O Bem e o Mal: Romance

Part 3

Chapter 33,954 wordsPublic domain

—Pois então!—continuou a serva, cortando do presunto uma boa talhada.—A vida de padre boa é; mas não queira o Senhor que o menino seja padre. O que é preciso é casar, sr. Ladislau. Deus que lhe deparou esta creatura, lá sabe por que o fez. Vamos; é casar depressa, que eu não quero morrer sem ver gente miuda n’esta casa. O menino fez-me cabellos brancos, quando era pequeno (que a fallar a verdade eu já não tinha cabello preto nem para uma mézinha). Andava sempre a fugir p’ros campos, e eu a procural-o, e ia dar com elle a caçar grillos á torreira do sol: e de inverno andava sempre por essas fragas acima em risco de malhar aos fundões. Deu-me que fazer; mas é o mesmo: quero aturar tambem os seus filhos. Quando eu vim para cá, seu pae tinha cinco annos, e eu dez; se eu morrer, deixando cá um netinho delle, vou contente... Então não dizem nada?

Ladislau, sem a velha dar fé, tinha sahido envergonhado, e mais ainda por ver que a Peregrina, ao passo que Brazia fallava, descia o rosto sobre a hortaliça, voltando-o de modo a não ser visto de frente pelo moço, que por sua parte se estava tambem escondendo no mais sombrio da cosinha, até encontrar a porta por onde sahiu.

O vigario, estava esperando Ladislau, na vasta casa da livraria.

Havia muito que ver e admirar nas estantes dos numerosos sabios d’aquella familia. A bibliotheca fôra principiada no ultimo quartel do seculo XIV por um padre Vicente Militão, que fôra peregrino a Roma, e estivera no concilio tridentino, e lá fôra muito acceito, por seu saber, e reportadas virtudes, ao santo arcebispo de Braga, D. Bartholomeu dos Martyres. Encadernadas em pergaminho, com o Breviario do padre Vicente, lá estavam algumas cartas do primaz das Hespanhas, cartas magoadas revelando o peso das obrigações prelaticias, e outras mais de folga, datadas no convento de Vianna do Minho, onde o humilde principe da igreja se fôra a descançar, e morrer nas delicias «d’uma estreita cella, paredes nuas, em mezas sem panno, um candieiro de ferro pendurado de um prego, uma cama de frade ordinario sem cortina, nem genero de paramento sobre uma táboa de pinho.» Estas palavras de fr. Luiz de Souza recordava o padre João Ferreira, quando religiosamente deletreava os caracteres amarellados e meio delidos das cartas do arcebispo.

Voltando á livraria, os successores de Padre Vicente enriqueceram-n’a, empregando n’ella quanto dinheiro podiam amealhar, sem prejuizo dos pobres. Como quer, porém, que o rendimento de sua grande lavra sobre-excedesse o gasto, o remanescente era trocado por livros, enviados á escolha de entendedores monasticos, com quem os padres de Villa Cova, por amor da sciencia e piedosamente, entabolavam correspondencia.

Os tres ultimos sacerdotes d’esta familia não tinham comprado livro algum, desde os ultimos annos do reinado de D. João V, em que a religião degenerou de sua simplicidade em luxuosa, e, até certo ponto, hypocrita ostentação; e, de mais a mais, os que a tractavam moral ou dogmaticamente, escreviam-n’a em linguagem, que não era a de Domingos Feo, Thomé de Jesus, Heitor Pinto, Arraes e Lucena. Para bem aquilatarmos em qual grau de purismo classico andava a vernaculidade n’aquella serie de padres letrados, basta dizer-se que no frontespicio do primeiro volume dos sermonarios do padre A. Vieira, um padre Timotheo Militão escrevera: «Tambem este grande engenho está gafado!» A gafa de que se lastimava o escrupuloso idolatra dos aureos escriptores sem liga era aquelle geito de conceitista italico-hispano em que o preclaro jesuita, a espaços, se descuidava na oratoria.

Em quanto Ladislau e o vigario se entretem n’estas e semelhantes praticas, ingratas ao leitor de paladar mais delicado, Brazia está assim conversando com Peregrina, hombro a hombro, no escano da lareira, emquanto a galinha ferve:

—Brazia não seja eu, se Deus me não ha-de ajudar! Lá que os moços se querem, como eu á menina dos meus olhos, isso vou eu jural-o sobre umas Horas, sendo preciso! A menina é uma perfeição; o meu Ladislau é aquillo que alli está. Duas creaturas assim já vem lá de cima talhadas para serem uma da outra; e, quando acertam de se toparem no mesmo caminho, vão ambas p’ra direita, ou p’ra esquerda. Não tem remedio senão casarem-se.

—Pois sim—repetia Peregrina o que havia dito duas vezes:—Ainda hoje nos vimos, e já a sr.ª Brazia nos quer ver casados?

—Então a menina cuida que uma pessoa só se conhece por ser vista muitas vezes? Eu ouvia ler a Historia Sagrada á sr.ª Sebastiana, que sabia ler como um padre, e já lá está na corte dos bemaventurados... Rezemos-lhe por alma.

A sr.ª Brazia rezou alto, e Peregrina mentalmente.

—_Requiescat in pace_,—disse a velha.

—_Amen_,—respondeu Peregrina, e benzeram-se.

Brazia continuou:

—Pois como eu vinha dizendo, a Historia Sagrada conta que antigamente um moço sahia da sua terra em cata de outra terra, onde estava a noiva, que elle nunca vira. Batia á porta do sogro, pedia-lhe a filha e casava. Isto é que eram tempos, moça! «O coração não tinha peccado que fosse preciso descobrir com o tempo» dizia o sr. padre Praxedes, quando a irmã se admirava de casamentos assim de fugida. Olhe-me bem n’isto, que estas palavras teem muito que deslindar. N’aquelle tempo, a moça casadoura era por dentro como por fóra; via-se como á luz do meio dia o que ella lá tinha no seu interior: agora, pelos modos, é preciso espreitar muito tempo as inclinações das pessoas! O pai do sr. Ladislau era dos rapazes antigos: viu a menina lá em cima na lapa da Crasta, gostou d’ella, tornou lá a saber se ella o queria, foi ás Chãs aonde ao sogro; e, d’ahi a dias, já ella aqui estava a encher esta casa de satisfação. É como foi, e é como ha de ser! Senhor Jesus do bom despacho, não me deixeis ficar mal!

Ladislau e o vigario, chamados pela velha, desceram á cosinha, onde estava posta a meza. Jantaram alegremente e de vontade. Os dizeres de Brazia, tendentes todos ao casamento, assazoavam as singelas iguarias do vigario, que pondo os olhos, quer na irmã quer em Ladislau, reparava na gravidade com que em silencio escutavam as facecias da inquebrantavel velhinha.

—Será possivel que...

Disse entre si padre João, e cuidou ler no rosto do hospede e no rosto da irmã esta resposta:

—É possivel, e é certo.

Findo o jantar, sahiram a tomar o sol na eira.

Brazia, porém, puchou da batina ao vigario, chamou-o de parte, e disse-lhe:

—Deixe-os lá...

Padre João não achou que responder á velha, e fez menção de seguir sua irmã, que o estava esperando.

—Não vá sem me ouvir duas palavras, sr. reverendo vigario. Sente-se n’este tamborete, que eu vou dizer aos moços, que vão á sua vida, e nós lá iremos ter.

O dialogo deteve-se boa meia hora. Depois sahiram á eira; e o padre levava amparada no braço a velha, que jogava difficilmente os joelhos.

—Ora diga-me o que elles estão fazendo, que eu já não enxergo nada—murmurou a velha.

—Ladislau está apanhando flores na ribanceira.

—Vê?—acudiu Brazia—que lhe disse eu? Flores são amores... E ella que faz? Não anda tambem ás flores?!

—Não, tia Brazia. Está sentada.

—A enfiar algum annel de missanga?

—Tambem não.

—Não? Então é uma ingrata. Vou ralhar com ella. E, acercando-se com extraordinaria presteza de Peregrina, disse-lhe em tom de graciosa severidade:

—Vá fazer tambem um raminho, ande, menina, e dê-o ao sr. Ladislau.

Peregrina poz a vista timida no irmão. O vigario fez um gesto de consentimento. Ergueu-se ella a colher umas enfezadas flores silvestres e inverniças que se definhavam entre os silvedos, e Brazia, ao mesmo tempo, dava umas palmadas e tregeitava uns saltinhos de cegonha, muito para riso, senão justificassem a alegria que lhe acreançava os oitenta annos. Santa creatura para namorados era aquella Brazia! Estar ella dizendo tudo que elles queriam dizer-se; fazer-se lingua de corações á hora em que nem os proprios donos saberiam articular a linguagem d’elles; obrigar Peregrina a colher flores, quando a moça estava perguntando a si propria se parecia mal colhel-as e offerecel-as! E hão de rir-se pessoas, que amaram ou amam, da velhinha que tudo aquillo fez com tanto sizo e proposito e angelicas intenções!

Peregrina deu as suas flores a Ladislau, e recebeu o ramilhete d’elle. Qual dos dous tinha coração mais feminil? Pelo rubor da face não havia estremal-os.

—Onde iria a tia Brazia?—perguntou o vigario, vendo-a sahir açodada e regamboleando as rebeldes pernas pela eira fóra.

A velha pouco se deteve. Chegou esbofada. Chamou de parte Ladislau, e disse-lhe de modo que o vigario e a irmã ouviram:

—Esta argolinha de ouro deu-a seu pae á mãisinha na vespera de se casarem, e já foi de sua visavó. Aqui a tem. Vá dal-a á sua noiva, senão levo-lha eu.

Ladislau ficou atonito e immovel. O vigario sorriu, e disse á velha:

—Sr.ª Brazia, vm.ᶜᵉ está sonhando um alegre sonho. Deixe ver se o tempo, com a vontade de Deus, confirma os seus bons desejos, que serão tambem os meus.

Ladislau, como levado de insuperavel força, avisinhou-se de Peregrina e offereceu-lhe o annel. O vigario, abalado e commovido pela acção inesperada do mancebo, tomou a mão convulsa de sua irmã, e vestiu-lhe o annel. Depois, apertando nos braços o noivo de Peregrina, exclamou:

—Pois não é um sonho?

Accudiu Brazia:

—Qual sonho? O que eu quero é os primeiros banhos apregoados no domingo; e de hoje a um mez esta menina é minha ama.

—Sua amiga, sua filha!—disse Peregrina abraçando-a.

Assim foi. Na quarta dominga seguinte receberam as bençãos estas duas creaturas preordenadas para a felicidade da terra e ceu.

Os casamentos, que Deus escolhe, são assim determinados com uma singelesa, copiada dos tempos visinhos da creação de varão e femea, como entes necessarios a si, e de repente identificados por unidade insoluvel de almas. E então era o viverem tão sós e um, como quem de uma só vida tinham de prestar contas ao juiz supremo.

A mim parece-me que o cazar-se a gente devia ser como Ladislau e Peregrina. Andar annos com o coração em ancias é desvigorisal-o para quando elle é mais necessario. Pelo ordinario, os noivos que se amam longo tempo, cazam-se quando o mais fino da sensibilidade está desgastado na abstracção e na chimera.

IV

Outros amores

No dia immediato ao das bodas, o saudoso vigario fôra passar a tarde com sua irmã, que o viera esperar com o marido ao rochedo da Crasta.

Ao entardecer, quando o padre se despedia, chegou um portador da residencia com uma carta para Peregrina.

—Para mim?!—exclamou ella duvidosa.

—E letra da sr.ª D. Christina—disse padre João.

—Ella está lá—acrescentou o portador.

—Ella quem?—acudiu Peregrina.

—A fidalga, que escreveu a carta.

—Que novidade é esta?!—disse o vigario, abrindo e lendo.

—Lê alto, meu irmão!—disse Peregrina impaciente.

E o padre continuou a ler mentalmente, dobrou a carta, embolçou-a na sotaina, e disse ao portador:

—Vai indo, que eu lá vou ter.

E, depois que o criado sahiu, murmurou com mui entranhada mágoa:

—Eu presagiei esta desgraça!

—Desgraça!—exclamou Peregrina.—Que é, meu João?

O padre, voltado a Ladislau, disse:

—A senhora, que escreve a minha irmã, é a filha mais nova de meu padrinho e bemfeitor. Lê tu, Ladislau, e minha irmã que ouça.

Ladislau leu:

«_Peregrina._ Pela carta de teu irmão ao papá sabiamos que ias casar; mas não cuidei que fosse tão depressa. Cheguei aqui a buscar o amparo de teu irmão e o teu. Felizmente estaes perto, e sei que vireis em meu soccorro. Eu venho fugida, e commigo vém o homem que amo, e a quem meu pai me negou, sem compaixão das minhas lagrimas. Vimos rogar a teu bom irmão que nos receba, e legitime a nossa união. A pobreza não nos aterra. Logo que estejamos casados, teremos força do céu para supportarmos todos os trabalhos. Vem, se podes, com teu irmão para me ajudares a vencel o, se elle resistir ao sagrado dever de nos abençoar este amor, que não deve ser a nossa perdição. Tua amiga _Christina_.»

—E vaes casal-os não é verdade?—exclamou a commovida senhora.

—Não é verdade—respondeu friamente o sacerdote.

—Como?!—tornou Peregrina—não os casas?

—Não. A filha desobediente não acha onde quer um ministro do Evangelho que lhe galardoe a rebellião contra seu pai. A lei de Deus diz: _honrarás teu pai e tua mãi_: a lei ecclesiastica diz ao cura d’almas: _não casarás a menor sem consentimento de quem a governa, ou ordem superior do teu prelado_. Eu vou sahir.

—Eu tambem vou... disse Peregrina.

—Não vaes—replicou o vigario.—Estás ao lado de teu marido, e Christina apparece-te ao lado d’um homem que... não lhe é nada.

Peregrina baixou os olhos, e Ladislau disse:

—Tu ficas; eu é que vou. Manda apparelhar a egua, que a filha do teu bemfeitor virá commigo.

A esposa lançou-se-lhe nos braços, e exclamou:

—Tu vaes buscar a infeliz menina?

—Pois se ella é infeliz!... murmurou Ladislau.

E sahiram.

Christina estava á janella do sobrado da residencia quando o vigario e o cunhado chegaram.

Era noite muito escura.

—Estás ahi, Peregrina?—perguntou ella.

—Não está, minha senhora—respondeu o padre.—Está o marido de minha irmã.

A secura d’esta resposta intimidou Christina. E, receosa, voltando-se a um moço de boa presença, disse: «Enganei-me, Casimiro; o padre não nos recebe.»

O vigario entrou na saleta, seguido de Ladislau. Cortejou com mui respeitosa reverencia a filha do seu bemfeitor, e levemente o cavalheiro, a quem chamou Casimiro Bettencourt. Depois disse:

—Vi a carta que v. ex.ª escreveu a minha irmã. Peregrina não veio, por ser inteiramente inutil a sua vinda. Eu não posso sem authorisação canonica e civil ligar matrimonialmente v. ex.ª com este senhor.

—Eu vinha tão confiada na sua bondade...—disse Christina, retrahindo os soluços sem reter as lagrimas.

—Em minha consciencia—tornou o vigario—digo que o mais prudente e urgente acto n’este desgraçado successo é casarem-se; mas eu não posso fazel-o...

—E então—atalhou Casimiro Bettancourt—um sacerdote do Christo assim nos abandona, como quem diz: «sêde criminosos e infames á vossa vontade...»

—Não, senhor. O sacerdote de Christo faz, n’estes casos, o que faria qualquer homem de boas entranhas. Irei pedir ao sr. Ruy de Nellas consentimento para salvar sua filha da continuação do crime e da infamia.

—Meu pai é inexoravel!—acudiu Christina.

—Não pode ser—disse Ladislau.—Um homem, que amparou e educou dous filhos desvalidos d’um seu cazeiro, não póde ser impiedoso com sua filha. Minha senhora, peço licença para interpor o meu parecer n’uma questão em que minha mulher não é estranha, e eu tambem não posso sêl-o. Ella não veio; mas encarregou-me de vir aqui offerecer-lhe nossa casa; e, tão certa está de que v. ex.ª nos honra em aceital-a, que já vim preparado para a conducção de v. ex.ª.

—Pois heide eu ir!...—exclamou Christina, encarando anciada em Casimiro.

—O sr. Casimiro fica sendo meu hospede—respondeu o vigario.

—Separados!—bradou ella rompendo contra todos os estorvos do pudor, e abraçando-se em Casimiro.

—Não!—clamou elle.—Christina, sacode os teus sapatos fóra d’esta porta, e vamos ao nosso destino.

—O aggravo não me fere, que o não mereço, senhor!—disse placidamente o vigario.—Eu convido o sr. Casimiro a ser meu hospede, em quanto se solicita a licença do pai d’esta senhora. Se lhes é dolorosa esta separação temporaria, Deus permittirá que os retornos de contentamento a façam esquecer. Soffram alguns dias para merecerem o premio. Eu não posso implorar o perdão para a desobediencia, allegando que os fugitivos permanecem em criminosa união. Ha o recurso da mentira; mas eu não sei mentir. Despeçam-se para um dia, que breve virá, se Deus nos ouvir. O sr. Casimiro, que me applicou as palavras de Jesus aos apostolos, mostra que lê e sabe os livros da religião. Seja, pois, religioso: peça comnosco ao Senhor que lhe despache em bem o seu requerimento.

Casimiro apertou a mão de Christina, e disse:

—Vai, e esperemos.

—E esperemos—acrescentou o padre—por que, a baldarem-se os nossos bons intentos, quem lhes ha de empecer ajuntarem-se? O mundo, quando vê dous desgraçados, deixa-os passar, e vinga-se. Se o mundo é justo, não o direi eu: vingança justa creio que não ha nenhuma ahi. O inverso da caridade é a vingança. Tenham valor, que, se o não tem são mais fracos, desconfiam do poder de Deus, e da sua propria fidelidade um a outro.

—Adeus! balbuciou Christina, suffocada de suspiros. Casimiro beijou-lhe a mão, dobrou o joelho, e disse:

—Se te fiz desgraçada, perdôa-me.

Ladislau, debulhado em lagrimas, abraçou Casimiro, e exclamou:

—Sou seu amigo! O senhor ama deveras esta menina!

—Eu sei que se amam!—disse o vigario—por isso serei parte, quanto em mim couber, na sua boa fortuna.

—E eu não?!—disse com vehemencia o de Villa Cova.

—Tu tambem, meu irmão. Ajudar-me-has com os teus conselhos, por que no teu coração tenro está a sabedoria dos virtuosos, que te educaram.

—Não fomos infelizes, Christina!—clamou Casimiro.—Aqui estão comnosco duas generosas almas. Vai, minha amiga!

—Venha—disse Ladislau—que minha mulher está pedindo a Deus que vamos.

Já não choravam ao separarem-se.

* * * * *

Cumpre narrar, o mais breve que ser possa os antecedentes d’esta fuga.

De uma familia pobre de Pinhel sahira em 1814 um mancebo a assentar praça no regimento de cavallaria de Bragança, onde serviu até furriel. De Bragança passou para Lisboa em 1815. Aqui seguiu os postos até que fez a campanha do cerco do Porto, já major do exercito sitiante, e ahi morreu na ultima batalha. Este militar era pai de Casimiro Bettancourt.

Casimiro sabia que nascera em Lisboa em 1816, e não conhecia sua mãi. Com referencia ao seu nascimento, apenas possuia a pagina de uma velha carteira, que dizia: «Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816: foi baptisado em S. Domingos de Santarem, aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartacho, d’onde sahiu em 1820. Entrou no collegio dos Nobres em 1825. Tenho pago todas as prestações até hoje 31 de dezembro de 1830.» Em nenhum outro caderno de apontamentos encontrou indicios de sua mãi; nem das muitas cartas que seu pai deixou esquecidas n’um bahu de folha, pôde colligir quaes pertencessem a sua mãi. As que tinham data eram quasi todas muito posteriores ao seu nascimento. Apenas duas assignadas com a inicial E, posto que sem data, queria e conjecturava elle que fossem de sua mãi: este querer fundava-se um pouco em vaidade, e muito em presagio, como depois se verá.

Morto o pai, e transvertida a ordem politica, claro é que o joven alumno do collegio dos Nobres havia de sahir entre dezeseis e dezesete annos de idade, desvalido, desconhecido, e indifferente a toda a gente. Dos sabidos amigos de seu pai uns tinham morrido, outros emigrado, e outros esmolavam.

Sabia Casimiro que seu pae nascera em Pinhel, e se correspondia com sua irmã, a largos espaços. Achou cartas assignadas por uma Marianna de Bettencourt. Escreveu, ao acaso, á senhora d’aquelle nome, ou ao nome d’aquella senhora. Responderam-lhe que sua tia tinha fallecido em 1832. A pessoa, porém, que respondia, era o viuvo, carpinteiro de seu officio, bom homem que lhe offerecia sua casa, e metade de suas sopas.

Obrigado a optar entre a fome e as sopas do artista, Casimiro foi para Pinhel, auxiliado pela esmola de um condiscipulo, filho de um brigadeiro liberal, camarada do finado major antes de 1828.

O artista redobrou de trabalho para não obrigar o sobrinho de sua mulher a pegar da serra e da enxó. Comprava-lhe vestido á feição de que usavam os moços remediados, e esperava que seu compadre Ruy de Nellas—padrinho d’um filho que mandára para o Brazil, quinze annos antes—cedo ou tarde conseguisse algum decente emprego para Casimiro.

O fidalgo admittia á sua casa e presença o moço, em attenção ao pai, que morrera fiel á justa causa, como honrado e bravo. As filhas do fidalgo achavam-n’o distincto, delicado, bem fallante, e divertido, quando a tristeza, a dolorosa introversão o deixavam dissimular contentamento, que o pobre, a bem dizer, nunca sentiu deveras. Ruy de Nellas mostrava desejos de lhe abrir a carreira da independencia. Aos dezenove annos, Casimiro pensava em ser soldado; o fidalgo, porém, queria que elle fosse padre com um patrimonio fantastico, e o carpinteiro inclinava-se ao generoso parecer de seu compadre.

Sacerdote é que não! Casimiro amava Christina, Chistina ia chorar com elle; e sabia em que sombras de arvores, ou margens de ribeiras o moço ia chorar.

E ella ia, tremendo de medo e paixão, e a pedir resguardo ás azas dos anjos, buscal-o onde elle estivesse. Tremia, mas não corava de pejo. As flôres que viam, invejavam-lhe a pureza. Arquejava-lhe o seio cançado de retrahir-se: cuidava a doce creatura que o espirar alto a denunciava. Era o offegar d’aquelle seio como o da avesinha anciada, que busca, de fronde em fronde, o ninho que lhe desfizeram. De longe o antevia pelos olhos da alma. As lagrimas tem seu odor: só lh’o não presentem os que as deixam gotejar sem misericordia, sem dó.

E quem havia de ter pena do sobrinho do carpinteiro a não ser ella; que o intendera ao primeiro instante de ser amada, e ao mesmo raio ardente se queimára, e, se o timorato moço esmorecia de medo e pejo, era quem o acoroçoava e levantava do seu abatimento?

Exceptuada a cumplice d’este enorme crime—o enormissimo crime de erguer homem pobre olhos affectuosos á filha d’um Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo—o restante do mundo seria contra elle, se podesse adivinhal-o.

Adivinhava-o o padre João Ferreira, quando voltou de tomar as ultimas ordens. A Casimiro disse:

—Subjugue o coração emquanto é tempo. Tenha sempre deante de seus olhos os beneficios que deve ao sr. Ruy. Recompensar-lh’os com desgostos será crueza e indignidade.

Casimiro não respondeu. O amor, aos dezoito annos, quando assim é surprehendido, não sabe mentir.

A Christina disse o padre:

—A maior prova de estima, que v. ex.ª póde dar a Casimiro, é desvial-o de si. Dos dous hade ser elle o mais desgraçado. Na sua idade, menina, o amor é sempre uma creancice, e como criancice se esquece quando é contrariado; porém, a primeira affeição do moço póde ser a ultima e volver em desgraça irremediavel.

—Quem sabe?—disse Christina com pueril audacia e destemor.

—Eu não sei senão que v. ex.ª está amando um homem que seu pae repulsará de casa, logo que desconfiar de tão estranhas intelligencias. A menina será perdoada como inocente, e elle perseguido e castigado como villão. Como penso que assim vem a acontecer, entendo que o seu amor será funesto ao pobre orfão. Seria querer-lhe muito desenganal-o.

Observou padre João que as duas cegas creaturas, depois do aviso, praticavam como se, em vez da censura, recebessem louvores. Buscavam-se mais, escondiam-se mais, e, de dia para dia, pareciam ir declarando a toda a gente o seu amor, como se contassem com o apoio do fidalgo.

Ruy de Nellas chamou o padre e disse-lhe:

—Ó afilhado, tu não desconfias de nada?

—A qual respeito, meu padrinho?

—Que minha filha Christina olha o Casimiro de um certo modo?

—Póde ser que v. ex.ª se não tenha enganado. Eu supponho que se estimam; e meu padrinho não podia embaraçal-os de se estimarem.

—Essa não me parece tua!—exclamou o fidalgo.—Não posso embaraçal-os?! Então quem é que póde?

—Ninguem, meu padrinho: o tempo é que corrige estes defeitos do coração humano. Deixe v. ex. em silencio a suspeita que eu tomo a meu cuidado o descanço de v. ex.ª.

—Nada de pannos quentes!—bradou Ruy de Nellas. Casimiro vai ser posto fóra d’esta casa, e talvez de Pinhel. É assim que elle me paga? É-me bem feito! muito bem feito! Não seja eu tolo de estar aqui de braços abertos para receber desgraçados, que afinal...

Padre João esperou que seu padrinho desabafasse a sua ira, e disse com humilde e pacato animo: