prohibo-o expressamente de os casar, sob pena de eu o fazer sahir da igreja, e metter em processo!
—Que quer, por tanto, v. ex.ª que faça sua filha?—redarguiu Ladislau com os olhos humidos de lagrimas de desanimação—Que ha de ella fazer?
—Entrar n’um convento, chorar o seu crime, e morrer lá, é o que eu quero. A elle hei de perseguil-o até ao inferno! hei de mettêl-o n’uma masmorra, e impontal-o para as Pedras-negras.
Ladislau recolheu-se breves instantes, e sahiu de si, dizendo com grande impeto de pranto:
—Se aqui estivesse frei Braz de Villa Cova, que diria, n’este ponto, o bom christão a v. ex.ª? Eu creio, senhor, que meu pai diria: «Perdão, e misericordia. A neta dos reis de Judá, Maria, mãi de Jesus, foi eleita pelo Eterno esposa d’um operario: era carpinteiro o pai putativo do Redemptor dos homens.»
—Não me pregue sermões!—interrompeu Ruy de Nellas, cujas convicções, no tocante ao casamento da Virgem Maria, eram muito pela rama. O fidalgo acreditava que uma sua tia freira bernarda em Lisboa tinha oração infusa, e, em seus extasis, se erguia sobre a terra quatro covados; acreditava que S. Thiago e S. Jorge vieram em pessoa combater e vencer pelos portuguezes; acreditava outro sim que a morte e vinda de D. Sebastião era por ora cousa duvidosa, porém o casamento da filha dos reis de Israel com um carpinteiro custava-lhe a tragar!
—Não me pregue sermões!—dissera, pois, Ruy de Nellas, e proseguiu:—Seu pai, se aqui estivesse, iria sem que eu lh’o pedisse, procurar essa mulher perdida, e convertêl-a a Deus, levando-a a um convento, e obrigando-a a ver bem a sua vergonha para que nunca mais se amostrasse a olhos do mundo. Seu pai, sr. Ladislau, de certo me não viria dizer que premiasse a desobediencia de minha filha, e a petulancia do farropilha, que m’a roubou, casando-os. Boa maneira de os castigar, não tem duvida nenhuma! O resultado de tão funesto exemplo seria as outras minhas filhas fugirem-me com os miseraveis que as seduzissem! Se a religião mandasse ou aconselhasse tal, ai da ordem social, que então direitos de pai e obediencia de filhas tudo andaria transtornado! Não, senhor! frei Braz Militão não podia, de modo nenhum, ser o patrono de tamanho crime!
—Que quer, pois, v. ex.ª que se faça?—disse Ladislau com os olhos já enchutos, e um tom de voz, que denotava outra condição de espirito.
—Já disse: ella, convento; elle, se poder fugir, que me fuja; mas já e depressa, quando não a justiça fila-o.
—Creio que a sr.ª D. Christina não entrará em convento, nem Casimiro fugirá sem ella.
—Veremos! Eu vou mandar homens a S. Julião da Serra!
—Fará v. ex.ª mal. Na minha terra nunca entraram homens de braço armado, excepto os francezes, que incendiaram as casas por não encontrarem alguem. As nossas defezas e resguardo são as serras. Eu conduzirei a filha de v. ex.ª onde não possa a violencia alcançal-a. Ella fiou-se em mim, acceitou a minha casa, hei de defendel-a. A não poder vêl-a esposa do homem que ama, não serei eu que vá perfidamente arrancal-a ao seu destino, bom ou mau, Deus sabe qual será. Calar-me seria uma perfidia. Volto, pois, com o coração de lucto, e direi a meu cunhado que v. ex.ª lhe prohibe remediar a desventura da sr.ª D. Christina.
—Mas diga-me cá!—acudiu de golpe o velho.—Se eu consentisse no casamento, que se seguia? Minha filha voltava a Pinhel com o marido?
—Não, senhor.
—Pois então?
—Lá sabem o seu intento. A Pinhel não voltarão.
—Mas quem os sustenta, depois?
—Serei eu, se elles quizerem.
—Bello começo de vida! Vai viver minha filha ás sopas da...
Conteve-se Ruy; mas Ladislau, adivinhando-o concluiu a phrase:
—Ás sopas da serva de v. ex.ª... Minha mulher tanto se considera ainda uma creada de v. ex.ª que recebe como a maior das honras ter á sua meza a sr.ª D. Christina, e servil-a como creada.
—Perdôe-me, atalhou Ruy commovido, perdôe-me, que a minha dôr faz-me mau; que eu não o sou, meu amigo! Sua mulher nunca foi minha creada. Sentei-a á minha meza, e vesti-a como minhas filhas. Nunca me arrependi, e queria não me arrepender nunca. Faça o sr. com que ella resolva Christina a esquecer esse homem, e a fazer me a vontade. Póde ser que o tempo venha a gastar o odio, que tenho a essa perdida, e a tire do convento. É o maior serviço, que podem fazer-lhe, dissuadil-a. Façam com que Casimiro saia de Portugal: que vá para o Brazil ou para o inferno, que eu não lhe faço mal. Tenho dito, sr. Ladislau, a este respeito.
—Minha mulher não ousa dar taes conselhos á sr.ª D. Christina, nem eu a minha mulher. Em fim, sr. Ruy, ouça v. ex.ª o que vou fazer. Acompanharei sua filha ao lugar onde a encontrei; lá, onde a espera Casimiro Bettancourt, direi a ambos: «Fiz o que pude, pedi com lagrimas, pedi com razões: tudo se mallogrou. Agora se meu cunhado os não quer ou não póde casar, sigam sua vida, vão mostrar-se por esse mundo deshonrados, e digam que, se a deshonra os affasta das pessoas de bem, é por que esta infeliz menina tem um pai, que antes a quer assim.» É o que farei e direi, sr. Ruy de Nellas; mas antes d’isto, ainda me resta um esforço. Pedirei á alma de meu pai que lhe toque o animo; e, de joelhos e mãos erguidas, ainda uma vez, supplico a v. ex.ª que dê consentimento para que sua filha seja honesta!
Disse Ladislau as ultimas palavras ajoelhado.
O fidalgo contou, passados annos, que, em lugar de Ladislau, vira, como em sombra, fr. Braz Militão. Ha segredos de Deus; porém, bem póde ser que o caso, a dar-se, fosse mera visualidade do velho. Fosse ou não, Ruy de Nellas inclinou-se a levantar Ladislau de sua postura humilde, e disse:
—Valha-me Deus!
Passeou, de uma parede a outra, repetidas vezes, o salão, emquanto o moço arquejante lhe estava como bebendo a resposta dos beiços convulsivos. A final, parou o velho, em meio da sala, levou as mãos ás fontes, e, sacudindo vertiginosamente os braços, exclamou:
—Casem! mas que eu os não veja mais!
E sentou-se, prostrado.
—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Ladislau, retirando-se com alvoroço tal de alegria que a sua vontade era distancear-se depressa, receoso do arrependimento.
Arrependimento que por um cabello, pouco depois, ia dando de si um feito vil!
Ruy de Nellas ergueu-se de golpe, já quando o moço tinha sahido, e esporeava a galope desapoderado a mula, estrada fóra.
Chegou ainda a gritar pelos creados, cujo maior numero tinha ido para Trancoso. Era seu intento envial-os a S. Julião da Serra, infractores da palavra de seu amo.
N’este lanço, estropearam no pateo dous cavallos: o cavalleiro era D. Sueiro de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça, fidalgo de Miranda, com o seu lacaio.
Este sujeito, além d’aquelle nome, que só por si é uma fortuna, nascera primeiro que seus irmãos, na maior casa d’aquelles contornos de Miranda. Barbedos e Alarcões tinham começado, pouco mais ou menos, com o genero humano. Estas duas familias, em franqueza intima e modesta, diziam que o primeiro sangue de Lisboa—da Lisboa de sangue azul, intende-se—era um regato da fonte caudal, represada n’elles, ahi pela fundação dos reinados de Leão e Castella.
Desde muito que Ruy de Nellas meditava em casar a filha morgada com D. Sueiro de Aguilar, e n’isso trabalhára, com intervenção da parentella.
Eil-o ahi está agora o almejado genro a pedir-lhe a filha, e eil-o vem a ponto de estorvar que o sogro se deshonre, violando a palavra dada, com desdouros dos reis de Leão e Castella, seus avós.
Trocados os termos ceremoniosos, D. Sueiro perguntou pelas primas.
Entraram cinco meninas meia hora depois.
—E a prima Christina?—perguntou elle.
—Está na Guarda, em companhia da tia Mafalda Portugal—tartamudeou Ruy.
—Sinto—disse D. Sueiro—porque, vindo eu pedir a mão da prima Guiomar para mim, sou encarregado de pedir a prima Christina para meu irmão Alexandre.
—Céus!—exclamou para dentro de si o fidalgo, e as meninas encararam-se mutuamente.
—Fallaremos ácerca de Christina—disse Ruy, expedindo um gemido rouco.
E declinou a prática sobre trivialidades, até horas de jantar.
D. Alexandre, academico do primeiro anno na Universidade, tinha visto sua prima na feira de Vizeu, um anno antes. Escrevera-lhe, mediante os bons officios de sua tia D. Beatriz de Albuquerque. Não respondera Christina senão termos agradecidos á escolha, posto que incondescendentes. Assim mesmo, D. Alexandre de Aguilar recalcitrou, sem melhor exito. D. Sueiro, porém, tomou a peito levar a noiva ao irmão.
Contou-se o incidente que prende com o porvir d’esta historia.
VII
Felicidades
O apparecimento de Ladislau Tiberio no alto da serra, que se arqueia sobre a casa de Villa Cova, foi saudado com o agitar de dous lenços brancos. O moço, segundo convenção feita, apeou, cortou uma haste de castanheiro, arvorou n’ella o seu lenço, e floreando-o de cima da cavalgadura, deu-se pressa na descida.
Quando tal viram, Christina, a rir e a chorar, lançou-se aos braços de Peregrina, e foram ambas ajoelhar diante do oratorio. Como a alegria as não deixava exprimir palavra, era-lhes preciso fallar em silencio com Deus.
Meia hora depois, entrava no quinteiro Ladislau, e as duas senhoras, arrebatadas como se a boa nova igualmente as deliciasse ambas, correram a ouvir a confirmação do que disséra a bandeira branca.
—É certo?—exclamou Christina.
—É certo, minha senhora.
—Deixa-me ir um criado a S. Julião dar parte a Casimiro?—tornou ella.
—Vamos logo todos; mas, se v. ex.ª quer, mande o criado já.
—Então não: vamos todos... quero eu dar-lhe a nova. E meu pai está bom? e minhas irmãs?
—Não vi suas irmãs; seu pai está inquieto; mas, como tem bom coração, Deus o socegará.
Abraçaram-se outra vez as duas amigas, e Ladislau, entre risonho e lagrimoso, gosava o não menor quinhão de sua alegria.
Fez-se logo noute, e esperaram que nascesse a lua para sahirem ao ingreme e despedrado caminho da igreja.
Por volta das dez horas, chegaram á lapa da Crasta, no viso da serra interposta, e lobrigaram um vulto.
—É elle!—exclamou Christina, lançando-se da egua.—É meu marido!
Casimiro Bettancourt correu ao encontro d’ella, e murmurou:
—Que dizes, Christina?
—O pai consentiu!—disse ella abafada pela commoção.
E Casimiro, desprendendo-se dos braços de Christina, foi cingir com o peito o sereno Ladislau, que ficara segurando as redeas da egua.
—Meu salvador!—exclamou o moço.
—Seu amigo, como amigo de todos os infelizes que amam!—disse Ladislau e ajuntou logo:
—O senhor que está aqui é que meu cunhado melhorou.
—O sr. vigario veio confessar um moribundo na aldeia, que está ao fundo da serra, e eu, com licença d’elle, vim até aqui para ver o fumo da casa de Villa Cova.
—Bem!—tornou Ladislau.—Vamos.
—Eu vou a pé—disse Christina—dá-me o teu braço, Casimiro.
—Ámanhã—atalhou Ladislau—ámanhã se encostará ao braço de seu marido, minha senhora.
Christina córou; e Casimiro tomou as redeas da egua para ella saltar ao albardão.
Ouviu-se um prolongado assobio como o dos caçadores em montados: era o vigario que chamava o hospede. Casimiro respondeu, e Peregrina, puchando do peito, quanto pôde, a voz, gritou:
—Cá vamos todos.
E, como todos rissem do agudissimo falsete da jubilosa Peregrina, o vigario percebeu logo a impaciente felicidade que não pôde esperar pelo dia seguinte.
E subiu a ladeira até encontrar o grupo.
—Abençoou Deus a tua resolução, já vejo!—disse padre João Ferreira ao cunhado.
—Abençoou: pódes tu abençoal-os, meu irmão.
E os dous ficaram alguns passos atrazados, para irem conversando sobre os successos de Pinhel, e os futuros em que os noivos não pensavam, nem era generoso dizerem-lh’os.
Ninguem dormiu, n’aquella noite, na residencia de S. Julião. O vigario sahiu, ante-manhã, a solicitar licença do arcipreste para casar os contrahentes sob sua responsabilidade sem o previo pregão de banhos. Obtida, voltou á egreja, e ouviu de confissão os desposados; e, em seguida á ceremonia da communhão, ligou-os, abençoou-os e disse-lhes:
—Ficam sendo os dous uma só alma para as alegrias e para as provações. Deus voltará a sua face divina d’aquelle dos dous que attribuir ao outro o seu infortunio; e nós, os amigos de ambos, verteremos lagrimas de sangue se os virmos infelizes, infelizes á mingua de conformidade e fortaleza. Deus os tenha de sua mão.
Celebrado o matrimonio, almoçaram na residencia, e sahiram para Villa Cova, onde Brazia, azafamada com o jantar, e duplamente ditosa com o segundo casamento, dava ares de não ter o miolo fixo, no dizer dos outros creados.
A felicidade d’este dia não tem historia: ou se a tem, conte-a o leitor que a experimentou. Mas o meu leitor, casado por paixão, precisamente foi obrigado a attender aos comprimentos de amigos e parentes, uns a louvarem-lhe a noiva, outros a louvarem-n’o a si, estes a brindarem-n’o com vinho, aquelles a perguntarem-lhe pelo dote da mulher: barafunda esta que o não deixou sentir a sua felicidade.
Ora, na casa de Villa Cova, á mesa nupcial, além dos noivos, estavam o vigario, os donos da casa, o carpinteiro de Pinhel, e a velha Brazia. Os noivos repetiram em miudos a historia dos seus amores, os medos, as tristezas, os jubilos, o intenderem-se com a linguagem pactuada das flores. N’este ponto, Brazia ria muito e dizia que os namorados eram o peccado. As espertezas de José-pastor foram contadas por Christina com amostras do bem que queria ao rapasinho. Pediu ella ao marido que se não esquecesse nunca do muito que lhe deviam, e lembrou-se de o mandar estudar para padre se algum dia fosse remediada de bens de fortuna.
—Hade sahir bom padre!—atalhou a ridentissima velha.—Se assim souber espreitar as ciladas do cão tinhoso, muitas almas hade ganhar p’ra Deus!
Com estas e outras festejadas palestras passaram o dia. Ao escurecer, tornou o vigario á sua igreja, com promessa de voltar no dia seguinte, a fim de se conversarem cousas muito importantes.
E nós vamos já ao ponto d’estas conversações decorridas á sombra d’uns altos castanheiros, que pareciam ter alli ficado da idade de ouro para darem testemunho de um feito d’outras eras.
—Diz tu o que tens a dizer, Ladislau—estas palavras proferiu o vigario, logo que as duas senhoras se assentaram na grossa e retorcida raiz d’um castanheiro, e Casimiro á beira d’ellas.
Ladislau voltou-se para seu cunhado e disse:
—Porque não has de ser tu?
—Quem melhor exprime a idéa é quem dignamente a concebeu.
—Pois fallarei—tornou o moço: deteve-se breve espaço, e disse—o sr. Casimiro Bettancourt recebeu educação e tem espiritos que não são para vida aldean, e d’esta aldeia a mais desacompanhada e triste que ser póde. Isto é bom para mim, que nasci cá, e por todas essas pedras e arvores tenho cobrado um affecto de solitario, que todo outro viver se me affigura intoleravel. Que fará o sr. Casimiro, passados estes primeiros dias, em tal solidão? Perguntará a si mesmo: «Que faço eu aqui? Em que empregarei as minhas forças? Porque molde talharei o meu futuro?» Quando assim se interrogar, a resposta será uma melancolica indecisão, com vêr cerrados os caminhos para onde o animo o impelle. Vamos vêr se podemos abril-os para pouparmos o nosso Casimiro á desconsolação de cruzar os braços e dizer: «não sei!» O nosso amigo contou-me que, no collegio, estudava mathematicas, para o fim de seguir a carreira das armas.
—É verdade—disse Casimiro.
—Pergunto eu se lhe agrada recomeçar ou continuar os seus estudos, e ser militar.
—Desejava-o, tenho-o desejado sempre; mas a vida militar desprotegida é má; e, nas minhas circumstancias, o estudar foi e é impossivel agora.
—Não é. O meu amigo assenta praça, e requer licença para estudar em Lisboa, Porto, ou Coimbra. Tenho estas informações de meu cunhado. Eu offereço-lhe os meios precisos para se alimentar com sua senhora em qualquer das cidades que escolher, e assim se habilita para alguma vez me pagar o adiantamento que fôr preciso.
—Mas o meu dote...—interrompeu Christina, com fidalgo animo.
—Não se falla no seu dote—retorquiu Ladislau.—O sr. Ruy de Nellas deu o consentimento; mas não dá dote.
—O dote de minha mãi...—tornou ella.
—V. ex.ª não pede dote nenhum: eu disse a seu pai que a sustentação de sua filha e marido não corriam á obrigação d’elle. Está desobrigado o sr. Ruy de Nellas. Em resumo, o sr. Casimiro quer ser homem, quer a sua independencia, quer empregar dignamente as faculdades, que Deus não dá para ocios ou desperdicios. Resolve-se a abraçar a minha lembrança?
—De toda a vontade, e com o mais reconhecido coração. Diz-me uma voz intima que eu poderei desempenhar-me.
—Tambem a mim m’o diz—ajuntou Ladislau.
—Desempenham-se todos os que trabalham—ajuntou o vigario.—O principal estimulo que o sr. Casimiro leva para o seu engrandecimento é querer mostrar a seu sôgro que se fez homem.
—Quem me faz homem é este anjo! exclamou Casimiro, abraçando o marido de Peregrina, a qual já estava chorando, quer fosse a proxima ausencia de Christina, quer o enthusiasmo da boa acção de seu marido a enternecesse a lagrimas.
Volvidos quinze dias, iam sahir de Villa Cova os noivos com destino a Coimbra. Ao despedirem-se, como Ladislau levasse á mala de Casimiro o dinheiro contado para as despezas do primeiro trimestre, o hospede acudiu dizendo que tinha intactos os duzentos mil réis que seu tio lhe dera. Mestre Antonio, que fôra assistir á despedida do sobrinho, resistiu ás instancias de Ladislau, não querendo reembolsar o dinheiro, e levou a sua liberalidade ao ponto de offerecer á esposa de seu sobrinho uns brincos de ouro, que elle chamava _cabaças_, os quaes tinham sido de sua mulher. Liberalidade dissemos; e, com tudo, o valor real do presente orçava por dezeseis tostões! Assim era que elle amava muito aquella memoria, e o desprender-se d’ella foi o mais que podia fazer a sublime rudeza do coração do operario! Dera a sorrir os duzentos mil réis, e foi, ás escondidas, enchugar as lagrimas, quando se viu privado das arrecadas de sua mulher! Ó santos corações do povo! mas do povo das montanhas, direi; do povo, que ainda não sahiu á praça vociferando que é rei porque é povo.
Christina tirou das orelhas uns brincos de preço, que usava em casa de seu pai, e adornou-se com os modestos, que lhe dera o artista; depois, voltando-se a Peregrina, disse-lhe:
—Acceitas uma lembrança da tua amiga pobre, da amiga que vai subsistir dos teus beneficios? E, tomando-lhe a cabeça contra o seio, obrigou-a suavemente a receber os seus brincos, e beijou-a em ambas as faces.
—Acceita, Peregrina—disse Ladislau—que a tua senhora e amiga vai mais enfeitada com a dadiva do pobre.
Partiram, acompanhadas até grande distancia pelo vigario, irmã, Ladislau e Brazia. Mestre Antonio não houve rasões que o demovessem de ir a pé ao lado de Christina, até ao Porto.
Como pernoitassem n’uma estalagem da aldeia de Pena verde, encontraram um feitor da casa de Ruy de Nellas, acompanhando duas cargas de bahus. O feitor, pasmado do encontro, não atinava a decidir-se se devia cumprimentar ou desprezar a filha de seu amo. A menina porém, que se não julgava despresivel, perguntou ao seu antigo creado d’onde vinham aquelles bahus.