O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular

Part 6

Chapter 63,861 wordsPublic domain

E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma infamia inaudita, a ella, que momentos antes lhe pedia unicamente, a troco da liberdade promettida, que a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego das Ardennas.

Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos perigos d'uma traição.

Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas do inferno, e se lhe requeimou a garganta como a do tigre dos palmares quando tem sêde de sangue.

Era, porventura, um soldado francez que o vinha apunhalar, de noite, suppondo-o a dormir, talvez por ciume da barregã com quem passára a noite, ou para vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra os francezes.

Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por infamia. Luctaria braço a braço, encarniçadamente, silenciosamente, até que um d'elles ficasse prostrado.

Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, em posição de melhor se poder erguer para responder á aggressão.

E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, que o supposto soldado francez, conhecendo de certo o que lhe ia na alma, impuzera silencio com um gesto e dissera a alguns passos de distancia:

--Sou eu.

Graça Strech reconhecera Rosina.

O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se no anjo da liberdade. Não lhe vinha trazer a morte; vinha restituir-lhe a vida. Como poderia elle receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino, gentil, cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o segredo do seu disfarce, cujos cabellos, ennovelados a um e outro lado, denunciavam as tranças da mulher enroladas em cachos?

Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o habito do soffrimento cria, e a noite avulta.

--Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e aproximando-se.

E, como se por encantamento um genio bom lhe deizasse cair ás mãos o fardamento d'um soldado, igual ao que vestia, acrescentou:

--Não ha tempo a perder. Vista-se e venha.

E retrocedeu a esconder-se á porta, onde as sombras mais se condensavam, e a levantar do chão o saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu trage de vivandeira.

Não se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar a sala sem ser percebido. Nos olhos dos que dormiam havia as nuvens precursoras da noite eterna, que nada deixam vêr para fóra do corpo. É o recolher-se da alma que vae partir.

As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente.

--Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mão.

Graça Strech desceu conduzido pela vivandeira.

Quando a sentinella deu tino de que se aproximava alguem, cumpriu a praxe militar do--_Qui vive?_

Um dos soldados, que levava ao hombro a bolça da ambulancia, respondeu: _L'empereur_;--e quando já a sentinella podia distinguir os uniformes, acrescentou com voz firme e sã em francez.

--Soldados da ambulancia com ordens urgentes para o quartel general.

O soldado que respondera era, como calculam, a vivandeira das Ardennas.

Chegados á rua, Rosina Regnau apertou convulsamente o braço de Graça Strech e segredou-lhe:

--Nunca se esqueça de que n'este dia, e a esta hora, lhe dei a liberdade, roubando-a a mim mesma.

--Nunca! respondeu elle commovido.

E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram o passo, caminhando sem norte.

Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam patrulhas francezas.

Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio, não sem que sentisse palpitar vertiginosamente o coração receioso de ver desabar n'um momento a felicidade sonhada.

Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro, a cuja margem pararam algum tempo vacillantes no que fariam e, não obstante serem ambos corajosos, quasi amedrontados. Só então, chamados á realidade, olharam para dentro de si mesmos, conscientes da arriscada situação em que se encontravam.

Pareceu-lhes, porém, ouvir o compasso de remos na agua, e tanto bastou para se illuminar d'um raio d'esperança a alma da vivandeira.

Foi Graça Strech quem se aventurou a chamar o barqueiro.

Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido algum tempo, viram avisinhar-se do caes o vulto negro do barco.

N'aquelle tempo eram tão frequentes as fugas nocturnas, dos que presumiam mais demorada, do que foi, a occupação franceza da cidade, que alguns barqueiros dos logares convisinhos, inteiramente privados de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro por horas mortas para receber a esportula dos fugitivos.

Graça Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco.

Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez, mas Graça Strech acudiu a serenal-o com estas palavras:

--Somos portuguezes, amigo. O habito não faz o monge. Salva-nos, e não te importe o mais. Afasta-nos, o mais depressa possivel, da cidade.

* * * * *

IX

Entre a vingança e o amor

Foi o barco singrando Douro acima lentamente.

Graça Strech lançou mão d'um remo e auxiliou o barqueiro, não sem haver arrancado de si mesmo, com fogosa violencia, a jaqueta do uniforme francez.

--Que peso que me fazia isto! disse elle sorrindo a Rosina.

E voltando-se para o barqueiro:

--Onde estará agora o resto do nosso pobre exercito, sabes? perguntou vivamente.

--Anda para Riba-Tamega, senhor. Desde hontem que vae para lá o inferno, tão certo como ser hoje 19 de abril, e chamar-me eu o Tunante de Pé-de-Moira.

--Não sabes mais nada?

--Eu, senhor?... tartamudeou o barqueiro relanceando um olhar de medo ao soldado francez que ia sentado é pôpa.

Graça Strech comprehendeu-o, e acrescentou:

--Pódes falar. Não te disse eu que o habito não faz o monge? Aquelle soldado francez, que tu vês ali, é uma mulher.

--Uma mulher! repetiu o barqueiro.

--E de mais a mais faze de conta que é... muda, disse sorrindo maliciosamente Graça Strech.

A esta palavra, se elle houvesse reparado, veria brilhar extraordinariamente os olhos de Rosina Regnau, que encontrára n'esse momento, melhor ainda, n'esse vocabulo, a chave d'um enigma que a preocupava dolorosamente.

--Pois então, lá vae tudo, p-a-pá-Santa Justa, tornou facetamente o barqueiro. Os francezes pegaram hontem fogo á villa d'Amarante. Hoje de manhã havia uma procissão de gente que vinha fugida da villa. Em Pé-de-Moira ficaram dez pessoas. Foram ellas que contaram o que se havia passado.

--Quem commanda os Portugueses, sabes?

--É o general... Ora que me não lembra agora! Elle tem assim um nome a modo d'arvore...

--Silveira? perguntou com anciedade Graça Strech.

--Tal qual: Sirveira, deturpou o barqueiro.

Aclarava-se o céo com os primeiros alvores do dia 20 d'abril.

Rosina levava os olhos postos no arvoredo das margens, alanceada, porventura, de vagas saudades das florestas das Ardennas.

--Agora, á luz d'esta candeia, apostrophou o barqueiro apontando para o sol nascente--já eu não me enganava com o sordadito...

Rosina sorriu melancolicamente, como se entendesse o barqueiro por uma fina intuição de mulher apaixonada, e Graça Strech perguntou em francez pousando o remo:

--Vae triste! É o arrependimento que chega?...

A vivandeira respondeu energicamente com um gesto negativo, como se em verdade fôra muda.

--O peior--disse o barqueiro improvisamente--é que se virem de terra que vae aqui um soldado francez, são capazes de fazer fogo contra todos nós. Os diabos o jurem! Mas se ella não é franceza p'ra que diabo lhe fala o senhor n'esses latins?

--São coisas... respondeu austeramente Graça Strech.--Tens razão, tens... no que lembraste.

E, voltando-se para Rosina, traduziu o pensamento do barqueiro.

--Vae ali uma manta, e a cachopa que se embrulhe n'ella, se quizer, observou o Tunante de Pé-de-Moira, com certo orgulho alegre de tomar parte n'uma aventura que desde logo presumiu amorosa.

Rosina, aconselhada por Graça Strech, acceitou o offerecimento, e despiu a fardeta.

O Tunante, orgulhoso de poder fazer concessões, acrescentou:

--Minha mulher tem lá por casa uns trapos, que não valem nada. Assim que chegarmos, eu irei buscal-os.

Inteirada do offerecimento, Rosina abriu a bolça da ambulancia e tirou com presteza o seu corpete, saial e _bonnet_ de vivandeira, arremessando-os ao rio.

--Que faz? perguntou Graça Strech.

A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle movimento quizesse dizer:

--Atiro á agua o passado.

--Porque não fala, Rosina! Ainda não ouvi a sua voz desde que entrámos n'este barco! Quererá tomar a serio o gracejo da sua mudez, com que eu procurei ludibriar a curiosidade do barqueiro?

--É que, respondeu ella affectuosamente, me sinto preoccupada ao estudar o papel que devo representar ámanhã...

--Mas... não percebo!

O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender o labio inferior ao ouvir a pronuncia de Rosina. Para elle, que tinha suas fumaças de rato da agua, como quem diz _lobo do mar_, era aquelle um mysterio impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse realmente ali, em companhia d'um portuguez, uma mulher franceza, que lançára ao rio um fato em que brilhavam as côres sinistras da França, áquella hora em que o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se erguiam como barreira entre o povo d'um e outro paiz?

O Tunante de Pé-de-Moira não sabia historia, e ignorava o prodigio d'estas affinidades individuaes que se escondem entre as correntes oppostas dos sentimentos nacionaes. São grãos d'areia perdidos no oceano; é preciso descer ao fundo do mar para encontral-os. Outra pessoa, que não fosse rude, não se admiraria. A historia diz que, pouco depois da invasão, o marechal Soult se vira fechado n'um circulo de cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques dos que já se presumiam aulicos de D. Nicolau I. A historia refere que semelhantemente alguns foram os corações que se renderam á prepotencia de Junot, e que era contra esses que se erguia tremenda a grande voz popular: «Morra Junot, e mais quem d'elle tiver dó.»[6] Finalmente, ainda conta a historia que Piton, um sargento do corpo de policia de Lisboa, fora promovido a alferes, pelos grandes serviços que prestou aos francezes, com os quaes se retirou para França ao depois.[7]

O Tunante, se soubesse historia, não se admiraria portanto de que o coração ainda tivesse um élo para ligar portuguezes a francezes, e, se houvera adquirido maior conhecimento dos homens e das coisas, saberia que primeiro se verga ao tufão das paixões a palmeira flexivel e solitaria do deserto, que o roble secular da floresta, duas vezes forte--porque é robusto e porque não esta só.

A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se ir, em doce voluptuosidade, embalada nos braços vaporosos do vendaval, que são os primeiros, e por ventura os unicos, que se estendem para ella.

O roble cede apenas quando o tronco está corroido pelos vermes ou abalado pelas luctas da tempestade.

Os aulicos de Soult e os thuriferarios de Junot tinham as entranhas comidas pelas serpes da perfidia, e a alma vergastada pelo açoite da cupidez.

Rosina era a palmeira do deserto, que verga sem saber que vae ser arrastada para longe do seu torrão natal, e que o simoun a despenhará n'um abysmo inevitavel.

Era o amor que a dementava a extremos de renunciar a sua patria, se bem que a cada instante lhe pungisse no coração uma vaga saudade das Ardennas; era finalmente um sentimento nobre que a impellia a essa loucura, serena postoque ardente, resignada postoque dolorosa.

A que mobil obedeceriam, porém, as damas portuguezas, que, um anno antes, se banquetearam e valsaram, no theatro de S. Carlos, em ruidoso sarau e na presença de Junot, com a officialidade franceza?

Suas excellencias, as beldades da capital, eram recebidas no vestibulo do theatro por quatro pagens, loiros e provavelmente rosados. Sahia a esperal-as ao limiar da platéa, d'onde corria um tablado a nivelar-se com o palco, o general Margaron, que fazia as honras da casa. Ao fundo da scena havia trez cadeiras de braços, que se conservaram devolutas até á chegada de Junot, e em frente o busto de Napoleão a resaltar sob um docel armado com quatro bandeiras em que se liam os nomes de outras tantas batalhas assignaladas: Marengo, Austerlitz, Iena e Friedland.

Já as damas ouviam requebradas os galanteios dos officiaes de Napoleão, quando entrou Junot á maneira d'imagem em andor, isto é ladeado por duas das mais formosas portuguezas. Então começou o delirio da valsa, que rodou em circulos vertiginosos pela sala, até que a meio do tablado se abriu uma tenda de campanha, onde se serviu a ceia unicamente ás senhoras. É de suppor que suas excellencias se volvessem galliciparlas para melhor poderem acompanhar a eloquencia dos officiaes francezes nos brindes.

Os convivas do sexo masculino estavam vexados--segundo diz candidamente o já citado José Accursio das Neves--e espreitavam dos camarotes as viandas e as esposas, resignando-se ao exiguo prazer de respirar os perfumes d'umas e outras.

Em redor do edificio do theatro estavam postados quatro mil aguadeiros, de barril ao hombro, medida preventiva ordenada por Junot, para acudirem, em caso de maior sinistro, ao duplo incendio da lascivia e da gula.

Parece porém averiguado que não funccionaram por serem permittidos dentro os escandalos.

D'esta combustão, que afogueou o interior do theatro de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808, tambem não sabia o Tunante de Pé-de-Moira.

Que ignorante aquelle!

Entenda-se todavia que não veiu á tela o facto para avultar a necedade do barqueiro, senão que para desculpar o coração e a mocidade da pobre Rosina Regnau. E agora é tempo de reatarmos o interrompido dialogo.

--Reparou, replicou a vivandeira a Graça Strech, que ia calada. Ia a pensar. Bem vê que é desculpavel a concentração em quem agora renasce para a existencia. Não creia porém que o não ouvia. Ouvia sim... Quer uma prova? Acaba de serenar a minha alma com uma unica palavra, de resolver um problema, como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor não precisa de pensar no futuro. Já o escolheu. Vae combater, vae realisar o seu desejo, tão facil de realisar que lhe basta apenas encontrar o exercito portuguez. Eu comecei a realisar o meu: era acompanhal-o. Bem; aqui vou ao pé de si. Mas depois? mas ámanhã? mas sempre? Procurar o exercito francez era entregar-me á morte. Seguir o exercito portuguez era denunciar-me no primeiro momento em que me ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia facilmente se imaginam... Seriam tambem a morte... Não, não, eu quero viver, preciso de viver, com o senhor e como o senhor. Viverá para a sua vingança; eu viverei para o meu... amor. Sim, pode acreditar na verdade d'esta palavra, aqui, a esta hora, depois, de eu haver atirado ao rio o meu fato de vivandeira... O senhor disse ao barqueiro: Faze de conta que é muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em diante sempre que tenha á volta de mim ouvidos estranhos. Reservarei para o senhor as minhas palavras e o meu coração; para todos os outros serei muda, idiota, louca, se tanto for preciso. Mas deixe-me vel-o, seguil-o, falar-lhe só a si, percebe, só a si! Não estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira é como um cartuxo de polvora: cheguem-lhe lume, e ella arderá. O senhor bem sabe que eu sou vivandeira...

Graça Strech queria falar.

Ella atalhou-o:

--Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem de m'o dizer. Um soldado deve ser corajoso. O ceguinho das Ardennas, quando vae a qualquer casa onde as crianças teem medo do seu cão, manda-o embora, e elle obedece-lhe. O senhor diga-me tambem: «Rosina Regnau, não te esqueças de que eu sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert». Bem sabe que quando ha guerra não é difficil a gente encontrar repouso. Ás vezes, no caminho, sae-nos ao emcontro uma bala perdida. Quando a gente é feliz, a bala cae-nos aos pés, mas quando só falta calar-se o coração para morrer, a bala cae no coração.

--Rosina! Rosina! murmurou Graça Strech, profundamente commovido.

Ella atalhou-o de novo:

--Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o. Ámanhã serei--a muda. Serei uma sua parenta, uma louca com quem o senhor reparta piedosamente da sua marmita. Dirão: Ali vae a louca! E eu não poderei voltar-me sequer, porque a louca será ao mesmo passo surda e muda. Se porém o calor da lucta não só fizer que se enfastie de mim, mas tambem que me odeie, como a principio me odiava, então não me mande embora, denuncie-me, entregue-me. Bastará uma palavra sua para fazer-me emmudecer para sempre. Bem vê que se o encargo é pesado, o resgate é facil...

--Offende-me, Rosina, veja bem que me offende! disse elle ardentemente. Amo-a... sim, tambem eu posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria, Rosina, quem o diria ha tão pouco tempo ainda! Como é feito o coração do homem! Odeio os seus irmãos e amo-a a si... Pela primeira vez na minha vida sinto amor por outra mulher que não fosse...

--Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente. Não quero saber quem amou; seja esse o segredo do seu annel.

--Acredite, Rosina, que o amor de que este annel é recordação era o mais puro amor que ha na terra... A pessoa a quem elle pertencia era minha irmã, acredite, era minha irmã.

--Sua irmã! repetiu ella incredula e ironica. Bem vê que o sentimento que esse annel lhe inspira não é a saudade, é o enthusiasmo...

--Oh! que não sabe como eu a amava! São d'ella tambem estas cartas.. Póde vel-as, desenganar-se...

--Não as entenderia.

--É verdade. Não as entenderia.

--E que certeza me dariam as cartas de que eram da mesma pessoa que possuia o annel? Que sua irmã lhe escrevesse era natural... Não preciso de provas para acredital-o...

--Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha irmã, que eu vi morta, fria, hirta, livida... Mataram-n'a, Rosina, mataram-n'a... E ella era tão formosa, tão innocente, tão timida! Mataram-n'a os francezes, a ella, que lhes não fazia mal nenhum, a ella, que era meiga como uma pomba!... E não contentes com um assassinio, commetteram mais dois na minha familia. Ao pé do cadaver d'Augusta havia outros cadaveres: o de minha mãe e o de minha avó. Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso eu odiava este nome. O annel, cujo segredo não acredita, é um legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca me peça mais do que eu lhe posso dar. Nunca me peça compaixão, clemencia... Era impossivel! Sobre este annel jurei vingar-me. Bem vê que é delgado, fino, como o dedo que cingia. Pois elle é a unica barreira que póde haver entre mim e Rosina, quero dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena posse do meu coração... Viverei, sim, entre este annel e Rosina; entre a minha vingança e o meu amor... Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar a liberdade que me deu. Não tem de que me accusar... Comprehendo-a, Rosina, acredite que a comprehendo. A sua alma é tão extraordinariamente grande, tão poderosamente forte, que chega a assombrar-me a coragem do seu amor... Eu conheço que vae raiar para mim uma nova aurora. Quizera poder-me dar completamente ao seu amor, viver d'elle e só para elle, mas infelizmente a aurora que vae raiar nasce tinta de sangue, e sangue... de seus irmãos.

Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no coração. Parecia-lhe impossivel que a saudade d'uma irmã despertasse em Graça Strech tão dolorido enthusiasmo. Se era essa a unica recordação ligada áquelle annel, que phenomenal, que afflictiva e ao mesmo tempo que energica não era a alma d'esse homem! Cada vez o amava mais por que cada vez lhe parecia maior. E todavia, entre elles, tão germanados pela impetuosidade dos sentimentos e pela virilidade do animo, medeava uma barreira, posto que delgada, insupperavel--o annel mysterioso. Ella quereria tirar-se d'aquella duvida cruciante, adquirir, ainda que á custa de sacrificios, uma convicção, embora funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o mais, a duvidar, a ter ciumes?

Cerca do meio dia abicou o barco a um reconcavo sombrio, perto de Pé-de-Moura, onde o barqueiro saltou em terra para ir buscar o fato promettido. Antes d'elle desembarcar, Graça Strech lançou-lhe a mão ao braço, e disse austeramente:

--Tens filhos?

--Saiba v. s.ª que tenho quatro. Por elles me exponho á morte todas as noites no rio...

--Pois bem. Por elles me jurarás que não dirás a ninguem palavra do que viste e ouviste aqui.

--Juro, senhor...

--Agora recebe todo o dinheiro que resta a um soldado.

Uma hora depois, Graça Strech, saltando á margem, dizia a uma camponeza que o seguia:

--Para Amarante.

E a camponeza, como se só tivesse sorrisos e não palavras, sorria.

Já dissemos que era aquelle o dia 20 d'abril.

Quizeram os francezes, depois da invasão do Porto, estender a sua victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente se assenhorearam de Valença e Vianna, tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes, mas foram duas vezes repellidos n'essa tentativa.

Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham mandado sobre Amarante no dia 9 uma força, que recuou perseguida pelo general Silveira. Appareceu porém, reforçada, no dia 15, travando combate em Manhufe e Villa Meã durante trez dias para dar tempo a soccorrel-a os quatro mil homens de Loison e De Laborde, que, partindo de Guimarães, lograriam colher os portuguezes pela rectaguarda.

A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento com um rapido e habil movimento sobre Amarante. Os portuguezes occupavam a margem esquerda do Tamega; os francezes a direita.

O empenho do inimigo era atravessar a ponte. Desesperados pela valorosa resistencia dos portuguezes, pegaram fogo, na noite de 18, a toda a villa. A crueza do inimigo mais pareceu atiçar a coragem dos nossos, cuja resistencia recrudesceu no dia immediato, apesar de reforçados os francezes pelas brigadas de Sarrut e Marisy.

Estas eram as evoluções das tropas inimigas, em Amarante, á hora em que deixamos Graça Strech e Rosina Regnau em caminho do acampamento portuguez.

Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar ás armas d'Apollo que de Marte, encarecia no seguinte soneto a gloria do general Silveira, cuja tactica elle provavelmente estivera contemplando de sitio aonde já não podiam chegar pelouros:

Uma nuvem de fumo o ar povôa, E do Tamega enluta as margens frias, O portuguez canhão quatorze dias, Sem descanço algum ter, fuzila e trôa.

De um lado a outro lado a morte vôa Por entre essas crueis artilharias, E perdendo as antigas ousadias, Curva ao duro francez a altiva prôa.

Amigos hespanhoes, nação brilhante! Eis como cá seguimos vossa esteira, Eis nossa Saragoça, eis Amarante.

Os olhos ponha em nós a Europa inteira, E veja, em amplo quadro flammejante, O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.

Pena foi que Graça Strech precedesse alguns dias a gestação do soneto escripto em honra de Silveira, porque, de contrario, se topasse o poeta a versejar em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu vivissimo odio contra os francezes, para o meio da infatigavel fuzilaria que durante quatorze dias sinistramente illuminou as aguas do Tamega.

O que valeu foi que, se houve poetas para incensar metricamente Silveira[8], houve tambem soldados que denodadamente pelejaram pela patria.

E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia agora ser augmentado com um soldado que seria o primeiro a romper fogo contra o inimigo.

Deixar lá o poeta dizer que as margens do Tamega eram _frias_ n'aquelle tempo. Os poetas dizem tudo, e tudo podem dizer...

[6] «Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima villa de Amarante». etc., por P. F. de A. C. de A.--1814, pag. 54.

[7] «Historia geral da invasão dos francezes em Portugal», por José Accurcio das Neves. Tomo I, pag. 282.

[8] Veja-se _Elogio de Silveira_, pelo padre mestre dr. fr. F. de S. T., e _Silveira_, poema por J. S.

* * * * *

X

A hora do resgate

Quatorze dias durou, como dissémos, a heroica defeza da ponte d'Amarante.

Foi aquella uma proeza que requeria desfecho condigno, o que infelizmente não aconteceu. Reforçado o inimigo ao decimo terceiro dia de combate, e animado pela presença do marechal Soult, preparou-se para uma lucta decisiva, que o nevoeiro com que amanheceu o dia seguinte viera inesperadamente coroar.