O Assassino de Macario: Comedia em tres actos

Chapter 2

Chapter 23,596 wordsPublic domain

O senhor mente!

LIBORIO

Ó minha senhora...

ITELVINA

Não é possivel...

LIBORIO

Antes isso... que é menos indelicado...

ITELVINA

Está bom: eu saberei o nome. Onde foi que se bateram?

LIBORIO

Onde foi?

ITELVINA

Tambem não sabe?

LIBORIO

Não sei eu outra coisa! mas essas miudezas... (_á parte_) ella embrulha-me!

ITELVINA

(_á parte_) Outra vez atrapalhado!

LIBORIO

Foi n'uma carvalheira... A snr.ª D. Etelvina conhece Braga?

ITELVINA

Nada.

LIBORIO

(_á parte_) Ainda bem! (_alto_) Braga tem a figura d'um enorme bacalhau da Noruega, e tem 3 portas. Nós sahimos pela estrada de Guimaraens. Foi ao pé da Falperra. Carregando á mão direita topa-se uma azenha, depois sobe-se um pedaço de monte, toma-se para a esquerda, e entra-se n'uma mata virgem... Foi ahi que se bateram.

ITELVINA

Não preciso mais nada. A que horas se sahe para Braga?

LIBORIO

Ha tres comboios a escolher.

ITELVINA

Iremos no primeiro.

LIBORIO

Iremos?!

ITELVINA

Duvída acompanhar-me?

LIBORIO

Eu?

ITELVINA

Ir mostrar-me a fatal mata virgem, e auxiliar-me nas minhas pesquizas até descobrir o assassino de Macario?

LIBORIO

Mas, minha senhora...

ITELVINA

Não vae?

LIBORIO

Irei; mas...

ITELVINA

Vou escrever a meu pae, preparar a malêta e vamos... (_vae para a direita_)

LIBORIO

Sosinhos?

ITELVINA

Com meu pae... Jura que me espera?

LIBORIO

Faça favor de reflectir... minha senhora...

ITELVINA

Jura?

LIBORIO

Sobre os manes de Macario! juro!

ITELVINA

Obrigada! venho já. Oh! sim! a Braga, no expresso! (_sahe velozmente pela direita_).

LIBORIO

(_só, cobrindo-se_) Toca a safar! É uma canalhice faltar ao juramento... mas basta de asneiras... Onde esta o meu chapeo? A rapariga é bonita, é adoravel; mas leval-a a Braga e mais o pae, e continuar esta tramoia absurda...--onde poria eu o chapeo?--que eu vim representar no seio d'esta familia (_Põe a mão na cabeça_) Cá está o chapeo... Por aqui me esgueiro... (_Vae a sahir pelo fundo, e encontra Barnabé que entra_).

SCENA IX

Barnabé e Liborio

BARNABÉ

(_vendo Liborio_) Olha o Liborio!... (_á parte_) que veio aqui fazer este typo?

LIBORIO

O meu parceiro do quino!...

BARNABÉ

O grande pandego por aqui?

LIBORIO

(_á parte_) E eu que ainda hontem estive a jogar com elle... Isto vae transtornar a patranha...

BARNABÉ

Então que feliz acaso o trouxe aqui a minha casa?

LIBORIO

A sua caza?... É celebre coisa! Eu não sabia que o amigo Barnabé era o pae da menina... Muito gôsto em o conhecer...

BARNABÉ

Ainda me não explicou o mais importante.

LIBORIO

Acabo de ter o prazer de communicar a sua filha uma tristissima noticia...

BARNABÉ

Sim? então que foi?

LIBORIO

(_querendo sahir_) Não... Já bastará... dispenso o _bis_... Ella cá lh'o contará...

BARNABÉ

(_sustendo-o_) Snr. Liborio, eu sou pae... ouviu?

LIBORIO

(_á parte_) A pequena é encantadora, e não será máo sondar o pae... (_alto_) O senhor conhece o Macario?

BARNABÉ

Muito... de mais.

LIBORIO

Vim annunciar-lhe que elle morreu.

BARNABÉ

(_com jubilo_) Que me diz?

LIBORIO

(_admirado_) Gosta?

BARNABÉ

(_reconsiderando-se_) Não... pobre moço... Sem duvida, deploro esse caso palpitante! mas em fim (_alegremente_) faz-me conta.

LIBORIO

Sim? Faz-lhe conta?

BARNABÉ

É o que eu lhe digo. Elle ia casar com a pequena... Consenti com muito custo. Não gostava do homem, eu; e persuado-me que minha filha se daria mal com elle. Por tanto, como individuo, lamento-o; como pae, exulto.

LIBORIO

(_á parte_) Isto vae bem, vae bem... mas então é inutil que eu o convença de que... (_alto_) Snr. Barnabé... (_Leva-o para a esquerda_) _Psiu_... Macario está de perfeita saude.

BARNABÉ

O Macario que morreu?

LIBORIO

Não é isso... não morreu...

BARNABÉ

Isso máo é!...

LIBORIO

Ahi vae o inigma em duas palavras. Macario fez á sua filha juramentos que não quer cumprir, percebe?

BARNABÉ

Diga o resto.

LIBORIO

E para fugir á vingança, pediu-me que viesse dar parte da sua morte.

BARNABÉ

É um caso bonito e extraordinario, esse...

LIBORIO

Eu fiz um relatorio em regra... um duelo em Braga, etc., etc., etc.

BARNABÉ

Ella havia de fazer ahi o diabo!... Ella não lhe bateu, hein?

LIBORIO

Não; mas soluçou, desmaiou, escabujou... Oh! soberba creatura na sua angustia!

BARNABÉ

Está alli uma linda viuva, não acha?

LIBORIO

A final quer que eu vá com ella a Braga.

BARNABÉ

O senhor?

LIBORIO

Eu e mais o senhor. Quer que vamos os trez.

BARNABÉ

Então desconfia da pêta?

LIBORIO

Não, senhor. Quer ir vingar a morte do noivo.

BARNABÉ

Toma!

LIBORIO

E exige que eu lhe diga o nome do assassino; e como até esta data o unico assassino de Macario sou eu...

SCENA X

Os mesmos e Itelvina, _que vinha entrando pela direita, e, ao ouvir a ultima phrase, se esconde_.

ITELVINA

(_á parte_) Que disse elle?

LIBORIO

Agora, já o meu amigo entende a minha atrapalhação...

ITELVINA

(_á parte_) A sua atrapalhação!...

BARNABÉ

Porque lhe não disse um nome qualquer?

LIBORIO

Não me occorreu essa idéa...

ITELVINA

(_á parte_) Que mysterio é este?

LIBORIO

Já vê em que entalas eu me acho... A cada instante, quasi que me estendia... Que colicas eu rapei! Eu não queria de modo algum que ella soubesse que...

ITELVINA

(_á parte_) Que horrores eu estou adivinhando!

BARNABÉ

Soubesse o quê?

LIBORIO

Jogo franco. Macario fallou-me de sua filha n'uns termos que espicassaram a minha curiosidade...

BARNABÉ

Com effeito... espicassaram-no os termos...

LIBORIO

Meu amigo, sympathiso com esta menina original...

ITELVINA

(_á parte_) Hein?

LIBORIO

É o que lhe digo... Amo as plantas exoticas... Gosto d'estes licores capitosos de fabrica estrangeira, e regeito os charopes amelaçados da fabrica nacional.

BARNABÉ

Em summa, o senhor gosta de minha filha...

LIBORIO

Deveras.

ITELVINA

(_á parte_) Elle ama-me!... que horror!

BARNABÉ

Querido Liborio! (_á parte_) Elle é rico... (_alto_) O seu pedido faz-me muita honra... mas...

LIBORIO

Recusa?

BARNABÉ

Acceito. (_Dão-se as mãos_).

ITELVINA

(_á parte_) Que revelação!

BARNABÉ

Mas o essencial é conquistar a vontade d'ella... Uma feliz lembrança! vamos partir todos para Braga...

LIBORIO

Parece-lhe?...

BARNABÉ

(_gracejando_) O senhor não se arrisca a encontrar o assassino de Macario, pois não?

LIBORIO

(_rindo_) É muito provavel que não...

BARNABÉ

Vocês viajam juntos; e em quanto finge que faz indagações, vae lhe fazendo a côrte.

LIBORIO

É isso, perfeitamente.

BARNABÉ

Eu vou tambem... bem me custa; mas em fim não ha conveniencias a guardar quando se trata do futuro de uma filha.

LIBORIO

Mil graças, snr. Barnabé.

BARNABÉ

Venha commigo ao meu quarto, e ajuda-me a fazer a mala.

LIBORIO

Com muito prazer! Estou contentissimo!

BARNABÉ

E então eu! Vi-me livre do Macario! Que bem fez o senhor em matar esse bigorrilha! (_Entram pela esquerda_)

SCENA XI

Itelvina

(_só_) Elle! foi elle o assassino de Macario! E meu pae sabia-o! e ambos elles querem que eu caze!... Mas que paiz é este... este Portugal... este mundo onde o assassino cubiça a noiva da victima! E pude conter-me! E não avancei para elle como uma leôa, como a pantera ferida! Oh! mas elle torna, e então... Não, não é com um golpe de punhal que elle hade morrer! Para crimes monstruosos é necessario vinganças excepcionaes! Hade morrer não a golpes de punhal, mas a picadellas de alfinete! Elle ama-me!... ama-me!... quer esposar-me!... por que não? por que não? Pois não é justo que o seu nome e a sua honra me pertençam? (_ironica_) Ah! com que jubilo eu não proferirei deante do sacerdote, o ditoso _sim_, a doce renuncia de mim toda! Nunca uma noiva apaixonada, mais ternamente, nunca uma solteirona de 35 annos terá proferido esse _sim_ com maior exultação! Ah! parece-me que me estou vendo e ouvindo quando o padre me disser: «Recebe como esposo o snr. Liborio?» e eu com a coroa de virgem na fronte e a raiva no coração e a injuria nos labios e os olhos em terra, responderei «sim, sim, sim!» Ó meu Macario, conta com uma vingança desconhecida na Europa! uma vingança mexicana! Ah! lá da mansão celeste, tua derradeira morada, ver-me-has com ufania!... Vem gente... é elle!... Cala-te, meu coração!... Sorride meus labios! Silencio, minhas saudades! É forçoso! é forçoso!... (_Senta-se junto ao piano_).

SCENA XII

Liborio, Barnabé, Itelvina

BARNABÉ

(_fóra_) Confio-lh'a; mas não lhe dê grandes abalos. (_Entra pela esquerda com Liborio_).

LIBORIO

(_com uma grande mala_) Peza que tem diabo!

BARNABÉ

Peza, peza... Obrigado... Eu é que já não posso com isso.

LIBORIO

(_vendo Itelvina, baixo a Barnabé_) Cá está ella... Álerta!

BARNABÉ

Justo... Façamos caras dolorosas. (_Avança e pára_) Cuidei que ella estava arranjando as malas...

LIBORIO

(_baixo_) Está a pensar n'elle...

BARNABÉ

(_aproximando-se em tom maguado_) Itelvina, Itel...

ITELVINA

Quem me chama?

BARNABÉ

Ninguem... isto é, sou eu, teu pae. (_Aponta para Liborio e faz com que ella o veja com a mala_). Estamos promptos para partir...

ITELVINA

(_como se não entendesse_) Partir não entendo...

BARNABÉ

Não entendes? boa!... O snr. Liborio contou-me...

ITELVINA

Então já sabe?

BARNABÉ

Sim, sei. Que se lhe ha de fazer? A Parca é inflexivel!

ITELVINA

E o papá tem grande pena, não tem?

BARNABÉ

E que pena! aqui tens a prova... ali está a mala... Resigno-me a ir a Braga, auxiliar-te nas tuas indagaçoens.

ITELVINA

Quaes indagaçoens?

BARNABÉ

Então nós não vamos procurar o assassino de...

ITELVINA

(_erguendo-se de golpe_) O assassino de Macario?... (_Avança para Liborio, que sustenta sempre a mala, e recua deante do olhar d'ella_) O senhor que tem? que tem o snr. Liborio?

LIBORIO

Eu?... nada...

ITELVINA

Pensei que estava atarantado...

LIBORIO

Um pouco, com esta mala...

ITELVINA

(_á parte_) O remorso estrangula-o!... (_alto_) O senhor era amigo d'elle, não era? muito amigo d'elle, pois não?

BARNABÉ

Está bom, está bom... tem muito tempo de conversar na jornada...

ITELVINA

Qual jornada?

BARNABÉ

Pois nós não vamos a Braga?

ITELVINA

Fazer o quê?

BARNABÉ

Mas o snr. Liborio não me disse que tu...

ITELVINA

Ah! sim... no primeiro momento, queria... pensava mas mudei de tenção... Não vamos.

LIBORIO

(_deixando cahir a mala_) Hein?

BARNABÉ

Boa vae ella!

ITELVINA

De que serve procurar esse feliz contendor... O duelo é um jogo d'azar... e a minha vingança não se submette ao acaso... (_Passa para a direita_)

BARNABÉ

Apoiada! tens muita rasão! isso é que é ter juiso! (_A Liborio_) Está applacada!... Bravo!

LIBORIO

(_á parte_) É o arco da velha a annunciar trovoada.

SCENA XIII

Os mesmos e Sebastiana

SEBASTIANA

(_entrando pelo fundo_) Está o almôço na meza.

ITELVINA

Põe mais um talher.

BARNABÉ

Trez talheres?

ITELVINA

Pois então, meu pae! não ha nada mais natural... O snr. Liborio, que chegou de Braga, e que veio prestar-nos um serviço, não duvidará acceitar...

LIBORIO

Eu... mas... (_á parte_) Bem disse eu que era o arco da velha... (_alto_) com muito prazer.

ITELVINA

O seu braço, snr. Liborio. (_Liborio offerece-lh'o e sobem_).

SEBASTIANA

(_á parte_) Este será tambem um noivo?

BARNABÉ

(_á parte_) Que mudança ella fez!

ITELVINA

(_para o pae_) (_Parando á porta do fundo_) Então, meu pae? Vem? está a pensar no Macario, ou no assassino de Macario? Vamos almoçar. (_Sahem_).

BARNABÉ

(_pensativo_) Máo! máo! Bem dizia o Liborio... O arco da velha vae dar muita chuva... (_Segue-os_).

FIM DO 1.º ACTO

ACTO SEGUNDO

Quarto de dormir. Ao fundo, um leito cujos cortinados, pendentes de um docel, estão meio-cerrados. Um pouco áquem uma porta que abre para um gabinete de _toilette_. Á direita, no primeiro plano, uma janella fechada com cortinas e _store_. No fundo, á direita do leito, a porta da entrada. Á direita, no 3.º plano, uma porta de communicação para o quarto de Itelvina. Á direita, na frente, uma meza. Á esquerda uma jardineira sobre a qual está uma caixa de charutos, phosphoros, e um barrete de veludo. Ao pé da jardineira, sobre uma cadeira, uma camizola. Á direita, uma cadeira de estofo sobre a qual estão as calças de Liborio. Ao pé uma bota e um chinelo. Á cabeceira do leito, uma bispoteira. Cadeiras de estofo, quadros, etc. Uma lanterna de furta-fogo sobre a jardineira.

SCENA I

Itelvina, (_só_) Liborio, (_no leito meio occulto_)

(_Ao correr do panno, a scena está alumiada pela lanterna, deixando na penumbra o leito. Quando corre o panno, Itelvina, erguida ao fundo sobre uma cadeira, pendura uma das botas de Liborio n'um painel; depois desce, pega da lanterna, examina a bota, e diz:_) Bem... está como se quer... d'um bello effeito! Mas, se elle não visse... Ah! tenho aqui linha... (_Põe a lanterna sobre a meza, e sacando da algibeira um novello de linha torna a subir á cadeira, prende a extremidade da linha á bota; e descendo, traça com o fio no taboado uma linha que vae até á meza sobre a qual põe o novello; ahi pega d'um bocado de gis, senta-se e escreve sobre a meza, fallando em voz alta._) «Seguir o fio». (_Ergue-se, e vae ao pé do leito_). Acordaria elle?... não. (_Ouve-se resonar ao fundo_) Elle resona, o miseravel resona! Condemnei-o a passar as oito primeiras noites de casado em uma completa solidão, e elle resona indifferente á minha auzencia! Antes assim!... Hoje entramos na nova crize, a crize das pequenas mizerias, as picadellas dos alfinetes antes das punhaladas... Vejamos se me lembrou tudo. (_Senta-se á meza, e lê em uma carteira á luz da lanterna_). «Despregar por tres lados os cortinados do leito para que lhe cáiam sobre o nariz.» Isso está feito e bem me custou...(_Lendo:_) «Furar os charutos». Já furei. «Polvilhar de pimenta o bonnet.» Já tem. «Coser os lenços ás algibeiras». Estão cosidos. «Esconder um dos chinelos e uma das botas; adiantar a pendula e atrazar o relogio; deixar-lhe só um tostão no porte-monnaie, e cortar os elasticos dos suspensorios». Está tudo feito. (_Lendo:_) Acordal-o de sobresalto para lhe causar um grande estonteamento». É o que se vae fazer. (_Ergue-se e dirige-se com a lanterna para a porta da direita_). Ah! Liborio, assassino de Macario, o céo é justo, e a hora da vingança soou! (_Proferindo esta phrase, tira da algibeira uma pistola; dita a ultima palavra, dá um tiro e sahe fechando sobre si a porta. Completa escuridão._)

SCENA II

Liborio

(_só_) Ui! isto que foi? Que é isto? (_Espreita por entre as cortinas_). Entre quem é! Quem está ahi? Não é ninguem... quem foi que me acordou? Parece que ouvi um tiro ou um espirro enorme, não sei bem o que foi... Estaria eu a sonhar? Ninguem aqui vem espirrar de noite no meu quarto, e mais sou casado, casado ha oito dias! Tudo está em repouso, excepto a minha imaginação. Isto que horas serão? As cortinas estão fechadas... não se vê boia... escuro como um prego... Felizmente o meu relogio é de repetição (_Toca na mola do relogio pendurado no espaldar do leito, e ouve 4 horas_). Quatro horas! ainda quatro horas! Ah! as noites solitarias!... como são eternas! Vamos vêr se se adormece... (_Deita-se, a pendula dá horas, e elle conta-as em voz alta, erguendo a cabeça a cada nova pancada_). Uma, duas, tres, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez... Dez horas! Como dez horas! E o meu relogio que só dá quatro... (_Assenta-se na cama_) E são ambos do mesmo relojoeiro! Mas, se ja fôssem dez horas, eu devia estar a pé. Principiemos por abrir os cortinados. (_Puxa pelas cortinas que cahem e o embrulham_) Que é isto, com dez raios de diabos... Larguem-me, larguem-me!... Larguem-me o quê?! Grande besta que eu sou! Ninguem me prende... são os cortinados que eu agarro... que me agarram a mim. (_Ao desembaraçar-se das cortinas cahe da cama ao chão_) Que trapalhada é esta! o dia principia mal... Vou correr as cortinas e os stores. Não gosto da escuridão. (_Abre: é dia claro_) É dia claro! A pendula tinha rasão. Toca a vestir depressa. (_Pega das calças e vae vestil-as atraz do fauteuil; calça um chinelo e procura o outro_) Onde estará o outro sapato? Não me apparece senão este... Parece-me obra do diabo isto! Vou calçar as botas. (_Depois de calçar uma_) Onde está a outra? Como é isto de achar só um chinelo e uma bota? Seria a Sebastiana? Ella ficou de me chamar ás nove horas, e entraria sem eu dar fé... mas para que fim me levaria só uma bota? (_Trata de cruzar um suspensorio que quebra_) Irra! agora são os suspensorios! (_Aperta o outro, enraivado_) Que inferno este! (_Quebra o outro_) Lá vão ambos! (_Atira-os ao chão_) A fivela estará direita? está... segura-se... Valha-nos isso. (_Procurando_) O meu bonet? Está acolá... (_cobre-se_) A camisola? está aqui... (_veste-a_). Agora, vou procurar... (_suspende-se_) Mas se ainda é cedo... (_espirra_) que raio de cheiro a pimenta! Se a Sebastiana tivesse vindo, acordava-me como eu lhe ordenei... Não serão ainda nove horas? Receio de ir acordar... Vou fumar um charuto. (_Pega de um charuto e phosphoro_) O fumar de manhan aclara-me as ideas. Santo Deus, como é incommodo passear com uma bota e um chinelo! (_Assenta-se á esquerda do gueridon_) Em quanto Sebastiana não vem, recapitulemos os meus infortunios fumando um delicioso havano... (_espirra_) Que é o que cheira aqui tanto a pimenta? (_Pretende accender o charuto_) Era meia noite. Itelvina pertencia-me ao cabo de trez mezes de scenas exquisitas; ella tinha proferido, de manhan, com uma voz energica o _sim_ encantador que me dava sobre ella direitos senhoriaes absolutos. Dançava-se no salão amarello, e havia uma hora que eu amaldiçoava os relogios (_Não podendo accender o charuto atira-o ao fogão e vae buscar outro_) que me pareciam todos parados. Annunciára-se finalmente a ultima quadrilha, os dançantes começavam a cancanizar-se um pouquito... (_espirra_) D'onde virá este cheiro a pimenta? Minha mulher dançava com o tabellião, e parecia muito emocionada... Eu attribuia a mim esta emoção que o tabellião não justificava de modo nenhum... Em fim, sôa a meia noute. (_Ergue-se_). Ouve-se um grito agudissimo... Corro e exclamo... (_Atira fóra o segundo charuto_) Que é o que tem estes charutos? (_Pega n'um terceiro_)... e exclamo: Céos! minha mulher! Itelvina estava desmaiada. Tinha torcido um pé quando polkava com o tabellião; e eis-me aqui, á meia noute, a primeira das minhas nupcias, á procura d'um indireita. A final, topo um; e cuidando que á meia hora depois da meia noite, tinha direito a examinar o estorcegão do pé da minha esposa, entro com a faculdade algebrista até ao seu leito de dôr. (_Accende o terceiro charuto_) Baldada esperança! Nega-se-me obstinadamente este primeiro favor, e sou obrigado a esperar n'um quarto proximo, com o papá Barnabé, a sahida do doutor que, depois de um quarto d'hora de angustias, veio em fim declarar-nos que uma forte distensão dos ligamentos, uma contracção terrivel da articulação, reteriam minha mulher quinze dias de cama; e com effeito, depois... T'arrenego, diabo! este charuto está rôto! E os outros? (_Examina a caixa_) Estão todos estripados! (_espirra_) Com toda a certeza, tenho pimenta nas ventas! (_Tira o bonnet_) Ah! aqui está a pimenteira! É possivel!... como é isto? Sebastiana mette a pimenta no meu bonnet... (_atira-o fóra_) para o preservar do bicho... hade ser isso, mas ella é idiota!... (_espirra_) Que é do meu lenço? Está cosido! Cozeram-me o lenço á algibeira, como aos rapasinhos de escola... Ah! isto é um cumulo! (_Puxa por um cordão de campainha proximo á cheminé_) Não me importa acordar toda a gente! (_sacode a campainha_).

SEBASTIANA

(_fóra_) Lá vae, lá vae, senhor!

LIBORIO

Vamos a esclarecer isto tudo...

BARNABÉ

(_fóra_) Que banzé é este?

LIBORIO

O sôgro... sôgro de mão cheia... (_gesto ironico. Barnabé e Sebastiana entram pelo fundo_).

SCENA III

Sebastiana, Liborio, Barnabé

SEBASTIANA

O senhor está doente?

BARNABÉ

Será preciso chamar os bombeiros?

LIBORIO

(_a Sebastiana_) Vem cá... e responde.

SEBASTIANA

Quem, eu?

BARNABÉ

Que tem o meu genro?

LIBORIO

Passados cinco minutos, tem-me ás suas ordens. (_a Sebastiana_) Vem cá... Que horas são?

BARNABÉ

Então foi para saber que horas eram...

LIBORIO

Snr. Barnabé, não é comsigo que eu fallo. (_a Sebastiana_) Quantas horas são?

SEBASTIANA

Oito e meia, senhor.

LIBORIO

Por que é então que o meu relogio tem quatro e a pendula dá dez e meia?

SEBASTIANA

Eu sei cá! pergunte-o ao relojoeiro.

BARNABÉ

Ella tem rasão; o seu officio não é esse. Ella de pendulas não percebe nada.

LIBORIO

Espera um pouco. (_a Sebastiana_) Por que metteste pimenta no meu bonnet?

SEBASTIANA

Eu?! que metti eu?

BARNABÉ

Sim... isso lá da pimenta é com ella... Responde sobre a pimenta, rapariga!

LIBORIO

Por que furaste os meus charutos?

SEBASTIANA

Eu furei os seus charutos!...

BARNABÉ

Ella furou os charutos?... Tu furaste... (_a Sebastiana_)

LIBORIO

Por que me coseste os lenços ás algibeiras?

SEBASTIANA

Olha que espiga!

BARNABÉ

Pois tu coses os lenços?...

SEBASTIANA

Isso é falso, senhor!...

LIBORIO

(_mostrando_) Estão cosidos ou não estão cosidos?

SEBASTIANA

Eu cá não fui.

LIBORIO

E os cortinados do leito... e os chinelos que deviam estar aos pés da cama...

BARNABÉ

Nos seus pés, quer dizer o meu genro.

LIBORIO

Meu sogro, queira amordaçar o seu espirito que me está arreliando. (_a Sebastiana_) Em fim, responde, explica-te.

SEBASTIANA

Não percebo patavina.

BARNABÉ

E dois.

LIBORIO

Não percebem que se está aqui representando uma magica de pessimo gosto... uma diabrura de auctores anonymos...

BARNABÉ

Não está má essa! O senhor disfructa-nos!

SEBASTIANA

É lá possivel a diabrura! cruzes, canhoto!

LIBORIO

Desde esta manhan estou sendo uma almofada em que mão desconhecida espeta alfinetes... Notem isto... Aqui está uma bota. Pergunto eu: onde está a outra? Aqui está um chinelo; e o outro onde está?

SEBASTIANA

(_procurando_) Eu procuro... (_Aproxima-se da meza e vendo o que está escripto_) Esperem lá!... (_Lendo_) «Seguir o fio.»

LIBORIO

(_approximando-se_) Seguir o fio?!

BARNABÉ

(_o mesmo_) Então sigamos o fio. (_Seguem os tres o fio da linha. Sebastiana á frente vae innovelando o fio. Barnabé atraz_) Onde vae isto parar? (_Vão indo até chegar á parede_) A linha aqui, trepa! (_Levantam as cabeças_).

SEBASTIANA

(_vendo a bota_) Olha!

BARNABÉ

É ella!

LIBORIO

A minha bota!

BARNABÉ

A sua bota!

SEBASTIANA

É verdade, a bota!

LIBORIO

(_passando para a direita_) Quem a pendurou acolá?

SEBASTIANA

(_tirando a bota para baixo_) Eu não fui.

BARNABÉ

Menos eu.

LIBORIO

Por consequencia...

SEBASTIANA

O snr. Liborio tem estado a mangar comnosco... Isto é uma chalaça... não ha que vêr...

LIBORIO

Hein?

BARNABÉ

(_rindo_) O meu genro hade ser sempre um pandego...

SEBASTIANA

Quiz-nos impingir esta comedia.

LIBORIO

Irra! Foste tu; olha que te ponho no olho da rua!...

SEBASTIANA

Oh senhor!...

BARNABÉ

Como imagina o senhor que esta rapariga...

LIBORIO

Se não foi ella... foi o senhor.

BARNABÉ

Meu genro!... ousar desconfiar que um antigo negociante...

LIBORIO

Tem razao... seria espirito de mais para um antigo negociante... Mas o certo é que nós aqui não sômos senão trez. Minha mulher não póde ser, porque está de cama com um pé torcido.

BARNABÉ

A respeito d'isso, parece que ella está melhor do pé... O senhor sabe que ella está melhor do pé...

LIBORIO

Como eu que sei?

BARNABÉ

Eu ouvi o meu genro esta noite abrir a porta do quarto d'ella.

LIBORIO

Eu?

BARNABÉ

E que balburdia o senhor fez!...

LIBORIO

Eu?

BARNABÉ

Se não receasse ser indiscreto, vinha cá abaixo.

LIBORIO

O senhor está doudo! Eu não sahi d'aqui!

BARNABÉ

Ora, deixe-se d'isso...

SEBASTIANA

(_reflectindo_) Achei o que é... Já sei...

LIBORIO

(_vivamente_) Achaste quem é que manga comigo?

SEBASTIANA

É o senhor mesmo.

LIBORIO

Eu?

BARNABÉ

Elle? dize lá...

SEBASTIANA

(_a Barnabé_) Eu tive um primo que fazia o mesmo... levantava-se de noite...

BARNABÉ

Um somnambulo! Ella tem razão... O snr. Liborio é somnambulo.

SEBASTIANA

É isso, é isso, somnambulo...

LIBORIO

Eu somnambulo!... está bem!... fico sciente!...

SEBASTIANA