O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular
Part 12
--É o sr. José Maria! Eu bem dizia outro dia que era o tenente das barbas!
--Póde lá ser o Josésinho!
--Tem razão, minha senhora, replicou Graça Strech. Eu devo parecer-lhes uma sombra do que fui. Mas, sombra ou realidade, o certo é que me chamo José Maria da Graça Strech.
--Ora uma coisa assim! Parece um velho!
--E parece! acrescentou a menina.
--Desgostos, minhas senhoras.
--E muitos teve tão novo, sim, porque vêr...
--Peço a vossa senhoria o obsequio de deixar em silencio essas tristes recordações. Uma só quero eu avivar, e por isso lhes causei esta surpresa.
--Mas não nos ter procurado! exclamou a velha senhora.
--Não tomem á conta d'ingratidão o que é simplesmente embrutecimento. Bem podia ser tambem que tivessem mudado de casa.
--Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou a menina. Já nem queria saber novidades da sua antiga visinha! Pois saiba que me vou casar...
--Felicito vossa senhoria.
--Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando com o braço a sobrinha. Ha de estar admirado de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois não se admire. Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, tudo visitas da sua casa, sr. Strech,--e com o noivo da Izabelinha--juntarmo-nos na primeira missa que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João Novo e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes.
Cumpre dizer que na primeira década do seculo XIX era ainda a Fonte das Virtudes o local destinado ás comezainas das familias burguezas do Porto. Ahi se reuniam em ruidosos convivios, deposta a mantilha, e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite e pela mesma alegria.
O camartello das demolições municipaes tem--_avis rara!_--respeitado até hoje esta legendaria fonte que se compõe d'um alto frontispicio, ornado de pyramides, e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. Rebenta abundantemente a agua por duas enormes carrancas em conformidade com a esculptura de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte dois grandes tanques, durante todo o dia, ainda hoje, frequentados por lavadeiras. N'esses bons tempos, ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella pela porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, na eminencia da parte oriental, havia já então os chamados _Assentos_, actualmente Passeio das Virtudes.
O padre Agostinho Rebello da Costa, na sua _Descripção topographica e historica da cidade do Porto_, impressa em 1789, escreve ácerca d'este local: «Em toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem mais agradavel; porque além da sua bella posição adornada de regulares edificios, gozam os olhos d'um só golpe, vista de cidade, de mar, rio, navios, montes, campinas, quintas e palacios. O grande paredão, que presentemente se está fazendo, para com elle se formar uma praça correspondente á belleza, e magnificencia d'esta agradavel situação, será um monumento eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio de Abreu e Lima, cavalleiro professo na ordem de S. Thiago, inspector da marinha do Douro, administrador geral dos portos seccos das trez provincias do Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em obrigar o senado da camara a fazer esta obra interessantissima á regia utilidade, e recreio publico.»
Dito o que as historias referem ácerca da Fonte das Virtudes, reatemos o dialogo.
--Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça Strech, que eu perguntarei sem desvios o que desejo saber. Não me foi possivel averiguar até hoje onde jaz a minha desventurosa familia. Vossas senhorias sabem?
--Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho de Cedofeita que tinham ali sido enterradas, se bem que nos não pudesse designar as sepulturas, pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes dias houve.
Isto disse D. Eulalia, acrescentando:
--No dia seguinte o quartel general mandou ordem a todos os parochos para que, logo que anoitecesse, fôssem levantar os corpos dentro da circumscripção das suas freguezias. Não sabemos mais nada, sr. Strech. Nós recolhemos ao Porto depois que os francezes retiraram. Estivemos em Gondomar, em casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade de encontrar livre o caminho. O senhor bem se ha de lembrar de que nos protegeu na bateria do Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que nos acompanhassem. Não quizeram. Ainda tenho nos ouvidos as palavras da Augustinha: «Se meu pae e meu irmão morrerem, deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem elles seria peior que a morte.» Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim fazia dó, a pobre menina!
Graça Strech estava livido. Já não tinha forças para ouvir mais.
--Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. Já sei o bastante. Felicito-me de as haver encontrado e faço votos pela ventura da sr.ª D. Izabel.
--Agradeço do coração, replicou a menina. O sr. Strech ha de dar-me a honra de assistir ao meu casamento...
--Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se não tivesse de partir hoje mesmo para Italia.
--Partir?!
D. Eulalia repetiu:--Para Italia!
E exclamou virando-se para a sobrinha:
--O casamento anda-te com essa cabeça á roda! Se não sou eu lembrar-me agora por essa palavra, não dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta d'Italia!
--Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado.
--É verdade! affirmou a menina com pesar de se haver esquecido.
D. Eulalia contou:
--Ha quatro annos, foi em...
--Junho, acrescentou Izabel.
--É verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia; andou o carteiro por esta rua, para cima e para baixo, a perguntar pela familia Strech. Todos lhe diziam que essa desgraçada familia estava no cemiterio. Até que a final o carteiro e alguns visinhos bateram á nossa porta, porque sabiam das nossas relações com a sua familia. A carta, que trazia o timbre de Italia, dizia: _Sr. José Maria da Graça Strech, soldado portuguez_ (pela orthographia conhecia-se que a pessoa que escrevia era estrangeira, disse em parentesis D. Eulalia) _natural do Porto;--Portugal._
Graça Strech ouvia offegante.
D. Eulalia proseguiu:
--Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta ficaria naturalmente perdida no correio, encarregamo-nos de mandal-a ao acaso para onde estivesse o exercito. Era o unico meio de lhe chegar á mão, caso o senhor estivesse vivo. Nós nada sabiamos. Perguntamos o que haviamos de fazer. Disseram-nos que a mandassemos para Almeida, que era onde Wellingtão--ella pronunciou assim,--tinha estabelecido o quartel general. Para lá a mandamos, pensando que fariamos bem. Visto isso o senhor não a recebeu?
--Não recebi, minha senhora, respondeu Graça Strech com difficuldade. Agradeço, porém, a vossas senhorias o cuidado que tiveram e, para não as demorar por mais tempo, recebo as suas ordens...
--Tambem--atalhou D. Eulalia, vão sendo horas da missa do Senhor dos Passos. Vamos lá. Se o sr. Strech precisar d'alguma coisa, não tem senão mandar-nos e dizer onde está, para que não se torne a perder qualquer carta.
Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do Almada a baixo, e elle caminhou em direcção ao Campo de Santo Ovidio.
A menina ia perguntando ingenuamente á tia:
--Não seria mau agouro encontrarmos o Strech na occasião em que eu ía a pensar no meu casamento?
--O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza um _Credo_ ao Senhor dos Passos e deixa-te lá d'agouros. Deus é que sabe o que ha de acontecer.
Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado em seus pensamentos. A carta era de Rosina. Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a escrevia. Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes vivem das desgraças que sonham e que soffrem. Por muitas vezes escrevera elle para Napoles. Nunca obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio durava já havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram mais! O que haveria acontecido? Que ancia que elle tinha de chegar a Italia, e, ao mesmo passo, que receios! Não o esperariam lá novas dôres, maiores soffrimentos? Que envelhecida mocidade aquella!
Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio de Cedofeita.
Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as verduras dos canteiros, estremeceu de subito. O pensamento da morte vinha interromper os seus dolorosos pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? Rosina e seu filho onde estariam tambem, lá tão longe? O cemiterio era solitario áquella hora, se não falarmos das aves que faziam alegre matinada nas arvores.
Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã.
Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada em competencia com os passarinhos do cemiterio de Cedofeita.
Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado em que o coração adivinharia o sitio em que repousava a sua familia. Andou, percorreu as ruas todas, e parou á beira d'uns comoros que não tinham cruz nem lapide. Devia ser ali. As campas dos que não deixam ninguem no mundo conservam-se abandonadas. Quando muito, porque os despojos mortaes são da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres silvestres. Sobre um dos comoros floresciam hervagens, que pendiam á terra umas singelas boninas brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia de sua irmã? Não sabia. O silencio da morte guarda todos os segredos. Ajoelhou. As avesinhas das arvores funebres continuavam a cantar, a cantar!...
Áquella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus.
A eloquencia das campas!
Como tudo aquillo fala suavemente d'além-tumulo!
No ruido das festas a ideia da morte é sempre um pungente contraste. Mas não sei que amena tristeza dulcifica a certeza do repouso eterno, nos cemiterios, mórmente se é manhã, e as aves chilriam, e estremecem nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de sol nascente doira uma cruz!
Graça Strech sentiu-se subitamente soccorrido por essa triste suavidade que a vista dos tumulos infiltra aos desgraçados.
Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando com os trez comoros os seus segredos de cinco annos. No que estava florescido, curvou-se como se quizesse falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta. N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras, os seus amores, os sacrificios de Rosina, o destino que dera ao annel, a afflictiva incerteza em que estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras de perdão, queixumes de animo attribulado a hymnos de confiança em Deus...
Não lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa mocidade para erguer o espirito acima das coisas terrenas das preoccupações humanas.
Pela primeira vez subiu até onde os fulgores da divindade enchugam as lagrimas da oração. Muito acima do mundo deve ser, porque já se não ouve então o tumultuar da humanidade, e porque já ahi chovem os balsamos da resignação sobre a alma angustiada.
Ninguem diria que estava ali o soldado, o leão dos combates. Nada ali falava de vingança, nem mesmo a supposta sepultura d'Augusta. Nada se sabia do mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia alguma coisa julgou ouvir a alma de Graça Strech. Eram palavras intradusiveis que as hervagens ciciavam, brandamente agitadas pela viração matutina. Sem comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito o pensamento d'ellas. Era a divina esperança do _post tenebras spero lucem_, de Job, e ao mesmo tempo o _Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini_, do salterio.
Graça Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios que soavam sobre a campa da sua irmã. Trouxe do cemiterio a certeza de que depois das trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua, e de que não morreria sem ter tempo de narrar as obras do Senhor.
Isto equivalia á resignada esperança de não succumbir á sua desgraça sem saber o destino de Rosina e seu filho.
Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta abençoara do ceu a criança cuja mãe possuia o seu annel. Levantou-se. Arrancou as parietarias que marinhavam pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os trez comoros.
--Se ahi estaes, minhas doces amigas--pensou elle--recebei o primeiro e unico testemunho de saudade que ainda vos manda o mundo esquecido de vós. Pedi por mim, e pela familia que me resta na terra, se Deus m'a tiver conservado. São tambem vossos pelo coração. Adeus, abençoadas sejaes no céu pelo conforto que me destes.
E saíu do cemiterio, caminho do rio Douro, onde estava fundeado o navio que n'essa tarde devia partir para um porto d'Italia.
A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva alegria. Um velho da familia Cerqueira dizia a um menino da familia Brochado:
--Vá, seu estudante, traduza-me lá a inscripção da fonte: _Fons scalet, illustri virtutum_, etc. _Rompe aqui esta fonte..._ Vá, diga...
--Pudera romper acolá, estando aqui o chafariz! observou grosseira e acertadamente o menino.
D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da agua da fonte, panacea para muitas molestias, entre as quaes as inflammações dos olhos.
Tinha bons sentimentos: não queria marido cego.
* * * * *
XVIII
A Lenda d'Ashaverus
Comprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria Graça Strech. A Italia era para elle o unico raio de sol que lhe doirava o horisonte fechado em torno do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro a protecção que provavelmente a uma e outro tinha dispensado, porque Rosina devia ser mãe havia quatro annos. A carta perdida era decerto a boa nova da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes phantasias, descontava esta esperança com vagos receios. Todavia a visita ao cemiterio de Cedofeita insinuava-lhe na alma o doce calor da fé. Queria chegar a Italia, desenganar-se. Levava ao berço do filho a tranquillidade aprendida á beira do tumulo da irmã. A Italia! a Italia! a terra promettida do Moyses errante! Quando appareceu em frente do navio uma nuvem pardacenta, e a voz de _Terra_! alvoroçou a tripulação, o coração de Graça Strech doidejou desde a alegria expansiva da criança até á timidez receiosa da mulher.
A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas de tão longa ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na alegria! A alma e a voz! A liberdade do coração e da palavra! Um lar modesto, muito modesto, pobre até, o filho a esvoaçar d'um lado para outro, a chilriar, os cabellos loiros a brincarem-lhe em derredor da cabeça; Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e do filho; n'uma palavra, a felicidade que não escurece quando chega a noite; á porta, de cabellos alvejantes, tranquillo, sentado ao sol, Pietro, o _canta-storie_, a concertar as cordas da sua harpa, e a entoar, com a sua voz já cançada, mas ainda sonora, a _Capuana_; fóra, o céu d'Italia, o azul suavissimo, o sorriso da natureza, a eterna primavera meridional!
De repente mudava-se o quadro.
Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores pendurado ao mar. Rosina, demudada e lutuosa, chorando ao pé da cruz. Pietro, chorando ao pé de Rosina, com a harpa silenciosa poisada diante de si. E seu filho morto, sem o haver conhecido, sem o ter beijado sequer!
Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas faces de Rosina, da criança, e de Pietro!
A vivandeira havia levado recursos. Era a sua ração de dois annos, a migalha do canario. Havia no 18 d'infantaria um quartel-mestre usurario. Graça Strech fizera com elle uma transacção. O quartel-mestre ficava recebendo durante dois annos o _prét_ por inteiro, e adiantára-lhe o _prét_ d'um anno. Essa quantia, administrada com economia, devia durar os dois annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o soldado devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha na sua mão um documento. Mas haviam-se passado os dois annos, e outros dois. Graça Strech escrevera muitas vezes para Napoles, como já dissémos, para obter certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar mais dinheiro. De nenhum vez obtivera resposta. Haveria acontecido alguma desgraça? Mas tambem quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem se podiam lembrar de ir saber ao correio. Pietro andava por fóra com a sua harpa; Rosina estava cuidando do filho: não se lembravam. As mealhas que Pietro recolhia, e generosamente repartia provavelmente, abastavam a alimentação dos trez.
Em Coimbra, disséra Rosina a Graça Strech, quando elle lhe pedia que não soffresse privações sem o avisar:
--Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz em Italia, irei cantando de rua em rua. Não receies por mim. Atravessei pura o exercito francez; mãe, atravessarei destemida o povo italiano. A honra da vivandeira é um baluarte invencivel; não deixa profanar a bandeira da sua lealdade.
E logo, antevendo a triste solidão da ausencia, rompeu em afflictivo chôro. Este era o natural de Rosina: ora vivandeira, ora mulher. Logo em principio o dissémos.
Apesar da cega confiança que Graça Strech devia ao amor de Rosina, não era a sua alma, quanto mais se avisinhava da Italia, estranha ao ciume. No paiz dos amores, o ciume, _la gelosia_, respira-se com o ar. Ciumes de que lhe ouvissem a dulcissima voz, se tivesse sido obrigada a acompanhar com o canto os harpejos de Pietro; ciumes de que a applaudissem, de que a vissem, de que a conhecessem. E, pensava elle, quem ficaria olhando pela criança emquanto a mãe andasse por fóra? Alguma mulher estranha, que não a acariciaria se chorasse, que não a agasalharia quando tivesse frio, que lhe não responderia meigamente quando perguntasse pela mãe...
Chegado que fôsse a Italia, procuraria, noite e dia, sem descanço, sem tregua, e encontral-os-ia, e diria a Rosina: «Fica tu ao pé de nosso filho, que eu vou trabalhar», e a Pietro: «Continua a ser o guarda dos dois, que eu velarei pela tua velhice.»
E alternava risos com lagrimas, e agora falava e logo emmudecia, com as mãos firmadas no bordo da amurada e os olhos cravados na nuvem do horisonte, que se ia aclarando cada vez mais, conhecendo-se já, sobre o azul do céo, os contornos irregulares da cidade.
O capitão esteve-o medindo com o olhar ao lado d'um passageiro que durante a viagem tinha conversado algumas vezes com Strech.
--Nunca vi tamanha commoção! disse o capitão ao passageiro. Receio d'esta alegria em homem costumado aos alvoroços de guerra.
--Elle vinha ancioso de chegar a Italia, retrucou o passageiro. O mais que me disse foi que, tendo feito a campanha, vinha, doente e cançado, procurar a Italia uma irmã, de quem, pela invasão de Portugal! fôra obrigado a separar-se.
--Muito a deve estimar então! ponderou o maritimo.
E, aproximando-se de Graça Strech, disse-lhe affavelmente:
--O sr. Strech morria-se por vêr Italia. Ahi a tem agora.
--É verdade, respondeu exaltado Graça Strech. É verdade... A ancia de chegar... a incerteza... tudo isto... Eu não estava costumado a estas sensações... Por que emfim tudo hoje depende para mim de Italia... Ó senhor capitão, quanto tempo gastaremos ainda?...
O capitão, sem responder, achegou-se do outro passageiro e segredou-lhe:
--Eu não lhe dizia? Nunca vi tamanha commocção! Queira Deus que não vá louco...
Ah! o capitão entendia do mar; do coração, não. Chamava loucura áquillo! A desvairada oscillação da alma que pende entre um longo passado de trevas e a unica esperança que lhe entreluz no céo do porvir! É louco o naufrago que, baldeado entre os vagalhões do oceano infrene, se abraça com a prancha que lhe é dado alcançar, e que ou morrerá cuspido contra os fraguedos ou fluctuará por mercê da Providencia até que surja a véla branca, que é a bandeira da paz nas luctas com o mar? É louco o caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de alegria á estrella da manhã, ainda que tenha de retrocecer para continuar jornada? É louco o doente que se felicita de haver acordado d'um pesadello horrivel, esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez, sobrevirá o sombrio pesadello de que não se acorda mais--a morte?
O coração tem as tempestades e as calmarias do mar, é certo, os murmurios e os segredos das aguas, mas o fundo do coração não está ainda tão estudado como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas vezes. Quem já logrou medir a profundeza de certas dôres?
Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade.
Graça Strech estava finalmente em Italia.
Começou desde logo a procurar, a procurar. Correu todo o reino de Napoles--Napoleão puzera reis em toda a parte--a pedir informações d'um velho tocador de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga franceza chamada Rosina Regnau e d'uma creança, que devia ter quatro annos, e era filha da rapariga franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles, o paiz da musica, havia d'estremar um _sonatóre di arpa_? Acudia afflictivamente Graça Strech a fazer o retrato do velho Pietro para auxiliar a memoria dos interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns que viviam em Napoles, outros que passavam por lá, que por fim de contas a população lembrava-se de todos e não se lembrava de nenhum. A declaração de chamar-se Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa com o nome dos menestreis das ruas, mórmente quando todos os musicos ambulantes parece chamarem-se Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia tel-a visto, e depois acrescentavam que talvez lá houvesse estado, sem fazerem reparo n'ella, porque os francezes sempre foram tão vulgares em Italia como os italianos em França, por isso que a natureza pôz entre as duas nações a ponte granitica dos Alpes.
Graça Strech percorreu vertiginosamente todas as estalagens, todos os albergues, recolheu informações particulares e officiaes, e não soube nada.
Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado, como é costume d'elles, a outras cidades d'Italia, por isso que a concorrencia os afugenta de Napoles.
Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da Etruria, procurou sem descançar, como um cão que perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em Piombino um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista velho que ali pernoitára havia um anno com uma criança que lhe chamava avô. Vira só o velho e a criança. De mulher franceza que os acompanhasse, não tinha reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo contraste. O velho passára a noite á lareira com a criança adormecida nos braços, afagando-lhe os cabellos loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos, sem dizer uma palavra. Comeu pouco e bebera menos. Pela manhã saíra com a harpa e a criança. Aqui está o que o albergueiro de Piombino dissera, acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe que rumo levava, porque realmente o harpista me fez pena.
O velho respondeu:
--Vamos correr esse reino d'Italia, á mercê de Deus. Bem vê que é preciso trabalhar: somos duas boccas, e só temos dois braços--são os meus que já pouco podem.
A historia do velho e da criança fez profunda impressão no animo attribulado de Graça Strech. Perdeu-se em conjecturas. Seria Pietro? Haveria morrido Rosina? O estalajadeiro não soube dizer-lhe o nome do harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina enlouqueceu-o de dôr. Seria possivel que ella morresse sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar, ella, que tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente á morte, porque a morte era a separação eterna? Aquella criança seria realmente seu filho, e viveria no mundo sem pae nem mãe, apenas confiado á protecção do pobre harpista napolitano, cuja velhice e trabalhos em breve o prostrariam, se era que ainda vivia a essa hora? E se elle já tivesse morrido, que seria da criança na infantil inconsciencia dos seus quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho? Morreria enregelada no caminho, morreria de fome entre duas arvores, no meio da serra, ou então haver-lhe-ia estalado o pequeno coração depois de haver estado a gritar para que acudissem ao avô, que caíra ao chão e ficára esmagado pela harpa, sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar.