Novelas do Minho

Part 9

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--Mas então, minha senhora;--redarguiu o cego--quer, entretanto que não vai, viver sósinha em Villa Nova, ou dá nos o prazer da sua companhia? Seu defunto esposo encarregou-me de a dirigir; eu, porém, o que farei é conformar-me com a vontade da senhora, que já tem sufficiente idade para saber o que lhe convem.

--Não sei nada do mundo--acudiu Tecla--Estou muito verde. O senhor é que ha de guiar-me.

--Deus lhe dê melhor guia do que um cego, minha senhora;... mas ahi tem a minha mana que lhe será companheira e irmã.

No dia seguinte, Monteiro fechou o botiquim com um sorriso sarcastico, e o ar solemne e vingativo de quem fechava a porta que franqueára á civilisação de Villa Nova. Elle vociferou que os habitantes de Famalicão eram indignos do «Café», deu volta á chave, e foi caminho de Landim com a hospeda e a irmã.

IX

Os dois predios que a viuva possuia na rua da Quitanda valiam quarenta contos de réis fracos; as suas joias, dádivas de tres maridos, eram muitas e nem todas de pedras falsas. A idade da viuva animava um quarto marido, na hypothese de caber a esse quarto a vez de a ver fugir para o céo a ella. O certo é que andavam já dois empregados da fazenda e outros tantos da administração a expiarem o ensejo de lhe seduzirem a inexperiencia, quando a viram ir impertigada n'umas andilhas, caminho de Landim, a chotar, e a rir-se dos solavancos do macho.

Os pretendentes pegaram de gritar contra o cego, assacando-lhe o rapto e a coacção da viuva. O juiz de direito viu-se forçado a deferir ao requerimento de um curioso que pedia uma visita domiciliaria ao carcere privado de D. Joanna Tecla Alves. Effectivamente a hospeda de Pinto Monteiro foi interrogada em presença de testemuhas, se estava n'aquella casa por sua livre vontade, não coagida nem seduzida.

Respondeu que estava muito contente, e que podia estar onde quizesse.

O juiz concordou.

Algumas cartas amorosas em papel perfumado lhe enviou o mais galan dos funccionarios de Famalicão. Joanna Tecla relia as cartas com secretas delicias; mas, no exterior, fingia-se de uma isenção que faria envergonhar Arthemisa, viuva de Mausólo e as combustiveis viuvas do Malabar. Perguntava á sua amiga Neves quem era o tolo que lhe escrevia; e, rindo com a garridice arisca dos dezeseis annos, dizia que seria grande pagode mangar com elle, respondendo-lhe ás cartas.

A mana do cego segredava ao irmão:

--Olha que a velha é tola, mano Antonio; trata de cortar os voadouros á cegonha: senão, hasde vêl-a voar aos braços do quarto marido.

--O quarto marido heide ser eu!--disse o cego com uma visagem de martyr voluntario--Heide ser eu o quarto marido--repetiu elle, tragando um copo de rhum para ganhar alma--porque a ter de entrar n'esta casa o espectro da miseria, é melhor que entre Joanna Tecla. Não me lembra como se chamava um cego que dava graças a Deus porque não podia vêr um certo tyranno; eu tambem as dou, porque não posso vêr a minha noiva.--E enchia o copo esvasiado, mascava o charuto, e fazia com as duas pernas um curso de geometria--Sacrifico-me a ti e a meus filhos. Vou ser o bode expiatorio das minhas e vossas prodigalidades; mas levo a certeza de que ella ao menos me será esposa fiel--o que é raro antes dos setenta annos. O seu terceiro defuncto disse-me que Tecla era uma paz d'alma, bruta sim, mas boa. Emfim, mana, sonda-m'a; vê se lhe achas vontade de casar quarta vez.

--Tomára ella!--acudiu a irmã--Está sempre a dizer: «Isto de mulher sem homem é como peixe fóra de agua.» Põe papelotes todas as noites, e faz caracoes quando se ergue. Que quer isto dizer? Queres que eu lhe toque no casamento comtigo?

--Toca; que eu começo hoje a fazer-lhe a côrte.

Na tarde d'esse dia, passeava Monteiro, debaixo da parreira do seu quintal, pelo braço da viuva. As calhandras e os pintasilgos trilavam os seus requebros ás margens do rio Pele. As rãs coaxavam nas pôças, e as auras ciciavam na ramaria dos álamos. Era uma tarde de tirar amores do olho de uma couve lombarda.

Passeavam silenciosos, quando ao longe, no pinhal do mosteiro, cantou um cuco.

--Olhe o cuquinho a cantar!--disse ella com meiguice.

--Gosta de ouvir o cuco, sr.^a D. Tecla?--perguntou o cego.

--Eu gosto de toda a passarinhada--respondeu ella com as denguices infantis da Lili de Goethe.

--O cuco é passaro de máo agoiro!--tornou elle--Eu, com medo de tal ave, não quiz casar.

Tecla riu-se descompassadamente, provando que conhecia a línguagem symbolica da ave agoureira. E o cego, n'esta entreaberta de galhofa, beliscou-lhe a polpa do braço esquerdo.

--Ai!--exclamou ella--Isto que foi?!

--Não se ria assim das fraquezas do proximo, Joanninha!--respondeu o cego, dando ao beliscão o ar innocente de um gracejo familiar--Eu não quiz casar nunca porque o meu coração nunca sentíu ao perto nem ao longe a mulher digna d'elle. Cheguei aos cincoenta e dois annos, pode-se dizer, sem ouvir a este coração as palpitações que estou agora ouvindo. É a primeira vez...--e estreitava-lhe o braço contra o lado esquerdo com umas pressões trémulas--é a primeira vez que amo; porque é esta a primeira vez que encontro a mulher, a esposa digna da minha ternura. Que me responde, Tecla? não me responde, prenda adorada?--instava elle sacudindo-lhe a mão com transporte.

A viuva inclinou a face para o seio, deixou-se apertar com o indolente abandono de suas faculdades sensitivas, esteve impando como quem suspira a custo, e murmurou:

--De vagar se vai ao longe, sr. Monteiro.

X

Aquillo foi depressa. O fervor reciproco dos noivos, e o preceito do poeta pagão que manda não adiar os prazeres, abreviaram quanto possivel a identificação das duas almas. O reitor, que os recebeu, era um padre bom e jovial que até a estes noivos disse o que dizia a todos: «Eu espero o vosso primeiro filho d'aqui a nove mezes.» A noiva entreabriu á flor dos beiços um hypothetico sorriso de pudor; o cego, porém, ferido na infecundidade da esposa, disse, carregando o semblante:

--N'este acto, sr. reitor, são improprias as chalaças.

O padre, querendo emendar eruditamente a inadvertencia, respondeu:

--As santas escripturas fallam de Sára...

--Eu não sou Abrahão--replicou o cego, voltando-lhe as costas.

Reverdeceram os contentamentos da meza lauta e das intimas palestras ao fogão. D. Tecla Monteiro confessava que nunca tão felizes lhe derivaram os dias da existencia. O cego sentia se docemente ameigado e bem, com o rosto no regaço da esposa. Saboreava os santos aconchêgos da companheira canonica. Recendia-lhe o ninho dos seus amores licitos um patriarchismo anterior ao sacramento do matrimonio, é verdade, mas puro como os conubios de Jacob e Lia, de Ruth e Booz. Ella não o idolatrava com o maior phrenesi, mas aquecia-lhe no inverno os lençoes com botijas, e de manhã levava-lhe uma chavena de sagú, que pessoalmente cosinhava com todos os primores d'uma vocação especial para os mingáos.

Na venda das propriedades liquidára Monteiro menos do seu valor; mas ainda assim não desceu de vinte contos de réis o dote da esposa. Parte d'este capital empregou-o em uma quinta no Alto-Douro, outra parte na reincidencia de pleitos que havia perdido, e o restante nas opulencias da meza, e nas liberalidades com os renovados amigos. Do mesmo passo que a opinião publica encarecia a velhacaria do cego, formava-se uma confederação de sujeitos que lhe exploravam a perdularia generosidade. Emprestava facilmente dinheiro, e não negava esmola, nem se desculpava com a falta de cobres. «Tal desculpa seria boa,--dizia elle--se os mendigos se offendessem com as pratas.» E tambem dizia: «Ninguem dá esmolas mais ás escondidas do que eu, porque nem vejo as pessoas a quem as dou!» Triste gracejo proferido por um cego.

Pinto Monteiro, que tanto refinára em astucias, no ultimo quartel da vida, deixava-se enganar por qualquer velhaco montezinho. A quinta do Alto Douro, comprada por seis contos de réis, foi uma venda fraudulenta: a propriedade estava hypothecada á fazenda nacional, e o vendedor, apresentando titulos falsos, recebeu o dinheiro no Porto, e fugiu. Os convivas do cego rejubilavam a cada arremesso novo que a desfortuna lhe dava para a pobreza, e as pessoas contemplativas observavam ás incredulas que o enorme delinquente estava soffrendo retaliações providenciaes. É de crer que sim.

Lance admiravel! Pinto Monteiro mantinha serenidade socratica e imperterrita a cada lançada que lhe resvalava na rodella da philosophia. Se a irmã ou a esposa choravam, e elle dava tento d'isso, dizia-lhes: «É uma vergonha chorar quando a vida é tão curta! As dores são um sonho mau de que se acorda na sepultura.»

Ao sentir desfibrar-se-lhe a corda tenaz da paciencia, digna de um christão, emborcava garrafas de genebra, e fumava sempre até cair marasmado pelo alcool e pela nicotina; mas, se antes da prostração, se exaltava em desvarios de ebrio, as phrases refloreciam os raptos de eloquencia que aos vinte e cinco annos o arrebatavam nos clubs fluminenses. N'estas occasiões, projectava ir ao parlamento, e ensaiava discursos tão bonitos que pareciam ser decorados no «Diario das Camaras.» Ás vezes pedia á mulher e á irmã que lhe fizessem «ápartes» para o picarem. A boa de D. Tecla dava-lhe para se rir, ou pedia-lhe amorosamente que se deitasse--pedido que a gente não pode fazer a todos os oradores parlamentares.

N'estas intermittencias, quasi sempre risonhas, se passavam os dias e boa parte das noites n'aquella murmurosa casa de Landim. D. Tecla desmentira os viticinios que a deploravam, esbulhada do dote e abandonada á piedade do Azylo das velhas do Camarão. Não teve uma hora de tristeza esta senhora; nem se quer ligeira borrasca de ciume, em sete annos de casada, lhe nublou as suas alegrias de esposa leal. Ás setenta e seis primaveras seguiu-se um inverno rigoroso de catarraes e gota, com perturbações no apparelho digestivo, tympanites e colicas flatulentas. A morte arrebatou-a em dezembro de 1861 dos braços do marido que, pela primeira vez na sua vida, chorou.

XI

Sete annos de glacial solidão giaram sobre a alma de Pinto Monteiro. As portas da sua casa raro se abriam. Concordemente se disse que o cego estava pobre pela terceira vez. Era verdade: estava pobre--vendia o restante das joias da mulher.

Ás vezes entrava n'aquella casa a Narcisa do Bravo, sentava-se á mesa ainda abundante do padrinho, e matava a fome. A irmã do cego debulhava-se em pranto a confrontar aquella desgraçada de rosto empolado com esfoliações rubras á formosa noiva de Custodio da Carvalha, á gentil amazona por amor de quem alguns fidalgos de Guimarães terçaram as suas badines de caoutchouc na romaria de S. Torquato.

Sobre todas as famas repellentes, ganhara Narcisa, com legitimo direito, a de ladra, e ladra á mão armada. Os mais queixosos eram os que lhe colheram as flôres já outoniças da belleza, e a regeitaram com a brutalidade do tedio. Narcisa sahia-lhes de rosto nas concavidades das congostas escuras, e abocava-lhes á cara uma pistola de dois canos; e elles, com um fingido sorriso de piedade despresadora, atiravam-lhe a forçada esmola. Outras vezes, escalava as janellas das alcôvas conhecidas, e entroixava os bragaes como se inventariasse o espolio de um esposo fallecido. E temiam-na como a um scelerado disposto a vender cara a vida, por que ella deixava entrever a coronha da pistola entre os atacadores do collete escarlate, e, se sofraldava as saias, quando saltava as poldras dos ribeiros, mostrava a faca de ponta atravessada na liga. Os regedores das freguezias que ella frequentava tinham ordem de a capturarem; mas o mêdo, predicado pacifico d'estes magistrados, era a resalva de Narcisa.

O cego de Landim não ignorava a desastrosa sahida de sua afilhada; conselhos, n'aquella extremidade, eram perdidos; censuras, a si proprio as fazia o cego por que encetára a perdição d'aquella moça, tirando-a da arribana de seu pae, para a crear nas regalias da abundancia, sem vislumbres de religião, em plena liberdade de se viciar com as travessuras e gaiatices que lhe festejavam. Narciza era talvez uma das polés que torturaram o cego nas impenetraveis agonias dos seus ultimos seis annos.

Contava um rapazinho, creado de Pinto Monteiro, que ouvira, uma vez, sua ama dizer a Narciza que ia mandar vender dois cobertores porque não havia dinheiro em casa; e que Narciza lhe dissera que não vendesse os cobertores, por que ella ia vender a sua pistola por meia moeda. Não tenho outro lance generoso que possa referir de Narciza do Bravo.

Quando este caso passou, entrava Antonio José Pinto Monteiro nos paroxismos da morte. A 28 de novembro de 1868, pelas dez horas da manhã, disse á irmã que lhe accendesse um cigarro, e abrisse as janellas, que sentia grande calor e ancia. Sentou se no leito, e inspirou consoladoramente a columna de ar frigidissimo que lhe bateu no rosto, ao abrir da janella. Pediu uma chavena de café, e, emquanto a irmã o fazia, Narcisa veiu para a beira do padrinho.

--Quem é?--perguntou o cego.

--Sou eu, padrinho. Está melhor?

--Vou estar melhor, filha. Isto vai acabar. Quando eu morrer, faze companhia á minha pobre irmã...

Narcisa chorava, beijando a mão do cego, que se estorcia nas dôres da cystite. Ao cahir da noite, a prostração, a febre, os soluços, e o frio das extremidades diagnosticavam a gangrena. No 1.^o de dezembro, o cego de Landim expirou reclinado ao seio de Narciza, que se sentara no leito para o amparar nos derradeiros arrancos.

As suas ultimas palavras, no delirio que precedeu a morte, encerram toda a moralidade d'esta biographia:

--Eu tinha tres filhos que criei com tanto amor... Que é d'elles?...

E mais nada.

Os tres filhos do cego de Landim affrontar-se-hiam com o nome de seu pai? Para ter um peito amigo que o amparasse na agonia, foi mister que a sociedade remessasse para dentro da alcova do moribundo uma mulher perdida. Mas, lá ao longe, no Brazil, houve lagrimas saudosas no coração de uma filha. Pois quando é que Deus consentiu que uma filha as não chorasse... n'um epitaphio?

CONCLUSÃO

No cemiterio de Landim está uma sepultura com este letreiro:

AQUI JAZ ANTONIO JOSÉ PINTO MONTEIRO NASCEU A 11 DE DEZEMBRO DE 1808 FALLECEU A 1 DE DEZEMBRO DE 1868

TRIBUTO DE GRATIDÃO DE ETERNA SAUDADE QUE LHE DEDICA SUA INCONSOLAVEL FILHA GUILHERMINA

Anna das Neves ideara uma perspectiva de felicidades: viver os restantes annos em recatada pobreza, morrer mais desamparada que o irmão, e ser levada como quem remove um entulho ali para aquella sepultura onde se pulverisavam os ossos execrados do cego.

Estas felicidades não as gosa quem quer.

Um dia, a justiça, perseguindo Narcisa pelo roubo de uma coberta de fêlpo, soube que a Neves a mandara vender. A ordem de captura involveu-a como receptadora de roubos. Invadiram-lhe judicialmente a casa, e encontraram, para maior prova do crime, um açafate de maçãs camoezas, dois calondros e algumas batatas que Narcisa recolhera, de colheita aliás suspeitosa, nas lojas da casa da sua protectora. A irmã do cego foi capturada, e, sem fiança, encarcerada na lobrega enchovia de Famalicão. Dias depois davam-lhe a companhia de Narciza, que se entregara á prisão, arrojando a pistola, quando lhe disseram que a Neves estava preza. O juiz misericordioso condemnou-as a oito mezes de prisão, dado que os jurados as sobrecarregassem de crimes benemeritos de degredo perpetuo.

Cumprida a sentença, D. Anna das Neves Miquelina Monteiro vendeu a casa que o irmão comprára em nome d'ella. Com o producto d'essa venda transferiu-se, em 1872, ao Brazil, e levou comsigo Narcisa do Bravo. Parece que não tinha outros amores n'este mundo, e desejava expirar, como o irmão, nos braços d'ella.

E visto que não estamos dispostos a deixal-a morrer nos nossos braços, ó leitor, parece-me caridosa coisa que a não fulminemos com a nossa honrada raiva. Sou de opinião que sejamos inexoravelmente severos com os desgraçados e com as desgraçadas, quando elles e ellas repellirem a felicidade que lhes offerecermos.

S. Miguel de Seide--Julho de 1876.

IV

A MORGADA DE ROMARIZ

A

Francisco Teixeira de Queiroz

Auctor Da Comedia do Campo

POR

BENTO MORENO

Sauda com superior admiração e indelevel reconhecimento

_Camillo Castello Branco_.

A MORGADA DE ROMARIZ

I

Vi esta morgada, ha tres annos, em Braga, no theatro de S. Geraldo. Estava em scena _Santo Antonio_, o thaumaturgo. A commoção era geral. Tanto a morgada, como seu marido, o commendador Francisco José Alvarães, choravam, ás vezes; e, outras vezes, riam se.

Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras unctuosas e joviaes dos quarenta annos sadíos, seios altos e aflantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.

Riu-se a morgada quando aquelle Santo Antonio do seculo XIII recitou ás raparigas uma poesia madrigalêsca de Braz Martins,--bom homem que esteve quasi a regenerar o theatro nacional como elle deve ser. A poesia resava assim n'esta prosa innocente:

_Mimosa nasce a flor e vive ainda, Se arrancada não foi logo ao nascer; Assim a virgem nasce e vive pura, Se o vicio não trabalha p'ra perder_.

_Et coetera_, com a mesma uncção e musica.

A morgada sorrira-se para o marido; e elle, para mostrar que tambem percebera o chiste, formou um tubo com os beiços carregados de chalaças mudas, e disse com atticismo velhaco:

--Versalhada...

Ora, a morgada de Romariz, lagrimando com intelligencia na proza da oratoria, assim que algum personagem pegava de rimar, ria-se. Persuadira-se de que a missão dos versos era como a das cocegas. A natureza dera-lhe ao espirito aquelle feitio.

Remirei-a de esconso por sobre a espadua do esposo.

Ella bocejava nos entre-actos, até mostrar as campainhas; elle tosquenejava, e ás vezes, espriguiçando-se, grunhia:

--Estou massado.

--Podera...--obtemperava a esposa--a comedia bonita é... mas não ha nada como estar a gente na sua cama, Zézinho!

E dava tons lubricos ao diminutivo.

--Quem me lá dera...--volvia Alvarães deslocando as botas e dando folga e frescôr aos pés no aprazivel _tunel_ dos canos.--O polimento estorcéga-me os calos...--queixava-se com azedume.--Comedias... Ora adeus! Patranhas...

--Modos de vida, homem...

E abriram juntos as boccas spasmodicas.

--Ao menos se eu viesse ceado...--dizia elle.

--Fizesses como eu...

--Não me cabia cá...--e batia com os dedos dobrados no alto ventre como se faz ás melancias suspeitas.

--Já agora hemos de vêr a _scena da gloria_ que é o mais bonito...--opinava a esposa.

N'este comenos, visitou-os um meu conhecido de Famalicão. Ao erguer o panno, sahiu de lá, e entrou no meu camarote. Foi elle quem me disse o nome das duas pessoas, accrescentando:

--Ali, onde a vê, tem romance; dá materia para dois tomos...

--Picarescos? Não me servem... Eu quero philosophia: os meus leitores querem philosophia, percebe o senhor?

--É o que ella tem mais que dar.

--Ora essa!... O senhor sabe que ella tem isso? Queira apresentar-me...

--Deus me defenda... Eu disse á morgada que vossê era romancista...

--E ella que disse?

--Riu-se.

--Riu-se!? É boa... E o marido...

--O marido disse: Arreda!

II

Vejamos a philosophia que elles tem.

Melhor que uma estirada narrativa, desfigurada talvez pela imaginação do informador, li um processo que o sujeito me emprestou. Correra o pleito entre partes que litigavam em materia de casamento. Figurava uma donzella depositada judicialmente. O pai da nubente impugna, e allega que o pretendente a sua filha é um birbante de vilissima relé. O noivo, contrariando, expõe que o pai da sua futura e de origem tão canalha que, apezar de ser fidalgo da casa real, é filho de um salteador de estradas, _como é publico e notorio_, dizia o noivo, e accrescentava: «que não havia ainda vinte annos que o seu contendor exercitára o officio de fogueteiro em Villa Nova de Famalicão.» N'este conflicto, a depositada trancára o pleito vergonhoso acceitando outro marido que o pai lhe inculcou. A menina questionada era aquella morgada de Romariz, e o marido o commendador Alvarães.

Quanto a philosophia, este acontecimento pareceu-me assaz chôcho; eu pelo menos não lh'a encontrei, por mais que virasse do carnaz os personagens do processo. Louvei o procedimento da moça injuriada na pessoa do seu progenitor; mas o fermento de tal philosophia não me dava para levedar massa de cincoenta paginas. Abri mão do assumpto, e larguei-o ás imaginações florentissimas da minha patria. Porém, transcorridos dois annos, em um livro impresso em 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos. Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novella em que, por felicidade do leitor e minha, não ha philosophia nenhuma, que eu saiba.

III

Quando Villa Nova de Famalicão era um burgo de cem visinhos com um juiz pedaneo, sahiu d'ali para a côrte, em 1744, um rapaz de quinze annos, que principiára com seu pai officio de pedreiro. Assignava-se Antonio da Costa Araujo, escrevia limpamente e era esperto. Chamara-o a Lisboa um tio, mercador de pannos, estabelecido na Rua dos Escudeiros, que até ao terremoto de 1755 occupava parte do terreno hoje comprehendido na rua Augusta. Mathias da Costa Araujo, irmão do pedreiro, engraçou tanto com o sobrinho que, apezar dos poucos meios, mandou-o ás aulas dos jesuitas no pateo de Santo Antão, afim de o habilitar para clerigo, contra a propensão mercantil do moço. Mathias havia sido infeliz no commercio, e dizia que era máo modo de vida aquelle em que a prosperidade se desavinha da honra.

No 1.^o de novembro de 1755, o constrangido destino do estudante transtornou-lh'o a catastrophe em que seu tio pereceu debaixo da abobada da egreja de S. Julião, onde assistia ás missas dos fieis defuntos. Os seus medianos haveres armazenados devorou-lh'os todos o incendio. Ficou portanto em desamparo grande o estudante, e cuidou de amanhar sua vida, deixando arder sem saudade a grammatica latina do padre Alvares com os cartapacios correlativos.

Nicolau Jorge, mercador abastado, visinho e amigo do defuncto Mathias, condoido do sobrinho, chamou-o, ouviu-o discorrer a respeito da especie de mercadoria em que mais seguro negocio deveria tentar-se na crise do terremoto, e, applaudindo o, emprestou-lhe duzentas moedas de ouro. Leiloavam-se então, nas ruas e praças, fazendas avariadas por agua e fogo. Antonio da Costa Araujo arrematou por preço infimo fardos equivalentes ao seu avultado capital, pagando-os no mesmo acto com grande espanto do desembargador Torcilles, presidente das arrematações. Estabeleceu-se Costa Araujo no Campo de Santa Anna, e ganhou, no primeiro anno, com estas fazendas avariadas, doze mil crusados.[6] Volvidos seis annos, era um dos mercadores mais opulentos da côrte; morava no primeiro quarteirão da rua Augusta, á esquerda, indo do Rocio, e era geralmente conhecido pela alcunha de _Joia_. Tinha camarote effectivo na opera, banqueteava personagens de alta condição, recebia nos seus armazens a mais luzida sociedade de Lisboa com fidalga cortezia: chamava «joias» ás damas, e d'ahi lhe pegou a elle a alcunha desmaliciosa. Confluia ao seu balcão a flôr da cidade, por que ninguem o excedia na fina escolha dos atavios, no primor do gosto e em probidade de contractos. «Ali vinham--diz o coronel Francisco de Figueiredo--comprar-se os enxovaes para os grandes casamentos, o vestuario para todas as grandes funcções, de que houve muitas, entrando n'este numero os casamentos dos nossos soberanos, nascimentos de principes, os dias de annos de toda a real familia, e os trez dias das funcções da inauguração da estatua equestre do sr. rei D. José, o 1.^o de tão gloriosa memoria.»