O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular

Part 15

Chapter 151,163 wordsPublic domain

Giovanni quiz falar. Elle não consentiu; afastou-o com um gesto.

E deixou-se ficar dois dias com a cabeça apoiada nas mãos.

Levavam-lhe de comer: recusava.

O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou por ir a Florença avisar o consul portuguez. Chamado Graça Strech ao consulado, muito laconicamente respondeu ás perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade de se transportar á patria. Deu-lhe um passaporte para Portugal. Graça Strech nem agradeceu nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para o recommendar ao capitão. Faltava Graça Strech. Mandou procural-o ao albergue. Encontraram-n'o sentado com a cabeça firmada nas mãos. Deixou-se conduzir ao navio. Subiu á coberta, e sentou-se n'um banco, na mesma posição. O navio largou; elle não ergueu os olhos.

Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho homem; andava arrimado a um bordão, porque coxeava. Alguem, por caridade, o vestira: trazia sobrecasaca abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava sobre esta pobreza a medalha de prata da guerra peninsular em competencia com um annel de ouro que brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar do chão pontas de cigarros, e manipular um longo rolo de tabaco, perguntavam-lhe por que não vendia o annel.

Respondia sempre:

--Porque este annel tem mysterio.

E, surdo a outras perguntas, começava tangendo maviosamente a guitarra que trazia sobraçada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jámais a implorou. Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado por um cão, e de tal modo se estimavam, cão e homem, que o cão parecia escutar attento o guitarrista, e o guitarrista defendia energicamente o seu companheiro quando era açulado pelo rapazio.

Onde encontrára o guitarrista o cão?

É que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao segundo.

N'um quintal da rua das Fontainhas, logo á entrada, descendo do Jardim de S. Lazaro, ha ainda hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a duas pobres mulheres, donas do cão. Ali piedosamente receberam o guitarrista, que na primeira noite de hospedagem fôra mordido pelo animal, que dava pelo nome de _Janota_, e se rebellara contra todos os affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa do seu companheiro, e lembrou-se d'um facto semelhante que em Portugal occorrera durante a primeira invasão franceza. Em Abrantes, em 1807, um official portuguez poupou a vida de Junot; sem embargo, fôra, dias depois, fuzilado, não sei a que pretexto, por ordem do mesmo Junot.

O guitarrista, applicando ao caso esta recordação da sua mocidade, começou a dar ao cão o nome do general francez.

Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome não tinha razão de ser, porque homem e cão viviam em boa camaradagem; todavia subsistiu. As proprias donas do casebre se habituaram a dizer _Junot_ em vez de _Janota_. Em tamanha pobresa permaneceu o guitarrista até novembro de 1857, epoca em que o meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve casualmente occasião de falar-lhe.

Passava na Batalha quando o guitarrista, sentado nas escadas da egreja de Santo Ildefonso, estava sendo chasqueado por trez estudantes do seminario episcopal. Movido de indignação, subiu as escadas, e ameaçou os seminaristas com denuncial-os ao prelado. Os rapazes debandaram amedrontados, e o guitarrista levantou-se para agradecer ao sr. Leorne. Pelas breves palavras que trocaram, conheceu este cavalheiro que estava ali um lucido espirito e um nobre coração esmagados pela desgraça. Tanto bastou para começar a protejel-o, até que no mez de novembro d'esse anno conseguiu que fosse admittido no hospital dos Entrevados de Cima de Villa. O guitarrista acceitou reconhecido. Mas, quando lhe foi imposta a condição de usar o vestuario dos asylados, reagiu tenazmente. Só puderam convencel-o a transigir repetidas instancias do sr. Leorne.

Durante a sua estada no hospital de Cima de Villa, grato á protecção recebida, abriu-se em frequentes confidencias com o seu protector. Algumas vezes lhe escreveu, assignando-se Graça Strech, se bem que os registos de admissão e obito o nomeiem Conceição Graça.

Bem póde ser que o infeliz, talvez por melindre que nos não é dado perscrutar, negasse ao escripturario o verdadeiro appellido de sua familia, e facilmente se comprehende que o registo de obito foi modelado pelo registo de entrada no hospital.

O leitor, antes de eu ter denunciado o nome do estranho guitarrista, já o havia conhecido de certo, confrontando-o com a personagem que apparece nas primeiras paginas d'este livro, e achando-os em tudo semelhantes.

Graça Strech falleceu no hospital dos Entrevados de Cima de Villa a 20 de maio de 1850. Antes de expirar, entregou ao seu protector, que lhe assistiu aos ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular, com que fôra condecorado, e que o sr. Leorne ainda hoje possue[15]. O annel mysterioso, por expressa recommendação do moribundo, desceu com o cadaver á sepultura. Outra piedosa pessoa, a quem o sr. Leorne revelára as qualidades e soffrimentos de Graça Strech, se encarregou de fazer-lhe os funeraes na capella do Prado do Repouso, reservando para si a guitarra que elle por tão longos annos dedilhára.

Aqui podia terminar a biographia de José Maria da Graça Strech, mas, para que fique mais completa, concluiremos copiando textualmenle as unicas palavras que até hoje falavam d'elle:

_João José Duarte Machado, capellão director do cemiterio do Prado do Repouso, n'esta cidade do Porto:_

«Certifico que no livro quarto do registo dos obitos e enterramentos dos adultos, a folhas trezentas setenta e sete, verso, se acha o assento seguinte:

«José Maria da Conceição Graça, filho de Francisco Pinto Graça, e de Maria da Gloria, natural do Porto, edade sessenta e seis annos, estado solteiro, profissão mendigo, morador que foi no Hospital de Cima de Villa, dos Entrevados, falleceu de molestia não denominada pelas nove horas da noute do dia vinte de maio de mil oitocentos cincoenta e nove; depois de se lhe rezarem os responsos do costume foi sepultado pelas oito horas da noute do dia vinte e um do dito mez n'este cemiterio publico--Prado do Repouso--no canteiro numero tres, sepultura dois mil trezentos e seis, de que se fez este termo que assigno com o reverendo capellão. Eu Antonio José Antunes Barbosa, director, o subscrevi. _Antonio José Antunes Barbosa_, director. _Francisco Alves da Soledade_, capellão.

«Não contém mais o dito assento, ao qual me reporto. Porto e Cemiterio do Prado do Repouso, nove de setembro de mil oitocentos setenta e tres.

«JOÃO JOSÉ DUARTE MACHADO.»

«Capellão director.»

FIM

[15] Em 1873.

INDICE

Prologo da 3.ª edição 5 I--O Desgraça 7 II--Na quinta das Chãs 10 III--Pomba que presente sangue 19 IV--Horrores da invasão 28 V--O juramento da vingança 38 VI--A mariposa do acampamento 47 VII--No hospital de sangue 55 VIII--O anjo da liberdade 63 IX--Entre a vingança e o amor 72 X--A hora do resgate 82 XI--O que a vivandeira pensava 90 XII--Amor e ciume 101 XIII--Como acaba a tragedia de Goethe 109 XIV--Quanto custa ser mãe 118 XV--A queda do gigante 127 XVI--Uma festa no Porto ha cincoenta e nove annos 136 XVII--Como madrugam as aves e os noivos! 146 XVIII--A lenda d'Ashaverus 155 XIX--A terra da promissão 165 XX--O manuscripto de Pietro 174 XXI--Epilogo 184