Part 10
—Vamos ver quem vence!—continuou o fidalgo, apertando os alveolos, onde os dentes ausentes não podiam rangir.—Os de Miranda, tem muita prôa?... Deixa que eu vou abater-lh’a!... Vai, João, que lá irão umas cartas. Se Casimiro ficar condemnado, tu ou teu cunhado vão para Lisboa, e entreguem as cartas onde eu mandar. Lá está minha irmã, a condessa de Asinhoso. Ha vinte e tres annos que não lhe escrevo: mas sei que ella está morta por fazer as pazes commigo.
—Bom seria que estivessem feitas—disse respeitosamente o padre.
—É verdade; mas que queres? orgulho de parte a parte... E sabes tu porque eu despresei minha irmã?
—Nunca v. ex.ª me deu a honra de m’o revelar.
—Pois eu t’o direi quando voltares. Foi um caso de honra, que os de Miranda não costumam castigar. Lá tem em casa uma irmã do pai, que fugiu do mosteiro de Lorvão, e deu escandalo. Lá a tem... e não põem crepe nas pedras d’armas... E vinha cá D. Sueiro vituperar-me porque eu não mandava matar Casimiro!... Olha quem!... Se eu tivesse tantos santos a pedir por mim, como de vezes me tenho arrependido de lhe dar a minha morgada!... Forte brutalidade!... Cegaram-me as vaidades de reatar as duas casas dos mais antigos ricos-homens da Beira e Traz-os-Montes!... Emfim... o que eu não consinto é que da casa de Miranda vão matadores professos assassinar o marido de minha filha... São horas... Aqui tens um conto de réis em ouro. Parte, João; e escreve a dizer o que se passar. Dá muitos beijos a minha afilhada, e diz a minha filha... que lhe perdôo!
O vigario ajoelhou diante de Ruy de Nellas, e clamou:
—Deixe correr as minhas lagrimas de alegria sobre as suas mãos, meu nobre, meu virtuoso padrinho!
—Não fiques agora ahi a chorar, homem!—Disse o velho, erguendo-o.—Aqui estou eu tambem...—proseguiu, enxugando os olhos.—Vai, que são horas.
A apparição do vigario na saleta da cadeia foi saudada com um brado de alegria. Cercaram-n’o todos, e beijaram-n’o todos.
—Eu só dou beijos em creanças,—disse elle em tremores de exultação.—Sr.ª D. Christina deixe-me dar á sua filha os beijos do avô.
—Fallou com o meu papá!—exclamou ella.—Está muito zangado contra o meu pobre Casimiro?
—Isso está, minha senhora! zangadissimo, feroz!
—Cuida que foi elle quem...—E reteve-se, relanceando os olhos ao marido, que a observava.
—Não sei o que elle cuida...—volveu o padre. A ira do fidalgo subiu ao ponto culminante d’elle mandar ao sr. Casimiro um conto de réis para o custeio das suas despezas judiciarias. É onde póde chegar a ferocidade humana!
—O sr. Ruy perdoou-me?—perguntou Casimiro mais recolhido que expansivo.
—Se isto não é perdoar... A mim não me encarregou de lhe notificar o perdão; mas á sr.ª D. Christina manda dizer que está perdoada. Aqui teem o dinheiro, que é ouro, e rasga-me a algibeira da sotaina.
Christina fez um gesto, significando ao padre que entregasse o dinheiro ao marido; Casimiro fez outro gesto, indicando Ladislau.
—Então que resolvem?—disse o padre.
—Resolve minha mulher,—disse Casimiro—que esse dinheiro passe ao poder do nosso mordomo, o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova, em cujo cargo hemos por bem nomeal-o para lhe fazermos honra. Assim deve formular as suas nomeações quem tem, como eu, guarda de official á porta.
Ladislau, sorrindo, respondeu:
—A não servir de mais, deixem-me ser mordomo. Eu guardo o dinheiro, e darei contas.
Relatou o padre a sua chamada a Pinhel, e o sentir do fidalgo, com a promessa das cartas para Lisboa, caso o exito do processo fosse funesto em primeira instancia. Acrescentou que Ruy de Nellas tinha muita confiança no valimento de sua irmã, na capital, a sr.ª condessa de Asinhoso.
—É a primeira vez que ouço fallar n’essa irmã do sr. Ruy!—disse Casimiro.—Nunca me fallaste em tua tia, Christina.
—Porque a tinha esquecido—respondeu a senhora.—Eu e minhas irmãs mais novas ainda ha poucos annos soubemos que tinhamos em Lisboa uma tia. Ignoro as desintelligencias que se deram entre ella e o papá, muito antes de eu nascer. O certo é que em nossa casa nunca se fallou em tal tia, e diante do papá seria perigoso fallar. Muito me espanta agora que elle queira escrever-lhe! Vejo que meu pai está mudado!
—Sabe que desavença de familia foi essa, padre João?—perguntou Bettancourt.
—Não, senhor. Ninguem o sabe em Pinhel. Apenas sei que em Lisboa viveu desde menina a irmã do sr. Ruy de Nellas, em companhia de um grande fidalgo seu tio, e mais os dous irmãos filhos segundos. Tambem sei que estes irmãos lá morreram, e que a sr.ª casou com o conde de Asinhoso. É o que eu sei d’um clerigo velho de Pinhel, que a viu em menina, e me disse ser ella vinte annos mais nova que o morgado. Deve hoje ter, portanto, a sr.ª condessa quarenta e seis.
Sobre este incidente exhauriu-se aqui a pratica, em que Bettancourt, de condição scismadora em cousas mysteriosas, mostrava estar muito entretido.
O patrono de Casimiro, sabendo que o sogro do seu cliente o protegia em Lisboa, e quasi seguro da condemnação do réu no tribunal conimbricense, inredou o processo de modo que, no caso de se provar o crime em jury, houvesse direito a pedir um recurso por nullidades, sem ser ouvido o tribunal da segunda instancia. A lei organisadora dos processos em Portugal, paiz de mais leis que tem o universo é uma corda bamba que se presta a saltos maravilhosos sob o pé d’um habil volatim. «Vai o processo para Lisboa, dizia o jurisconsulto, e lá, se o braço fôr forte, os autos vem arremessados á cara do juiz, e o juiz dá alvará de soltura ao preso.»
Este salvador intento do causidico foi revelado a Casimiro, com grande alegria, pelo vigario. E o preso respondeu:
—Não quero! diga-lhe que não quero! Ha-de ser a lei, sem coacção, sem torcedura, sem vexame de poderosos, que me destrancará aquellas portas. Mas que digam ser dolorosa a experiencia: não importa. Quero experimentar até que ponto um réu innocente póde ser torturado. Hei de ir de condemnação em condemnação, até poder dizer: «Acuda-me a justiça divina, que a dos homens é infame!»
—Mas—atalhou o padre—se as provas são taes que a lei tem de forçosamente o reconhecer criminoso?
—Não são tal! As provas permittem que as destrua o ardil d’um habil jurisconsulto. É isto certo?
—É.
—Pois bem: eu quero que a lei as anniquile, e não a trapaça: que este acto se cumpra á luz do sol, á luz de todas as consciencias, que me condemnam. Que faz que as influencias poderosas me libertem, se o mundo ha de dizer: «salvaram-no as influencias! o ferrete de homicida lá o tem na testa!» Não quero, sr. padre João! Agradeça ao compadecido patrono: mas avise-o de que eu serei no tribunal o interprete mais severo da lei contra mim.
O advogado, quando tal ouviu, pasmou e disse:
—É um doudo maior da marca, este homem! Creia que irá da cadeia para a enfermaria dos alienados!
E proseguiu:
—É vergonha fazer-lhe eu uma pergunta, sr. padre João: Casimiro Bettancourt, matou um homem e espancou o outro?
O padre não respondeu. E o advogado repetiu:
—Matou ou não?... Pois o senhor cala-se a esta pergunta?
—Calo, sim, sr. doutor. Não posso responder.
—Está claro! Outro doudo!... Que esquisita familia é esta! Já fiz a mesma pergunta á mulher do preso: silencio! Interroguei Ladislau Tiberio: silencio... O sr. padre João Ferreira...
—Silencio!—atalhou o vigario.
—Nem a mim, que sou seu advogado—tornou com azedume o doutor—ha uma pessoa que me diga matou ou não!...
—Ha—disse um academico que entrava.
—És tu?—perguntou o advogado a Guilherme Lira.
—Sou eu. Casimiro Bettancourt não matou. Tu vaes advogar a causa do homem mais honrado e innocente do mundo!
—Posso dar-te como testemunha, Lira?
—Da sua honra e innocencia? podes; mas não me cites, que eu... ouve-me... eu hei de tirar Casimiro da forca.
—Santo Deus!—exclamou o vigario, lavado de subito suor.—Da forca! Pois é caso de sentença ultima?
—Se a sentença ultima é inapplicavel n’este caso,—disse o advogado—não sei onde está no codigo penal o crime condigno! Mas não se falla aqui em forca... pensemos...
—Não pensemos...—interrompeu Lira—Deixa correr o tempo que pensa por nós.
Padre João foi contar a Casimiro o que ouvira em casa do lettrado, citando o nome de Lira.
O academico recolheu-se, voltou a face, e o sentido apparentemente, sobre outro assumpto, e disse em sua mente:
—Que intenta fazer aquelle desgraçado?
Pergunta que o leitor se digna fazer-me e espera a resposta.
XIV
Episodio
O padre João Ferreira escrevia miudamente ao fidalgo de Pinhel, e o mesmo Christina, bem que Ruy de Nellas tão sómente respondesse ao padre, accusando a recepção das cartas da filha, com a incumbencia de dizer a Christina que lhe eram agradaveis as suas lettras. De Casimiro Bettancourt só dizia o necessario, attinente ao processo.
Entre o velho e D. Sueiro corria declarada inimisade. Já o de Miranda sabia que o seu sogro protegia Casimiro. Escrevera-lhe altivo reprovando amargamente a incongruencia do seu proceder. O de Pinhel respondeu que o marido de Christina padecia innocente, e D. Alexandre mentia imputando-lhe a morte do faccinoroso, de que elle villãmente se acompanhava. Replicou raivoso D. Sueiro, doestando o sogro, e ejaculando phrases de lacaio a proposito do lustre de sua raça, sujada por um parente, _posto que remoto garfo de seu tronco_. As palavras sublinhadas affrontaram gravemente Ruy de Nellas! Este repto, quinhentos annos antes, daria de si guerra a ferro e fogo, entre os dous ricos-homens. Mas agora, n’este tempo de calmaria podre, em que as injurias se castigam na policia correccional com multa de dez tostões e custas do processo, Ruy de Nellas rebateu a provocação com outras não menos pungentes que certeiras injurias. E foi grão-caso perguntar-lhe o velho se a Madre Nazareth, fugida do mosteiro de Lorvão, em 1810, e agarrada por ordem regia nas encruzilhadas do inferno, e mettida no tronco para se depurar dos vicios, seria um garfo meritorio do tronco dos Parmas d’Eça ao qual elle Ruy de Nellas se glorificava de ser estranho? Chegadas a tal extremo as insolencias, a reconciliação era impossivel, apesar mesmo das frias tentativas de D. Guiomar, que nunca fôra amorosa filha nem irmã.
As cartas do padre ao fidalgo aventavam como certo o mau resultado do pleito em Coimbra, e invocavam o patrocinio de Ruy para que em Lisboa o supremo tribunal ou o poder moderador dirimissem a sentença condemnatoria.
Teve Ruy de Nellas como acêrto escrever desde logo a sua irmã, convidando-a a esquecerem o passado, para ir assim predispondo-a a mais de vontade o servir. A condessa de Asinhoso respondeu com muito amor ao irmão, lastimando que elle recusasse a sua amisade tantas vezes, em diversos tempos, offerecida; e accrescentava: «Eu não podia odiar o mano Ruy, que nenhuma parte tomou nos supplicios que me fizeram. Os algozes já estão na presença de Deus!»
—Ainda não está arrependida!...—disse entre si o fidalgo, relendo aquelle periodo.—Mulheres, mulheres!...—accrescentou sacudindo a cabeça.
Estranhará o leitor, que entre aqui mal cabido o episodio de umas aventuras de D. Eugenia de Nellas, condessa de Asinhoso. Conto, porém, com a sua attenção; e peço licença para me desvanecer de apontado em não me desviar da historia principal, sem ao depois me justificar do defeito.
D. Frederico de Paim e Lucena, tio materno de Ruy, vivia na capital, e muito no Paço, gozando as suas numerosas commendas, solteiro, septagenario, e abastado.
Corria por sua conta a educação palaciana de dous sobrinhos, Vasco e Gonçalo, irmãos de Ruy.
Eugenia, muito mais nova que seus irmãos, sahiu tambem de Pinhel, aos doze annos, em 1806, para ser educada em convento, visto que sua mãe tinha morrido, e sua cunhada a tractava asperamente.
Em 1811 sahiu a menina do collegio para casa de seu tio. Eram uns dezoito annos superabundantes de quantas graças feminis, raras vezes, a inspiração divina segréda aos creadores que dizem á tella ou ao marmore o seu _fiat lux_, e o marmore e a tella desentranham em Fornarinas de Raphael, em Collonas como as de Angelo, em Venus como as de Praxiteles. D’estas, o artista, o que não é artista, o homem de coração e sêde do bello, diz: «fel-as o cinzel ou o pincel dos anjos!» de Eugenia diria o artista, o amador, o poeta, o moço ardente, o ancião esquecido de seus ardores, diriam todos: «é um bafejo de Deus, uma alma vestida das perfeições materiaes, privativas do céu, se no céu podem conceber-se fórmas corporeas!»
Foi Eugenia requestada por consideraveis senhores da côrte. D. Frederico respondia aos que solicitavam sua mão: «Minha sobrinha é orphã de pai e mãi. Casará á sua escolha. Intenda-se com ella quem houver de ser seu marido, que eu lavo as mãos d’ahi.»
Boa resposta; mas Eugenia repellia delicadamente os pretendentes, as maviosidades, e as soberbas feridas na resistencia.
Pois tão dotada e fadada para amar, Eugenia era assim de refractaria condição ao bem supremo da vida? Dar-se-ha que o seu peito seja dentro de alabastro como se afigura no exterior?
Não; o mesmo amor de que a julgam inimiga é quem a incrueceu assim contra os aulicos, os ricos, os soberanos da galanteria d’aquelle tempo.
Amava Eugenia, e amava desatinadamente. O eleito de sua alma era um alferes de cavalleria, amavel de figura, composto de encantos; mas sem fôro grande nem pequeno, sem amigos das primeiras casas do reino, sem nome, que, ao menos, recordasse um general illustre, um lidador distincto das ultimas pelejas grandes da patria com os estranhos. Um mero e simples alferes, pallido, só, melancolico, e timido debaixo dos olhos d’ella.
O palacio de D. Frederico de Paim era na rua de Santa Barbara. O alferes passava alli duas vezes em cada dia, e alguns dias duas vezes em cada hora.
E ella via-o sempre, esperava-o sempre, esperava-o até mais vezes do que o via. Gonçalo e Vasco viam-no tambem, e diziam:
—A assiduidade d’este homem!... Que cuidará elle, ou que cuidará nossa irmã!
Indagaram pela rama; e, em occasião opportuna, disseram a Eugenia:
—Olha que o militar que vês ahi passar, e procuras vêr, é um biltre, que principiou soldado. Sirva-te isto de governo, e lembra-te que és Eugenia de Nellas Gamboa de Barbedo.
A menina, se a revelação a envergonhasse, córaria; se o coração lhe doesse, impallideceria; ora, como nem córou nem impallideceu, é razão presumir que o seu pudor e coração ficaram illesos; e, depois, concluir que ella, assim mesmo, amava-o sem pejo da baixeza d’elle nem vangloria de seus appellidos. Concluam assim que tem a maxima probabilidade do acêrto.
E o alferes continuou a passar na Rua de Santa Barbara, e a surgir no alto da collina da Penha de França, d’onde Eugenia do seu miradouro o avistava.
D. Frederico, avisado pelos sobrinhos, disse que estava seguro do bom siso de Eugenia; mas, por cautella, na primavera de 1815, quando a menina já entrava nos seus vinte annos, foi passar seis mezes á sua quinta de Camarate.
—O remedio prudente é este—disse o velho aos sobrinhos.—Não façamos alarido, que ha casos de frageis avesinhas, espavoridas por algazarras, romperem os arames da gaiola.
Quando isto foi, já o alferes se carteava com Eugenia, mediante a aia, que viera de Pinhel.
A passagem para Camarate aggravou a infermidade. Convem saber que ha casos em que o amor, o mais sadio e rosado dos deuses, se chama «infermidade». Exemplo: amarem-se duas pessoas, divorciadas pelo acaso do nascimento ou da riqueza, é infermidade; amarem-se, porém, um casal de ricos, de nobres, de ralé social, ou de mendicantes, isso sim é amor, que é saude, e só póde adoecer, n’uns, em hidropesia de tedio, n’outros, em resiccação de fome.
A quinta de Camarate era um arvoredo, que competia com o reinado de D. João III. Fôra plantado e alinhado por D. Mem Vasques de Lucena, sumilher de El-Rei, e aio do infante D. João, pai de D. Sebastião Era memoria que aquellas arvores, ainda tenras, tinham visto os amores de D. João III com D. Izabel Moniz, moça da camara da rainha D. Leonor, amores que deram de si o principe, arcebispo de Braga, D. Duarte, que morreu na flor dos annos. Para alli diziam os Lucenas que o monarcha transferira a dama, odiosa á rainha.
Parecia, pois, que a folhagem do arvoredo estava rumorejando uma chronica de reaes amores.
As fontes respondiam ás arvores, as aves ás fontes, as borboletas dialogavam com as flores, as flores trahiam com a viração as borboletas: era tudo alli um suspirar, um ouvir-se muito interno harpas e córos, symphonias aerias, milhares de pronunciações confusas da terra, dizendo todas «amor»!
E para onde elles levaram Eugenia, que já comsigo levava a saudade!—a saudade, verdugo que mata acariciando, corda de estrangulação tecida com fios de ouro, segredo que Lucifer, ao despenhar-se, roubou do céu, e nunca mais restituiu!
Alli é que o amor pegou d’ella com violenta mão, sendo que até áquelle dia lhe fôra sempre mão cheia de meiguices e serenas esperanças.
Gonçalo e Vasco julgaram sua irmã segura, e ficaram por Lisboa, onde tinham seus affectos, e suas devassidões. O velho, contente com as suas arvores, e com a menina, que lhe ouvia a menos edificativa lenda dos amores de D. Izabel Moniz, não sahia de Camarate.
Á noite, assim que a brisa esfriasse, D. Frederico digressava do jardim, dava um osculo em sua sobrinha, e fechava-se em seus aposentos.
Ora, depois ainda, a menina ficava sentada no banco rustico, resguardada de sycomoros, aspirando as baunilhas, sacudindo as granulações das pimenteiras, ou devaneando pela via lactea fóra, de constellação em constellação, com os olhos lá, e o coração na terra proxima, no muro da quinta por onde o alferes subia. E não se atemorisava dos plátanos gigantes nem das danças macabras das sombras, agitadas pelo vento da alta noute!
Á uma hora rugia a folhagem debaixo dos seus pés nas ruas ladeadas de murtas; os molossos lambiam-lhe as mãos, sorvendo os latidos ferozes; as avesinhas acordavam e saudavam-na ao passar; o rouxinol das cinceiras soltava as notas mais dilectas; e ella ia á gruta conhecida, e esperava com a mão no seio como quem diz ao coração: «Espera, ditoso impaciente!»
Ao abrir da manhã de 16 de agosto d’este anno de 1815, Eugenia ouviu quatro tiros nas cercanias da quinta, e tremeu, tremeu até cahir de joelhos.
D’ahi a pouco estrondearam os argolões do portão da quinta. A aia entrou ao quarto da menina, e disse:
—Chegaram seus irmãos. O senhor Gonçalo vem ferido n’um braço: já foi chamar-se o cirurgião ao Lumiar.
Gonçalo e Vasco estrenoutaram o tio, e fecharam-se com elle. O que ahi disseram collige-se dos successos seguintes.
Durante o dia, Eugenia não viu seus irmãos nem tio. Sabia que se faziam preparativos de viagem. Mandou indagar dos caseiros o que seriam os tiros da madrugada. Os cazeiros tinham ouvido as detonações, e a estropeada de cavallos. Estaria morto o alferes?
—Matal-o-hiam?—perguntava Eugenia á sua aia—e, depois, ousava perguntal-o a Deus.
Se ella podesse ouvir este dialogo dos irmãos...
—Chego a duvidar que as pistolas tivessem ballas—dizia Gonçalo.
—Carreguei-as eu—afirmava Vasco.
—E foi-se a salvo!
—Quem sabe?!
—Não o viste correr sobre nós, e desfechar de perto, e retirar-se muito a passo? E depois não o avistaste a subir a charneca sobre o cavallo?
—Vi.
—Como queres tu que elle fosse ferido!?—retorquiu Gonçalo—Com meia pollegada á esquerda, o canalha mettia-me a bala na cintura—dizia elle levando a mão ao ante-braço direito—Eu é que estou ferido devéras... Não contávamos com isto, Vasco! O homem tem fibras!
Ao fim da tarde, sahiu da cocheira uma caleça de jornada apposta á parelha de machos.
N’esta occasião foi chamada á presença de seu tio, que mansamente lhe disse:
—Se tivesses pai ou mãi, mandar-te-ia para elles, sem te dizer a razão: tu a saberias de mais, e eu me pouparia á dôr e pejo de repetil-a. Entrego-te a teus irmãos. D’elles te defendi alguma vez; agora estou desarmado pelo teu proceder. Disse de mais. Ahi fóra está posta a caleça para conduzir-te a outra parte, segundo vontade de Vasco. Não vai Gonçalo, que está ferido da bala do homem que saltava os muros da minha quinta, com teu consentimento. Adeus, Eugenia.
D. Frederico entrou rapidamente no seu quarto, contiguo á sala, e fechou-se a chorar.
Vestiu-se Eugenia soluçante, e cobrou animo, quando viu que a sua aia se preparava. Entraram ambas na caleça, onde as seguiu Vasco. Chegaram de noute a Lisboa, e pararam á porta do palacio de D. Frederico.
Vasco mandou descer a aia de sua irmã, e disse-lhe:
—Sobe; diz ao mordomo que te pague; e vai á tua vida.
—Onde vai ella?!—gritou Eugenia.
—Não queremos gritos—atalhou o irmão.—Pica, bolieiro!
As mulas galoparam até entrarem á estrada do Beato Antonio, onde Vasco de Nellas cavalgou, adiantando-se.
A jornada de Eugenia durou dous dias e meio. Parou a carroça diante de um palacete velho, em Recaldim, no termo de Torres Novas. Era ali uma grossa commenda de D. Frederico, casa chamada da «renda», habitada pelos Pains de Lucena, quando, desgostosos da destronisação de Affonso VI, se affastaram da côrte.
Entrou Eugenia a um grande salão decorado como o deixaram seus avós, quando voltaram a Lisboa.
A tranzida menina sentiu frio e medo.
Surdiu-lhe logo, de sob a orla de um reposteiro de côr inqualificavel, uma creatura, ao que parecia, femeal. Dirieis que uma cuvilheira dos Lucenas, adormecida em 1680, ao sahirem seus amos, acordára como Epimenides, cento e trinta annos depois, e estremunhada sahira ao salão para vêr qual das fidalguinhas Pains estava a soluçar.
Eugenia encarou-a, e estremeceu.
—Entrou a velha, fez tres mesuras, e disse:
—Guarde Deus a v. ex.ª
—Adeus—murmurou Eugenia.
—Em quanto não chegam as outras creadas—tornou a creatura com ares benignos—a fidalga queira mandar-me em seu serviço. Eu fui ama de leite de sua mãezinha, que foi casar a Pinhel.
Estas palavras reanimaram Eugenia, que se aproximou voluntariamente da velha, em quanto ella continuava:
—V. ex.ª é o retrato d’ella: já o sabia por m’o dizer o sr. Frederico; mas eu estou aqui ha quarenta annos desde que ella casou. Seu avô, o sr. D. Carlos de Lucena, mandou-me para Recaldim com ordenado e casa para a velhice. Já quiz botar-me por essa estrada fóra, até Lisboa, só para ver a filha da minha menina; mas a carga dos annos, oitenta bons, não se leva onde a gente quer. Fiquei agora atonita, quando vi entrar o menino Vasco, e me disse: «minha irmã vem aqui estar algum tempo. Ámanhã chegam outras creadas, que ficam debaixo da sua vigilancia, e um creado que lhe transmittirá as minhas ordens.
—O mano já sahiu?—atalhou Eugenia.
—Chegou ás quatro, e sahiu ás cinco horas da manhã. Admiro que v. ex.ª o não encontrasse... Então é que foi pelo caminho de baixo.
Eugenia, n’um impeto de confiança, abraçou-se na velha, e exclamou:
—Por alma de minha mãi, vale-me?
—Se lhe valho, meu serafim? que quer v. ex.ª da sua serva humilde?
—Queria escrever uma carta.
—Ó menina, isso barato é de fazer; mas o rendeiro da commenda anda á cobrança, e levou a chave da sala, onde está o tinteiro e o papel.
—Pois nem um bocadinho de papel?!... Não tem um livro?...
—Livro tenho as minhas _Horas_ e o _Retiro Espiritual_.
—Deixa-me vêr se ha uma lauda em branco?
O _Retiro_ tinha a folha do ante-rosto surrada, mas susceptivel de receber caracteres. Eugenia despregou um alfinete, picou o dedo indicador, apertou-o até bolhar sangue. Depois com a cabeça do alfinete embebida, escreveu:
_Estou em Recaldim, perto de Torres Novas, na commenda do tio. Aqui morrerei._ Voltou-se com recrescente vehemencia para a velha, e disse:
—Dá-me um bocadinho de pão para eu fechar este bilhete?
—Sim, minha menina.
Mastigou o pão, fechou o bilhete e subscriptou-o.
—E agora?—tornou ella—o peor é agora...
—Que queria v. ex.ª?!
—Que me levasse esse bilhete a Lisboa.
—A Lisboa? A menina não sabe o que é ir a Lisboa! São dous dias e meio de jornada, andando de noute duas horas.
—Não importa... Eu pago...
—Mas pagar a quem, meu anjinho do Senhor? Ora venha cá... isto é paixão?
—Paixão de morrer, minha amiga...