Part 2
--Em que ficamos?--rematou José de Almeida--deixe lá o sermão.
--Vamos fallar com o Abreu: e ou elle desiste de se bater, ou nós declinamos a missão.
--Pois não se demorem, que João Pacheco já está escrevendo as suas disposições testamentarias.
* * * * *
Com quanto a bravura não fosse o predicado mais proeminente do amador de Irene, deu-se n'elle um phenomeno de heroismo que pertence aos milagres do amor. A nova, que os pallidos agentes lhe levaram, apenas o desfalleceu por instantes. A imagem da prima foi-lhe como a visão de Pallas aos guerreiros da Grecia de Homero, acoroçoando-lhe alentos sobre naturaes á sua indole.
--Pois morreremos!--exclamou elle com ar de Leonidas no desfiladeiro das Thermopylas.
--Resolves então morrer?--perguntou um dos padrinhos.
--Que remedio?!
--Arranja outras testemunhas...--intimou o segundo padrinho--Nós temos deliberado abrir mão d'esta asneira. Se te batesses por um motivo serio, _verbi gratia_, se o Pacheco te deshonrasse uma irmã ou coisa semelhante, ou te chamasse algum nome injurioso, ladrão, _verbi gratia_, então estariamos ao teu lado, e até seriamos os primeiros a defender-te com as armas na mão; ora agora matar-se um homem a troco de uma chalaça que não vale dois caracoes, isso é a bestialidade maior que pode praticar um homem, se não está doido furioso! Lá que tu, _verbi gratia_...
--Não dês mais razões--atalhou Alvaro de Abreu--Procurarei outros padrinhos...
Altercaram até ás dez e meia da noite. Um dos dois bracharenses, que argumentava valentemente com o recheio do _verbi gratia_, repetiu as sans doutrinas do conselheiro Rodrigues de Bastos, peorando-as na linguagem. O certo foi que a pertinacia do sensato amigo vingou abalar o animo renitente do Abreu, a ponto de lhe incutir por um lado da alma o raciocinio e pelo outro lado o medo.
Entretanto, no quartel do morgado de Val-Escuro occorriam cazos notaveis. José de Almeida, encontrando ás onze horas da noite o abbade de Santa Eulalia, que vinha de fazer a partida de voltarete á morgada de Athey, disse-lhe ao ouvido:
--Os homens matam-se amanhã ao romper da aurora. O sol quando nascer... verá dois cadaveres.
O abbade não duvidou. A catadura do portuense tinha os assombros da catastrophe.
--Jesus, santo nome!--exclamou o padre--Eu vou avisar o regedor, se me dá licença; e quer dê quer não, o meu dever é evitar tal desgraça.
--Não evita nada, abbade. O regedor só pode prendêl-os no conflicto de transgredirem a lei. Quem sabe o logar onde elles vão matar-se!?
O abbade apertou o passo, retrocedendo para caza de D. Helena. Entrou offegante e roxo. Assoprava as palavras e embebia no lenço vermelho as bagas de suor que lhe bolhavam na testa. Referiu o que soubera de José de Almeida. Irene, que estava ceando bifes de cebolada, foi logo atacada de hysterismo, e a mãe arrotava nas ancias spasmodicas do flato. Outro padre que ali estava, capellão e administrador da casa de Athey, pegou a declamar contra a relaxação do paiz, desde 33 para cá.
--Sr.^a morgada!--alvitrou o abbade atalhando a objurgatoria politica do outro--aqui perto de nós mora o sr. João Pacheco. Se v. ex.^a quer, vamos lá. É impossivel que este cavalheiro resista ás reflexões de uma senhora que elle tanto venera!...
--É já--assentiu D. Helena cobrindo-se com o chale, e recommendando ao capellão que fizesse companhia á menina.
Quando entraram, havia conferencia entre os padrinhos de Alvaro e José de Almeida. João Pacheco, segundo o estylo, não era prezente; mas, contra o estylo, em taes andanças, estava a dormir. Foi chamado para receber a visita da sr.^a morgada. Espertou estrouvinhado, e foi á salêta onde a senhora dialogava anciadamente com Almeida e com os outros, á cerca do desafio. O portuense havia já annunciado que as condições mortiferas do duello estavam modificadas. Abreu, coagido pelos padrinhos, prescindira de morrer, e propunha o combate nos termos communs.
Afim de applacar as agonias flatulentas da viuva, Pacheco asseverou-lhe que não haveria ferimento de perigo. Quanto a recuzar-se ao desafio, consoante a dama rogava, allegou que a sua dignidade lh'o prohibia. Redarguiu a consternada senhora que ia pedir a seu primo Alvaro que desistisse do duello.
--Se elle desistir--observou Pacheco--tem v. ex.^a conseguido o seu bom intento; mas colloca o seu parente em má posição perante os cavalheiros em quem confiou a desafronta da sua imaginaria deshonra. Vá descançada, minha senhora. O seu futuro genro não soffrerá mutilação de especie alguma. O nosso combate será um simulacro de esgrima, uma especie de gymnastica de sala com espadas sem ponta nem gume.
* * * * *
Ao repontar da manhã, atravessamos o Vizella por umas alpondras sobre as quaes se encurvam hoje os arcos da Ponta nova. Trinavam ainda os rouxinoes nas margens frondosas do rio, e ao longe assobiavam melros e grasnavam as pêgas nos pinheiraes. A corrente murmurosa trapejava nas franças dos amieiros debruçados á flôr da agua. D'ahi ladeamos o banho do _Mourisco_, á volta do qual estavam umas mulheres aldeans espulgando-se nos seios com um despejo digno da innocencia da Arcadia. Os homens respectivos escodeavam as callosidades calcáneas ou attarracavam tachas nos tamancos. Depois subimos uma charneca declivosa por onde hoje se alarga e complana a estrada de Penafiel, e entramos em uma encosta de tojeiras e sargaçaes. Carregamos á esquerda, fraldejando o outeiro por sobre o bravío, e emboscamo-nos por boiças de carvalheiras até encontrarmos uma clareira chan e menos accidentada.
--É aqui--disse Almeida aos padrinhos de Alvaro.
Os combatentes despiram as quinzenas e os colletes.
Os pulsos de Alvaro negrejavam cabelludos e quadrados, de uns que o povo diz que _tem só uma cana_, como signal de rijeza inquebrantavel: os dedos eram pennugentos e trigueiros, com as unhas sujas. As mãos de João Pacheco eram magras, translucidas e depauperadas do bom sangue que tinge a epiderme. O que me deu a mim alento e esperança na victoria de Pacheco, foi o sereno e risonho aspeito do moço, e a confiança na arte que neutralisa os impetos da força.
Rompeu o combate á voz de João de Almeida. Alvaro de Abreu--cazo singular!--fechou os olhos, e floreou a espada em sarilho tal que o adversario lhe cedeu terreno, aparando-lhe uns botes, e esquivando o embate dos outros. Eu seguia anciado aquelle vertiginoso redemoinho do aço que lampejava, e o tinído asperrimo das laminas. João Pacheco bradou:
--Páre la!
Alvaro estacou, provavelmente cuidando que o adversario estava ferido.
--Este homem--disse o outro ás testemunhas--fêcha os olhos, não se defende, e eu involuntariamente posso matal-o!
--Se me permitte uma reflexão,--interpoz-se Almeida dirigindo se a Alvaro de Abreu--o sr. está enganado com o seu systema de esgrimir ás cegas. Como hade ver a espada do seu contendor?
--Não sei jogar espada--respondeu elle--Faço o que sei e posso.
--Vejo que pode: mas o que sabe é perigoso--contestou Almeida--V. S.^a era ja cadaver, se o quizesse o sr. Pacheco. Bata como quizer, mas veja o que faz: abra os olhos.
--Parece-me acertado--obtemperou um braguez com assentimento do outro.
Recuaram ao ponto designado no terreno. Rompeu Alvaro no mesmo estylo de _pancada de cego_, mas com os olhos coruscantes e esbugalhados. João Pacheco fez-lhe um golpe dos primorosos da arte, o _coup de manchette_, no antebraço, sobre os tendões que inserem no pulso, com dexteridade e limpeza dignas das artes bem fazejas. Estava desarmado o possante Abreu. O discipulo do Chico Bellas honrára o mestre.[2]
* * * * *
João Pacheco almoçou com José de Almeida para, em seguida, se recolher á sua casa do Arco. Percebia-se-lhe um aborrecimento penoso do successo. Confessou que tinha vergonha de ter ferido um homem que desconhecia o jogo das armas e fechava covardemente os olhos. Retirava-se para evitar o espectaculo em que havia de exhibir se logo que a triste façanha se divulgasse.
Acompanhamol-o até Guimarães. Aqui nos disse elle:
--Não vos admireis, se um dia vos constar que fui assassinado á traição. O rancor do Abreu hade respirar seja por onde fôr. Na familia antepassada deste homem ha crimes que dariam materia para um romance sanguinario. Os proprios parentes dizem que o pae de Alvaro matára o irmão para lhe succeder no vinculo, e matára um cunhado para administrar e desfalcar a caza da irmã. Era capitão-mór e amordaçava as suspeitas. Este filho herdou-lhe a indole; mas, aquecido ao sol de outra civilisação e mais cultivado que o pai, supura-lhe a peçonha na lingua. Não o temo a elle; mas devo acautelar-me dos facinorosos que acoita em sua casa, como se prevalecessem ao novo systema as antigas _Honras_ dos paços senhoriaes.
Quando voltamos de Guimarães, Alvaro de Abreu passeava na estrada, de braço ao peito, com as primas e com o abbade de St.^a Eulalia.
--Iamos agora mesmo visital-o, sr. Abreu--disse José de Almeida--Ainda bem que o encontramos excellentemente disposto.
--Estou bom--respondeu seccamente.
--Fêl-a bonita o sr. Pacheco!...--invectivou D. Helena.
--Ainda hade topar quem lhe abata as basofias...--accrescentou a filha, chibatando com o guarda sol um festão de madre-sylva.
--Minhas senhoras--contrariou solemnemente José de Almeida--o sr. João Pacheco procedeu com extremado cavalheirismo.
--Muito cavalheiro! pois não!--replicou D. Irene sarcasticamente com uns esgares lôrpas.
--Com toda a certeza, muito cavalheiro--insistiu o portuense.--Aqui está o sr. Alvaro de Abreu que me não desmente.
O invocado respondeu grunhindo:
--_Hum_.
E Almeida proseguiu:
--Se V. Ex.^{as}, minhas senhoras, não negassem a honradez generosissima de João Pacheco, eu teria a conscienciosa obrigação de appellidar infame quem lh'a duvidasse. Assim, pedindo venia a V. Ex.^{as} para não dar pezo á sua opinião em materias tão alheias do seu juizo, sustento que é um biltre quem negar o cavalheirismo de João Pacheco na pendencia que teve esta manhã com o sr. Alvaro de Abreu.
E, fitando-o, esperava resposta, que não logrou.
--Acabou-se!--interveio o abbade--com aguas passadas não móem moinhos...
--Diz bem, sr. abbade--applaudiu a morgada velha.--Não se falle mais n'isso.
--O que eu sei--ajunctou Irene--é que, no anno passado, gosamos em Vizella dois mezes deliciosos; e este anno veio aquelle sr. Pacheco lá de Lisboa perturbar a nossa alegria com as suas prendas de jogador de espada.
José de Almeida sorriu-se com o mais caracteristico gesto de mofa, abaixou a cabeça sem se descobrir, e retirou-se sacudindo a calça com o chicote de baleia.
Montado no cavallo de que apeara, quando avistou o grupo, disse-me rubro de colera:
--Aquella mulher fez-me acreditar que é possivel dar-se um pontapé na parte posterior do merinaque de uma senhora.
* * * * *
Quando, por fins de junho, sahimos de Vizella, mexericava-se que um rapaz do Porto, oriundo de familia ingleza, e celebrado por vinte e sete fraques que estadeava com os respectivos coletes, fôra visto, á claridade da lua cheia, cochixar com Irene, elle no quinchôso e ella no muro do quintal.
Em fins de julho, José de Almeida, no encalço d'uma liteira portadora de certo objecto amado, voltou a Vizella, e observou uns aleijões psycologicos na enfermidade chronica, chamada o sexo pelas senhoras de Basto.
A saber:
Irene, admittida aos saráos e passeios das illustres familias da Torre da Marca, Machados Pindellas, Guedes da Costa, Alentem, Infias e Paço de Sousa, ouvira motejar de Alvaro, á conta do desafio, por causa das grutescas arremettidas de esgrima pelo systema obsoleto da _cabra cega_. Alguns fidalgos, ás vezes, no meio das salas, sem se resguardarem da morgadinha, fechavam os olhos e terçavam as bengalas com attitudes farcistas. As gargalhadas atroavam, e Irene disfarçava o despeito, perguntando ás visinhas que brinquedo era aquelle. Afinal teve uma sincera amiga que lhe explicou o libretto d'aquellas pantomimas, mettendo a rizo o Abreu.
Coincidiu então a chegada do sujeito dos vinte e sete fraques a Vizella, galhardeando em prendas de sala, e _savoir vivre_ com mulheres, mui distinctamente. De feito, Jacques Smith, educado em Londres, enfarinhado nos ademanes francezes, enfronhado em vaidades de fidalgo que tinha os ossos do seu patriarcha saxonio na Palestina, elegante e quasi intelligente, formava de tudo isto, reunido aos vinte e sete fraques e respectivos coletes, uma personalidade capaz de sensibilisar damas no uso de caldas e amor.
A frescura montezinha da filha do capitão-mór de Athey, a garridice um tanto canhestra, os seus saltos de ovelha espantadiça, e o fluido do olhar que ella derramava remirando-o de esconso, escandeceram Smith. Era atrevido como todos os sujeitos de cerebêllo grande, onde demora a bossa da _amatividade_. A lua cheia de junho e julho viu coisas que a poesia costuma idear nas varandas das Julietas, e que a prosa espreita em qualquer horta de couve gallega por entre festões de abobora-menina.
O bacharel Abreu não viu tanto como a casta lua; mas farejou. O rival tinha o prestigio que esmaga com a superioridade. O coração do homem trahido abysma-se a chorar na consciencia que diz: «Eu valho menos que o meu rival». Enfureceu-se, e vozeou rusticidades á prima, que lh'as escutou como quem as recebe impassivelmente com a condição de prejurar. Não se desculpou nem carpiu. Aborrecia-o, porque era irrisorio desde o duello, e porque estava perdida d'amor, fulminada por Jacques Smith, bom typo da perfeição viril, tirante as escrofulas cicatrizadas no pescoço.
Alvaro de Abreu foi para a sua aldeia. Jacques voltou em principios de agosto, com José de Almeida, para a praia da Foz.
Perguntando-lhe Almeida se a morgadinha de Athey passára á historia, respondeu:
--Pois então!
--Era uma rapariga fresca...--tornou o outro.
--Sim, fresca e indigesta como a melancia.
* * * * *
Em uma gazeta do Porto, de 15 de novembro do mesmo anno de 1851, lia-se esta correspondencia datada no Arco:
_Esta villa soffreu a perda irreparavel de um cavalheiro consummado em toda a extensão da palavra e representante de uma familia, talvez a mais illustre das provincias do norte, pois entre os seus avoengos se conta o grande e immortal Duarte Pacheco Pereira, por antonomasia o «Achilles lusitano», e o «Leão dos mares».
Hontem de manhã sahira o sr. João Pacheco a visitar uma sua prima em Refojos de Basto, onde passou o dia até ás 4 horas da tarde. O cavallo em que montava era um pôtro não educado ainda, e comprado nas manadas hespanholas que vieram à feira de S. Miguel. Os seus amigos, posto que João Pacheco fosse optimo cavalleiro, muitas vezes lhe observaram que os caminhos precipitosos destas aldeias eram improprios para ensinar pôtros. Fiado, porém, na destreza do pulso e firmeza de joelhos, o temerario cavalleiro rompia por esses algares e barrocaes com um denôdo digno de melhor emprego. Realizaram-se funestissimamente as previsões dos seus amigos.
Ao luzco-fuzco entrou pelo portão da caza de Val-Escuro o pôtro sem o cavalleiro, com as redeas e bridões despedaçados. O mesmo foi levantar-se na caza um clamor a que todos os visinhos acudiram. João Pacheco era extremosamente amado por trez tias, respeitaveis senhoras, que não viam outra coisa n'este mundo. Amigos e creados, sahimos todos pelo caminho de Refojos; e a meia legua de distancia, em um barrocal fundo e lamacento (espectaculo doloroso!) encontramos o cadaver de João Pacheco, de bruços, com as mãos submersas no lamaçal, e sem gotta de sangue que denunciasse o orgão ferido. Como era já escuro, e o cadaver só podia levantar se depois do exame judiciario, ali ficamos alguns amigos até ao dia guardando os despojos de tão nobre moço, desastradamente morto na flor da vida! O cirurgião examinou-o, e apenas lhe encontrou o craneo amolgado, sem extravasação de liquidos, excepto dois fios de sangue que derivavam do nariz. Presume-se com bom fundamento que o cavallo o cuspira contra uma rocha angulosa que forma um dos vallados da barroca; por que tambem na palma da mão direita mostra contusões resultantes de se amparar contra as escarpas do penhasco. Não pode attribuir-se esta catastrophe a outra causa que não seja a queda. Se fosse homicidio, seriam outros os vestigios de ferimentos; alem de que, João Pacheco era bem-quisto, honestissimo, respeitador da honra das familias, não obstante haver sido creado e educado em Lisboa. Alem de rico, era um gentil moço; pois não consta que deitasse a perder alguma d'essas centenas de moças pobres que se consideram felizes quando os fidalgos as levam á vereda da deshonra.
Nós, os seus amigos, choral-o-hemos em quanto as suas virtudes lembrarem como exemplo a filhos e a cidadãos. Que descance na perpetua morada da virtude o tão chorado mancebo; e peça ao Altissimo resignação para as suas inconsolaveis tias_!...
Quando li compungido esta correspondencia lembraram-me as palavras de Pacheco, na ultima hora em que o vi: _Não vos admireis, se um dia vos constar que fui assassinado á traição_. Communiquei a minha desconfiança a José de Almeida.
--Palpita-me que foi assassinado pelo Abreu!--concordou o meu amigo, e accrescentou:--Escrevo hoje ao abbade de St.^a Eulalia, citando-lhe as palavras de João Pacheco, e pedindo os pormenores do desastre.
O abbade respondeu que eram infundadas as nossas desconfianças: por quanto, no dia 11, em que João Pacheco perecêra, estava Alvaro de Abreu na feira de S. Martinho em Penafiel com elle abbade e com as senhoras morgadas de Athey; e que por signal n'esse dia perdêra o Abreu cento e tantas moedas de ouro ao monte, á vista de dezenas de pessoas que nunca o tinham visto jogar...
E rematava a carta d'este theor:
_Os namorados fizeram as pazes. A pequena veio das Caldas muito coada de côres e com grandes... olheiras.--(ia a escrever «orelhas») Nos primeiros dias, enfanicava-se a cada passo, e dava uns ais romanticos como as damas de Basto de 1825_. Infandum... renovare dolorem. _Depois, a mãe, que tambem é matreira de 1825, escreveu ao Abreu dizendo-lhe que sua filha era victima da ingratidão d'elle. Aquella «lua cheia» de Vizella, de que V. S.^a me fallava, não foi ouvida a tal respeito. Ora o Abreu quer me parecer que sabia pouco menos que a referida Tetis, e que o janota luso-britannico de que reza a chronica escandalosa das thermas romanas no corrente anno, 1890, da era de Cezar. Porém como o patrimonio d'elle é magro, e as fazendas de Athey são de encher (e de fechar) o olho, V. S.^a verá que, a final, a morgadinha, embora não tenha que desatar a cinta virginal, apanha marido, parente, fidalgo e bacharel. Se, depois, as costellas lh'o pagarão, isso não é da minha conta. Lá se avenham; mas melhor será que elle se resigne, e feche os olhos como no duello, por quanto saco com honra e proveito é raro, ou não o ha, se o anexim é tão verdadeiro, quanto eu sou de V. S.^a amigo e venerador_, Abbade Silva.
* * * * *
No anno seguinte, a floresta de amieiros do Vizella já não deu sombra e frescura a nenhum dos seus hospedes do anno anterior.
A José de Almeida e a mim figurou-se-nos que as frondas do salgueiral afestoavam um tumulo. Doeu-nos pungentissima a saudade de João Pacheco. Nunca mais alli voltámos.
Estavam nas Caldas a morgada velha e o abbade de Santa Eulalia.
Irene e seu marido Alvaro de Abreu esperavam-se mais tarde.
Esperava-os D. Helena; mas o abbade secretamente nos disse que D. Irene nem o marido tornariam a Vizella em dias de sua vida. Segredou-nos que a morgadinha, ao oitavo dia de cazada, tentara fugir para a mãe...
--Oh!--exclamou Almeida--ao oitavo dia! que lua de mel!
--A meu ver--piscou o abbade entortando a bocca disformemente--esta lua de mel recebia a luz reflexa d'aquell'outra _lua-cheia_ aqui das Caldas, tão sua conhecida, sr. Almeida...
--Maganão! o abbade é o calendario de todas as luas que alumiam ha trinta annos os amores nocturnos de Vizella...
--O que o sr. não sabe é que o marido lhe bate ás cegas...
--Sim? Agora vejo que o homem, no duello, obedecia ao costume.
--E, quando sahe, fecha-a n'um quarto de cantaria que lá chamam a «torre,» e até dos creados a zela!
--Que amor, e que conceito ella lhe merece!--disse Almeida com a seccura ironica do seu genio quando as situações demandavam piedade.
--Eu vi-a ha quinze dias na egreja de Refojos. Que mudança! Está escaveirada, sem atavios, o desalinho da desgraça... Fez-me compaixão! O marido estava á beira d'ella; não pude se quer dizer-lhe que fugisse.
--Mas a mãe... assim a deixa desprotegida?
--A mãe definha-se; e não sabe tudo o que ella soffre, porque a filha não se queixa...
--Não intendo essa resignação!--objectou Almeida.
--Intendo-a eu. Irene era descompassadamente estupida a respeito de certas coizas...
--A respeito de todas, pensava eu--emendou o portuense.
--Cuidou que o matrimonio era o concerto de certos aleijões com que fôra d'aqui de Vizella.
--Fez do marido algebrista, percebo.
--É isso; mas o bacharel tem lá os seus _Provarás_...
--De cacête, eim?
--E a mulher tem medo que o marido peça contas á sogra dos desatinos da filha.
--As meninas que em taes condições se casam, não temem as mães, abbade. Casou ella livremente?
--Com toda a liberdade, e contra a vontade da mãe. Tanto assim que a velha, prevendo que o Abreu seria máo esposo, entregou-lhe simplesmente o que era do pai da noiva: setenta mil cruzados em propriedades. A casa vale o trezdobro. Foi velhacaria muito louvavel: por que dizia ella:--se o marido a maltratar, ameaço-o com a privação do meu dote, que é privilegiado e izento da meação da caza--É o que ella está ensaiando: já annunciou a venda de duas quintas. Veremos como elle se porta...
--Por essas duas quintas fechará o genro os olhos ao passado e ao futuro. Elle bem sabia que Irene o despresou pelo Jacques Smith. Que alentado canalha salpicado de brazões? Não posso despersuadir-me que foi elle o assassino do infeliz Pacheco...
--Juro que não foi: já o defendi.
--Então, mandou-o matar.
--Isso é uma hypothese sem nenhum fundamento. No cadaver de João Pacheco não havia signal de ferro, nem de tiro, nem contusões de pancadas. Foi queda do cavallo, que era bravo. Não dê vulto a essa suspeita aleivosa.
* * * * *
Joeirando as minhas reminiscencias de coisas relativas a Irene, referidas pelo abbade em cartas a José de Almeida, apuro o seguinte, na correnteza dos annos de 1853 a 1855:
Sem impedimento dos dissabores conjugaes, Irene deu á luz o seu primeiro filho, e, mediante o praso restricto para o phenomeno da geração, provou a sua fecundidade com segundo rapaz robusto. D'onde se deprehende que elle a não espancava incessantemente.
Irene vivia mais desopprimida desde que o marido reatara com uma raparigaça barrozan a mancebia interrompida pelo cazamento. Elle pernoitava fóra noites seguidas, e não soffria em caza a menor inquietação com ciumes.
Durante o primeiro anno, raro dia passava que a não atanazasse com perguntas cruamente tôrpes ácerca de Jacques Smith. Depois, parecia esquecido ou reconciliado, se não era antes o receio de que a mulher lhe fugisse e a sogra alienasse as quintas.
No meado de 1855, a morgada velha falleceu nos braços da filha, recommendando-lhe que recorresse nas suas afflicções ao abbade de Santa Eulalia. Desde este dia, recrudesceram em Alvaro de Abreu os desprezos, as injurias e até a diffamação da mulher. Aos seus parentes, que o arguiam de devasso, respondia que lhe era mister aturdir uma deshonra com outras: e, pondo em miudos a phraze amphibologica, delatava a fragilidade ante-matrimonial de sua mulher e parenta.
Apertada pelos insultos face a face, Irene disse-lhe um dia: