O Bem e o Mal: Romance

Part 12

Chapter 123,928 wordsPublic domain

«Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante do 5.º anno de direito, que fui eu quem matou, na noute de 16 de janeiro do corrente anno de 1840, um creado de D. Alexandre de Aguilar, e empreguei os meios de matar tambem o amo. Não tinha contra algum d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo jurado de poltrões covardes, e sabendo eu que elles espreitavam ensejo de matar Casimiro de Bettancourt, mancebo tão honrado como valente, protestei livral-o de tão miseraveis inimigos, atacando-os sósinho e sem mais arma que um páu de choupa, no momento em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha d’um anno. Declaro mais que fui eu quem afugentou a companhia, postada ás portas de Casimiro na intenção de o arrancar ás garras da justiça; mas o meu amigo não quiz fugir, assegurando-me que se havia de salvar sem pôr em risco a minha segurança. E por tanto, resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a Casimiro Bettancourt perdão de o ter infelicitado, quando cuidava que o beneficiava com o meu zêlo guardador da sua preciosa vida. Peço tambem perdão da inexplicavel fraqueza que me tolheu de eu ter feito esta declaração desde o momento que o meu amigo entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas volto as minhas supplicas para a esposa attribulada, que tantas vezes, com um sorriso de amiga, devia execrar o causador das suas calamidades! Faço esta declaração debaixo dos olhos de Deus, e juro pela virtude de minha mãi que é verdade o que digo, e será infame quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de 1840. _Guilherme de Noronha e Lira_».

D. Christina perdêra o alento nos braços de Peregrina. Muitos academicos romperam de salto a teia, e vieram parar no meio da sala. O advogado do réu, esquecido das praxes, foi abraçar o cliente, que parecia dar levemente conta da agitação do auditorio, e applicava o ouvido aos soluços da esposa. Os jurados limpavam as lagrimas, excepto um que tinha recebido uns vinte mil réis de D. Alexandre. O fidalgo-autor acachapara-se de modo, que parecia querer sumir-se debaixo da meza. O seu advogado lia a declaração, e carecia de coragem para impugnar-lhe a validade. O juiz dizia ao delegado:

—Deviamos esperar isto, ou cousa semelhante. Este homem, sem provar nada, tinha provado a sua innocencia.

E o delegado confirmava:

—Eu espero a minha vez de abraçal-o!

O cidadão honesto da Couraça dos Apostolos ia a sahir, quando Casimiro, que parecia absorto, disse:

—Sr. juiz, peço a v. ex.ª a graça de ordenar áquella testemunha, que se demore um instante.

—Quer querellar!—bradou o patrono.

—Não quero querellar—acudiu Casimiro, desabotoando uma carteira, d’onde tirou um papel, e accrescentou:

—Disse a testemunha que eu roubára as joias da familia de minha mulher. A testemunha faltou á verdade. Peço licença para ler, e offerecer ao exame das pessoas, que me escutam, a seguinte declaração de meu sogro «Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha filha Christina Elisiaria não subtrahiu de minha casa valor algum, nem os seus proprios vestidos e adresses, quando fugiu para casar com Casimiro Bettancourt. E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e com juramento aos Santos Evangelhos o declaro agora e sempre. Pinhel 22 de abril de 1839. _Ruy de Nellas_, etc.»

—Meu sogro está vivo para confirmar esta declaração.

—Confirmo!—bradou uma voz d’entre as turbas comprimidas na teia. E logo um gentil ancião de veneraveis cans, e nobre aspeito, com as faces arregoadas de lagrimas, entrou na clareira que a multidão lhe abria, e chegou á beira de Casimiro, e repetiu com a voz quebrada de soluços:

—Confirmo! confirmo! honrado moço, meu filho amado!

E abraçou-se n’elle, e logo na filha, que se lhe lançou aos pés, e em Ladislau e no padre, e na irmã, e em todos quantos vinham com olhos humidos, porque alli quantos choravam, e choravam todos, elle adoptava como amigos, como quinhoeiros da sua alegria!

Que momentos aquelles! Aquelle jubilo febril não matou, porque era santo, porque a Providencia divina se comprazia em contemplal-o!

XVII

Contrastes

Ia a turbulenta comitiva, que seguiu até casa de Bettancourt. A faisca electrica de enthusiasmo, recebida nos lances do tribunal, conflagrou animos juvenis, em bellicoso arrebatamento contra a policia e a tropa; por maneira que, as duas familias levavam um prestito de centenares de mancebos, urrando vivas á academia, e morras aos futricas e aos soldados. Casimiro parou algumas vezes no intuito de arengar aos moços; porém, a cada palavra conciliadora respondia o fremir de muitas vozes, a pedirem sangue e vingança?

—Parecem-me canibaes!—dizia Ruy de Nellas ao vigario.—Esta rapaziada não tem quem a governe!? Pobres pais e mãis!

Conseguiram entrar em casa, e accommodar os pequenitos, que vinham chorando de medrosos da vozeria, Mafalda nos braços do avô, e o filho de Ladislau nos do padre João.

Casimiro sahiu á janella a dizer expressões de reconhecimento que a turba desattendia, clamando sempre vingança, e pedindo ao academico que tomasse o commando dos estudantes para vingar a morte do valente que o defendera a elle.

Por entre os amotinados circulavam pessoas de respeito, pacificando os animos, ou enganando-os para mais azado lanço. A custo, porém se dispersaram, comprommettidos a reunirem-se no sahimento de Guilherme Lira.

Aquietou-se a rua.

O velho sentou-se entre a filha e o genro, lançando-lhes os braços em volta do pescoço. Alegremente conversou, ora queixando-se de não o terem muitas vezes importunado com rogos de perdão, ora promettendo-lhes em dobro a amisade, que lhes não déra mais cedo.

—Nada de Coimbra—dizia elle a Bettancourt—Vamos para Pinhel, que tu não tens necessidade de ser official com tanto trabalho. A legitima de tua mulher vai augmentando, sou eu que a tomo a juros; e, emquanto eu viver, estareis em casa, sem dispender do vosso. É preciso pagarem se as dividas de dinheiro, que as de amor nunca se pagam. Este Ladislau é um grande moço, é o pai no rosto e no coração. Este padre João sei eu bem o que elle é; creou-se debaixo das minhas telhas, e ha de vir a ser bispo, se a virtude é qualidade para ser bispo. Em quanto á cachorra da Peregrina, esta, se não fosse do Ladislau, havia de casar commigo, que está guapa, esbelta, e uma perfeita dama. Vocês riem-se? Talvez pensem que se eu quizesse dar madrasta á minha Christina, andaria muito tempo a farejar nas boas familias da provincia!... Ora agora, tu, Casimiro, deixa-te de mathematicas, faz te lavrador, toma á tua conta os cazeiros da nossa casa, melhora-me os bens livres quanto pudéres, bemfeitorias e mais bemfeitorias nos prasos de nomeação, que eu quero deixar o menos que possa ser ao D. Sueiro, áquelle vil enroupado em habitos fidalgos. São uns lacaios todos, desde o morgado até D. Alexandre, e a minha Guiomar lá se fez com elles, que nem já se dignou escrever-me no dia dos meus annos! Deixai-a commigo... Vamos a saber: vocês não jantam? O contentamento é boa iguaria; mas vejam sempre se me guizam o contentamento com umas batatas e umas fatias de presunto. Vocês comem o contentamento, e eu o resto.

Sahiu Ladislau a tomar o jantar no Paço do Conde, visto que em casa ninguem atinava a saber onde estavam as panelas.

Entretanto, continuou o infatigavel fidalgo:

—Vou logo escrever a minha irmã, a contar-lhe o succedido. Tenho vontade de a vêr; não queria morrer sem a vêr! Foi para Lisboa aos treze annos: era um lyrio de brancura, e galanteria. Nunca mais a vi... Velha não póde estar, que eu levo-lhe vinte annos de vantagem... Bella vantagem, não tem duvida!... Talvez a convide a vir passar comnosco em Pinhel alguma temporada; mas ella sahe lá de Lisboa! Disse-me um deputado que a condessa vive lá no ultimo fausto, e é visitada por tudo que tem um nome grande na aristocracia e na politica. Será ella constitucional? Isso lá me custa; mas, em fim, o marido era-o; e justo é que ella herde as convicções de quem herdou seiscentos mil cruzados em dinheiro, que os vinculos foram a quem tocaram. Fez uma asneira minha irmã em enviuvar sem filhos.

Ninguem lhe cortava a jovial parlenda ao velho, até que chegou Ladislau com dous moços carregados de vitualhas. Á excepção de Ruy de Nellas, os convivas debicaram levemente as iguarias. Casimiro comêra regularmente no dia em que fôra preso; e, solto, entretinha-se a repartir o prato entre os pequenos. Não parecia ser a satisfação da alma que lhe tornava fastidioso o alimento; pelo contrario, revia-lhe o semblante uma extraordinaria melancholia.

É que o moço via diante de si continuamente a imagem de Guilherme, que, vinte e quatro horas antes, tinha dito a Christina: «Ámanhã já v. ex.ª janta em casa com seu marido.» E abstinha-se de revelar a sua mágoa para não compungir a esposa e amigos, que tão alegres estavam, e perdoavelmente esquecidos do commensal do dia anterior, áquella hora amortalhado!

Era já proposito de Casimiro sahir da Universidade, e ir buscar sua vida em qualquer parte ou mistér. Aquelle anno era o segundo já perdido. Entrou-se da certeza que a desgraça lhe atravancava o caminho das sciencias. Elle amava o estudo, deleitava-se nas asperidões da mathematica, e ia desatar-se para sempre e saudosissimo dos seus livros, das suas oito horas de estudo, da sua banqueta de pinho pintada, e de toda aquella pobreza limpa, que as mãos de sua mulher transformavam em jaspes, mognos, razes e ouro.

O convite de ir para Pinhel, com o sogro, seu amigo, entrar no goso das honras da illustre familia, ostentar a benemerencia da sua probidade, regendo a avultada casa, vingar-se assim pacificamente dos de Miranda, nenhum d’estes incitamentos lhe descontava nas dôres. Será paradoxal o dizer que Bettancourt mais se queria refugiar no casal de Villa Cova com sua mulher e filha, e antes de melhor rosto acceitaria o seu prato á meza de Ladislau? Pois é uma sublime verdade esta! Casimiro olhava em Ladislau, no vigario, e sua irmã, e dizia-se: «Ó meus amigos, a minha dôr inconsolavel será deixar-vos. Eu hei de fugir sempre para as vossas serras, em quanto tiver vida para me lembrar o que fostes para mim e minha mulher nos dias de desamparo!»

—Cuidei que te vinha trazer mais alegria, Casimiro—dizia o fidalgo.

—V. ex.ª desculpe a minha tristeza—responde Casimiro—Enterra-se hoje um meu amigo.

—Pois sim, bem sei que deves ter pena do rapaz; comtudo, cada coisa tem seu logar. Conversa com a gente, abre um riso n’esse rosto, e faz que eu me não persuada que sou aqui de mais para a tua satisfação.

Casimiro levou aos labios a mão do velho, e disse:

—V. ex.ª está gracejando; mas ainda assim, magoa-me. Eu poderia esperar muitas melhorias á minha sorte, que ainda hontem era desgraçadissima no dizer do mundo; porém, a vinda de v. ex.ª com tão amoravel perdão, tamanho bem é que nem eu sonhava. V. ex.ª dirá se eu...

—Não me dês sempre _excellencia_, Casimiro; chama-me alguma vez pai, se queres que eu te chame filho.

Beijou-lhe de novo a mão, em quanto Christina, tomando o maior quinhão do contentamento d’aquella adopção paternal, abraçou-se ao pescoço do velho, e acariciou-o infantilmente.

Ao anoitecer, Casimiro pediu licença para sahir.

—Onde vaes?—acudiu Ruy de Nellas.

—Vou acompanhar o cadaver de Guilherme Lira.

Encararam-se mutuamente, e voz nenhuma contrariou a piedade do amigo.

Ladislau, tomando licença de sua mulher, seguiu o compadre. O vigario ficou em companhia de Ruy e das senhoras.

Christina, ao despedir-se do esposo, no patamar da escada, disse-lhe em modelação supplicante:

—E se houver desordem?...

—Eu farei que haja paz, minha filha.

—Então vaes na idéa de te envolveres na desordem?

—Não, filha, vou na ideia de evital-a. Limpa as lagrimas, Christina, não appareças assim diante de teu pai, que me accusará de duro para ti. Bem sabes que sagrado dever eu vou cumprir, minha filha.

Sahiram.

Raro academico faltou ao sahimento do cadaver. As alas negras moviam-se vagarosas, tristes e com os olhos em terra. Ao lampejar das tochas rebrilhavam muitas lagrimas.

Guilherme Lira morrera propugnando pelos brios academicos, diziam: era um engano. Guilherme morrera, suicidando-se. É verdade que, no correr de quatro annos, mão terrorista pesára sobre a gente coimbran, avêssa aos academicos, de cujo pão vivem. Soldados e verdeaes respeitavam a batina, porque Guilherme Lira vestia uma. Sobravam razões de gratidão áquelle desgraçado; mas o seu morrer, o derradeiro arrojo, não era já valentia; fôra um ir metter o peito ás espingardas que o abocavam.

Foi o cadaver lançado á cova. N’este acto, Casimiro sahiu de entre a multidão que rodeava a sepultura, e lançou sobre o cadaver a primeira pá de terra. Depois cruzando as mãos sobre o peito, e sem desfitar os olhos da cabeça empannada e ensanguentada do morto, disse:

—«Alli está a mocidade e a força; alli está um mancebo que deixou mãi n’este mundo; n’isto parou o grande alento d’onde os infortunios da vida desviaram as torrentes dos influxos do céu. Este homem seria um anjo do bem, se melhores condições da mocidade o não houvessem saturado de odio contra o mundo. Eu sei a historia d’esta existencia perdida, senhores. Este moço era bom; derramou inutilmente os balsamos do coração; achou-se vasio de amor; e repletou-se de peçonha e odio. Cansou-lhe a coragem para a resignação; sobreveio-lhe o delirio da vingança, vingança cega, sêde voraz de sangue; mas observai, senhores, que a tentação nem sempre venceu o instincto do céu com que fôra dotado este moço. Aquelle homem teve tantos amigos, tantos que, entre vós, um só não ha que se peje de mostrar as lagrimas. As minhas seria vergonhoso que se não vissem: eu hei de choral-as longo tempo... Vós sabeis que as portas do carcere se me abriram hoje, porque esta sepultura vai ser fechada. E eu, na presença de centenaros de testemunhas, e por aquella redemptora cruz, vos juro que acceitaria a minha prisão perpetua em troca da vida d’este homem, que era vosso, assim como tinha sido meu defensor...»

—Vingança! vingança!—bradaram algumas vozes de estudantes, que agitavam os gorros, e as tochas.

Espectaculo para terror era aquelle em volta de um cadaver!

E o brado, conglobado de mil brados, respondeu:

—Vingança!

Casimiro ergueu a mão, pedindo silencio, e exclamou:

—Paz! paz! é que eu vos peço, em nome de vossas mãis, em nome das cans do velho pai, que espera amparar-se em vosso braço! em nome de vossas irmãs que fiam do vosso auxilio o seu futuro! em nome das almas candidas que vos sorriem ao coração dias de maior felicidade! Paz vos peço eu, meus amigos, apontando-vos este moço que está por aquelles labios frios contando o que é a desordem, o que é a guerra, o que é desencaminhar-se um homem da estrada, onde ha espinhos, para tomar pela estrada onde ha abysmos. Que util lição, que excellente preceptor não está sendo este cadaver! Lembrai-vos, senhores, que este moço tem mãi.

Entrai com o espirito no coração das vossas. Avaliai o amargor das lagrimas que verterá cada uma das santas do amor, se um de vós cahir n’aquell’outra sepultura. Consenti que eu falle n’este instante pelo brado de todas, e vos peça o que ellas supplicantes a cada um de vós pedem: «Paz, meu filho!»

Callou-se Casimiro. Respondeu o ciciar da respiração alta do immoto auditorio. Retirou-se elle da margem da cova, e caminhou triste por entre a multidão, que deixára pender o braço sobre a arma escondida sob a capa. D’ahi a pouco, os academicos debandavam em grupos, e o silencio d’aquella sepultura estendeu-se pela face da cidade.

Ao sahir do cemiterio viu Casimiro diante de si a esposa, o sogro, o vigario e Peregrina.

—Viemos ouvir-te, filho—disse commovido o velho.

—É superior á nossa admiração, sr. Casimiro!—disse o vigario.

—Eu sou apenas superior aos maus pela virtude de os lastimar—respondeu Casimiro, dando o braço ao sogro, cuja sensibilidade lhe quebrantava as forças.

Desde logo, a pedido de Ruy de Nellas, começaram as senhoras os aprestos para a jornada no dia immediato á tarde. O velho futurava o rompimento de alguma revolução academica, a intervenção pacificadora de Casimiro, e a fortuita desgraça de ser empenhado pela honra a coadjuvar o partido dos estudantes.

* * * * *

A esta hora, meia noute seria, D. Alexandre de Aguilar, infamado, despresado, e solitario na sua angustia, esvasiava garrafas de cognac, no intento de aturdir-se e responder com a gargalhada do ebrio ao grito da vergonha. Os deploraveis perdidos, que se valem d’esta triaga, parece que a si proprios se estão castigando com mais crueza do que poderia castigal-os a justiça humana. Noute alta, o ébrio batia com a cabeça nas vidraças de sua janella, farpava a face nas arestas dos vidros, e rugia imprecações contra Deus. As patrulhas acummulavam-se á sua porta, e gargalhavam das estupidas objurgatorias do moço. Acudiam os academicos visinhos, e bradavam-lhe:

—Calla-te ahi, miseravel; afoga-te em cognac; não appareças mais á luz do sol; mas calla-te, besta, que, para seres fera, só te falta a bravura.

O tumulento fitava o ouvido, e respondia com roucos insultos requintados em obscenidades de alcouce.

De madrugada, o neto dos Parmas d’Eça acordou de frio que tinha o peito ensopado no proprio vomito.

Sentou-se, circumvagando os olhos espavoridos por sobre a desordem que o rodeava. Ergueu-se cambaleando, recahiu n’uma poltrona, escondeu o rosto entre as mãos, e chorou.

Oh! aquellas lagrimas é que não eram infames.

O desgraçado lembrou-se que, cinco annos antes, tinha mãi, e que a prophetica senhora muitas vezes lhe dissera: «Presagia-me o coração que has de ser desgraçado, meu filho.»

—Porque?—perguntava elle.

—Porque tens dezesete annos; sahiste hontem do collegio e já hoje escarneces a religião de teus pais. Assim tão cedo deixaste estragar o coração!... D’aqui a annos, nem por amor do teu nome, nem por calculo, serás honrado!

E, cinco annos depois, e só então, lhe lembraram as palavras de sua mãi!... Era o seu anjo da guarda que as recebera então, e agora lh’as offerecia á memoria, como lenimento unico d’aquella funda ulcera do descredito, desgraça, e infamia.

Na noute d’esse dia, D. Alexandre desappareceu de Coimbra, foi caminho de Lisboa, d’ahi pediu sua legitima a D.Sueiro e sahiu de Portugal. Ha vinte e tres annos que foi, e não voltou.

XVIII

Mãi!

Ás duas horas da madrugada do dia seguinte ao das scenas descriptas no anterior capitulo, chegou á porta da hospedaria, chamada do _Paço do Conde_, uma carruagem, tirada por duas parelhas. Abertas as portas, apeou uma senhora, dando a mão a um padre velho que descera primeiro, e logo a creada. O padre, respondendo á pergunta do creado do hotel, disse que a senhora condessa de Asinhoso tomaria um caldo de gallinha, e voltou a receber as ordens de s. ex.ª

—Pergunte padre Francisco—disse ella—se hoje foi o julgamento de um academico chamado Casimiro de Bettancourt.

O padre foi cumprir, dizendo entre si: «que importa á senhora condessa o julgamento do academico, chamado Casimiro de Bettancourt? Pois será para assistir á audiencia que ella vem a Coimbra com viagens forçadas?!»

Volveu o padre, dizendo:

—É uma historia interessante, que parece novella, a tal do academico, senhora condessa. Em resumo, conta o estalajadeiro que, estando para ser julgado o reu, e forçosamente condemnado, appareceu a declaração d’outro academico, que mataram antes de hontem, confessando-se o matador. Em consequencia do quê, o tal Bettancourt foi posto em liberdade.

—Graças, graças, meu Deus!—exclamou a condessa ajoelhando.

O padre empedreniu-se, e encarou na creada tambem estupefacta: nenhum ousava tugir um monossyllabo.

Ergueu-se a condessa, e enviou de novo o capellão a pedir ao dono do hotel a bondade de fallar com ella por alguns minutos.

O estalajadeiro vestiu a casaca, esperou na sala a senhora condessa.

Interrogou-o ella ácerca de todas as miudezas concernentes á soltura de Bettancourt. O informador relatou-as todas, desde as severas lições que o academico dera a D. Alexandre, até ao lindo discurso, dizia elle, que o amigo de Guilherme Lira improvisára á beira da sepultura: e n’uma especie de apostilla á narrativa contou a esquecida circumstancia de ter irrompido inesperadamente pelo tribunal dentro o fidalgo, sogro do estudante.

—Pois elle está em Coimbra?!—interrompeu vivamente a condessa.

—Vi-o eu, minha senhora! É um velho bonito! basta vêl-o para se dizer: «aquelle é um fidalgo dos antigos tempos!»

—Sabe onde mora Casimiro Bettancourt?

—Sei, minha senhora.

—De manhã tem a bondade de me guiar a casa d’elle?

—Pois não, senhora condessa?

O capellão, cujo quarto era sob o pavimento dos aposentos da condessa, apesar de contuso e moido dos solavancos da carruagem pelas barrocas da estrada real de 1840, não poude adormecer, ouvindo até á madrugada os passos da illustre dama, e o abrir e fechar de portas d’uma janella. Certo fôra que a condessa nem sequer encostára a face ás almofadas do leito, e, de quarto em quarto de hora, ia impaciente abrir a janella e ver se rompia a alva.

Assim que aclarou o céu, já a senhora despertou a creada para lhe dar do bahú outros vestidos e ornatos.

Ao nascer do sol, estava s. ex.ª vestida a rigor de viuva opulenta: modestia elegante, pompa meio velada pela côr escura do estofo.

O egresso, que perdera a esperança de adormecer, levantou-se, e foi á antecamara receber as ordens da condessa. Sahiu ella a dizer-lhe que tomaria uma chavena de café, e ás nove horas sahiria acompanhada de sua reverendissima.

Sua reverendissima, vendo-a assim adereçada, consentiu que o demonio da maledicencia lhe encavalgasse o espirito: «Dar-se-ha caso, dizia elle comsigo, que a condessa esteja namorada d’esse Bettancourt? Querem ver que esta senhora, aos quarenta e seis annos, tresvaliou, e vai destruir o bom nome que está gosando?? Mas não!—monologou elle, tornando sobre si—Vai-te espirito aleivoso que me tentas! Aqui anda segredo que eu vou saber logo! Esta senhora é o typo da honestidade, e o modelo das viuvas honradas.

Ás nove horas sahiu a condessa, com o seu capellão e o estalajadeiro.

Chegaram defronte da pequena casa da Couraça dos Apostolos.

—É aqui—disse o guia.

—Obrigada. Póde ir, que eu demoro-me.

Subiu a dama a declivosa escadinha, e bateu á porta do topo. O capellão seguiu-a, gemendo.

Abriu uma creada a porta.

—Posso fallar ao sr. Ruy de Nellas?—disse a condessa.

Foi a creada á saleta em que as duas familias estavam almoçando, e noticiou que era uma senhora ricamente vestida a perguntar pelo sr. Ruy de Nellas.

—Quem póde ser?!—reflectiu o fidalgo.

—Abre o meu quarto de estudo, e diz á senhora que entre—disse Casimiro.

Quando a creada sahia da saleta, já a condessa estava á entrada, dizendo:

—Não sou de ceremonias, vou entrando, porque já conheci a voz do mano Ruy.

Levantaram-se todos. O velho abriu os braços, e ficou de braços abertos, e bocca tambem aberta.

A condessa chegou-se ao alcance do abraço, e disse:

—Parece que o mano duvida...

Duvido...—balbuciou elle—pela mesma razão que não devia duvidar... Tu tens vinte e cinco annos, Eugenia! Estás como te vi sahir de Pinhel!

—Cuidei que lisonjas eram desusadas entre irmãos, Ruy!... Pois eu dir-te-hei que estás bastante alcançado. A vida de provincia é menos salutar do que dizem as pessoas que envelhecem na corte. Senta-te, Ruy, e dá-me uma chavena do teu café.

—Tu aqui, mana!... tu aqui!...—voltava o fidalgo—Deixa-me convencer bem de que estou acordado! Quem é aquelle senhor?...

—É o meu capellão.

—Sente-se, sr. padre capellão, sente-se.

—Qual d’estas meninas é a tua filha?—perguntou a condessa.

—É esta, aqui tens a minha Christina.

A condessa beijou-a, abraçou-a, e mandou-a sentar.

—Este é meu genro—continuou o velho apresentando-lh’o.

Casimiro deu um passo, e curvou reverentemente a cabeça.