O Assassino de Macario: Comedia em tres actos
Chapter 3
É que o senhor não se lembra do que fez. Uma noite, meu primo, entrou pelo meu quarto dentro, e abraçou-me; e eu como sabia que é um perigo acordar os somnambulos, nada lhe disse, e elle ao outro dia não se lembrava de nada.
LIBORIO
É lá possivel que fôsse eu!...
BARNABÉ
Então quem havia de ser?
LIBORIO
É assim... é--está tudo bem explicado... mas será dificil fazer-me crer que eu a dormir rompesse os meus charutos, que deitasse pimenta no meu bonnet e cozesse os meus lenços.
BARNABÉ
Aqui estou eu que fui somnambulo quando era pequeno, e escrevia os traslados a dormir...
LIBORIO
(_á parte_) Estou inquieto... (_Alto_) Meu sôgro, e tambem tu, Sebastiana, peço-lhes que não digam nada do acontecido a minha mulher.
SEBASTIANA
Eu cá por mim...
BARNABÉ
Fique na certeza...
LIBORIO
(_scismando_) De mais a mais, eu não sei cozer... Como é possivel que eu soubesse cozer a dormir?...
SEBASTIANA
Ó meu senhor, o meu primo só sabia abraçar-me quando estava a dormir... Chama-se a isso vista dobrada.
LIBORIO
(_á parte_) Este caso faz-me desconfiar...
SCENA IV
Os mesmos e Itelvina
ITELVINA
(_fóra_) Quem me acode, quem me acode!
BARNABÉ
Minha filha!
SEBASTIANA
Senhora!... (_Todos se dirigem para a porta da direita que se abre para dar passagem a Itelvina que entra em toilette de noute com a perna direita ligada encostando-se á parede_).
ITELVINA
Socorram-me... uma cadeira... amparem-me... (_Liborio e Barnabé pegam em Itelvina em quanto Sebastiana puxa a cadeira para o centro da scena_).
BARNABÉ
Pois tu ergueste-te?
LIBORIO
Então isso como vae? melhorzinha?
ITELVINA
Pelo contrario... cada vez peor.
LIBORIO
Era melhor ter tocado a campainha.
ITELVINA
(_deixando-se cahir no fauteuil_) Ai! devagar, devagar... Sebastiana, um banquinho...
LIBORIO
(_chegando-lh'o_) Aqui está... venha uma almofada... (_Sebastiana traz a travesseirinha que elle colloca sobre o banquinho; depois quer pegar na perna da mulher_) Com licença...
ITELVINA
Não lhe toque... Ai! a menor pressão... (_pondo a perna sobre o banco_) Ai!... como eu estou!... (_Sebastiana tem passado para a direita_).
BARNABÉ
Para que te ergueste tu?
ITELVINA
Eu estava melhor... quiz experimentar... E, depois que me levantei, achei-me tão boa, que pensei poder vir até cá; mas receio bem ter aggravado o mal...
LIBORIO
(_á parte_) Vamos bem!... o casamento está para demora... O meu matrimonio está pendente d'um pé desnocado... Se isto não fôr pé de cantiga, fico toda vida a fazer pé de alferes a minha mulher coixa.
BARNABÉ
(_que tem estado a conversar com a filha_) Fizeste muito mal em te levantares... Eu não posso demorar-me por que tenho de fallar com o José Francisco Braga que me quer ceder a quinta da Carriça... E, como não pude arranjar a de S. Mamede de Infesta, vou-me lá.
ITELVINA
Então o pae quer deixar-nos? Muda de casa?
LIBORIO
Ó meu sôgro!... (_á parte_) Não seria máo...
BARNABÉ
_Sôgro_... precisamente... um sôgro entre uns casados que se adoram, é incommodo... é emprasador...
ITELVINA
Ora...
LIBORIO
Ora... (_á parte_) Diz muito bem...
BARNABÉ
E, n'esse caso, resolvi... com muito pezar... com muita saudade... ir viver sósinho... o que me hade custar muito... na aldeia... É um sacrificio... vou victimar-me á felicidade dos meus filhos... E além d'isso, está no meu gosto... a meditação... divagar solitario no seio da natureza...
ITELVINA
Então não o demoramos, meu pae; mas esperamo'l-o para o almoço.
BARNABÉ
Não será possivel... Tenciono almoçar no botequim... Não gosto de almoçar de garfo; prefiro o meu café com leite, uma torrada, e o _Primeiro de Janeiro_ que é tudo leve.
ITELVINA
Plena liberdade...
BARNABÉ
Liberdade... liberdade...! E, se tu agora peorasses...
ITELVINA
Não... eu sinto-me melhor... Sebastiana ficará ao pé de mim, e se fôr preciso, o Liborio vae chamar o medico.
BARNABÉ
E eu não me demorarei muito tempo... Se o José Francisco lá estiver, antes do meio dia volto a casa... Vou tratar depressa este negocio... Então é verdade que estás melhorsinha?
ITELVINA
Sim... n'este momento quasi que não soffro.
BARNABÉ
Então vou acabar com isto... Meu genro, aqui lh'a entrego...
LIBORIO
Vá descançado, meu sôgro.
BARNABÉ
(_abraçando Itelvina_) Até logo, minha Lili... Vou-me já safando, por que, se fôsses a peor, teria de ficar, e fazia-me desarranjo. (_Sahe pelo fundo_).
LIBORIO
(_acompanhando-o_) Arrange lá os seus negocios e não se apresse...
SCENA V
Itelvina, Sebastiana e Liborio
ITELVINA
(_á parte_) Vou em fim saber o resultado das minhas primeiras picadellas de alfinete.
LIBORIO
(_voltando de bom rosto para junto de sua mulher_) A senhora aqui... na minha alcôva... Que surpreza!
ITELVINA
Ora esta! O senhor traz uma bota e um chinelo?!
LIBORIO
Foi a Sebastiana que...
SEBASTIANA
Eu? E elle a dar-lhe...
LIBORIO
Ou eu... É muito possivel que fôsse eu... Eu tenho padecido tanto depois do nosso casamento... que posso estar doudo... (_Ergue-se_).
ITELVINA
(_á parte_) É possivel que elle se persuada...
SEBASTIANA
(_ao pé do leito_) Ora esta! as cortinas estão rasgadas! quer vêr?
LIBORIO
É isso, é isso; fui eu... Quando me erguia, puxei pelos cortinados, e _zás!_... é preciso chamar o estofador.
ITELVINA
(_á parte_) Está persuadido que foi elle...
LIBORIO
(_á parte_) Ella acredita que eu sou somnambulo!...
SEBASTIANA
(_arrumando_) Este quarto está n'uma felga...
LIBORIO
(_á parte_) A mulher é capaz de ficar... Detestavel creatura!
ITELVINA
(_olhando para a pendula_) São onze horas?
LIBORIO
(_á parte_) Ai! já onze!
SEBASTIANA
Não, minha senhora, só são nove horas... Eu não sei como isto seja! A pendula do senhor adianta-se, e o relogio atraza-se.
LIBORIO
Como será isso? entende-se bem... é muito simples... Sou eu que desmancho tudo... Como heide eu andar direito, se o pé torto de minha mulher não me sáe do espirito?!
ITELVINA
Pobre Liborio! (_á parte_) Elle será tão estupido? (_Alto a Sebastiana, mostrando-lhe os suspensorios que estão no chão_) Sebastiana, levanta isso.
SEBASTIANA
(_erguendo os suspensorios_) O senhor estragou assim os seus suspensorios?
LIBORIO
É verdade, é verdade... Foi de proposito.
ITELVINA
De proposito?
LIBORIO
Encommodavam-me. (_á parte_) A creada já me inoja...
ITELVINA
(_á parte_) Como elle é tão philosopho, dobrarei a doze...
LIBORIO
(_a Sebastiana_) Sebastiana...
SEBASTIANA
Senhor.
LIBORIO
Seria bom tratar do almoço.
SEBASTIANA
Sim, meu senhor; mas, se a senhora precisar de mim?
LIBORIO
Se precisar, chamo-te... Faze um almoço ligeiro, refrigerante. (_Sebastiana tem passado para a direita_).
ITELVINA
Eu tinha dado as ordens; mas, se as não approva...
LIBORIO
Eu? tudo o que a minha esposa quizer é o que eu quero... Sebastiana, vae preparar o almoço que a senhora ordenou.
SEBASTIANA
Sim, meu senhor. (_Sae pelo fundo_).
SCENA VI
Itelvina e Liborio
ITELVINA
Ah! tu queres um _tête-à-tête_... Vamos a isso...
LIBORIO
(_á parte_) Sosinhos! estamos sosinhos! (_com transporte, sentando-se ao lado de Itelvina_) Ah! Itelvina! Minha esposa! querida...
ITELVINA
Que é, meu amigo?
LIBORIO
Desculpa a minha perturbação!... esta emoção!... este primeiro _tête-à-tête_... porque é o primeiro... o primeiro... depois que és minha mulher, e que me pertences, Itelvina!... por que tu és minha, és o meu bem, o meu thesouro, a minha vida...
ITELVINA
Sim, Liborio; somos um do outro, são inseparaveis os nossos destinos... Eu sou sua como o senhor é meu... O senhor póde esquecer isso... eu é que jámais!...
LIBORIO
Esquecer, esquecer, eu! Se tu soubesses as noites tormentosas que eu passo!... o que me custa a adormecer... as reflexões que precedem o meu somno... os sonhos que o acompanham... Queres que eu t'os conte?
ITELVINA
Pois sim, conte lá.
LIBORIO
(_erguendo-se_) Ás vezes, vejo-te sahir d'uma floresta como a Armengarda do Alexandre Herculano das penhas da Covadonga; outras vezes estamos os dois n'um paraizo terreal como Adão e Eva... e eu a apertar-te ao coração (_aproxima-se_) a apertar-te... (_Cinge-a com os braços_).
ITELVINA
(_gritando_) Ai! ai!
LIBORIO
(_recuando_) Tu que tens!
ITELVINA
Ah! que dôres!
LIBORIO
(_á parte_) Diabolico torcegão!...
ITELVINA
Isto passa... não é nada... foi um geito que o senhor me fez dar. (_com a voz natural_) Póde continuar, meu amigo.
LIBORIO
Em que estavamos nós?
ITELVINA
Estavamos no paraiso terreal.
LIBORIO
É verdade, um ao lado do outro.
ITELVINA
O senhor abraçava-me...
LIBORIO
Mas, presentemente, não me atrevo...
ITELVINA
Isso não faz nada ao caso... o abraço era a sonhar...
LIBORIO
Itelvina!
ITELVINA
Liborio!
LIBORIO
O nosso cazamento não é um sonho... pois não?
ITELVINA
Decerto não, meu amigo.
LIBORIO
E todavia...
ITELVINA
E todavia...
LIBORIO
Olha, Itelvina, eu queria que o pé torcido fôsse meu; ainda que tivesse torcidos ambos os pés não deixaria de me lançar nos teus braços... Não ha supplicio comparavel... Ah! Tantalo no meio da agua, debaixo de arvores carregadas de fructos que elle não podia trincar... Eis a minha posição!... a arvore... és tu! Tantalo, sou eu! Tenho fome, e não posso comer... Horrivel!
ITELVINA
Então o senhor padece muito, não é verdade?
LIBORIO
Até ao extremo de me tornar cruel e insensivel ás tuas dôres... Quando ahi te vejo, face a face, não ouço senão a minha paixão e... (_abraça-a_)
ITELVINA
Ai! ai! meu Deus! ai!
LIBORIO
(_erguendo-se_) Não, não, não... nada de novo... mesmo nada... (_á parte_) Tudo como d'antes... Quartel general d'Abrantes...
ITELVINA
Ai que dôres! que dôres lancinantes!
LIBORIO
Se sou o culpado, peço desculpa...
ITELVINA
Ah!... vae passando... adormece... Ah! respiro! (_tom natural_:) Póde continuar, meu amigo.
LIBORIO
Continuar... o quê?
ITELVINA
Isso que me estava contando... que era muito bonito...
LIBORIO
(_á parte_) Ella parece innocente como uma ovelhinha recem-nascida! (_alto_) Minha senhora, se me dá licença, ataremos o fio partido do cavaco quando a senhora estiver san.
ITELVINA
Mas... por quê?
LIBORIO
Porque esta palestra... agita-me... agita-me bastantemente.
ITELVINA
Ah! sim? então fallemos d'outra coisa.
LIBORIO
Sim... de coisas frias... historias da Siberia... Fallemos do Marão, da Serra da Estrella.
ITELVINA
Diga-me cá, não o incommoda andar com uma bota e um chinelo?
LIBORIO
Incommoda-me horrivelmente... e, se me dás licença, calço a outra.
ITELVINA
Se dou licença? ora essa... Póde calçar.
LIBORIO
(_calçando a outra bota_) De mais a mais, este acto não é por nenhuma maneira provocante nem estimulante... até acho que faria bem em me vestir... (_tira a camisola_)
ITELVINA
Vestir-se?
LIBORIO
Sómente vestir um colete e uma rabona (_á parte_) Creio que um marido, sem faltar á decencia... (_Emquanto falla, vae abrir o gabinete da toillete, e recebe na cara o outro chinelo que pendia d'uma guita_) Cá está o outro chinelo!
ITELVINA
Tinha-o perdido?
LIBORIO
Nada, fui eu... Estou no habito de todas as noites...
ITELVINA
Pendurar um dos chinelos no gabinete de _toillete_...
LIBORIO
Sim... isto é... quero dizer... Ordinariamente penduro os chinelos... não, eu ponho-os ambos aos pés da cama; mas aconteceu que pendurei este...
ITELVINA
(_á parte_) É admiravel! nada o espanta! Forte idiota!
LIBORIO
(_á parte, tirando a gravata do gabinete_) É inevitavel que eu seja somnambulo... acabou-se... sou somnambulo.
ITELVINA
É singular coisa! Tenho momentos em que não me doe nada o pé... perfeitamente bôa...
LIBORIO
Esses momentos duram pouco (_Procurando atar a gravata_) Não me ageito!... maldita gravata... estou muito perturbado...
ITELVINA
Quer que o ajude, meu amigo?
LIBORIO
Agradeço, mas receio...
ITELVINA
Venha cá... pois eu não sou sua mulher?
LIBORIO
Ah!
ITELVINA
O senhor diz _ah!_
LIBORIO
Eu cá me intendo... (_Ajoelha aos pés da mulher estendendo-lhe o pescoço e dando-lhe a gravata_) Tu não me percebes... mas eu é que me comprehendo... Mysterios...
ITELVINA
(_sorrindo_) Então tem segredos para mim, Liborio?
LIBORIO
Ah! Itelvina! que gentil, que formosa tu és! (_Itelvina aperta a gravata_) Ai!
ITELVINA
(_ingenuamente_) Que tem?
LIBORIO
É que me afogas!
ITELVINA
É por que o senhor mexe-se.
LIBORIO
Eu mexo-me por que tu me asphixias.
ITELVINA
(_maviosamente_) Esteja assim quietinho... para eu lhe fazer um lindo laço. (_Elle quer abraçal-a_).
ITELVINA
Ah! Deus do céo! que dôr!
LIBORIO
(_erguendo-se_) Não, não... não me lembrou... (_á parte_) Apre! que situação! (_Passa para a esquerda, e vae vestir o collete e a rabona que tira do gabinete_).
ITELVINA
Que dôres! que dôres!
SCENA VII
Os mesmos e Sebastiana
SEBASTIANA
(_entrando pelo fundo_) Está prompto o almoço, senhora. Onde quer a meza?
ITELVINA
Não tenho appetite...
LIBORIO
Nem eu tão pouco, a não ser que... Que ha que almoçar?
SEBASTIANA
Ostras cruas, pasteis de camarão e sallada de lagosta.
LIBORIO
Ui! querem-me incendiar!
ITELVINA
Não gosta do almôço?
LIBORIO
Ha occasiões, menina, ha occasiões... mas, no estado actual, o que eu precisava era limonadas e orchatas.
ITELVINA
Porque não vae almoçar com meu pae ao botequim?
LIBORIO
Pensa que eu a deixava...
ITELVINA
Não tem duvida... vá que eu preciso descançar.
LIBORIO
Tambem eu...
ITELVINA
Cá fica a Sebastiana... Vá e demore-se por lá, que eu preciso dormir.
LIBORIO
(_que passou para a direita_) Pois bem, seja assim; vá dormir, que eu vou tomar um pouco d'ar. (_á parte_) Ah! Itelvina, Itelvina, por que polkaste tu com o tabellião! (_Sahe pelo fundo_).
SEBASTIANA
(_que passou para a esquerda_) Então, pelo que vejo, ninguem almoça...
ITELVINA
Depois, Sebastiana, depois... mas tu não esperes. Almoças quando tiveres vontade.
SEBASTIANA
Eu não posso deixar a senhora sósinha...
ITELVINA
Pódes... Vou dormir... Vae, e fecha-me esta porta. (_Sebastiana passa para a direita_) Olha, para eu não acordar estremunhada, espreita, e quando o senhor vier, vem prevenir-me.
SEBASTIANA
Sim, minha senhora. (_á parte_) Ella quer aqui dormir sósinha... porque será? (_Sahe pelo fundo_).
SCENA VIII
Itelvina
(_só_) (_está um instante quieta, mas, logo que a porta se fecha, desata precipitadamente as tiras que lhe ligam a perna, e entra a caminhar rapidamente_). Ah! sim? tu comerás o almoço incendiario... hasde comêl-o por força! quando só encontrares no teu _porte-monnaie_ um tostão para pagar o leite e as limonadas, é natural que voltes ao teu posto... Essa felicidade espero eu têl-a. Seja como fôr, vou tratando de armar as engenhocas para a noite que vem. Comecemos pelas campainhas de que elle abusa... Onde acharei eu com que as corte? (_Vae ao gabinete da toilette e encontra lá uma faca de mato_) Uma faca de mato! Ah! tu tens facas nos teus guarda-roupas?... tens!... está bom... esta hade servir-me... Vamos primeiro cortar... Cortar, não! (_Atira com a faca para dentro do gabinete que fecha_) O que se deve quebrar é o arame... Ah!... com a cadeira sobre o leito, chego acima... (_Pega da cadeira, que põe sobre a cama, e sobe acima cantarolando. Ergue-se, de costas para a parede, e pega no arame com as mãos ambas_) Oh! c'os diachos! parece-me muito rijo!... _An!_ é puxar... (_ouve-se tilintar a campainha_) Ai que eu toquei! Se a Sebastiana me vê aqui...
SCENA IX
Itelvina e Sebastiana
SEBASTIANA
A senhora chamou?
ITELVINA
Ai!
SEBASTIANA
Onde é que está? (_Vendo-a_) Ah!...
ITELVINA
_Sio!_ cala-te!
SEBASTIANA
Foi a senhora que...
ITELVINA
Cala-te, que te heide dar uma prenda.
SEBASTIANA
Então que quer que eu faça, senhora?
ITELVINA
Espera ahi. (_Puxando pelo fio_) _Záz! Záz!_ Está quebrado! (_Quebra o fio, e o mesmo tilintar da campainha continua_).
SCENA X
As mesmas e Liborio
LIBORIO
(_entrando pelo fundo quando sôa a campainha_) Ella a chamar, a minha querida a chamar...
SEBASTIANA
Ui!... meu Deus!...
ITELVINA
Oh! co' a breca! Estou aviada!
LIBORIO
(_não encontrando a cadeira em que Itelvina ficou sentada e passa á esquerda_) Como é isto? Ella não está aqui? (_Vendo-a_) Ólé!
ITELVINA
(_sempre sobre a cadeira; e com a maior naturalidade_) Então já por cá?
LIBORIO
Que fazes tu ahi?
ITELVINA
Como estava melhor do pé, quiz experimentar um passeio.
LIBORIO
Passear lá por cima?... Ah! tudo se explica! O somnambulo não era eu... eram vocês as duas que...
SEBASTIANA
Ó senhor! os diabos me leve se...
LIBORIO
Retira-te.
SEBASTIANA
Mas senhor... Raios me parta, se...
LIBORIO
(_avançando para ella_) Rua! rua!
SEBASTIANA
Rua?... mas...
LIBORIO
Safa-te, ou eu... (_Sebastiana dá um grito e foge pelo fundo. Liborio dá um pontapé no banquinho_).
SCENA XI
Liborio e Itelvina (_Durante estas ultimas fallas, Itelvina desce serenamente da cadeira, depois desce do leito, e ahi fica fria e impassivel_).
LIBORIO
(_fechando a porta do fundo, e approximando-se de Itelvina_) Agora nós dois, senhora! (_silencio de Itelvina_). Quando eu entrava no botequim, a inquietação fez-me regressar... Vejo que fiz bem... (_silencio_) Que geringonça é esta? queira responder.
ITELVINA
Geringonça, dizes tu? perguntas-me que geringonça é esta?
LIBORIO
Sim!... pergunto e quero saber.
ITELVINA
(_formalisada_) Liborio, tu esmagaste o coração de uma mulher, o seu primeiro amor...
LIBORIO
Eu? que esmaguei eu?
ITELVINA
Despedaçaste a minha vida, cobriste o meu céo com um crepe negro!... Assassinaste Macario!
LIBORIO
Lerias!
ITELVINA
Atráz, assassino! atráz, que me horrorisas!
LIBORIO
Como? então é p'ramôr d'isso que?... Ora adeus! isso é pêta... eu não matei Macario nenhum.
ITELVINA
Pois tu não assassinaste Macario?
LIBORIO
Não tinha eu mais que fazer!... E a prova é que Macario está vivo e são.
ITELVINA
Macario vive?
LIBORIO
(_reconsiderando_) Eu cá de mim não o matei... (_á parte_) que ia eu a dizer? Ella ama-o! e, se sabe que elle vive, temos novo chinfrim...
ITELVINA
Ah! tu negas? não tens a coragem do teu crime?
LIBORIO
Itelvina, palavra d'honra!... Quem te disse?...
ITELVINA
Nada de questoens... Você está condemnado!
LIBORIO
Condemnado!
ITELVINA
Eu fiz um juramento, Liborio! e na minha patria não se quebram juramentos!
LIBORIO
Isso nós veremos depois... A senhora jurou de encher de pimenta os meus carapuços? coser os meus lenços?...
ITELVINA
Isso era um preludio... a farça antes da tragedia...
LIBORIO
Tragedia?!
ITELVINA
Para vingar Macario, cumpria que a sua vida me pertencesse, e por isso casei comsigo!
LIBORIO
Então foi só para isso que...
ITELVINA
Unicamente para me vingar, e nunca pelos seus attractivos, percebe?
LIBORIO
Mas a senhora, casando comigo, tambem me deu a sua vida e...
ITELVINA
A minha estava despedaçada... O sacrificio que eu lhe fazia era d'uns pedaços da minha existencia.
LIBORIO
Mas a senhora sabe que eu sou uma especie de balão que não obedece ao movimento de vontades alheias?
ITELVINA
Os baloens obedecem ao capricho do vento, e os homens ao capricho das mulheres.
LIBORIO
Sim? estou com curiosidade de vêr isso...
ITELVINA
Eis o meu programma: (_Com energia_) Quero que cada um dos teus dias seja uma catastrophe! cada uma das tuas horas uma tortura! cada um dos teus minutos um grito de dôr!...
LIBORIO
(_com ironia_) Diga lá o resto.
ITELVINA
Heide fazer-te tragar todas as amarguras! cravejar-te com todos os punhaes!... passarás a vida sobre umas grelhas como S. Lourenço, e eu de vez em quando a voltar-te nas grelhas... e tu a arder, a rechinar... oh!...
LIBORIO
Que enorme têlha!
ITELVINA
É o teu futuro!
LIBORIO
Mas é que eu fujo-te... podéra!...
ITELVINA
E eu vou atraz de ti. Sou tua mulher; a lei obriga-te a receber-me.
LIBORIO
Excellente separação de corpos a que já estou habituado!... Divorcio-me.
ITELVINA
E as provas? Pensas no divorcio? Cuidas que eu não previ já esse caso muito natural de me quereres escapar? Eu já li o teu codigo civil. Ninguem se separa sem provas e testemunhas; e tu nunca hasde arranjar testemunhas nem provas. Mulher mais terna do que eu, em publico, não hade haver segunda, heide acariciar-te, ameigar-te, se fôr preciso, que isso me não custa nada...
LIBORIO
(_á parte_) Irra! estou a sentir uns calefrios na espinha...
ITELVINA
Em publico, serás o meu amante, o meu heroe, o meu Deus! Serás um mortal ditoso e invejado!... possuirás uma gentilissima esposa, dedicadissima... e, se, um dia, ousares queixar-te de mim, se promoveres o divorcio, passarás por um monstro extraordinario, por um ignobil... malandro!
LIBORIO
(_á parte_) Isto é o José do Telhado disfarçado em mulher!
ITELVINA
(_indo para Liborio que passa á esquerda_) Mas o anjo das salas será o demonio dos lares! quero que a tua vida se teça de espinhos dilacerantes. Não entrarás em tua casa sem cahir n'uma esparrela! Não poderás sahir sem te palpitar uma desgraça imprevista. E este amor... este amor que me pedias, heide dál-o a outro!
LIBORIO
Oh! _Shocking!_
ITELVINA
Sim! heide cuspir na tua honra!
LIBORIO
(_furioso_) Senhora!
ITELVINA
Eis o teu futuro, Liborio! eis o teu futuro! (_sahe pela direita_).
SCENA XII
Liborio
(_só, atordoado_) Safa! caramba! É _bècarre!_ Estou a abafar! ardem-me os miolos! Anda-me tudo á roda! Parece-me que estou n'uma jaula _tête-à-tête_ com uma panthera solta... Falta-me a coragem para a lucta! (_Cáe prostrado perto do gueridon_) Que a panthera me devore! Resistir-lhe é-me impossivel!... (_Fecha os olhos e fica immovel..._)
SCENA XIII
Liborio e Barnabé
BARNABÉ
(_entrando alegremente pelo fundo_) O meu negocio vae bem... optimamente.
LIBORIO
É elle!... (_levanta-se e sobe um pouco_).
BARNABÉ
Ah! meu amigo Liborio, obterei a casa. O Braga ainda hesita quanto ao preço, mas eu conheço-lhe o genio... elle é condescendente... e emfim, viverei em paz e socego.
LIBORIO
(_dirigindo-se-lhe_) Em paz?... Sorri-lhe essa esperança? Pois não viveste...
BARNABÉ
Sim... sorri-me esta esperança.
LIBORIO
O senhor é cumplice, não é?
BARNABÉ
Cumplice de quem?
LIBORIO
Da besta-fera de quem se intitula pae?
BARNABÉ
Snr. Liborio! Modere-se!
LIBORIO
É cumplice d'ella... Concorde... Apraz-me a sua confissão... Ao menos que a minha colera encontre um homem em frente d'ella...
BARNABÉ
Eu não o percebo! Será isto um ataque de somnambulismo?!
LIBORIO
Somnambulo! Ainda está n'isso, o senhor! Não sabe que a farça se desenvolveu depois... o véo veio á terra... descobri o inimigo do meu descanço, o ente mal-fazejo que se mettia, de noite, no meu quarto, para me transtornar tudo...
BARNABÉ
Então... quem é?
LIBORIO
A sua hedionda filha... a sua filha que o senhor teve artes de me impingir!...
BARNABÉ
Itelvina? o senhor está a mangar...
LIBORIO
Sim... finja-se espantado!...
BARNABÉ
Com um pé desnocado? a minha filha?
LIBORIO
(_rindo amargamente_) Pé desnocado! (_rindo_) Ah! ah! ah! ah! Não vê que ella me bigodeou?
BARNABÉ
Mas para quê?
LIBORIO
Para quê? para vingar Macario que ella me accusa de eu ter assassinado!
BARNABÉ
Isso é incrivel!
LIBORIO
E quer saber o futuro que ella me destina? A sorte de Meneláo de Sganarello, de Vulcano e d'outras testas celebres.
BARNABÉ
E ella disse-lh'o? Mas, quando isso se dá, as mulheres nunca previnem os maridos...
LIBORIO
É uma excepção...
BARNABÉ
Tudo isso é tão anormal... tão extravagante... (_como assaltado por uma idea_) Ah!
LIBORIO
Que é?
BARNABÉ
Lá vou... Foi a palavra _extravagancia_ que me orientou... Estou no caminho...
LIBORIO
Caminho de quê?
BARNABÉ
O snr. Liborio sondou o pulso de sua mulher?
LIBORIO
Ora essa!... sondar-lhe o pulso!... Não.
BARNABÉ
Fez mal. Esta excentricidade no seu proceder, este humor extravagante... explica-se tudo...
LIBORIO
O quê? o que é que se explica?
BARNABÉ
É a crize ordinaria... Amigo Liborio, não succumba ao pezo da sua felicidade... Liborio, vou dar-lhe um jubilo immenso... Olhe que vae ser progenitor! Vae ser pae!
LIBORIO
(_exasperado_) Pae!
BARNABÉ
Sim! esses appetites desvairados... essa desordem moral...
LIBORIO
(_agarrando-o pelo colete_) Ah! patife!
BARNABÉ