Part 4
—Sou eu um dos desgraçados que v. ex.ª recebeu nos braços abertos para todos: o que posso dar em troca de tantos beneficios é a lealdade do meu coração, o meu leal aviso em coisa tão melindrosa. Se v. ex.ª perseguir Casimiro, a sr.ª D. Christina, se já o ama como creio que sim, amal-o-ha mais depois. Conheço de fundamento a indole d’esta menina, e algum tanto a de Casimiro. Este moço tem espiritos de condição muito altiva, que se revoltam contra a baixeza em que o lançou a desfortuna. Por vezes me tem fallado do seu futuro com uns raptos de visionario, que me fariam rir, se me não compadecessem. Presagiam-se brilhantes destinos, e esquece-se de que o honrado carpinteiro está a suar para que elle se não avilte no trabalho incompativel com as suas imaginações. Em quanto á sr.ª D. Christina, é minha opinião que esta menina desobedece ao raciocinio, e á força, se lh’a imposerem. Sabe v. ex.ª que, de todas as suas filhas, esta foi a mais remissa em aprender o pouco que sabe, sobejando-lhe talento para muito. Observei que uma palavra aspera m’a afugentava por oito dias, e transtornava todo o anterior aproveitamento. Argumentando d’estas coisas simples, por analogia, todas me levam a crer que o emprego de providencias energicas dará mau resultado.
—Qual?!—atalhou o fidalgo.
—Uma fuga, uma vergonha.
—Tu pensas isso, João?!
—Ousaria eu dizer a meu padrinho o contrario do que penso?!
—E os ferrolhos dos conventos para que se fizeram?
—Para as freiras estarem seguras da inviolabilidade de suas pessoas.
—E para as filhas rebeldes.
—A rebellião continua nos conventos, a rebellião do espirito, contra a qual não prevalecem os ferrolhos.
—Veremos.
—Seria acêrto não experimentar, meu padrinho.
—Então que queres tu que eu faça?: Deverei cazar minha filha com o sobrinho do carpinteiro?
—Não, senhor. Penso que v. ex.ª, simulando inteiro desconhecimento do que se passa, deve favorecer Casimiro para que siga a vida militar que deseja.
—Agora! agora que elle ousou pôr olhos em minha filha! o ingrato! pois não! Vou mesmo agora estabelecer-lhe mesada em Coimbra ou Lisboa para elle se formar em mathematica, e namorar-me de lá a filha! Estavam bem avisados os pais, se tivessem de mandar a Coimbra os maltrapilhos que lhes requestam as filhas! Não haveria ahi aprendiz de sapateiro, que se não fizesse galan das herdeiras ricas! Ora, sr. padre João Ferreira, outro officio! Não sei em que livros e em que terras tu foste estudar e experimentar semelhantes desconchavos. Eu consultarei o meu travesseiro...
—Deus responda ás suas consultas, meu padrinho—disse o padre, quando o fidalgo lhe voltou as costas.
No dia seguinte, ás cinco horas da manhã, já o fidalgo estava a pé, e abria subtilmente a janella do seu quarto sobre o jardim cujo muramento partia com a rua. Viu elle Christina sahir ao terreiro pela porta da cozinha, atravessar as aleas de amoreiras, destrancar um postigo de communicação com a estrada, e debruçar-se no peitoril. Desceu Ruy de Nellas, de manso, ao jardim, e ia já em meio, quando a filha deu tento da espionagem. Soltou um ai; mas de turvada que ficou, nem aviso deu a Casimiro. O pai apertou o passo, correu impetuosamente ao postigo, e viu o moço quieto, e sereno como se a surpreza fosse um gracejo de futuro sogro, que se entretem a fazer foscas ao futuro genro, muito do seu agrado.
Não assim Christina, que, passado o momento do spasmo, dobrou o joelho e balbuciou:
—Meu pai, eu é que sou a culpada!
Não attendeu, nem acaso ouviu estas vozes o fidalgo. Inclinou-se á estrada, e exclamou:
—Vá lá contar a seu tio carpinteiro a maneira como vossa mercê pagou a hospitalidade, que lhe dei! E não me torne a rondar a casa, que não vá algum dos meus criados apalpar-lhe as orelhas!
Fechou-se o postigo com estrondo. Aquellas palavras continuaram a martellar nos ouvidos do moço, que levava as mãos á cabeça, como para as não ouvir. Pensou em se matar, como toda a gente, alguma vez, excepto os bons christãos, os felizes, e os tolos, que não são christãos nem felizes, nem precisam ser senão tolos para viverem e até sobreviverem a si proprios.
Caminhou ás cégas por uns trilhos de cabras, que se aplanavam n’uma chã, arborisada de sôbros, onde padre João regularmente amanhecia com os seus livros de theologia moral ou historia ecclesiastica.
—Casimiro viu-o, correu a elle, e exclamou:
—Valha-nos!
O padre reçebeu-o nos braços e ouviu acontecido.
—O remedio virá do ceu—disse elle.—Não sei que lhe faça, a não querer receber-me um conselho. Espere, soffra, conforte-se, ore, e humilhe-se: não sei que mais lhe diga.
Casimiro Bettancourt, ao anoutecer d’esse dia, adormecera com a face encostada a uma pedra: era a lethargia da fome, da fadiga, e da desesperação.
Não orára.
V
Veredas penhascosas
Ruy de Nellas, contente do feito, mas não seguro ainda, scismava na escolha do convento em que devia encerrar Christina, quando o padre João Ferreira chegou de dizer missa. Chamado a dar seu voto, o sacerdote respondeu que obedecia, mas não aconselhava; que iria onde s. ex.ª o mandasse negociar a reclusão de D. Christina, mas declinava de si o minimo de responsabilidade em uma violencia, sobre inutil, perigosa.
Excitado pela colera, o fidalgo foi de encontro á prudencia do padre com termos rudes; mas a humildade do servo paciente despontou-lhe as iras, e introverteu-lh’as no seio em arrependimento. Ruy quasi lhe supplicou o seu voto. Padre João repetiu o que dissera, e contou a situação em que deixara Casimiro Bettancourt. Outra vez se irou o fidalgo, ouvindo o tom lastimoso com que o padre fallava do filho do major; porém, não sabemos dizer porquê, marejaram-se-lhes de lagrimas os olhos, quando o clerigo disse:
—Agora vou ver se encontro o desgraçado ahi pela serra, que não vá elle tentar contra a vida, e, matando-se, legar a v. ex.ª uma tristeza pezada de mais para seus annos e sua nobre alma.
Sahiu o padre, e, ao anoitecer, encontrou Casimiro deitado na terra humida, com a cabeça na pedra, e o rosto chammejante de febre. Agitou-o, ergueu-o, amparou-lhe os passos, até o trazer á estrada, e d’ahi quasi em braços a casa do carpinteiro.
Conversaram até altas horas da noite. Casimiro ouviu as ultimas palavras do padre, e disse:
—Farei a sua vontade.
A vontade de padre João era que elle sahisse de Pinhel, e fosse a Bragança assentar praça. A resistencia de Casimiro fôra pertinaz, até ao derradeiro golpe, que o padre lhe descarregou, dizendo que a demora d’elle em Pinhel seria a causa á clausura de Christina. Casimiro sentou-se no catre, embebeu o suor frio da face na dobra do lençol, e exclamou:
—Irei.
E foi cinco dias depois, caminho de Bragança; mas, ao fim do primeiro dia de jornada, adoeceu perigosamente. O sangue refervido no peito principiava a vulcanizar-lhe a cabeça. Deram-lhe uma enxerga, n’uma taverna de Escalhão, e um padre que, em virtude de o ter confessado e ungido, pôde saber que o viandante era de Pinhel e se chamava Casimiro Bettancourt.
O carpinteiro ergueu mão do trabalho, embolçou as economias do seu mealheiro, e foi caminho de Escalhão. O anjo do amor estava á cabeceira do enfermo repellindo a morte. O coração repuchára a si a onda escaldante de sangue, que banhara o cerebro, e espedaçava-se para deixar resurgir a rasão. O artista esteve nove dias e nove noites ao lado de seu sobrinho. Quando se lhe acabaram os escassos recursos, que levára, empenhou a cruz de prata, que trazia ao peito; e pediu primeiro ao Crucificado que lhe désse a vida do sobrinho de sua mulher.
Ao decimo dia, o carpinteiro construiu uma camilha n’um carro de lavoura, e Casimiro, convalescente, foi transportado a Pinhel.
Ruy de Nellas e suas filhas, tirante Christina, passeavam n’uma alameda fóra da povoação, quando o carro chegou. O carpinteiro, que caminhava lentamente apoz o carro, descobriu-se, á vista do fidalgo, e disse:
—Guarde Deus a v. ex.ª, sr. compadre.
—Que levas ahi, Antonio?—disse o fidalgo.
—É meu sobrinho.
—Teu sobrinho?—Disseram-me que tinha ido assentar praça. Querem ver que elle foi ferido em alguma batalha?
—O sr. compadre está a mangar com os pobres!... respondeu o carpinteiro com um sorriso mais de pungir que propriamente a injuria.
N’este lanço, Casimiro Bettancourt affastou a ourella da manta, que formava o pavilhão do carro, pôz fóra o rosto macerado, e disse:
—Sr. Ruy de Nellas, quem me feriu na batalha foi a espada da honra. Agora vou eu travar uma batalha com o orgulho de v. ex.ª: veremos quem é o vencido.
—Ora, sôr Casimiro!—replicou o fidalgo galhofando sarcasticamente—as suas ameaças tem muita graça... passe muito bem.
E proseguiu no passeio, chibatando, com ares de Tarquinio ou Pombal, as florinhas que se abriam por entre o ervaçal que arrelvava a alameda.
—Chama lá os bois, moço!—disse o artista ao carreiro.
Christina encerrada voluntariamente em seu quarto, nem de suas irmãs era já bem vista. As outras senhoras, como izemptas e intactas de coração, conservavam os espiritos excelsamente afidalgados, e levavam muito a mal que sua irmã as quizesse aquinhoar no desdouro de um casamento desegual. O fidalgo obrigára Christina, nos primeiros dias, a tomar o seu lugar na meza commum; como visse, porém, que ella escandalisava a familia com suas lagrimas ordenou que lhe levassem as criadas os alimentos ao quarto. E assim se finava a pobre menina, desconsolada da voz humana, e descrida da misericordia divina.
Peregrina, a sua confidente, a sua alegria, tinha ido com o irmão para S. Julião da Serra. Queria escrever-lhe: mas que portador ousaria levar-lhe a carta? Pensava em fugir para ella; mas com quem, com que recursos? A não ser ella, quem faria chegar ás mãos de Casimiro as suas cartas, o adeus sùpremo de sua alma, ao arrancar da vida? Respondia-lhe o calado pavor da soledade ao afflictivo interrogatorio, em que se debatia, e já por fim, desesperava.
Havia na caza um criado moço, que Casimiro Bettancourt ensinára a lêr nas horas feriadas dos domingos. Nunca os dous namorados fiaram d’elle segredos seus; mas o muchacho, que era atravessado, adivinhava o que não via, e espreitava para examinar se tinha adivinhado.
Soube elle que o seu mestre de leitura chegára doente n’um carro, viu que o fidalgo e as meninas andavam a passeio, foi de corrida a caza, bateu de mansinho á porta do quarto de Christina, e disse-lhe pelo espelho da fechadura:
—Fidalga, o sr. Casimiro chegou agora doente n’um carro.
Christina espediu um grito, e abriu a porta.
—Vem cá!—disse ella ao rapasito, que se ia escapulindo.—Que disseste? Viste o sr. Casimiro?
—Vi-o descer do carro nos braços do tio Antonio carpinteiro. Vem amarello como uma cidra.
—Tu és nosso amigo, José?—perguntou ella offegante.
—Sou, sim, senhora.
—Levas-lhe um bilhete?
—Dê-o cá, fidalga.
—Espera, que eu vou escrevêl-o... O melhor é tu ires esperar no pateo, que eu lanço-t’o da janella, que não vá ver-te alguem aqui no corredor.
O mocinho esperou um quarto de hora, e levou a carta a Casimiro, que respondeu logo.
Este rapaz de nove annos faz lembrar o mosquito que matou o leão, e o braço fundibulario que derribou o gigante. Ahi estão a vigilancia e omnipotencia de Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, senhor solarengo mais velho da Beira Alta, anniquilladas pela intervenção do pegureiro, que o senhor feudal nunca distinguia dos carneiros que apascentava!
O effeito das primeiras cartas foi uma transfiguração maravilhosa no semblante de Christina e Casimiro. Já ella punha as mãos e ajoelhava a orar: é certo que, pelo ordinario, attribuimos ao demonio o mal acintoso, que o mundo nos faz, e agradecemos a Deus o bem casual ou intencional que nos faz o mundo. Tudo isto redunda em elogio de Deus e nosso.
Ruy entrou pensativo em casa, dizendo entre si: «Mal fiz em a não metter no convento; mas ainda não é tarde.»
Mandou vir á sua presença os creados e creadas, excepto o José-pastor, como lhe chamavam. O rapasito ainda não gosava honras de creado appellavel para assumpto grave. Declarou o fidalgo que faria entrar n’uma cadeia o servo ou serva, que levasse ou trouxesse cartas entre sua filha e Casimiro. Os creados innocentes e impeccaveis n’esta materia—por isso que zelavam a fidalguia do seu amo contra o plebeismo do sobrinho de mestre Antonio—juraram de espreitar os passos de Casimiro, e, em testemunho de sua probidade, offereceram-se a quebrar-lhe as costellas, sendo necessario.
Ruy de Nellas despediu-os satisfeito, e disse entre si: «Tanto faz tel-a fechada em casa, como no convento. Parece-me até que está mais segura aqui.»
José-pastor ouviu a creadagem na cosinha discorrer ácerca da recommendação do fidalgo, e fez que não intendia. D’ahi a pouco, andava elle no pateo a escrever com um pau carbonisado o seu nome nas lages pollidas, e de vez em quando olhava, por debaixo do avental de saragoça, contra a janella de Christina.
Viram-se. E elle escreveu a palavra _carta_, olhando de revez e indicativamente para a menina. Fez ella um gesto de intelligencia, e elle aspou a primeira palavra com os pés, e escreveu n’outra lage: _telhado_. Outro signal de comprehensão, e logo outra palavra: _torre_, e depois _trapeira_.
Queria isto dizer que elle ia ao postigo de uma especie de pombal, que lá chamavam _torre_; que lançava de lá a carta ao telhado; e que fosse Christina á trapeira, superior ao seu quarto, e colhesse a carta.
Sahiu-se excellentemente com a traça, e até sobreexcedeu o programma; porque a menina, recebendo uma, atirou outra carta á base da torre, e o rapasinho, que era optimo volatim em esgalhos de arvores, pendurou-se pelos pés no banzo do postigo, e com um troço de uma aguilhada de seu uso pastoril arpoou o papel. Estas habilidades é que Casimiro Bettancourt lhe não havia ensinado com as primeiras lettras. Se a instrucção primaria lh’as desenvolveu, isso é materia para mais dilatadas e opportunas pesquizas.
Aligeirando o alcance d’estes successos, até ao ponto em que os deixamos na vigairaria de S. Julião da Serra, direi que a fuga estava pactuada desde as primeiras cartas, que se trocaram. As apostillas subsequentes versavam sobre qual caminho e destino convinha seguir. Casimiro lembrava-se do condiscipulo de collegio a quem devia o favor de dinheiro com que jornadeára de Lisboa a Pinhel. Presumia elle que, se fugissem para Lisboa, e procurassem aquelle amigo, achariam protector para alcançar-se um emprego. Mas um fio de espada lhe cortava por alma e coração, quando a nevoa negra da pobreza se lhe punha diante da esplendida aurora do seu dia feliz. Quem lhes daria meios para caminharem até Lisboa?
Como adivinhando esta pergunta, Christina propunha que fossem a S. Julião da Serra, casassem lá, e pedissem ao padre João recursos para fugirem á perseguição, até que Deus lhes acudisse.
N’estes dias revesados de alegrias e amarguras, para elles, que já tinham aprasado o da fugida, o carpinteiro recebeu carta do filho, estabelecido no Brazil, e o primeiro donativo de dinheiro. Quando Casimiro viu ouro em mãos de seu tio, apertou o artista ao seio, e disse-lhe com os olhos cheios de esperança e lagrimas:
—Empreste-me parte d’esse dinheiro, que é o preço da minha felicidade.
—Se é o preço da tua felicidade, ahi o tens todo—respondeu o carpinteiro, lançando as peças sobre a meza.
—Menos de metade me basta—replicou Bettancourt.
—Pois toma d’aqui o que quizeres; mas conta-me o que vaes fazer.
Casimiro, temeroso da probidade de seu tio, nunca lhe havia revelado o plano do rapto. Prudente receio era o seu. Mestre Antonio, bem que estomagado das soberbas de seu compadre, não consentiria que seu sobrinho o vingasse por semelhante meio. A ida de seu filho para o Brazil devia-se em parte á generosidade do padrinho, que lhe déra enxoval e algum do dinheiro da passagem. O mesmo fidalgo o ajudára a comprar o fato de Casimiro, sem querer que o moço soubesse a obrigação em que ficava. Mestre Antonio, além d’isto, reprovava o ousio de seu sobrinho em inquietar uma menina talhada para marido de outra linhagem e haveres. Não dominava ainda n’aquella epocha a aristocracia das artes, inchada hoje com uns descomedimentos de orgulho, que prevalecem propriamente sobre os da aristocracia de nascimento; de modo que a gente sisuda lastima que o artista não seja bem creado para sustentar o seu real valor, sem andar a todas as horas, de arremettida contra as distincções herdadas. Agora, importuna a philaucia do artista; logo anoja a humilhação a que se desce.
Cingindo-me ao ponto: Casimiro reteve ainda o seu segredo, sophismando-o d’est’arte:
—Eu vou continuar em Coimbra ou Lisboa o meu curso de mathematicas para seguir a vida militar mais vantajosamente. Bem sei que este dinheiro a pouco chega; mas espero achar, sem baixeza, recursos em mim proprio para me alimentar. Ensinarei particularmente o que sei, e com o pequeno salario me irei remindo.
—Se é isso, Casimiro—redarguiu mestre Antonio—leva o dinheiro todo, que eu tanto faço com elle como sem elle. Assim como assim, duzentos mil réis não me quitam de trabalho. Gosto bem de te ver botado ao caminho da vida. Vai, moço; que o mundo é p’rós homens. Teu pai sahiu d’aqui com duas camisas n’uma trouxa, sentou praça, e morreu major na flôr da idade: teria quarenta annos. Se não morre, e o seu partido vinga, podia acabar general. Tira-te d’aqui d’esta aldeia, homem! Tu tens lá umas ideias que precisam de terras grandes. Vai-te á vida que eu cá estou com o meu pouco para te acudir nas necessidades. Logo que teu primo mande mais dinheiro, lá irá ter onde estiveres. Se um dia tiveres de teu, e eu já não poder com o machado, então me irás pagando como poderes.
Casimiro debulhava-se em lagrimas, abraçado ao carpinteiro, que embebia as suas no canhão da jaqueta de saragoça remendada nos cotovellos. Aquella jaqueta deshonrar-se-ia grandemente se a puzessem á beira de muitas fardas batidas a ouro e coalhadas de veneras!
Era como picar de remorso o doer-se de Casimiro. Mentir assim aquelle velho tão bom, tão franco, tão desprendido, tão pobre!
Não importa! A sua paixão absolve-o já; o homem honrado e illudido absolvel-o-ha depois.
Tinha, pois, Casimiro dinheiro para a fuga; d’isto avisou Christina; a menina, porém, instava pelo casamento em S. Julião da Serra, e o moço, de vontade e coração, condescendia, e desejava assim tão abrasadamente como ella.
Ruy de Nellas encontrou o carpinteiro, e não lhe fallou, nem respondeu á saudação com um gesto sequer.
—Porque está de mal commigo, sr. compadre?!—perguntou o operario com magoada submissão.
—Porque és um ingrato!—bradou o fidalgo.
—Ingrato, senhor! Nemja isso! Deus me não ajude, se eu sou ingrato a v. exª!
—Tens ahi teu sobrinho, que deu um pontapé no seu bemfeitor, e causou a desgraça de minha filha, e a tristeza de minha casa!
—Meu sobrinho, sr. compadre, fez mal, é verdade; mas o mal está remediado. Meu sobrinho vai-se embora por estes dias. Vai para Lisboa continuar os seus estudos. Leva duzentos mil réis que eu recebi do meu filho e afilhado de v. ex.ª, e por lá ficará até se fazer homem como meu cunhado.
Ruy de Nellas deu um grande suspiro de desabafo, e disse:
—Fallas-me verdade?
—Como quem se confessa, fidalgo.
—Então compadre, o dito por não dito. Se eu soubesse que elle estava ainda em tua casa, por falta de meios, o dinheiro dava-t’o eu, sem elle o saber. Quando é que vai?
—Estão-se fazendo umas camisas, e, o mais tardar no fim da semana, vai com Deus.
N’este dia á noute, Ruy disse a uma das filhas:
—Vai ao quarto de tua irmã, e diz-lhe com bons modos que venha tomar chá comnosco. A tempestade está a passar: é preciso que a trateis, como d’antes, d’aqui por diante.
Christina, maravilhada da brandura de sua irmã, desceu á sala, e beijou a mão paternal, que se lhe offerecia com affavel sorriso.
Tomou chá trocou leves palavras com suas irmãs, e volveu ao seu quarto, onde desvelou a noute, scismando na transfiguração de seu pai.
A horas de almoço, passou Ruy de Nellas no corredor contiguo ao quarto de Christina, e disse-lhe tocando na porta:
—Vai o almoço para a meza, menina.
Christina estremeceu, e sumiu entre os cobertores a carta, que estava escrevendo, cujo periodo mais importante era assim:
«....... Como penso que terei liberdade de descer ao jardim ao fim da tarde, sahirei pela porta da quinta, que abre para a estrada. Se me enganar, então ámanhã te avisarei...................................... ....................................................................... .................................
Não se enganára.
O caricioso pai sahiu com ella e suas irmãs a passear depois do almoço. Amimou-a, depois de jantar, brindando-a com um vestido de tafetá azul para festa dos annos da morgada. Ao fim da tarde viram-n’a sahir ao jardim, e a mais abelhuda das irmãs disse:
—Papá, olhe que a Christina vai só...
—Deixal-a ir. Coitada! o inverno já lhe desfolhou as rosas que ella ha um mez ainda regava!... Vai ver as suas plantas... Pobre filha, que pena me faz vêl-a tão abatida!...
Christina demorava-se e o vento assobiava, impellindo contra a janella borrifos de chuva.
—Vossa irmã, já está no seu quarto?! Vão ver.
As meninas alvoroçadas vieram dizer que no quarto não estava ella nem a capa.
—Pois não viram que ella saiu de capa ao jardim?—reflectiu o pai.—Vamos ao jardim, que ella deve lá estar abrigada da chuva... ou (ajuntou elle no silencio de seu coração) escondida a chorar... pobre menina!
Espreitaram todos os escuros do arvoredo, chamando-a a brados. O fidalgo, esporeado por diabolica suspeita, correu á porta do carro, e achou-a aberta.
—Fugiu!—exclamou elle. Os criados que saiam todos por essas estradas, e... que o matem!
E os criados sahiram todos na ideia... de o matarem!
Até o José-pastor lá ia na chusma, clamando que queria tambem matar o ladrão da fidalga, e teimava que via as pegadas da menina lá por uns caminhos onde ninguem via cousa nenhuma!
A estas horas, Christina e Casimiro transmontavam o cabeço da primeira serra, que descia para umas gargantas intransitaveis.
Na ante-vespera, palmilhara Casimiro o terreno menos trilhado, e orientara-se cabalmente da direcção que devia seguir até assomar á serra visinha de S. Julião.
VI
A humildade vencedora
Os servos iam e vinham por estradas reaes, atalhos e mais desfrequentados caminhos. Ninguem déra noticia dos fugitivos, excepto um guardador de cabras, o qual disséra ter visto n’uma chã, passarem um senhor, vestido á cidade, e uma senhora assim a modo de fidalga, e depois os vira entrar á estrada de Trancoso. Estas novas quem as colheu foi o José-pastor, o velhaco! Elle não viu guardador nenhum de cabras: inventou-o, sem que ninguem lhe encommendasse a fabula. O que elle queria era attrahir as pesquizas para o lado opposto de S. Julião da Serra. Serviçal até alli!
Quando, ao quarto dia de baldadas buscas, os criados mais pimpões se abalaram para Trancoso armados até aos dentes, Ruy de Nellas foi procurado por sujeito desconhecido. Entrando á presença do fidalgo, e interrogado sobre quem era, disse:
—Sou um lavrador da freguezia de S. Julião da Serra.
—Onde está vigario meu afilhado padre João Ferreira?
—Sim, senhor.
—Como está elle!
—Doente de cama.
—Coitado! E Peregrina? Conhece a irmã do vigario?
—É minha mulher.
—Ah! sim? quanto folgo! Já cá sabiamos que ella casára bem.
—Estimo-a muito, que é digna d’isso.
—E vm.ᶜᵉ creio que é lavrador abastado...
—Graças a Deus, tenho mais que o necessario...
—Queira sentar-se. Esqueceu-me de o mandar sentar, com a satisfação de ver o marido da nossa Peregrina... _Satisfação_, digo eu!... Vão por cá muitissimas afflicções, senhor... como é a sua graça?
Ladislau, criado de v. ex.ª