O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular
Part 13
O albergueiro começou a notar extraordinaria agitação na physionomia do hospede. Viu encovarem-se-lhes os olhos, e estremecerem-lhe os musculos das faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em breve as contracções nervosas se estenderam a todo o corpo. O caminheiro começou a tremer, a tremer. Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo, frio como o gelo. Depois, como o peso da roupa fosse muito, começou a córar e a suar. Dizia palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito, sacudiu a roupa. Foi direito á sua maleta, desafivelou-a e tirou de dentro... a guitarra. Começou a tangel-a febrilmente. A gente da pousada entreolhava-se com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam com maior rapidez, até que, inesperadamente, a musica foi afrouxando, parecendo unicamente suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar um olhar alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas gemidos e suspiros dolorosos.
Tornaram a dizer-lhe que era melhor descançar. Recusou com pertinacia.
--Peço que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o comprehendessem.
Não queriam consentir; elle insistiu.
Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra, que depois se calou. Foram espreital-o: viram-n'o com a cabeça poisada sobre ella. Estava assim, mas não dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer. Ao romper da manhã saíu. Mal se podia aguentar a pé. Pediram-lhe que ficasse para se restabelecer; agradeceu e partiu. Continuou, posto que debilitado, a sua peregrinação indefessa.
--Eu já não viveria, dizia elle ás vezes, se não tivesse ido ao cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra de fé que me ampara ainda!
E lá ia, descançando uma hora, caminhando duas.
Esteve em Turim. Perguntou, investigou, não soube nada. Como para crear alento, que lhe permittisse seguir jornada, sentava-se nas praças publicas a tocar na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle não levantava os olhos emquanto estava tocando, excepto se ouvia falar alguma criança. Algumas vezes lhe chamavam louco, porque lhe lançavam dinheiro ao regaço, e elle não agradecia. Era o idiotismo da desgraça. Estava pobre, gastára quanto levára comsigo nos primeiros tempos da peregrinação. Se não fosse a guitarra, morreria de fome. Pouco lhe importava a vida sem Rosina e seu filho. Se não se matava, era porque tinha ainda um resto de fé que o amparava.
Foi a Milão. A mesma canceira: perguntar, sempre perguntar. Inquiria todos os harpistas: nenhum lhe soube dar noticias do velho Pietro.
--Em Italia não estão! dizia elle. Tenho a certeza, não ha recanto que eu não tenha batido.
Atravessou a Suissa sem melhor resultado.
Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria de Rosina. Lembrou-se de que viveriam lá na supposição de que elle, se fosse vivo, logo atinaria, por impulso do coração, com o esconderijo que haviam procurado. Passou a França: foi direito ás Ardennas. Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle paiz de florestas. Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia amar para se esquecer do seu formoso ninho! Consultou todas as arvores, bateu a todas as portas. De Rosina Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velho _sonatóre_, ninguem o vira. Graça Strech esteve ali muito tempo: havia já tanto que saíra de Portugal! Teve tentaçoes de se deixar morrer nas Ardennas. Queria respirar ao morrer o ar que Rosina respirára ao nascer. Chegou a pedir a Deus que lhe désse por tumulo o berço d'ella. Mas, emquanto orava parecia fortalecer-se a sua fé.
Resignou-se a partir. Recomeçou a caminhar. Ia no fim o anno de 1816. Disseram-lhe no caminho que no inverno se reuniam em Pariz todos os musicos ambulantes. Para lá foi com a sua guitarra. Effectivamente o enxame dos _virtuosi_ enchia os cafés, as praças e as ruas. Á porta dos theatros havia todas as noites uma nuvem d'elles.
A este tempo reinava em França Luiz XVIII. Napoleão, não podendo resistir á colligação das potencias alliadas, abdicou o imperio em Fontainebleau, retirando á ilha d'Elba.
O congresso de Vienna havia regulado os negocios da Europa; sem embargo, Napoleão sonhava ainda com voltar a França. Em março de 1815 desembarcou em Cannes e entrou em Pariz. Pôde ainda vencer em Charleroy e Fleurus, mas a hora solemne de Waterloo bateu no relogio que marca a existencia de vencedores e vencidos, e Themistocles teve de pedir hospitalidade a Artaxerxes.
Graça Strech ia caminhando e ouvindo as vozes do povo. Quando soube do resultado de Waterloo, disse de si para si:
--A Providencia é justa. A minha familia não precisava da minha vingança, porque a Providencia se encarregou de punir o assassinio de todas as mulheres, de todos os velhos e de todas as crianças. Ora a justiça da Providencia não deixará de me aclarar o mysterio que eu procuro desvendar ha tanto tempo. Deus sabe se tenho forças para mais!
Pouco antes de chegar a Pariz viu passar uma carruagem seguida por uma ordenança.
Perguntou quem era. Responderam-lhe:
--É o duque de Richelieu, ministro de Luiz XVIII.
Elle contestou serenamente:
--Se fosse no tempo de Napoleão, ia um esquadrão de cavallaria atraz da carruagem. Napoleão mandava exercitos atraz de toda a gente.
Dizia isto como um homem que se entre-lembra vagamente das coisas do mundo. Passou a carruagem do duque de Richelieu, e elle logo se esqueceu da França para se recordar da missão em que ia consumindo baldadamente a vida.
--Vamos com Deus, e com a pobre guitarra! E seguiu para Pariz.
* * * * *
XIX
A terra da promissão
Graça Strech chegou a Pariz no inverno de 1816.
Estavam n'essa occasião agglomeradas na capital da França as andorinhas errantes da musica das ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos os _virtuosi_ que n'essa occasião poisavam em Pariz, apenas cinco ou seis seriam francezes, e um só era portuguez, Graça Strech.
A guitarra, melancolicamente tangida por elle, cuja dolorosa physionomia não era menos melancolica do que a sua guitarra, despertava geral attenção. Acrescia a circumstancia de que esse instrumento não era dos mais conhecidos na orchestra dos musicos ambulantes. Tudo isso concorreu para o éxito. Graça Strech tinha sombrios alheamentos emquanto estava tocando. Caíam-lhe em desalinho os cabellos a esconder a fronte pallida e cadaverica. Era uma bella cabeça d'artista em que muitos pintores fizeram reparo. Um estudante d'esculptura chegou a convidal-o para modelar-lhe o busto.
Graça Strech respondeu:
--Agradeço a sua amabilidade, senhor. Mas eu sinto-me de tal modo cançado, que não póde ser longa a minha vida. O senhor é muito moço ainda; póde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a minha mascara.
A imprevista sobranceria d'esta resposta causou sensação. Passou de bocca em bocca, e os homens d'espirito começaram a olhar com certo interesse respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite, no café _Evezard_, á esquina do Palais National, estavam sobremodo animadas as mesas quando Graça Strech entrou. Encostou-se á ombreira da porta e começou tangendo a guitarra. Como não pedia esmola, interrompia-se a miudo para receber os óbolos que lhe davam os _habitués_ que entravam e saíam.
Na primeira mesa á entrada estavam oito francezes, todos rapazes mais ou menos artistas, que se calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto mais que já o conheciam de nome. Como fixassem a vista em Graça Strech, e falassem visivelmente a seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o maximo disfarce, tudo quanto diziam.
--É assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava uma cabeça febrilmente enthusiasta.
--Depois da pequena da harpa que esteve o anno passado em Pariz com o velho das barbas brancas, ainda não vi maior prodigio! acrescentou um cuja physionomia denunciava um caracter franco e compassivo.
--Que pequena era essa? perguntou no grupo um _commis-voyageur_.
--Era uma pequenita que parecia um passarinho encostado a uma harpa. Acompanhava-a um velho de cabellos brancos, a quem chamava avô, e que lhe transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria difficil dizer qual d'elles poderia melhor com a harpa, se o avô ou a neta. Elle tinha tanto de velho como ella de pequenina. E depois que tristeza dava o vêl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por quem andava de luto:--Por meu pae e por minha mãe--respondia ella com certa vivacidade triste, que enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois não copiaste, ó Maubert?
--Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro falava, e que parecia absorto na contemplação do guitarrista.
--Sabes então mais alguma coisa a respeito da pequena e do velho?
--Pouco mais sei. O avô parecia empenhado em não contar nada. Nem o encanto do mysterio lhes faltava, a elles, áquelle soberbo inverno coberto de neves e áquella infantil primavera que parecia vegetar no gelo do avô! Quando lhes perguntei os nomes para intitular os bustos, respondeu-me o velho:--Queira pôr--_Pietro, sonatóre di arpa; Augusta, sonatrice, lá piccola, nipotina mia._--Fiquei triste com a mysteriosa singelesa da resposta. Previ um romance. Que querem? A doida da minha phantasia! Apertei com o velho, fiz-lhe promessas para que me contasse a sua. Não consegui nada. Lá partiram ambos para Inglaterra.
--Olha para o guitarrista! exclamou o de mais compassiva physionomia.
Olharam todos. Graça Strech estava sendo inconscientemente o alvo de todas as attenções. Havia-lhe descaido o braço; subitamente a guitarra emmudecera; os cabellos do guitarrista, longos e annelados, acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinação da fronte, e os olhos brilhavam através dos cabellos com anciosa vivacidade. Era inutil dissimular: Graça Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima.
--Escuta o que nós dizemos! ponderou o que estivera contando a historia do velho e da criança.
--É verdade!
--Não se póde duvidar!
--Lá começa a dedilhar de novo... Deu tino de que fisemos reparo. Toca _pianissimo_ para ouvir o mais que dissermos.
--É certo! _Che dolcemente!_
--Que terá elle comnosco?
--Talvez não seja comnosco; talvez seja com o velho e a creança, apostrophou o _habitué_-artista.
--Ora, essa cabeça! Tu encontras romances em toda a parte.
--Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar que os olhos d'este homem são os da pequenita! Que semelhança!
--Oh! oh! continua o romance! Esse molde de novellas é velho, Maubert! D'esta vez o pae, que era julgado morto, não volta da Terra Santa. Corre atraz da filha, que ao partir para o combate entregára ao avô. Tem-n'a procurado e não sabe onde pára. És tu, Maubert, que vaes desfazer o mysterio. A Providencia encarregou-te de dizeres: _Pára!_ ao Ashaverus do nosso seculo! Oh! oh!
E os outros gargalharam em côro:
--Oh! oh!
--És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a Terra da Promissão! disse um.
--Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos repararam! exclamou o de mais dôce semblante. E talvez seja algum desgraçado. Este mundo dos _virtuosi_ das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris no inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes vêr a alma. Alguns d'elles parecem conversar com a harpa e com o violino: é porque teem que lhes dizer. Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre quem atravessa os Alpes a pé, e dorme para ahi em qualquer canto, e vae correr a Europa inteira unicamente fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia das cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados, parecem, porque emfim elles teem das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o filho a um passarinho, que elle, com o coração despedaçado, tambem esvoaça em redor do ninho vasio. Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de doêr a ausencia? _La rimembránza_, meus amigos, _la rimembránza_ chora muita vez nas harpas d'elles. Oh! eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem os ouvidos, olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos: _Cá estão!_ Quando chega a primavera exclamamos: _Lá fôram!_
--Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. Maubert prefere a phantasia e o maravilhoso.
--Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez!
--É notavel! Que curiosidade!
De repente interromperam-se os commentarios. Graça Strech aproximou-se de Maubert pedindo-lhe o obsequio de lhe dispensar dois minutos d'attenção em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na voz, tão claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se levantou. Os outros, enquanto os dois sahiam a porta do botequim, ficáram dizendo:
--Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras.
--Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud. A julgar pelo aspecto do guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um romance triste...
--Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo!
--És melancholico como uma lagrima!
--Que não seja de vinho...
--Tens razão: as lagrimas de vinho alegram.
--São ellas de certo que vos dão essa continada alegria! disse com enfado Guillibaud.
O leitor está porém impaciente de seguir Graça Strech e Maubert. Vamos-lhes pois na piugada.
Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente ao esculptor em correcto francez:
--Peço-lhe vivamente perdão, senhor, de o haver privado da companhia dos seus amigos, mas o que o senhor estava dizendo era tão extraordinario para mim...
--Ouvia-nos então? perguntou Maubert.
--Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para lhe pedir, não que me mostre a Terra da Promissão, como jovialmente disseram os seus amigos, mas, quasi o mesmo para mim, que me mostre os bustos do avô e da neta...
--Oh! isso é muito facil. Estamos a dois passos do meu _atelier_. Vamos lá--respondeu o enthusiasta Maubert.
Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez estugava mais o passo; Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente extraordinario aquelle homem, de quem se principiava a falar.
Era perto o _atelier_. Entraram. Graça Strech precedia Maubert, tamanha era a sua impaciencia.
--Aqui estão! disse o esculptor.
Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar rapido e incisivo, vibrou um grito, ao mesmo tempo doloroso e alegre, e, apontando para o do velho, exclamou:
--É elle, é Pietro!
Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, deixou escapar outro grito que parecia o magoado estalar de todas as cordas da alma:
--É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está: _Augusta, sonatrice, la piccola!_ Chama-se Augusta! Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já me não póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E pôde morrer sem esperar por mim! Pobresinha! Poz á filha o nome de minha irmã. Era uma surpreza que me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza, sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella pequena é minha filha. O senhor é artista... Veja que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o senhor a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse então que andava vestidinha de preto? É pela mãe! Pobre Rosina! Oh! eu não creio ainda que tu morresses, tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero ver minha filha, abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, sim, deixe-me enganar. Bem póde ser que tambem a morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido. Olhe que gentil cabeça! Que semelhança com minha irmã! É estar a vel-a, quando brincavamos ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs. Sim, o senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina, a minha vida, o meu amor, que é d'ella, por que não a modelou o senhor para que eu a pudesse beijar agora!
E, com o busto da pequenita apertado contra o coração, pareceu oscillar.
Maubert, que escutava commovido da enormidade d'aquella dôr, e perplexo, porque não possuia todo o segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.
--Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça Strech apertando o busto cada vez mais contra o coração, que pulsava vertiginosamente. Não m'a roube. Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas não me arranque a felicidade que me deu. Isto não é um pedaço de gesso inanimado, que o senhor modelou. Não, isto é minha filha, a minha querida filha, a Terra Prometida...
E, fazendo esforço para tirar a voz que lhe faltava, acrescentou:
--Disse o senhor que o avô e a neta foram para Inglaterra, pois não disse? Bem, vou atras d'elles. Por França não tornaram a passar, ninguem mais os viu? De Inglaterra só poderiam saír embarcados. Não é provavel. Estamos no inverno. É a estação dos musicos. Hei de encontrál-os lá. Hei de ver minha filha, beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e perguntar-lhe onde é a sepultura de sua mãe. Quero ir lá com ella, e com Pietro. Parece-me que ainda posso dar vida a Rosina! Pois ella ha de deixar-se ficar fria e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado por uma camada de terra?! Está morta? Que me importa a mim! Isso não póde ser obstaculo para o meu amor, para este longo amor de sete annos, que não póde acabar assim, que deve durar mais do que a vida...
Maubert começava a receiar pelo guitarrista, que ficou sopitado em demorada prostração. Piedosamente o soccorreu, e quando Graça Strech tornou em si viu o esculptor curvado carinhosamente para elle.
--Muito obrigado! disse com voz flebil Strech. Muito obrigado! Ah! aqui está o busto de minha filha!...
--Que é seu, observou Maubert.
--Sim, o senhor, que é bom, que é nobre, que tem coração e talento, não podia negar esta felicidade a um pae!
--Agora, tornou Maubert, é partir para Londres. Para isso basta atravessar o canal. Está prevenido? A minha bolsa d'artista tem ainda para estas larguezas. Está á sua disposição o preciso para tão pequena viagem.
--Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui está o que eu tenho de meu: deu-m'o, como o senhor viu, quem entrava e sahia do _Evezard_. Eu não pedia, porque não era mendigo: era simplesmente um pae que ha dois annos procurava por toda a parte a sua familia. Conheciam a minha pobreza: davam-me alguma coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre. Agora não, agora não sou, porque finalmente achei o rasto de minha filha! Não encontro Rosina, porque a sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que a hei de resuscitar, porque o meu amor, este amor que ainda me conserva a vida, deve realisar todos os prodigios.
O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert não nos importa saber.
Graça Strech embarcou ao outro dia para Londres. O que se passaria na sua alma é facil de adivinhar: era o que ahi ha de mais pungente doer da saudade á mistura com o mais avido phrenesi da anciedade; era o supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel no ante-gosto d'uma felicidade orvalhada de lagrimas.
É preciso que um coração esteja muito retemperado pelo soffrimento para luctar, sem succumbir, com tão violentos contrastes, tão oppostos extremos, tão desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque havia sete annos que soffria o mais que podem soffrer homens.
Chegou a Londres.
Era, como sabemos, o inverno.
Fluctuava pelas ruas e pelos _cafés_ uma colonia de _virtuosi_. Gastou um dia, gastou dois, sem encontrar quem procurava. Ao terceiro, viu muita gente reunida n'uma praça. Estavam ouvindo uma harpa.
Logo um presentimento lhe alvoroçou o coração. Parou de subito, antes de romper o circulo, porque uma dôr, cruciante como o queimar de um ferro em braza, lhe atravessára o peito. Receiou morrer. Fez porém um esforço, que devia tel-o prostrado a não ser ainda aquella a hora de avistar a Terra da Promissão. Apartou febrilmente o grupo, relanceou por sobre as cabeças um olhar d'aguia, e com um só grito fez emmudecer a harpa e affastar a gente que rodeiava a harpista.
Um homem de meia edade, que não era decerto Pietro segurava a harpa, tangida por uma pequenita vestidinha de preto.
Era o mesmo perfil do busto;--assim devera ser Augusta aos seis annos. Faltava, para completar o grupo de Maubert, o original do outro busto: faltava apenas Pietro.
Graça Strech arrebatou nos braços a criança. Beijou-a, abraçou-a, acariciou-a delirantemente, soffregamente, doidamente.
E por entre beijos e abraços repetia, sorrindo e chorando:
--Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta; bem sei que te chamas Augusta.
A criança tremia-lhe nos braços como um passarinho que se sente comprimido, e procurava furtar as faces aos beijos ardentes do desconhecido.
--Pietro, filha, onde está Pietro?
A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou attenta no guitarrista, e respondeu com os olhos subitamente marejados de lagrimas, dando uma suave expressão de magua ao dialecto napolitano;
--Morreu! Elle morreu. Tu é que talvez sejas meu pae, porque dizia o avô...
--Que dizia o avô, filha? perguntou anciosamente Graça Strech.
--Que meu pae tinha dado a minha mãe, _mia madre poverella_, um presente para mim, e que se elle não tivesse morrido, como nós julgavamos, tu me conhecerias por esse presente. Se sabes o que é, então és meu pae; dá-me muitos beijos que eu consinto.
É o annel, filha! Ah! é o annel que eu dei a tua mãe.
Isso mesmo! disse a criança sorrindo d'alegria. Elle aqui está...
E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoço, onde guardava o annel.
Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina, _padre mio_, para o trazer no dedo.
O povo, que tinha seguido todo este episodio, olhou-se admirado quando viu a pequenita tirar do seio a saquinha, e mostrar o annel.
Era que para o publico, como para Rosina, aquelle annel tinha mysterio.
Graça Strech de novo colheu a filha nos braços, de novo a beijou com os olhos razos de lagrimas, mas a pequenita, soltando-se com vivacidade, disse para o homem que segurava a harpa:
Vamos lá, Giovanni, vamos com meu pae, que não morreu!
* * * * *
XX
O manuscripto de Pietro
Pietro morrera um anno antes, em Londres, logo depois que de Pariz passára a Inglaterra. Acamou, no miseravel albergue em que se hospedára com a pequenita, victima d'uma febre aguda. Ás primeiras horas de leito conhecera que era chegado o termo da sua vida. Antes que estivesse impossibilitado de raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo conhecido, em quem depositava confiança e, não sem difficuldade, porque já a cabeça começava a pesar para a sepultura e o cerebro a escurentar-se com as trevas da morte, lhe disse:
--Giovanni, tu és um homem de bem e, diga-se a verdade, inimigo de trabalhar. Tens vivido sempre em companhia de musicos que te dão alguma coisa porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos. Ora, meu amigo, é chegada a occasião de fazermos um negocio e, nota bem, o ultimo.
--Ora deixa-te de tolices!
--Não são tolices, Giovanni; bem vês que já me custa falar. Não posso perder tempo. Portanto, ouve-me com attenção. A minha hora chegou e pouco me importaria morrer se não tivesse uma neta...
--Uma neta! Tu! Só te conheci um filho, que morreu pequeno em Portugal.
--Isso é um segredo que te não deve importar. Essa criança que ahi está fóra é mais minha neta do que se fosse filha de meu filho. Comprehendes que morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi desamparada. Isso é justamente o que eu não quero. Sabes que a pequena tem talento...
--Isso tem! respondeu Giovanni.