O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular

Part 9

Chapter 93,972 wordsPublic domain

Napoleão ergueu-se no senado francez, a 4 de dezembro de 1809, e sobrepujando com a sua voz a voz da Historia, como se lhe não andasse já descontada a gloria com dois consecutivos revezes na peninsula iberica, disse: «Tanto que eu appareça alem dos Pyreneus, o leopardo recolher-se-ha amedrontado ao oceano para fugir á ignominia, á derrota e á morte. A victoria das minhas armas será a do genio do bem sobre o do mal: a victoria da moderação, da ordem e da moral sobre a guerra civil, sobre a anarchia e as paixões destruidoras.»

E, concluida a campanha de Austria pela paz de Vienna, a aguia franceza deixou de pairar sobre o norte da Europa, e do alto do palacio imperial de Schoenbrunn fitou o olhar ardente e profundo na orla do occidente banhada pelo Atlantico.

E pela terceira vez se equipava o exercito invasor, superior a oitenta mil homens; e pela terceira vez fôra chamado um general distincto a tomar o commando em chefe das tropas para obter melhor exito que os seus dois antecessores.

A eleição recaiu no marechal Massena, principe de Essling, duque de Rivoli, cuja valentia e sciencia Napoleão conhecia desde as campanhas d'Italia.

Não precipitemos, porém, os acontecimentos que o anno de 1810 havia de desdobrar sobre a Europa. Justo é reverter ao que é assumpto principal d'este livro, mais biographia do que chronica.

Já anteriormente dissémos que o exercito portuguez recolhera ao quartel general de Castello Branco, e d'ahi fôra mandado, nos ultimos dias d'agosto de 1809, para diversos acantonamentos.

Em Castello Branco, o marechal Beresford permittiu aos soldados, que mais se haviam distinguido, a escolha de corpo e quartel, não só para lhes galardoar d'algum modo os serviços prestados, como para incitar os outros a medirem-se na terceira campanha com os premiados na segunda. José Maria da Graça Strech escolheu o regimento d'infantaria 18, que, com o 6 e 9 da mesma arma, foi mandado para Coimbra.

Então se levantava detraz do tumulo da irmã querida, para o desgraçado moço, a aurora do amor, que desabrochára no primeiro beijo, e que o ciume aclarára definitivamente á beira do catre do moribundo Bénard.

Havia-se batido como leão, açulado pelo cheiro do sangue. Mil vezes se atirára á morte, e a morte parecia respeitar no sorriso de Rosina Regnau a heroicidade do soldado. Dir-se-ia que a vivandeira tinha duas azas, que, desdobradas, o abrigavam. Graça Strech acabou, como era natural, por amar o seu anjo da guarda, quando inteiramente comprehendeu que ella lhe dizia na triste eloquencia do silencio a que se condemnára: «Eu tenho de guardar a tua alma; para guardal-a preciso possuil-a.»

No seu coração calcinado pela saudade choveu pouco o orvalho refrigerante companheiro da aurora; o amor cauterisou a ferida que sangrava odios; ficára apenas a cicatriz, como fica voltada n'um livro a pagina que se leu, e cuja impressão jámais se desluz na mente do leitor.

Aconteceu a Graça Strech como ao commum da humanidade.

O amor, que é luz, que é fogo, que é sol, vae se decompondo em irradiações parciaes na nossa alma, á medida que a vae desenregelando, como o verdadeiro sol n'um prisma de crystal. Verdade é, ser preciso que tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente se vão revezando as côres, alternando as _nuances_, e embriagando-se ella a pequenos haustos no banquete da felicidade. O amor que rebenta como erupção, não é amor, é desatino. Nasceu cego: não vê. Irrompe como a lava, passa, queima, desapparece.

Este é o amor das almas versateis, que não se vergam ao sacrificio, e que por isso mesmo são incapazes de metter hombros á cruz cujo peso devera ser repartido pelos dois. Os que amam sem previamente haver soffrido, amam apenas emquanto o amor não é soffrimento. E quem póde desfolhar a rosa sem ferir-se no espinho? Esses amam pouco. As lagrimas são a agua que baptisa na religião dos attribulados. A mocidade de Graça Strech recebera esse primordial sacramento. Dera a sua vida em holocausto á saudade. Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a luz da aurora, que lhe alvorecia sobre o tumulo da irmã, se foi decompondo em gradações prismasticas por feitio que elle, muito alma a dentro, pôde conhecer a nitidez das côres, o brilho das tintas casado á transparencia do cristal.

Desde então começou a amar como os que teem soffrido. «Tudo o que penso e sinto te direi,» segredára elle em Alcantara.

Estas palavras não eram apenas a promessa d'uma revelação;--eram a promessa da felicidade.

Os acontecimentos não permittiram que, antes de Coimbra, Rosina Regnau pudesse affastar de si a nuvem do ciume que de ha muito lhe opprimia o coração.

Muito primeiro o amára ella, porque o ciume nascera parelho do amor.

Parece que o destino porfiára em depôl-os no eden viridente de Portugal para mandar depois a serpente a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra ha sombras fadadas para o amor. Já o disse um poeta:

Quem nunca viu Coimbra Pela brisa embalada Do Mondego, Que de amorosa timbra Na margem reclinada Com socego, Não sabe o que é belleza, Ai! não conhece a filha Dos amores, Mais nobre que Veneza, Mais linda que Sevilha Sobre flôres.[11]

Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira n'uma das extremas do campo de Santa Clara, o poema das lagrimas da formosa Castro--o maior poema d'amor que se tem sentido em Portugal. Que phantasias que não tem o amor em Coimbra! É velha a doidice que se respira n'aquelles ares, porque já Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso, confiava á agua da fonte, que n'esse tempo ia jorrar nos jardins do paço real, os bilhetinhos namorados que a loura Ignez muito em segredo recolhia e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e Sousa: «Tales son las astucias de los amantes». Com perdão de Faria e Sousa, astuciosos são os escriptores que nos pintam amores fabulados de tão acertadas contingencias, como era a da agua, sem embargo dos seixos e hervagens, ser fiel correio do principe e da aia.

Eu contarei singelamente o meu caso, tal como aconteceu na hora em que o ciume de Rosina Regnau, como se já não fosse preciso para atiçar as labaredas do amor, se acalmava na mutua confiança das almas que se possuem.

Foi ahi por alguma copada sombra das margens do Mondego, onde, como disse Gabriel Pereira de Castro, o rio

... nas voltas se mostra arrependido De levar agua doce ao mar salgado,

que Rosina Regnau e Graça Strech descançavam n'uma das ultimas tardes d'agosto.

Aproveitavam sempre as horas feriadas do serviço militar para essas excursões, reguladas pelo toque das cornetas no quartel, porque só onde a sombra os escondesse poderiam dialogar, os dois, sem que ouvido estranho traísse o segredo da mudez de Rosina.

Ahi se indemnisava ella dos longos silencios a que era constrangida, e assim se foram estreitando os laços, que já tão cingida tinham a imagem da felicidade n'um e n'outro coração.

N'essa tarde Rosina Regnau intencionalmente encaminhou o dialogo para o episodio da morte de Bérnard, e a ponto veiu recordar as palavra de Graça Strech: «Tudo que penso e sinto te direi».

--Ah! não sabes, disse ella subitamente exaltada pelo ardor da vivandeira, que do cumprimento da tua promessa depende a realisação da minha felicidade!...

--Pois duvidas?...

--E não duvidaste tu de mim, quando em Alcantara soccorri o pobre _La goutte_?

--Perdôa-me...

--Sim, perdôo, não a ti, ao ciume, pois que para o ciume tambem peço perdão n'este momento. Ouve-me, portanto.

--Fala!... exclamou Graça Strech.

--Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que é preciso dissipar; um obstaculo no meu caminho, que é preciso vencer. O meu amor, que começou por dar-te a liberdade, não póde viver escravisado. Desde o primeiro momento te amei perdidamente. Emquanto tu dormias, veláva eu, para que as tuas palavras de soldado não fossem desmentidas pela tua physionomia de ferido sem eu perceber a verdade. Já então--mal o pensavas!--a minha vida dependia da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras alterações do teu semblante, como a mãe que observa, de noite, na solidão silenciosa do seu quarto, o filho doente que dorme. Tu não suspeitavas que pudesse entrar tamanha dedicação na alma d'uma vivandeira, e razão de sobra tinhas. As mulheres com quem eu vivia eram tão vis, que se riam do meu carinho para comtigo. E eu arrostava-lhes os chascos, os insultos, porque bem sabia que a culpa não era d'ellas, mas do destino que as tornou tão desgraçadas. Aspereza, injustiça, só me doía a tua. Não bastava amar sem esperança: o meu amor era recompensado com despreso. Tu eras nosso prisioneiro; não podias, portanto, soffrer que a minha pronuncia te estivesse recordando a cada hora a tua infelicidade. Quiz, porém, Deus que me ouvisses um dia com menos indifferença, quando conheceste que eu valia um pouco mais do que as outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me para instrumento da tua vingança. O que tu não suppunhas era que o teu sonho fosse a esse tempo o meu--dar-te liberdade! que eu contasse os instantes da tua vida pelas horas da minha! que eu quizesse ser para ti o que era o fiel molosso para o cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria. Se não pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem de envenenar um remedio para que o mesmo veneno nos matasse a ambos. Acredita; tinha. Mas sempre na tua bocca a palavra vingança! Sempre essa palavra horrivel! Eu bem sei que todo o homem, que vê a sua patria invadida, precisa vingar-se a si, e a ella. Mas esse annel que não mais te deixou não era da patria... Falavas de tua irmã, tens-me falado sempre d'ella. Comprehendo como se possa amar uma irmã, que era boa, que era pura, e que foi morta injustamente. Todavia comprehendo tambem que se as cartas as escreveu tua irmã, o annel póde deixar de ser d'esse anjo...

Nos labios de Graça Strech havia o tranquillo sorriso de quem sabe com que ardor é amado.

Quiz falar; ella interrompeu-o.

--Oh! por piedade, não sorrias, sem que esta duvida atroz se desfaça! Tenho tido a coragem de saber esperar este momento solemne e para mim decisivo. Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre a pensar em ti! Tão calada, que nem voz posso ter deante d'estranhos. E que tivesse! Havia de perguntar a alguem pela vida do homem que eu chamava irmão? Tu sonhavas de noite, como quando ficaste ferido em Alcantara, e sorrias. Acordavas, vias-me ao pé de ti, e acudias logo a falar de tua irmã... Oh! se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses sonhando com outra mulher que não fosse tua irmã, quando eu estava ali, sósinha, calada, sem patria, sem amigos, amaldiçoada, a velar pelo teu somno... Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme, José, e iria bater-me, avançando tão imprudentemente como o infeliz Bénard, até que as balas dos soldados da França se me cravassem no peito. Morreria pelo ingrato como os soldados morrem pela patria, e morreria contente por morrer amortalhada no teu uniforme... Vê, pois, bem a minha alma. Unicamente te peço que sejas sincero, ainda que a tua sinceridade tenha de ser cruel. Estamos a dois passos do Mondego. É-me facil procurar n'elle a maior altura da agua, se o coração me disser que me estás enganando... Mas não has de, mas não me deves enganar, porque pela memoria sagrada de tua irmã te peço que sejas verdadeiro...

E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos, o seio offegante...

--Pela memoria de minha irmã te juro que mais uma vez te repetirei a verdade--disse Graça Strech, cuja physionomia parecia irradiar a luz clara e pura dos que estão fazendo uma confissão sincera.--Tambem eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem eu tive ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado a soffrer. Se aquelle moribundo d'Alcantara houvesse denunciado, por um gesto sequer, que tinha outros direitos á tua dedicação, além dos de estar ferido e ser francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem meio morto, haver-te-ia fugido para me expôr á morte que encontraria em qualquer parte. Juro-te, pela memoria de minha irmã te juro, que isto o senti eu ao pé do pobre Bénard, quando te vi soccorrel-o. N'esse momento forjou o ciume as cadeias que nos teem agora aqui presos. Comecei por aborrecer-te, é certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha pobre irmã morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro me derrubaram a mim para que eu não pudesse defendel-a, e depois a assassinaram a ella, a minha mãe, e a minha avó. Meu pae, que já sei ter morrido no mesmo dia, porque houve participação official de ser reconhecido, foi vencido pelo azar do combate, não foi assassinado. E depois era um soldado, e um soldado em campanha ou mata ou morre. Mas as pobresinhas que mal faziam á França? Eu accordei do deliquio motivado pelo ferimento que recebi, sem saber o que se tinha passado. Estendi o braço e senti um corpo; apalpei e conheci roupas de mulher. Achei uma cabeça. Tacteei-lhe os contornos, e não me enganou a mão quando me pareceu ser aquelle o perfil de minha irmã. Era noite, bem sabes: dentro a escuridão; a tempestade fóra. Eu sentia vibrar a espinha dorsal como se fôra d'aço, fria como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia suster nas pernas. No cerebro ardia-me um vulcão; em derredor do craneo sentia a friura do gelo. E a luz mostrou-m'as, a ellas, minha irmã, minha mãe, minha avó, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das sombras que a interposição dos moveis projectava na parede, parecendo moverem-se, bracejar, escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o vento, lá fóra, parecia rir diabolicamente por ellas. Eram horrores da minha imaginação, eram visões da febre, porque eu n'essas horas incomparavelmente angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim mesmo para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o sangue d'ellas, empoçado no soalho, tão vermelho que parecia incendiar-se ao reflexo da luz! Foi então que a Providencia me soccorreu e me permittiu um esforço sobrehumano. Beijei minha irmã, abracei minha mãe, acariciei minha avó, falei-lhes, não sei o que lhes disse, não me lembra, e estremecendo do contacto das mãos de minha irmã, que pareciam de marmore, e que do marmore tinham os veios roxos e azues, tirei-lhe delicadamente do dedo, como se ella pudesse molestar-se,--ella, que era tão franzina!--este annel querido, sobre o qual proferi o meu juramento de vingança, que até hoje tenho cumprido, e que cumprirei até que Portugal succumba ou triumphe d'uma vez.

E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse ainda em meio das desgraças que historiava, pendeu ao peito de Rosina, extenuado, descóradas as faces, revoltos os cabellos, flammejante o olhar.

Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio, e docemente lhe pediu perdão de o ter compellido a avivar tão recentes e profundas dôres.

Graça Strech estava preoccupado, como se procurasse um pensamento que lhe entre lembrava; como se quizesse suster uma visão que se mostrava e fugia.

--Ah! exclamou de repente. Não, Rosina, não basta ainda. O teu amor reanimou o meu cadaver, eu devo-te a vida; quero abrir-te a minha alma para que a vejas bem, para que a sondes, e leias n'ella. A tua luminosa intelligencia já te permitte comprehender muitas palavras do idioma portuguez. Pois bem, aqui tens uma prova irrecusavel que não póde deixar a minima duvida no teu espirito...

E, desabotoando o uniforme, tirou o maço das cartas d'Augusta.

--É esta--continuou, procurando--é esta, lê aqui lê bem. Foi ha dois annos, no seu dia natalicio, que lhe mandei este annel. Vê o que o anjo me respondia. Lê, esta é a prova, lê: «O teu annel, José, o teu annel, que me pareceu acompanhar a tua alma, porque a tive todo o dia ao pé de mim, não me deixará até á hora em que a amortalhadeira m'o tire do dedo. Pedes desculpa de que seja liso, de que só tenha uma pedra!... Tontinho! O teu coração pésa mais do que o annel, e a avósinha diz que os anneis de muito feitio apenas são proprios das camponezas.» Vê, Rosina, olha para este nome--Augusta--o unico de mulher que pronunciei antes do teu...

--José! exclamára Rosina divinisada por uma aureola de condoída doçura, que parecia esbater-lhe o semblante no azul do céo.

A natureza dascaía na deliciosa morbidez do anoitecer. As labaredas que a ambos afogueavam o coração foram bastantes a seccar as lagrimas d'um e outro. Se eu quizesse passar por um escriptor tão casto como os que uzam adoçar o acre das situações violentas, diria que se ouvia rumorejar as folhas, sendo os labios que rumorejavam. Essas ultimas revelações tanto contraíram os elos da cadeia, que já não era possivel medir a distancia interposta ás duas almas embevecidas.

Se ali, n'aquellas paragens onde o grave Faria e Sousa achou que era torrão azado para localisar astucias de namorados; se áquella hora, como na tragedia de Goethe, estivesse ali Mephistopheles, bradaria com alegria satanica: _Perdida!_

Bem podia ser porém que alguma voz do alto respondesse: _Salva!_ Só se perde a mulher que não tem coração para comprehender o que é ser mãe.

[11] Do sr. Antonio de Serpa.

* * * * *

XIV

Quanto custa ser mãe

Em fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego o exercito commandado pelo general Wellington, repousando das passadas lides, se bem que já apercebido para resistir aos movimentos dos francezes que de novo ameaçavam invadir Portugal.

Beresford activamente se dedicava a exercitar e disciplinar as tropas, e a providenciar pelo que tocava a provisoes que se tornavam indispensaveis para a campanha que a todo momento se esperava, e cuja duração era imprevista.

O rei José havia entrado em Sevilha, no primeiro dia d'esse mez, á frente das suas tropas, e a nuvem que obscurecia o céo da Hespanha alongava-se já para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade que lhe refervia no bojo caliginoso.

N'esse tempo vamos nós encontrar Graça Strech na escóla militar do valle do Mondego, se bem que muito demudado o encontremos, e mereça especial attenção a tristeza que parece salteal-o nas horas em que o soldado se permitte ser homem. Procuramos á roda de si, e não encontramos a «muda», sua irmã. Inquieta-nos tão inesperada ausencia. Depois que comprehendemos o coração da Rosina Regnau, depois que passo a passo a acompanhámos nos lances angustiosos de sua attribulada mocidade, habituamo-nos a estimal-a, e já agora nos é magua o deixar de vêl-a.

Morreria acaso?

Algumas vezes se lembrára ella, quando vivandeira do exercito francez, de que uma bala perdida a mataria. É uma tradição de Vivandeiras, a do pelouro esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras dos soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia nem sempre se realisam as contas que a phantasia lança, e não é de presumir que dos soldados que manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse a bala destinada a roubar-lhe a vida. Tambem nas faces de Graça Strech não ha a tristeza sombria das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de melancolia que, a despeito de a querer concentrar, dá á physionomia um toque de soffrimento. Procuremos tirar-nos de tão saudosa incerteza, e saber o que se passára nos mezes que decorreram desde agosto de 1809 até fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a Graça Strech, n'um rapido dialogo com um companheiro d'armas, não poderemos fazer juizo seguro, mas esse será o fio de Ariadna que depois nos guiará no labyrintho de nossas pesquisas.

--Tens tido noticias de tua irmã? perguntou o soldado.

--Não tenho; nada sei da pobresinha! respondeu dolorosamente Graça Strech.

--Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não eramos irmãos, tambem nos custa! Estavamos habituados aos seus tregeitos, e o caso é que já os entendiamos como se fossem palavras! Que pena que não falasse! Bonita era! e tão meiga como bonita! Sempre aquelle sorriso doce para todos e para tudo! Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo...

--Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a saudade; depois Deus manda a resignação, e é o que vale.

--Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o que isso é. E depois tu sempre deves estar com teu cuidado, porque tua irmã ia doente.

--Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções fortes, talvez receios da nova campanha... Não sei. O que é certo é que a não julguei com forças de andar commigo em correrias atraz dos francezes, que é preciso enxotar pela ultima vez. Temos uma tia nossa na Allemanha. Veiu a Portugal ha annos, e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue italiano, e ir a bordo um passageiro allemão, que me pareceu homem compassivo, e que me prometteu acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que havia eu de fazer, quando a demora de minha irmã em Portugal seria a morte, e todas as circumstancias pareciam favorecer visivelmente o meu designio de a mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue a Deus do que ao compassivo allemão.

--E que tencionas fazer agora?

--Agora! Quem sabe quando chegará a hora de pertencermos a nós mesmos! Se eu morrer, ficará minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a victoria das nossas armas--porque nós não podemos succumbir depois de havermos triumphado duas vezes--irei buscal-a á Allemanha, e viveremos juntos até que um de nós deixe d'existir.

--Desculpa-me, Strech,--tornou o soldado condoído.--Mas eu também estimava tua irmã, e por isso te perguntei por ella. Como já partiu em dezembro, e eu tenho conhecido que andas triste, pensei que tivesses recebido noticia de que a pobresinha ia a peior. Como felizmente não se realisou a hypothese, desculpa-me. Olha... Estou em dizer que Deus traga a guerra depressa para nos distrairmos. A guerra embriaga como o vinho, e a embriaguez é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que vejo, soffremos ambos da mesma doença. Adeus, Strech.

Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação cabal, nem... verdadeira. Graça Strech via-se obrigado a enganar as pessoas que lhe perguntavam por sua «irmã», se bem que o engano apenas se limitasse aos motivos da partida e ao destino de Rosina. Elucidemos.

Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se os symptomas da maternidade. Esta desgraça, cujas funestas consequencias não previram na loucura do seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro, subitamente entenebrecido no horizonte que o poetico sol de Coimbra azulejava nas tardes em que as margens do Mondego lhes enfloravam os ardentes idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque não se abre, quando a ancia da felicidade a impelle, e porque se fecha sobre as mais doces illusões, movida por qualquer viração que mais branda e mais embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, acho a porta do Paraiso muito peior que a serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a gente poderia fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta. Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos com as paizagens do éden, com as melodias eolias do arvoredo, com o maná que o céo deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente adianta-se. Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a porta: é-nos defesa a saída. Estamos encarcerados. A serpente triumpha.

Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina Regnau em Portugal. Era a primeira que, inculcando-se irmã de Graça Strech, a sua deshonra seria desaire para o irmão. A segunda estava em que o conservar-se occulta no reino, em estado de não poder acompanhar o exercito, seria imperdoavel n'uma epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava odio, e em circumstancias em que o deixar de falar seria quasi impossivel.

Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello horrivel, a necessidade da separação. O mesmo foi verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas dos castellos encantados que ambos haviam architectado. E a felicidade é como todos os edificios: leva muito tempo a construir e basta um instante para desabar.