O Assassino de Macario: Comedia em tres actos
Chapter 5
Não: com seu pae e com o defunto Macario.
ITELVINA
Acha que é de bom gosto fazer-me troça?
LIBORIO
Pois não me disse ainda ha pouco que o amava?
ITELVINA
O senhor não me acreditou. Conhece-me bastante para saber que eu não sou mulher que ame quem a ultraja... Quer beber? (_deita-lhe vinho no copo_) Beba, ande. Ora vá!...
LIBORIO
(_erguendo-se_) Muito obrigado (_Vae pegar do seu copo de sobre a jardineira e bebe_).
SCENA XII
Os mesmos e Sebastiana
SEBASTIANA
(_entrando pelo fundo com um prato_) Fil-a esperar, minha senhora: mas a causa foi o senhor que me mandou buscar um trem (_a Liborio:_) Já lá está.
LIBORIO
(_pousando o copo_) Ah! bem! (_saudando_) Minha senhora!
ITELVINA
(_a meia voz_) Deante da creada, não. (_alto_) Sáe, Sebastiana.
SEBASTIANA
(_pondo o prato sobre a jardineira_) Sim, minha senhora. (_Sahe pelo fundo levantando a terrina e os pratos servidos_).
LIBORIO
Agora, se me dá licença... (_faz mensão de sahir_).
ITELVINA
Peço-lhe que se demore um momento... O meu fim não é fazer a tal scena das pazes, descance. Mas, como não nos veremos mais é necessaria a ultima explicação.
LIBORIO
De que serve isso?
ITELVINA
De mais a mais, sobra-lhe tempo para jantar aqui ou na estação. (_Servindo-o_) Quer uma aza de perdigoto?
LIBORIO
O certo é que as emoçoens tem-me extenuado... Tomarei um pãosito; mas deixemo-nos de explicações, se faz favor... (_Pega d'um prato e pão e vae sentar-se á sua meza, a comer_).
ITELVINA
(_passados instantes_) Confesso que fui violenta, arrebatada; mas o senhor julga-se innocente?
LIBORIO
De modo nenhum. Eu pratiquei o enorme e condemnavel crime de me apresentar á senhora em fórma de carta a participar um enterro. Confesso, contrito, a culpa. Se me levassem a uma policia correccional e o juiz me perguntasse: «O snr. Liborio é réo?» Eu respondia: «Sou réo, snr. juiz!»
ITELVINA
O senhor prestou-se a uma ridicula mistificação, uma fraude ultrajante, odiosa, só com o fim de dilacerar uma mulher.
LIBORIO
Não foi isso.
ITELVINA
Então que foi?
LIBORIO
O caso é este. Macario tinha-me dito o diabo a quatro da senhora. Ora eu tenho cá para mim que quanto mais mal se diz de uma mulher, mais se deseja ser amado d'ella. A alma do homem é assim formada de estupidez e capricho...
ITELVINA
Huum! (_Depois de um curto silencio_) Quer beber? (_Enche o copo_).
LIBORIO
(_erguendo-se_) Agradeço (_vae á jardineira_) Muito obrigado, querida senhora! (_Bebe e torna a ir sentar-se, levando o copo_).
ITELVINA
(_tendo bebido_) Sempre o senhor me collocou n'uma situação bem exquisita! Eu julgava-o o assassino de Macario; e, n'esta persuasão, o meu dever qual era? que me cumpria fazer?
LIBORIO
Mandar chamar o chefe da policia.
ITELVINA
Eu conheco lá policias...
LIBORIO
Em vez d'isso, pensou lá comsigo: «Como é um scelerado, cazo com elle. Se o mettesse na Relação, elle poderia fugir vestido de mulher; mas, cazando com elle, é o mesmo que pôl-o na Penitenciaria, d'onde não se foge facilmente.
ITELVINA
(_erguendo-se e vindo ao meio_) E isso é tão verdade que o senhor gosa a liberdade de retirar-se quando quizer.
LIBORIO
Mas pergunto eu: tenho liberdade para offerecer a outra o nome que lhe dei? Posso mentir, enganar... e mais nada. Com toda a certeza, heide esquecêl-a; mas hade levar tempo... Não me fingo mais forte do que sou... Esta manhan ainda eu a amava... Como os homens são, senhora!... As mulheres, ás vezes, agradam pelos seus defeitos... e a senhora estava na conta. A senhora chorava de raiva; e eu ao deixal-a, chorava imbecilmente de saudade... d'amor! (_Ergue se_) Estupida confissão, mas verdadeira!... (_Passa á esquerda_) Ah! Como os homens são bêstas! Graças vos sejam dadas, Senhor! Isto acabou-se! (_Itelvina, sem lhe responder, corre á janella que abre_).
ITELVINA
(_atirando dinheiro á rua_) Cocheiro, ahi tem 10 tostoens; vá-se embora.
LIBORIO
Como é isso? elle é o meu cocheiro.
ITELVINA
Liborio! eu amo-te!
LIBORIO
Como?
ITELVINA
Tu não te vaes embora!
LIBORIO
Não vou?...
ITELVINA
Peço-te perdão, peço-t'o de joelhos! (_ajoelha_).
LIBORIO
(_ajoelhando-se tambem_) Tu... de joelhos!
ITELVINA
Confesso que fui injusta.
LIBORIO
Sim... a fallar verdade... mas não...
ITELVINA
Perdôa-me!
LIBORIO
Perdôo... E o pé torcido? Destorceu-se?
ITELVINA
Estou boa de todo.
LIBORIO
Minha esposa!
ITELVINA
Meu marido! (_abraçam-se sem se levantarem_).
SCENA XIII
Liborio, Itelvina, Barnabé e Sebastiana
BARNABÉ
(_entra pelo fundo e recúa_) Elles lá se estão a trincar um ao outro!
LIBORIO
(_erguendo-se_) Está enganado... não nos trincamos.
ITELVINA
(_o mesmo_) Meu pae, eu adoro o meu marido!
BARNABÉ
Ora ainda bem!
LIBORIO
Aqui entre nós, eu creio que ella está de todo _desméxicada_.
BARNABÉ
Antes isso, meus filhos, antes isso... Eu vinha annunciar-lhes que me installei definitivamente no Candal.
SEBASTIANA
(_a Liborio_) Meu senhor, a sege foi-se embora. Quer que se chame outra?
LIBORIO
Só se fôr para meu sogro que se muda, acho eu...
BARNABÉ
Effectivamente mudo para sermos todos felizes de uma assentada. Gosto do Candal. Tenho lá para me entreter o castello do rei mouro, os armazens de Villa Nova. Nos armazens... oh! isso lá é que ha fontes sem ser moiras; fontes christans... christans talvez de mais, por serem muito baptisadas... E depois a serra do Pilar, logares historicos, etc. Vocês cá ficam muito felizes...
ITELVINA
Sim, meu pae, muito felizes... (_abraça estremecidamente o marido_).
LIBORIO
(_com ternura_) Então, esta noite, não me penduras a bota nem escondes o chinelo?
ITELVINA
(_com meiguice_) Não.
LIBORIO
Nem torces um pé?
ITELVINA
Tambem não...
BARNABÉ
Bem! Regalem-se por cá. Lua de mel á portugueza... e nada de Mexico...
FIM
End of Project Gutenberg's O Assassino de Macario, by Camilo Castelo Branco