O Assassino de Macario: Comedia em tres actos
Chapter 4
Hein? você chame-me patife? a mim?
LIBORIO
É a minha deshonra que você apregôa!
BARNABÉ
(_desagarrando-se sem poder_) Que diz?
LIBORIO
Você sabia-o e não me gritou: _acautele-se!_
BARNABÉ
Você esgana-me!...
LIBORIO
Mas agora estou convencido... (_sacode-o cada vez mais_).
BARNABÉ
Largue-me! socorro! ó da guarda!
SCENA XIV
Os mesmos e Itelvina (_Itelvina entrando agitadamente pela direita; está em toilette de quem vae a passeio_).
Que é isto? que aconteceu? (_Liborio larga Barnabé, que cahe assentado ao pé da jardineira. Liborio fica um momento immovel entre o sogro e a mulher, olhando-os alternadamente; depois despede um suspiro abafado, e sahe precipitadamente pelo fundo, fazendo um gesto de horror_).
SCENA XV
Barnabé e Itelvina
BARNABÉ
(_assentado_) Uf! (_bufando_)
ITELVINA
O pae que tem! parece que está sobresaltado!
BARNABÉ
Sim... com certeza... eu não me sinto bastante bem. (_respira fortemente_).
ITELVINA
Mas que aconteceu?
BARNABÉ
(_erguendo-se_) Aconteceu... mas não, as explicações são inuteis... Vou deixar esta caverna...
ITELVINA
Mas emfim... que lhe disse o meu marido? onde foi elle?
BARNABÉ
Não sei nem me importa... Cá te avêm sem mim... Lavem cá a sua roupa suja como poderem, que eu tenciono ser estranho a esta barrela. Boas tardes. (_Vae para sahir_).
ITELVINA
Mas... meu pae! venha cá...
BARNABÉ
Convence-te de que me vou embora (_sobe_).
ITELVINA
(_tolhendo-lhe o passo_) Ao menos diga-me...
BARNABÉ
Não digo... deixa-me!
ITELVINA
Não hade sahir!
BARNABÉ
Impedir-me! (_indo para ella_) Minha filha!
ITELVINA
Não sahe antes de me dizer...
BARNABÉ
Tudo o que eu tenho no coração? Vaes ser satisfeita! Tu, a meu pezar, envolves-me nas tuas combinaçoens ferozes! Pois bem... Tambem eu vou torturar-te... e desde já fica sabendo uma pequena coisa que te vae dar grande prazer! Macario existe! Macario vive!
ITELVINA
Macario!
BARNABÉ
Nunca se bateu... não era tão bêsta, como isso... É um maltrapilho, mas é velhaco... Elle logo conjecturou a linda mulhersinha que tu serias... e disse lá com os seus botões: «Não quero contas com a mexicana» e pediu a este bajojo do Liborio que viesse annunciar-te a sua morte, e este parvoeirão foi tão asno... que...
ITELVINA
O pae está blasphemando...
BARNABÉ
Que é blasphemar?
ITELVINA
Macario vivo!... Macario auctor de tal perfidia!... não, não, é impossivel!
BARNABÉ
Com que então impossivel! E, se eu te disser, que elle, bem contente por não entrar n'este langará, se consola em uma mancebia...
ITELVINA
Mancebia?
BARNABÉ
Sim... com uma creaturinha, de pouco mais ou menos, rua de Miragaya n.º 1071, lado direito.
ITELVINA
Rua de Miragaya n.º 1071, lado direito...(_Passa para a esquerda_).
BARNABÉ
Mudou de freguezia; mas não de costumes... O fedor dos escandalos de Miragaya não passa da Cordoaria, e confunde-se com as flôres do jardim e do peixe do barracão...
ITELVINA
Oh! isso seria horrivel! horrivel! (_Liborio entra pelo fundo_).
SCENA XVI
Os mesmos e Liborio
LIBORIO
(_com o porte-monnaie na mão_) Minha senhora, eu tinha aqui 12$000 réis. Foi a senhora que lhe deitou o gatazio?
ITELVINA
Logo o saberá quando eu voltar (_Sahe_).
LIBORIO
Onde vae você?
ITELVINA
Rua de Miragaya n.º 1071. (_Sahe precipitadamente pelo fundo_).
LIBORIO
Que é? Rua de Miragaya n.º 1071! Quem lh'o diria? (_A Barnabé_) Foi o senhor... Rua de Miragaya, é lá effectivamente (_Ouve-se fechar á chave a porta do fundo_) Ella fecha-nos! e vae a casa d'elle! a casa d'elle! (_Indo á porta da direita_) Por esta porta... (_Ouve-se o rodar da chave que a fecha_) Fechada! fechada tambem! (_correndo á chaminé_) Sebastiana! (_pucha pelo cordão da campainha_) Não ha campainha! está quebrada a campainha!
BARNABÉ
E o Braga que me está esperando para assignar a escriptura!
LIBORIO
Eis-me encarcerado!
BARNABÉ
E eu!
LIBORIO
(_fóra de si, ameaçando Barnabé_) Ah! seu biltre! foi você a causa de tudo isto! (_Atira-se a Barnabé, que procura fugir-lhe, aos encontroens aos trastes. Liborio persegue-o vivamente. Cahe o panno, quando Barnabé está apitando_).
FIM DO ACTO SEGUNDO
ACTO TERCEIRO
A mesma decoração.--Grande desarranjo.--Os moveis tombados, um colchão está meio cahido para fóra do leito.
SCENA I
Liborio e Barnabé (_ao levantar do pano, Barnabé está sentado no colchão, e Liborio, á direita sobre uma cadeira de braços, cahida. Depois de instantes de silencio, Liborio levanta-se e vae á janella_).
LIBORIO
(_examinando a rua_) Nada, não vejo vir ninguem. Que horas são, snr. Barnabé?
BARNABÉ
Outra vez... Depois do nosso combate... singular, já me perguntou isso trez vezes.
LIBORIO
A quem heide eu perguntal-o? ao meu relogio? á minha pendula? Tudo aqui está desmanchado (_á parte_) como a cabeça de minha mulher (_Levanta a cadeira_).
BARNABÉ
Ha cinco minutos que eu lhe disse que eram 3 e 25; agora, por consequencia, são trez e meia.
LIBORIO
(_passeando com grandes passos_) Ella sahiu ás duas horas... (_dirige-se a Barnabé_) Como explica o senhor isto? Auzente á hora e meia! (_Arruma os trastes_).
BARNABÉ
Não que d'aqui de Malmerendas a Miragaya são dois kilometros. Dê-lhe tempo...
LIBORIO
Que lh'o dê? Ella toma o que quer! Fechar o pae e o marido para ir...
BARNABÉ
Minha filha é incapaz de tal...
LIBORIO
É capaz de tudo: é Mexicana, e basta.
BARNABÉ
Não o contrarío, para você não pegar de novo comigo. (_Levanta-se e põe o colchão sobre o leito_).
LIBORIO
Ah! o senhor tem magnificas ideias! Que eu era pae! Esta só pelo diabo! eu podia lá ser pae, homem!
BARNABÉ
E eu podia lá imaginar que o senhor depois de casado?... Emfim, o que eu lhe disse era para o applacar...
LIBORIO
E para applacar minha mulher disse-lhe que o Macario era vivo. Foi isso?
BARNABÉ
Está claro; as minhas intençoens fôram sempre boas... eu não tive culpa, se o senhor é um marido... distincto.
LIBORIO
Que horas são?
BARNABÉ
(_tirando o relogio pacientemente_) Trez e trinta e dous minutos. Outra vez. O melhor é ficar com o relogio na mão, (_fica assobiando_) até o senhor acertar o seu.
LIBORIO
O senhor assobia?
BARNABÉ
Então o senhor quer que eu chore? Deixe-me assobiar, homem! Ha paixoens d'alma que não desafogam se não pelo assobio... situaçoens crueis em que um homem sente a necessidade de estar sempre não só a assobiar, mas até a apitar.
LIBORIO
Tem rasão. Quando se possue uma filha como a sua, e uma esposa como a minha, todas as manifestaçoens do assobio e do apito são permittidas. (_Barnabé continua a assobiar_) Tem rasão. Assobie á sua vontade... use de todos os instrumentos de sôpro... Desabafe, snr. Barnabé, que eu faço o mesmo. (_Assobia tambem. Ouve-se ruido de passos_). _Sio..._ escute...
BARNABÉ
Será?... (_rumor na fechadura_).
LIBORIO
É ella!
BARNABÉ
Prudencia, snr. Liborio, prudencia...
LIBORIO
(_sentando-se n'uma cadeira á esquerda, e pegando de um jornal de sobre o fogão_) É ella... (_atira os pés para cima de uma cadeira_).
BARNABÉ
(_á parte_) Elles vão-se agatanhar!... se eu podesse tingar-me...
SCENA II
Os mesmos e Itelvina (_Abre-se a porta do fundo precipitadamente. Itelvina entra muito agitada, fita o pae e o marido, tira o chaile e o chapeu que atira sobre a cama; depois, desce, torna a fitar o marido e o pae, e diz a Barnabé_):
ITELVINA
Meu pae! deixe-nos sós. (_Barnabé, sem responder, safa-se apressadamente pelo fundo_).
SCENA III
Liborio e Itelvina (_Itelvina está momentos sem fallar, olhando para o marido que a não encara; depois faz um gesto de impaciencia e diz:_)
ITELVINA
Vi Macario. Não estava só... Estava com uma creatura com um penteado de estardalhaço, muito estapafurdio. Iam sentar-se á meza... e eu puxei pela toalha e quebrei tudo... (_Movimento de Liborio, que logo se riprime, e retoma a sua apparente tranquilidade_). Levantaram-se ambos e avançavam para mim; eu fiquei de braços cruzados, serena, immovel, encarando-os assim! Depois affastei-me lentamente, sem dar palavra, e sahi! (_Silencio. Itelvina dá uns grandes passos_) Ah! o que são os homens! o que são os homens! (_Torna para o marido_) Por que é que o senhor me annunciou a morte d'elle? (_Silencio_) Eu sei-o, disse-m'o meu pae... foi elle, esse miseravel que assim o quiz, não foi? O infame Macario escarneceu o meu amor, ludibriou a minha angustia! Ah! é incomprehensivel! é execravel! (_Pega da cadeira em que o marido tem os pés e senta-se ao lado d'elle_) Como é que nós havemos de matar Macario?
LIBORIO
(_agitado, erguendo-se_) Que diz?
ITELVINA
(_fazendo-o sentar-se_) Ambos nós andamos mal, Liborio. Eu cuidei que tu o matáras... Não se falle mais no passado... acabou-se... Agora, unamo-nos para a vingança... Como é que se hade assassinar Macario?
LIBORIO
(_erguendo-se_) A senhora terá o diabo no corpo?
ITELVINA
Se estivessemos na minha patria, eu não o consultava; mas aqui, os homens que fizeram as leis, reservam para si o monopolio da vingança, e a honra de uma mulher nada importa, se não implica com a honra do homem. Pois então, snr. Liborio, visto que me esposou, a minha honra é a sua. Um pulha, um sacripanta escarneceu sua mulher... cumpre-lhe evitar que elle o escarneça tambem a si... (_com ternura_) Mata-o! filho! mata-o!
LIBORIO
(_á parte_) Arreda! estou em braza!
ITELVINA
(_formalisada_) Dar-se-ha caso que o senhor, escravo de vãos prejuizos, não queira attentar contra a vida d'elle sem expor a sua? Se é isso, esteja descançado. Se Macario o matar, eu não lhe sobreviverei, nem elle, por que morrerá ás minhas mãos; matal-o-ei, matal-o-ei, e depois lá nos veremos... no ceu! (_Apontando-lhe para o ceu, bate-lhe com a outra mão no hombro_).
LIBORIO
A senhora com toda a certeza está doida!
ITELVINA
Doida?
LIBORIO
Então a senhora quer que eu vendime o Macario por que elle não quiz cazar comsigo... Tomára eu obrigal-o a cazar...
ITELVINA
Senhor! veja lá o que diz!
LIBORIO
Olhe, menina; isso que a senhora me propõe já Hermione o propoz a Orestes em uma tragedia de Racine, e sabe o que fez a canalha da Hermione, depois que o parvo do Orestes matou Pyrrho? Poz-se a chorar por Pyrrho, e mandou o Orestes á fava. Aqui tem a gratidão das mulheres...
ITELVINA
Por tanto, recuza?
LIBORIO
Redondissimamente. (_á parte_) Isto é que é o _chic_ da patifaria!
ITELVINA
Bem! Eu pedia-lhe a cabeça de Macario para salvar a sua... Você não quer? não quer? não se falla mais n'isso.
LIBORIO
Isso que quer dizer... explique-se!
ITELVINA
Macario recuou deante dos laços indissoluveis; mas amava-me, estou certa d'isso, e eu... ainda o amo.
LIBORIO
(_levantando os dois braços_) Que diabo!
ITELVINA
E visto que o senhor desculpa o proceder passado de Macario, terá de desculpar tambem o futuro...
LIBORIO
(_agarrando-a pelos braços_) Mulher!... Ah! tu pensavas que...
ITELVINA
Largue-me!
LIBORIO
Amas Macario?
ITELVINA
Você magoa-me!
LIBORIO
Os indigenas do Mexico que é o que fazem ás mulheres que se parecem comtigo?
ITELVINA
O senhor está-me a quebrar os braços...
LIBORIO
Póde ser; por que em Portugal, nós os homens, ao lado da lei, tambem temos a força.
ITELVINA
Isso é uma covardia!
LIBORIO
Não sei se é; mas eu, se houvesse de matar alguem, não mataria o Macario...
ITELVINA
Ai! (_Cahe de joelhos_).
LIBORIO
Olhe bem para mim, senhora! (_Ella quer morder-lhe a mão_) e não môrda! Se cuidou que cazava com um cordeirinho, mude de opinião a meu respeito. Este homem que se chama Liborio, nascido no Porto, no Poço das Patas n.º 610, é de per si só mais feroz que todos os leopardos do Mexico... Não môrda, ouviu?
ITELVINA
Ai!
LIBORIO
Por emquanto, deixo-a viver; mas tenha juizo, muito juizo, ou dou-lhe a minha palavra de honra que não tardarei a passar a segundas nupcias! (_Deixa-a_).
ITELVINA
(_conserva-se um instante immovel, como humilhada de sua fraqueza; relança á volta de si olhos furiosos, depois levanta-se de um pulo, exclamando:_) Ah! a faca de mato! (_Corre para o gabinete da toillete_).
LIBORIO
Bem sei... (_Vae atraz d'ella, e fecha-lhe a porta por fóra logo que ella entra_).
ITELVINA
(_fechada_) Abra, abra a porta!
LIBORIO
(_pegando do chapeo_) Medite, senhora, que eu passados tres dias, volto cá. (_Sahe pelo fundo_).
ITELVINA
(_batendo na porta_) É infame, é abominavel! Snr. Liborio! Olhe que quebro a porta. (_Pancadas cada vez mais fortes_) Abra-me a porta; peço-lhe que me abra a porta por quem é! Oh! que vil, que indigno procedimento!
SCENA IV
Itelvina (_fechada_) e Barnabé
BARNABÉ
(_entrando pelo fundo_) Ora aqui está! Em quanto eu estive aqui fechado, o Braga vendeu a casa da Carriça... Tenho de procurar outra... (_Itelvina bate á porta do gabinete. Barnabé que está perto, recua assustado_) Que diabo é isto?
ITELVINA
Abra-me a porta!
BARNABÉ
A minha filha fechada! (_alto_) Tu que fazes ahi?
ITELVINA
Abra, meu pae, abra!
BARNABÉ
Mas como foi isto? (_Vae para abrir_).
ITELVINA
Foi meu marido... Abra que eu lhe contarei.
BARNABÉ
(_retirando-se_) Teu marido!... diabo! diabo! isso é mais serio...
ITELVINA
Então, abre?
BARNABÉ
Minha filha, um sôgro não deve intervir entre marido e mulher.
ITELVINA
Então não abre?
BARNABÉ
Procedo como fino politico... Mantenho-me na neutralidade, na não intervenção.
ITELVINA
Mas eu suffoco!... (_Grando tropel dentro_).
BARNABÉ
Não suffocas, não... Isso passa!... (_á parte_) Ella arromba o sobrado!... (_Sahe_).
ITELVINA
(_batendo sempre_) Meu pae! meu pae! Foi-se?... Socorram-me! Acudam-me!
SCENA V
Sebastiana e Itelvina (_Sebastiana entra pela direita, trazendo pratos, talheres, pães e guardanapos_)
SEBASTIANA
A voz da senhora no gabinete de vestir... (_Pousa o que traz sobre o marmore do fogão_). É a senhora?
ITELVINA
Abre, Sebastiana, abre a porta.
SEBASTIANA
Ahi vou, ahi vou. (_Abrindo_) Que foi isto?
ITELVINA
Péga! (_Dá uma bofetada em Sebastiana_).
SEBASTIANA
Ah! a senhora bate-me?
ITELVINA
(_percorrendo o theatro furiosa_) Ó raiva! ó furor!
SEBASTIANA
Se eu soubesse que estava fechada...
ITELVINA
Perdôa-me, perdôa-me, Sebastiana... É a colera, são os nervos... (_Dá-lhe dinheiro_) Pega lá, guarda...
SEBASTIANA
Obrigado, minha senhora! (_á parte_) Ella é muito boasinha! (_Põe a meza na jardineira_).
ITELVINA
(_cahindo n'uma cadeira á direita_) Tudo que me succede é incrivel! é estupido! Este homem que eu julgava um choninhas, um maricas, um fracalhão, agarrou-me, e prostrou-me supplicante! Elle furioso, parecia-me até bonito! (_Voltando-se para Sebastiana que põe a meza_) Que estás a fazer?
SEBASTIANA
Ponho a meza, senhora.
ITELVINA
Aqui?!
SEBASTIANA
A senhora esqueceu-se das ordens que me deu esta manhan?
ITELVINA
Ah! sim, sim, esta manhan... então ainda eu me preoccupava com pieguices... Mas agora... (_Ouve-se a campainha_) Tocaram.
SEBASTIANA
Vou vêr. (_Sahe pelo fundo_).
ITELVINA
(_só_) Não póde ser meu pae nem meu marido... elles não tocavam. Se fôsse elle... ah! talvez seja... Macario! Quem sabe se a minha presença, despertando-lhe lembranças, acordou a sua paixão... Ah! se fôsse elle, se fôsse elle...
SEBASTIANA
(_entrando pelo fundo. Traz uma garrafa, copos e um papel_) Senhora, é um homem, enviado pelo snr. Macario, com este papel.
ITELVINA
(_pegando no papel com anciedade_) D'elle? dá cá, dá cá. (_Passa para a direita, em quanto Sebastiana põe a garrafa e os copos sobre o gueridon. Á parte_) Ah! não me enganei! Elle ama-me!... Triumpho, em fim!
SEBASTIANA
(_á parte_) Ella que terá?
ITELVINA
(_lendo_) «Anno do Nascimento de... 1885, aos 24 dias de... a requerimento...» Hein? papel sellado! (_lendo_) «A requerimento do snr. Macario dos Anjos, eu, official de justiça abaixo assignado, citei a snr.ª D. Itelvina Barnabé para pagar a quantia de 64$460 réis de porcellanas e crystaes quebrados, etc. etc. etc.» Ah!... (_Cahe em uma cadeira á direita e fica silenciosa_).
SEBASTIANA
(_que tem continuado a pôr a meza, corre para ella_) Ai! meu Deus! a senhora achou-se mal?
SCENA VI
Os mesmos e Barnabé
BARNABÉ
(_entrando cautamente pelo fundo e vendo Sebastiana que encobre a senhora_) Sebastiana! A senhora ainda está no gabinete?
ITELVINA
(_indo para o pae_) Meu pae!
BARNABÉ
(_querendo safar-se_) Olha!...
ITELVINA
Venha cá!...
BARNABÉ
Eu volto logo.
ITELVINA
Fique, meu pae. Vae-te embora, Sebastiana.
SEBASTIANA
Sim, minha senhora. (_Sahe pelo fundo_).
BARNABÉ
Vou-te contar... Descobri outra quinta no Candal.
ITELVINA
Meu pae, eu volto para o Mexico.
BARNABÉ
Com teu homem?
ITELVINA
Já não tenho homem.
BARNABÉ
Não tens homem? Então Liborio o que é? Parece que tens razão... Elle para homem parece-me muito atrazado... Tu lá sabes...
ITELVINA
Fujo de Portugal, das suas leis, do seu codigo, dos seus costumes (_ironicamente_) e da sua justiça...
BARNABÉ
Mas, desgraçada, tu vaes encontrar a mesma coisa no Mexico.
ITELVINA
No Mexico?
BARNABÉ
Portugal não tarda a lá chegar com a sua influencia, com os seus jornaes...
ITELVINA
Irei para a China.
BARNABÉ
Não sabes que Portugal está em Macáo! Basta lá estar o Camoens na gruta.
ITELVINA
Vou para o Japão.
BARNABÉ
Estão lá missionarios portuguezes... os jesuitas que tem um olho muito fino...
ITELVINA
Irei para uma ilha deserta. (_Passa para a esquerda_).
BARNABÉ
Ah! sim! se achares uma... Ilhas desertas são hoje rarissimas... Não se apanha meia...
ITELVINA
O pae vae comigo?
BARNABÉ
Eu!
ITELVINA
É indispensavel...
BARNABÉ
Nunca! Pede-me o que quizeres; mas viver só comtigo, isso, nunca!
ITELVINA
Não importa. Vou sosinha. (_Repassa para a direita_).
BARNABÉ
Filha!... juisinho, filha.
ITELVINA
Eu já não tenho pae... nem marido... nem familia. Parto! adeus! (_sahe pela porta da direita_).
BARNABÉ
(_vendo-a sahir, depois diz tranquillamente_) Fallaram-me d'uma casinha no Candal, e, se não fôr humida, tem muitas commodidades. Fiquei de me encontrar com o agente ás cinco horas, e...
SCENA VII
Barnabé e Liborio
LIBORIO
(_entrando pelo fundo, sem vêr Barnabé, e olhando para a porta do gabinete que está aberta_) Ah! já a soltaram! Sim... definitivamente é a melhor resolução... (_Vendo Barnabé_) Olá! o senhor!
BARNABÉ
Eu ia sahir.
LIBORIO
Eu tambem parto.
BARNABÉ
E para onde vae?
LIBORIO
Isso é que eu não sei; sei que vou para muito longe. (_Passa á esquerda_).
BARNABÉ
Muito longe?
LIBORIO
Se vir sua filha, diga-lhe que morri.
BARNABÉ
(_tranquillamente_) Está bem; direi.
LIBORIO
Diga-lhe que me matou Macario--dê-lhe esse regalão.
BARNABÉ
Está dito. Vá descançado.
LIBORIO
Vou arranjar a mala. (_Entra no gabinete_).
BARNABÉ
(_vê-o sahir e ata o seu monogolo_) É no Candal, suburbios de Villa Nova de Gaya; visitarei os armazens. Gaya dizem que tem um castello feito por um rei Mouro, e uma fonte celebre com uma agua muito fina, que seria a melhor bebida do mundo, se não estivessem ali perto as garrafeiras de 1815. Logo ali ao pé está o convento da serra, um logar historico... É um bello arranjo... com repuxo. (_Desapparece pelo fundo--A scena fica vasia_).
SCENA VIII
Liborio e Itelvina
ITELVINA
(_entrando pela direita com uma malêta_) Creio que deixei aqui o meu chaile e o meu chapeu (_Põe a malêta sobre a meza_).
LIBORIO
(_sahindo do gabinete com a mala_) Onde diabo deixei eu a minha _Guia de viajantes_?
ITELVINA
(_achando o chaile e o chapeo sobre a cama_) Cá estão.
LIBORIO
(_achando a Guia_) Ella aqui está.
ITELVINA
(_parando junto d'elle_) Ah!... o senhor...
LIBORIO
(_surprehendido_) Ólé!... a senhora.
ITELVINA
Você parte?
LIBORIO
Parto.
ITELVINA
É boa! temos a mesma ideia!
LIBORIO
Tambem vae?
ITELVINA
Sim senhor... As ideas encontram-se.
LIBORIO
Muito bem; mas, embora se encontrem as ideas, é necessario que nós nos desencontremos. Para onde vae?
ITELVINA
Para onde o senhor não fôr.
LIBORIO
Temos o mesmo itinerario. (_Assenta-se perto da jardineira, tendo a mala sobre os joelhos cujas correias afivela, depois de lá ter mettido pequenos objectos que tirou do marmore do fogão_).
ITELVINA
Eu vou para o sul.
LIBORIO
Paizes quentes... vae muito bem. N'esse cazo, tomarei o caminho de ferro do norte.
ITELVINA
Ás mil maravilhas.
LIBORIO
Ora olhe... (_consulta o Guia_) Segue para Lisboa?
ITELVINA
Sigo no expresso.
LIBORIO
Ás 7 da tarde.
ITELVINA
Tão tarde!
LIBORIO
Vejamos a linha do norte. Quatro e quarenta e cinco... que zanga!
ITELVINA
D'aqui até lá, que se hade fazer?
LIBORIO
Uma ideia que o estomago me inspira. Estou em jejum. Jantarei antes de partir.
ITELVINA
Na estação de Campanhã? Pois vá!... Eu faço o mesmo.
LIBORIO
(_a sahir com a mala_) Adeusinho, e estimo que coma com bom appetite.
ITELVINA
Da mesma sorte. (_Vão ambos a sahir pela porta do fundo, e param, cedendo a passagem um ao outro cortezmente_). Faz favor.
LIBORIO
Queira passar, minha senhora...
SCENA IX
Os mesmos e Sebastiana
SEBASTIANA
Aqui está a sopa. (_Passa por deante de Liborio e colloca a terrina sobre o gueridon_).
LIBORIO
A sopa!... Como cheira bem!
SEBASTIANA
Está uma delicia, meu senhor! (_sahe pelo fundo_).
ITELVINA
(_á parte_) Uma senhora sosinha n'um restaurante...
LIBORIO
(_aproximando-se da meza_) Que aromatica!...
ITELVINA
(_á parte_) O que eu devo fazer é deixar-me estar (_Depõe a malêta, o chaile e o chapeo_).
LIBORIO
(_largando a mala_) Se eu tomasse um caldo...
ITELVINA
(_indo á jardineira, e achando Liborio a destapar a terrina_) Então sempre se resolve?...
LIBORIO
Ah!... é que eu... como o outro que diz...
ITELVINA
Sim... eu tambem reflecti que jantar sosinha n'um restaurante... Repara-se, não é verdade?
LIBORIO
(_pegando da mala e passando para a direita_) Tem razão e eu cedo-lhe a sopa.
ITELVINA
Então o senhor... não come!
LIBORIO
Boa viagem. (_sahe pelo fundo_).
SCENA X
ITELVINA
(_só, parece muito agitada, e observa se Liborio não volta_) O tempo deve estar entroviscado... Cá o sinto nos nervos! (_Senta-se á esquerda da jardineira, e serve-se da sopa atabalhoadamente; come em silencio_) Esta sopa é detestavel! e depois não tenho appetite nenhum! (_Arremessa a colher_) Que é o que eu vou fazer a Lisboa? É uma tolice. Viajar, para quê? Lisboa já eu conheço... Se eu fôsse para o norte... (_Erguendo-se raivosa contra si_) Oh! Itelvina! tu és incrivel!... fazes coisas!... Eu fui muito injusta... porque elle amava-me... Meu pae foi o causador de tudo... Para que lhe disse elle... «Fez bem em matar Macario»? Oh! com certeza, teria elle feito uma boa acção, e a minha maior injustiça foi eu querer castigal-o por isso... Papel sellado!... que patife!...
LIBORIO
(_fóra_) Vae ahi á Batalha chamar o trem, depressa.
ITELVINA
É a voz d'elle!... tornou!...
SCENA XI
Itelvina e Liborio
LIBORIO
(_entrando pelo fundo_) Queira perdoar, minha senhora! Chove a cantaros; hade consentir que eu espere o trem que mandei buscar.
ITELVINA
Póde esperar, e como está em jejum, e a sopa está excellente... se quer...
LIBORIO
A sopa cheira bem... muito bem... Isso é verdade.
ITELVINA
Se não receia que o envenene...
LIBORIO
Oh!... (_reconsiderando_) Em fim... (_jovialmente_) visto que a senhora tambem come...
ITELVINA
Então sente-se.
LIBORIO
Pois sim... Nada, não quero... Tenho visto muitas comedias em que esposos zangados commettiam a imprudencia de comer juntos, e á sobremeza tinham a desgraça de fazer as pazes... Eu não quero que a senhora se persuada...
ITELVINA
Sem cerimonia... Não quer?
LIBORIO
Não duvido... mas peço licença para comer a minha sopa, longe, acolá, sobre aquella meza (_Leva para a meza da direita o seu talher e prato; á parte_) Antes quero isto.
ITELVINA
Á sua vontade... talvez estivesse mais seguro no páteo.
LIBORIO
Isso não, porque o vento me sacudiria a chuva sobre o prato. (_come_).
ITELVINA
(_comendo tambem_) Que triste tempo para viajar!...
LIBORIO
Não tanto assim... Em primeira classe vae-se agasalhado... Mas pergunto eu: a senhora por que vae?
ITELVINA
Porque não quero estar no Porto.
LIBORIO
Mas, visto que eu me retiro, a senhora fique.
ITELVINA
Sosinha?
LIBORIO