O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular
Part 4
--Pobresinhas!--pensava elle--deixaram-se talvez morrer por me supporem morto! E antes eu o estivesse, que já teria soado a ultima hora da minha triste mocidade. E mata-se assim a mãe, a dois passos do filho! E não se respeitam os cabellos brancos da velhice! nem a belleza e a virtude que teem duplo direito á vida! Mas, agora reparo eu, aqui estão patentes e irrecusaveis os signaes da lucta... é que se disputavam o sacrificio da morte... ou... suspeita horrivel! morreram talvez para defender a virgindade de uma só! Dize-me, ó minha boa irmã, ó minha doce amiga, se isto não é um sonho atroz da minha desvairada cabeça! Responde, Augusta, sou eu que te peço, eu, o teu irmão, o teu José... E não fala, e não responde! Está morta! Mataram-n'a elles, os malditos soldados d'esse leão indomavel da Corsega para quem todo o mundo é pequeno, todo o sangue pouco! Acaso não se saciava a tua sanha, leão, sem a vida d'estas trez pobres mulheres, que nunca te amaldiçoaram, que nunca levantaram um brado de justa indignação contra a tua ambição desmedida! Eu é que devia morrer, sabes tu? Eu sim, porque fiz guerra de morte aos teus soldados, porque as minhas mãos cheiram ainda a polvora com que os fuzilei. Eu sim, porque a minha morte seria uma represalia; mas a morte d'estas trez mulheres, timidas e indefesas, não foi uma represalia, foi uma infamia...
E, extenuado d'esta subitanea exaltação, pendeu a fronte, como se lhe faltasse a vida para tamanha angustia, porque o sangue perdido era copioso. Entretanto continuava a tempestade e, confundido com o estrepito da chuva, começou-se a ouvir o toque dos clarins nos postos dos invasores.
José Maria pareceu despertar de subito, acordado por essa sinistra linguagem dos acampamentos:
--Sois vós! Podeis estar tranquillos, que a esta hora não haverá um só braço que tenha a energia de vos acommetter no vosso glorioso descanço. Tudo são orphãos e viuvas, que pranteiam cadaveres. Descançae, descançae, que muita coragem vos deve ter custado o assassinio de mulheres inoffensivas como estas! como todas! Oh! mas ámanhã a vingança acordará terrivel, e então vos pedirá contas das vossas atrocidades e das vossas infamias. Sim, ámanhã, nós todos, unidos por commum desgraça, seremos um só inimigo, porque a nossa vingança é uma, mas não imagineis que tendes a derrubar um só inimigo, porque serão muitas as cabeças a decepar, muitos os portuguezes a vencer... Onde houver um portuguez, haverá um soldado, porque elle pelejará por desaffrontar a memoria dos seus parentes, dos seus amigos, d'um filho, d'uma irmã...
E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta, e tirando-lhe delicadamente do dedo o annel com que ella havia morrido:
--E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas amigas, e vingarei a tua innocencia, minha querida irmã... Por este annel o juro, que será o meu fiel companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar até a hora da morte... Beijal-o-hei antes d'entrar em combate, e elle me dará a coragem dos valentes; elle será a minha égide protectora se a morte me quizer arrebatar a minha vingança..... Que Deus me oiça, Augusta. Sobre o teu annel, que nunca te desacompanhou, faço este juramento solemne, que jámais quebrarei...
* * * * *
VI
A mariposa do acampamento
Fôra demasiado esforço para tão melindroso estado.
O corpo, alquebrado pela dôr physica, parecia vergar ao peso d'aquella grande alma.
Graça Strech caminhou em direitura á porta, vacillando a cada passo, e deixando após si um rasto de sangue. Antes de sair, volveu ainda um ultimo olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante a mão de sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro sitio, como para se certificar da existencia d'alguma coisa que lá trazia occulta, e que pareceu encontrar.
Era o maço das cartas d'Augusta, escriptas da quinta das Chãs, e que elle conservára no seio durante as mais perigosas refregas na bateria do Bomfim.
Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao corrimão, e conseguiu a muito custo chegar á rua.
Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente refrigerou o cerebro d'aquelle moço, em quem as mais violentas congestões parecia succederem-se rapidamente.
Onde ia elle, ferido, cerrada a noite?
A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso de sua vida, nunca pôde achar resposta satisfatoria.
O que parece mais proximo da verdade é que, não sentindo já forças e coragem para demorar-se ali, luctasse por arrancar-se de ao pé dos trez cadaveres.
Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito uma lufada de ar, impregnado d'humidade, reconheceu-se, no meio da cerrada escuridão d'aquella noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para dar um passo.
N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu de novo affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de certo elles, os assassinos da sua familia, que patrulhavam a cidade invadida. Não se enganou. Os cavallos que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza. Graça Strech estava porém desarmado, ferido, impossibilitado do menor esforço. A ronda acercou-se, e um dos cavalleiros, que era um official portuguez obrigado pelo direito de conquista ao triste mister d'interprete, perguntou com voz tremula:
--Quem está ahi?
Graça Strech ficou surprehendido d'ouvir falar-lhe na lingua nacional, e respondeu:
--Um soldado portuguez, ferido.
Demorou-se o official a falar á patrulha franceza, e apeando-se dois dos cavalleiros ergueram o corpo de Graça Strech até a altura precisa para poisal-o entre o arção da sella e o corpo do official portuguez.
E monotamente continuou a eccoar na rua o estrepito da ronda.
Não pareça extraordinaria esta piedade dos invasores para com os invadidos no mesmo dia de tão sanguinosa victoria.
O marechal Soult, que entrára no Porto na tarde d'esse dia, puzera desde logo todos os seus cuidados em serenar os animos da população por actos ostensivamente meritorios.
Era este um procedimento por ventura aprendido na lição da historia romana--o da benevola protecção aos vencidos.
Manda porém a verdade que se diga que, mal que entrou na cidade, expediu ordens terminantes ás tropas para que, sob pena de austera correcção militar, respeitassem a população, e até a protegessem em caso de conflicto.
Assim foi que, reprimindo os abusos da soldadesca, logrou restabelecer o socego em toda a cidade trez dias depois da invasão, procurando insinuar-se na opinião publica, abstendo-se de impôr contribuiçoes de guerra, nomeando pessoas idoneas para os logares vagos, e soccorrendo os habitantes completamente privados de recursos.
O partido anti-patriotico, subitamente creado em redor do marechal Soult, para logo fundou um orgão jornalistico, denominado _Diario do Porto_, porque a imprensa tem sido desde tempos immemoriaes o respiradouro aberto a todas as paixões, justas e injustas, nobres e mesquinhas.
O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra, sequer, da linguagem empregada no supracitado diario. Oiçamos o falsario redactor no supplemento ao n.º 2.º:
«Este paiz tão bello, e tão favorecido pela natureza, parecia no passado governo tocado de paralysia; mas, graças aos céos, que se lhe prepara um novo futuro, que os bons conhecedores já tinham d'antemão entrevisto! Nada terá o Principe que dizer sobre a nossa fidelidade; nos lh'a guardamos emquanto existiu entre nós; mas uma vez que nos deixou, uma vez que desdenhou lançar mão das redeas do governo, que largára quando as circumstancias lh'o permittiam, renunciou todos os seus direitos, e nada é já para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em uma palavra, a casa de Bragança já não existe; aprouve aos céos que os nossos destinos passassem a outras mãos, e foi particular predilecção da Divina Providencia, que impera sobre o universo, o ter-nos enviado um homem isento de paixões, e que só tem a da verdadeira gloria; que se não quer servir da força, que o grande Napoleão lhe confiou, senão para nos proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que ameaçava devorar-nos. As palavras que elle nos dirigiu, e as promessas que nos fez[5], desde que entrou n'esta cidade, tudo se tem cumprido á risca, muito mais do que o poderiamos esperar, e do que as circumstancias pareciam promettel-o: porque tardamos, pois, em congregar-nos ao redor d'elle, a proclamal-o nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos a exprimir o nosso desejo de o vermos á testa d'uma nação, cujo affecto soube tão rapidamence conquistar? O soberano de França prestará ouvidos aos nossos clamores, e se lisonjeará de ver que desejamos para nosso rei um logar-tenente seu, e ao mesmo tempo um grande general, que a seu exemplo soube vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante comarca, já que tem experimentado os effeitos da sua clemencia, e a quem elle tem prodigalisado os seus beneficios, seja uma das primeiras, que se glorifique de o reconhecer e de lhe offerecer os seus braços, os seus bens e o seu patrimonio todo.»
Não ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta os salamaleques feitos ao duque de Dalmacia. De Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril uma deputação composta de trinta e seis membros do clero, nobreza e povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver ao imperador a necessidade de collocar um principe de sua eleição no throno que a dynastia de Bragança deixára devoluto.
No dia immediato entrou egualmente ao palacio do duque de Dalmacia outra grande deputação, constituida por todas as autoridades civis, clero, deputados, nobreza, cidadãos, corporações judiciaes e militares da cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia.
A deputação, acompanhada desde a casa do conselho pelos officiaes do estado-maior general, era esperada no atrio do palacio dos Carrancas pelos ajudantes de ordens do marechal Soult. Foi o general de divisão Quesnel, investido nas funcções de governador militar do Porto e da provincia do Minho, quem a introduziu na sala de recepção, onde o corregedor da comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos do _Diario do Porto_.
O marechal devia estar sorrindo interiormente da versatilidade dos portuguezes, que lhe atiravam aos pés nuvens d'incenso, recebendo-o dias antes nas trincheiras com nuvens de polvora. Força é assoalharmos as nossas glorias, para sermos portuguezes, e as nossas manchas, para sermos justos. E esta é realmente uma lamentavel nodoa que macula as paginas da historia portugueza. Se nos não respeitámos, durante a invasão, a boa policia de guerra, tambem a soldadesca franceza não respeitou, na victoria, os direitos individuaes. Saldada a divida, estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revolução, a represalia, irmã do triumpho. A attitude do Porto, depois de vencido, e em presença do cavalheiroso procedimento de Soult, devia ser a da resignação reconhecida, nunca a do servilismo infamante. Agradecer é das boas almas; ajoelhar aos pés do usurpador é dos maus cidadãos. E nós fomos então maus cidadãos. Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia com a heroicidade de cinco annos, que tantos são os que vão desde a invasão do Porto até ao regresso das nossas tropas, coroadas de loiros.
Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo rei, estava porém encimado ainda pelas armas da nação! Se não se podia amar o rei, que fugira, devia-se defender a patria, que ficára.
Mas, disse-o Camões, e é uma profunda verdade, que
O fraco rei faz fraca a forte gente
Perdoemo-nos a nós, porque nos rehabilitamos depois, e perdoemos ao rei, que já hoje é do tumulo, e que no triste curso de sua attribulada existencia mais inspira por vezes compaixão do que odio.
Mas tornemo-nos a Graça Strech, que deixámos ferido em companhia da ronda franceza.
Fôra elle transportado a um dos muitos hospitaes de sangue que se estabeleceram nos conventos do Porto:--o convento de S. Francisco. O serviço cirurgico, na maior parte d'estes hospitaes improvisados, era feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres que acompanhavam o exercito invasor. Uma d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha de _lá gentille vivandière_, recebeu o ferido e, ajudada por outras, deitou-o no catre e começou o curativo do ferimento com certo carinho, que só a ordem do marechal Soult não explicaria cabalmente.
É que fez impressão a Rosina a physionomia, posto que dolorosa, serena, do soldado portuguez. Pareceu-lhe um roble que baqueára magestosamente. Não havia a menor contração n'aquelle corpo athletico; por entre os labios, descórados e immoveis, não se coava um gemido. Verdade era que não era desesperado o ferimento, e que mais para recear parecia a gravidade da prostração que a do golpe. Não obstante, o soldado, que a espaços abria os olhos, nem uma gota d'agua pedia.
Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre, por muitas vezes, a escutar. Pela madrugada sobreveiu o delirio ao abatimento, e o ferido dizia com manifesta difficuldade algumas palavras que ella não entendia. Como, porém, de uma das vezes o visse febrilmente apalpar o peito, comprehendeu-o, e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido, o maço de papeis, insinuou-lh'o entre as mãos. O ferido, conhecendo-o provavelmente pelo tacto, abriu por algum tempo os olhos, e demorou em Rosina o doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente mechanico e talvez não; a verdade, melhor que os medicos, a sabe Deus.
A vivandeira ficou sobremodo commovida do que a ella lhe pareceu intencional. Apiedou-se do soldado, que tinha porventura a sua mesma idade, e parecia guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que possuia...
Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia da madeixa.
Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos da brigada Arnaud. Por seu pai, moribundo, um dos bravos militares do exercito francez, natural das Ardennas, aquella vasta floresta, _Arduenna sylva_, golpeada por quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe e o Sure, fora confiada como precioso deposito, no campo de batalha, á velhice d'um camarada fiel, soldado do mesmo regimento.
O bom velho, que penhorado acceitára tão grave legado, era só, e n'uma época em que o exercito francez estava em continua mobilisação, achou que o melhor meio de velar pelo destino da creança era trazel-a sempre ao pé de si.
Assim foi que Rosina, então de quatorze annos, estivera em pessoa, se bem que entre a bagagem e mantimentos, na batalha de Austerlitz, em 1805. Vira por seus proprios olhos, a distancia, o imperador Alexandre e o imperador Francisco. Nos breves instantes de repouso que n'essa arriscada campanha tinha o exercito francez, era sempre Rosina o assumpto das conversações do acampamento, a mariposa inquieta que passava sorrindo de umas correias a outras, de um soldado a outro soldado. D'essa campanha ficou até na memoria do regimento uma agudeza da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando uma vez da fealdade de certo camarada.
--Que tal te parece, Rosina? perguntou um á pequena.
--Parece-me mal, respondeu ella, porque já vi _os trez imperadores_.
Como se sabe, é esta uma designação vulgar da batalha de Austerlitz, onde estiveram os dois imperadores já nomeados, completando Napoleão a trindade coroada.
Rosina seria pois a andorinha da caserna se não fosse antes a mariposa do acampamento. Tinha um pouco da floresta, seu berço, e um pouco do quartel, seu ninho. Estes poucos fizeram o todo. Tinha a pureza da vegetação virgem, a suavidade inculta da floresta, e ao mesmo passo o destemor da vivandeira, a facilidade de morder um cartucho de polvora e de cantar uma canção marcial. Na alma tinha os murmurios das correntes patrias; nos olhos o brilho da polvora.
Era, n'uma palavra, a pastora tornada vivandeira. Respeitava-a todo o regimento e conhecia-a todo o exercito.
Quando o seu velho protector morreu, um anno depois de Austerlitz, ella acompanhou-o com os camaradas á sepultura, e, como limpasse furtivamente duas lagrimas, disse-lhe um dos soldados:
--Pois tu choras, Rosina, tu, a que viste os trez imperadores?!
E ella, voltando-se de subito, respondeu:
--Não choro eu, chora a França.
Porfiaram os soldados em escolher-lhe novo protector; todos a estimavam a ponto de querer adoptal-a. Por fim decidiu-se que Rosina cortasse o nó gordio. Ella observou:
--Os meus paes eram os que morreram; já não posso ter outros. Serei portanto de hoje em deante filha do regimento. Para onde elle fôr, irei eu; onde estiver, estarei tambem.
E assim foi.
Era quasi um soldado; muitas vezes dizia que a sua morte havia de occasional-a uma bala perdida.
Viera com o exercito a Hespanha e Portugal, com a mesma facilidade com que iria, licenciada pelo commandante do regimento, visitar as Ardennas, sua patria.
Contava agora dezoito annos, e estava em todo o vigor da sua gentil formosura.
Gentil é a palavra; por isso lhe chamavam _lá gentille vivandière_.
E o caso é que á sua origem e á sua formosura devia por certo as immunidades que lhe outhorgavam os superiores. Era ella o melhor intercessor do regimento; requerimento que ella levasse á chancellaria militar, trazia sempre bom despacho. É que as flôres...
Ora a historia da madeixa é muito mais breve que a historia de Rosina, e por isso ficou para o fim.
Seu pae, o bravo official das Ardennas, sentindo-se morrer dos graves ferimentos que recebera, pediu ao velho camarada, no momento de confiar-lhe a filha, que lhe entregasse aquella madeixa que elle cortára do seu proprio cabello, para que ella possuisse sequer alguma coisa que o tornasse lembrado.
E como entre os cabellos alguns apparecessem já grisalhos, acrescentou o militar moribundo:
--Dize-lhe que alguns d'elles embranqueceram a pensar no destino d'ella...
O soldado, com os olhos marejados de lagrimas, respondeu commovido:
--Vá descançado, meu capitão. Emquanto Jacques Regnau tiver vida, o paiol não ha de arder. Depois que vier a metralha da morte, o Deus dos exercitos velará por ella...
O soldado Jacques estava na confidencia do nascimento de Rosina. Fôra elle que, annos antes, saltára ao jardim de uma casa da rua das Tournelles, para receber dos braços de uma criada uma creança, cuja mãe procurava assim occultar o segredo da sua deshonra.
Jacques Regnau atravessou com ella nos braços o _boulevard_ da Bastilha, e ia dizendo comsigo:
--O caso é que ainda tenho geito para estas aventuras mysteriosas. Suppunha-me velho e levo aqui esta creança mais como pae do que como avô. E todavia o que decerto vem a acontecer é que eu seja o avô, e o meu capitão o pae...
E assim, em verdade, aconteceu, com uma unica differença. Se Rosina, no decurso de sua vida, precisasse de nobilitar-se com um appellido, o pae, ao invés do que acontece em todas as familias, não lhe daria o seu appellido, mas sim o do leal camarada. Diria provavelmente:
--Põe lá: Rosina Regnau.
Ella porém não precisava de appellido paterno. Era a filha do regimento. Chamava-se simplesmente Rosina, _lá gentille vivandière_.
Esta era a enfermeira do nosso ferido.
[5] Referencia á proclamação de Soult.
* * * * *
VII
No hospital de sangue
Oito dias transcorridos, vamos encontrar Graça Strech, sentado no catre, convalescente, se bem que muito debilitado ainda, a relêr algumas das cartas que, por piedoso interesse de Rosina, pudera guardar debaixo do travesseiro.
Os successos de tão breve curso de tempo pequena chronica requerem. Rosina tem sido para o soldado portuguez carinhosa enfermeira. Chasqueam-n'a as outras mulheres, encarregadas do serviço do hospital, de extremamente compassiva para o prisioneiro, e zombeteiramente aventam que, a julgar pelos prolegomenos, lhes não parece impossivel que o exercito portuguez inteiramente se deixe desarmar pelas vivandeiras francezas.
As almas das restantes mulheres não se levantam do nivel commum ao femeaço que segue tropa. São grosseiras, sensuaes e malevolas. Rosina respira melhor entre os soldados do que entre ellas. D'aqui uma certa rivalidade apenas contida pelo respeito com que todo o exercito acata á filha do bravo militar das Ardennas. Todavia a «gentil vivandeira», como mariposa que é, não se demora no ambiente infeccionado em que ellas respiram; evita-as como a pantanos miasmaticos, sem lhes dar a conhecer que o muladar unicamente é povoado por vermes. Passa inquieta e ao mesmo tempo cautelosa, agitando as suas azas iriadas. Atravessa o lodaçal sem tocar-lhe. Guarda para si o nectar que vae libando nas flôres perfumadas da sua phantasia. É mariposa! dizem. Concentra-se nos circulos caprichosos em que doideja. Quer adejar e sorrir. Mas para esta, como para todas as mariposas, depois do jardim, cujas flôres beijou, ha de crepitar a chamma, que será o seu ultimo beijo. Beijo de fogo, que mata. E chamaes felicidade a isto! Olhaes sómente á superficie; a mariposa não é feliz porque passe adejando...
Graça Strech fez reparo no carinho da enfermeira, mórmente comparando-o ao desamor com que eram tratados os demais feridos. Não poria duvida em beijar a unica mão caridosa que se estendia para elle na solidão do mundo, se não receiasse que o odio que lhe refervia no coração contra a França lhe envenenasse os labios. E aquella mulher era franceza. Parecia-lhe que dos seus vestidos se exhalava ainda o cheiro da carnagem. Por ventura o soldado que assassinára sua irmã, sua mãe e sua avó viera adormecer tranquillo nos braços d'aquella mulher, se é que não fôra mais d'um soldado, com as mãos ainda tintas das nodoas do crime. Via n'ella a creança corrompida pela lascivia da soldadesca, e, ao mesmo passo que lhe era reconhecido, tinha por ella o desprezo que se tem pelo vicio precoce. Considerava-a uma das victimas arrastadas pelo carro triumphal do Cesar francez. Bem podia ser que n'aquelle corpo vendido ao prazer germinasse uma alma boa logo corrompida pela putrefação contagiosa da caserna. Se não tivesse por mãe uma mulher devassa, uma vivandeira, uma meretriz de soldados, que não faria mais que atirar sua filha ao berco em que ella propria nascera, poderia encontrar um marido honesto, ser o anjo do lar, divinisar-se no altar da familia, porque as mães podem considerar-se as santas da religião domestica. Mas não. Graça Strech suppunha-a a flôr do paul. Tinha para elle a belleza maculada da vegetação dos charcos. Não sabia o que era o azul do firmamento, porque só os lagos, de superficie crystallina, são espelho do céo. As flôres do paul querem viver no lodo; ella queria viver no prazer. Os beijos que recebia tresandavam ao acre do tabaco e da aguardente. Não dulcificavam; queimavam. E assim como a gente se admira de ver uma flôr, por mais desbotada e menos formosa que seja, á beira d'um monturo, assim elle se admirava de que aquella mulher tivesse nos olhos um relampago de compaixão estando habituada a viver entre soldados e concubinas. Era, a seu juizo, o ultimo lampejo da alma que bruxoleava apagada pelo vicio. Extincto o derradeiro clarão, ficaria apenas a lampada--o corpo. E elle não queria gosar; queria vingar-se. O prazer da vingança, se o ha, esse anhelava-o. Mas uma mulher corrupta não podia ser-lhe instrumento sufficiente a sacial-o. Nenhum dos generaes que capitaneavam o exercito invasor teria uma filha innocente, candida, formosa? decerto não; se a tivesse, não consentiria que a soldadesca violasse as alheias. Mas se a tinha, trouxessem-lh'a, pura como estava, bella como era, que a queria polluir, e dizer depois ao pae exasperado: «Os teus soldados mataram minha irmã, que tambem era virgem; eu matei tua filha, porque a encontrei no estado de minha irmã. Ambas são mortas: isso que ahi está já não vive.»