O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular
Part 10
Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da Figueira, um brigue italiano. Concordaram ambos em aproveitar a commodidade do transporte. Rosina energicamente rejeitou a ideia de voltar a França, duas vezes deshonrada. Convieram, pois, em que ella esperaria em Italia, com o filho nos braços, o termo da guerra peninsular. Depois, para sempre se reuniriam, e viveriam enlevados na infancia da criança, que ambos phantasiavam formosa.
Mas, por que espesso véo de lagrimas se não filtrava este raio de longinqua felicidade, illuminando-o e iriando-o como um reflexo de sol moribundo através de neblina humida em tarde de tempestade!
Era esse o arco-iris da esperança, gravado em traços multi-côres, d'um abysmo a outro, sobre um céo plumbeo.
--O pae Regnau,--dizia Rosina--costumava dizer que a felicidade era uma bola de sabão. Agora vejo que é. Tudo desfeito, n'um momento! Eu desterrada para um paiz desconhecido, sósinha com a minha desgraça e o nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia, exposto á sorte dos que combatem, mais incerta que qualquer outra! Viverei entre a esperança da tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh! esta idéa é horrivel! Então Deus ha de permittir que, meu filho entre no mundo vestidinho de luto! Não não póde ser. Não te exponhas loucamente á morte, meu amigo, não? A tua vingança já deve estar satisfeita, e depois um soldado que é pae deve ter duas cadeias a ligal-o ao mundo: a patria e a familia. Ora eu bem sei que tua irmã é a patria; mas lembra-te, sim, lembra-te! de que teu filho é a tua familia...
Acudia a serenal-a, com o coração despedaçado nas garras de desconhecido abutre, Graça Strech. Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos olhos o esforço! Tentava enganar, e estava desilludido. Ainda não houve maior desgraça, mais amargo calix de amargura esperado nos labios com um sorriso...
--Não, Rosina, não imagines desgraças que Deus não permittirá. Bem sabes que a Providencia me tem guardado até hoje... Verdade é que tu eras o meu anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto é, em verdade, maior que a coragem humana! Não me arriscarei imprudentemente á morte, está certa... Mas ás vezes, na refrega, a gente não tem tempo de evitar uma bala... Não chores, Rosina, não chores. Foi uma loucura que eu disse. Eu não hei de morrer. Acaso morri eu para a memoria de minha irmã? Tambem não hei de morrer para o futuro de meu filho, para o teu amor. É forçoso separarmo-nos; separemo-nos. Ficaremos, porém, um ao pé do outro, sempre juntos, que já não ha distancias que nos separem, braços que nos desunam. Tu ver-me-has pelos olhos da saudade; eu, que já estou costumado a ver assim, ver-te-hei tambem. Conversarei no meu coração comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro vagido e a primeira lagrima... Ó Rosina, triste coisa é a vida! Nascemos soffrendo, como devemos viver, e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura deu mais uma alma á desgraça... Mas eu amava-te tanto, tanto! Pobresinha de ti, que dizias parecer-te ouvir a maldição de Bénard... Por amor de mim te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes te deshonrou... Não chores... Já estão desbotadas as rosas das tuas faces, não as desmereças mais... Lembra-te do céo da Italia, que todos dizem ser formoso, e de que nosso filho nascerá sob o céo d'esse bello paiz Deus ha de protegel-o. Lá viveremos todos n'uma só felicidade... Mas não chores, Rosina, que eu sinto despedaçar-se-me o coração...
Foi chegado o momento da partida.
Rosina subiu a escada de portaló amparada nos braços de Graça Strech. Dir-se-ia um cadaver que se destinava a uma sepultura distante.
Os passageiros que estavam no convés pareceram commovidos de tão doloroso espectaculo. Um d'elles, que era musico napolitano, escondia contra a harpa o rosto brilhante de lagrimas.
Graça Strech viu-o chorar e disse de si para si:
--O mais desgraçado é aquelle, porque já desaprendeu de consolar.
E dirigiu-se a elle:
--Dá-me licença que o interrogue? perguntou.
--Da melhor vontade, respondeu o menestrel.
--Vae só?
--Infelizmente vou... Deixei um filho morto em Portugal. O rapaz era fraquito, e não pôde aguentar-se. Desde que me elle morreu, fiz voto de voltar a Italia. Mas quem póde agora ir por Hespanha com estas malditas guerras, que nem n'este bom paiz de Portugal deixam ganhar a vida? Juntei tudo o que podia, consegui obter uma reducção na passagem, e aqui vou eu com a minha harpa, sem o meu filho.
E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do italiano, que parecia não ter ainda cincoenta annos, posto lhe alvejassem já os cabellos.
--Sente-se, senhor...
--Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade napolitana, se bem que lhe soluçasse a voz commovidamente.
--Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o no coração. Vim aqui para lhe pedir um grande favor. Tem de ser sua companheira de viagem aquella desgraçada rapariga franceza que ali vê...
--Franceza! atalhou admirado o italiano.
--Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação iria augmentar a sua maguada compaixão, meu bom Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a pobresinha é muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz do que ella...
O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu barrete de gomos, e disse:
--Fique descançado, senhor. Pela memoria de meu filho lhe juro que a tratarei a ella como se fôra elle mesmo. O meu coração até agradece á Providencia esta inesperada companhia que me dá. _Corpo di Baccho!_ que eu estava aqui triste, triste, que já mal podia commigo...
--Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria commoção Graça Strech.
--Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha harpa está habituada a chorar; eu a farei chorar mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova filha vae triste, eu a despertarei: _Carina!_ E o _canta-storie_ sempre ha de saber alguma napolitana para cantar-lhe.
Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os olhos postos na superficie do mar, immoveis e desluzidos, e deixava rolar as lagrimas livremente pelas faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as.
--Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com voz que mal se percebia.
Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria inconsciente.
--Rosina! tens ali um companheiro de viagem, que me pareceu tão desgraçado como qualquer de nós. É musico italiano. Volta a Italia porque lhe morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já vês que deve ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé d'elle. Anda, Rosina, minha boa amiga, minha desgraçada irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou confiar-te o meu thesouro, Rosina, o meu thesouro que tão mysterioso te pareceu, e que tanto te fez soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus sabe se eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo! Que m'o tirassem depois de morto, pouco me importava. A minha tenção era morrer com elle. Mas eu amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. Elle já me não póde recordar agora a minha vingança... Quando nosso filho crescer mette-lh'o no dedo, e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do annel mysterioso.
Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão. Pareceu accordar, porém, quando sentiu na mão o contacto do annel.
E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente, como se fosse para ella uma reliquia mais valiosa do que a madeixasinha de seu pae.
--O que eu soffri por elle, por este annel! disse ella soluçante. Agora o levo commigo, e com elle a tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de mim, não me fujas ainda, que o navio não parte por ora... Lembra-te que esta separação póde ser eterna...
--Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech.
--Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a vida que nos é mais precisa do que nunca... Mas bem sabes que eu quero gravar bem na memoria as tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero ter presente a toda a hora, contemplar a cada instante o teu retrato, tão fiel, tão fiel, que me pareça estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me desalentar, se succumbir á saudade,--e baixou timidamente a voz--quem ha de velar por nosso filho, soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...
N'este momento deu a sineta de bordo signal para que descessem as pessoas que não eram passageiros.
Graça Strech, não tendo já forças nem coragem para levantar Rosina, fez signal ao italiano para que se aproximasse.
Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé de Rosina, e relanceou a Graça Strech um olhar que parecia dizer: Póde ir.
Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava offegante, estrangulada a voz na garganta.
Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão, lembrar a Graça Strech que já tinha dado o signal de bota-fóra.
--Eu vou... respondeu elle machinalmente sem poder desfitar Rosina, e quasi sem força para mover-se.
E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como estonteado por uma violenta vertigem.
Na Occasião em que o capitão passava por deante de Pietro, o italiano levantou-se e sorrindo cortezmente lhe disse:
--O capitão dá-me licença que toque na minha harpa o hymno da partida?
O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se para Rosina, exclamou:
--_Carina!_ A minha harpa vae ser de hoje em deante a nossa unica consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae a _Capuana_ para não sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.
E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção napolitana que poderia traduzir-se assim:
Esta tarde na ribeira Uma hora passeei. Meu pensamento, occupaste-o E tanto pensei em ti, Que o coração lá perdi... Tu vieste e apanhaste-o.
Ensina-me pois agora A desfazer a meada. São parciaes os juizes, E a justiça demorada. Bem sei que perdia a causa... Que meio? Lembra-te algum? Tu lá tens dois corações, E eu cá não tenho nenhum.
Para que nos custe menos A resolver a questão, Expliquemo-nos. Ha males Que ás vezes nos trazem bens. Vamos fazer um ajuste: Tu dás-me o teu coração. E guarda o que lá me tens. ............................
O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar aquelles dois desgraçados: um porque levava seu filho; o outro porque o deixava ficar.
* * * * *
XV
A queda do gigante
A historia da terceira invasão franceza, comquanto prenda com a nossa narrativa, não lhe é essencial.
Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos que medeiam de julho de 1810 até agosto de 1814 e que, todavia, não podemos supprimir. Limitar-nos-hemos, em conformidade com o nosso plano, a um simples bosquejo não descabido em romance.
O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu o commando do exercito francez, que mandou reunir em Salamanca, e marchou sobre Portugal, tomando de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu depois de heroica resistencia. Quasi volvido um mez, capitulou a praça d'Almeria; havendo soffrido um longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo.
O exercito alliado, em força de setenta mil homens, esperou os francezes nas alturas do Bussaco, onde durante os dias 27 e 28 de setembro se pelejaram duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria para o exercito anglo-luzo, que galhardamente repelliu o inimigo em grande parte dizimado. É esta uma das paginas mais brilhantes da historia portugueza durante o longo periodo das guerras peninsulares.
Os francezes, marchando para oeste, passaram ao Sardão, e d'ahi seguiram para o sul; os alliados, retirando sobre Lisboa, rebateram-n'os nos campos de Coimbra, e em Leiria.
Amedrontado Messena á vista das linhas chamadas de Torres Vedras--sobre as quaes o official inglez John T. Jones deixou uma circumstanciada _Memoria_, que convém ser consultada pelos que não desdenham saber historia patria--tomou posições á rectaguarda em Santarem e Leiria, esperando reforço para atacar as linhas. O exercito francez, consideravelmente derrotado, estava de mais a mais carecido de viveres.
N'esta conjunctura e já entrado o anno de 1811, passou o marechal Beresford ao Alemtejo para se oppôr ao inimigo, o que não impediu que Badajoz capitulasse. Não obstante esta victoria, e um reforço de trinta mil homens que o exercito francez recebeu, começou a retirar nos primeiros dias de março d'esse anno, sendo atacado na retirada pelos alliados, e entrando em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda vez reforçado, atacou o exercito anglo-luzo em Fuentes d'Honor, não sendo ahi mais feliz do que no Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os nossos a praça d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal desopprimido do jugo francez.
Pareciam empenhados os factos em desmentir a prophecia de Napoleão: era a aguia da França que fugia amedrontada para o seu ninho d'além-Pyrineus. O leopardo triumphava á sombra da cruz, que sempre foi timbre dos guerreiros portuguezes.
Á batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra não menos cruenta--a de Albuera, onde a victoria nos foi descontada pela perda de seis mil homens.
A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada por uma série de desastrosas derrotas, procurou ainda desferir no céo da peninsula o arrojado vôo das suas passadas glorias. Por um momento lhe sorriu a victoria. Substituido Messena por Marmont, o exercito francez logrou tomar-nos a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados a retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados ainda na retirada que no triumpho, porque, aguentando o peso da cavallaria inimiga, repelliram todos os ataques, retomando a artilharia. Com a ação de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro, cuja victoria coube aos alliados, se encerrou o anno de 1811, com muita honra para os anglo-luzos. Não começou mal auspiciado o anno seguinte, que se estreiou, para os alliados, com a tomada da praça de Ciudad Rodrigo, seguindo-se-lhe a rendição de Badajoz, depois de haver soffrido os apertos de primeiro e segundo sitio. Todavia o maior successo d'esse anno estava reservado para a batalha de Salamanca, em que os dois exercitos, commandados de um lado por Wellington e do outro por Marmont, se equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria--que se reputa a mais celebre de toda a guerra peninsular--aos luso-anglos. Á victoria de Salamanca seguiu-se a tomada de Madrid, e á tomada de Madrid o assedio ao castello de Burgos pelos alliados, que, por desobediencia de Ballesteros, tiveram de retirar sobre a fronteira de Portugal com denodo egual ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. Não remata deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito anglo-luso com este revez que se póde considerar façanha. Refeitas, porém, as tropas alliadas das perdas soffridas na retirada de Burgos, e já começado o anno de 1813, avançaram até Victoria, onde, na manhã de 2 de junho, se travou batalha geral, retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo artilharia, caixa, bagagens, e salvando-se o rei José, que estivera presente, em precipitada fuga.
_Alea jacta erat._
A sorte de Napoleão, pelo que respeitava a ambições relativas á peninsula, havia sido jogada na batalha de Victoria, e a aguia franceza, em cujos olhos brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima vez cruzava, demandando a França, as cumiadas dos Pyreneus.
No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez. De nada valeu reforçar-se, e tomar Soult o commando geral. No ultimo dia d'esse mez ganharam os alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaçando o inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se, para honra das armas alliadas, a tomada da praça de S. Sebastião, a batalha de Nivelle, os combates de Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente, a triumphal entrada do exercito luso anglo em Tolosa, a 12 de abril de 1814.
Começava, como os acontecimentos o demonstram, a empallidecer no céo da França a estrella de Bonaparte. A lucta, desde muito travada entre a aguia e o leopardo, lucta de morte, encarniçada, contínua, estava chegada a ponto em que já era dado suspeitar que o pedestal de Napoleão não era tão firme como a sua coragem. O contendor, apesar dos revézes, era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra havia vencido, a sorte mostrára-se rebelde, mas o conquistador da Europa,--e para o ser faltava-lhe vencer a Inglaterra--não desesperava de reconquistar a sua boa fortuna. Não tomou por aviso da Providencia o desastre. No immenso taboleiro da sua ambição, em que as nações eram outras tantas tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle um cheque sem consequencias para o resultado da partida em que se jogavam os destinos de povos e reis.
Bonaparte ufanava-se de empunhar a balança em cujas conchas pesavam d'um lado a Europa e do outro uma ambição immensa, indomavel, manifestada desde os primeiros passos da sua carreira militar. Comtudo havia na Europa uma nação quasi invencivel, porque o mar lhe servia de muralha, porque os seus recursos economicos prosperavam largamente, e porque as instituições d'esse povo, traduzindo a altivez do genio nacional, eram muralha tanto mais para temer como a que o mar, cingindo as ilhas britannicas, opporia a qualquer invasão. Era tudo isso, e mórmente o regimen liberal da Inglaterra, que incommodava Bonaparte, cujo poderio havia ultrapassado a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz imaginava-se senhor absoluto: era a vertigem da victoria. Havia porém um meio de egualar a Inglaterra, como diz madame Staël: era imital-a. Bonaparte, porém, não tinha nascido diplomata. A vista do conquistador é incisiva, rapida, abrange de uma só vez o exercito todo por mais espraiado que esteja; o diplomata tem de profundar, estudar, decompôr, analysar não só os negocios englobados diante de si, mas as suas intimas relações, as suas consequencias proximas e remotas. N'um requer-se o olhar ardente da aguia; no outro a vista penetrante do lynce. Toda a diplomacia de Napoleão se cifrava em preparar os acontecimentos de modo a provocar um conflicto internacional, que tendesse a prejudicar a Inglaterra. Haja vista o tratado secreto de Fontainebleau, em que Portugal e a casa de Bragança eram sacrificados á velha rivalidade dos dois paizes. Bonaparte visava sempre a vencer, não empregando a influencia politica da sua posição, mas empregando a influencia armada do seu exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida dos soldados francezes ao sabor da sua phantasia. Chegado á suprema embriaguez da preponderancia, tanto valia para elle o sangue dos soldados como a corôa dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se que uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou lembrar-lhe que o codigo napoleonico era contrario á resolução que ia tomar.
Bonaparte respondeu:
--O codigo foi feito para salvação do povo, e, se a salvação do povo exige outras medidas, é preciso adoptal-as.
Estas palavras são transparentes: deixam ver a tyrannia. O povo francez não podia ter vontade livre: vivia affrontado pela sombra de Napoleão e encarcerado na inquisição politica de que o ministro Fouché era claviculario. O cézar dominava tudo: a vontade do povo e a opinião da imprensa. Os jornaes eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulação aos pés do throno. Os poetas estavam habituados desde o tempo do Directorio a cantar heroides em honra do Primeiro Consul. Os follicularios poisavam a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse a grandeza napoleonica, amedrontados pelo espectro da proscripção. A visão do desterro bastava a intimidar a maior parte d'elles, senão todos. Madame de Staël, que não trepidava deante da estatua gigantea do imperador, teve de procurar refugio em Inglaterra.
E comtudo, na sua origem, a corôa de Napoleão emergira, Venus da realeza, da onda da liberdade!
É certo, mas a estas palavras respondem cabalmente as seguintes linhas da auctora das _Considérations sur la revolution française_, cujo espirito era profundo de mais para se deixar cegar por despeitos.
«Não bastava,--diz a insigne pensadora--que todos os actos de Bonaparte tivessem o cunho de um despotismo cada vez mais audacioso; devia elle proprio revelar o segredo do seu governo, pois que despresava a especie humana o bastante para dizer-lh'o. No _Monitor_ do mez de Julho de 1810 fez publicar as palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmão Luiz Bonaparte criança a quem o grã-ducado de Berg era destinado: _Não esqueças nunca_, lhe diz elle, _em qualquer posição que te colloquem a minha politica e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros deveres são para mim, os segundos para a França: todos os outros, incluindo os relativos aos povos que eu pudesse confiar-te estão depois_. Não se trata aqui de libellos, de opiniões de partido; é elle proprio, Bonaparte, que se denunciou mais severamente do que a posteridade ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de ter dito intimamente: _O Estado sou eu_; e os historiadores esclarecidos apoiaram-se com razão n'esta linguagem egoista para condemnar o caracter do rei. Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no throno de Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente a mesma doutrina que Bonaparte ensinava ao sobrinho, talvez que o proprio Bossuet não ousasse antepôr os interesses dos reis aos das nações; e é um homem eleito pelo povo, que quiz encher com o seu _eu_ gigantesco o logar reservado á especie humana! foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente puderam ver o representante da sua causa! Muitos disseram: «É o filho da Revolução. Sim, é, mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?»
Tudo isto é profundamente verdadeiro.
A liberdade franceza ficára esmagada sob a purpura do cézar. Novo Archimedes, levantaria com a alavanca do seu poder a Europa inteira, se a Inglaterra consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer essa unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os meios. Na _Historia Secreta do Gabinete de Napoleão Bonaparte_, por Lewis Goldsmith, está manifesto o espirito faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim ha por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses não os póde calar a historia. Bonaparte procurou triumphar por mil maneiras differentes, seduzindo com largas retribuições a lealdade dos jornalistas inglezes; mandando a Inglaterra espiões, entre os quaes algumas mulheres, como madame Bonneuil e madame Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc.
Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra fosse o sepulchro da grandeza de Bonaparte. Lord Wellington, perseguindo a aguia franceza desde Lisboa até Waterloo, similhante ao adversario de Macbeth, segundo a expressão de madame de Staël, foi o Josué da historia profana que ousou suster o curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra.
O cartel de desafio, tantas vezes arrojado á face da nação britannica, volveu-se na hora da decadencia em supplica dirigida ao principe regente d'aquelle paiz.
Estas palavras de Napoleão, escriptas em Aix, depois de Waterloo, são claro testemunho da inconstancia das coisas terrenas:
«Alteza real, a braços com as facções que dividem o meu paiz, e com a inimisade das grandes potencias da Europa, puz termo á minha carreira politica. Venho, como Themistocles, sentar-me junto ao lar do povo britannico; abrigo-me á protecção de suas leis, a qual solicito de vossa alteza real como o mais poderoso, o mais constante e o mais generoso dos meus inimigos.
«NAPOLEÃO»[12]
Não era porém sincera a humildade do cézar decaído. Themistocles pedia a hospitalidade d'Artaxerxes, mas não pensava em beber a morte no veneno. Os tropheos da Inglaterra, como os tropheus de Melciades, perturbavam o somno do hospede desterrado. No momento de embarcar em a nau ingleza, Napoleão repellia o general Becker que se abeirava d'elle para despedir-se, e dizia-lhe:
--Retire-se general. Não se diga que um francez veiu entregar-se nas mãos do inimigo.
Themistocles não esquecia a gloria de Melciades.
Napoleão preferira morrer na morte lenta de todos os exilados, e agonisára durante cinco annos n'uma possessão ingleza.