Part 3
--Se eu tivesse um irmão que pegasse n'uma espada, vossê não me offenderia assim...
--Se vossê tivesse um irmão que pegasse d'uma espada, e me ferisse com ella, iria para onde foi um homem que uma vez me feriu...
Irene não percebeu o sentido latente da replica; mas referiu ao abbade a passagem, digna de ponderação.
--Quem sabe--dizia elle comsigo--se José de Almeida acertou quanto á morte de João Pacheco...
Os criminosos asilados sob as telhas de Alvaro de Abreu favoreciam a suspeita: entre outros somenos na tuba da fama, avultavam o _José Pequeno_ da Lixa, e _José do Telhado_, que o neto dos senhores de Regalados sentava á sua meza, quando Irene ficava no quarto. Entrou em averiguações o abbade, e soube que os dois salteadores, quando João Pacheco morreu, estavam na caza dos Abreus de Refojos, jogando a esquineta com os creados.
Como quer que fosse, o abbade entrou-se de mêdo bem intendido, quando Irene lhe pediu que a protegesse e resgatasse da escravidão em que vivia.
--Este homem, se eu me intrometto nos disturbios de sua caza, é capaz de mandar um dos seus scelerados apunhalar-me!--conjecturava elle racionalmente.
Não obstante, indagava com cautella o modo de libertar Irene pelo divorcio, ou pela fuga para mosteiro ou casa de familia honesta. As familias honestas recuzavam-se a receber a esposa diffamada pelo marido; as menos honestas esquivavam-se a desavenças com Alvaro de Abreu, respeitando mais os hospedes que o hospedeiro. Os donos das casas endinheiradas dormiam tranquillamente, em quanto o amigo do _José do Telhado_ e _José Pequeno_ lhes não retirasse a sua estima.
E, n'aquelle tempo, havia governadores civis, administradores de concelho, regedores, cabos de policia, etc. Esta corporação de funccionarios não prendia ladrões: fazia deputados.
* * * * *
Irene instava com urgentes rogos. Dizia desatinos ao abbade. Traçava planos vulgares; mas de escandalo estrondoso. Fugiria para o Porto onde estava um homem que ella amava: iria pedir-lhe o amparo do amante ou a vingança do cavalheiro. Tinha lido o _Palmeirim de Inglaterra_; mas não conhecia o _Cavalleiro da triste figura_. O abbade recommendava-lhe juizo e paciencia: e cuidava mais fervorosamente em salval-a do amante que do marido. Fallava-lhe dos filhos. A commoção era mediocre. As mães que desafogam as suas angustias, ajoelhando á beira de um berço, estão salvas. Irene carecia da virtude redemptora das esposas, que fazem os seus anginhos intercessores com a justiça divina. Era criminosa. O marido cuspia-lhe uma injuria, e ella abaixava o rosto indelevelmente manchado. Um dos esteios da honra quebrara-o a moça solteira em Vizella: restava-lhe outro--o da sinceridade com o noivo aborrecido: quebrou-o tambem. Se a sorte lhe deparasse marido tão amante quanto generoso, a regeneração fal-a-hia o esquecimento do erro, e o segundo baptismo da alma seria a uncção das lagrimas nas faces cariciosas dos filhos. Havia uma chaga a cicatrizar na consciencia de Irene: não lh'a leniram com o balsamo do amor ou da caridade: exulceraram-lh'a a ferroadas de inuteis vituperios. As mulheres assim, quando não se engolpham no tremedal, ou são feias como o peccado, ou predestinadas como santa Pelagia e santa Maria Egypsiaca.
O abbade de Santa Eulalia solicitou a protecção de um prelado, seu parente, a favor da desditosa Irene. Conseguiu-se a entrada da esposa fugitiva no convento de Santa Clara de Coimbra. O abbade avisou-a, guiando-a no passo da fuga. Irene deveria sahir para uma das suas quintas de Cerva, onde costumava ir no outomno, e fugir de lá com duas pessoas da confiança do abbade. Acceitou alegremente a proposta; porém, dias depois que se transferira á quinta d'onde devia fugir, com effeito fugiu: mas não eram confidentes do abbade as pessoas que lhe protegiam a retirada pela serra de Marão em direitura ao Porto.
A mulher de Alvaro de Abreu escondeu-se nos arrabaldes d'aquella cidade, no _Bom-Successo_, em uma _casa-chalet_, telhada e ladrilhada de asphalto negro á ingleza, com stores impenetraveis, e á volta um silencio sepulcral a ouvir--permitta se-me a expressão--os suspirosos murmurios que lá dentro se atabafavam nas alcatifas e nos cortinados.
Aquella casinha abarracada era o _chalet_ de Jacques Smith, o homem dos vinte e sete fraques para quem a frescura da melancia era indigesta.
Não é natural que a esposa fugitiva fizesse por alli escala para o cubiculo de Santa Clara.
* * * * *
Avisado Alvaro de Abreu que sua mulher desapparecera da quinta de Cerva, deixando os filhos com recommendação ás amas que os entregassem ao pae, não se affligiu desesperadamente. Sabia que Irene suspirava pelo convento, e que o abbade, confidente d'ella, era o agente d'esse plano. Procurou o abbade na sua residencia, e perguntou-lhe, carranqueando, onde estava a doida.
--Não sei, sr. Abreu.
--Não mangue commigo, abbade... Em qual convento está Irene? O sr. tratou disso, foi a Braga, fallou ao deão, etc.
--Sem duvida; mas a sr.^a D. Irene, quando foi procurada para entrar no convento de Santa Clara de Coimbra, já tinha sahido da quinta.
--Não me conte lerias, abbade!--retorquiu sarcasticamente o bacharel--Eu estou a ler-lhe na alma. Irene vai requerer o divorcio, guiada pelos seus conselhos.
--Não é verdade, sr. Abreu--atalhou o abbade.
--Não me desminta. Que interesse tem o sr. pastor de almas em insinuar a desordem no seio de uma familia?
--Já disse a v. sr.^a...
--O sr. é tolo! Parece que não tem amôr á pelle... Repare no que lhe digo: se a justiça, a requerimento de Irene, me inquietar, quem paga as custas é o sr. abbade de Santa Eulalia. Fica avisado.
--Mas... sr. Abreu... juro-lhe pela sagrada hostia...
--Não me fio em hostias!... Padres! corja de marôtos! cuidam que estamos ainda nas trevas do absolutismo!... Fica avisado, entende-me?
E sahiu tinindo rijo com as esporas no pavimento e dando estalos com o chicote.
O abbade era uma congestão de pavor, com o espirito estrictamente necessario para cogitar em transferir-se a outra abbadia.
N'esses dias de sobresalto, escrevêra elle a José de Almeida, contando-lhe _as suas colicas_ em linguagem piccaresca. Mais egoista que caritativo, dava ao diabo do inferno a tonta da Irene, e perguntava onde iria parar aquella extravagante.
_Quanto a mim_--aventava o solerte abbade--_a mulher está ahi no Porto, sob a protecção da bandeira ingleza, em quanto eu cá estou debaixo do cacete portuguez do marido. Ella muitas vezes me disse que tinha ahi paladino. Procure-a v. s.^a; e, se tiver modo de lhe transmittir os meus cumprimentos pela bestialidade que fez, peça-lhe que não demande o marido, visto que as custas já eu fui citado para as pagar em moeda de costella. Entretanto, diligenceio escapulir-me d'aqui. Está vaga uma boa abbadia no Alto-Minho. Vou requerer a mudança, esperançado no valimento de v. s.^a. O deputado do circulo hade fazer-me guerra, porque eu laboro nas fileiras da Rainha e Carta, e votei contra elle; mas, repito, conto com v. s.^a e com o José Bernardo. Não me desconviria n'esta occasião um canonicato em Braga, e já m'o offereceram os srs. Cabraes em 1850: hoje torço a orelha... Ah! femeaço, femeaço! Quando a politica me agourava uma mitra, as mulheres far-me-hiam regeitar o chapeu de cardeal. Mulheres, peores que o diabo, diz o Ecclesiastes. Devia de estar velho quem disse isto... Finalmente, agora, em remate de cantiga, vem essa doida da Irene perturbar o meu repouso!... Quem me mandou a mim endireitar tuertos, se ella já estava retorcida!? etc._
José de Almeida, contando com a fatuidade de Jacques Smith, mostrou-lhe a carta do abbade, e perguntou-lhe se elle podia informal-o.
Smith riu á farta das graçolas do padre, encaracolou as guias do bigode, estirou trez vezes os braços com sacudida elegancia, assentou a gola do fraque decimo nono, fez meia volta sobre o tacões, enclavinhou os dedos alisando os vincos das luvas, e fallou d'esta arte:
--Eu te digo. É uma pobre rapariga. Deixei-a, como sabes. Escreveu-me sempre. Respondi-lhe de vez emquando. Quiz fugir á mãe. Pediu-me que a fosse esperar a Guimarães. Dissuadi-a de tal parvoice. Desesperou-se, quando soube que eu fôra para Pariz, e casou-se por despeito. Que estupidez! uma mulher com duzentos contos! Cheguei de Pariz, e encontrei uma carta de Irene, escripta na vespera do casamento. Era um _adeus_ com raiva e lagrimas. Dizia que não lhe importavam as consequencias...--que se o marido a matasse, Deus me pediria contas. Compadeceu-me esta tolice! Passados dois annos, escreveu-me uma historia deploravel de dores intimas. É victima do amor que me teve. O marido mata-a lentamente, e atormenta-a com o meu nome. Respondi-lhe em nome supposto, com pezar, com dó, com saudade, queres que te diga? amando-a!... Caprichos do coração... Primeiramente, aconselhei-a a que se separasse do bruto; depois approvei o refugio do convento; por fim, quando ella me disse: «vou suicidar-me», fui buscal-a. Andei cavalheiramente?
--Com toda a certeza. A ter ella de se matar, fizeste bem. Salvaste-a da morte e das penas eternas que esperam os suicidas--applaudiu Almeida, casquinando frouxos de riso que eram uma satanica belleza na physionomia d'elle.
--Estás a gracejar?--volveu o outro com aprumo entre inglez e portuense.
--Pois tu fallas tão funebre que eu deva ouvir-te com as lagrimas nos olhos? Rio-me dos adverbios que eu e tu usamos n'estes cazos. _Cavalheiramente_! Fôste buscal-a _cavalheiramente_! E, se tivesses cazado com ella, na occasião em que a comparavas á melancia fresca e indigesta, com que adverbio celebrarias a tua acção?...
--Cazar!... por que não cazas tu?
--Isso é outra questão...
--É a mesma: por que não cazas tu com...
E recenceou meia duzia de nomes tão respeitaveis presentemente que só cada um de per si bastaria para desbotar o pudor das Porcias e Cornelias.
José de Almeida, em verdade, no terreno da morigeração, estava deslocado. Mudou sensatamente de rumo; e, voltando ao ponto, disse:
--Que queres que eu responda ao abbade?
--Dize-lhe que D. Irene está commigo; e que o diga ao marido, se isso convier á sua defeza. Quanto a demandas, que não se assuste o selvagem nem o abbade.
Fez uma pirueta congenial, acenou ao jockey, sentou-se de um pulo no coxim do _mail-coach_, e silvou a pita do pingalim na crina dos alasões, que sahiram corveteando.
--Ahi vai um perfeito feliz!--dizia a mocidade portuense verminada de invejas.
Seria um pouco mais feliz que um mendicante sadío, se não tivesse um aneurisma a arfar-lhe no coração. Compensações.
* * * * *
O abbade, recebendo a resposta do portuense, procurou Alvaro de Abreu, e disse-lhe:
--Lamento a desgraça de que não tenho a minima culpa. A sr.^a D. Irene está... onde a levou a fatalidade. Se V. S.^a me admitte um conselho, não se divulgue tal desgraça.
E, contando-lhe com melindrosos rodeios que D. Irene vivia com Jacques Smith, offereceu-se para intervir no remedio d'este escandalo.
--Como?--interpellou Alvaro iradamente.
--Meditarei no modo de a encaminhar ao convento.
Abreu ringiu os dentes e rosnou:
--O senhor, se não fosse uma besta, seria um canalha que vem aqui avisar-me da infamia d'essa mulher!...
--Oh senhor!--exclamou o abbade conturbado do impeto do fidalgo--Pois eu venho participar-lhe...
--O que? que vem o sr. participar-me? que estou deshonrado? Ora ponha-se no meio da rua antes que o despeje pela janella! Quem perdeu, quem prostituiu essa devassa foram os seus conselhos...
O abbade limpava o suor, e gaguejava.
--Rua!--bradou Alvaro--e mude de terra, quando não... faço-o esfollar. Vossê teve quinhão nas devassidões da mãe: que lhe importa a devassidão da filha?
Era uma seva calumnia, propalada por Alvaro de Abreu, e acceite pela opinião publica. O abbade então chorou, ergueu a fronte com arrogancia, e bradou:
--O sr. infama as honradas cinzas de sua sogra! Eu não posso vingal-a, mas Deus nos vingará, a ella e a mim!
--Fora, hypocrita! rua!
O padre sahiu aturdido. Zuniam-lhe os ouvidos, e congestionava-se-lhe o sangue na cabeça.
E, desde esta hora,--dizia elle--nunca mais teve saude nem descanso. Apagou-se-lhe a clareza e serena satisfação da vida. Fechou a aula de latim. Insulou-se da convivencia dos amigos. Tinha cincoenta e seis annos. A philosophia socratica não bastava a robustecer-lh'os contra os abalos da religião de Jesus. Entrou-lhe no espirito a memoria severa do seu passado licencioso. Pezares, abafados pela duvida, exulceraram-se em remorsos. Era o assombro dos freguezes. O relampago da fé abrazara-o. Fez-se missionario, e, no pulpito, desentranhava a invencivel e penetrante eloquencia das lagrimas.
Acaso vi o nome d'esse padre na lista de missionarios que uma gazeta injuriava. Communiquei o espantoso achado a José de Almeida.
O meu amigo escreveu-lhe. Na volta do correio, a resposta dizia assim: _O desgraçado, a quem escreveis, morreu. Subsiste um penitente a rogar-vos de mãos postas que, antes do inverno da vida, offereçais a Deus as vossas lagrimas em desconto das que fizeste chorar_.
--Que celebreira!--disse Almeida.--Quem havia de esperar isto d'um padre tão patusco!
E mais nada.--_Celebreira_! Que desabrimento com umas ingentes dôres, dobradamente deploraveis, se são quimeras!
Eu, de mim, comprehendi aquella transformação, porque decifrara os segredos d'ella em minha alma. Aos vinte e um annos estudara eu theologia, com o proposito de ir missionar entre os vituperados da loucura da Cruz. Recahi, propellido pela zombaria do mundo; mas aprendi a não zombar.
* * * * *
Por aquelle tempo, um cavalheiro de Basto, o sr. Paulino Teixeira Botelho, murava um terreno lavradio que nos annos anteriores fazia parte da feira de S. Miguel, em Refojos. A politica de campanario introduzira a sua garra n'esta contenda de propriedade. O povo, acirrado pelos adversarios politicos do sr. Paulino Teixeira, ameaçara derribar o muro e invadir a propriedade a ferro e fogo. O proprietario, forte do seu direito, e bravo de seu natural, acceitou a luva, aguerrilhou creados e cazeiros, e avisou as authoridades que tomaria sobre si o desempenho dos deveres que incumbiam aos fiscaes da segurança publica.
Os amotinados eram, pela maior parte, jornaleiros, soldados com baixa, a ralé infima das aldeias, poucos lavradores e alguns cazeiros de cazas afidalgadas. Entre estes, sobrepujavam na investida e na bravura da excitação um Manoel Fialho, que havia sido lacaio de Alvaro de Abreu, e áquelle tempo era seu feitor em duas quintas nas margens do Tamega. Fôra elle quem arremettera primeiro ao muro, e aperrara um bacamarte ao peito de um creado da casa aggredida.
Rompeu a espingardaria, menos trovejada que o alarido da multidão. As balas zuniam na ramagem dos castanhaes. Milhares de pessoas, de envolta com o gado espavorido, despejavam a feira. O povo inerme açodava com o alarido os combatentes. Dos de fora, alguns cahiam feridos, outros baqueavam sob os muros derruidos.
O mais pimpão, Manoel Fialho, cahira atravessado por um pelouro do peito ás costas. Acudiram a levantal-o do chão lamacento alguns dos seus sequases.
--Quero confessar-me!--rouquejava elle.--Levem-me onde esteja um padre!... depressa que morro!
Olharam em redor, e viram um sacerdote que, de mãos postas, sem receio das balas que lhe sibilavam perto, pedia ao povo que se retirasse.
--Além está o sr. abbade de Santa Eulalia!--exclamou um dos amparadores do agonisante.
Outro correu a dar lhe parte de que estava alli um feitor do fidalgo de Refojos mortalmente ferido que se queria confessar.
--Trazei-m'o depressa, eu o espero n'esta primeira casa...--disse o abbade.
O moribundo, nos braços de dois homens, entrou para um quarto onde o esperava o confessor. A confissão e a vida duraram-lhe dez minutos.
* * * * *
Alvaro de Abreu, quando, ao fim da tarde, lhe disseram que Manuel Fialho, antes de expirar, pedira um confessor, e morrera nos braços do abbade de Santa Eulalia, accusou nas alterações de côr e fixidez dos olhos alvoroço afflictivo.
Os dois filhinhos, conduzidos pela dispenseira, iam beijar a mão do pae para se deitarem. Alvaro quedou-se entre elles, prostrado em uma cadeira, abstrahido, emquanto as creanças lhe contavam a batalha da feira, imitando a troada dos tiros com a bocca, e a estrategia com umas manobras infantilmente graciosas. A dispenseira, cuidando que o pae se entretinha com os pequenos, retirou-se admirada. Era raro deter-se Alvaro cinco minutos com os filhos; e, quando elles se demoravam, afastava-os desabridamente.
N'este comenos, annunciou-se o abbade de Santa Eulalia.
Abreu levantou-se de golpe, fincou na cabeça os dedos engriphados, e resmoneou:
--É certo...
O creado, que dera o annuncio, esperava a resposta.
--Que entre!... e leva estas creanças...--disse Alvaro.
O creado foi á sala de espera, e fez signal ao abbade que entrasse pela porta da direita.
--Deixe ir commigo os meninos--disse o abbade, tomando-lh'os cada um em sua mão.
As creanças, pondo no rosto caricioso do velho os seus grandes olhos, iam alegremente, saltando sobre um pé, e floreando as suas espingardas de cana fabricadas expressamente para darem aos creados um simulacro do tiroteio d'aquelle dia.
--Com licença. Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo--saudou o abbade á entrada da sala introduzindo as creanças.
--Entre!--disse o fidalgo.
O missionario, entrado á salla, fechou a porta, e disse:
--As creanças podem entrar por que são anjos, e não entendem as nossas palavras. Em nome d'ellas, tenho de pedir: e ellas pedirão commigo.
Alvaro de Abreu escutava-o em pé, immovel, hirto. O abbade mal o divisava na quasi escuridão da vasta quadra, assombrada de castanheiros seculares.
--Sr. Alvaro de Abreu,--proseguiu o abbade com a voz tremente--ouvi de confissão, em artigo de morte, Manuel Fialho, o homem que matou João Pacheco, com a pancada de um mangual na cabeça, e á traição, na _Barroca das duas fontes_, ao anoitecer do dia 11 de novembro de 1851. Este homem só comprehendeu e temeu a justiça divina quando se sentiu varado por uma bala. Eu venho rogar a V. S.^a que comprehenda e tema a justiça divina manifestada na morte violenta de seu creado Manuel Fialho, homicida do innocente João Pacheco. Não lhe direi que se tema da justiça humana, por que o unico homem que podia accusal-o é morto; e eu não o accusarei na terra; porém, se Deus chamar a minha alma a depôr no tribunal divino, direi que de mãos postas e na presença de seus filhinhos, lhe pedi que se curvasse pela contricção e pela penitencia aos pés de Jesus Christo misericordioso.
E ajoelhou aos pés de Alvaro com as creancinhas adiante de si.
--Levante-se, sr. abbade!--balbuciou o marido de Irene, erguendo-o nos braços--Eu sou um miseravel, sou indigno da sua estima... Perdoe-me as injustiças que lhe fiz...
--Não tenho que perdoar... Adeus, anjinhos--disse o padre beijando as creanças--Ide ver-me algumas vezes á residencia, que eu vos ensinarei a orar a Deus por vosso pae e... por vossa mãe.
--A mamã? onde está?--perguntou o menino mais velho que tinha quatro annos.
O abbade passou o canhão da batina pelos olhos, e sahiu.
A voz lamentosa do padre soou no dezerto, as lagrimas cahiram sobre o penhasco esteril.
Alvaro desdava as roscas da serpente do remorso sem grande esforço: era atheu. Bazofiára sempre de _racionalista_; mas da sua razão era excluido Deus. Acreditava, tal qual vez, nas vantagens sociaes da virtude, e nos perigos do crime; mas para alem da torrente negra da morte não acceitava se quer a discussão absurda.
Apalpava-o agora duramente a desgraça. Havia um homem que podia accusal-o de assassino covarde; tinha uma esposa adultera que passeava ao grande sol das praias e das praças o seu escandalo; rareavam á volta d'elle os cavalheiros considerados; acanalhavam-no os scelerados que se acolhiam ás suas quintas; as authoridades judiciarias, açuladas pela imprensa, aguilhoavam os regedores a assaltarem-lhe as cazas. Perderam-lhe o respeito, e até nos periodicos o amalgamavam com os hospedes, invocando os manes dos condes de Regalados.
Convulsionavam-no phrenesis, exasperos que ninguem mitigava com o amor ou com os linimentos da amisade. Os risos das creanças irritavam-lhe a mysantropia. Era-lhe impossivel a quietação, e baldado o paliativo das deleitações brutaes.
Deliberou viajar. Não podia vender quintas sem o consenso da mulher. Hypothecou-as com enormes uzuras. Embolçou dinheiro á farta para demoradas viagens, e sahiu, entregando os filhos a uma cunhada, esposa do irmão morgado.
Desde 1857 a 1861 triumphou a vida nas principaes cidades da Europa. Conheceu todos os salões e todos os antros. Viu a devassidão no espavento das pompas do Louvre, onde as duquezas apresilhavam diamantes nos bicos dos peitos, e remirou-se nos grandes espelhos dos bordeis em que as mulheres, nuas como as bacantes, se espreguiçavam sobre diwans, com os seios aljofrados de perolas, e os cabellos aromatisados de grinaldas de jasmim. Em Veneza, Milão, Pariz, Londres, Madrid, em todas as cidades capitaes comprava um _daumont_, dois cavallos, e uma mulher das mais cotadas: ás vezes, comprava duas mulheres e quatro cavallos. Chamavam-lhe _conde_, por que nos seus trens fizera pintar a corôa dos Abreus, condes do Pico de Regalados.
D. Irene viajava simultaneamente com Jacques Smith. Uma vez, no Prado, em Madrid, o _phaetont_ de Smith perpassou pelo _break_ de Alvaro que boleava. Refestelavam-se nos coxins duas francezas do café-concerto. Jacques acotovellou Irene, e disse-lhe risonho:
--Aos pares, hein? e tu a imaginal-o a semear calondros em Basto...
Irene chorava.
--Por que choras?
--Por meus filhos que não tem pae, nem mãe, e hão de ficar pobres.
Alvaro avistára a mulher, cravara-lhe os olhos indecisos, reconheceu-a, e não tenho a certeza se lá no intimo de sua pessoa lhe chamou _descarada_.
É natural que sim.
O _honesto_ era elle.
* * * * *
Em 1862, um padre que administrava as quintas de Alvaro de Abreu não achou uzurario que lhe adiantasse mais dois contos de réis que o fidalgo pedia com urgencia. Um legitimista minhôto que visitara D. Miguel na Allemanha propalou que vira Alvaro de Abreu em Florença muito doente, descarnado, tossindo, com o peito retrahido, as gengives brancas e as orelhas seccas. Os uzurarios enfiaram de pavor. Se elle morresse, a viuva e os orphãos, alegando lesão enormissima e illegallidade dos contractos, levantar-se-hiam com os rendimentos hypothecados das propriedades. Alvaro esperava em Londres a lettra. O padre-mordomo enviou-lhe algum dinheiro, desculpando os capitalistas com o boato da sua infermidade.
Resolveu repatriar-se, a fim de restabelecer-se no Minho. A sua doença era o corollario da libertinagem: a cachexia. Os medicos francezes aconselharam-lhe as aguas mineraes de Cauterets nos Pyrineus. Mudou de rumo. Era-lhe grata a esperança de voltar á patria restabelecido e gordo para desmentir o legitimista. Bebeu as aguas sulphuricas de Cauterets, consummou o esphacelamento dos intestinos baixos, e morreu medicinalmente. Alem de um titular portuguez que lhe assistiu na morte, e enviou a Portugal a noticia, ninguem, por affecto ou caridade, lhe humedecêra os beiços na derradeira febre. Contou o titular a José de Almeida que o tal Abreu tinha um pasmo de olhos horrendo quando agonisava.
Veria o espectro de João Pacheco?
* * * * *