Part 4
O abbade de Santa Eulalia rezava uma missa por alma de Alvaro de Abreu, quando D. Irene, trajada de luto rigoroso, entrou na casa de Refojos, onde esperava encontrar os filhos. Disse-lhe o mordomo que os meninos, por direcção do abbade, estavam a educar no collegio de Landim, oito leguas distante. Escreveu ao missionario, pedindo-lhe que lhe levasse a sua amisade e o seu perdão. O velho, que ella não vira nos ultimos nove annos, era tão acabado, tão decomposto que Irene chorava, comparando-o ao festivo e juvenil abbade que radiava alegria na casa de Athey.
--Afinal...--murmurou o padre.
--Aqui estou...--soluçou Irene.
--Quer vêr seus filhos?
--Sim...
--Vou mandal-os buscar. Cuidei d'elles, porque sua cunhada não podia soffrêl-os; e as creancinhas amavam-me... É preciso, minha senhora, salvar o que poder d'esta casa por amor d'estes meninos. Com ordem e economia, se Deus me der vida, tudo se fará.
Irene apressava o inventario, resgatava as vendas illicitas, annullava hypothecas, afanava-se em liquidar o que devia pertencer-lhe na meação do casal e dos rendimentos absorvidos na totalidade pelo marido.
Observara-lhe o abbade que um tamanho apuro de contas iria, sem ella querer, cercear o patrimonio dos filhos.
--Se V. Ex.^a--accrescentava elle--tenciona reduzir as suas despezas ao viver aldeão, sobra-lhe tanto do que percebe da sua metade que talvez possa deixar intactos os rendimentos dos orfãos.
--Tenciono ir viver no Porto...--explicou ella.
--Ah!--exclamou o abbade--com que então, minha senhora... _ainda não_?
--_Ainda não_?... o quê?
--Nem o grito da consciencia? nem o grito do exemplo? Nem a presença de dois filhos? Bemdito seja Deus!
Este dialogo constrangido foi cortado por um servo que entregava a correspondencia.
--Não veio carta?--perguntou ella agitada.
--Não, minha senhora, veio sómente esta folha.
Era o _Commercio do Porto_. D. Irene atirou-o sobre uma jardineira com enfado, e encostou a face á palma da mão, carregando o sobr'olho.
O abbade chamára o menino mais novo, que tinha oito annos, e disse lhe:
--Vem cá, Manoel Philippe, lê-me aqui as noticias d'este jornal; quero que tua mãe veja que lês correctamente.
E deu-lhe o jornal aberto. A mãe parecia estranha ou aborrecida.
O menino procurou a secção de noticias, e leu:
OBITUARIO. _Hontem, pelas sete horas da manhã, desappareceu do numero dos vivos um dos mais estimados e gentis cavalheiros d'esta cidade. Uma aneurisma no coração arrebentou fulminantemente o sr. Jacques Smith, que_...
Irene levantou-se arrebatada, bradando:
--Que é? que é?
E, pegando no jornal que tremia nas mãos do menino assustado, leu as primeiras linhas que ouvira lêr, premiu o coração asfixiado pela angustia, rolou nas orbitas os olhos torvos sob a palpebra convulsa, e cahiu sem alentos.
--Porque foi?!--perguntou afflicto o menino ao abbade--Ella morre?
--Não, Manoel Philippe. Isto não ha de ser nada. Tua mamã conhecia esta pessoa que morreu, e.... teve pena.
Depois, dobrou o _Commercio do Porto_, e metteu-o na algibeira da batina para que o filho de D. Irene d'Abreu nunca mais tornasse a lêr o nome de Jacques Smith.
* * * * *
Em 1871, Manuel Philippe de Abreu e seu irmão Jeronymo de Abreu e Lima, ambos terceiranistas da universidade, vieram ás Caldas de Vizella, com sua mãe, a sr.^a D. Irene. Esta illustre e respeitada fidalga de Athey não contava ainda cincoenta annos, e estava hemiplegica--metade do corpo paralytico. Era transportada em cadeira de rodas ao _Banho da bomba forte_. Uma vez quiz ir até á _Ponte-velha_, que não vira desde 1851. Defronte da ilhêta onde em 15 de junho d'aquelle anno Alvaro de Abreu e João Pacheco trocaram os fataes gracejos, mandou parar a cadeira. Quedou-se longo tempo absorvida na contemplação do salgueiral; depois, enxugou duas lagrimas. Que lagrimas, ó leitor! Os filhos perguntaram-lhe por que chorava; e ella, estrangulada pelos soluços, contorcia-se, pedindo-lhes que a tirassem d'ali, que sentia já o frio da morte.
Levaram-na apressadamente para o quartel em uma das casas situadas no local chamado o _Medico_. Ao nascer do sol do seguinte dia dobravam a finados sinos de S. João das Caldas. A fidalga de Athey expirara nos braços dos seus dois filhos.
Perguntei ao capellão d'esta senhora se ainda era vivo o abbade de Santa Eulalia, muito affeiçoado á senhora fallecida.
--Não, sr. Esse santo morreu ha trez annos: a paixão da fidalga foi tamanha que cahiu na cama; e, quando se quiz erguer, estava leza. Os meninos ainda choram por elle.
CONCLUSÃO
Das sete pessoas que, em junho de 1851, sestiaram no cinseiral do Vizella, vive sómente uma, que sou eu.
O conselheiro José de Almeida expirou, no inverno passado, na _Casa da saude do medico Ferreira_, do Porto.
Na derradeira vasca do longo paroxismo, circumvagou os olhos baços á volta de seu leito. Era irmão, era esposo e era pai. Não viu a irmã, nem a esposa, nem o filho. Finara-se no desamparo e desamor dos indigentes a quem a caridade dos hospitaes empresta um catre ainda quente de outro cadaver. A sua existência havia sido um continuado festim: o que houve formidavelmente serio na sua vida, foi a morte. Morrem assim os que não radicaram, em annos vigorosos, a santa amizade no coração da familia.
José de Almeida não podia ter uma desvellada amiga, porque, nos seus annos de gentilissima juventude, espesinhára as mulheres que o adoravam com aquella cegueira mysteriosa das paixões absurdas; e, já na sasão glacial da vida, esposara uma que o acalcanhou com o desprezo d'elle e de sua propria infamia, quando lhe viu a epiderme arrugada e o bigode branco.
A sociedade recebera-o e bajulara-o quando odios e invejas lhe denegriam o nome, aureolado de aventuras amorosas. Á beira do seu leito de infermidade esqualida, e do seu ataude sotterrado na vala commum, eram seis os restantes dos seus centenares de amigos.
A noite era de outubro. O nordeste assobiava nas gradarias dos tumulos, e ramalhava os cyprestes gotejantes do zimbro da tarde.
Nos camarotes tepidos do theatro lyrico, fallava-se do defunto; e algumas senhoras idosas, refluindo vinte annos na corrente da sua vida remançosa, olhavam para a cadeira onde então José de Almeida se assentava. E algumas d'essas, voltando o rosto, escondiam as lagrimas rebeldes, para não serem vistas dos maridos e das filhas.
E perdoaram-lhe.
S. Miguel de Seide, 26 de agosto de 1875.
II
O COMMENDADOR
É tão fatalmente séria a vida que o soffrêl-a, sem misturar a tragedia com a comedia, seria impossivel.
H. Heine, _Reisebilder_.
A D. Antonio da Costa
Em testemunho da regalada leitura que v. ex.^a me deu com o seu MINHO, lhe offereço uma das novellas de cá. O Minho tem o romanesco da arvore e o romance da familia. A paizagem suggeriu-lhe, meu caro poeta, as prozas floridas do ridente livro. O seu estylo tem a macia luz do luar das noites estivas, e o cadencioso murmurio das ribeiras onde o ceu estrellado se espêlha.
O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligencia, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar nos os beiços convulsos de lyrismo.
Viu v. ex.^a perfeitamente o Minho por fóra: as verduras ondulando nas pradarias, os jôrros de agua espumando na espalda dos outeiros, os fragoêdos ás cavalleiras dos milharaes, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruinas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golphar rôllos turbinosos de fumo indicativo de pannellas grandes e gallinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu v. ex.^a o som da buzina pastoril resonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros á ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou de certo na pachôrra estoica do boi sevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsycose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a fórma objectiva do Minho romantico, viu v. ex.^a a fóra o mais que aformosea o seu livro, os encarecimentos, as lisonjas, as feitiçarias da arte com que v. ex.^a disputa primores á natureza.
Mas o que D. Antonio da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miôlo, a medula, as entranhas romanticas do Minho; quero dizer--os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado d'estes arvoredos onde assobia o melro e a philomella trilla.
Ah! meu amigo! Romances, tecidos de cazos candidos e innocentes, apenas os fazem por aqui os passaros em abril quando urdem e afôfam os seus ninhos. O restante dos animaes não oviparos vista-m'os v. ex.^a no Catarro ou no estabelecimento da famosa senhora Cecilia Fernandes, da Travessa de Santa Justa, que eu lh'os farei representar ao vivo no proprio coração do Minho--entre Fafião e S. João do Kalendario--as scenas contemporaneas da fina _Baixa_ e peores.
A peste, que infeccionou os costumes d'estas aldeias, não sei decidir se veio das cidades para aqui, se foi d'aqui para lá. Sá de Miranda considerou isto tudo estragado quando viu
_correr pardáos Por Cabeceiras de Basto_.
Imagine v. ex.^a o que terá feito o esmeril do progresso a descodear e a brunir este gentio ha tres seculos! Não faz idea, meu amigo! Até a photographia, abarracada nas cabeças dos concelhos, tem feito collaborar o sol e o clorureto de prata na relaxação dos costumes. Os «conversados» permutam retratos, e beijam-se reciprocamente em papel-cartão, aguçando o instincto da natureza bruta. Verdade é que os pastores minhotos, ha trezentos annos, já traziam ao pescoço os retratos das pastoras pintados em madeira, como se deprehende d'estes versos de Diogo Bernardes, o rouxinol do _Lima_.
Pendurei n'um salgueiro a minha lyra Ouvil-a ao som do vento é uma magua, Em logar de tanger geme e suspira. Marilia que _pintada n'uma tabua Aqui no seio trago_, tambem chora; Seus olhos dão-me fogo, e os meus dão-lhe agua.
Não obstante, o fôgo, que acendrava a paixão nos peitos d'aquelles Bieitos e Melibeus das eclogas, era uma especie de lume sacro que velava a virgindade... dos retratos pintados em tabua. Por quanto, deve v. ex.^a lembrar-se que os pegureiros do Minho taes fornalhas faúlavam do peito que os visinhos iam lá prover-se de lume para cozinhar a ceia, como se collige das lastimas d'este pastor do canoro Bernardes:
A viva chamma, aquelle intenso ardor Que brando sinto já pelo costume, De noite de si dá tal resplandor _Que mil pastores vem a buscar lume_.[3]
É verdadeiro e bonito. Os mestres da vernaculidade mandam que a gente leia isto, e mais os outros lyricos seiscentistas--caldeirada de favas classicas com as quaes o intendimento se opila e encrua; mas a lingua cresce.
Como quer que seja, entre os retratos em tabua quaes os pintava S. Lucas, e o retrato em photographia aperfeiçoado por Fox Talbot, mede a distancia que ethnologicamente sepára as Nizes e Filis de Diogo Bernardes d'estas Joannas e Thomazias que hão de florejar nas _Novellas do Minho_.
Ouço dizer que a via-ferrea, sulcando o seio virginal d'esta provincia, afugentou com o estridor das suas azas os pardaes, a mala-posta e a Probidade.
É possivel. Os caixeiros do Porto, sadíos e sanguineos, com as suas luvas amarellas, e todo o verniz, que lhes coube em sorte, nos pés, entraram Minho dentro, e derramaram a dissolvente chalaça nas aldeias. Por outro lado, a raça turdetana de Braga fechou pelo norte a barreira á innocencia espavorida. A cidade santa de nossos pais e dos conegos, a esposa de Fr. Bartholomeu dos Martyres, Braga despeitorou-se, desnalgou-se, sofraldou as saias e mostrou a liga sobre o joelho desde que um jornal da terra lhe chamou _segunda Pariz_. Eu não reparo na desproporção do confronto, quando alli me vejo no _Café-Faria_, a sentir-me arquejar em _uma das arterias do grande corpo da civilisação chamada Europa_, como lindamente diz o sr. Vaz de Freitas na sua _Guia do Viajante em Braga_, por seis vintens. Tudo me leva á persuasão de que me acho na segunda Pariz, quando a _Guia_ me assevera com exactidão, ainda não contraditada pela inveja, que Braga encerra nos seus muros sete procuradores de cauzas, e que ahi (pag. 28) os barbeiros _superabundam_. Fazia-se ainda pelos modos uma terceira Pariz com a superfluidade dos barbeiros!
A cathegoria modesta, em que o jornalista afidalgou a sua terra, justifica-se principalmente nas estalagens. Ahi, é ahi onde o viajante se sente saturado de Pariz, a ponto de, cuidando que accorda alvoroçado pelas campainhas electricas do Grande Hotel no _Boulevard des Capucines_, acha-se em Braga, no hotel-Aveirense, largo dos Penêdos. Avantajam se ainda ás hospedarias parisienses, no ponto de vista zoologico, os hoteis da princeza do Minho. Os forasteiros dados a pesquizas de anatomia comparada, podem, mediante uma gratificação rasoavel, passar as suas noites em vigilias uteis estudando insectos sem queixos e sem azas, de membros articulados, consoante a classificação de Cuvier. Ali se lhes offerecem exemplares em barda da pulga braguez (_Pulex bracharensis_). Convencer-se-ha que as seis pernas d'este parazita são deseguaes, o que assim se faz mister para o salto. Não duvidará que elle tem o bico alongado com duas cerdas, e guarnecido na baze de dois palpos escamosos. Se reparar bem nas pulgas maiores, dissipará suspeitas de que tem azas que realmente não tem as do _Hotel Leão d'ouro_ nem as do _Hotel-transmontano_. Encontram-se n'estes dois estabelecimentos larvas das mesmas, cylindricas e sem pernas. O olho armado póde observal-as a mudarem-se em nymphas, que não são exactamente umas de quem cantava Garret:
As _nymphas_ invoquei do Tejo ameno Que em mim creassem novo engenho ardente, Etc.
Cam. C. IV.
Nem as outras de quem dizia o épico:
Caem as _nymphas_, lançam das _secretas_ Entranhas ardentissimos suspiros...
Lus. Cant. IX.
Verdade é que o accessorio das _secretas_, ínclusas no verso de Camões, deixa suppor que elle quizesse fallar das _nymphas_ dos hoteis de Braga. Que estude o caso o sr. visconde de Juromenha, e não o desampare a Academia Real das Sciencias.
Nos hoteis de Braga, finalmente, dão-se as mãos o espavento das modernas industrias, as refinações da decoração, a obra prima de marcenaria e vidraria,--um luxo levantino, como em recamaras de Nababos--e sobre tudo a hygiene expansiva de saude a dar cambalhotas na brancura virginal dos lençoes; e á mistura com tudo isto resalta não sei que de archeologico n'aquelles quartos! A gente, quando vae deitar-se, imagina que n'aquella mesma cama dormiu na noite passada S. Pedro de Rates ou Gonçalo Mendes da Maya.
Por fora das estalagens ainda ha proeminentissimas feições de Pariz em Braga. O _Jardim_, por exemplo. V. ex.^a já esteve no jardim? Impressionaram-no com certeza uns rumores, «ora suffocados, ora estrepitosos» que ali se escutam nos domingos de tarde? Tambem a mim. Não pôde soletrar em sons articulados aquelle confuso borburinho? Nem eu. Quem explica o phenomeno, trivial nos _Champs-Elysées_ e no _parc de Monceau_, é o já citado sr. Vaz de Freitas na sua _Guia do viajante em Braga_, por seis vintens, pag. 41. A coisa é isto: _O chilrear das creanças, o divanear das poetizas, o queixume somnolento dos poetas, a conversação pezada e metalica dos proprietarios, todos estes murmurios vagos ou alegres, suffocados ou estrepitosos_ (hîc) _enfundem uma vida nova e excepcional ao passeio, que o tornam attrahente ou deleitoso_. Theophilo Gauthier, o Benvenuto Celline da proza franceza, não rendilharia com tão subtis filigrannas de phrase a explicação dos ruidos babylonicos do _Luxemburg_. D'onde se colhe que Braga tem poetizas que exhibem delirantemente os seus devaneios no jardim, ao mesmo tempo que os poetas se queixam somnolentos. Pariz, tal qual. Note v. ex.^a o contraste no sexo d'estas pessoas que bebem na Castalia: ellas _divaneam_, apostrophando a gritos o arrebol da tarde e a brisa que cicia e se perfuma nas cilindras; elles, cabeceando marasmados pelo opio do _narguillé_, queixam-se somnolentos, por que não os deixam dormir as poetisas. São homens gastos, estafados, _roués_. Sahiram do _café-Faria_ intoxicados do absyntho de Espronceda, de Nerval, de Larra e de Mussét. Entraram no jardim com o cerebro anesthesiado, querem dormir; e ellas, á imitação do femeaço da Thracia, projectam escalavrar aquelles Orpheus dorminhôcos, Marcyas que ellas, filhas de Apollo, querem esfolar. Segundo Pariz.
Ahi vê v. ex.^a a rasão dos «estrepitos» explicada na _Guia_. Pareciam outra coisa peor.
Eu, afora isto, conheço outras analogias entre Braga e Pariz, que estudei, sem subsidio--intendamo-nos. Ha tres mezes senti-me ali adoecer da nevropatia, que é molestia endemica dos grandes centros de população, onde os deleites requintam, e o fluido nervoso se desperdiça--o que succede em Londres, em Braga, em New-York, em Pariz, quando a gente desconhece as leis da _relatividade dos prazeres_, como diz o professor escossez Bain. Confiando nos anti hystericos, fui comprar á botica do sr. Pipa, na rua do Souto, um frasco de capsulas de ether-sulphurico, e preparava-me para pagal-as com 300 rs. (um fr. e 50 cent.)--prêço corrente no Porto--quando o praticante da pharmacia me mandou intender o preço da droga com mais cinco tostões, e mostrou-me que o signal arithmetico de um franco estava emendado em dois. Ainda assim, observei-lhe que dois francos cambiados em moeda portugueza eram quatrocentos réis. O interlocutor refutou triumphantemente a minha objecção, allegando que em Braga dois francos eram oito tostões.
Esta physionomia da botica bracharense dá feições á terra, não da 2.^a, mas da 1.^a Pariz. A 2.^a é a outra que os geographos ignaros nos inculcam 1.^a. Corrija-se.
Dou de barato que as referidas poetisas do jardim consumam capsulas de sulphur copíosamente nas suas etherisações, e que os poetas somnolentos se despertem com ellas, não querendo usar economicamente das cocegas; deve-se talvez ás condições especiaes das musas bracharenses o preço superlativo dos anti-spasmodicos: assim mesmo, Pariz 2.^a não pode arbitrariamente dobrar o valor da moeda de Pariz 1.^a, nos generos que importa, ao mesmo passo que, no valor legal da moeda franceza, exporta para França os seus chapeus, os seus cavaquinhos e as suas frigideiras.
Aqui tem, pois, D. Antonio da Costa, o foco do progresso que esparge raios de luz para as aldeias septentrionaes do Minho, em quanto o Porto alastra no sul os caixeiros contaminadores, que levam comsigo a corrupção dos romances e as tentações do cabello unctuoso com a risca ao meio da cabeça, lasciva como o dorso d'um gato d'Angora.
É n'este meio que eu me abalanço a esgaratujar novéllas. Ha treze annos que apéguei por esse Minho, em cata do balsamo dos pinheiraes e das fragrancias das almas innocentes. Diziam-me que a rusticidade era o derradeiro baluarte da pureza, e que os lavradores do Minho, nivellados com os saloios da Extremadura, eram os candidos pastores da Arcadia comparados aos malandrins de Gomorrha. Um dos meus estudos, no intuito de me habilitar para o confronto do saloio com o minhoto--da raça sarracena com a gallega--É a historinha que lhe dedico meu nobre amigo.
De Coimbra, aos 15 de outubro de 1875.
O COMMENDADOR
PRIMEIRA PARTE
Seis de janeiro de 1832. Manhã chuvosa e frigidissima. O zimbro rufava nas frestas envidraçadas da egreja de Santa Maria de Abbade. Ringiam as carvalheiras varejadas pelo norte. Ao arraiar do dia, a devota dos Tres Reis Magos, a tia Bernabé, tecedeira,--viuva do operario Bernabé, que lhe deixára o nome e uma cabana com sua horta--ergueu-se, foi á residencia parochial pedir a chave da egreja; e, sobraçando a bassoura de giesta para barrer o chão, e a almotolia para prover as lampadas, entrou no adro. Ao passar em frente da porta principal, ajoelhou, persignou-se e orou. N'este momento, ouviu o vagir convulso e rispido de criança. Voltou o rosto para o lado d'onde lhe parecia sahir aquelle chôro. Não viu alguem. Espantou se.
--Jesus! santo nome de Jesus! Isto é coisa ruim!--exclamou ella, pousando no degráo da porta a vazilha e a bassoura.
E o chorar de criança cessou.
A tia Bernabé debruçou-se na parede baixa que murava o adro, e viu entre as grossas raizes de uma oliveira secular um embrulho de baêta azul donde sahiu um vagido. Saltou a parede, agachou-se á raiz da arvore, e pegou da criança, aconchegando-a do calor do peito e bafejando-a no rosto azulado do frio. A baêta estava ensopada da chuva que escorria da ramaria da oliveira. Tirou-lh'a apressadamente, involveu o menino no avental, e agasalhou-o entre o seio e o farto jaqué de picotilho. Depois, desandou para a residencia, e mandou dizer ao abbade que topára no adro uma creança, que parecia estar a despedir.
--Pois que quer ella então?--perguntou o abbade, expondo uma parte do nariz e metade do olho esquerdo á frialdade do ar--Que tenho eu com isso? Que a leve a Barcellos. Aqui não ha roda de engeitados.
A criada do abbade deu o recado.
--Torne lá, sr.^a Joanna--replicou a tia Bernabé friccionando os pés álgidos do recem-nascido com a barra da sua saia de saragôça--e diga ao sr. padre que este menino, se morrer sem baptismo, é um anjinho do ceo que se perde. O sr. abbade hade saber isto melhor que eu...
A creada repetiu a replica, e ajunctou:
--A tia Bernabé diz bem.--Salte d'ahi p'ra fóra, seu calaceiro!--E deu lhe uma sonora palmada na nádega esquerda.--Um rapaz de vinte e sete annos está ahi enteiriçado como um velho! Upa!
--Está quieta, Joanna, olha que me fazes vento!
E ella puxou-lhe pelo pé direito, que excedia o volume de tres pés; e elle, com o outro, despedido á tôa, sacou-lhe do baixo ventre um som tympanico de ôdre cheio.
--T'arrenego!--bradou ella, recuando com as mãos postas na parte molestada.--Vossê atira? Tem má mânha!
--Cheguei-te?--volveu elle risonho, embiocando-se na felpuda coberta, e encostando-se á almofada de chita que estofava o espaldar do leito.
--Que brincadeira!--queixou-se a moçoila arrufada--podia-me matar com o couce, se me dá aqui no coração!...
E punha a mão no estomago.
--Isso não é nada, rapariga!... Olha se amúas!
--Nada, não é!... não que a barriga é minha...
--Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!...
--Então dissesse-o...--tornou ella com semblante ageitado á reconciliação--Salte d'ahi!... vá baptisar o engeitado; que, se elle morre sem baptismo, verá que ingranzeu se levanta na freguezia. Bem basta o que já dizem...
--Calça-me as meias de lã; mas tem cuidado que não se despegue o emplasto da frieira.
E, em quanto a môça com geitosa meiguice lhe encanudava nas pernas cerdosas as grossas meias alisando-lh'as ao correr da tibia, resmungava elle:
--Quem seria a grande bebeda que engeitou a cria?
--Isso hade ser de fóra da freguezia...
--Tambem me parece... Cá não me consta... E vem-m'a cá pôr no adro!... ah bom estadulho!...
--Fica uma coisa pela outra. As de cá tambem as levam ás outras freguezias, quando acontece--disse Joanna.
E nomeou varias ovelhas fecundas e tinhosas, em quanto o pastor lavava a cara no alguidar vermelho que a raparigaça lhe chegava, com a toalha no hombro.
Ao pegar da toalha, sacudindo a cara e assoprando ruidosamente com a sensação do frio, o abbade apertou a pôlpa da espadua á moça com ternura felina. Este carinho confirmou as pazes. Joanna arregaçou os beiços ridentissimos até ás orelhas, e mostrou-lhe nos dentes de brilhante esmalte que o seu amor infinito resistira á prova do couce.
A tia Bernabé affligida, porque o menino soluçando-se esverdeava, chamou outra vez Joanna com encarecidos rogos.