Part 2
Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação, e córaram. Ladislau baixou os olhos, e ella ergueu-os. Um parece que pedia contas á terra d’uma delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro ia no ceu como a decifrar o enigma da sensação nunca experimentada.
Instantes depois, padre João appareceu á porta da sacristia, e mandou á irmã que accendesse os castiçaes do altar-mór, emquanto elle se revestia para ministrar a sagrada communhão á confessada. Ladislau, como ouvisse as ordens do vigario a Peregrina, ergueu-se e disse:
—Eu vou, se o sr. vigario quer. Já sei este serviço, que era minha obrigação, em tempo de meus tios, que Deus haja.
Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes, como primeiro lavrador da freguezia, e moço de estudo e virtudes, segundo lhe disse o regedor da parochia, e o gravissimo mordomo do orago confirmára.
Acceitou o vigario o serviço a que Ladislau se teria offerecido, ainda mesmo que a presença de Peregrina o não movesse á delicadeza. Esta delicadeza era instinctiva certamente, e ensinada pelo coração, a fundamental de todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os meninos aprendem em livros, como se a cortezia com damas não fosse pagina escripta no mais diamantino do peito desde que abrimos olhos para vel-as.
Accendeu Ladislau as velas, e proveu de agua o jarro da communhão, emquanto o vigario se paramentava. Subiu o ostiario ao altar, abriu o sacrario e tomou a particula da pyxide. Uma nuvem escura de trovoada imminente entoldára o sol, e a capella-mór voltava á frouxa luz crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual de seu sagrado encargo, como não fiasse da claridade de uma só vela a perfeita passagem da hostia á lingua da commungante, acenou á irmã para que tomasse uma vela do outro lado.
Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas assim mesmo, não desatremou em desconcerto com a urbanidade: entregou-lhe o cirio, que tinha e foi tomar outro da tocheira.
Em verdade lhes digo, meus sensiveis leitores, que eu desejava ter assim um painel, para serem dous os papeis da minha estimação. O que já possuo é uma menina lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo, que não vê o alimento mas ainda a vê a ella, e parece despedir-se a chorar. O outro quadro queria eu que fosse o vigario de S. Julião da Serra pendido á fronte humilde da christã; d’um lado, Peregrina com o rosto banhado do escarlate da flamma, que ella quer affastar de si, adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando; do outro lado, Ladislau, involuntario, captivo, alheado de si, sem poder desfital-a. Eis aqui as minhas quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus. O padre está enlevado na suprema magestade do seu ministerio: a penitente está-se identificando a divindade do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu silencioso spasmo, está psalmeando o hymo de graça que o primeiro homem deu ao Senhor, no instante de ver inclinado a si um seio amparador de mulher. E ella, Peregrina? De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus extasis, e contar-no’l-os as tuas iguaes n’este mundo, as que tiveram simultaneamente a intuição do amor e a visão do primeiro homem amado. Todos, pois, enlevados em aspirar divino: o sacerdote e a commungante pela consciencia, os outros pelo coração, aberto em perfumes que queimam a Deus o mais selecto e fino bago do seu incenso.
Findo o acto sacramental, o padre subiu os dous degraus do altar, cerrou o sacrario, ajoelhou, e voltou á sacristia. Ladislau ficou em pé, rente com o tocheiro de castanho tosco, d’onde tirara o cirio. Peregrina foi depor a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja saudando os quatro altares lateraes, e sahiu do adro, e logo entrou na vigairaria. Ladislau, viu-a desapparecer, e disse de sua consciencia para Deus: «Não tornarei a vel-a?»
Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau, que ia sahindo:
—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho tempo, sr. Ladislau. Se não vai com pressa, tenha a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou já.
—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigario quizer.
—Por que ha de ser no adro e não em casa?—tornou padre João.—Entre na residencia, que a porta do sobrado está aberta.
Ladislau esperou no adro, e, emquanto esperava, tinha os olhos na janellinha da saleta, em que seu tio costumava estar nas noites quentes, esperando os freguezes, que voltavam das ceifas, e a todos fallava, mandando-os sentar nos troços brutos de pedra, que alli tinham ficado d’uma casa incendiada pelos francezes.
Assim contemplativo, viu elle chegar á janella a irmã do vigario, e esconder-se, apenas o encarou, surprehendida.
Que instantes aquelles para ambos! Que ceus e ceus, vistos á lus d’um relampago! Que extensos poemas de lagrimas costuma a saudade fazer depois com as reminiscencias de uns momentos tão fugitivos!
Sahiu o vigario do templo, fechou a porta, e disse:
—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?... Não admira, que eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes respeito a memoria, pelos grandes louvores que ouço dar ás suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é, para se avaliar as excellencias de quem assim o educou. O espirito dos dous ultimos e defuntos vigarios de S. Julião da Serra está ainda com o seu rebanho. Facil me ha de ser a mim, homem sem virtude nem experiencia, pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar.
E, no sentido d’estas humildes palavras, foi dizendo outras, que se insinuavam ao coração do moço já captivo do conciliador semblante do sacerdote; e assim entraram na casinha parochial.
—Peregrina—disse o padre á irmã que os vira subir, e, sem saber por que, se alvoroçara—olha que temos hospede; vê lá como te saes; não queiras que o nosso convidado nos julgue forretas. Almoço de abbade rico, ouviste?
A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo que fervia, lançou alguns ovos á certã, e, tão depressa os cosinhou, foi á modesta arca do seu fragal tirar a melhor toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em primeiro uso.
Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu logar de costume, que era um banquinho tosco achegado do escano. A mesa, construida de uma só taboa afumada, engonçava n’aquelle adorno da lareira, talvez tão antigo como a vigairaria de S. Julião da Serra.
Quando a moça se assentou, disse Ladislau:
—Aquelle banco era o logar de minha tia, que Deus tem!
E ficou contemplativo.
—E eu—disse padre João—estou no logar de seu tio, e o sr. Ladislau vem sentar-se no logar que era seu.
Estava já na meza a travessa de barro vidrado com a fritada de ovos e farinha triga. O vigario sorriu-se, e disse:
—Na meza de seu tio havia um prato e um talher para cada pessoa?
Ladislau, que não sabia o significado da palavra «talher», respondeu:
—Comiamos todos do mesmo prato; e na minha casa de Villa Cova, tanto meu pae como meus tios comiamos á mesma meza dos creados e jornaleiros.
—Como ha trezentos annos—ajuntou o padre—como os patriarchas idumeos com os seus servos e escravos. O sr. Ladislau ainda não viu, á luz da civilisação, a grande distancia a que está dos seus criados. Vive, por em quanto, na fé de que senhor e servo são homens filhos do mesmo pai, um favorecido, outro desfavorecido pelo acaso do nascimento... O sr. não lê as gazetas?—perguntou o vigario abruptamente.
—Não leio, nem as vi nunca—respondeu o moço—Ouvi dizer a meu tio que um padre, d’aqui tres leguas, quando acertava de encontrar-se com elle na feira de Pinhel, lhe mostrava gazetas.
—Pois—tornou o padre—as gazetas são uns papeis escriptos em letra redonda, creados e sustentados para demonstrarem que todos os homens tem direitos eguaes. Muito me admira que seus avós e o senhor tenham praticado a egualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente em casa dos Militões de Villa Cova lia-se o Evangelho de Jesus Nazareno.
—Lia, sim, senhor.
—Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação das gazetas. Dizem que ellas são o baluarte da liberdade, da egualdade, e da fraternidade; e eu estou em defender que o sermão da montanha, prégado pelo filho de Deus ha mil e oitocentos annos, e o sermão da natureza, que sem cessar se está ouvindo, bastam para fazer um homem irmão e amigo do outro homem, por amor de Deus, que é pai de todos.
Posto que não excedesse os vinte e oito annos, o vigario, no pausado e reflectido do seu dizer, competia com os cincoenta annos de algum egresso d’aquelle tempo.
As faculdades d’este bem-fadado ministro da verdade tinham amadurado antes da sasão propria. Costuma ser a desgraça quem antecipa, com a precoce experiencia, a reflexão; porém observa-se que o juizo—o que commummente se chama _siso_—proveniente das lições do infortunio, é um recolhimento melancolico, mysantropo, deshumano ás vezes, e quasi sempre intolerante. Em exemplos d’esses, que os ha em grande copia, acerto seria arguirmos ao enojo das chimeras d’esta vida o que attribuimos á reflexão.
A madureza do vigario não era apressada pela desventura, nem triste, nem intolerante. A indole, o habito da soledade, o estudo, a clara vista da alma com que entrava no secreto e desconhecido do coração alheio, explicam o ar grave, monacal, e discordante de seus annos. Não obstante, o geito com que dizia as suas satyras ás gazetas dava mostras de espirito faceto ou _humoristico_, segundo agora francezmente se diz.
Dos estudos do seminario passára o presbytero á capellania do padrinho de Pinhel, fidalgo, como se disse, intractavel desde 1834, retrahido ao seu quarto, em lucta permanente com os achaques da alma egualmente dolorosos que os do corpo. A gota, o rheumatismo, a sciatica impacientavam-no tanto ou menos que o desmancho das cousas politicas. Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, que assim se chamava o gothico solarengo de Pinhel, se alguma vez chamava padre João Ferreira ao seu quarto, era para lhe perguntar pela quinquagesima vez:
—Que me dizes a isto, padre João?
—A isto?
—Sim, á queda do rei legitimo?
—É um facto consummado—dizia o padre.
—É uma usurpação consummada!—replicava o fidalgo, e sibillava um agudo ai, levando a mão ao artelho esquerdo, cuja dor só podia comparar-se á do artelho direito.
E como o afilhado não pudésse restaurar ao throno usurpado o senhor legitimo á vontade do padrinho, Ruy voltava-lhe as costas, e o padre sahia melancolico a encerrar-se no seu quarto com os seus poucos livros, ou ia leccionar em primeiras letras as filhas do fidalgo, a segunda das quaes principiara o alphabeto aos dezeseis annos, Deus sabe com que repugnancia.
Demorei-me accintemente n’estas dispensaveis explicações para dar tempo a que os tres convivas almoçassem e conversassem. _Conversassem_, é menos exacto. Quem fallou sempre foi o vigario, e é de presumir que o auditorio o attendesse escassamente. Ladislau, se alguma cousa escutava, era o poema interior, os hymnos descompassados, mas sublimes, que soavam dentro em seu coração. Estranhas musicas deviam de ser aquellas para o moço surprehendido, na alva do seu primeiro dia de amor, por enchentes de luz desconhecida! O amor, que vem procurado, como sensação necessaria á felicidade da vida, perde dous terços da sua embriagante doçura; porém, o amor inesperado, impetuoso e fulminante, esse é um abrir-se o céu a verter no peito do homem todas as delicias puras que não correm perigo de impestarem-se em contacto com as da terra. Era d’esta especie o sentimento de Ladislau, nascido na hora em que elle ia confirmar sobre a sepultura de seu tio o pacto de ser sacerdote, abjurar as desconhecidas allianças do coração com o mundo, e acceitar as que atam o coração ao mundo com o laço da caridade evangelica.
Ora, aquelle poema interior, se alguem podia decifral-o, era Peregrina. A mulher innocente e admiravelmente dotada do sexto sentido, que recebe as impressões não classificadas na ordem physica nem moral. Adivinha quem a ama, antes que lh’o digam. Parece que o ar se lhe povoa de espiritos amigos, que giram entre ella e os olhos de quem, a fito ou de revez, a requesta. Aquelle diaphano veu de escarlate que lhe purpurea o rosto, não é sangue como dizem os materiaes definidores de tudo: a mimosa susceptibilidade de cutis, chamada pudor, não pode ser sangue; em quanto a mim, é o sombreado das azas iriadas dos espiritos que voejam no ambiente da mulher immaculada, ou então reflexo das coroas de rosas, com que o deus festivo dos amores a infeita, cioso de ter nos seus altares o pouco d’este mundo que merece e desculpa a idolatria.
Posto que este dizer tenha um sabor mythologico, pagão, e, sobretudo, antiquissimo, ha-de o leitor conceder que o seu servo romancista, tal qual vês, se desgarre do caminho trilhado á moderna, para não dizer sempre que os seus personagens estavam arrobados, extaticos, ou, o que é peior, perdidos de amor.
Os meus personagens, Ladislau e Peregrina, não estavam arrobados nem extaticos, porque ambos confessam que comeram da travessa vidrada a sua porção de ovos, e tomaram cada qual o seu caldo-verde (palavra indigna de tão levantado assumpto!)
Perdidos tambem não estavam; porque o perder-se ou transverter-se o coração é quasi sempre a prova real de não ter sido o primeiro nem o melhor um certo amor com que os alienados se desculpam.
O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o amor.
Eil-o ahi, pois, profundo, sereno e bello como o oceano em calmaria.
III
Casamento patriarchal
Eu, que já escrevi doze casamentos felizes de uma assentada, querendo agora enfeitar o de Ladislau e Peregrina, é tamanha a penuria do engenho em que me vejo, que—a não me acudir a fada do estylo—hei de contar o ditoso enlace, como elle está escripto no livro dos casamentos da freguezia de S. Julião da Serra.
Convém saber que é cousa para pouco discurso a passagem do amor ao sacramento, que o completa, lá n’essas terras abençoadas do obscurantismo, como era o termo de Pinhel, e continuará a ser por estes quatro seculos por vir, em virtude de lhe andar por muito longe das raias o caminho de ferro. De S. Julião da Serra, então, isso aposto eu que nunca ha de ser desalojada a santa ignorancia, que faz amarem-se e casarem-se logo as pessoas que se querem.
Vamos a bosquejar o casamento de Ladislau e Peregrina. Se a descripção me sair muito florida, não servirá. Guardarei os enfeites para exornação de outros casamentos, onde as flores sejam empregadas em disfarçar a mingua de coração e virtudes.
Findo o almoço Ladislau disse ao vigario:
—Como o dia está soalheiro e alegre, pedia eu ao sr. padre João e a sua irmã, que viessem passar o dia a Villa Cova. Se houver precisão da sua vinda á egreja para administrar a extrema-uncção, depressa o irá chamar alguem a minha casa; porém, graças a Deus, não está ninguem, que eu saiba, doente na freguezia.
—Pois vamos—disse o vigario sorrindo.—Caro lhe ha de ficar o almoço... O bom presunto vai pagar os maus ovos. Vem d’ahi, Peregrina, vamos lá ver a casa d’onde sahiram tantos homens grandes e obscuros, como são os homens que se escondem da sociedade para serem bons. Quem dirá, sr. Ladislau, que no curto horisonte d’estas serras que nos cercam, estão fechadas as lembranças dos santos ministros do altar, que vieram de sua casa para dentro d’estas quatro paredes velhas!... E seu pai, o viuvo amortalhado no habito de frade pedinte!... Vamos!... A minha indole melancolica chega a ser rustica! Vejo que o sr. Ladislau está alegre, e eu a chamal-o a lembranças pesarosas!...
No decurso da caminhada de um quarto de legua, foi Ladislau contando em miudos a sahida de seu pai para o convento de Vinhaes, e a saudade escura dos que ficaram, encarando a porta, que se abrira á passagem de um caixão, e logo ao desterrado perpetuo das alegrias d’esta vida. E o moço, a fallar de sua mãi, chorava; que é sabida cousa a facilidade que temos de chorar, quando o amor nos amollece, e, para assim dizer, anima o coração. Sem a presença de Peregrina, Ladislau seria mais insensitivo, mais duro, mais homem. O amor afemina as condições mais viris, e tem feito que as faces queimadas e negras da polvorada das pelejas se orvalhem e brilhem de lagrimas. No animo tenro e como infantil do moço de Villa Cova, a bem dita influição da meiga menina, que o ia ouvindo e amando, devia de abrir-lhe no peito os conductos todos das lagrimas maviosas. Não sei que mysterio santo e dulcissimo está no fallarmos de nossa mãi fallecida á mulher que nos bem quer. Póde ser que venha esta sensibilidade de recebermos de uma o coração, que damos a outra. Ou, talvez, seja de nos faltarem carinhos de mãi, e cuidar a gente que a esposa nol-os-ha de reviver.
Subiram os tres caminheiros o serro de uma quebrada, d’onde se entrevia a casa de Villa Cova, mal distincta do arvoredo de soutos e carvalhaes. N’este alto, está um rochedo, a pender sobre uma gruta de lage, ageitada pela natureza, e conhecida dos pastores, com guarida segura das trovoadas.
—Esta lapa convida—disse o vigario. Sentemo-nos aqui um pouco.
—Minha mãi,—disse Ladislau—chamava a esta penedia a sua gruta... eu ainda lhes não disse que minha mãi era pastora.
—Pastora?!—acudiu Peregrina, com ar de lisongeira admiração, significando sentir a patriarchal poesia da vida pastoril.
—Olhem se avistam—tornou o moço—pela garganta d’estas duas quebradas, lá em baixo, uma casa, nas costas de um souto fechado? Alli nasceu minha mãi de uns lavradores remediados; e, logo que teve a idade, tomou conta da rez, e vinha todos os dias com ella para a serra. Aqui no cavo d’este penhasco é que ella comia a sua merenda; e, assim que o sol começava a descer, tambem ella descia ao valle.
—Sosinha?—atalhou Peregrina, com visagem de sústo.
—Sosinha com dous cães de gado, os quaes, assim que anoutecia, um tomava a dianteira do rebanho, outro ia á beira d’ella. Muito chorou minha mãi, ao morrerem-lhe de velhos os seus cães! Quando vinhamos á igreja, minha mãi sentava-se sempre ahi n’essa pedra, onde está a sr.ª Peregrina, e dizia a meu pai: «Olha, se te lembras, meu santo!» E ficavam-se a olhar um no outro com semblante alegre.
Ladislau cessou de dizer o quer que fosse que attentamente o padre e a irmã esperavam. Por mais curiosa e lhana, Peregrina perguntou:
—E que seria? Porque lhe dizia ella que se lembrasse?
O moço sorriu-se candidamente, e continuou:
—Meu pai estudava para padre, e já tinha ordens menores, quando encontrou aqui minha mãi, andando elle ás perdizes. D’ahi a pouco tempo estavam casados. Isto me contaram meus tios. É bem de ver que ella se lembrasse, quando aqui chegava, da primeira vez que se viram, depois que eram grandes. Em pequeninos tinham sido muito amigos; mas, como meu pai desde os doze annos começou a estudar com um tio vigario, e veio habitar na residencia de S. Julião, quando se tornaram a ver foi tamanho o amor que...
Ladislau susteve-se com feminil pudor.
—E foram muito amigos?—disse Peregrina.
—Tão amigos—respondeu o padre—que se amortalharam ao mesmo tempo.—E, erguendo-se, acrescentou:—Ora vamos lá por ahi abaixo.
D’alli até casa, Ladislau foi contando ao vigario os estudos que tinha feito com seu tio, os livros que lêra, e os que mais eram do seu gosto. No tocante ao intento de ordenar-se, nada tinha dito, quando padre João lhe perguntou:
—Segundo me disseram, o sr. Ladislau está na ideia de ordenar-se?
—Faz hoje um anno que morreu meu tio—disse o sobrinho do padre Praxedes.—Pouco antes de ir a Deus, me disse elle que esperasse um anno a inspiração do Espirito Santo. Agora venho de orar sobre a sepultura de meu tio, pedindo-lhe...
—Que o allumiasse no difficil transito—atalhou o vigario, e ajuntou logo:—E vem decidido a ordenar-se?
Peregrina, que os seguia com alguma distancia, como ouvisse aquella pergunta, insensivelmente estugou o passo para ouvir a resposta.
Ladislau respondeu:
—Ainda não.
E, como voltasse o rosto ao padre no acto de responder, e visse os olhos de Peregrina, fitos em si, e expressivos de anciedade intima, Ladislau recebeu dentro da alma uns tamanhos abalos de alegria que não pôde nunca mais topar delicias comparaveis ás d’aquelle momento.
Entraram no quinteiro da casa de Villa Cova.
Á porta da córte dos cevados estava uma mulher octogenaria, com uma varinha na mão, acommodando os recos, que brigavam em redor da pia.[2] Esta mulher que tinha setenta annos de serviço em casa dos Militões, quando o amo, Peregrina e o vigario entraram no quinteiro, deixou cahir da mão trémula a varinha, e benzeu-se murmurando: «em nome da Santissima Trindade, Padre, Filho e Espirito!»
—_Amen_, disse padre João.
—Que tem vm.ᶜᵉ, tia Brazia?!—perguntou Ladislau.
—Ainda não estou em mim!—respondeu a velha Brazia, caminhando para o grupo, e formando com as mãos um sobreceu aos olhos para poder enxergar os recem-chegados; e proseguiu:—Cousa assim! Pois não me havia de parecer agora que via entrar por essas portas dentro... credo!...
—Quem lhe parecemos nós?—tornou Ladislau.
—Esta moça—tornou Brazia, aproximando-se de Peregrina—pareceu-me sua mãe, que Deus tem; o meu menino parecia-me seu pae, o santinho; e este sr. padre dava-me ares do sr. reverendo vigario Praxedes. Estou a vel-os como eram ha trinta annos, quando vinham da igreja, depois da missa do domingo, cá jantar a casa!
—Pois repare bem—disse o moço—que somos pessoas vivas, tia Brazia, e havemos de jantar para a convencermos de que não somos phantasmas.
—Pois sim, meu menino; graças a Deus ha muito quê; mas olhe que os servos estão todos por fóra, e eu não tenho pernas para andar atraz da gallinha. Cozinhal-a cozinho-a eu; mas pilhal-a isso ha-de ser vm.ᶜᵉ. E quem é essa mocinha tão bem posta e ageitada, benza-a Nosso Senhor?
—É irmã do sr. padre vigario, que está aqui.
—Ah! este é que é o sr. reverendo vigario? Bem me tinham dito que era ainda bem moço; mas isso não tira. Se a santidade fosse aquella dos velhos, então já eu estava no altar! Deite-me a sua benção, sr. reverendo vigario, e com Deus venha a esta casa d’onde sahiram tres santos só dos que conheci. Eu tenho dou carros de annos, aqui onde me vê, sanzinha e escorreita, bemdita seja Nossa Senhora.[3] Conheci, só á minha parte, o sr. padre Timotheo, o sr. padre Heitor, e o sr. padre Praxedes, afóra o santo pai do meu Ladislau, que morreu com o habito dos missionarios de Vinhaes.
Ladislau interrompeu Brazia, que ia sentar-se n’um feixe de vides para mais commodamente contar os successos alegres e tristes dos ultimos setenta annos da casa de Villa Cova. Pediu-lhe elle com brandura e graça que reservasse para depois de jantar as suas historias.
—Então vamos para dentro—disse ella—eu cá vou com a nossa menina mostrar-lhe a casa. Como é a sua graça?
—Peregrina.
—Por muitos annos e bons. Era melhor chamar-se Rosa, que é mesmo uma flôr; que Pelingrina tambem é bonito nome. Ora, pois, vá o menino apanhar a ave, que a panella vae já p’ro lume.
Ladislau e o vigario sahiram do quinteiro entraram na eira onde esgaravatavam as gallinhas. No entanto, Peregrina, como a velha se agachasse na lareira para espertar o lume amarroado, pediu-lhe que se assentasse no escabello, e a deixasse a ella cosinhar. Brazia cedeu ás instancias, repartindo o trabalho com a hospeda.
Ladislau entrou na cosinha com a ave, e viu Peregrina com um alguidar no regaço, cegando as couves. Estranhou a Brazia o estar a irmã do sr. vigario n’aquelle serviço, e a velha respondeu serenamente:
Ella assim o quer; e bem haja a moça! Estou-me a regalar de a ver! Parece-me mesmo sua mãisinha, quando aqui entrou pela primeira vez. O noivo estava lá no sobrado com os padrinhos e parentes, e ella desceu cá p’ra cosinha a ajudar as criadas.
—Pois sim—replicou Ladislau—mas minha mãi era dona da casa e esta senhora é hospeda.
—E por que não ha de ser dona? Se o não é, ella o será, querendo Nossa Senhora.
Estas palavras avermelharam as faces de ambos, que não poderam suster o relance de olhos que se trocaram.