Part 8
Estava lançado o dardo. Esta franqueza deu margem a discussões, nas quaes o cego e o Fayal descobriram entre os contendores os menos escrupulosos. Volvidos alguns dias, Pinto Monteiro tinha vendido os cincoenta contos de notas a um brazileiro da Maya, e era encarregado de agenciar cem contos para outros que o primeiro alliciara. N'esta transação cobrára o cego percentagem, e pedira sociedade no quinto dos interesses, com a clausula de dirigir no imperio a circulação da moeda-papel. Pactuaram a viagem para julho d'aquelle anno. Pinto Monteiro convencionou acompanhal-os, a fim de liquidar o restante dos seus haveres, dar impulso ao negocio e vir depois descançar na patria.
Depois de uma demora de dois mezes, Pinto Monteiro recebeu no Porto a infausta nova de que a açoriana, captiva das negaças de um hespanhol operador da catarata, fugira com elle para a Galliza. Bacorejou-lhe ao cego que estava roubado, e o palpite funesto realisou-se.
A quantia devia ser valiosa, por que o trahido amante suspendeu as obras começadas e desfez contractos apalavrados de compras. Ficou na memoria dos contemporaneos a respeito da perfida, uma palavra do cego, significativa de sua indole:
--Se o hespanhol levasse a mulher e me não levasse o dinheiro, penhorava-me bastante. Como me tirou as cataratas do coração, pagou-se por suas mãos o patife!
A opinião publica de Landim irritou-se quando soube que a fugitiva era simplesmente manceba do cego. A moral exigia que elle fosse marido, para não se desvaliarem os quilates do escandalo.
V
No mez aprasado, Pinto Monteiro regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua irmã D. Anna das Neves. Embarcaram no Porto com elle os amigos e socios grangeados no hotel. O brazileiro da Maya, comprador dos cincoenta contos, levava algumas pipas de vinho verde, e uma d'estas vasilhas havia sido fabricada, conforme o modêlo que dera o cego, e sob a fiscalisação de Amaro Fayal. No reverso das quatro aduelas do bojo pregaram um quadrado de madeira com chanfradura onde invasasse o rebordo de um caixote de flandres; a pregagem do quadrado ficava occulta debaixo de quatro dos arcos de ferro. O caixote continha duzentos contos em notas brazileiras, e era estanhado nas juncturas de modo que o liquido as não penetrasse, atravez de uma grossa capa de chumbo.
Chegados ao Rio, a carregação entrou nos armazens da alfandega, e Pinto Moreira com a sua familia hospedou-se em casa de Fortunato de Brito. Ao apontar o dia seguinte, os passageiros delatados pelo cego eram prezos; a pipa despejada e desfeita; e o caixote das notas conduzido ao tribunal para se lavrar aucto. Os quatro portuguezes morreram no degredo, perdidos os haveres que já tinham adquirido honradamente. Pinto Monteiro recebeu dez contos de réis, os 5% estipulados e deduzidos da preza.
O leitor vai descobrindo que eu não estou escrevendo um romance. Consta me que, no Rio, os homens que já o eram ha trinta annos, recordam estes factos com algumas miudezas que não pude obter nem já agora inventarei. Os meus apontamentos são exactissimos no summario das excentricidades do cego; mas escassos dos pormenores que eu rigorosamente quizera não omittir.
Aqui me contam elles os amores da morena filha de Landim com o chefe da policia. Este episodio poderia ser o esmalte do meu livrinho, se em um chefe de policia coubessem scenas de amor brazileiro, morbidas e somnolentas, como tão languidamente as derrete o sr. J. d'Alencar. Em paiz de tanto passarinho, tantissimas flores a recenderem cheiros varios, cascatas e lagos, um ceo estrellado de bananas, uma linguagem a suspirar mimices de sutaque, com isto, e com uma rêde--ou duas por causa da moral--a bamboarem-se entre dois coqueiros, eu mettia n'ellas o chefe da policia e a irmã do cego, um sabiá por cima, um papagaio de um lado, um saguí do outro, e veriam que meigas moquenquices, que arrulhar de rôlas eu não estylava d'esta penna de ferro! Mas eu não sei se me acreditariam coisas tão perigrinas entre o virginal Fortunato, chefe da policia, e ella, a menina Neves que já havia colhido as boninas de vinte e nove primaveras nas florestas do seu Minho, onde a maroteira é pre-historica.
Amores e desventuras de peor natureza nos levam a outro incidente, e ahi veremos que Pinto Monteiro fareja todos os latibulos em que se acoite algum crime, e não consente que a corrupção do seculo XIX ponha pé em ramo verde no novo mundo.
Certa carioca, esposa de um João Tinoco, portuguez, fizera assassinar com veneno o marido por um escravo: mas com tal resguardo que o conjugicidio não escoou dos muros da chacara onde ella impunemente se dava ás delicias de Agrippina. Isto de chamar Agrippina á viuva de João Tinoco é excesso de erudição. Ella não tinha idéa nenhuma de ser posta em parallelo historico com a envenenadora de Claudio; o que ella queria era que a deixassem gostar as alegrias da viuvez de um marido que entrara em casa de seu pae como aguadeiro; e, exaltado a esposo, a quizera forçar a fidelidades incombinaveis com o clima, desenvolvendo de mais a mais um excedente de calorico na esposa com o atricto do murro portuguez de lei.
Tinoco tivera um caixeiro que expulsara quando lhe descobriu capacidade para o adulterio, segundo informações de um marçano que vira piscarem-se reciprocamente os olhos direitos á sinhá e o caixeiro. Eis o fio que conduz o cego até ao thalamo infamado e d'ahi á campa do inulto João Tinoco. O assassinado tinha irmãos abastados no Rio. Pinto Monteiro revela-lhes que seu mano morrera de morte violenta, e, coberto de lagrimas, não podendo mostrar os intestinos dilacerados de Tinoco, como Antonio a tunica de Cesar, põe as mãos convulsas no ventre, e exclama:
--Despedaçaram-lhe as entranhas as agonias do arsenico! etc.
Fez terror.
Rugem vingança os irmãos; o cego dá vulto ás difficuldades das provas judiciarias; franqueiam-lhe dinheiro sem conta, e um grande premio, se a prova se fizer.
Vejam os profundos segredos do ceu! Os crimes obscuros quasi nunca é a lampada da virtude que os descortina; são sempre os cerdos que fossam e tiram á tona dos lamaceiros as podridões submersas.
Pinto Monteiro fez surdir á flôr da terra as podridões de Tinoco, e a toxicologia declarou que o homem morrera envenenado pela massa de Frei Cosme. Não vá o leitor cuidar que entra na novella um frade que manipulava massas homicidas. Não, senhor. A _massa de Frei Cosme_ é uma farinha saturada de arsenico.
A viuva não pôde defender-se, desde que a negra confessou que envenenára o amo em um timbal de borrachos, por ordem da senhora. Degradaram por toda a vida a ré convicta, privando-a dos bens herdados do esposo. Com a chacara preciosa foi galardoada a benemerita sollicitude de Pinto Monteiro--o vingador de Tinoco e da Moral, que eu sempre escreverei com o M maior que eu podér.
Fortunato de Brito, o chefe da policia, foi demittido por este tempo. Antonio José Pinto Monteiro resolveu repatriar-se. A denuncia dos moedeiros açulara-lhe muitos e poderosos mastins. A imprensa brazileira insultava a colonia portugueza pelo facto do crime e pelo facto do delator. A equidade foi estranha aos odios e injurias que golpearam Monteiro. Não lhe descontaram na perfidia as vantagens commerciaes que derivaram d'ella. Cessára o panico e o terror imminente de um cataclismo no credito e nas casas bancarias. A policia, allumiada pelo cego, sabia as veredas que em Portugal conduziam aos balancés. A gente honesta, e, o commercio honrado rejubilavam com a traição de Pinto Monteiro; mas, atidos ao velho proloquio onde não reluz faúla de philosophia pratica, execravam o homem que levara ás plagas do degredo os salteadores da probidade incauta.
Esta victima ainda não estava inscripta no martyriologio dos grandes lapidarios da civilisação.
VI
Os meus informadores, que mais privaram na intimidade de Pinto Monteiro, dizem que elle, no segundo regresso a Portugal, trouxera, além de secretario, dois filhos, que deixára no Porto a educar no collegio da Lapa, e uma filha ainda muito na flôr da mocidade. Da mãe d'estes meninos, que pouco ha vivia ainda nos arrabaldes do Rio de Janeiro, não ha nada romanesco; mas bem póde ser que houvesse da parte d'ella um profundo sentimento de dó com muitissima abnegação de si mesma; e no coração do cego com certeza houve extremoso amor de pai. Os tigres sempre tem, e os homens costumam ter ás vezes este sancto instincto de amarem os filhos.
Vinte e tantos contos prefaziam os haveres de Pinto Monteiro. Concluiu as obras principiadas, comprou terras, e dirigiu pelo tacto as bemfeitorias que fez no predio que habitava. Ha duas horas que eu estive a reparar, por cima do muro do jardim, na graciosa vivenda que elle enchera de luz como se um beijo do sol de agosto podesse descondensar a algida escuridão de seus olhos. Ali passaram alegres dias os seus convivas sob os caramancheis das parreiras. O grande prazer de Monteiro era dar banquetes opiparos.
Ouvia lêr as _Artes de cosinha_, conhecia Brillat-Savarin, enchia-se do fino sentimento dos guisados; e, apontando a petuitaria aos vapores das cassarolas, marcava quando era sobejo o cravo ou escasso o colorau. Fazia pensar se a vista, voltando-se para o interior, penetrava nos refêgos membranaceos o ideal do estomago! Se um cego illustre deplorava o perdido paraiso, outro cego parecia tel-o encontrado na cosinha.
Elle, que na America posera o cauterio á ladroagem, á falsificação das notas e ao adulterio aggravado pelo homicidio, não sabia como amordaçar a maledicencia dos seus conterraneos, se não occupando-lhes as linguas no trabalho da deglutição. A cada injuria que lhe chegava aos ouvidos, mandava comprar dois leitões.
--Mano Antonio, dizem que tu entregaste os ladrões ao chefe da policia--dizia a menina Neves.
--Dizem? pois, visto que não os posso entregar a elles, compra um peru e dá-lh'o ámanhã com recheio.
--Mano Antonio, agora dizem que denunciaste os da moeda falsa.
--Compra anhos e capões; attasca essas linguas em podim de batata, embola-m'os com almondegas, deita-lhes aziar de ovos em fio, afoga-lhes os escrupulos em vinho de 1815, menina.
E, depois, tinha outra paixão que o deliciava: arranjar casamentos.
Florecem hoje em Landim alguns cazaes de pessoas ditosas que elle ajoujou, vencendo estorvos á custa de engenhosas intrigas, e até de liberalidades de suas abatidas posses.
A filha de um cabaneiro, que se creava por sua casa, era o passa-tempo do cego. Chamava-se a Narciza do «Bravo»,--alcunha paterna. Até aos treze annos andava vestida de rapaz, e media-se com os mais gaiatos a trepar á grimpa de um pinheiro, no assalto nocturno ás cerejeiras, em duellos á pedrada, no jogo do pao e no murro. Era virilmente bella, e bem feita; mas os meneios adquiridos nos trajos de rapaz desengraçavam-na vestida de mulher. Ella mesmo olhava para si com zanga e puxava a repellões as saias esfrangalhando-se. Pinto Monteiro dava tento destes phrenesis, ria-se muito, e contava-lhe casos de mulheres portuguezas que batalharam incognitas, cobrindo os seios com arnez de ferro.
Estava no plano do cego cazal-a. Narciza dizia-lhe que não pensasse em tal, porque a primeira pirraça que o marido lhe fizesse, favas contadas, esmurrava-lhe os focinhos. Este programma não assustou Pinto Monteiro, visto que os focinhos ameaçados eram os do marido.
A rapariga foi pretendida extra-matrimonialmente por varios devassos de Landim, S. Thryso, e terras circumjacentes. A virago tinha perrixil do que morde nas linguas já embotadas; mas tambem tinha mãos nervudas e uns dedos nodosos que se fechavam em forma de box, assim que os pimpões lhe cantavam desafinados.
Um d'estes era um forte lavrador de Sequeirô, o Custodio da Carvalha. Apaixonou-se com a resistencia, e fallou-lhe serio em casamento. Narciza contou a passagem ao cego, que batia as palmas com vehemente jubilo, exclamando:
--Ó moça, aproveita antes que o rapaz se arrependa! Olha que elle colhe trinta carros, e é um bonacheirão... E que tal o achas de figura?
--Eu sei cá!...
--Tu gostas d'elle ou não gostas?
--Como se nunca nos vissemos.
--Então, não o conhecias ha muito tempo já?
--Nunca o vi mais gordo.
--Mas queres cazar com elle ou não?
--Tanto se me dá como se me deu; mas o padrinho diga-lhe que, se se faz fino commigo, eu pinto ahi a manta, que elle não sabe de que freguezia é. Eu não ponho unhas em foicinha nem sachola, ouviu? Não fui creada na lavoira. Se elle pega a mandar-me sachar milho ou cegar herva, temo'las armadas.
--Caza, que tu amansarás...--dizia o cego.
E cazou.
Monteiro deu-lhe magnifico enxoval, cordão, cabaças, anneis, broche; vestiu-se de fino panno; foi padrinho do casamento, banqueteou os noivos com muitos convidados, chamou a musica de Paiva de Ruivães, e queimou dez duzias de bombas reaes.
O marido sentiu as fascinações que enchem de delicias o inferno dos corações escravos. Ella manietou-o sem violencia de mau genio, com as suas caricias de gata que desembainha as unhas brincando. Folia rija! Romagens, quantas havia no Minho; festanças com tres clarinetes e requinta todos os domingos na eira; a Cana verde e o Regadinho saltado pelas maiatas mais frandunas; brodios e vinho, fasta fora. Comprou egua de marca, vestiu-se de amazona, e ella ahi ia com o marido corcovado, somnambulo, a chotar na mula esparavonada atraz d'ella por essas feiras e romarias. Ás vezes, se os moleiros não despejavam depressa os caminhos atravancados com os seus jumentos carregados de foles, verberava-os com o chicotinho, e chamava-lhes canalhas. Em questões com os visinhos, por causa de regas ou invasões de gado, fazia ameaças sanguinarias. Carregava as espingardas do marido e atirava aos gaios com pontaria infallivel. Quando soube que as senhoras do Porto usavam collete e gravata á laia de homens, exultou, como quem vê triumphar a sua idéa, e quiz vestir calções e botas á Frederica.
O lavrador, já no cairel do abysmo, vendidas as melhores propriedades, quiz reagir. Viu que tinha pela frente um virago de fibras. Afroixou por medo e por amor. O pusillanime vergava ao prestigio da força. Narcisa offuscava-o com a rutilante belleza do demonio, disfarçado na lendaria Dama Pé de Cabra, e n'outras damas que o leitor conhece com pés chinezes.
Dobados dez annos de vertiginosa dissipação, o lavrador resvalou do idiotismo á sepultura, amando ainda a mulher que vendera um lençol para lhe comprar a ultima gallinha. E Narcisa, viuva aos vinte e oito annos, e ainda formosa, atirou com a honra ás goelas do dragão da miseria, e não chorou uma lagrima.
Havia uma amiga que lhe dizia palavras dolorosas, com sincero dó: era a irmã do cego. Pobre Neves! quem te predisséra o supplicio dos teus derradeiros annos, ligada ao destino da mulher que tu crearas com maternal ternura!...
VII
Entretanto, o padrinho de Narcisa não escarmentava no sestro de casamenteiro; é certo porém que similhantes casos assim funestos, não se repetiram nas suas operações matrimoniaes. Por esse tempo, casou elle a filha com diminuto dote, e abriu a carreira do sacerdocio a um filho, que outras vocações depois afastaram da egreja. Os seus teres, com judiciosa economia, seriam bastantes á decencia aldeã; porém, privar-se da mesa farta e franca, era privar-se de amigos que lhe festejassem as anecdotas. Pinto Monteiro, no dia em que falisse de auditorio, começaria a morrer no abafador silencio da cellula penitenciaria.
Empobrecia rapidamente: mas dava a perceber que a philosophia de Job é a ultima moeda com que o homem decahido compra a resignação e a gloria eterna, _par dessus le marché_ dizia elle.
Amaro Fayal, confidente dos secretos desfalques do patrão, pensou em retirar-se para o Brazil, visto que não tinha secretaria para fiscalisar, nem desprendimento tamanho que acceitasse outra vez o officio de moço de cego.
É aqui o logar de repetir litteralmente uma accusação que todos os meus informadores, sem discrepancia, irrogam ao cego de Landim:
Um lavrador da Lamella, induzido por Pinto Monteiro, vendeu as suas herdades por alguns contos de réis, a fim de ir negociar no Brazil e centuplicar o seu dinheiro. Sahiu Monteiro com destino ao Rio, levando em sua companhia o lavrador. Passados dias, apparece em Landim o cego, fingindo-se doentissimo, e diz que o seu companheiro embarcara, e elle retrocedera forçado pela molestia. Ora, do lavrador nunca mais houve noticia; mas, no governo civil de Lisboa, fôra visado o passaporte de José Pereira da Lamella, e o mesmo nome inscripto na lista dos passageiros. Isto não obstante, o cego era accusado de haver matado em Lisboa o lavrador, não podendo roubal-o por maneira mais suave; e a certeza confirmou-se quando parentes que o Lamella tinha no Rio, perguntados a tal respeito, responderam que nunca viram tal homem, nem, depois de chamado pela imprensa de todas as provincias, apparecera. Asseveravam, porém, que um nome similhante se lia na lista dos passageiros desembarcados no Rio, no mesmo navio e mez em que de Portugal se informava que elle partira.
Seria mais natural suppor que José Pereira morrera obscuramente em alguma rossa; mas á calumnia pareceu mais romantico decidir que o cego o matára.
--Como presumem os senhores que o cego matasse o lavrador?--perguntei.
--Não sabemos; mas o mais provavel é que o atirasse ao rio quando o bote ia para bordo da galera.
Esta era e é a opinião corrente. Pelos modos, o cego, em pleno sol do Tejo, na presença dos barqueiros, alijou o passageiro ao rio, e fez remar para terra o bote com a bagagem do morto; depois, saltou no Caes das Columnas com a mala do dinheiro debaixo do braço, e ás apalpadellas lá se foi pacificamente caminho de Landim.
Corre parelhas em maldade e estupidez esta aleivosia, é certo; mas o lavrador, de feito, fôra assassinado em Lisboa.
Agora, posto que tardia, ahi vem a rehabilitação de Antonio José Pinto Monteiro.
Quem induzira o lavrador da Lamella a vender as terras foi Amaro Fayal, offerecendo-lhe sociedade em negocio que rendia 200%. O Pereira da Lamella era calaceiro. O trabalho agricola pezava-lhe: as suas terras, avaliadas em cinco contos, rendiam escassamente o passadio grosseiro do lavrador minhoto. Calculou, firmado na prova mathematica das cifras de Amaro, que, ao fim de cinco annos, devia ter cinco contos dez vezes multiplicados. É claro: 200%--5 vezes 10--50 contos. Vendeu as terras e partiu com o ex-secretario do cego. Pinto Monteiro, sinceramente affeiçoado ao seu confidente de vinte annos de varia fortuna, acompanhou-o até ao Porto, e d'ali voltou para Landim algum tanto enfermo, e ás pessoas que lhe perguntavam pelo Pereira da Lamella respondia naturalmente que tinha embarcado. Dava-lhe, porém, que scismar não estar o nome de Amaro Fayal na lista dos passageiros.
O leitor já descobriu que o assassino do lavrador foi Amaro; que o passaporte do morto serviu para o matador; mas ignora os pormenores do crime, e eu tambem os não sei.
Passados annos, um correspondente de gazeta escrevera o essensial da calumnia que assacava o homicidio ao cego. O delegado de Villa Nova de Famalicão, Soares d'Azevedo, e advogado de Pinto Monteiro em diversas demandas, aconselhou-o que justificasse a sua innocencia n'este crime que lhe imputavam, porque deixal-o á calumnia e á revelia era arriscar-se a perder todos os seus pleitos. O cego, com a lucida intuição de quem tinha longa pratica de crimes tenebrosos, explicou a morte do lavrador, comprovando-a pelas circumstancias do passaporte, pela omissão do nome do homicida na lista dos desembarcados no Rio, e pela certeza que lhe deram de Amaro Fayal ter morrido poucos dias depois que chegára, no hospital, com o roubo ainda intacto, segundo vira na noticia dos espolios dos fallecidos. Replicou-lhe o delegado que semelhante justificação era insufficiente: o cego redarguiu que não tinha outra, nem essa mesma daria, se Amaro Fayal fosse vivo, por que no seu braço se amparara vinte annos, vinte annos vira pelos olhos d'elle, e mal remunerado o despedira, sem que o seu guarda-livros murmurasse da mesquinhez da paga.
VIII
Em 1858 o cego, escasso de posses, escorregava na ladeira da pobreza. Havia vendido ou hypothecado as terras. Perdera demandas valiosas: parece que em quasi todas influiu a sua má nota a desculpar a injustiça. Duas quintas lhe foram extorquidas com tão estranho desafôro, que é mister acceitar-se intervenção de jurisprudencia divina para que o homem as perdesse, pois é de crêr que as adquirisse com dinheiro deshonrado. Dizia elle que viera encontrar em Portugal especies de ladrões fleugmaticos e frios, que não topara nos climas quentes; e que o larapio luso-brasileiro era francamente analphabeto e lerdo, ao passo que o ladrão, extreme e puramente luso, era, por via de regra, além perverso, bacharel formado. Alludia a dois adversarios jurisconsultos que eu escondo á curiosidade do leitor, por que me sustém o pulso um quasi religioso respeito á memoria honesta de Paiva e Pona, e tambem de Pêgas.
Com as ultimas moedas, abriu Pinto Monteiro um botequim em Famalicão, faz hoje dezesete annos. A villa, n'esse tempo, estava na apojadura das suas prosperidades. Choviam ali brazileiros que nem maná nos areaes da Mesopotamia. Dos paúes alagadiços irrompiam casas de azulejos variegados. Villa Nova era o centro da locomoção do Minho, da mercancia agricola, da _villegiatura_ dos portuenses; mas não tinha o «café»--a prova real da civilisação.
Pinto Monteiro contava com as leis do progresso; porém, Villa Nova que hoje, na extrema decadencia, tem tres «cafés» com dois limões sorvados e tres garrafas de licor de canella, em tempos florentissimos não sustentou o botequim do cego em que havia cognac, coraçáo, chartreuse, kermann e absintho. É porque, ha dezesete annos, o progresso material desconhecia a precisão dos «cafés», paragens d'uns ociosos que se putrificam, raça amollentada no sybaritismo da cerveja de quartola, com grandes orgias de cigarros de Xabregas.
O cego apenas vendia algum capilé aos vigarios encatarroados e orchatas aos adiposos. A ruina ia consummar-se e o botiquim fechar-se, quando chegou á villa, e se hospedou no hotel um brazileiro doente vindo do Rio com sua esposa. Pinto Monteiro conhecia de nome o enfermo.
Visitou-o e acompanhou-o nos desalentos da cachexia, animando-o ou distrahindo-o com a sua variada e jovial conversação. Alvino Azevedo affeiçoou-se-lhe a ponto de, chegado ao termo dos soffrimentos, lhe confiar sua mulher, pedindo-lhe que a protegesse e guiasse na administração dos seus haveres. A esposa do enfermo estava um pouco longe da idade em que as viuvas correm perigo, se as não vigiam: tinha setenta annos feitos, e já não conservava toda a frescura das suas dezoito primaveras nem os dentes completos. Os dons do espirito não eram transcendentes nem talvez bastantes para seduzirem outro marido: D. Joanna Tecla era idiota.
O cachetico expirou nos braços do cego, despedindo-se da esposa com uma olhadella cheia de saudades, e talvez de esperanças no paraizo de Mafoma; em que as mulheres velhas remoçam. Ella chorou copiosamente, e declarou que aquelle morto era o terceiro marido que lhe fugia para o ceo. Elles tinham tido razão em fugir todos.
D. Tecla passou para casa do cego com todo o resguardo da sua pudicicia, acompanhada pela mana Neves.
Passados os tres dias de nôjo, perguntou-lhe Pinto Monteiro se queria voltar ao Brazil, sua patria, ou ficar em Portugal, recebendo os rendimentos dos seus predios no Rio. A viuva respondeu que a sua posição era muito melindrosa; que uma senhora não podia ir sósinha para tão longe; que o mundo estava cheio de homens mal creados que mediam tudo pela mesma raza; que não queria sujeitar-se a algum desaguisado por essas terras de Christo; que em fim, não ia para o Brazil sem ter familia muito honesta com quem fosse.