O Atheneu (chronica de saudades)
Part 6
Em baixo das arvores era já noite espessa. Demos uma volta no escuro acompanhando a curva de uma alameda. O Franco ia adiante calado, andando leve e rapido como uma sombra no ar. En o seguia irresistivelmente, como sonhando, num sonho de curiosidade e de espanto. Que ia fazer o. Franco? Aonde ia elle? Chegámos ao capinzal a um de cujos lados extremos ficava a natação. Logo ao portão de ingresso nesse terreno, havia um deposito de lixo, onde os jardineiros accumulavam as varreduras da chacara, negrejando putrefactas, virando estrume ao tempo.
Franco deteve-se junto ao monturo. Sempre em silencio e activamente, como para não perder aquelle raro estimulo de vontade que o impellia, foi examinando o lixo com o pé.
A um canto, entre tocos de bambú, tiniram garrafas. Franco abaixou-se e como em acção mecanica, sem se voltar, apanhou uma garrafa, outra e outra; foi-me dando, sobraçou ainda outras e proseguimos, o Franco adiante, leve e rapido, sempre no seu andar de sombra, como suspenso e diffuso na nevoa quasi lucida do campo aberto.
Atravessámos o capinzal quasi sumidos entre as altas bandas de capim d'Angola, cuja escura vastidão se constellava de vagalumes e vibrava da grita intensa dos grilos e do clamor dos sapos. Diante da natação o Franco parou e me fez parar, «A minha vingança!» disse entre dentes, e me indicou a toalha d'agua do grande tanque. A massa liquida, immovel, na calma da noite, tinha o aspecto de lustrosa calçada de azeviche; algumas estrellas repetiam-se na superficie negra com uma nitidez perfeita.
Com o mesmo modo atarefado de todo aquelle singular emprehendimento, o Franco acercou-se de mim, tirou-me as garrafas que me dera e desappareceu da minha vista.
Eu ouvi que elle quebrava as garrafas uma por uma. D'ahi a pouco reapparecia, trazendo as abas da blusa em regaço. E começou a lançar então com o maior socego ao tanque para todos os lados, aqui, alli, dispersamente, como semeando, as lascas do vidro que partira. Um breve rumor de mergulho borbulhava á flôr d'agua, abrindo-se em circulos concentricos os reflexos do céu. Eu vi muitas vezes contra o albor mais claro do muro fronteiro, passando, repassando, a sombra do sinistro semeador.
«A minha vingança!» repetiu-me ainda o Franco. «Para o sangue, sangue, accrescentou com o rizinho secco. Amanhã rirei da corja!... Trouxe-te aqui para que alguem soubesse que eu me vingo!»
Ao falar mostrava-me o lenço que enxugara o sangue do golpe á testa.
O justo terror da aventura, era logar vedado, por aquellas horas, só me assaltou quando, a pular o muro do pateo, fui cair entre as mãos do Sylvino. Nos apuros da alhada, mal vi o Franco seguro pelo pescoço, como um ladrão em flagrante.
Em presença do director, no escriptorio inquisitorial, improvisei uma mentira. Foramos colher sapotis, affirmei, explicando á tremenda arguição a estranheza da sortida. O director marcou a pena de oito paginas. Franco, que andava com um _deficit_ de vinte pelo menos, teve de accrescentar mais estas ao passivo insolvavel. Pela vergonha da tentativa de furto e no systema dos castigos moraes, addicionou-se a observação supplementar: passariamos, os delinquentes, no outro dia, as horas do almoço e do jantar, ao refeitorio, de pé, carregando em cada mão quantos sapotis coubessem.
Todo o requinte de punição não me deu cuidado; pelo contrario, estava nas condições do meu programma de pequeno martyr _ad majorem gloriam_. Ao deixar o escriptorio outra cousa preoccupava-me. Ardia de remorsos; tinha cacos de garrafa na consciencia. A armadilha sanguinaria de Franco obsedava-me como um delicto meu.
Depois das horas do serão de estudo, quando se retiravam os estudantes para os dormitorios, fiquei com o Franco a trabalhar. Tive que suspender, ao fim de quatro paginas. Devorava-me o remorso como uma febre; aterrava-me a idéa do banho na manhã seguinte, os rapazes atirando-se á vingança perfida, a agua toldada de rubro. Impossivel fazer mais uma linha. Deixei o companheiro e fugi para o salão dos medios.
A excitação recrudesceu; eu rolava na cama sobre um tormento de lascas cortantes. Que fazer? Denunciar o Franco de madrugada? Correr, ás escuras, e abrir o escoadouro ao tanque? Prevenir aos collegas, pedindo que espalhassem? A controversia avultava-me no craneo como uma inchação de meninges. Dar-se-ia caso que Franco, possuido de arrependimento, fosse apresentar cedinho aos inspectores a delação do proprio feito? Cheguei a tentar o engodo da consciencia com a ponderação de que talvez não saltassem ao tanque muitos de uma vez, e o primeiro ferido salvaria os outros. Mas a febre vencia, com a perspectiva do sangue. Dez, vinte, trinta rapazes, á borda, gemendo, extrahindo difficilmente da carne as lascas encravadas! E eu, cumplice, que o permittira, e maior culpado, que me não cegava a razão, em summa, de justa desforra...
Ergui-me da cama, e descalço nas taboas frias, para vêr se me acalmava o mal-estar, errei pelos salões adormecidos.
Os collegas, tranquillos, na linha dos leitos, afundavam a face nas almofadas, pallejante da anemia de um repouso sem sonhos. Alguns affectavam um esboço commovedor de sorriso ao labio; alguns, a expressão desanimada dos fallecidos, bocca entre-aberta, palpebras entre-cerradas, mostrando dentro a ternura embaciada da morte. De espaço a espaço, os lençóes alvos ondeavam do hausto mais forte do peito, alliviando-se depois por um d'esses longos suspiros da adolescencia, gerados, no dormir, da vigilia inconsciente do coração. Os menores, mais crianças, conservavam uma das mãos ao peito, outra a pender da cama, guardando no abandono do descanço uma attitude ideal de vôo. Os mais velhos, contorcidos no espasmo de aspirações precoces, vergavam a cabeça e envolviam o travesseiro num enlace de caricias. O ar de fóra chegava pelas janellas abertas, fresco, temperado da exhalação nocturna das arvores; ouvia-se o grito compassado de um sapo, martellando os segundos, as horas, a pancadas de tanoeiro; outros e outros, mais longe. O gaz, frouxamente, nas arandelas de vidro fosco, bracejando dos balões de aza de mosca, dispersava-se igual sobre as camas, doçura dispersa de um olhar de mãe.
Que venturosa segurança naquelle museu de somno! E amanhã, pobres collegas! o banho, a volta, pés ensanguentados, listrando de vestigios vermelhos o caminho!
[Figura 17]
Voltei ao meu salão. Tirei da gaveta a imagem de Santa Rosalia; beijei-a com lagrimas, pedi conselho como um filho. A inquietação não passava. Atravessei ainda os dormitorios devagarinho, que me não ouvisse o Margal, accommodado num biombo a um dos angulos do salão azul. Uma crepitação dos ossos do tornozelo esteve a ponto de me comprometter. Dentro do biombo, tossiram; parei um momento; curou-se a tosse; prosegui.
Desci ao primeiro andar do edificio; entrei na capella.
A capella em trévas, de um negrume absoluto de merinó preto. A escuridão dava-lhe uma amplitude de subterraneo, mysteriosamente sentida no espaço. Não tive medo. Fui até ao altar. Tropecei no estrado. Ajoelhei-me no chão e descancei a testa nos braços a um dos angulos do estrado do oratorio. Rezei.
Na qualidade de máu estudante não sabia até ao fim nenhuma oração. Rogava por minha conta, improvisando supplicas, vehementes, angustiosas, que deviam forçar a hombro a porta de S. Pedro. Implorava de Deus directamente, sem o intermediario empenho da minha padroeira. Até que, não posso dizer como, adormeci.
Uma palmada acordou-me. Era dia. Ergui-me vexado, de camisola, diante do Margal e de uma porção de collegas que miravam. «É somnambulo, é somnambulo», explicavam.
Esta saída dispensava-me de dizer a que fôra alli; encampei a explicação, concordando. «Que horas são? perguntei. Seis horas, responderam. Chegamos agora mesmo do banho.» Tinham os cabellos empastados sobre os olhos. «E os cacos?!» gritei espavorido. Examinei os pés dos companheiros. Nas chinelas com que desciam ao banho não via sangue! Esclarecia-se: houvera ordem de banhos de chuva no competente banheiro, alojado em um dos commodos baixos do _Atheneu_, pelo motivo de ter servido seis vezes a agua da natação. Graças ao Senhor! Vinha-me do céu esta solução de aguas sujas, alcançada pela minha prece. Dilatou-se-me a alma em ditoso allivio.
Á minha interjeição explosiva de cacos, os collegas suppuzeram tontura de somno. Não assim o inspector, que me chamou a indagar. Nova mentira: durante a escapada dos sapotis, uma garrafa, que arremessei de máu geito, fizera-se em cacos contra o muro, sobre o tanque. Providenciou-se. O criado encarregado de varrer o tanque, com o zelo da domesticidade, chamou attenção para o numero dos fragmentos; tão extraordinaria era a hypothese da intenção perversa que não pegou.
No mesmo dia estive com o Franco, durante os recreios, a completar a pena. Não me disse palavra acerca da decepção da sua vingança. Julgando-se compromettido, concentrava-se na insensibilidade de carapaça que o defendia, esperando tudo, a minha delação, uma trovoada de doestos, a _cafua_, um accrescimo ao _deficit_ permanente da divida penal. Aborrecia-se, porém, da necessidade de ser punido por um fiasco de tentativa.
Quanto ao requinte da exposição no refeitorio, mãos cheias de sapotis, não houve meio de obrigar-me Aristarcho. Concordara em ficar de pé; não era pouco. Franco naturalmente submetteu-se e lá esteve, braços abertos, a fazer de fructeira no interesse do systema das punições moraes. Tanto melhor para o systema.
Á vista da reluctancia, calculou-se em paginas de escripta quanto podiam valer dous punhados de sapotis; reducção difficil, que a justiça collegial alcançou mathematicamente, pronunciando uma condemnação que me daria que fazer até mais de meia-noite.
Este rasgo de vigor mentia ao meu religioso papel de submissão e soffrimento. Foi o repentino prenuncio de proxima refórma no interior espiritual. E, como as evoluções da vontade sabem extrahir de qualquer facto a hermeneutica do determinismo, deu-se immediatamente uma occorrencia que ponderou muito na transformação.
De noite, novamente ao lado do Franco, a fatigar-me na tarefa das paginas, tive que ficar até tarde numa das salas do primeiro andar. Pelas dez e meia, o director, antes de sair para casa, veio vêr-nos. «Ainda escrevem... estes peraltas?...» disse-nos de enorme altura, á guisa de boas-noites, e desappareceu confiando-nos ao amavel João Numa, bacoro, inspector das salas de cima. Na sua qualidade de gorducho, o João não era diligente. Apenas viu partir Aristarcho, trancou a ultima porta do _Atheneu_ e foi dormir.
Acabrunhado pela noitada anterior, estava eu de somno que mal podia erguer a cabeça. De uma vez que cedi ao cançaço fui despertado por sentir que me alisavam a mão. Adormecera sobre o braço direito contra a carteira, pousando o rosto na tinta do castigo, deixando cair o braço esquerdo para o banco. Um instante depois estava fóra da sala, de um pulo, como se tivesse reconhecido em sonhos que o Franco era um monstro.
Ao dia immediato saí da cama como de uma metamorphose. Imaginei, generalisando errado, que a contemplação era um mal que o mysticismo andava traidoramente a degradar-me: a convivencia facil com o Franco era a prova. O _Atheneu_ honrava-me, por esse tempo, com um conceito que só depois avaliei. Eu não me julgava assim tão apeiado, mas suppuz-me directamente a caminho de um mergulho. Se a alma tivesse cabellos, eu registraria neste ponto um phenomeno de horripilação moral.
Fiquei perplexo.
O triumpho na escola podia ser o Sanches; em compensação, a humildade vencida era o Franco. Entre os dous extremos repugnantes, revelavam-se-me tres amostras typicas á linha do bem viver: Rebello, um ancião; Ribas, um angelico; Matta, o corcunda, um policia secreta. Para angelico decididamente não tinha geito, estava provado, nem omoplatas magras; para ancião, não tinha idade, nem oculos azues, nem máu halito; para ser o Matta, faltava-me o justo caracter e a corcova... Onde estava o dever? Na cartilha? Na opinião de Aristarcho? Na misanthropia senil dos oculos azues?
Salteou-me nisto, ás avessas, o relampago de Damasco: independencia.
V
[Figura 18]
Devo, entretanto, é minha ephemeride religiosa a maior somma de gratidão. Suavisou-me com a complacencia divina o periodo de vadiação profunda e amollecimento hypnotico com que me pesou a atmosphera do _Atheneu_. Toda a perseguição de castigos, sem prejuizo da minha delicadeza moral resvalava pelo cilicio da penitencia; eu emergia forte das provações. Que tranquillidade, na apathia, ter por fiador a Deus!
Iamos á missa nos domingos. Todos abriam os livrinhos, para que o director os visse attentos. Eu não abria o meu. Deixava apenas fugir-me o espirito para o alto e adherir á abóbada como as decorações sagradas, ajustar-se estreitamente nos detalhes da architectura do templo como o ouro subtil dos douradores, conservar-se lá em cima, ávido ainda de ascensão, ambicioso de céu como a baforada dos thuribulos.
Havia accessos communicativos de tosse que lavravam nas fileiras. Eu não tossia. Havia convulsões de riso, mal contidas no lenço, mal dominadas por um olhar de Aristarcho, de joelhos á frente do collegio e mãos cruzadas sobre o castão do unicornio; como certa vez que um cão bregeiro e sem principios, mesmo ao elevar-se a santa Particula, entrou e escapou-se com o casquete de um fiel contricto. Eu resistia ao riso.
Cantavamos ao côro em dias solemnes. Melhor organisação vocal possuiria o _Orpheon_ do que a minha; mas se cantassem os corações em vez dos labios, nenhum hymno evolaria mais largo, mais bello que o meu. Traziam-nos agua com assucar num jarro de vidro para molhar as cordas vocaes. Eu rejeitava esta doçura terrena.
O _Atheneu_ concorria para o brilhantismo das procissões. Eu me embrulhava amplamente na opa, encarnada como os sacrificios, que me podia enrolar tres vezes: empunhava uma tocha que me martyrisava os dedos com os pingos ardentes de cêra. E lá ia, cobiçando ainda a força lombar dos mascates para ter ás costas, eu só, aquelles pesados andores; invejando o garbo ao presidente da Philarmonica particular _Prazer do Rio Comprido_, que vinha após no prestito, com o estandarte S. P. M. P. R. C., e o punho athletico de um equilibrista de perchas para levar correcto e rijo os balançados guiões.
Com que tristeza, ao entrar a procissão, quando o director nos mandava seguir para o collegio, com que tristeza não espiava de longe, pela porta, o interior flammejante do templo! Lá ficava a festa de Deus... e nós para o _Atheneu_ soturno, em marcha inexoravel! Eu sacudia a cabeça com desespero; não podia soffrer a privação d'aquella alegria, gozar na alma a orgia de fogo dos altares, subir com o pensamento, degráus, degráus, ao throno scintillante, arrojando-se para cima na escalada da Gloria.
Depois d'esses enthusiasmos foi-se-me a religião escurecendo.
Era meu vizinho, na sala geral do estudo, Barreto, um personagem duplo, que representava, nas horas de recreio, a folgança em pessoa e tinha momentos de meditação trevosa com esgares de terror e falava da morte, da outra vida, rezava muito, tinha figas de pau, bentinhos, medalhazinhas em cordões, que saltavam fóra do seio ao brinquedo.
Iniciara-me Sanches no Mal; Barreto instruiu-me na Punição. Abria a bocca e mostrava uma caldeira do inferno; as palavras eram chammas; ao calor d'aquellas praticas, as culpas ardiam como sardinhas em frege.
Barreto andara num seminario rigoroso, regimen de nitro para congelar as ardencias da idade. Era magro, testa de Alexandre Herculano, beiços finos, olhos pretos, refulgentes, saídos, physionomia geral de caveira em pelle reseccada de mumia. No queixo viam-se-lhe dous fios unicos de barba, em caracol, cada um para a sua banda.
Só elle, talvez, conheceu-me as preoccupações beatas. Senhor do meu fraco, pôz-se a informar dos pavores da fé com a emphase satisfeita de um cicerone. Recordo-me de um assumpto: a communhão sacrilega! A proposito, Barreto me deu um livro a ler, um livro cruel, que descrevia cousas dignas de Moloch; crianças directamente justiçadas pela celeste colera, uma d'ellas que, por haver commungado sem confissão prévia, illudindo ao sacerdote, fôra apanhada pela roupa entre dous cylindros de aço d'uma machina e reduzida a pasta, acabando impenitente, maldita, sem tempo para um ai Jesus... Era-me incrivel que de uma simples hostia podesse a thaumaturgia da crendice obter tantos effeitos de terror.
Barreto commentava reforçando. Mettia medo acceso em iras santas de prégador, demonstrando quão longe ainda estavam os castigos da Providencia, na terra, dos supplicios da eternidade. Descrevia o inferno como se tivesse visto. Rubida caverna, dragões verde-negros, côr de limo, serpentes de ferro em brasa enroscando os condemnados, demonios fulvos revolvendo tachos de asphalto em fusão, outros espiritos caudatos levando a chuço magotes, para os tachos, de inconsolaveis reprobos.
Li a _Nova Floresta_, de Bernardes. O reverendissimo autor veio retocar a obra do Barreto, com as suas narrativas de illuminado terrifico.
Comecei a achar a religião de insupportavel melancolia. Morte certa, hora incerta, inferno para sempre? juizo rigoroso; nada mais negro!
Era cedo demais, para que eu podesse pesar philosophicamente a revelação; encontrei, todavia, embaraço invencivel no ritual das ceremonias. Eu que, nos melhores dias, não conseguira formular litteralmente uma só prece do catecismo, esbarrei definitivamente na prescripção fastidiosa do preceito. Ir á missa, muito bem; mas o resto e ainda mais a dependencia dos senhores ministros do culto... Em duas palavras: a sacristia e o inferno, provaveis escandalos e horrores inevitaveis, desgostaram-me de tudo. Demais, eu tinha por vezes tentado dar boa conta, estudando um pouco e rezando muitissimo, com um pequeno jejum ainda por cima; ao dia seguinte, nota má! Era um descredito para o favor divino. Que custava á summa Omnipotencia modificar em licção sabida uma ignorancia soffrivel, como transmutara em fartura sem conta uma miseria de cinco pães?
Ia-se por esta fórma a exaltação dos meus fervores, quando me achei envolvido no episodio dos cacos. A attribulação do remorso reaccendeu por um momento a chamma decadente; o resultado da minha supplica nesse duro transe não provara mal; muito adiantada, porém, ia a decomposição do meu extase. Eu esqueci a circumstancia com a ingratidão facil dos pretendentes servidos. E cheguei á conclusão audaz.
Não tendo força para estacar de arranco a torrente dos seculos christãos, consegui ao menos ficar á margem. Ignorante do atheismo, limitei-me a voltar o rosto aos phantasmas do eterno. Subi ao dormitorio, tirei da gaveta Santa Rosalia, guardei a flôr da ultima offerenda, secca, porque a minha pontualidade de culto faiscava já, depuz-lhe em despedida um osculo, e, sem mais profanação, fil-a baixar á sala de estudo, onde lhe commetti o modesto encargo de marcar as paginas de um volume. Estava demittida a minha padroeira!
Pouco depois, algum apaixonado de gravuras raptou-m'a, e eu lamentei apenas perder a lembrança da saudosa prima.
Maio tinha passado e as rosas; acabaram-se as orações á Virgem. Sem os hymnos da manhã, sem o sorriso a côres de Santa Rosalia, restava-me o Deus dos novissimos, das communhões sacrilegas, o Deus selvagem do Barreto. Positivamente não quiz saber do carrasco; alijei a metaphysica como um pesadelo. E me achei de novo sósinho no _Atheneu_; sósinho mais do que nunca. Com os astros apenas do meu compendio, panorama da noite consoladora.
E ainda bem, que voltava da crença pela Via-lactea, como para a crença fôra. Retirada honrosa de um desengano.
Os dias de saída eram de quinze em quinze. Partia-se ao domingo, depois da missa; voltava-se á segunda-feira, antes das nove da manhã. Os dias santos de guarda occasionavam saídas de vespera. O commissario dos generos e despenseiro insistia com o director afrouxasse mais o systema de feriados. Os rapazes precisam passear, gryphava elle, com a liberdade de mordomo confidente. Aristarcho replicava com a invenção cordata dos generos de terceira, elasticidade insensivel dos orçamentos.
Havia, porém, saídas extraordinarias de premio ou de obsequio.
A cada licção julgada boa, o professor assignava um papelucho amarello, _bom ponto_, e entregava ao distincto. Dez premios d'estes equivaliam a um cartão impresso, _boa nota_, como dez vezes vinte réis em cobre valem um nickel de duzentos. O systema decimal applicava-se mais á conquista de um diploma honroso, equivalente a um baralho de dez cartões de boa nota. Com tal diploma era o estudante candidato á condecoração final de uma medalha, de prata ou de ouro, conforme fosse mais ou menos optimo nos diversos superlativos do merecimento escolar. Reduzia-se assim a papel o valor pessoal, na _clearing-house_ da directoria; ou, melhor: adaptava-se a theoria de Fox ao processo das recompensas, com todos os riscos de um cambio incerto, sujeito aos panicos de banca-rota, sem um criterio de justiça a garantir, sob a ostentação do papel-moeda, a realidade de um numerario de bem aquilatada virtude.
Fosse como fosse, certo é que, com os bilhetes de boa nota, comprava-se uma saída, e isto era o importante, como nos paizes de más finanças: desde que o papel tem curso, de que vale o valor?
Inutil é dizer que me não chegavam nunca as saídas de premio. Tanto melhor me sabiam as outras.
Durante a primeira quinzena de collegio, o pensamento de um feriado e regresso á familia inebriou-me como a anciedade de um ideal fabuloso. Quando tornei a vêr os meus, foi como se os houvesse adquirido de uma resurreição milagrosa. Entrei em casa desfeito em pranto, dominado pela exuberancia de uma alegria mortal. Surprehendia-me a ventura incrivel de mirar-me ainda nos olhos queridos, depois da eternidade cruel de duas semanas. Não! A magnanimidade do cataclysmo temido favorecera o meu tecto. Deus permittira, na largueza prodiga da summa bondade, que eu revisse a nossa casa sobre os alicerces, o nosso tão lembrado tecto e a chaminé tranquilla a fumar o _spleen_ infinito das cousas immoveis e elevadas.
Com o tempo habituei-me á feliz probabilidade de achar na mesma os prezados lares, e ousei nos momentos da scisma collegial fundamentar projectos de divertimento sobre a esperança de que, abusando a minha ausencia e só para me atormentar o coração, a terra se não havia de abrir e devorar exacta e exclusivamente o que me era mais caro.
Não foram, porém, preoccupações pueris de temor, nem prospectos de folguedo que levei ao primeiro dia de saída depois da demissão de Santa Rosalia.
Vinha buscar-me um criado. Eu, adiante do portador, na minha fardeta de botões dourados, parti do _Atheneu_, grave e mudo como um diplomata a caminho da conferencia. Ia effectivamente ruminando a mais séria das intenções: affrontar uma entrevista franca com meu pae, descrever-lhe corajosamente a minha situação no collegio e obter um auxilio para reagir.
Meu pae acabava de deixar o leito. Nada sabia dos meus ultimos insuccessos. Ficou admirado e consternado. D'ahi o exito completo da minha entrevista.
Dias depois, no collegio, eu era um pequeno potentado. Derrubei o Sanches; consegui a revogação da disciplina das espadas; reconquistei a benevolencia de Manlio; levantei a cerviz! Desembaraçado do arbitrio pretencioso de um vigilante, o trabalho agradou-me. Um conselho de casa affirmou-me que havia a nobre opinião de Aristarcho e a opinião ainda melhor da cartilha, mas havia uma terceira--a rainha propria, que se não era tão boa, tão abalisada como as outras, tinha a vantagem alta da originalidade. Com uma palavra fez-se um anarchista.
D'ahi por diante era fatal o condicio entre a independencia e a autoridade. Aristarcho tinha de roer. Em compensação, adeus esperanças de ser um dia vigilante! principalmente: adeus indolencia feliz dos tempos beatos!