O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular

Part 5

Chapter 53,913 wordsPublic domain

A toda a hora, tudo ali lhe recordava esse horrivel drama de sangue, que reputaria ainda sonho infernal, se a memoria de trez cadaveres o não chamasse á realidade. Tudo eram mulheres mancommunadas com os invasores, tudo feridos e prisioneiros, que de continuo amaldiçoavam, esporoados pela dôr physica, a França e o Corso. A lingua que se falava era a d'ellas, mesclada de raras palavras hespanholas para melhor se fazerem entender dos que não tinham a illustração bastante para comprehendel-as. Não será preciso observar que Graça Strech não desconhecia o idioma francez.

A principio confundiam-se-lhe no cerebro enfraquecido todas as sinistras visualidades d'aquella tormentosa phase de sua vida. Depois, á medida que ia cobrando forças, não só entrou de raciocinar ácerca de Rosina, como lhe acudiu a lembrança de seu pae, cuja morte só o tempo comprovára, e a consciencia da sua propria situação. Estava prisioneiro, guardado á vista por sentinellas francezas, e todavia havia jurado vingar a morte da sua familia. Esta idéa infernou-lhe as primeiras horas de lucidez. Era impossivel despedaçar as cadeias, romper por entre as sentinellas; não queria de modo algum expôr-se á morte que o roubaria á vingança. E o sentir no dedo o contacto do annel, em que se coagulára uma gota de sangue seu, ou de sua irmã, exasperava-o ao extremo de cair prostado no leito.

N'estes lances acudia meigamente Rosina Regnau, chamemos-lhe assim, a soccorrel-o com notavel dedicação. Umas vezes a repellia elle com ingratidão brutal, quando a accentuação franceza lhe coava ás entranhas estremecimentos de raiva, outras fitava na vivandeira o olhar amortecido como a dizer-lhe que a prostração seria passageira. Na vespera do dia em que estamos, teve Graça Strech uma idéa que para logo reputou auxilio providencial. Lembrou-se de que só por intervenção de Rosina poderia evadir-se do hospital de sangue. Tratou pois de corresponder á solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingança sob a mascara de ternura. Immediatamente o dominou este proposito, e a si mesmo prometteu nunca mais receber Rosina com intermittencias de rancor ou azedume. Difficil era o cumprimento d'esta promessa. Não se mascára facilmente o coração.

Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã. Umas eram queixumes de rôla solitaria confrangida da tristeza alpestre das Chãs; outras eram hymnos de esperança, votos de felicidade commum, vagas alegrias dos sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se a mulher; n'outras a creança. Umas eram a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a tristeza d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio de sol doirado pela primavera... Ou antes, como o leitor poderá classifical-as, as primeiras eram o presentimento da desgraça imminente, as ultimas eram o cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua patria.

Vejamos:

«_30 de novembro de 1807._--Meu irmão.--Não sabes como soffro horrivelmente, receiosa dos perigos que virão. A avosinha tambem está muito afflicta depois que os francezes entraram em Abrantes. Já cá sabemos da partida da familia real, apezar de tu, grande dissimulado, m'o não haveres dito! O padre capellão anda sempre a contar dinheiro e a ralhar com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale a ambas, a mim e a avósinha, para nos tranquilisar, é o Teixeira. Eu, por mim, peço todos os dias a Deus que não aconteça mal algum aos portuguezes...»

«_18 de setembro de 1808._--Meu José--Graças a Deus, que se dignou ouvir as minhas continuas orações! O Teixeira esteve hontem á noite a contar-me tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez, sem haver acontecido desgraça de maior á nossa familia. Queira Deus que continue a paz para que tu possas vir vêr-me brevemente. A noticia do Teixeira deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de novo a felicidade! Eu creio que não tenho coragem para soffrer... Dá um beijo muito demorado á mamã e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha diz que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá... logo que possas. O beijo á mamã que seja muito longo, muito longo... Não te esqueças. Tua--_Augusta_.»

Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas ao lêr estas cartas, especialmente a ultima. Estava alli todo o coração de sua irmã, a alegria da avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida dos seus negros receios, phantasticos uns, justificados outros.

Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme ser importuno, Rosina Regnau, e com encantadora timidez perguntou:

--Chorava?

--Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu Graça Strech com doçura meiada de altivez e fingimento.

--São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou ella com sincera simplicidade.

--Por quê?

--Porque choram ás vezes.

--Ainda a não vi chorar!--E, como se instantaneamente deixasse resfolegar o rancor latente no coração, acrescentou:--A polvora queima os olhos e o coração, e Rosina é quasi um soldado... francez.

--Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.--Esquece-se de que tambem é soldado e chora...

Graça Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das suas palavras:

--Tem razão. A desgraça dá esta incoherencia aos pensamentos...

--Julga-se então muito desgraçado?

--Pungente ironia que só pode vir... d'ahi! retrucou sobremodo exaltado o convalescente. Pois pergunta-se a um prisioneiro, a um ferido, a um homem mil vezes deshonrado, se é infeliz? Onde aprendeu esse cynismo de vivandeira? Onde havia de ser! Na taberna e no quartel. Só lá é que se fala assim...

E, como ella chorasse á beira do catre:

--Sabe que eu ainda não estou inteiramente curado, Rosina? Parece-me que deliro ás vezes! Agora delirei eu. Não... não delirei. Conheci que era mais piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver até onde chegava a sua sensibilidade... Perdõe-me a experiencia... Vejo que ainda tem lagrimas... sim... tem lagrimas... não posso duvidar... está chorando!

--Não seja mau para mim, soluçou Rosina Regnau. Eu tive pena de vêr o senhor a lêr e a chorar... De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas para a mão no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as... Pois não se lembra?

--Não. E viu-as alguem? leu-as alguem?

--Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, porque o senhor, quando lh'as dei adivinhando de certo o seu pensamento, olhou para mim...

--Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...

--Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima qualquer cousa que não tem valor... Eu tambem tenho um d'esses thesouros que nada valem... É...--E calou-se, receiosa de proseguir.

--É?

--A madeixasinha de meu pae, que era capitão do exercito.

--Capitão? perguntou Graça Strech.

--Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada, entregou-me ao velho Regnau com esta madeixa que era o seu unico legado... Nada mais tinha que me deixar...--E tirou do seio a sua reliquia, sobre a qual foram cair duas lagrimas ardentes.

Graça Strech, subitamente commovido, attentou na vivandeira que tinha baixado os olhos, como se quizesse esconder o pranto.

--Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar este thesouro, sobretudo se estou triste. Que mais tenho eu no mundo? Nada. Esta madeixasinha da minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia. Estas mulheres--e indicou as demais vivandeiras--nem sequer se lembram de que tiveram pae! Até lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir atormentada de remorsos a consciencia.--Ellas querem-me mal, bem o sei. Que me importa? Eu tenho o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me protegido com a sua misericordia. Sou a filha do regimento, e ninguem offende uma filha. Estima-me; estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem me lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma ação boa! Vivo só, completamente só, senhor. Sou digna da compaixão de todos, acredite, porque sou infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está ouvindo n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz, que comprehendo as desventuras alheias. Pareceu-me que o senhor tinha maguas secretas. Inspirou-me sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não deve ser agradavel, porque emfim eu sou franceza e o senhor é portuguez. Mas que culpa tenho eu de haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador é quem manda; nós não temos culpa nenhuma: obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos portuguezes. Até se o senhor algum dia precisar do meu prestimo... Eu não valho nada... mas verá que ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... O que eu queria é que me tratasse bem. Não faço mal a ninguem, porque não se tira proveito nenhum de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas fui eu quem o feriu?...

--Não, Rosina, não! atalhou Graça Strech enternecido a lagrimas. Mas feriram-me na alma, bem fundo, muito fundo... Sou um grande desgraçado. Se lesse estes papeis, que são tambem a minha unica riqueza, veria que o sou. Eu tenho apenas de meu estas cartas; Rosina tem apenas a sua madeixasinha. Somos irmãos na desgraça. Eu sou filho d'um capitão portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina é filha de um capitão francez, que tambem não existe. Ainda n'isto irmãos! Bem sei que não tem culpa de haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi... Offendi, que o sei eu. Deite tudo á conta da minha arrebatada mocidade e dos meus soffrimentos. Mas é que este abysmo cavado por Napoleão entre as duas nações é incommensuravel, acredite. O abysmo chama o abysmo... Jámais correu sangue impunemente... A guerra faz dos homens leões... E que guerra esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo--da virgindade, da honra, da innocencia! Oh! que os seus irmãos tremam das represalias... Medonhas devem ser... Não se opprime assim um paiz inteiro... A estrada por onde fugiu Junot está atravancada de cadaveres, mas ainda cabe por ella o exercito de Soult. A hora do resgate será tremenda, Rosina. Fuja, fuja emquanto é tempo, pomba que vive entre milhafres. Fuja com a sua innocencia. Eu comprehendo, eu acredito que é boa, e casta. Mas não encontrará em Portugal coração que possa acceitar o seu amor, alma que prese os thesouros da sua. E sabe por que? Porque entre um portuguez e uma franceza medeia n'esta hora uma barreira invencivel... E essa barreira está em pouco, mas não haverá ahi exercitos que a transponham. É um maço de cartas, um annel, uma madeixasinha talvez. Supponha que um homem havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria; que seu pae era primeiro que tudo um soldado, e que um soldado era para elle o inimigo... Chora, Rosina! As suas lagrimas são ainda mais eloquentes que o seu silencio... Pois supponha que mataram meu pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho noite e dia nos ouvidos o clamor da vingança, que eu sou um homem que já não vivo para mim, mas para os que morreram...

E, exhausto de forças, caira sobre o travesseiro, pedindo soccorro com o olhar, em que subitamente se apagaram os fogos da exaltação.

Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos hospitaes, apenas interrompido de espaço a espaço pelos gemidos de alguns portuguezes que anhelavam a morte, porque só n'ella encontrariam o supremo resgate.

Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos seus braços um homem que desejava viver para vingar a morte da mulher amada. A excitação febril do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppôr que essa mulher fosse apenas irmã, ou antes que a desgraça d'esse homem fosse tamanha que tivesse de vingar a morte de uma familia inteira.

Como, porém, Graça Strech lentamente parecesse recobrar alento, inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente repetiu:

--Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira, acredite que Rosina Regnau será sempre a mesma...

* * * * *

VIII

O anjo da liberdade

Foi-se restabelecendo o doente.

Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido sufficientemente para encetar a sua obra de vingança. Toda a sua attenção se concentrava na idéa fixa da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, a solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se em tão carinhosa dedicação estava occulto o germen do amor, se era aquella a mascara da alma apaixonada que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias, não tardará que o saibamos. Todavia os seus sorrisos, posto que doces, revelavam tristeza. O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o destino a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas por que soffria? Porque esse homem--suppunha-o ella--amára doidamente, com o fogo dos primeiros amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente da mulher amada. Porque esse sangue clamava vingança, e elle esperava apenas pela hora tremenda da represalia. Porque essas cartas que relia a toda a hora eram outros tantos protestos contra a tyrannia dos que venceram. Fossem dizer ao coração d'esse homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante na terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te mataram eram meus irmãos, mas quem te resuscitará serei eu. Com o sangue do cadaver, que desceu á tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade futura.» Não podia ser. Elle tivera razão quando disse: «Supponha que um homem havia ferido mortalmente seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria...» Referia-se a uma barreira insupperavel, e falava do maço de cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E as cartas relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda, tinto de sangue, que era talvez da pessoa cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia, pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro lado, quem ha de dizer ao coração que é loucura amar? Como havia ella, allucinada pela paixão, de raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau, a vivandeira franceza, que acompanhas o exercito vencedor; elle é o soldado do exercito vencido, e vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo, muito menos dois. Tantos são os que nos separam n'esta hora: o da vingança e o da nacionalidade!» Isto ninguem o diz; ella não o podia dizer. Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é mais, amava com medo. Agrestemente a tratava elle a principio. Desde o dia em que ella lhe perguntou se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre antes como enfermeira do que como amante, pareceu todavia abrandar um pouco mais o seu odio inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas condoer-se não é amar. E depois que desgraçado aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez matar-se. Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra o seu nome de portuguez, contra as suas recordações. Como ella quizera sondar-lhe a alma e arrancar-lhe o seu segredo! O que importava, primeiro que tudo, era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina, e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que Graça Strech ia levantar uma ponta do véo mysterioso que occultava os seus designios.

Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. Elle escolhera decerto essa hora para que a physionomia lhe não traisse os sentimentos reconditos.

--Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me fez?

--Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.

--Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o. Cumpre porém que primeiro lhe diga que a minha vida fica pendente d'esta revelação. Se ámanhã quizer denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e então completará a vingança dos meus desabrimentos. Completará, disse eu, porque compassivamente me tem tratado, e a compaixão é a vingança das almas nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse do meu segredo, que continuará a vingar-se nobremente... O seu coração é bom, Rosina; o meu é que não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, ainda assim, em alguma hora da minha vida me é dado ouvir a voz do meu anjo da guarda. Depois a celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta uma das horas em que o meu coração não é inteiramente perverso. Portanto lhe falarei com a maxima franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre, completamente livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção o poderei conseguir. Mas, se me presta esse serviço, quem lhe não dirá, Rosina, que soprou no meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me o sangue quando volvo os olhos a um passado proximo, muito proximo?... Sabe que é quasi um fratricidio que vae praticar? A voz da consciencia será a primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os seus pessoalmente, mas irá dar mais um soldado ao exercito portuguez cerceado pela derrota... Pense em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos para conquistar apenas a gratidão d'um só homem...

A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes de copiosas lagrimas, illuminaram-se d'um clarão d'alegria.

--Gratidão! disse?--soluçou ella. É a primeira vez que eu oiço dos seus labios tão doce palavra... Acredite-me, sim? Eu já pensava em auxiliar-lhe a fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha pena, muita pena do senhor, e receiava que se quizesse matar para não ficar prisioneiro. Faria por lhe dar a liberdade, ainda que m'o não agradecesse, porque algum dia, ahi por esses acampamentos fóra, bem podia ser que o senhor encontrasse, prostrada por uma bala perdida, a vivandeira Rosina, e dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. Estás morta. Que te hei de dar agora? Dar-te hei uma oração». Isto me bastaria, senhor, que eu bem sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda muito do que eu havia pensado na minha tristeza. O senhor promette-me gratidão. Que mais posso eu invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque elle--disse ella com irreflectida candura--tambem amou muito, segundo contava o velho Regnau. Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre a dizer, referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa a quem eu seja mais grato!» Veja o senhor como elle lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei para o senhor como o molosso para o Hubert. Ter-me-ha gratidão; viverei feliz... E sabe o senhor que o cão do ceguinho das Ardennas o segue sempre? Sabe o que isto quer dizer?...

E calou-se de subito, ruborisada de pudor.

--Não sei! observou Graça Strech sobremodo admirado da sinceridade d'aquella confidencia.

--Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao senhor...

--Como?! perguntou o moço aprumando-se como galvanisado por um choque electrico. Seguir-me! Sabe bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez? Sabe que isso é renegar a sua patria, o nome de seu pae?

--Esquece-se de que meu pae não me deixou nome? Se no céo se sabe tudo, elle saberá que o meu coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais á minha madeixasinha. Crime era o esquecer-me d'ella, o desprezal-a, o não a trazer commigo. Mas é que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a mim. E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu não queria deixar de ser vivandeira... Não se quesile, não? O senhor vae combater. Eu seguirei o exercito como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez soccorrerei o senhor se as balas o não respeitarem. O crime está só n'isso, e Deus m'o perdoará... Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo pae, tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!... O exercito é muito grande e por isso mesmo não faz companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor, esteja certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de emboscada. Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. Que seja preciso affrontar perigos, pouco importa. Rosina, a «gentil vivandeira», como por favor me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud lh'o podia dizer...

A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça Strech eram cada vez maiores. Espantava-o aquelle conjuncto de candura e coragem, aquelle receiar e querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. Não sabia se mais havia de admirar a originalidade do temperamento se a originalidade da revelação. Começava a lêr na alma da vivandeira que o amava. Comprehendeu que ella sabia respeitar-lhe a dôr, impondo-lhe suavemente o dever de respeitar-lhe a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza... Tambem elle se não lembrava n'esse lance de que a mariposa procura a chamma!

E Rosina era a mariposa do acampamento.

Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua percepção, quiz oppôr obstaculos á resolução da vivandeira:

--Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não sabe que se não póde seguir ninguem através dos azares da guerra? Quem póde luctar com as ondas sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o que é invencivel. Guarde essa coragem do seu bello coração para as batalhas do mundo, que toda lhe será precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os infelizes. Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala que me mate?... Não será ámanhã, não, porque eu ámanhã não haveria completado a minha obra. Preciso de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa a minha obra, desejo morrer livre, quite com o mundo. Não quero que ninguem me chore--morrerei feliz.

--Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura a vivandeira. Mas deixe-me ir... tambem até onde vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe vou abrir o seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o senhor estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos de mulher! especialmente caprichos de franceza...

E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:

--Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração precisa de esquecer a minha nacionalidade para me não odiar...

Era impossivel luctar por mais tempo com tão energica e ao mesmo passo tão meiga natureza.

Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe silenciosamente a mão e escondeu no lençol a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.

Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas invade os hospitaes e as prisões com o seu silencio e a sua tremula claridade.

Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos e tão extraordinarios eram os pensamentos que se lhe baralhavam no espirito, que ora sentia subir-lhe ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a chamma abrazadora da congestão. Assim esteve, sem dar tino do tempo que passava, com os olhos fitos na sombra oscillante que uma lanterna projectava na parede fronteira ao seu catre.

Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos mais ou menos longos, segundo a gravidade do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas de ficar de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer com a tranquillidade de quem está bem e não se importa de que os outros estejam mal.

Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das rondas. Uma ou outra vez ouvia-se trocar palavras entre as patrulhas que passavam e a sentinella do hospital. Não se percebia, porém, o que diziam...

E assim decorria a longa noite das enfermarias e dos carceres com o lutuoso aspecto que faz d'umas e outros--cemiterios de vivos.

A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech pareceu vêr entrar cautelosamente na sala um soldado francez, que foi caminhando, cada vez mais receioso, até se avisinhar do seu catre.

Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, porque lhe passou no espirito a suspeita de que Rosina o denunciára, e de que esse soldado, que tanto se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino galardoado talvez pela devassidão da vivandeira.