O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular

Part 3

Chapter 33,794 wordsPublic domain

Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldão adeante de si a onda allucinada dos fugitivos que procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam a direcção da Foz, outros, em maior numero, corriam para a Ribeira, na ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns passaram o rio a nado ou em barcos. Mas o grosso da multidão, enovelando-se n'uma vertiginosa confusão de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro assentava, de espaço a espaço, sobre um renque de lanchões. E as primeiras pessoas que conseguiram transpol-a abriram, logo que se julgaram a salvo, os alçapões da ponte--systema de defesa empregado em casos extremos--pensando preparar assim um desastre aos francezes que as perseguiam.

Novos fugitivos, onda sobre onda, empurrando-se uns aos outros, cegos de desespero, loucos de medo, iam caindo pelos alçapões ao rio, e a dizimada cavallaria portugueza, fugindo tambem, e procurando a ponte, maior pressão fazia ainda sobre a grande massa de povo, pisando-a, atropellando-a, empurrando-a com os cavallos para o sorvedouro hiante onde centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo que as baterias de Villa Nova, vendo os francezes descer a rua de S. João, iam metralhando a Ribeira, e augmentando involuntariamente o terror e o morticinio.

Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados no vacuo dos alçapões, nivelaram o pavimento da ponte, facilitando passagem aos ultimos fugitivos por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos outros.

Os proprios invasores se commoveram com esta horrorosa tragedia, e ainda puderam salvar da morte algumas pessoas.

Depois, lançando pranchas sobre os alçapões, passaram para Villa Nova, d'onde facilmente desalojaram as nossas baterias.

Saibamos agora qual seria a sorte do capitão Graça Strech e da sua familia n'essas crudelissimas horas da invasão.

Esteve o capitão ao lado do brigadeiro Victoria, na bateria do Bomfim, até aos ultimos momentos em que a ambos, e a poucos mais, foi dado combater pela patria.

O que é certo, e a historia o refere, é que puderam proteger a retirada de mais de seis mil pessoas, que se evadiram por aquelle lado da cidade.

Abrigados os restantes valentes por um muro, que se levantava no outeiro do Bomfim, lograram continuar o fogo com desesperado denodo.

Foi realmente heroico esse render-se de heroes, quando, desamparados de todo o soccorro, enviaram ao inimigo a ultima metralha que lhes restava.

O brigadeiro Victoria, conhecendo insustentavel a posição, apertou a mão do tenente coronel Champalimaud, do ajudante Antonio de Azevedo e do capitão Graça Strech, dizendo-lhes com voz tremula de commoção:

--Meus amigos, meus bravos amigos, o sacrificio da nossa vida nada aproveitaria á patria, que está invadida. Fizemos o nosso dever; pelejámos emquanto pudemos. Agora que cada um procure salvar a sua vida para quando mais util possa ser á terra em que nascemos.

Mal acabava de dizer estas palavras cahiam feridas duas pessoas das que rodeavam o brigadeiro: o commandante dos artilheiros e o capitão Graça Strech.

--Que foi? perguntou Victoria.

--Foi a ultima arcanhadura dos francezes, responderam a um tempo os dois bravos militares.

Era necessario retirar; por Campanhã já não podia ser. Optaram por atravessar o Douro, que o brigadeiro e alguns officiaes conseguiram passar defronte d'Avintes. N'esse numero porém não podemos incluir o capitão Graça Strech.

Ferido no peito, se bem que houvesse dissimulado a gravidade do ferimento, conheceu que era perigoso o seu estado. Foi então que se lembrou da filha, da esposa, da sogra, e do filho, que havia duas horas tinha perdido de vista.

Que seria d'ellas, pobres mulheres, entregues sem protecção aos horrores d'aquelle dia? E o filho, que se batera como valente na bateria do Bomfim, haveria ficado entre os muitos que lá succumbiram, e adormeceram sobre a terra embebida no sangue de seus irmãos?

Não sabia.

Oh! mas era preciso que o soubesse antes que se lhe fechasse em torno a noite escura da eternidade. Pouco lhe importava morrer; o que elle queria era obter a certeza de que a embriaguez da victoria não tinha desvairado os invasores ao extremo de não respeitarem fracas mulheres indefesas.

Ainda se restasse vigoroso o braço do filho para amparar o golpe que fosse vibrado contra ellas!

Não o pôde suppôr; julgou-o morto nos derradeiros momentos da refrega, por que o não tornou a vêr.

Atravessar o Douro era arriscado; tentar internar-se na cidade, tambem. Todavia o primeiro meio era a morte no desespero; o segundo podia ser a morte com a esperança.

Abraçou-se pois a esse unico esteio que lhe restava--a esperança, de poder abraçar os seus.

Arrancou os vivos da farda, e, esquecido de si, e do sangue que cada vez lhe repuxava do peito com maior intensidade, tentou descer a rua do bomfim e bandear-se em logar azado com a turba dos que percorriam as ruas desvairadamente.

Do militar que fôra, arrancados os vivos e emblemas, só lhe restava a alma.

Poucos passos andados, sentiu porém que lhe ía fugindo a vista, á medida que empenhava as ultimas forças para adiantar caminho.

Ainda mais uma vez enganára a coragem do soldado o coração do pae.

Quiz andar. Fraquejaram-lhe as pernas, e Graça Strech procurou com a mão um amparo que não encontrou.

Após um momento de oscillação, ruiu em terra. Estava morto.

Entretanto havia occorrido a enorme desgraça da ponte, e os invasores, enfurecidos pela resistencia que encontraram, iam encetar as tremendas represalias que estão na memoria de todos os portuenses.

Infelizes os que tiveram de assistir hora a hora a esse drama de sangue e terror que teve por bastidores os muros d'uma cidade inteira. Infelizes os que viram despedaçar-se momento a momento nas garras dos cannibaes os até então immaculados thesouros do seu coração. Infelizes, finalmente, os que viram cavar-se a seus pés a sepultura ingente de milhares de familias e não puderam enchel-a com o sangue dos que assassinavam em nome da victoria.

José Maria da Graça Strech pertence ao numero d'estes grandes desgraçados, que foram muitos.

Quando a bateria do Bomfim protegeu a fuga de seis mil pessoas, já quando, depois das oito horas da manhã, era desesperada a situação dos portuenses, duas senhoras, que se destacaram da multidão desorientada, acenaram ao denodado moço que por acaso olhára na direcção que ellas seguiam.

Elle reconheceu-as. Eram as duas visinhas que horas antes tinham convidado Augusta a acompanhal-as na fuga e que, arrastadas pela onda impetuosa dos que procuravam salvação, chegaram até ao Bomfim.

Abeirou-se o moço a falar-lhes, por um momento radioso de felicidade, porque lhe acudira a lembrança de que as pessoas da sua familia as haveriam acompanhado. Oh! se sua irmã, se a estremecida menina estivesse ali, poderia fugir incolume aos horrores que elle presagiava imminentes, attenta a vantagem do inimigo em toda a linha.

--Ellas vieram? perguntou açodadamente José Maria.

--Não, teimaram em ficar, respondeu confrangida uma das senhoras.

--Oh! meu Deus! exclamou o filho do capitão Strech levando a mão ao coração.

--Veja se póde salval-as, salve-as por Deus, que estão sósinhas, desampadas de criados...

--Mas como? Como?! articulou o moço estendendo o braço para a posição do inimigo, como se quizesse indicar que era preciso combater a todo o transe.

--Augusta, a pobresinha, fazia dó! Oh! salve-a, salve-a, que ella morrerá de pavor! acrescentou a outra visinha.

--Augusta! Augusta! repetiu José Maria, perplexo, olhando para as duas lacrimosas mulheres e para os seus companheiros d'armas que defendiam á distancia a unica bateria que não se tinha rendido.

E, sem se mover do sitio em que empedrára, dizia com desalento:

--Pobresinhas! E meu pae ali, exposto á morte a todo o instante, e ellas sem defeza, sem ninguem!...

Então, aproveitando a opportunidade d'um momento, ordenára o coronel Champalimaud que se désse passagem ao magote dos fugitivos que mais se tinha adiantado.

--Vão, vão, gritou o moço affastando com o braço as duas mulheres--Salvem-se ao menos, e obrigado, muito obrigado. Eu verei se as posso salvar... a ellas, a Augusta.

O troar proximo do canhão pareceu chamal-o á realidade do perigo.

--São elles, disse de si para comsigo, correndo na direcção da bateria, os poucos que n'esta hora se sacrificam pela patria. E tambem hão de ter mãe, e irmã... e estão ali, firmes, corajosos, heroicos. Oh! cobardia do meu coração, não, não te posso, não te devo ouvir...

E não tardou que se collocasse ao lado dos seus esforçados companheiros.

Todavia cada vez se aproximava mais o lastimoso desfecho d'aquella desesperada resistencia. Começava a lavrar a confusão na bateria, fustigada por violento fogo dos francezes--indomito ataque, de que em breve foi victima, como já dissemos, o proprio capitão Graça Strech. Tamanha era a fumarada, que já se tornava impossivel verem-se uns aos outros. Foi então que José Maria, involto na cerração da metralha, conhecendo que era impossivel prolongar por mais tempo aquella proeza de bravos patriotas, se lembrou de que nada aproveitaria á causa da patria o sacrificio da sua vida. E soaram-lhe aos ouvidos as palavras afflictivas das duas mulheres, e sonhou ver estenderem-se para elle os braços tremulos d'Augusta, que pedia soccorro.

Então, como se o coração houvesse decretado uma sentença irrevogavel, cortou resolutamente o fumo da polvora, e affastou-se da bateria, murmurando os nomes de sua mãe, de sua irmã, de sua avó.

Momentos depois foi que o brigadeiro Victoria fugiu tambem, e que o capitão Graça Strech caiu morto na rua do Bomfim.

Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por entre a multidão que, semelhante a um grande mar, ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do desespero. Algumas vezes teve de se esconder, outras de retroceder, e só pela tarde chegou á rua nova do Almada.

Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz ou mais infeliz que seu pae, venceu todas as contrariedades, até que finalmente, escoando-se por entre os grupos desvatrados, entrou em casa no momento em que ao fundo da rua assomavam tropas francezas que, senhoras de toda a cidade, continuavam o saque, as violações e a carnificina que tristemente assignalaram esse dia memoravel nos fastos da nossa historia.

* * * * *

V

O juramento de vingança

As casas da rua nova do Almada estavam pela maior parte desertas.

Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo offereceram. Os habitantes fugiram deixando abertas as portas, de modo que, á hora em que começou o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. Poucos foram os predios que lhes deram o breve incommodo de forçar a entrada. A este numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou, entregue aos seus pavores, a familia Strech. José Maria, ao entrar açodado pela aproximação dos invasores, appellou para o ultimo recurso de defeza que lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os francezes se domiciliariam nos predios devolutos e de que não porfiariam em forçar uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar n'esse momento de suprema preoccupação que meditassem a pilhagem e a carnificina que, passadas horas, consummaram.

Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó, que, ouvindo passos apressados, e no presupposto de serem os de algum soldado francez, romperam em gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos seus esconderijos.

--Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou precipitadamente José Maria para serenal-as e correndo pelo corredor.

--José! José! exclamou uma voz que parecia soar das profundezas de um tumulo.

E logo dois braços tremulos de commoção enleiaram o moço, e uns labios gelados de mortal frialdade lhe procuraram as faces, e um novo grito de dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos.

E immediatamente soaram passos, que elle conheceu: a mãe e a avó, seguindo a pobre menina que as precedera, correram ao encontro de José Maria.

Augusta, apertando-o contra o peito, alternando beijos e olhares por egual frementes, porque o sangue congelado no coração parecia, acordado de subito, correr em turbilhões ao cerebro, não lograva articular palavra, tão violenta era a sensação que estava experimentando.

Não assim, porém, sua mãe, que, parando como que fulminada á porta, tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irmã:

--E... teu pae?

--Lá ficou ainda a combater com os ultimos valentes. Bem póde ser que a Providencia o tenha salvado como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim, fui eu, porque me lembrei de ti, minha irmã, e de si, minha mãe, e...

Não pôde completar a phrase, porque de repente foi chamado á realidade pelo estrepito que a soldadesca franceza fazia na rua.

--Retirem-se! escondam-se! gritou elle. São os francezes, bem os vi, são elles! Esconde-te, Augusta, minha mãe, minha avó...

N'este momento estremeceu o predio nos alicerces como se a porta tivesse soffrido o embate de um ariete.

--Que é? Onde é? perguntou offegante a menina, que de novo descorára até á lividez do cadaver.

--São elles que forçam a porta, naturalmente... Eu fechei-a quando entrei, sim, eu fechei-a.

--E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! acrescentou a avó.

--Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me decerto entrar. Perseguem-me! tornou afflicto José Maria.

E, após segundo estrondo, soaram no portal e na escada os passos da soldadesca que entrava.

Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma pôde fugir; todas como que ficaram chumbadas ao pavimento.

E os francezes entraram vozeando, praguejando, e logo assomaram á porta muitas cabeças cujos olhos chammejavam de cubiça e sensualidade.

Então José Maria, como galvanisado de subito, adeantou-se para a porta, estendendo o braço para defender as trez mulheres e, quando ia talvez a balbuciar uma supplica, caiu desamparado, vibrando um grito e recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, cujo golpe fôra mais doloroso que profundo.

As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só, soltaram uma d'essas exclamações impossiveis de descrever, apenas comparavel ao grito lamentoso da araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, porque uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.

E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando com o pé o corpo de José Maria, sedenta de prazer e rapina.

Para os que suppozerem que exageramos com toques demasiado sombrios os horrores que se succederam á invasão do Porto, vamos copiar apenas algumas linhas da _Historia da guerra civil_, de Soriano:

«Para cumulo de todas estas desgraças a cidade foi posta a saque, por castigo da sua resistencia, como em casos taes se costuma praticar, saque que começou pelas onze horas do dia, levando os vencedores a todas as casas de habitação, a par do terror que infundiam, o roubo, a violação e a morte, excitados de mais a mais para isto por encontrarem, segundo alguns dizem, varios prisioneiros francezes sem olhos, com linguas cortadas, e os membros truncados ou rasgados.»

Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles é o sr. Claudio de Chaby que, nos seus _Excerptos historicos_, refere:

«No transito das ruas e praças encontraram os soldados de Soult alguns dos seus camaradas, que nas differentes refregas tinham os nossos aprisionado, exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante crueza: a uns tinham cortado a lingua, arrancado a outros os olhos ou decepado os membros!--O effeito natural da observação de taes crueldades, junto á tambem natural disposição de espirito dos invasores em taes circumstancias, levou estes á pratica de vingativos e deploraveis excessos, de _assassinato, roubo, violencia e profanação_!»

O mais que se passou na casa da rua nova do Almada, depois que a soldadesca entrára, não o soube exactamente José Maria que, ao cerrar da noite, tornára a si, depois de haver perdido muito sangue pelo golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na terra e no céo essa noite, como podem confirmar os poucos que se lembrarem d'ella.

Tamanho era o temporal havia dias imminente ao Porto, que trinta navios inglezes, carregados de vinho e outros productos, impedidos de sair das aguas do Douro pelo mau estado da barra, caíram em poder do marechal Soult, bem como a polvora guardada n'um vasto armazem, e 196 peças de artilharia, recolhidas nas differentes baterias da cidade.

Algum tempo esteve José Maria firmado sobre o braço direito, que d'instante a instante fraquejava, procurando orientar-se e recordar-se.

Era profundo o silencio na casa toda.

Dir-se-ia que despertava n'um tumulo.

Assim que pôde rememorar o que se passára até ao momento de ser ferido, entrou de chamar em altas vozes a irmã, a mãe e a avó.

Apenas porém respondia ás suas afflictivas exclamações o chofrar dos aguaceiros nas vidraças.

Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue com a roupa, e começou a sondar a escuridão, procurando alguem.

Não tardou que tropeçasse n'um obstaculo que os pés encontraram. Curvou-se e tacteou. Encontrou vestidos de mulher. Estendeu a mão e apalpou um rosto. Até pelo tacto conhecemos os nossos. José Maria estremeceu como se tivesse recebido em pleno peito um novo golpe de ferro, e rugiu d'afflicção e desespero. Não podia duvidar. Era o rosto de sua irmã. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a. O mesmo silencio, a mesma immobilidade!

--Mortal morta! rouquejava elle convulso.--Minha mãe! minha avó!

E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a vidraça.

Occorreu-lhe porém que, como se deu com elle, podia ser que sua irmã estivesse apenas adormecida em deliquio.

--Ella é tão delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou talvez. Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a. Mas minha mãe? E minha avó?

Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel.

Sondando as trevas, saíu tremendo, a procurar luz.

Momentos depois voltava cambaleante á sala e, levantando una candieiro de latão á altura da cara, reconhecia trez cadaveres.

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N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente se banqueteavam n'uma taberna do largo da Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns soldados da divisão Delaborde.

Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a celebração solemne d'um dia de saque, que requeria uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras francezas cantavam em côro, no idioma patrio, e reclinadas aos hombros dos soldados, uma canção marcial, cujo estribilho podia ser traduzido d'este modo:

Viva a França! viva a França! Que triumpha na matança! Rataplan!

Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes retorcidos, chasqueava na sua lingua natal com uma das vivandeiras que se lhe queria escapar dos braços:

--Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do que tu!

--Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira.

--A portugueza que me resistiu.

--E que tu mataste?

--E que eu matei para que não deixasse de resistir a outro.

--A pobre rapariga!

--Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido pura! Tu não morres assim, _ma petite chienne! Par Dieu!_

--Cruel!

--E o caso é que quasi do mesmo golpe derrubei as duas mulheres que a defendiam e abraçavam. Um soldado do imperador livra-se depressa ainda que seja d'um cento de mulheres.

--Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando por desprender-se dos braços do soldado.

--Acodes pelo teu sexo! O que me não perguntas é quantos homens matei! Por Deus! que era precisa a vingança. Estes perros d'hespanhoes, que se chamam portuguezes, não nos queimaram a alma porque não puderam. Atiravam-nos desesperados! E matavam os nossos emissarios! e mutilavam os nossos irmãos! Quantos centos de francezes imaginas tu que morreram hoje? Não se mata impunemente um francez como se mata um cão. E desde que entrámos em Portugal quantos não teem ficado para nunca mais voltar a França! Vingámol-os; estão vingados! _Vive l'empereur! Vive le marechal! Vive la France!_

E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava proxima, jogou-lhe esta phrase intimativa:

--Esta é minha; canta tu.

E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar;

Viva a França! viva a França! Que triumpha na matança! Rataplan!

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Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da familia Strech.

José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, authomatico. Dir-se-ia que a intelligencia se lhe havia paralysado, e o coração havia adormecido. Era um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento, mas muito mais horroroso de certo, porque os olhos tinham vista para a realidade, embora o cerebro não tivesse actividade para comprehender.

Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, se bem que o desalinho dos vestidos e dos cabellos fosse claro indicio de lucta.

José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as e, porque o coração humano é tão valente ás vezes que se excede a si mesmo, resistiu áquella dôr incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do seu pensamento o auxilio de uma ideia.

N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso um raio de luz, ainda que fosse sinistro como os clarões sulphureos dos mysticos paineis que representam o inferno.

E verdadeiramente infernaes foram os horrores d'esse dia.

Se o leitor, apesar das indicações historicas de que me tenho soccorrido, imagina que estou phantasiando negruras para architectar um romance tenebroso, achará no seu proprio espirito a convicção da verdade, se se concentrar por um momento deante do tosco e funebre quadro, allusivo á invasão dos francezes, que pende da muralha da Ribeira, a dois passos da ponte pensil.

Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão da noite duas zonas luminosas, ouvindo o ruido triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a pequena distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos espectros sombrios, as armações dos navios fundeados, ahi, dizia eu, comprehenderá todas as angustias, hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.

A inscripção do quadro nem por singela deixa de convidar á meditação:

«Pelas almas dos que falleceram na ponte do rio Douro na entrada dos francezes no anno de 1809, um Padre Nosso e uma Ave-Maria.»

Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a procurar a triste inspiração para escrever as primeiras paginas da historia da familia Strech. Estes horrores poderão hoje parecer sinistramente romanticos, mas uma hora só de recolhimento em face do quadro da Ribeira basta a acordar em nós a consciencia historica d'essa epoca calamitosa.

Para os que morreram na catastrophe da ponte pede o rotulo uma oração, mas quantos não morreram então sem oração e sem mortalha, quantos não agonisaram em ancias que não foram mortaes, sem a mortalha que desejariam, e sem uma oração de que blasphemariam!

Ó Providencia! só tu sabes o segredo de todas as maguas, só tu podes contar as bagas de suor que ressumbram na fronte dos infelizes que tu não matas logo, para que não morram em desespero sacrilego!

E José Maria não morreu.

Por um esforço intellectual, que só a Providencia podia permittir a um soldado ferido, quando já as trevas da loucura procuravam cingir-lhe o cerebro escandecido, conseguiu encontrar uma recordação, se bem que a principio tibia e vaga como o diluculo que se vae alargando e colorindo pouco a pouco até chammejar no céo.

E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre moço lhe queimára a intelligencia, como se fosse labareda, mostrando-lhe as ruinas do passado ainda fumegantes de um incendio recente.

Eram aquellas as cinzas da sua felicidade...

Estavam ali espalhadas pelo turbilhão da guerra, retintas de sangue, a clamar vingança.

E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas palavras ao mesmo passo desalentadas e calorosas não puderam, depois que inteiramente se recordou da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os trez corações paralysados, descerrar os labios da mãe, da irmã e da avó, para sempre mudos, para sempre adormecidos.