Novos contos 4º volume da Comedia do Campo
Part 2
Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos n’um corpo assim fragil. Pedi-lhe com interesse e bons modos que me deixasse examinar os seus thesouros. Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o sacco d’estopa, dentro do qual estava um de panno preto, contendo ainda outro de chita de ramagens. O cocheiro e a dona da taberna aproximaram-se ironicamente para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro olhar altivo e nobre, afastou-os significando, que taes segredos não eram para espiritos grosseiros e motejadores. A meu pedido os indiscretos retiraram-se e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos e bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres velhos alfarrabios em lingua hespanhola e algumas folhas manuscriptas, d’uma lettra amarella e inintelligivel. Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei com escrupulosa attenção estas preciosidades, dando-lhes grande valor! Elle seguiu todos os meus gestos e movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso. Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias, encarecendo-lhas elle concluiu:
—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé de mim.
—Oh! de certo!...
E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis inestimaveis perguntei-lhe:
—Mas como vem de muito longe deve trazer fome. Quer que lhe dê alguma coisa?
Sem altivez respondeu:
—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não tenho. Ando por aqui ha um rôr de seculos e nunca senti fome.
E com um sorriso delicioso, como quem faz uma revelação:
—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para mim não, que não sou de cá.
—Ah! vocemecê não é de cá?
—Eu sim!...
E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de comprehensão, abrangendo n’um infinito olhar toda a amplitude da terra ao ceu! Habitava essas regiões ideaes e interminaveis do azul, suspenso na serena ondulação do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. A expressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa e compaixão que lhe resaltava da voz fraca e singela, o seu triumphante sorriso de tranquillidade... convenceram-me de que este velhinho resumia em si uma entidade poderosa. Quem julgará elle representar n’este mundo?—perguntei a mim mesmo. Talvez algum sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas, algum bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua immaterialidade e do seu immenso poder reconhecia-se que a tinha, pelo tom desdenhoso e superior com que se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar do seu querer podia espalhar sobre a terra eram incalculaveis. Um simples designio da sua vontade tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados. Não comia, não se cançava, não havia ponto na terra d’onde tivesse partido ou que devesse occupar...—o mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis eram a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel o tocava. A misera fraquesa humana não a sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um pensamento compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino especial!...
Qual seria pois, o personagem imaginario que este velho magro, de rosto sumido, alegre, bondoso, expressão de soberba e de compadecido, julgava representar? Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle empregava nas suas palavras:
—Então quem é vocemecê?
—Pois ainda não advinhou?! Olha bem para mim creatura!... Nosso Senhor Jesus Christo!
E fixando-me com tremenda piedade concluiu:
—Ando aqui para os salvar a todos.
Dei-lhe uma esmola. O pobresito retirou-se serenamente, depois de me recommendar:
—Agora caluda, por causa d’esta gente. São hereges, não acreditam.
Janeiro de 85.
O CEGO DE GUARDIAM
Logo que expirou o cunhado, José Domingues cahiu n’um scismar atormentado. Só elle comprehendia a grande desgraça que n’esse dia entrára na casa de sua irmã, pobre mãe de cinco filhos, que tinha para os sustentar, unicamente uma roca. Lembrou-se de os trazer todos para onde a si; mas como poderiam viver tantas pessoas com duas pipas de vinho e um carro de pão? A pensar n’isto se consumia o pobre José Domingues, e aquelles olhos cegos desde tenra infancia, estavam grossos como punhos de tanto que tinham chorado. Até perdera o gosto á rebeca, prenda que seu tio frade lhe deixára, juntamente com as territas de que vivia. A comida entrava-lhe na bocca só á força, depois de muito o apoquentarem. Como toda a gente o estimava em Guardiam, iam alli pela eira pessoas conversar com elle, dando-lhe consolações e conselhos, coisas de pouca valia, pois não produsiam alimento para os sobrinhos. O seu amigo Miguel Tinta, trouxe o violão uma noite, para lhe acompanhar a rebeca; porem o cego é que não estava para tocar.
—Que queres, não posso. Tenho aqui um peso de seiscentas arrobas—rematou arrepanhando o coração.
Mas como algumas raparigas, com o fim caridoso de o tirarem d’aquelle malucar, lhe pediram insistentemente, José Domingues tocou umas musicas tristes, muito populares e queridas d’aquella gente. Foi n’esta occasião, que o Miguel, sentindo o cerebro illuminado por uma ideia, disse com enthusiasmo:
—Ouve lá. E se nós fossemos por ahi abaixo ambos! Não se ganharia alguma coisa?
Todas as pessoas presentes acreditaram que sim e applaudiram com estrepito a lembrança. Só o rabequista não tinha grande fé, pois disse:
—O que, a tocar? Uh!...
—Hade haver muito quem vos queira ouvir. Tentar fortuna é sempre bom prophetisou emphaticamente Zé Maximo, o barbeiro.
Resolveram-no logo alli. Os dois mais interessados planearam a coisa detalhadamente, mencionando as terras que percorreriam e as musicas que haviam de escolher. Uma manhã de primavera, partiram com o sol rubro no horisonte. Andaram por fóra alguns mezes e quando voltaram vinham satisfeitos, porque traziam um bom par de moedas na algibeira. Foi uma alegria para aquella gente, mormente para José Domingues, que ao entregar o dinheiro á irmã pulava de contente, com os sobrinhos todos em volta a agarrarem-se-lhe ás pernas. No forte das suas expansões, o cego, planeava uma vida d’abundancia: queria que se comprasse um porco para matar n’esse anno e mais um bácoro, para o seguinte.
—N’esta casa!—com seiscentos diabos!—hade tornar a haver salgadeira e fumeiro, como antigamente—affirmou.
Foi este o começo da vida de tocador de rebeca, que tão popular fez o cego de Guardiam, em toda a provincia do Minho.
* * * * *
O seu nome chegou mesmo á cidade do Porto. Quem fallasse no _ceguinho_ designava logo José Domingues. A expressão persuasiva e bondosa do seu rosto tornava-o attrahente e querido. Ou tocando a chorosa rebeca, ou a cantar modas alegres, ou a gracejar com as raparigas, era sempre comedido e delicado; por forma a ser cubiçada a sua presença. De todos os cegos pedintes e trovadores, só elle gosava de verdadeira sympathia. Chamavam-no a muitas casas para o ouvir e, alem da paga, offereciam-lhe vinho e marmelada. Tambem elle não se parecia com nenhum d’esses tocadores de sanfona, lamorientos e porcos. Sempre limpinho:—vestido de briche; camisa lavada; botas de cano, toscas e fortes; a mão apoiada no hombro do companheiro; o extincto olhar voltado para o sol; assim percorria a provincia. Tinha o seu orgulho d’artista e de pequeno proprietario—nunca exaltou ou fingiu miserias e necessidades para provocar compaixão. Acceitava o que lhe dessem, fosse muito fosse pouco, agradecendo tudo com um sorriso. O que ambiccionava principalmente era que o escutassem com religião e amor. Se havia pelas janellas senhoras formosas, em quem presumisse melhor comprehensão da musica, o Miguel advertia-o; pois que n’essas circumstancias, o arco de José Domingues, tinha movimentos expressivos, alma enthusiasta, e coração de poeta.
* * * * *
Que ideia faria elle da formosura!...
Fora tão cedo, logo no começo da infancia, que perdera a vista!... As suas recordações não podiam deixar de ser pedaços de mundo dispersos, mal definidos, impressões fugitivas, como as da luz no pôr do sol. Comtudo na viva e larga imaginação, era certo que lhe esvoaçavam encantadoras imagens. A meiguice do sorriso, a bravura da expressão em certos momentos, fazem-no presumir. Quando acreditava que a sua alma, a sua rebeca, estava fazendo palpitar algum coração de mulher, o rosto bexigoso e feio, animava-se-lhe triumphantemente, como uma aurora. Parecia que tinha um resplendor, que respirava n’um circulo de luz propria.
É porque elle instinctivamente calculava que áquella expanção de sensibilidade que lhe vibrava nos proprios nervos, corresponderiam outros efluvios em nervos mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe a natureza cheia de candura, transformando o humilde cego, n’um ente dominador e altivo. A proximidade da mulher, a sua inflexão meiga e dolente, amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este homem, que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas. Talvez isto fosse por conhecer a dolorosa historia de seu tio frade, que morto aos septenta annos, conservára até á ultima, o amor d’uma imagem extincta, evocando-a aos sons da mesma rebeca, que José Domingues tocava!
Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo. Homem de viver em si, conhecendo a musica e as lettras, ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe a alma que possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse bom velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos de humildade. Despresar os bens terrenos, para se confortar nos gozos interiores, fôra o que esse obscuro evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do mundo. Por isso, elle acceitou em toda a conformidade, esta vida de tocador ambulante, por mais que ella fosse contraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim tinha a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu caracter impressionavel d’artista. O fanatismo com que todos o ouviam em Guardiam, em Refuinho e n’outros logares, por vezes lhe levantára as ambições e sonhára com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca pensára em sahir da sua aldeia, e do adro da egreja, onde nos domingos, depois da missa conventual, até o abbade parava a ouvil-o. _A donzella abandonada_, o _Marinheiro_ e o _Cão fiel_ eram algumas das poucas cantigas que n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal sentimento e candura, que era frequente perceber-se o chôro d’algum coração de rapariga enamorada e sensivel, que encontrava nas palavras da canção qualquer lembrança pungente. Então o José Domingues, que era galhofeiro dizia:
—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha rabeca? Anda cá menina que elles não te entendem!...
E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o seio, acariciando-a como terna mãe acaricia um filho. Isto dava sempre bom effeito, alegrava os ouvintes, tornava-os communicativos e contentes. Para que todos bailassem, o cego, tocava-lhes a _Canninha verde_, a _Maria Cachucha_, o _Afasta janota, arreda_, e os rapazes acercavam-se das raparigas, formando logo a roda.
Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer com sorriso de consentimento e um dedo no ar:
—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho.
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Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia e attracção do José Domingues dilatou-se por muita gente. A sua pequena estatura, a magresa do corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade das suas fallas, a inspiração muitas vezes caudalosa e atormentada da sua rabeca... tudo se fixou na imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros. Elle é que levava pelo mundo a sua fama. Todas as terras o estimavam e queriam a ponto de se fallar com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos da provincia. Se tardava uma semana, isso era logo motivo de reparo. Preoccupavam-se com a ideia de que estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse morrido. O seu apparecimento era considerado como o das aves cantoras na primavera, que preannunciam os bons dias e as flores. Por isso era recebido com verdadeira satisfação este portador de novas canções e, principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com alegria expontanea e sincera. Parava a conversar com pessoas de diversas cathegorias, e sempre lhes narrava coisas novas em que os interessava pela simplicidade da sua palavra.
Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia, começava-as no principio d’abril, quando os pampanos rebentam e parecem olhos de satyros a rir de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto do lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam a alma de gosos paternaes. Havia magustos com estoiros de castanhas e o bom rascante, colhido nas videiras que lhe legara o tio frade. Havia a matança do porco e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas. A neve embranquecia os montes sobranceiros, a rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo valle. Era preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora. José Domingues com a sua modestia bem provida do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham medo do trovão:
—Deixa lá, é a musica do pae do ceu.
—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae do ceu, não presta—observou um de oito annos.
—É zabumba—considerou philosophicamente outro de menos edade.
* * * * *
A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado do Miguel. Tinham um jumento para levar o vestuario e o presigo dos primeiros dias. Durante as chuvas, como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a fragancia do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia, como os que tem bons olhos, que a natureza se subtilisava para a festa grande da creação. No fermentar estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua paisagem florida. As canções d’esta epoca, o _Regadinho_, o _Pintalhão_ eram vivas, travessas e maliciosas. As do outono eram melancolicas, arrastadas e dolentes, sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas corgas dos montes. Havia n’esses cantos, notas flutuantes que pareciam folhas amarellentas vagueando no ar, impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um caminho percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso, parava escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe lagrimas. Aproximava-se o tempo de recolher a casa, ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam com a imaginação cheia de lembranças alegres. No logar era festivamente celebrada a sua volta e, rindo e chorando, José Domingues abraçava com effusão e verdadeiro prazer todos que se lhe approximavam. Dançava, pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança!
É que se sentia entre corações d’amigos.
* * * * *
N’um d’esses periodos d’inverno, que passára junto dos seus, ouviu ler na gazeta que o padre Carvalhosa emprestava ao mestre-eschola de Guardiam, que estava em Lisboa e talvez viesse ao Porto e a Braga um rabequista celebre a quem chamavam pomposamente o «primeiro violinista do mundo».
—Olhem que não tocará melhor que o nosso José Domingues—affirmou enthusiasta e patrioticamente o professor.
—Ora, senhor José Fortunato, nem diga isso. Eu, um pobre estupido, posso lá!...—respondeu com modo agradecido.
—Deixa-te de tolices, homem. Olha que eu com os sessenta e cinco que já conto, nunca ouvi como Frei Gonsalo. E já fui uma vez a Lisboa, com o fidalgo de Refuinho, quando elle era vivo.
—Lá isso, maior que meu tio, não acredito que haja. Devo-lhe a alma que tenho—confessou commovido.
José Fortunato ainda acrescentou:
—Olha que lá as meninas (as de Refuinho) estiveram no Porto com o tio general. Presencearam por lá grandes coisas e disseram-me que antes queriam ouvir o José Domingues.
—Isso são umas santinhas. Eu sou um pobre cego, não sei nada, senhor José Fortunato.
—Não sabes nada? Sabes tudo, tens d’isto—rematou o mestre-eschola, batendo uma punhada sobre o coração.
O mais velho dos sobrinhos do cego, comprehendendo tudo pelo instincto, atirou a carapuça ao telhado, gritando:
—Viva o tio Zé Domingues e a sua rabeca!
—Viva! viva!—acompanharam os outros.
Mas o rabequista, ficou a scismar no que seria, essa maravilha tão apregoada pela gazeta. Que poder, que attracção teria no seu arco, esse homem que era superior a todos os que havia no mundo! Na sua mente ingenua, apresentou-se logo uma figura aureolada de sol, dominando a multidão dos admiradores que o applaudiam. Um publico de fidalgos e mulheres ricas é bem differente do seu, que era rude e casual. Haveria fragor de enthusiasmo, comprehensão vasta n’esse theatro em que as luzes faziam sobresahir a opulencia. A apotheose alargava-se até aos confins da terra e o artista victoriado levantava-se até ás nuvens... A alma calorosa do cego de Guardiam, sentia-se enebriada com esse imaginado triumpho, a commoção manifestava-se nas lagrimas que lhe apontavam. E batendo uma palmada no joelho disse com resolução:
—Pois ainda não hei de morrer sem ouvir uma coisa d’estas!
N’esse momento chegou o Miguel Tinta a quem perguntou:
—Queres tu ir comigo a Braga ouvir o tal home?! Talvez se lhe possa tirar alguma coisa.
* * * * *
Sempre fora este o seu processo d’aprender e progredir. Musica que ouvisse logo lhe ficava. Tinha no Porto e em Braga, quem lhe arranjasse versos apropriados. Ás vezes mesmo, lhe ministravam musica e lettra, o que valia oiro sobre azul. Entrava em todas as egrejas onde ouvisse tocar o orgão e era assiduo perto das bandas militares, quando soubesse que tocavam em publico. Se qualquer musica lhe calhava, elle e o Miguel tractavam logo de lhe applicar versos dos que sabiam e assim chegaram a popularisar canções, como aconteceu áquella que principiava:
Veja lá menina Se levanta a saia .................
a qual toda a provincia decorou. Algumas vezes aconteceu aristocratisarem-se as suas modas até chegarem ás salas de provincia, e então José Domingues ouvindo-as celebradas em piano dizia com orgulho:
—Vê lá Miguel. Aquella trouxemol-a nós.
A noticia que ouvira ler na gazeta do padre Carvalhosa, sobresaltou-lhe o coração, cheio de enthusiasmo pela musica. Era rigoroso dezembro; o frio enregelava as carnes; as neves cobriam os montes; o ceu, estucado de nuvens côr de lama, tinha uma immobilidade sombria. Os caminhos estavam intransitaveis, muita gente lhe aconselhou a não fazer a jornada; mas elle, logo que soube que o afamado rabequista chegára a Braga, resolveu o Miguel e partiram. Era como uma peregrinação religiosa. De tempos a tempos, José Domingues soltava seus ais admirativos e dizia para o companheiro:
—Mas como será este home, que é o primeiro rabequista do mundo?
Miguel observou scepticamente:
—Quem sabe lá! Isto de gazetas, consentem o que lhe põem.
—Não, não. Deve ser coisa de respeito!—considerou absorvido na sua ideia.
Logo á entrada da cidade, perto da egreja de S. Vicente, procuraram um estudante de Guardiam, com o fim de lhe pedirem esclarecimentos. Souberam que tudo quanto se dizia era verdade, que o senhor arcebispo, tendo escrupulos de ir ao theatro, convidára o famoso artista para tocar n’essa noite no Paço. O estrangeiro accedera, para conquistar as sympathias do prelado e do publico.
—Ó senhor Joãosinho—supplicou José Domingues—eu queria ouvil-o. Não me poderá arranjar um buraco no palacio do senhor arcebispo? Eu arrumo-me em qualquer parte. Um buraco que seja, menino.
* * * * *
Não foi difficil obter esta infima posição. O estudante era amigo d’um famulo de sua excellencia, o qual pôde esconder o cego n’um vão de escada, proximo do logar onde se realisaria o concerto. José Domingues levou comsigo a rabeca, pois desejava apertal-a sobre o peito para melhor comprehender a musica. Tiveram de o introduzir de dia, n’um momento conveniente para não ser presentido. Durante umas seis horas, esperou que chegasse o instante. Encolhido, quieto, respirando brandamente para não dar rumor de si, alli se conservou. Perto da noite, accometteu-o uma sede furiosa, que supportou heroicamente, sem o menor arrependimento.
O famulo que alli o introduzira, veio n’uma furtadela perguntar-lhe se estava bem e o cego respondeu agradecido:
—Ricamente, meu senhor. Só tenho uma sêde!...
Satisfeita esta necessidade ficou n’um paraizo. Momentos depois entrava tudo quanto havia de selecto na sociedade bracarense. A alta clerezia appresentou as suas familias respeitaveis. O general, o governador civil, o commandante do 8, o juiz de direito, administrador do concelho, delegado, professores do lyceu, trouxeram suas esposas e filhas. Ondulava um murmurio de vozes e de sedas, e José Domingues ouvia pronunciar nomes consagrados, que toda a vida respeitára humildemente. Isto augmentou no seu espirito o valor d’aquella festa, tornando-a imponente. Era um deslumbramento e um ceu aberto o que principiava a despontar na sua imaginação. Agarrado a sua rabeca, apertando-a contra o seio, estremecendo-a como se fora um ente animado, estava commovido. Ia-se verificar a apotheose d’um seu irmão, e elle identificava-se com a gloria do artista que não conhecia. Entrou o prelado. O cego deu conta d’esse facto pelo recuar de cadeiras e pelos comprimentos. Pouco depois chega o rabequista e a curiosidade da parte dos assistentes produziu um sussurro maior, que immediatamente se acalmou, seguindo-se um silencio de mar que se esbate sobre a areia.
* * * * *
Logo que os primeiros sons da rabeca encheram a sala, a alma de José Domingues sentiu-se arrebatada para um horisonte largo. Dos seus olhos sem vista, irradiaram fulgurações d’uma belleza sideral. Erguendo-se no amplo espaço com a pujança d’um crente, a sua imaginação livre, vagueou na larguesa sem fim, n’um redemoinho d’harmonias, que o impelliam como ligeiro farrapo de nuvem. Toda a miseria terrena desaparecera para elle. Não estava n’um buraco, como cão despresivel, socio e companheiro de ratos: aos seus olhos apparecia um amplo salão, ornamentado de riquezas e de mulheres formosas. Esquecera-lhe o rouco uivar do vento sobre a telha vãa da sua pobre casa, os caminhos enlameados e cheios de poças, os encontros por vezes desagradaveis da sua vida de tocador.
Quando a rabeca tinha momentos alegres, extravagantes, buliçosos, José Domingues ia indo n’aquella toada e vinham-lhe á mente coisas loucas e pueris: dançava em volta d’uma fogueira, abraçava as raparigas que lhe fugiam aos gritos, ouvia repiques de sinos, e ao longe, a multidão festival passava para a romaria. Se era a dolencia das musicas hespanholas, entranhadas de sentimento arabe, expraiando-se brandamente, como as mansas aguas do Mediterraneo, os seus nervos sentiam uma paz infinita, quasi um torpor. A visão paradisiaca d’uma primavera só formada de cantos de passaros e de perfumes d’hervas e de flores, como elle a contemplava n’esses momentos, era mais intensamente bella do que a paisagem das amendoeiras e dos campos cheios de trevo e de malmequeres brancos.