O Bem e o Mal: Romance

Part 11

Chapter 113,887 wordsPublic domain

—Chame-me sua creada Brites. Paixão para bem ou para mal?

—Eu queria casar-me com elle; mas meus irmãos perseguem-nos.

—Eu logo vi que a vinda de v. ex.ª era cousa de amor... O seu adonis não é fidalgo pois não?

—Não é...

—Logo vi... E é pessoa de bom porte?

—É um alferes de cavalleria, muito bom de coração, muito gentil, a minha paixão unica, o meu disvello de ha tres annos, a minha vida... e será a causa da minha morte.

—Coitadinha! Deus o fará melhor. Então quer a menina que elle saiba que a trouxeram para aqui?

—Sim, queria.

—Então, deixe estar, que eu de hoje até ámanhã, hei de cogitar no caso. Pediu-me isso por alma de sua mãi, eu só se não poder de todo em todo. Quem me ha de levar a cartinha, se as contas me não falham, ha de ser o cocheiro da caleça; mas o peor é não termos outro papel... Ora espere, que eu tenho alli uma sentença que me cá deixou meu sobrinho, que andava a aprender a ler. Tinta arranja-se sem a menina furar os seus mimosos dedinhos. Com uma pouca de felugem da chaminé e vinagre, faz-se tinta. Penna, vai se tirar uma de gallinha, e com uma faca fazem-se-lhe os bicos.

A sr.ª Brites em tanto tempo quanta era a anciedade de Eugenia, veio com tudo a ponto: meia folha de papel sellado do tempo de D. João V, uma tigella com a dissolução de felugem em vinagre, uma penna de galinha, e a faca mais afiada.

Eugenia, se se não uzasse o aparo das pennas, tel-o-ia inventado n’essa occasião.

Estava tudo em ordem. Sorveu a sr.ª Brites uma pitada de esturrinho, e disse:

—Escreva lá v. ex.ª

XV

Continuação

D. Eugenia escreveu o que dictava Brites:

«Minha sobrinha. Logo que esta receberes, sem demora de tempo, vai tu mesma em pessoa pessoalmente...»

* * * * *

—Onde é que ella ha de ir levar a carta?—perguntou Brites.

—Ao quartel de cavalleria a Alcantara.

—Escreva, meu serafim:

«Vai ao quartel de cavalleria a Alcantara, e entrega o bilhete, que vai dentro d’esta, á pessoa que lá diz por fóra...»

—Eu—interrompeu-se Brites atacada de modestia—não tenho muito geito para notar cartas; mas o que a gente quer é que nos entendam.

—Vai muito bem—disse Eugenia.

—Pois ponha lá:

«Toma conta que a não vás entregar a outra pessoa; e da resposta que houver escreve-me para Torres Novas. Sem mais enfado, tracta d’isto como coisa de muita... de muita...»

* * * * *

—Ponha lá a menina uma palavra, que diga... sim... que diga que é cousa de muita aquella.

—De muita consideração.

—Isso mesmo.

Eugenia sobrescritou á sr.ª Apollinaria dos Martyres, na calçada dos Barbadinhos, n.º 21—quinto andar á esquerda.

A irmã de Ruy de Nellas abraçou-se na ama de sua mãi, e clamou:

—Cuidei que estava mais desamparada. Ha almas boas em toda a parte, louvado seja o Altissimo!

—_Amen_—respondeu christãmente a sr.ª Brites, e foi á cosinha, onde o bolieiro estava jantando para voltar com a caleça ao fim da tarde.

—Vm.ᶜᵉ faz-me o favor de entregar em Lisboa uma carta á minha sobrinha? Aqui vae o nome e a rua. Se lhe não custa...—disse a velha.

—Não me custa nada, tia Brites; mas dobre-me a porção de vinho.

—Ahi vai, homem. Beba; mas não desatreme, nem me perca a minha cartinha.

—Fique certa, que de hoje a tres dias por estas horas, já está nas mãos da dita supplicanta. Diz ella tudo pelo claro nas costas?

—Vai tudo pelo claro.

—Então, metta-m’a ahi no bolso da jaqueta, e carregue-me o copo.

Foi a carta entregue á sr. Apollinaria, e o bilhete ao alferes de cavalleria, o qual, segundo veridicas informações da engommadeira da rua dos Barbadinhos, chorou, e vasou as algibeiras nas mãos tolerantes da sr.ª Apollinaria.

Escreveu o alferes uma longa carta a D. Eugenia. Principiava contando a descarga de dous tiros inuteis que lhe déram. Disse não conhecer as pessoas, que lhe atiraram, por virem rebuçadas, e estar ainda a limpar a manhã. Contou que o não feriram; mas suppunha elle ter sido mais certeiro na pontaria. Acrescentava que ia ser removido para Bragança, por intrigas e influencia dos irmãos de Eugenia; e declarava-se, a final tão desgraçado e desprovido de recursos, que não podia ir arrebatal-a das mãos da sua cruel familia, sem desertar, e collocar-se na precisão de ir perecer de miseria com ella em reino estrangeiro. Pedia-lhe, em summa de tudo, animo, e esperança.

Leu Eugenia a carta com profundo desgosto.

«Não me terá elle amor?!»—disse ella entre si.

Viu-a chorar a devotada Brites, e pediu-lhe o favor de lhe ler a carta. Quiz ouvil-a segunda e terceira vez. Consolidou as suas convicções com uma pitada e disse:

—Esse rapaz, quem quer que elle seja, tem tino na cabeça, e pensa bem. A menina por que chora?

—Nem sequer falla em vir vêr-me!...

—Pois se o pobre homem vai de marcha lá para cascos de rolhas, como quer a fidalga que elle deserte ás bandeiras, e venha aqui? E depois? que seria d’elle? e a sorte da minha flor do céu, era muito melhor!?...

Pudéram muito com D. Eugenia as razões de Brites, e mais ainda a promessa de tomar a velha á sua conta a correspondencia segura entre Bragança e Torres Novas.

Era chegado o momento de uma confidencia, que tem sido o balsamo de piedade em coração de pais lacerados, pela ira e pela deshonra: não será muito que o leitor, invocado a julgal-o O BEM E O MAL d’esta serie de biographias, dê sua piedade á desventura culpada, assim como tem dado suas bençãos á virtude sem nodoa. Ha crimes repulsivos; o engenho mais abalisado, a philosophia mais bem fingida, sob capa de verdade, tenta em balde mover-nos á compaixão do delinquente, em quanto o retalhar do remorso o não fez delir com lagrimas o stygma que a moral lhe assignalou: outros crimes, porém, são de si, e por vontade divina, sympathicos não direi; mas, se a ré se pranteia, e se olha em seu seio, e exclama: «Ó meu Deus! hei de eu espedaçar em respeito ao mundo este filho, que é o meu amor e o meu opprobrio?... hei de eu abafar o grito da minha consciencia e coração, para que o mundo me veja um rosto limpo, um rosto lavado no sangue do meu filho?...» Quando a mulher assim falla a Deus, a misericordia divina dá-lhe um anteparo contra as injurias do mundo; e o mundo, se lhe adivinha as dôres, e o mimo d’aquella paixão, á qual só falta um sacramento para ser santa, o mundo perdoa-lhe, embora a repulse do contacto das almas candidas, das suas filhas, das suas esposas, das suas irmãs, que Deus permitta não humilhem com maiores desprezos a desgraçada que é mãi.

É, pois, chegado o momento da confidencia. Quem a recebe é a consternada velha, que vira nascer a mãi d’aquella menina. Até áquelle momento, Brites estivera longe de imaginar um erro n’aquelles amores: julgava-os na sua maxima pureza. Descem lagrimas nas rugas dos oitenta annos, lagrimas de bom agouro, que deixam mais livre o accesso á piedade. Eugenia cuida que o revelar-se aos irmãos lhe dará um esposo, lhe será redempção de ignominia.

—Não, minha infeliz senhora, não!—exclama a velha.

E conta-lhe tres identicas e desventurosas historias, que ella presenciou em sessenta annos de serviço n’aquella familia: tres mulheres sepultadas em conventos, onde nunca entrou raio de contricção nem conforto.

* * * * *

O alferes sabe em Bragança as agonias de Eugenia, e sente n’alma o estylete excruciante da expiação. Nenhuma morte sustenta o parallello com as flagellações de seis mezes, soffridas a tantas leguas de distancia.

Eugenia recebe o ar e a luz pela janella do seu quarto unicamente. Teme-se da observação das creadas, que lhe espiam os passos, em suspeitarem de Brites. A velhinha tudo provê e prevê; mas, a intervallos quer morrer, antevendo as agonias da hora improrogavel, da hora em que o grito de afflicção rompe atravez das mãos da vergonha, que tentam suffocal-o.

Era no mez de dezembro de 1816.

O alferes lançou-se aos pés do general da provincia de Traz-os-Montes, que demorava em Bragança n’essa occasião. Abre-lhe sua alma, em torrentes de pranto. O velho general chora, e diz:

—Tenho rigorosas recommendações a seu respeito; mas vá, peça-me licença para ir ver sua familia. Dou-lh’a por quinze dias. Vá, embora eu tenha de soffrer.

O alferes vestiu habitos paisanos e desceu a Torres Novas. Alli vestiu-se de mendigo, simulou uma paralisia de braços, e pediu gasalhado em Recaldim. Trocou ligeiras palavras com Brites, e não viu Eugenia. Voltou á albergaria do commendador algumas noutes. Os creados contemplavam-n’o, e diziam:

—Tão novo e tolhido de braços!

As creadas accrescentavam:

—E não havia de ser feio!

Na noute de quinze de janeiro, por volta de onze horas, abriu-se a porta da albergaria, entrou Brites com a face alagada de suor e lagrimas. O alferes formou entre os braços com as dobras da capa de mendigo uma caminha de farrapos, recebeu um menino, e sahiu. A duzentos passos estava o leal camarada do official, com um cavallo á redea. O alferes cavalgou, o auxiliar saltou á anca do cavallo, e partiram.

Em Torres Novas alimentaram o recemnascido. Proseguiram até Santarem, onde foi baptisado sete dias depois. Alli veio uma ama do Cartaxo, e o levou comsigo.

Estava a expirar a licença. O alferes entrou no quartel, á ultima hora, e beijou as mãos do general, dizendo:

—Dei-lhe o nome de v. ex.ª. Ahi me fica a memoria da sua commiseração, general!

* * * * *

D. Eugenia de Nellas, dous mezes depois d’estes successos, recebia uma carta de seu irmão Vasco, participando-lhe que ia casar com uma titular brazileira, agraciada pelo sr. D. João VI, e convidava sua irmã a acompanhal-o á côrte do Rio de Janeiro.

D. Eugenia respondeu que queria viver e morrer no seu desterro de Recaldim.

«Bem sei—replicou Vasco.—Bem sei...—Brevemente, se quizeres salvar o amante, mudarás de resolução.»

Decorreram alguns mezes. Instaura-se processo a Gomes Freire de Andrade. São presos os cumplices da conspiração, e os suspeitos cumplices. O alferes é chamado a Lisboa, e recolhido ao castello de S. Jorge, como indiciado nos planos subversivos do general Freire de Andrade. São os Lucenas que tramam a bem agourada perdição do alferes.

Eugenia é avisada do encarceramento do alferes.

A faca apontada ao peito da timida senhora é um dillema: se ella persiste em ficar, o alferes morrerá; se vai para o Brazil, o réu absolvido.

Eugenia vai para o Brasil, o alferes, sem saber porque o accusam, nem porque o absolvem, sahe do castello e entra nas fileiras.

Ruy de Nellas, acantoado sempre no seu solar de Pinhel recebera a infausta nova da queda de sua irmã. Respondendo a Vasco, disse: «Não tenho irmã, nunca me fallem n’essa mulher. Fizeram bem não me dizer o nome do insultador de nossa familia, se é que elle tem nome.»

* * * * *

Saltemos a 1820. D. Eugenia é o assombro dos salões do Rio de Janeiro. Reviçam-lhe todas as graças; a da melancolia realça-lh’as, melancolia que dava a entender que o anjo, lembrado do céu, tinha saudades.

Vasco é-lhe odioso. A casa do irmão atormenta-a como um ergastulo. Perdeu esperanças de voltar á patria, e aspira a ver no céu o esposo de sua alma.

De repente, como que as esperanças lhe morrem, e a querida dos fidalgos brazilienses desce os olhos sobre a terra.

Vê um conde que fôra de Portugal com o principe regente, e a requesta de joelhos. E vai ella, levanta com a sua mão o homem que ha de resgatal-a do dominio do irmão, e sahe condessa de Asinhoso da casa abominada.

No redemoinho das festas, a condessa parece estar sempre em contemplação d’um tumulo. E o marido mais a adora assim; e ella, de lhe ver o amor atravez das lagrimas, enchuga-lh’as e pede a Deus um novo coração para seu marido.

Nunca mais seus labios responderam a Vasco; e, ao terceiro dia de casada, disse ao conde:

—Meu amigo, a presença de meu irmão n’esta casa é como a do algoz da minha felicidade, e da tua, se posso dar-t’a.

O conde de Asinhoso ouvia sua mulher, e obedecia com jubilosa escravidão.

Gonçalo de Nellas havia morrido em 1819. D. Frederico Pain de Lucena morreu em 1820, legando os seus bens ao sobrinho vivo; Vasco, em viagem para a patria, morreu de febres.

A condessa enviuvou em 1833. Cuidou em liquidar os seus copiosos haveres, e voltar a Portugal.

Uma delirante esperança vinha com ella. Rica, livre, com a alma inteira no seu passado amor!

Desembarcou em Lisboa por junho de 1834. Reinava D. Pedro IV.

Mandou indagar do alferes de 1817 aos seus camaradas anteriores á scisão politica. Responderam-lhe que tinha morrido na guerra.

Ergueu ella então as mãos e disse:

—Ó meu Deus: merecia eu tamanho castigo?!

Mandou ainda perguntar por um filho do militar que morrera. Ninguem deu novas de tal filho. O espirito publico batia as azas ainda no ambiente de fogo e ninguem curava saber onde podia existir o filho d’um official que morrera rebelde.

Foi então que a condessa d’Asinhoso, aterrada da sua soledade, escreveu a Ruy de Nellas, pedindo-lhe a sua estima, e uma filha que lhe fosse companhia.

O irmão não lhe respondeu.

* * * * *

Esta é a historia triste da senhora cujo valimento Ruy de Nellas vai pedir a favor de seu genro.

Qual é o valimento da condessa em Lisboa? É o prestigio da riqueza, e da belleza ainda.

Quarenta e seis annos, com trinta de amarguras e ainda formosa! É que ha mulheres de tamanha alma, que primeiro o fel da desgraça ha de enchel-a antes que o corpo se alquebre.

Das masmorras de 1793 sahiam formosissimas mulheres para a Guilhotina.

A mulher de Luiz XVI tinha pequena alma, sonhára vinganças mesquinhas, e por isso lhe encaneceram os cabellos n’uma hora.

Madame Roland, a scismadora de revoluções uteis, ia formosa no seu carro de morte.

Carlota Corday illuminou-se de formosura mystica ao vêr-se espelhada no aço do alfange.

XVI

O julgamento

Ao cabo de cincoenta dias estava o processo prompto para entrar em julgamento. Dominava em Coimbra a opinião de ser inevitavelmente condemnado Casimiro de Bettancourt. A innocencia que algumas pessoas apregoavam, era em geral recebida, a riso, como um paradoxo.

A alma de Christina confrangia-se, e os labios sorriam ainda. Era ella só quem ainda simulava esperanças; mas que supplicios surdos lhe custava dissimulação!

Ladislau e o vigario em vão queriam imital-a. A sua tristeza era como as trevas do cego que não se allumiam ao tremor convulso da palpebra. Queriam esperançar-se e de toda a parte lhes soava como irremediavel a sentença. Rosnava-se em compra de jurados: não era preciso arguir ao suborno a condemnação. Casimiro estava sem defeza: o seu silencio impressionava favoravelmente as almas distinctas; o vulgacho, porém, que havia de julgar das provas, daria importancia nulla á mudez do réu. Os protectores de D. Alexandre eram os mais graudos fidalgos de Coimbra e cercanias. Por Casimiro Bettancourt ninguem pedia. O padre e o cunhado, reduziam-se a promover o andamento rapido do processo, pagando liberalmente as despezas e actividade do procurador. Isto era bastante; mas faltava muito.

Ruy de Nellas affligia-se a cada nova carta desanimadora que recebia; entretanto, a solução favoravel em Lisboa era um respiradouro para elle e para os poucos amigos do preso.

Designado o dia do julgamento, o pai de Christina escreveu a sua irmã, contando-lhe os pormenores do casamento da filha, as desventuras do genro, a sua innocencia no crime assacado, a indefeza pertinaz em que se pozera, o mysterio do homicidio, a certeza de que o silencio de Casimiro Bettancourt era um heroismo de honra, talvez novo. Rematava pedindo á condessa de Asinhoso, que patrocinasse em Lisboa sua sobrinha, que era mãe e esposa extremosa.

Na ante-vespera da audiencia, travaram desordem uma malta de academicos richosos com as patrulhas nocturnas. Alguns estudantes retiraram feridos, e invocaram Guilherme Lira, em nome da honra academica. O chefe da Sociedade da Manta respondeu que n’uma das proximas noutes, seria vingada a academia.

No dia immediato entrou Guilherme no escriptorio de um tabellião, e pediu meia folha de papel sellado. Assignou-se no fundo da lauda, e fez que o notario lhe reconhecesse a assignatura.

Recolheu a casa, e deteve-se algum espaço, escrevendo no branco da folha assignada e reconhecida. Fechou em fórma de officio, lacrou, e escreveu algumas palavras no involucro. Depois fez algumas cartas: uma subscriptada a D. Joaquina Soares de Lira, sua mãi, residente em Evora; outra a sua irmã, casada em Extremoz; e ainda uma terceira brevissima, dirigida a uma senhora, que tinha o segredo da ferocidade d’aquelle homem. Terminava assim: «Não te cito para o céu nem para o inferno. Chamo-te diante do teu proprio remorso. Viste-me um anjo aos dezoito annos; e fizeste de mim isto que sou. Não te accuso: lá tens dentro d’alma o teu algoz. É tempo de acabar.»

Deitou a carta na caixa postal, e foi á cadeia, segundo o seu costume quotidiano, vêr Casimiro. Eram quatro horas da tarde. Estava o jantar na meza. Guilherme sentou-se ao lado de Christina, e comeu com appetencia. De uma vez inclinou-se ao ouvido da senhora e disse-lhe:

—Ámanhã já v. ex.ª janta em sua casa com seu marido...

Christina soltou um brado de alegria.

—Que é?!—inquiriram todos.

Guilherme fitou-a e descahiu as palpebras.

Era impôr-lhe silencio, e ella abafou a revelação, que lhe crispava nervosamente os labios, e arquejava o seio.

Esperaram, brevemente a resposta com anciedade. Christina fitou os olhos supplicantes no academico, e elle, erguendo-se, disse:

—Póde fallar, minha senhora, d’aqui a instantes.

E abraçou Casimiro, beijando-o nas faces ambas; abraçou Christina osculando-lhe a fronte; apertou affectuosamente as mãos de Peregrina, Ladislau e padre João; affagou as duas creancinhas, e sahiu de golpe.

Casimiro chamou-o com vehemencia, e elle não voltou.

Referiu Christina o que lhe ouvira. Casimiro concentrou-se, pensou alguns minutos, e disse:

—Não mentiu. Ámanhã jantaremos em liberdade.

Pediram-lhe o sentido das palavras do academico.

Bettancourt respondeu:

—Ámanhã.

Notaram todos que a tarde e noute d’aquelle dia foram as mais tristes horas de Casimiro na sua prisão de dous mezes. E, comtudo, Christina escondia o seu contentamento.

Eram dez horas da noute, quando Casimiro ouviu grande grita e o estrondo de alguns tiros. Estava já sósinho, passeando febrilmente na saleta, e disse entre si:

—É agora.

O alarido e o tiroteio continuaram.

Collou o ouvido ás portadas da janella, e ouviu dizer na rua:

—Mataram o Lira.

Meia hora depois recahiu tudo em silencio quebrado pelas passadas das patrulhas em tresdobro. E o carcereiro bateu de manso á porta de Casimiro, e disse:

—Dorme?

—Não. Póde entrar.

—Vou contar-lhe o que vai. O seu amigo Lira espancou as patrulhas, que encontrou desde o bairro alto até á rua do Coruche. A Sociedade da Manta appareceu em armas, atacou reforço, que sahiu do quartel. Quando ia retirando para o Monte Arroio a estudantada debaixo de fogo, o Lira ficou atraz, sem arma nenhuma, a não ser o varapau de choupa que mettia a peito dos soldados. Tinha elle recuado até ás grades de Santa Cruz, quando cahiu morto com uma bala atravessada de fonte a fonte. Meu filho vem de observar. Faz dó ver um homem tão valente assim morto como se mata qualquer poltrão!...

—Obrigado á sua noticia.

—O sr. ficou triste devéras!—tornou o carcereiro—Tem razão, que elle era seu amigo d’uma vez!... Boas noites, sr. Bettancourt. Ámanhã é o dia da grande batalha, espero em Deus que...

O carcereiro tão certo estava da condemnação, que não ousou concluir a phrase da esperança em Deus.

Mal se abriram as portas da cadeia, entraram Christina e os amigos a contarem o successo. A justiça ia tomar conta do espolio do morto. Coimbra estava agitada de terror. Esperava-se grande lucta da academia com a tropa no acto do enterro de Guilherme. Suppunha o padre que se não abrisse o tribunal, para obviar o azo da desordem. Contou Ladislau que o estudante, na vespera, tinha ido reconhecer a sua assignatura a um tabellião. Christina, que tudo sabia, esperava que seu marido fosse salvo por uma declaração de Guilherme. Eram, porém, nove horas, e não apparecia alvará de soltura, nem contra ordem de julgamento.

Ás dez horas chegou o official de juizo para acompanhar o réu ao tribunal.

Logo á sahida do carcere, ouviu Casimiro dizer:

—É preciso ir acabando com os assassinos. Um já lá vai: este não tarda; os outros hão de ir quando lhes chegar a vez.

Quem tão sisudamente discreteava era o cidadão honesto da Couraça dos Apostolos, em cuja cabeça Guilherme deixára um signal inutil para a morigeração da pessoa.

Sentou-se Casimiro no banco dos réus. Christina, Peregrina, o padre e Ladislau ficaram fóra da teia. D. Alexandre de Aguilar, como parte, sentára-se entre o seu advogado e o representante do ministerio publico. Na acareação de author e réu, perguntado o primeiro se reconhecia em Casimiro Bettancourt o sujeito que espancára, o fidalgo respondeu:

—Não podia ser outro.

—Pergunto a v. ex.ª se é aquelle e não se podia ser outro—replicou o juiz.

—É aquelle.

Sahiram a depor as testemunhas de accusação. Eram concordes em dizer que viram entrar na casa do réo o sujeito que matára um homem, e deixára outro estendido. Recordaram todas as precedentes aggressões que o réu fizera contra o author, já no botequim da rua Larga, já na ponte. O cidadão honesto sobreexcedeu a má vontade das demais testemunhas, dizendo que o réu era sujeito de tão máus costumes que roubára uma filha a um fidalgo seu bemfeitor, e com a filha roubára as joias da familia.

—Esse infame está a mentir!—exclamou Christina.

Casimiro voltou-se para o lado onde estava sua mulher, e encarou-a fito, com severo olhar.

O juiz disse:

—A senhora não pode aqui fallar.

—O que ella diz não se escreve—accrescentou a faceta testemunha, sorrindo do alto da sua probidade.

—Querello da testemunha—disse o advogado do réu.

—Eu não querello da testemunha—emendou Casimiro.

—Em tempo competente resolverão—admoestou o juiz.

Convergiram todos os olhares sobre Casimiro.

Um dos jurados disse:

—Eu já não condemno aquelle homem!

—Porquê?!—perguntou o visinho.

—Aquelle homem está innocente ou é doudo.

—Qual doudo? aquillo é um grande farcista! Elle não querella da testemunha, porque sabe que roubou as joias.

Terminou o depoimento de accusação por parte do author e do ministerio publico.

Esperava-se por testemunhas de defeza: o escrivão disse que não estavam inscriptas nenhumas.

—É doudo ou não?—disse o jurado bem intencionado.

—Qual doudo? replicou o outro.—É tão patife que não tem quem o defenda.

Ia levantar-se o patrono de D. Alexandre, quando o administrador do concelho entrou na sala do tribunal, e entregou ao advogado do réo uma carta em fórma de officio.

O orador, que já tinha dito: «Srs. jurados!» suspendeu-se.

O patrono do réo leu uma meia folha de papel, e disse, em pé, com os cabellos hirtos:

—Sr. doutor juiz de direito, v. ex.ª me dirá se o debate deve continuar, depois de ler a declaração que remetto á consideração de v. ex.ª.

Machinalmente ergueram-se todos, auditorio, e jurados.

O juiz leu mentalmente, e passou o papel ao delegado. Trocaram breves palavras, e deram ao official de justiça o papel.

—Leia o sr. advogado do réo—disse o juiz.—Eu por mim intendo que terminou o debate.

—Sou de egual parecer!—ajuntou o ministerio publico.

O advogado de Casimiro, limpando as camarinhas do suor, leu com voz tremente de alegria e commoção d’alma: