O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular

Part 14

Chapter 143,999 wordsPublic domain

--Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei--acrescentou pausadamente Pietro--e já sabe mais do que aprendeu. Deus nunca desampara os desgraçados! O talento foi o patrimonio com que Deus dotou a minha neta. Mas olha que é um capital cujo rendimento chegava bem para nós dois! A pequenita bastava-lhe roçar com as azas pelas cordas: logo sahia musica. Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da morte não se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se para a... eternidade. Fica o outro, que por ser de menor edade não tem ainda credito na praça. É preciso que tu, homem de bem, substituas o socio que se retira, e entres apenas com a tua edade e com a tua experiencia. A tua missão cifra-se em acompanhar a avesinha, e defendel-a das ciladas do mundo. Nota, porém, que te corre obrigação de não traíres a confiança que um amigo moribundo deposita em ti. Jura-me pela tua honra que serás exacto como tens sido até hoje...

--Juro, disse com firmeza e commoção Giovanni.

--Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela pequena, que fica sendo agora tua neta. Mas ouve ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e e com boas razões, que o pae d'essa infeliz menina, morreu. Tudo me leva a crêl-o. Se algum dia, porém, e Deus o permitta! o pae d'ella apparecer, dize-lhe que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de reconhecer a filha: é um annel que ella traz n'uma saquinha ao pescoço. De mim não quero que lhe digas nada, porque n'este papel, que lhe entregarás, caso o pae da menina não tenha morrido, deixo explicado o mais que tinha a dizer. Se elle não surgir do tumulo a reclamar a filha, o que é provavel, entrega esse papel a Augusta, para que ella, em edade de o entender, saiba com que amor eu a amei. Dá tempo ao tempo. Espera que ella cresça e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora dá-me a tua mão. Palavra de homem de bem?

--Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda commoção, e muitas lagrimas.

E acrescentou:

--Vae descançado, Pietro. Tua neta, pois que assim lhe chamas, não ha de soffrer mal algum. Eu tenho sido até hoje escravo da minha fidelidade. Tenho andado pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal me não pagam. Nasci preguiçoso, é verdade, Deus me perdôe, mas tu bem sabes que me não pegou ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jógo. Fumar, fumo eu, mas isso é apenas um mau habito. Tendo pão e tabaco, estou contente. Isso, é de sobra, dar-m'o-ha a harpa de tua neta. Agradeço a esmola, e toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro que juntar eu lh'o guardarei. Comprará uns vestidinhos, concertará a harpa, comprará outra melhor...

--Isso não! isso nunca! interrompeu Pietro com febril exaltação. A minha harpa nunca ella a deixará; já lh'o disse, e ella prometteu-m'o.

--Desculpa, Pietro, eu não pensei o que disse. Emfim comprará o que quizer, porque todo o capital será d'ella; eu serei unicamente depositario.

--Bem! disse Pietro prostrado de commoção. Estamos tratados para a vida e para a morte. Agora sae por algum tempo, e manda-me cá a pequena.

Saíu Giovanni e entrou Augusta.

O doente esteve olhando para ella mui attentamente, e exclamou:

--Que linda és!

A pequetita respondeu com beijos.

--Olha lá, Augusta,--tornou Pietro--não te esqueças da recommendação do annel. Oh! que se tu encontrasses ainda teu pae! E d'ahi póde ser. Deus é misericordioso. Se elle escapou á guerra, bem póde acontecer que ainda algum dia o encontres. Deus o queira, Augusta, anjo, filha. És tão pequenina, tão pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho! Emfim eu não havia de ser eterno; muito me tem deixado Deus viver para teu amparo. Que linda, filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae ali para fóra um momento... Tu és muito minha amiga, pois não és?... Vae filha, vae, e chama Giovanni.

Saiu a pequenita a cumprir a ordem.

Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mão do doente os papeis em que lhe falára.

--Não posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a cabeça! Sabe Deus com que difficuldade tenho feito tudo isto! E--acrescentou placidamente--para o enterro já sabes que basta avisar o consul. Nós em toda a parte somos italianos.

Giovanni tregeitou, e o doente deixou caír contra o travesseiro o craneo que parecia de chumbo. Nos trez dias que se seguiram não mais tornou a falar. Entrou em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados até que a morte lh'os sellou para a eternidade.

O consulado italiano fez o enterro: só os summamente grandes e os summamente pequenos são enterrados á custa das nações.

Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos das ruas, que havia de menos uma andorinha viajeira?

Os outros não souberam, porque, tendo por missão voar de terra em terra, não lhes sobra tempo para se demorarem á beira d'um tumulo.

Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni; ninguem mais.

A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a como pôde. O sol, que é a alegria de todos os passarinhos, fez o mais.

Começaram ambos a sua peregrinação.

A pequenita, pobresinha! só tocava n'esses dias de pungente saudade musicas tão tristes como a alma d'ella. Ainda assim ouviam-n'a, achavam-lhe graça, e davam-lhe dinheiro.

O publico, em geral, reputa felizes os que convidam á felicidade.

E, em geral, engana-se sempre.

Augusta sonhava quasi todas as noites com o avô. Pela manhã dizia a Giovanni:

--Esta noite vi-o. Lá me tornou a repetir que não perdesse o annel.

Outras vezes:

--O avô, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse que fosses sempre muito meu amigo.

As recommendações de Pietro, que a pequenina ouvia em sonhos, não eram precisas. Nem Augusta perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se esquecia das promessas que tinha feito.

Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel.

E com esses dois thesouros se propunham correr mundo.

Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas que só obedecem ao impulso do coração; ora o coração era bom, e as obras boas sahiam, portanto.

Nascera, como o cão de quinta, para a ociosidade, mas, como o cão de quinta, era fiel.

Durante o anno que acompanhou Augusta nunca deslisou um passo do caminho do dever.

Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a com a harpa ás costas, avisando-a sempre da aproximação dos trens e dos cavalleiros.

Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graça Strech, para nos servirmos da phrase de Pietro. Feito o reconhecimento, Giovanni entregou-lhe a filha e os papeis que recebera, e diziam assim:

MANUSCRIPTO DE PIETRO

Estas são as minhas memorias. Dito-as para serem lidas por Augusta ou seu pae, se é que não morreu, para esclarecimento d'algum d'elles, ou de ambos, se Deus o permittir.

Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros annos da minha vida empregado n'um escriptorio. Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme. Desnorteei. Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos que o meu abecedario é o _do-ré-mi-fá-sol-lá-si_. Ainda assim, apesar do muito que se soffre n'esta vida errante, agradeço a Deus o inspirar-me que fosse musico, porque tive occasião de fazer bem.

Finou-se de saudades em viagem a _signora_ Rosina. Era um soffrer que fazia horror! Não havia palavras que a consolassem, musica que pudesse distraíl-a! Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem lh'os viu. Quasi não comeu. Acceitava, depois de muitas instancias, uma agua de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; então bebia. Chegámos a Napoles, e logo a _signora_ me pediu que tratasse de arranjar albergue, porque se sentia muito doente. Em verdade estava muito falta de forças. Quiz escrever para Portugal, e não pôde. Mal pegava na penna descórava muito, e entrava de sentir-se agoniada. Eu, vendo que semelhantes esforços a estavam debilitando cada vez mais, pedia-lhe que deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a dizer-lhe que não tinha geito metter-se em casa. Depois de repetidas instancias, annuiu em ir commigo ao anoitecer até á beira mar. Umas vezes voltava melhor; outras vinha mais doente. No primeiro caso, principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e já estava fatigada. No segundo, passava a noite em convulsões, e era preciso não a desamparar até pela manhã, que só então cahia em somno. Eu ia porém instando sempre pelos passeios. Ah! mas ver a _signora_ um mez depois que chegámos a Napoles! Que differença! Emagreceu, descórou, fez-se velha. Não parecia a mesma! A primeira carta que recebemos de Portugal causou-lhe tamanha impressão, que eu julguei que morresse. Tive realmente medo. Chorou, riu, delirou. A carta não dizia porém que o _signor_ Strech tivesse recebido as nossas. A _signora_ inquietou-se muito com isto.

--Está lá sem saber nada de nós! disse-me ella. E a mim que me custa tanto escrever!

--Escrevo eu.

--Nada, não quero, respondeu a _signora_. Hei de eu escrever sempre; bem póde ser que alguma carta lhe chegue ás mãos...

--É que o exercito é muito grande, e depois anda d'um lado para outro... disse eu prevenindo novas commoções.

Os soffrimentos da _signora_ havel-a-iam prostrado antes de ser mãe, se não fosse essa carta que recebeu de Portugal. Beijava-a, relia-a, apertava-a contra o coração; só n'aquillo achava allivio.

Desde principios de maio de 1810 que a hora da maternidade se annunciava para breve. Quiz--porque ella tinha o presentimento da morte--escrever uma longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho, e que com certeza não foi recebida. Essa carta, cujo conteudo ignoro, era de certo uma despedida, o ultimo adeus da _signora_. Deixou o papel ainda sobre a mesa, e caíu contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe, e disse-lhe que não a tornaria a deixar escrever mais.

--Não me é precisa a sua licença, meu bom Pietro! respondeu ella.

Eu estremeci.

Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar a vista, e fui eu mesmo deital-a ao correio.

No dia 22 de maio, pela manhã, chamei a locandeira, que era piedosa, porque a _signora_ me disse que n'esse dia seria mãe.

Soffreu doze horas. A final deu á luz uma menina. Quiz ver a filha; mostrei-lh'a.

--Que se chame Argusta, Pietro, que se chame Augusta, recommendou a _signora_.

Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha.

Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar e a gemer. Por mais que lhe dissessemos, a locandeira e eu, que procurasse socegar, não o conseguimos. De noite delirou. Falava do _signor_, Strech, d'Augusta, de Coimbra, do mar, do annel. A febre era muita. Estáva córada como se as faces fossem duas rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira amparava a _signora_.

Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava peior. Chamou-se o doutor, que receitou, e disse que a _signora_ corria grande perigo. Apesar dos remedios, não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, quando eu estava acalentando a menina para adormecel-a, a _signora_ deu de repente um grito, sentou-se na cama, disse que não via, tornou a dar outro grito, e cahiu morta.

N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse que estava orphã.

Fiz um enterro decente á _signora_ Rosina, adquiri, com o auxilio do consul, o direito de a sepultar n'uma campa perpetua e mandei-lhe pôr um singelo epitaphio que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.»

Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, que me custou talvez mais--Deus me perdôe!--do que a morte de meu filho.

Não recebi resposta, nem tornei a receber mais cartas. Quiz partir para Portugal. Informei-me. A guerra continuava cada vez mais renhida. Que havia eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e uma criança ao collo? Demorei-me ainda um anno em Napoles para dar tempo a crear-se a menina. Foi uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.

Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era preciso alguma coisa. Durante esse tempo não recebi carta do _signor_ Strech. Não obstante, continuei escrevendo sempre. Sabia-se que continuava a guerra. Não tinha certeza de que as minhas cartas fossem entregues, e de que o _signor_ vivesse ainda. Maguava-me tão longo silencio, porque emfim eu cada vez ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na menina e na harpa e comecei a minha peregrinação, porque estava exhausto de recursos. Em Napoles ha sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me. Alguns eram velhos, e estavam tão pobres como eu. Além d'isso, fallecera a dona do albergue, repentinamente, e quando eu sahia entravam os crédores. Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente tratára da _signora_ Rosina. Como ella sabia do nosso segredo, habituei-me a consideral-a pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára a ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu tinha a certeza. O segredo descia com ella á sepultura. Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi sahir para o cemiterio e me encontrei com os crédores que entravam. Era preciso ganhar vida, porque eramos duas pessoas a alimentar, melhor direi pessoa e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, dormia-as com a menina ao collo. Se eu era avô! Ás vezes apertava commigo a tristeza. Lembro-me de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde me recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando a menina adormecida nos meus braços, lembrando-me ao mesmo tempo da _signora_ e do _signor_, ambos mortos para ella, que, francamente o confesso, n'essa noite envelheci dez annos. Todavia, logo que nascia o sol, nascia com elle o grande lenitivo dos desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa, e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros por me vêr com a menina: muita vez o conheci.

Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto a menina ia crescendo. Que espertesa que revelou desde os primeiros annos! O seu gosto era estar a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás vezes, acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me de que a menina podia aprender musica. Seria o seu dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico ambulante! Com oito mezes d'aprendizagem era um gosto ouvil-a! Parecia impossivel! Dispensei-me de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um prodigio! Bastavam ellas para fazer a colheita que era sempre abundante. Comprei roupa á menina; trazia-a uma princesasinha. Verdade é que sempre de luto. Todo o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia de preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os soffrimentos de seus paes, que extraordinarios foram em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias este papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito que serás, mais uma vez te peço que conserves sempre viva em teu coração a memoria d'esses dois grandes desgraçados, que mais o foram por tua causa. Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia, em Pariz, um rapaz esculptor pediu o meu consentimento para nos modelar a ambos em gesso. Não foi por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão de ser avô da menina... Avô! Sim, pelo coração não posso deixar de o ser. O verdadeiro avô não lhe quereria mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a menina. Quem se não ha de encantar? Modelou-a. Foi a primeira estatua levantada em honra da pequenina harpista. A mim modelou-me de certo pelo contraste. Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé do rosto d'uma criança. E que formoso rosto, _sangue di Christo_! Como eu gostei de ver a menina assim retratada! Mal diria eu que um mez depois havia de soar a hora de me separar d'ella. Não me custa deixar o mundo, onde se soffre tanto; custa-me deixal-a a ella, porque a amo muito. Não quero, porém, ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em me não levar quando a menina era mais pequenina. Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que estou doente. Não tenho querido acamar para não entristecer a menina. Mas hoje, a tal ponto receio por mim, que vou mandar chamar o meu velho conhecido Giovanni para lhe fazer as minhas ultimas disposições.

Dizem todas respeito á menina.

Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro. Giovanni é preguiçoso, mas um verdadeiro homem de bem. Muitas vezes tive occasião de o reconhecer. Eu não podia fazer melhor eleição. A minha harpa, que lego á menina, ganhará para os dois, e Giovanni será incapaz de guardar para si o que pertencer á menina.

Morro n'esta certeza. Giovanni é mais fiel do que um cão.

Estão, pois, saldadas as minhas contas com o mundo, com a _signora_ e o _signor_. Fiz quanto pude, e me mandava o coração. Da justica de Deus não me arreceio. Deus bem vê a minha alma.

Torno a repetir que escrevo este documento para que Augusta melhor comprehenda um dia como eu a amei, ou para que seu pae, se Deus o resuscitar, porque em verdade o supponho morto, veja que não trahi a confiança que depositou n'um desconhecido. Se eu morresse em Napoles, quereria ser enterrado ao pé da _signora_. Não fui o seu guarda em vida? Continuaria a sel-o depois de morto. Como de certo morro aqui, porque a minha doença é grave, apenas tenho a pedir que rezem um _Padre Nosso_ pela minha alma, quando abrirem este documento, que fica em poder de Giovanni.

_Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:_

PIETRO.

* * * * *

XXI

Epilogo

Estava escripto no livro dos destinos que não houvesse felicidade completa para Graça Strech. Encontrava o coração da filha como verdejante oasis no immenso deserto que a morte de Rosina lhe estendia deante dos olhos. Era uma gota d'agua para matar uma sêde d'amor que o requeimou durante sete annos; um só raio de sol que se coava á negridão em que o destino o havia enclausurado; uma unica flôr a alegrar o caminho interposto á velhice precoce e á valla que o esperava algures.

Entre lagrimas e sorrisos apertou contra o coração esphacelado o corpinho flexivel da criança; tinha a filha nos braços e sentia nas mãos a friagem da terra que cobria a campa da mãe; irradiava-lhe uma aurora contra o rosto, e os clarões cambiantes espelhavam-se no pranto que lhe sulcava as faces.

Devia remoçar, e sentia-se velho.

Parecia abrir-se-lhe a porta do paraizo e, em vez de transpôl-a, pedia á criança que o acompanhasse ao cemiterio de Napoles, onde Rosina jazia.

Giovanni julgou importuna a sua presença, e balbuciou soluçando umas palavras de despedida.

Graça Strech travou-lhe da mão e disse:

--Giovanni, tu eras o guarda de minha filha; sê agora o companheiro da filha e do pae.

Giovanni correu a beijar a menina com lagrimas d'alegria nos olhos; era quasi o cão a festejar o dono.

Partiram.

Ao passar em Pariz, Graça Strech foi com a criança procurar o esculptor Maubert. Entrou no _atelier_ e disse ao artista:

--Aqui tem o original do seu busto, senhor: é minha filha. Falta o nobre Pietro: roubou-o a morte. Eu não quiz atravessar a França sem lhe vir agradecer o serviço que me prestou. Não encontraria minha filha, se o senhor me não ensinasse o caminho. Que Deus lhe torne em alegrias o que a mim me deu em consolação. O senhor receberá o premio da sua benevolencia para commigo lá onde os bons e os desgraçados são remunerados condignamente.

Seguiram para Italia. Graça Strech estava ancioso de chegar a Napoles, onde se demoraram oito dias, visitando de manhã e de tarde o _Campo Santo_. O que elle confidenciou junto á lousa de Rosina Regnau ninguem o ouviu, nem é dado avental-o, porque ha dôres que só se comprehendem quando se experimentam. Os labios do pae, ajoelhado á beira da campa, ciciavam de todas as vezes palavras inintelligiveis; a filha, ajoelhada ao pé do pae, tinha as mãos postas, e denotava doloroso recolhimento. Não rezava, porque ninguem a tinha ensinado a rezar. A falta das mães é tamanha que até Deus a sente! Giovanni completava o grupo, posto o joelho em terra, e alternando olhares respeitosos entre o pae, a filha e a campa.

Ao cabo d'oito dias a menina mostrava-se doente. Graça Strech tremeu da tristeza da criança, e perguntou-lhe o que tinha.

--Faz-me medo estar no cemiterio! respondeu Augusta chorando.

--Tens razão, filha, disse Graça Strech. Mas o que havemos nós de fazer agora no mundo todos trez?

--Eu toco a minha harpa, tornou com vivacidade a pequenita. O papá toque a sua guitarra. Giovanni vae comnosco.

Graça Strech não teve animo de recusar.

--Voltemos então a França, alvitrou elle. Eu vi a sepultura de tua mãe; quero agora vêr o seu berço. Iremos ás Ardennas.

--Mas as Ardennas não são tão tristes como o cemiterio, pois não? perguntou ingenuamente Augusta.

--Não são, filha, não são. Para tua mãe eram o paraizo d'onde eu a expulsei.

Foram musicando. Notavam-se entre todos os _virtuosi_, além da maguada sympathia que filha e pae inspiravam, pela melancolia do seu repertorio. A guitarra d'elle e a harpa d'ella falavam a linguagem da saudade. Se o publico as ouvisse no _Campo Santo_ de Napoles, á beira d'um cómoro, devia comprehendel-as. Estiveram nas Ardennas, onde os camponezes sahiam em ranchos a ouvil-os. Alguns d'elles, vendo o guitarrista esquecido a olhar para o cimo das montanhas, com o braço paralysado, diziam entre si:

--Aquelle homem não tem a razão clara!

Passando-se depois a Pariz, encetaram o viver errante dos passaros. Graça Strech tirava do amor com que idolatrava a filha as forças com que vivia, e tinha desvairamentos nervosos se se demorava a contemplar-lhe as faces pallidas, da meiga pallidez da irmã, e os olhos fundos e brilhantes.

Quedava-se a olhar n'ella com a fronte banhada de suor frio.

--O papá gosta tanto de me vêr! exclamava a menina ao mesmo passo carinhosa e amedrontada da sombria physionomia do pae.

--Gosto, filha. É que eu sou pae e desgraçado! Se tu morresses, enlouquecia.

--Eu não morro. O papá não diga isso, que me faz medo. Deixe-se de estar a pensar, papá! atalhava a menina. Ó Giovanni, traz a harpa; não estou contente senão quando a tenho ao pé de mim! O papá não ralhe, porque eu sou muito sua amiga tambem.

Decorreram os annos. O botão de rosa fez-se flôr. Flôr melancolica como as que pendem aos sarcophagos.

Graça Strech procurava suavisar quanto lhe era possivel a sua continua peregrinação. A menina, tomada de febril impaciencia, dizia ao pae que havia de morrer no caminho tocando harpa. E acrescentava:

--Bem diz o papá: nós somos como os passaros. Elles tambem só parecem alegres quando voam!

No inverno de 1824--tinha Augusta quatorze annos--começou a soffrer do peito.

Estavam de novo em Londres.

Augusta queixava-se de dôres vagas; e tossia.

--Fujamos de Londres! disse Graça Strech fitando a filha com atormentado semblante.

Em França os soffrimentos continuaram, se bem que a menina, para não desalentar o pae, procurasse animar-se d'uma alegria que por bastante transparente deixava entrever o disfarce.

Seguiram para Italia. Enflorava-se a formosa do Mediterraneo com as galas da primavera de 1825.

Caminho de Florença nos ultimos dias de março, colhera-os ao entardecer a tempestade no caminho. Tiveram de estugar o passo para recolher-se no albergue de Pistoja. A menina chegou anciada, e afogueada das faces. Deitou-se logo. O pae, atordoado como ebrio, não a desamparou em toda a noite. Pela manhã, Giovanni foi poisar a harpa ao pé do catre. Augusta reprehendeu-o. Disse que no dia seguinte tocaria. Veiu o outro dia, vieram muitos, e a menina nem queria erguer-se nem ver a sua harpa.

--Então já não és como os passaros? perguntou o pae com voz que mal podia romper através das lagrimas.

Augusta viu chorar o pae, e disse para Giovanni:

--Os passaros tambem cantam no ninho: vai buscar a harpa.

Tirou alguns sons, e não pôde continuar.

D'ahi a trez dias chamou de novo Giovanni e disse-lhe:

--Hoje estou boa; vae buscar a harpa.

O pae quiz illudir-se ainda: sorriu.

A menina vibrou as primeiras modulações e deixou pender os braços.

Acudiu o pae a chamal-a. Não respondeu. Giovanni agitou-a docemente e conheceu que estava morta.

A avesinha não pôde completar o seu cantico de despedida.

Desde essa hora Graça Strech affigurava-se idiota. Unicamente pareceu illuminar-se-lhe por instantes a razão quando disse a Giovanni:

--Meu bom amigo, meu fiel amigo, não tenho mais que te dar: péga n'essa harpa e deixa-me viver em paz. Adeus, até á hora do resgate.