Novo dicionário da língua portuguesa
Chapter 528
*Argo*, indivíduo que, segundo a Mythologia, tinha cem olhos. Nome do navio, em que os Gregos foram á conquista do Vello-de-Oiro. (Lat. _Argos_)
*Argos*, indivíduo que, segundo a Mythologia, tinha cem olhos. Nome do navio, em que os Gregos foram á conquista do Vello-de-Oiro. (Lat. _Argos_)
*Aristobulo*, (não *Aristóbulo*) nome de dois Reis da Judeia. (Lat. _Aristobúlus_)
*Aristogíton*, antigo conspirador atheniense. (Lat. _Aristogíton_)
*Aristómenes*, escritor grego. (Lat. _Aristómenes_)
*Aristonico*, (_ní_) principe persa. (Lat. _Aristonícus_)
*Arquíloco*, antigo poeta grego. (Lat. _Archílocus_)
*Arsínoe*, uma das filhas de Atlante, segundo a Mythologia. (Lat. _Arsínoe_)
*Astíages*, Rei da Média, avô de Cyro. (Lat. _Astýages_)
*Astýages*, Rei da Média, avô de Cyro. (Lat. _Astýages_)
*Átropos*, personagem mythológica, uma das Parcas. (Lat. _Átropos_)
*Averróes*, (não *Avérroes*, como alguns mandam lêr) philósopho árabe, nascido em Córdova.--_Avérroes_ seria latinização injustificável de um nome árabe, cuja prosódia não é preciso alterar.
B
*Baedeker*, (_bédequer_) autor de um famoso guia de viajantes.
*Bagôas*, nome de vários persas. (Lat. _Bagôas_)
*Beccaria*, (_cari_) célebre publicista italiano.
*Beresford*, (_bé_) general inglês, generalíssimo do exército de Portugal em 1809.
*Bismarck*, (*Bismarque*, não *Bismárque*) estadista prussiano.
*Brígida*, (e não *Brízida*, como escreveu Garrett) nome de mulhér. (Lat. eccles. _Brígita_)
*Brás*, (não *Braz*) nome de homem. (Lat. _Blásius_)
C
*Canova*, (_nó_) célebre escultor italiano.
*Cânovas*, nome de um finado estadista espanhol.
*Ciaxares*, (não *Ciáxares*) Rei dos Médos. (Lat. _Cyaxáres_)
*Cleopatra*, (_pá_) Raínha do Egypto, no séc. I antes de Christo.--_Cleópatra_ é pronúncia usual, mas errónea. (Lat. _Cleopátra_)
*Cyaxares*, (não *Ciáxares*) Rei dos Médos. (Lat. _Cyaxáres_)
D
*Dalila*, (não *Dálila*) mulhér hebreia, amante de Sansão. (Lat. _Dalíla_)
*Dâmocles*, (não *Damócles*) cortesão de Dionýsio, tyranno de Syracusa. (Lat. _Dâmocles_)
*Debora*, (_bó_) (e não *Débora*) prophetisa, que governou os Hebreus 40 annos, e a quem se attribue o célebre cantico, que se lê na _Bíblia_, (_Juízes_, cap. V).
*Demódoco*, célebre tangedor de lyra. (Lat. _Demódocus_)
*Desdêmona*, personagem de uma tragédia de Shakespeare.--Os Ingleses dizem _Desdemóna_; mas o nome é italiano, e os Italianos dizem _Desdêmona_.
*Dinora*, (não *Dinorah*) nome de mulhér.
*Dioníso*, (não *Diónyso*) nome, que os Gregos davam a Baccho. (Lat. _Dionýsus_)
*Dionýso*, (não *Diónyso*) nome, que os Gregos davam a Baccho. (Lat. _Dionýsus_)
E
*Édipo*, (e não *Edípo*) personagem mythológico, que decifrou o enigma da Esphynge. (Lat. _Oédipus_)
*Elói*, (e não *Elóy*) nome de homem. (Lat. _Elogius_. Cf. Roquete, _Diccion. Port. Fr._)
*Empédocles*, philosopho antigo. (Lat. _Empédocles_)
*Encélado*, gigante que, segundo a Mythologia, foi aprisionado por Júpiter. (Lat. _Encéladus_)
*Éolo*, deus dos ventos, segundo a Mythologia. (Lat. _Aéolus_)
*Érebo*, divindade infernal, segundo a Mythologia. (Lat. _Érebus_)
*Eróstrato*, incendiário do templo de Diana em Épheso.
*Éschilo*, (_qui_) poéta trágico da Grécia antiga. (Lat. _Aéschilus_)
*Éschines*, (_qui_) orador atheniense, rival de Demósthenes. (Lat. _Aéschines_)
*Espártaco*, gladiador thrácio, chefe de uma revolta na antiga Roma. (Lat. _Spártacus_)
*Ésquilo*, poéta trágico da Grécia antiga. (Lat. _Aéschilus_)
*Ésquines*, orador atheniense, rival de Demósthenes. (Lat. _Aéschines_)
*Estrabão*, (e não *Strabão*) notável geógrapho latino. (Lat. _Strabo_)
*Etéocles*, (e não *Eteócles*) filho de Édipo. (Lat. _Etéocles_)
*Eurípides*, grande poéta trágico da Grécia antiga. (Lat. _Eurípides_)
G
*Gengiscão*, (e não *Gengis-khan* e, ainda menos, *Gengiskan*) célebre príncipe mongol, que no século dominou territórios, que se estendiam do Mar-Negro ao Mar da China.
H
*Eduviges*, (e não *Hedwiges*) nome de mulhér. Cf. Roquete, _Diccion. Port. Fr._
*Hécate*, outro nome da deusa Diana. (Lat. _Hécate_)
*Heduviges*, (e não *Hedwiges*) nome de mulhér. Cf. Roquete, _Diccion. Port. Fr._
*Heliogábalo*, (e não *Heliogabálo*) imperador romano. (Lat. _Heliogábalus_)
*Heródoto*, célebre historiador grego. (Lat. _Heródotus_)
*Hípias*, (e não *Hipías*) filho de Pisístrato. (Lat. _Híppias_)
*Híppias*, (e não *Hipías*) filho de Pisístrato. (Lat. _Híppias_)
*Hortênsia*, (e nunca *Hortense* e, ainda menos, *Hortence*) nome de mulhér. (Lat. _Hortensia_)
I
*Ifigênia*, (e não *Ephigênia*) nome de mulhér.--_Ifigênia_ é a pronúncia usual, mas a exacta seria _Ifigenía_. (Lat. _Ifigenia_, do gr. _Iphigeneia_)
*Ínacho*, (_co_) primeiro Rei de Argos. (Lat. _Ínachus_)
*Ínaco*, primeiro Rei de Argos. (Lat. _Ínachus_)
*Inês*, (e não *Ignêz*) nome de mulhér. (Do lat. _Agnes_)
*Iphigênia*, (e não *Ephigênia*) nome de mulhér.--_Ifigênia_ é a pronúncia usual, mas a exacta seria _Ifigenía_. (Lat. _Ifigenia_, do gr. _Iphigeneia_)
*Isócrates*, rhetórico atheniense. (Lat. _Isócrates_)
J
*Jaime*, (e não *Jayme*) nome de homem. (Fr. _Jame_, ingl. _James_)
K
*Karénina*, (e não *Karenína*) heroina de um romance de Tolstoi.
L
*Láchese*, (_que_) uma das três Parcas. (Lat. _Lachesis_)
*Láchesis*, (_que_) (V. _Láchese_)
*Lâmpsaco*, antiga cidade da Mysia, sôbre o Hellesponto. (Lat. _Lâmpsacum_)
*Laódice*, nome de várias mulhéres célebres, na antiguidade. (Lat. _Laódice_)
*Láquese*, uma das três Parcas. (Lat. _Lachesis_)
*Leónidas*, celebre general lacedemónio, que foi morto nas Thermópylas. (Lat. _Leónidas_)
*Longímano*, (e não *Longimâno*) sobrenome de Artaxerxer, Rei da Pérsia. (Lat. _Longímanus_)
*Luís*, (e não *Luiz*) nome de homem. (B. lat. _Aloisius_)
M
*Médicis*, appellido de uma nobre e célebre família florentina.
*Mégara*, antiga cidade grega. (Lat. _Mégora_)
*Mendelssohn*, (_Mên_..., e não *Mendélssohn*) compositor alemão, filho de um philósopho que tinha o mesmo appellido.
*Mirandola*, (*Mirândola*, e não *Mirandóla*) João Pico de la Mirandola é o nome do famoso polýgrapho italiano, que aos déz annos já occupava lugar entre os melhóres oradores e poétas do seu tempo, e aos 25 annos defendia em Roma a conhecida these _De omni scibili_, sôbre a qual apresentou 900 proposições.
*Mithridates*, (_dá_, e não *Mithrídates*) nome, de um célebre Rei do Ponto, e de vários Reis da Ásia. (Lat. _Mithridátes_)
*Mitridates*, (_dá_, e não *Mithrídates*) nome, de um célebre Rei do Ponto, e de vários Reis da Ásia. (Lat. _Mithridátes_)
N
*Nêmese*, deusa vingadora dos crimes, segundo a Mythologia. (Lat. _Nêmesis_)
*Néocles*, pai de Temístocles. (Lat. _Néocles_)
*Neoptólemo*, filho do herói grego Achilles. (Lat. _Neoptólemus_)
*Nictímene*, personagem mythológica. (Lat. _Nyctímene_)
*Níobe*, (e não *Nióbe*) personagem mythológica, filha de Tântalo. (Lat. _Níobe_)
*Nyctímene*, personagem mythológica. (Lat. _Nyctímene_)
O
*Ômphale*, (e não *Onfále*) segundo a Mythologia, mulhér de Hércules, o qual fiava na roca, para lhe agradar. (Lat. _Omphale_)
*Ônfale*, (e não *Onfále*) segundo a Mythologia, mulhér de Hércules, o qual fiava na roca, para lhe agradar. (Lat. _Omphale_)
P
*Pátroclo*, herói da guerra de Tróia, morto por Heitor. (Lat. _Pátroclus_)
*Péricles*, célebre general e orador atheniense. (Lat. _Péricles_)
*Perséfona*, outro nome da deusa Prosérpina. (Lat. _Perséphona_)
*Perséphona*, outro nome da deusa Prosérpina. (Lat. _Perséphona_)
*Pisístrolo*, tyranno de Athenas, no séc. VI antes de Christo. (Lat. _Pisistratus_)
*Praxíteles*, célebre escultor da Grécia. (Lat. _Praxíteles_)
*Prosérpina*, mulhér de Plutão, deus dos Infernos, segundo a Mythologia. (Lat. _Prosérpina_)
R
*Reinaldo*, (e não *Reynaldo*) nome de homem. (B. lat. _Rainaldus_. Cf. Du-Cange, _Gloss._, vb. _chella_)
*Rhódope*, famosa cortesan da Thrácia, em tempo de Esopo. (Lat. _Rhódope_)
*Ródope*, famosa cortesan da Thrácia, em tempo de Esopo. (Lat. _Rhódope_)
S
*Sara*, (e não *Sarah*) personagem bíblica, mulhér de Abrahão.
*Sardanapalo*, (_pá_, e não _ná_) Rei da Assýria. (Lat. _Sardanapálus_)
*Sátiro*, (e jámais *Satýro*, ou *Satíro*, como assinam indivíduos da nossa terra) (Lat. _Sátyrus_)
*Sátyro*, (e jámais *Satýro*, ou *Satíro*, como assinam indivíduos da nossa terra) (Lat. _Sátyrus_)
*Savonarola*, (_naró_, e não *Savonárola*) célebre prègador dominicano, que foi accusado de heresia e queimado vivo em 1498. (N. it.)
*Sêneca*, philosópho, preceptor de Nero, e filho de um rhetórico do mesmo nome. (Lat. _Sêneca_)
*Sísifo*, personagem mythológica. (Lat. _Sisyphus_)
*Sísypho*, personagem mythológica. (Lat. _Sisyphus_)
*Sófocles*, grande poéta trágico da Grécia antiga. (Lat. _Sóphocles_)
*Sóphocles*, grande poéta trágico da Grécia antiga. (Lat. _Sóphocles_)
T
*Tamerlão*, (e não *Tarmelan*) célebre conquistador tártaro do séc. XIV.
*Temístocles*, antigo general atheniense, vencedor dos Persas. (Lat. _Themístocles_)
*Temudo*, (e não *Themudo*) appellido português. (De _temudo_, particípio ant. de _temer_)
*Teresa*, (e não *Theresa* nem *Thereza*) nome de mulhér. (Na Idade-Média, _Tareja_, _Taresia_, _Teresa_, etc.)
*Themístocles*, antigo general atheniense, vencedor dos Persas. (Lat. _Themístocles).
*Thomás*, (e não *Thomaz*) nome de homem. (Lat. _Thomas_)
*Tiago*, nome de homem.--_Thiago_ é êrro crasso. (De _Santo Iago_ < _Sant'Iago_ < _San-Tiago_ < _Tiago_)
*Tisífone*, figura mythológica, uma das Fúrias. (Lat. _Tisíphone_)
*Tisíphone*, figura mythológica, uma das Fúrias. (Lat. _Tisíphone_)
*Triptólemo*, inventor da Agricultura, segundo a Mythologia. (Lat. _Triptólemus_)
*Tomás*, (e não *Thomaz*) nome de homem. (Lat. _Thomas_)
Z
*Zópiro*, nome de um persa, que se mutilou, para entregar Babylónia a Dario. (Lat. _Zópyrus_)
*Zópyro*, nome de um persa, que se mutilou, para entregar Babylónia a Dario. (Lat. _Zópyrus_)
Notas:
[1] De passagem advertirei que ao diccionarista consciencioso mais de uma vez se deparam difficuldades no registo dos vocábulos brasílicos. Como os Tupis não tinham língua escrita, muitos vocábulos, que delles procederam, apparecem hoje escritos por mais de uma fórma, segundo o arbítrio de quem escreve. Assim é que,--referindo-me apenas a alguns vocábulos da letra G,--vejo na imprensa do Brasil as variantes _gopiara_ e _gupiara_, _gariroba_ e _guariroba_, _gurandirana_ e _guarandirana_, _gurejuba_ e _gurijuba_, _guaiamum_ e _goiamum_, _goiaba_ e _guayaba_ (fórma preferida por Beaurepaire-Rohan), etc.
Sobretudo longe do Brasil, não é nada fácil decidir qual das variantes de um vocábulo brasílico é a exacta ou, pelo menos, a preferível. Em taes condições, julgo que andei bem avisado, registando as variantes que se me depararam, e remetendo o leitor para a fórma vocabular, que mais corrente se me afigurava. A exegese dos eruditos brasileiros,--que os há e muitos,--poderá resolver a dúvida em última instância, e os seus acórdãos acatarei como devo.
(_Nota desta 2.^a edição_).
[2] O finado proprietário da casa editora _Tavares Cardoso & Irmão_, Sr. Avelino Tavares Cardoso.
[3] Sobretudo nesta nova edição, embora succintamente, pude abonar com textos dos mestres o emprêgo e as accepções de milhares de vocábulos menos vulgares, ou pouco conhecidos; e rara é a pagina, em que certas accepções vocabulares não sejam acompanhadas de exemplos,--o que sem dúvida representa um dos mais sensíveis melhoramentos desta edição.
(_Nota desta nova edição_).
[4] Escrevia-se isto em 1899. Annos depois, foi officialmente adoptado um processo orthográphico de simplificação, que aboliu as consoantes geminadas, o _y_, o _k_, os grupos _ph_, _th_, _rh_, _ch_ (=_k_), etc. Nesta nova edição portanto, a par das palavras que, etymologicamente e segundo o uso, tem consoantes geminadas, regista-se a correspondente fórma simplificada.
(_Nota da nova edição_).
[5] Cf. C. de Figueiredo, _Vícios da Linguagem Médica_, 1 vol. de 291 pág. Lisboa, 1910.
(_Nota desta nova edição_).
[6] A propósito da orthographia portuguesa, deu-se, entre a 1.^a e 2.^a edição do presente _Diccionário_, um acontecimento memorável, que me cumpre registar neste ponto.
Em Portaria do Govêrno, de 15 de Fevereiro de 1911, foi nomeada uma Commissão, encarregada de fixar as bases da orthographia que deve sêr adoptada nas escolas e nos documentos e publicações officiaes. Essa Commissão era composta de D. Carolina Michaëlis, Gonçalves Viana, Candido de Figueiredo, Adolfo Coelho, Leite de Vasconcelos, e foram-lhe depois aggregados Ribeiro de Vasconcelos, Gonçalves Guimarães, Epifânio Dias, Júlio Moreira, J. J. Nunes e Borges Graínha.
Essa Commissão, em 23 de Agosto do mesmo anno, apresentou o seu relatório, firmado pelos vogaes residentes em Lisbòa, com prévia audiência e assenso dos vogaes ausentes; e dias depois, em Portaria de 1 de Setembro, mandava o Govêrno que a reforma ortográphica, proposta naquelle relatório, fôsse adoptada nas escolas e nos documentos e publicações officiaes.
Eis a súmmula desta reforma, ou a sýnthese dos seus pontos capitaes:
1.^o--Não se duplicam consoantes.--Portanto, _beleza_, _aprovar_, _imediato_, _abade_, _Melo_, _Matos_, _Mota_...
2.^o--Simplificam-se e substituem-se os grupos _ph_, _th_, _rh_, _ch_ (com o valor de _k_).--Portanto, _filosofia_, _teatro_, _reumatismo_, _quimera_, _química_, _corografia_.
3.^o--Não se emprega _y_, nem _k_, nem _w_.--Portanto, _lira_, _martírio_, _calendário_, _Venceslau_... Exceptuam-se só os vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros, como _byroniano_, _kantismo_, _wiclefitas_...
4.^o--Dentro de vocábulos não se escreve _h_. Portanto, _inerente_, _inibir_, _inábil_, _compreender_, _inumano_...
5.^o--Os ditongos oraes, _ae_, _áo_, _éo_, _óe_, substituem-se por _ai_, _au_, _éu_, _ói_.--Portanto, _pai_, _pais_, _jornais_, _marau_, _chapéu_, _herói_, _anzóis_...
6.^o--Evitam-se consoantes inúteis.--Portanto, _escritura_, _escritor_, _escultura_, _distrito_, _salmo_, _luta_...
Exceptuam-se os casos, em que a consoante, embora se não pronuncie, tem a utilidade de significar que é aberta a vogal que a precede, como em _exceptuar_, _rectidão_, _redacção_, _direcção_, _actor_, etc., e nos vocábulos das mesmas familias: _excepto_, _recto_, _redactor_, _directo_, _actuar_...
7.^o--O pronome pessoal enclítico _lo_ liga-se aos verbos por um traço.--Portanto, _tu faze-lo e eu não posso fazê-lo_; _louvá-lo_; _ouvimo-lo_...
8.^o--O emprêgo do _s_ e do _z_ é regulado pela etimologia e pelas tradições da língua.--Portanto, _português_, _francês_, _cortês_, _freguês_, _defesa_, _empresa_; e ao mesmo tempo, _natureza_, _beleza_, _civilizar_, _realizar_, _organizar_, _vez_, _talvez_... Em caso de dúvida, há ainda o recurso dos bons diccionários e vocabulários, organizados depois que é conhecida entre nós a sciência da linguagem, isto é, nos últimos vinte ou trinta annos.
9.^o--Escreve-se _igreja_, _idade_, _igual_.
10.^o--Acentuam-se graficamente todos os vocábulos esdrúxulos.--Portanto, _pálido_, _túmulo_, _crisântemo_, _lêvedo_, _hipódromo_, _velódromo_, _diário_, _África_... Acentuam-se os homógrafos, não homofónicos, pois há _séde_ e _sêde_, _govérno_ e _govêrno_, _dúvida_ e _duvida_, etc. O acento grave pertence ás vogais abertas, não tónicas. Portanto, _còrado_, _prègador_, _pègada_... E também se póde empregar para desfazer ditongo, como em _proìbir_, _miùdamente_; e para mostrar que o _u_ se pronuncia depois de _g_ ou _q_, como em _agùentar_, _freqùente_... (quando convenha representar a pronúncia, especialmente no ensino primário).
Esta reforma entrou immediatamente em execução, e, felizmente, ainda fóra dos domínios officiaes, está sendo espontanea, e, mais ou menos rigorosamente, praticada por numerosos publicistas e jornalistas.
Para a sua melhor execução, publicaram-se dois vocabulários, o de Gonçalves Viana e o de Xavier Rodrigues, sob os auspícios da Commissão reformadora.
Como subscritor da reforma e velho propangandista da simplificação orthográphica, recebi conselhos e pedidos, para que a nova edição do presente diccionário se subordinasse inteiramente a essa reforma, na disposição alphabética dos vocábulos e na matéria do texto.
Bem intencionadas eram decerto essas solicitações; e, se a presente edição se fizesse daqui a dez ou vinte annos, é natural que os factos me levassem a acceitá-las e a deferí-las, visto que, segundo creio, dentro de alguns annos, a simplificação orthográphica, sem demasias irritantes e sem radicalismos nocívos, será naturalmente dominante em Portugal e no Brasil, e os diccionários de então deverão subordinar-se aos factos.
Mas os factos de hoje aconselham outra coisa. Como se não trata de um simples vocabulário de propaganda, mas de um diccionário da língua, a cujo autor impende o estricto dever de representar a actualidade gráphica do idioma, imprudência sería tomar como enraizada desde já, e geralmente, a simplificação orthográphica, e fazer de conta que não existiram as graphias de Herculano, Castilho e Latino, e ainda as da maioria dos que, no momento actual, escrevem português, aquém e além do Atlântico.
Um diccionário tem de sêr o registo dos factos da língua; e os factos são que a chamada até agora _orthographia usual_ é por ora aceita, e sê-lo-á, por algum tempo, pela grande maioria dos que escrevem. Bastará ponderar-se que, embora a Academia Brasileira haja preconizado e praticado já uma reforma, que essencialmente não differe da portuguesa, a maioria dos milhões de indivíduos que na América falam a nossa lingua, ainda não praticam a simplificação adoptada pelo Govêrno português e pela Academia Brasileira.
Ora, um diccionário é livro para todos, e tem de subordinar-se aos factos mais geraes da língua; pelo que, tenho de manter a orthographia mais usual, á parte as fórmas erróneas, que procuro corrigir. Mas, como também é um facto a adopção official da orthographia simplificada e a adopção della, por parte de muitos e autorizados publicístas, registo a par as fórmas usuaes e as fórmas simplificadas, sempre que o vocábulo é susceptível de variantes legítimas: _philósopho_ e _filósofo_, _lyra_ e _lira_, _theatro_ e _teatro_, _Chímica_ e _Química_, _inherente_ e _inerente_, etc.
Assim, encontra aqui o leitor as fórmas mais usuaes entre os escritores modernos; e o partidário menos perito da simplificação orthographica encontra, a par daquellas fórmas, as fórmas simplificadas, quando as usuaes possam sêr substituidas por fórmas simples.
De maneira que, sob êste ponto de vista, a obra deverá satisfazer os _etymologistas_, os _usualistas_, os _simplificacionistas_ e todos os que queiram vêr registadas as graphias que mais lhes aprazam, sob a condição de serem legítimas.
(_Nota da presente edição_).
[7] A última reforma orthográphica, approvada officialmente, preceituou, por maioria de votos da Commissão reformadora, que em vez de trema, se use acento grave. É respeitável o preceito, mas achará difficuldades, que o trema não encontra.
(_Nota desta nova edição_).
[8] De acordo com a última reforma orthográphica, a que também está ligada a minha responsabilidade, simplifiquei um pouco, nesta nova edição, a accentuação gráphica, fóra dos casos em que ella é da maior vantagem, como nos vocábulos esdrúxulos, nos termos homógraphos mas não homophónicos, (_sêde_ e _séde_, _vária_ e _varía_), etc.
E assim também, como seja regra que é fechada a vogal tónica da desinência _oso_, _formoso_, _idoso_, etc., julguei aqui dispensável a accentuação gráphica e até a indicação parenthética do valor da vogal tónica. Como é regra sêr aberta a vogal tónica da desinência _osa_, (_formosa_, _rosa_, etc.) acentuo as excepções: _espôsa_, etc.
Da mesma fórma, sendo geralmente fechadas as vogaes tónicas das desinências _or_ e _er_, (_senhor_, _compor_, _doutor_, _comer_, _dizer_, _perder_), acentuo graphicamente as excepções: _majór_, _melhór_, _colhér_, _malmequér_...
(_Nota desta nova edição._)
[9] Nesta nova edição, novos e numerosos melhoramentos e correcções recaíram na parte etymológica, que também foi simplificada, restringindo-se ás fontes próximas, e pondo de lado as remotas, que só podem interessar a philólogos e não ao commum dos leitores.
(_Nota desta nova edição_).
[10] Neste parecer, como trabalho de responsabilidade collectiva, segue-se ortographia que não é a preferida pelo respectivo e douto relator.
C. de F.
[11] Que Madagascar é d'alguns chamada
Lusíadas, X, 137
A Quiloa fertil aspero castigo
Ibid. X, 26.
Em todos os versos do poema em que vem mencionado êste nome a medição exige a accentuação _Quíloa_.--V. Os Lusíadas, (edição anotada por F. Sales de Lencastre, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892, p. 55). Os Ingleses escrevem _Kilwa_, modernamente.
[12] Embora os Latinos não conhecessem o nosso accento agudo nem o circunflexo, adoptam-se êstes aqui nas syllabas tónicas de vocábulos latinos, para melhór comprehensão de leitores menos letrados.