# Novelas do Minho

## Part 7

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/novelas-do-minho-21406/index.md

A felicidade de Maria era santa: custára vinte annos de affrontas soffridas com paciencia, sem revolta contra a implacavel barbaridade do pai, nem contra a immobilidade das forças divinas. Esperara em Deus, esperara sempre. Dizia ella que sonhara aquillo mesmo--a vinda de Belchior, e a restauração da sua honra.

Contava-o ella ao abbade, e ao esposo, e ao filho, á porta do templo: e elle, o ancião, com as rugas da face luzentes de lagrimas, dizia:

--Fui eu quem vos baptisou, e quem vos casou, meus filhos. Agora, enterrai-me vós que eu não tenho ninguem.

* * * * *

Belchior Bernabé exigiu como dote de sua mulher o estabulo dos bois edificado sobre os alicerces da caza onde fôra recolhido e aquecido ao seio da tecedeira. Ali, onde foi cabana de candura e oração, está hoje um palacete com as mesmas coisas divinas, accrescentadas pela felicidade do amor. Vê-se de longe o palacio do commendador Belchior; e lá ao pé, no interior do palacio, as pompas da architectura e das decorações desapparecem deslumbradas pelo que ha de immortal nas obras humanas: a virtude. Lá está o abbade resignatario de Santa Maria entrevado: mas todas as manhãs é transferido da cama para a cadeira que lhe fez o seu Belchior Junior, aquelle rapaz, que não resiste á vocação de carpintejar, e está fabricando uma nova cadeira de rodas e molas para o seu velhinho.

FIM

III

O CEGO DE LANDIM

_Ao Visconde de Ouguella_

Sejamos amigos como foram nossos pais, e deixemos a nossos filhos o exemplo que recebemos

O CEGO DE LANDIM

I

Foi ha treze annos, em uma tarde calmosa de agosto, neste mesmo escriptorio, e n'aquelle canapé, que o cego de Landim esteve sentado. São inolvidaveis as feições do homem. Tinha cincoenta e cinco annos, rijos como raros homens de vida contrariada se gabam aos quarenta. Resumbrava-lhe no semblante anafado a paz e a saude da consciencia. Tinha as espaduas largas: cabia-lhe muito ar no peito; coração e pulmões aviventavam-se na amplidão da pleura elastica. Envidraçava as pupilas alvacentas com vidros esfumados, postos em grandes aros de ouro. Trajava de preto, a sobrecasaca abotoada, a calça justa, e a bota lustrosa; apertava na mão esquerda as luvas amarrotadas e apoiava a direita no castão de prata de uma bengala.

Eu não o conhecia quando me deram um bilhete de visita com este nome--ANTONIO JOSÉ PINTO MONTEIRO.

Em S. Miguel de Seide, uma visita, que se fizesse preceder do seu cartão, era a primeira.

--Quem é?--perguntei ao creado.

--É o cego de Landim.

--E esse cego quem é?

O interrogado, para me esclarecer superabundantemente, respondeu que era o CEGO, como se se tratasse de um cego por excellencia e de historica publicidade: Tobias, Homero, Milton, etc.

Mandei que o conduzissem ao meu escriptorio. Ouvi passos que subiam rapidos e seguros uns doze degráos: e, no patamar da escada, esta pergunta muito sacudida:

--Á esquerda ou á direita?

--Á esquerda--respondi, e fui recebel-o á entrada.

Estendeu-me firme dois dedos, e desfechou-me logo em estylo de presidente de camara municipal sertaneja ás pessoas reaes, uma allocução á minha immortalidade de romancista, lamentando que eu ainda não tivesse em Portugal uma estatua... equestre; parece-me que elle não disse estatua equestre. Achei-lhe rasão. Eu tambem já tinha lamentado aquillo mesmo; porém, cumpria-me regeitar modestamente a estatua, como o duque de Coimbra, agradecendo a virginal lembrança do sr. Pinto Monteiro.

--Tenho ouvido ler os seus livros immortaes--disse elle--Não os leio porque sou cego.

--Completamente?--perguntei, parecendo-me incompossivel a cegueira absoluta com a segurança da sua agilidade nos movimentos.

--Completamente cego, ha trinta e trez annos. Na flôr da idade, quando saudava as flôres da minha vigesima segunda primavera, ceguei.

--E resignou-se...

--Se me resignei!... Morri de dôr, e resuscitei em trevas eternas... O sol, nunca mais!

Pungia-me a compaixão. Disse-lhe consolações banaes; citei os mais luminosos cegos antigos e recentes. Nomeei-lhe o principe da lyra peninsular, Castilho, e elle atalhou:

--Castilho tem o genio que vê as coisas da terra e do ceu. Eu tenho as duas cegueiras do corpo e da alma.

Achei-o eloquentemente sobrio e áttico; figurou-se-me até litterato dos bons. Lembrei-me se elle vinha convidar-me para fundarmos um jornal em Landim, ou se viria pedir-me para o propôr socio correspondente da academia real das sciencias.

Discretiamos de parte a parte em variados assumptos, até que elle explicou as suas pretenções. Tinha um litigio pendente sobre a posse disputada de umas azenhas que lhe haviam custado tres contos de réis, e pedia a minha valiosa preponderancia afim de que os juizes de segunda instancia lhe fizessem justiça inteira.

Observei-lhe que a minha influencia poderia ser-lhe necessaria, se a justiça estivesse da parte do seu contendor; por quanto, quem não tem justiça é que pede.

--Apoiado!--interrompeu elle--A razão diz isso; mas acontece que o meu contendor pede porque não tem justiça; ora não vão os juizes cuidar que eu tenho mais confiança na lei do que n'elles...

Pareceu me sagaz, argucioso e um pouco germanico o cego.

Deu-me quatro memoriaes, accendeu o terceiro charuto, e ergueu-se. Acompanhei-o até ao portão, e vi-o cavalgar com garbo quasi marialva uma vistosa egua, passar as redeas falsas pelas outras com destreza, esporear e partir sósinho.

* * * * *

Ora, o cego perdeu a demanda das asenhas por que as asenhas não eram perfeitamente d'elle, e eu não podia pedir aos desembargadores que as tirassem ao dono e m'as dessem a mim para eu as dar ao cego.

Nunca mais o vi. Retirou-me a admiração e mais a estatua. E, cinco annos depois, morreu.

A historia dos homens descommunaes deve começar a escrever-se á lampada do seu tumulo. Á luz da vida tudo são miragens nas acções dos heroes e estrabismos na contemplação dos panegyristas. É tempo de bosquejar o perfil d'este homem esquecido, e quem quizer que o tire a vulto em marmore mais presistente. Pretendo desmentir os aleivosos que reputam Portugal um alfôbre de lyricos, romancistas salobros de amoríos de aldeia, porque não temos personagens bastantemente succulentos de quem se espremam romances em 4 volumes.

II

Nascera em Landim em 11 de dezembro de 1808.

1808! Os biographos portuguezes, se escrevem de pessoa nascida n'aquella data ou por perto, relatam-nos derramadamente a revolução franceza a começar em Luiz XVI, exhibem a guerra peninsular, e concluem o curso de historia moderna ligando fatidicamente á evolução social o nascimento d'aquelle sujeito.

No anno 1808, uma das muitas pessoas que nasceram sem pesarem um escropulo, pelo pezo velho, na balança dos lusos destinos, foi aquelle Antonio José Pinto Monteiro.

Seu pai barbeava em Landim com ferocidade impune. A espada de Affonso Henriques e as navalhas d'elle tem tradições sanguinarias. Ainda hoje, transcorridos setenta annos, os netos dos seus freguezes parece que herdaram a sensação dos gilvazes dos avós. Em Landim falla-se d'elle como de Torrequemada em Valhadolid. Aquelle barbeiro é uma lenda como a de Gerião, assassinado por Hercules, e a do monstro de Rhodes cantado por Schiller.

Antonio, o primogenito d'este esfolador, estudou primeiras lettras com rara esperteza. Aos onze annos, era prodigio em taboada e bastardinho. Aos doze, imitava firmas com perfeição despremiada, e vingava-se do menospreço em que o estado o esquecia, estabelecendo correspondencias entre pessoas que não se correspondiam, mediante as quaes, uma vez por outra, agenciava alguns pintos.

Como talentos taes não se atabafam muito tempo debaixo do alqueire, o rapaz soffreu algumas contuzões. Um monge benedictino de S. Tyrso compadeceu-se do moço, em tão verdes annos perdido, á conta da sua habilidade funesta: pagou-lhe passagem para o Brazil, porque sabia que os ares de Sancta Cruz são como os do Eden para refazer innocentes.

Empregou-se como caixeiro no Rio. Foi estimado nos primeiros trez annos. Estremava-se dos seus broncos patricios no dom da palavra, nas lerias aos freguezes, nos ardis licitos do balcão, nas ladroices consuetudinarias que affirmam a vocação pronunciada, as quaes, no calão da optica mercantil, se chamam: «lume no olho.» Nas horas feriadas, lia applicadamente e tangia violão. A sua especialidade litteraria era a eloquencia tribunicia. Estudara francez para ler Mirabeau e Danton. Enchera-se d'elles, e ensaiava republicas federalistas com os caixeiros, pedindo cabeças de reis a uns pobres parvajolas que suspiravam apenas por cabeças de gorazes.

Os patrões não farejaram um acabado Robespierre no caixeiro; mas, como desconhecessem a vantagem da apotheose dos girondinos em uma loja de molhados, expulsaram-no como republicano.

Pinto Monteiro intrommetteu-se na politica brazileira, iniciou-se na maçonaria em 1830, fez discursos vermelhos contra o imperador e escreveu clandestinamente. Esteve assim na fronteira do paiz promettido aos eternos Paturots. É indeterminavel o estadîo que elle ganharia, se um militar imperialista lhe não cortasse o rosto com um latego. Uma das tagantadas contundiu-lhe os olhos. Pinto Monteiro cegou.

III

Reagiu ao desastre com peito de ferro. Menos rija alma ingolphara-se na espessura da sua treva. Elle não. Pediu ao inferno luz emprestada para entrar na vareda das suas victimas. Accendeu interiormente, no carcere do seu espirito, a lampada do odio. A vingança leval-o-hia pela mão, como Malvina ao cego de Macpherson. Perdoa-me a comparação, ó bardo caledonio!--que eu já vi Marat comparado a Jesus Christo.

Quando lhe deram alta na barra da enfermaria, pediu o seu violão, sahiu ás praças, preludiou e cantou umas trovas com arpejo triste, ás portas dos argentarios e dos taverneiros. As trovas faziam saudades da patria, e a musica gemia as toadas dos lunduns do Minho. Os ouvintes contemplavam-no com dó e davam-lhe esmolas avultadas para regressar a Portugal, ao ninho seu. Tinha elle um moço: era portuguez ilheu, alguns annos mais novo. Levara-o a doença, a podridão do vicio á mesma enfermaria; e a penuria e o instincto vincularam-no ao cego. Chamava-se Amaro Fayal; mas os que lhe conheciam as prendas corrompiam-lhe o appellido, e chamavam-lhe o Amaro _Faiante_. Pessoas escassas de caridade indulgente diziam que a maldade do cego e os olhos do moço completavam dois refinados maraus.

Pinto Monteiro trajava limpamente, banqueteava-se á proporção, e dulcificava os confortos cazeiros com o amor de uma aventureira mal prosperada como tantas que o archipelago açoriano exportava consignadas aos Cressos da rua do Ouvidor, que pachalisavam nas chacaras da Tejuca. Creara uma sociedade nova. Acercara de si toda a vadiagem suspeita, os ratoneiros já marcados com o stigma da sentença, os mysteriosos, famintos sem occupação, negros e brancos, não topados ao acaso, mas inscriptos nos registros da policia, e afuroados pela sagacidade de Amaro Fayal. Tinha lido as _Memorias de Vidocq_,--o celebrado chefe de policia de Paris. Encantara-o a equidade do governo que elevara Vidocq, o ladrão famoso, áquella magistratura: por que elle, por espaço de vinte annos, exercitara o latrocinio e grangeara nas galés os amigos que depois entregava á grilheta.

Pinto Monteiro organisou a bohemia que, até áquelle anno, roubando sem methodo nem estatutos, exercitara a ladroeira d'um modo indigno de paiz em via de civilisação. Fez-se eleger presidente por unanimidade e nomeou seu secretario Amaro Fayal. Havia um proposito quasi heroico n'este feito, como logo veremos. Investido d'esta presidencia incompativel com as artes lyricas, depoz o violão, e, á semelhança do poeta latino, immudeceu os cantares, _tacuit musa_. Sentia-se no congresso uma alma nova, cheia de fomentos e apontada a rasgar horisontes dilatados.

Quem ouvisse discursar o presidente sociologicamente, ficaria em duvida se furtar era sciencia ou arte. Pinto Monteiro enxertava nas suas prelecções sobre a propriedade umas vergonteas que depois enverdeceram com estylo melhor nas theorias de Cabet. Os malandrins mais intelligentes, depois que o ouviram, desfizeram-se de escrupulos incommodos, e entre si assentiram que não eram ladrões, mas simplesmente desherdados pela sociedade madrasta, e victimas d'uma qualificação já obsoleta. A terminologia do livro 5.^o das Ordenações em um paiz joven, exhuberante, e que tem o sabiá e o côco, era uma anomalia.

D'esta arte organisada a quadrilha, sob a influencia auspiciosa de um cerebro pensante, os cidadãos eram roubados mais artisticamente; na empalmação dos relogios conhecia-se que havia ideas de physica, de mechanica, de equilibrio, de dynamica e sciencias correlativas. Os alumnos da reforma parecia collaborarem no _Manual do prestidigitador_ de Roret, e abandonavam como archaismo aos poderes publicos a _Arte de furtar_ de quem quer que seja.

A sociedade prosperava a olhos vistos, posto que o prezidente não tivesse olho nenhum:--N'esta independencia dos orgãos de relação prova a alma a sua immortalidade. Foi então que Pinto Monteiro e o secretario, munidos dos livros de registo e de toda a escripturação, se apresentaram ao chefe da policia Fortunato de Brito.

Eis aqui a reputação de um homem sacrificada á extirpação do crime. Os Codros e os Curcios, na restauração da moral publica, fazem isto.

O chefe da policia conveio nas propostas de Pinto Monteiro, que estatuira conservar-se na confidencia dos ladrões e delatar a paragem dos roubos quando no descobril-os redundassem á policia creditos e interesses. O cego esclarecera Fortunato sobre a organisação do funccionalismo policial em Paris, ensinara-lhe alvitres ignorados, e promettia auxilial-o n'um ramo ainda mal cultivado no Brazil--a espionagem politica.

Surtiu os previstos resultados a perfidia. Os larapios mais soezes eram arrebanhados para a casa da correcção; mas os ladravazes mais ladinos poupava-os o presidente para não perturbar de improviso o equililibrio do cosmos. É necessario que haja escandalos, diz o Evangelho.

Como agente secreto de policia recebia do cofre do estado; como chefe da «Associação dos desherdados», auferia o seu quinhão do peculio commum, afora as forragens da presidencia, etc.

Este periodo da vida do cego durou cinco annos; as duas rendas sobejavam-lhe á fartura do passadio; principiou Monteiro a engrossar o peculio, quando a delator e agente ajuntou o estipendio de espião.

Voltando ás antigas camaradagens politicas, fallou nas sociedades secretas com exacerbada virulencia; e, victima do dispotismo militar, mostrava os olhos estoirados e baços com a dolente magestade do general Belizario, vencedor dos hunos.

Constou ao governo que Pinto Monteiro ousára pedir um Cromwell de quem elle cego fosse o Milton. A comparação seria modesta, se não fosse sanguinaria. O governo brazileiro, com a subtileza propria dos cerebros formados com tapioca e ananaz, intendeu que o pescoço do sr. D. Pedro II era ameaçado pelo cego com a tragedia de Carlos Stuart.

A Fortunato de Brito foi ordenado que vigiasse e processasse o sedicioso cego. Intalação! O chefe de policia foi explicar ao seu ministro que os discursos de Pinto Monteiro eram boízes armadas a passaros bisnáos de mais alta volateria. O conflicto remediou-se prescindindo o espião da oratoria, e attendendo sómente a seguir o rastilho das revoluções urdidas no Rio, para rebentarem nas provincias.

Como em meio de tanta lida ainda lhe sobrava tempo, Monteiro ensaiou por sua conta, e sem auxilio da malta, uma reversão de propriedade, termos adquados á sua qualidade de desherdado.

Havia morrido um carroceiro quando, avençado com o cego, experimentava a sua fortuna em aventuras de moeda falsa, mandando abrir os cunhos no Porto.

A cidade da Virgem tem tido filhos de raro engenho na gravura; mas os seus concidadãos, desamoraveis com as graças do buril, crearam á volta d'elles uma atmosphera fria de desalento, e no pedestal em que os sonhadores, como Morghen e Bartolozzi, entreviram a gloria a offerecer-lhes umas sopas de vaca, o menospreço publico poz-lhes a fome. Seria bonito para o martyrologio da arte que os honrados alumnos da Academia das bellas-artes se deixassem perecer de anemia; porém, as poderosas reacções do estomago impulsaram-nos a acceitar o unico lavor que se lhes offerecia: abrir cunhos de moeda. Este ramo das artes imitativas floriu no Porto como planta indigena, a termos de haver ali trabalhos excellentes e muito em conta. Já se conheciam os gravadores portuenses como hoje se conhecem os capellistas da rua de Cedofeita:--_o primeiro barateiro, o rei dos barateiros, o barateiro sem competidor_. Faziam-se notas a 5% quando a arte estava no berço, ainda timorata; depois, á medida que a prosperidade das emprezas internacionaes augmentava o pedido, os bons artistas davam de mão aos brazões dos sinetes, ás chapas dos portões e ás firmas dus anneis; e, rivalisando-se no primor e na barateza da obra, já davam um conto de notas falsas por dez mil reis sinceros.

Era este o preço da dezena de contos que o carroceiro mandara comprar por intermedio de Pinto Monteiro, e não chegara a receber, atalhado pela morte. Deixára, porém, segredado á viuva que se entendesse com o seu amigo Monteiro, quando lhe entregassem a encommenda.

Não sei se estas notas eram parte de uns tresentos contos que por esse tempo sahiram do Porto para o Brazil dentro da imagem do Senhor dos Passos. Não averiguei as profanações que se deram n'essa remessa; o que sei é que a viuva avisou o cego; e que, no mesmo dia do aviso, o chefe da policia colhia de sobresalto a viuva, escondendo o rolo das notas entre o guarda-infante e a parte subjacente que ella julgava intangivel aos contactos brutos dos esbirros.

Levada a interrogatorios, foi pronunciada; mas, desde que ella entrou no carcere, Pinto Monteiro, consternado até ás lagrimas, assistiu-lhe com a mais desvelada bemquerença, constituindo-se seu procurador.

Esta mulher herdara a independencia. Gemeu em ferros seis annos cumprindo a cummutação d'uma sentença que a condemnava a degredo para a Ilha de Fernando. Essa commutação custara-lhe o restante dos seus haveres, absorvidos pelo cego de Landim. Quando sahiu do carcere, e se viu roubada pelo amigo de seu marido, e reduzida a mendigar, denunciou ao chefe da policia a cumplicidade de Monteiro no negocio das notas. Fortunato de Brito conveio que o seu agente era infame maior da marca: mas fazia se mister que tivesse aquelle tamanho para dar pela barba á corpolencia da corrupção. O cego de Landim gosava a inviolabilidade de mal necessario.

A extorsão feita á viuva divulgou-se e acerbou os antigos odios contra Pinto Monteiro. De mais a mais, elle tinha offendido o espirito dos estatutos, que eram obra sua. Os consocios acharam irregular e menos honesto que o seu presidente levasse o egoismo á extremidade de reivindicar só para si direitos de propriedade commum. Toda a propriedade alheia era d'elles todos, pelos modos. Alguns d'estes, mais penetrantes, incutiram no phalansterio a suspeita de que o chefe tivesse intelligencias com a policia. Um mulato de grandes brios, notavel capoeira, e muito summario nos processos d'aquella especie, fez lampejar o aço da sua faca e declarou que ia anavalhar o redenho do cego.

Quando esta scena tumultuaria se passava na taverna do João Valverde, na rua do Catête, Pinto Monteiro e Amaro Fayal já estavam a bordo da galera _Tentadora_, que velejava para o Porto.

IV

Em setembro de 1840 appareceu em Landim Pinto Monteiro e o seu chamado guarda-livros. Acompanhava-os a açoriana, intitulada honorificamente esposa do cego. Era uma mulher desnalgada, sardenta, ruiva, alta e possante, com bretoejas rosaceas na testa, e um caracol de barba no queixo inferior. Galhardeava _moírées_, calçava botas verdes, e trazia uns merinaques que rugiam como as cavernas dos ventos.

Pinto Monteiro alugou casa em quanto reedificava outra sobre o casebre de seus pais. O guarda-livros dizia com certo resguardo que o patrão era muito rico. Convergiram logo das freguezias circumvisinhas bastantes cavalheiros a visital-o, uns porque haviam sido seus condiscipulos na escola, outros por parentesco não remoto.

O cego banqueteava os seus hospedes com iguarias incognitas apimentadas por cosinheiras negras. Os commensaes, gente saturada de vegetaes e milho, comiam á tripa fôrra, e levavam em si d'aquella mesa lauta raras indigestões, muitas saudades e copia de vinhos. O cego tinha uma irmã dez annos mais nova, que surgiu com bandós, dom e espartílhos d'entre um balão da cunhada. Fallou-se do casamento da moça, dotada pelo irmão com dez contos. Os morgados já corveteavam os seus pôtros por Landim, e de longes terras vinham propostas de casamento, por intermedio de padres e beatas. A rapariga, que eu conheci a encanecer na decadencia dos cincenta annos, devia ter sido uma trigueira sanguinea com as mordentes graças das sobrancelhas travadas, e negras como a pennugem do bigode.

Pinto Monteiro passava temporadas no Porto com Amaro Fayal. Era ali que elle cumpria a mensagem a que fôra enviado pelo chefe da policia fluminense. Viera, sob condições estipuladas, relacionar-se com os exportadores de moeda-falsa, e estatuir, de harmonia com os interessados, bazes organicas e auspiciosas para negocio menos precario. O resultado, previsto pelo cego e applaudido por Fortunato de Brito, era a policia conhecer no imperio brasileiro os cumplices dos agentes que residiam no Porto, e, de uma vez para sempre, abranger em rede varredoira os principaes.

Conseguira captar a confiança dos dois gravadores mais habilidosos e conhecidos alem-mar; mas um d'elles, Coutinho, o ancião que eu vi morrer na enfermaria da Relação em 1861, não delatou as pessoas com quem negociava, posto que o cego lhe garantisse uma velhice abastada nos confortos da honra. O outro artista, que morreu rico, apezar de se ter remido da cadeia á custa de dezenas de contos, tambem não denunciou os seus freguezes; mas convidou o cego a mercar-lhe _au rabais_ uns cincoenta contos, resto da ultima edição.

E o cego comprou-os.

Em 1841, a hospedaria dilecta dos brazileiros de profissão (distingam-se assim dos brazileiros do Brazil) era a do Estanislau na Batalha. Ali havia a sem ceremonia do chinello de liga á meza-redonda; os collarinhos arregaçados deixavam arejar as pescoceiras rorejantes de suor, que se limpavam aos guardanapos; cada qual podia comer o arroz com a faca e o talharim com o garfo; a laranja era descascada á unha, e os caroços das azeitonas podiam ser cuspidos na meza, bem como as esquirolas do pernil do porco desentalladas a palito das luras dos queixaes. E era até de direito commum cada qual caçar de _guet-apens_ a importuna mosca na cara e decapital-a publicamente. Estava-se ali á vontade, como nos jantares de Peleu e Patroclo, com um grande estridor de mastigação e arrôtos.

O cego hospedava-se no _Estanislau_, e dizia ao secretario:

--Estamos com a nossa gente, Amaro amigo.

A idade, a compostura e o palavriado, com a reputação de rico, deram-lhe na meza o logar mais auctorisado. Os brazileiros, vindos do Rio, conheciam aquella figura; alguns sabiam que o homem se tinha arranjado com expedientes mysteriosos; mas isto mesmo era qualidade meritoria e relevante no commensal. Rosnava-se de moeda-falsa; até alguem teve a ousadia de repetir o boato corrente ao guarda-livros. Amaro Fayal deu aos hombros, sorrindo, e disse:

--A moeda-falsa é commercio como qualquer outro, com vantagens em proporção dos riscos. Negocio execrando só conheço um: é o da escravatura. Ha tambem uns negocios que, depois de muitos annos de estafa, não deixam nada: esses chamam-se negocios tolos. Assevero lhes que a riqueza do sr. Pinto Monteiro não se fez com a escravaria.

