O Bem e o Mal: Romance

Part 13

Chapter 133,931 wordsPublic domain

—Este é que é o sr. Casimiro Bettancourt?—disse a condessa apertando-lhe a mão.

E a mão ardia, tremia, e apertava extraordinariamente.

—As outras pessoas,—concluiu Ruy—são filhos do meu coração: aquella é a minha Peregrina, e aquelle o meu padre João. Lembras-te, Eugenia, do José Ferreira da Rochousa, nosso caseiro?

—Lembro.

—Pois são filhos d’elle que eu herdei. Aquell’outro, que alli vês, é Ladislau, marido de Peregrina.

—E estas duas creancinhas?

—Uma é minha neta e tua sobrinha, primogenita e unica de Christina, a outra é filha de Ladislau.

A condessa, ouvindo o irmão, a cada instante relanceava os olhos a Bettancourt, unico da comitiva, que ficára de pé, no intento de servir a hospeda, e dar a sua cadeira ao capellão.

—Senta-te, Casimiro—disse o velho—Aqui tens, Eugenia, o meu orgulho, a minha gloria, o meu Casimiro sem mancha de culpa, com a sua honra illibada! Não foi preciso appellarmos para Lisboa. A justiça de Deus veio mais cedo do que a esperavamos. Eu te conto como isso foi...

—Sei tudo—atalhou a irmã—Já me informaram na hospedaria.

—Mas como estás tu aqui, mana?—tornou Ruy—Vinhas munida, talvez, de cartas para alcançares a absolvição de teu sobrinho em Coimbra?

—Não, Ruy—tartamudeou a condessa.

—Então que palpite foi esse de te botares ao caminho, sem saberes a decisão do julgamento?!

—Dizes bem, Ruy... foi um palpite...

—Bem hajas tu que vieste dar o remate á nossa satisfação! Agora vais comnosco para Pinhel, não é assim?

—Irei. E hoje janto comvosco.

—Isso estava sabido!... pois então?!

A condessa disse a padre Francisco:

—Póde ir, e descansar á sua vontade, padre capellão, que eu passo aqui o dia. Queira dar esta parte á creada.

Sahiu o padre, e todos passaram ao quarto de estudo de Casimiro, que era a parte mais alegre e arejada da casa.

—Estou entre amigos!—disse com um profundo suspiro a condessa—É a primeira vez na minha vida que digo isto!

Ruy comprehendeu a irmã, relembrou a mocidade dolorosa de Eugenia, e fez um gesto compassivo, e outro que significára: «Não lembremos o que lá vai.»

Porém, Casimiro, impressionado d’aquellas palavras disse respeitosamente:

—As felicidades de v. ex.ª não devem ter sido invejaveis!... Em volta da riqueza, da formosura, e de um nome distincto costumam reunir-se muitos amigos... ou, pelo menos, muitos que o parecem...

A condessa encarou n’elle com penetrantes olhos, e disse:

—Lastima-me, não é verdade?

—Minha senhora—balbuciou Casimiro—peço perdão... não quiz dizer que lastimava v. ex.ª... Quaesquer que tenham sido suas magoas, a sua elevada posição não consente que eu me condôa...

—Está bom, está bom—atalhou Ruy—não se falla aqui em magoas, nem dó, nem lastimas! Este meu Casimiro tem uma propensão para discursos tristes, que nunca vi!... Olha que hontem á noute, mana, o que elle disse á beira da sepultura do Guilherme, ia arrancar ao fundo do coração as lagrimas de quem nunca tivesse chorado!

—É porque eu dava o exemplo, chorando, sr.ª condessa—ajuntou Casimiro.

—E deve ter chorado muito!—disse ella.

—Pouco, minha senhora. Sou um homem muito resignado, ou muito forte. A mim as grandes angustias levemente me abalam. Algumas vezes tenho chorado por cousas insignificantes. Posso ver a olhos enxutos morrer minha filha, e não poderei ouvir sem lagrimas o piar de uma ave, a quem mataram os filhos no ninho. Isto será deformidade de organisação; mas dureza de alma não é, minha senhora... Meditando na minha indole, vim a considerar que para mim o incentivo das lagrimas é uma certa poesia funebre e maviosa, sensação que eu não sei d’outro modo definir; ao passo que as desditas positivas, cerradas e suffocantes regelam-me a alma.

—Elle ahi está a fugir para a tristeza!—interrompeu o fidalgo.

—Deixa-o fallar, mano...—pediu a condessa.

—S. ex.ª tem rasão...—disse Bettancourt eu sou incorrigivel e tenho contagio. Aqui está a minha Christina absorvida tambem na sua meditação...

—Não—acudiu Christina—eu estava a pensar com alegria nas tuas tristezas passadas, meu Casimiro.

—E todos com o passado ás voltas!—clamou Ruy—Fallem no presente, descubram o futuro, e não me afflijam, que vai aqui tudo raso! Querem ver que a minha Eugenia tambem é melancolica? Em pequena eras muito, menina! O teu gosto eram sombras de arvores, fontes, ver o céu de noute... Aqui estou eu tambem a fugir para traz trinta e tantos annos! Bem diz o Casimiro que a sua scisma é pegadiça!...

—Mas olha, mano, deixa-me conversar com o teu genro, que o passado te aborreça...

—O que eu observo, Eugenia, é que tu sympathisas grandemente com elle!...

—Porque não!?

—Beijo as mãos de v. ex.ª—disse Casimiro.

—Isso quando se diz, faz-se.

—O quê, senhora condessa?

—Disse que me beijava as mãos... então... beije.

Casimiro inclinou-se, e beijou de leve a mão da dama, que lhe apertou vertiginosamente a d’elle.

Este visivel estremecimento impressionou Christina e Peregrina, que se encararam de um modo que podia ser duvidar do bom senso da condessa.

—Vamos conversar, sr. Casimiro—disse Eugenia—Queira sentar-se ao meu lado. Meu mano já me disse que o sr. era filho de um militar, que morreu no cêrco do Porto.

—Sim, minha senhora, sou filho de Duarte Bettancourt.

—Conheceu seu pai? Onde estava quando elle morreu?

—Conheci meu pai. Vi-o em 1830 pela ultima vez. Estava eu no collegio dos Nobres, quando elle morreu.

—Sabe em que anno nasceu?

—Sei-o dos proprios apontamentos de meu pai.

—Escriptos por elle mesmo?

—Sim, minha senhora.

—Dá-me licença que os veja?

—Por que não, sr.ª condessa? Aqui está a velha carteira de meu pai...

A condessa tomou da mão de Casimiro, com sofrega ancia, a carteira, que folheou.

—Onde é?—disse ella convulsiva.

—Aqui, minha senhora—respondeu Casimiro indicando-lhe a pagina, que a condessa leu:

_Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816. Foi baptisado em S. Domingos de Santarem aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartaxo d’onde sahiu em 1820..._

A condessa murmurava ainda; mas não lia o restante da nota. Fechou a carteira, e voltou-a nas mãos, remirando-a. Depois, pregou os olhos no rosto de Casimiro, e permaneceu n’este spasmo alguns minutos, até que muito do fundo do seio lhe sahiu um grito estridente, e uma explosão de lagrimas em que a luz da vista parecia innevoar-se.

—V. ex.ª soffre!...—disse Casimiro.

E acercaram-se todos da condessa, que, tomando a mão de Bettancourt, ergueu-se de impeto e disse-lhe:

—Leve-me a uma janella... dê-me ar, e uma gotta d’agua.

—São nervos!—observou Ruy—É da casa, que é abafada... Abram todas as janellas... Queres tu descer ao quintal? Vai com ella, Casimiro... Vamos todos.

—Estou melhor—atalhou D. Eugenia—Já respirei...

—Costumam dar-te estes accessos, mana?

—Costumam...

Sentou-se de novo, reparando na carteira, e outra vez se lhe tingiu de escarlate febril o rosto.

—Mysterio!—disse o vigario ao ouvido do cunhado.

—Que cuidas?!—perguntou Ladislau...

—Esperemos.

A condessa affastou das fontes os cabellos empastados de suor, e disse cortando as palavras de suspensões, que pareciam o abafar de mão estranha na garganta:

—Casimiro esteve no collegio dos Nobres até...

—Até 1834, minha senhora—respondeu o filho do major.

—E depois...

—Como perdi meu pai, fui a Pinhel procurar amparo de parentes pobres.

—E nunca viu no «Diario do Governo» um annuncio perguntando se existia um filho do major Duarte Bettancourt?

—A Pinhel nunca chegou esse jornal—disse Casimiro—E quem se interessava em saber se eu existia?

—Quem?...

—Sim, minha senhora.

—Era eu.

—V. ex.ª!—acudiu Casimiro com assombro.

—Com que fim eras tu, Eugenia?—perguntou o fidalgo.

A condessa fitou a vista incendiada no irmão; e disse:

—Com o fim de saber se existia... meu filho!

Assim devia ficar uma familia de Pompeia, de subito, empedrada na invasão da lava fulminante. Uns a outros, com olhos pavidos, pareciam pedir o claro sentido d’aquellas palavras.

Casimiro sentiu lavaredas no seio e descerrou os labios á expedição do lume. Estrondeavam-lhe no encephalo umas allucinações de ebrio. Dos olhos de sua mãi afuzilavam umas como frechas que lhe cortavam de lampejos o curto espaço de ar intermedio. Para os outros, ha só o termo «estupefacção» que os descreva. A condessa oscillava outra vez assoberbada pela commoção nervosa; já se não sustinha, com as mãos apoiadas nas costas da cadeira. Levantou-as, estendeu os braços como a pedir amparo. Encontrou o seio de Casimiro, e n’elle inclinou a face, exclamando:

—Meu filho!...

Mas isto tudo é um sonho!—disse Ruy de Nellas, levando as mãos ás fontes.

Casimiro ajoelhou com a mãi nos braços. As duas senhoras, sem segura consciencia do que faziam, foram amparar a condessa. O vigario pôz as mãos em attitude de quem ora. Ladislau cruzou os braços no peito contemplando o grupo.

De subito, Casimiro afastou um pouco a face, contemplou o rosto pallido da condessa, beijou-a na fronte e disse:

—Tenho mãi, meu Deus!... Eu sabia que a tinha, e havia de encontral-a!...

Então, chorou, a torrentes!

Se não chorasse enlouquecia.

XIX

Paz e contentamento

Decorridas algumas semanas, o casamento de Casimiro Bettancourt com sua prima carnal D. Christina de Nellas era validado pelo nuncio apostolico, dispensando no parentesco, e saneando a ingnorada irregularidade. A condessa perfilhava Casimiro para lhe segurar a successão de seus grandes cabedaes. Casimiro, porém, com quanta delicadeza e respeito a ternura filial lhe inspirou, disse que só acceitava a perfilhação para ser seu filho, e não seu herdeiro. Ficou interdicta, e alheia da intenção da resposta, a condessa. O filho esclareceu assim a propria demencia:

—Minha mãi herdou de seu marido: eu, filho de outro homem, que morreu pobre, peço licença para ser estranho aos haveres do sr. conde de Asinhoso. Eu sou filho de D. Eugenia de Nellas. Minha mãi ainda tem a sua legitima n’esta casa de Pinhel. Essa acceito-a como dote para egualar o patrimonio de minha mulher.

—Pois sim, filho, faça-se a tua vontade—disse a condessa.—Por minha morte ficarás agricultando algumas geiras de terra em Pinhel, que valerão doze mil cruzados. Ficarás sendo um lavrador dos menos abastados da comarca. Minha sobrinha Guiomar virá senhorear-se do vinculo e da casa que é vinculada. Tu com tua mulher e filhos irás viver no casal da Rechousa, ou n’outro semelhante, que ameaçam ruina.

—As paredes abaladas especam-se, minha querida mãi; a dignidade aluida é que nunca mais se repara. Eu amo a mediania, que é o refugio da paz. As lições da vida deu-m’as o lavrador de Villa Cova. Minha mãi prometteu-me ir ver de perto a casa de entre serras, aquelle abrigo de honrados e de santos. Venha commigo alli estar uns dias, e v. ex.ª olhando d’alli para o céu, dirá: «se ha paraizo na terra, se ha bem no mundo, é aqui».

—Iremos, filho: eu tambem o desejo. Já estou convidada para ser madrinha do segundo filho de Ladislau. Bem vês que ando a cuidar-lhe do enxoval.

E, logo na semana seguinte, partiram todos para Villa Cova, e as meninas solteiras de Pinhel tambem.

Quem é este homem de jaqueta de panno azul e colete encarnado, e chapeu braguez que vai a pé, ao lado da egua em que monta a condessa?

É mestre Antonio—o carpinteiro.—Alli vai conversando em obras, que é preciso fazer aqui e acolá, nas casas arruinadas do fidalgo. A condessa trabalha por tirar este homem do officio: offerece-lhe dinheiro para erguer casa, e comprar bens. Mestre Antonio responde:

—Fidalga, grande nau grande tormenta! Deixe-me cá com a minha vida que vou bem assim. Meu filho brazileiro manda-me duzentos mil réis cada anno, e eu, a fallar verdade a v. ex.ª, tenho-os alli para uma gaveta, sem saber de que me servem. A minha alegria é o trabalho. Em pegando dous dias-santos, ando como tolo sem saber em que hei de gastar o tempo.

—Mas gaste-o em trabalhar nos seus bens.

—Nos meus bens trabalho eu, sr.ª condessa. Logo que me pagam o serviço, alguma cousa tenho dos bens em que trabalho.

* * * * *

Ficarás, por tanto, carpinteiro, honrado homem, mas homem honrado, toda a tua vida!

* * * * *

Custa a caber tanta gente na casa de Villa Cova! Armam-se leitos de bancos nos cazarões das tulhas. O quarto solemne dos padres é consignado ao fidalgo. A condessa occupa o de Peregrina. Que feliz barafunda alli vai! Os creados vem carregados de caça dos montes. O fidalgo quer ir á cosinha fazer umas troixas de ovos, cuja receita lhe deram os anjos. A condessa anda lá pelos campos a correr atraz da nétinha. As irmãs de Christina sobem á lapa da Crasta e entram de lá a berrar que lhes acudam, que as comem os lobos. O capellão da condessa, acertando de encontrar na livraria dos padres Militões as cartas manuscriptas de fr. Bartholomeu dos Martyres, persegue toda a gente para que lhe ouçam ler as cartas e os commentarios soporiferos d’elle.

Quem mais o atura é Casimiro que foge do bulicio para a livraria defeza ás corrimaças das cunhadas.

Chega o dia do baptisado, e n’esse dia apparece inesperado em Villa Cova um tabellião de Pinhel, a rôgo da sr.ª condessa de Asinhoso. Lavra-se uma escriptura. É uma doação que faz a mãe de Casimiro ao seu afilhado Ruy, filho de Ladislau. Dôa-lhe quinze mil cruzados em inscripções nos Bancos de Portugal, em virtude dos muitos e impagaveis favores que devia a seus pais.

Casimiro abraça sua mãi, e exclama:

—A virtude é engenhosa, minha querida amiga!

Os pais do menino beijam-lhe a mão, e Ladislau diz:

—Com a condição de que meu filho conservará o deposito como patrimonio dos desgraçados: mande v. ex.ª escrever esta clausula na escriptura.

—Ladislau—disse a condessa—já lh’a deve ter escripta no coração.

* * * * *

Alli se detiveram trinta dias. De Pinhel, em cada semana, vinham cargas de viveres. Ladislau sentia-se, e o fidalgo respondia:

—Isto é para o capellão da mana condessa, que lê muito as cartas do fr. Bartholomeu; chora de enthusiasmo; mas não o imita na temperança. Seria capaz de engulir o santo, o bom do egresso, se o pilhasse! Sem este contrapeso de vitualhas, amigo Ladislau, eramos todos victimas da gulodice do padre. Vamos lançando estes bocados ao Acheronte, que promette, ao contrario do outro, levar-nos para o céu, se não adormecer no meio do caminho.

A alegria dava graça ao velho, que, em geral, era semsaborão.

Na volta para Pinhel trouxeram comsigo a familia de Villa Cova, salvo o vigario que voltou ao amor do seu rebanho.

Sahiu para Lisboa o capellão da condessa com ordens ao procurador para vender o palacio, os trens, os primores da Asia, que opulentavam a triste vivenda da viuva. Triste, sem um amigo, como ella dizia. Ao mesmo tempo, o egresso cumpriu outras ordens com referencia ao ministro da justiça. Ultimado tudo, voltou o padre a Pinhel: ia reloucado de prazer, porque, á ultima hora, soubera que fôra nomeado conego da patriarchal. Beijou as mãos á condessa.

—Vá—disse-lhe ella sorrindo—vá imitar na pobreza ecclesiastica o seu predilecto Bartholomeu dos Martyres.

Na mesma data era nomeado conego da sé da Guarda o padre João Ferreira.

O vigario, avisado na sua pobre parochia, foi a Pinhel, depositou a mercê nas mãos da condessa, e disse:

—Perdoe-me v. ex.ª a recusa: eu não posso separar-me de minha mãe e cunhado. V. ex.ª não quer que eu me deixe alli viver á sombra das virtudes dos padres de Villa Cova.

—Eis aqui um padre novo, que destôa das doutrinas do meu velho capellão!—disse a condessa—Pois sim, padre João, vá para o seu presbyterio, e venha ver-me muita vez, e tome á sua conta a minha velhice.

Christina contou a sua tia e sogra os menores incidentes do seu namôro, e mostrou-lhe o José-pastor que tão util e leal lhe fôra.

Chamou a fidalga José-pastor e mandou-lhe que dissesse a razão por que fizéra aquelles serviços ao sr. Casimiro e á menina.

O rapaz respondeu:

—Era toda a gente contra elles, e eu disse cá c’os meus botões: ora deixa estar que eu vos dou nas ventas para traz.

—E nunca te deram nada?

—Elles que me haviam de dar, fidalga??

—Então fazias tudo sem interesse?

—O que eu queria era vel-os casados. A menina estava lá em cima fechada a chorar, e o sr. Casimiro andava lá por longe escondido... fizeram-me muita pena! Foi o que foi.

—Queres tu ser padre?—perguntou a condessa.

—Padre?!

—Sim.

—Não, senhora. Antes queria ser sargento.

—Sargento!... mas tu és muito rapaz ainda para assentar praça.

—Posso assentar praça de tambor, que os tambores são do meu tamanho.

—És tolo, rapaz! Queres tu estudar para depois ser official?

—Eu já sei ler, que me ensinou o sr. Casimiro.

—Pois sim; mas agora vais aprender outras coisas para Lisboa.

—E leva-se lá bordoada de cego?

—Não, patarata, ninguem lá te bate.

—Então, se a fidalga quer, e o fidalgo deixar, vou.

E foi para a Polytechnica de Lisboa, com recommendação da condessa.

D. Sueiro de Aguilar teve noticia d’estes successos estupendos. Sentiu guinadas de fazer as pases com a familia de Villa-Cova, e por um cabello se não descobre n’esta extrema de despejo. Guiomar ainda escreveu a sua tia, cumprimentando-a pela sua chegada. A condessa respondeu: «agradeço o cumprimento de minha sobrinha, e faço votos pela sua felicidade.»

Esta sequidão irritou D. Sueiro, que se desentranhou em apostrophes contra a canalha de Pinhel. A tia de sua mulher foi exposta á irrisão dos seus hospedes, na presença da sobrinha. Repetiram-se os vilipendiosos amores que deram o filho natural, sobrinho do carpinteiro. Desde este facto, D. Guiomar odiou o marido, cuja hediondez de caracter só podia ser avantajada por D. Alexandre.

Tratou a condessa de casar suas sobrinhas, com auxilio dos seus haveres. Accorreram pretendentes das duas provincias contiguas, e casaram todas com morgados, homens de bem, vaidosos de seus appellidos, mas inoffensivos, e virtuosos mesmo por vaidade de imitarem seus avoengos. As senhoras dispersas por aquelles palacetes solarengos reuniam-se em casa de seu pai, nas festas do anno, nos natalicios, e no anniversario do casamento de Casimiro. Esta clausula fôra instituida pela condessa.

A tiro de peça de Pinhel, existiam uns casebres derrocados, onde nascera, segundo informações de mestre Antonio, seu cunhado Duarte Bettancourt, filho de um soldado da ilha de S. Miguel, que ficára na metropole, e alli estabelecera uma tenda. Comprou a condessa estes pardieiros aos possuidores, e mandou-os arrazar, e sobre elles edificar um obelisco cintado por grossa cantaria, com portas de ferro. Ia todos os dias ver a obra, que durou um anno, com os melhores alveneis da provincia. Concluido o obelisco, foi entalhada na base uma lamina de ferro com esta legenda:

Á MEMORIA DE DUARTE BETTANCOURT MORTO NO SEU POSTO DE HONRA EM 1834 MANDOU ERIGIR SEU FILHO CASIMIRO BETTANCOURT EM 1843

Ruy de Nellas, lá muito no seu interior, não gostou da lembrança. Era a natureza a puchar por elle.

N’este tempo, teve a condessa uma hora de muitas lagrimas.

Casimiro, de proposito e por veneração, nunca lhe mostrára duas cartas, que conservava entre os papeis de seu pai, assignadas pela inicial _E._

N’uma tarde, como estivessem sentados na base da columna, Casimiro tirou da carteira dous papeis dobrados e amarellecidos.

—Que é isso, filho?

—Veja, minha mãi:

Abriu ella, e exclamou:

—É minha a letra! Como possues isto?!

—Minha mãi já deve saber como as possuo.

A condessa leu soluçante, e beijou aquelle papel, que estivera nas mãos de Duarte. Leu a segunda, e, em meio da pagina, susteve-se afogada de ancias e lagrimas.

Casimiro arrependeu-se da indiscripção, e acariciou-a, pedindo-lhe, pela memoria de seu pai, que vencesse a sua dor.

Era este o contheudo da primeira carta:

«Não soffras, D.—Conta com o meu valor. Parece-me que vou ser arrebatada para uma quinta do tio. Não sei qual. Eu te avisarei a preço de tudo. O mais que podem é matar-me meus irmãos. A minha alma irá identificar-se á tua: viverei sempre comtigo na terra, e amando-te de um mundo melhor. Socega, meu amigo. Se Deus vê a nossa innocente paixão, elle nos protegerá. Se não ha Deus para nós, seremos um para o outro. Tua, _E._»

Esta carta devia ter sido escripta antes da ida para Camarate.

A segunda dizia:

«É horrivel esta oppressão! Tenho medo de morrer abafada pela angustia. Vem, approxima-te, dá-me alentos, se não prefiro antecipar a morte. Ai! que soledade! que abandono n’esta hora! Vem, vem, D., que eu queria ver-te antes de morrer! _E._»

Presume-se que esta ultima carta foi escripta de Recaldim para Torres Novas, quando Duarte desceu de Bragança, a receber das mãos de Brites aquella creança, que alli está agora, homem, com o rosto de sua mãi apertado ao seio.

Em seguida áquelle trance, a condessa acamou, e teve febre por longos dias. A presença do filho, magro, livido, triste como quem pede a primasia na morte ao lado de um enfermo em perigo, abrazou-a em supplicas ferverosas a Deus, pedindo a vida. Declinaram as febres, volveram esperanças e saude, e continuou o hymno de graças ao Senhor, entoado por aquellas duas familias que rodeavam o leito de Eugenia.

Segura a convalescença, a condessa, prevendo que, por morte de seu irmão, a casa de Pinhel passaria á successora do vinculo, cuidou em construir um palacete em nome de Christina.

Casimiro objectou que d’aquelle modo passava a seus filhos a casa do conde de Asinhoso.

A mãi respondeu:

—Quererás tu privar-me que eu beneficie minha sobrinha? Isto não tem nada que ver comtigo, Casimiro! As demazias da dignidade são uma impertinencia.

Conclusão

Passaram-se vinte e um annos.

Ainda que o contrario se afigure a pessoas, que teem a boa sorte de não escrever romances, a conclusão d’um livro d’esta especie é dolorosa de fazer-se, quer os personagens tenham existido, quer vivessem, como chimeras queridas, na phantasia do escriptor.

É doloroso, digo, porque ha ahi um facto formidavel e horrendo, que tanto vinga nos personagens verdadeiros como nos imaginados: é a morte. O romancista historico tem de matal-os em nome da historia: o romancista inventor tem de matal-os em nome da verosimilhança.

Eu creio que o leitor denega sua fé aos successos que lhe contei. É injusto com a maxima parte d’elles. Ahi foram esboçadas umas pessoas que viveram, e outras que vivem com outros nomes e em outras terras. E por isso redobra a minha mágoa por não poder dizer que vivem todos.

As duas sympathicas velhinhas, Brazia de Villa Cova e Brites de Recaldim, essas ha muito que já lá vão. Com isto privo o jornalismo do innocente gaudio de annunciar duas macrobias. Brazia morreu, como lá dizem, á imitação d’um passarinho, com oitenta e nove annos de idade, em seu perfeito juizo, e conformada com a vontade de Deus. Legou os seus ordenados de setenta e nove annos ao filho mais velho de Ladislau, e o seu ouro, composto de cordão e anneis, a Peregrina. É verdade que estes valores não chegaram para as missas de que ella onerou os herdeiros por sua alma e por almas idas ha tanto tempo que ou Deus as tinha comsigo, ou o descondemnal-as seria tardio intento. Brites lá se finou em Recaldim, poucos mezes depois da sahida de D. Eugenia para o Brazil. As desventuras da filha da sua menina minaram-n’a tanto que a saudosa velha, de dia para dia, se resvalou á sepultura, pedindo a Deus que a não castigasse por ter protegido a desgraçada senhora. Aquella Apollinaria da calçada dos Barbadinhos, que o leitor esqueceu, não esqueceu á condessa de Asinhoso. De volta do Rio de Janeiro procurou-a, achou-a pobre e cega, deu-lhe abundancia, empregou-lhe os filhos, e fez-lhe o enterro annos depois.

Ruy de Nellas morreu em 1850, nos braços de Casimiro e Christina, unicos filhos que viu á hora da morte. O vigario de S. Julião d’Arga tão santos dizeres lhe fallou n’aquella tremenda hora, que o moribundo inclinou suavemente a cabeça, e expediu a alma ao seu creador, abençoando as filhas ausentes.