Part 11
N'este tempo, o antigo aguazil do corregedor de Barcellos andava muito acautellado das justiças da comarca. A sua reputação de salteador de estradas estava feita; mas as provas que legalisassem a captura eram insufficientes. Os latrocinios de encruzilhada amiudavam-se na Terra-Negra, na Lagoncinha, e nas serras distantes do Ladario e Labruja. Algumas casas afamadas de dinheirosas eram assaltadas por quadrilhas que venciam pelo numero a resistencia; e, quando esses roubos estrondeavam, Luiz Meirinho e outros sujeitos da sua familiaridade nunca estavam em Famalicão ou nas aldeias circumvisinhas. Era sabido que as maltas se reuniam em um grupo de cabanas n'uma cafurna de pinheiros chamados os _Ribeiraes_, não longe da vetusta egreja dos templarios de S. Thiago de Antas. Ainda hoje estão em pé, mas ninguem as habita, essas choupanas execradas pela tradição de serem ahi enterrados os ladrões que voltavam mortalmente feridos dos seus assaltos.
Como quer que fosse, a maledicencia não calumniava Luiz Meirinho, nem elle por modestia escondeu do Faisca a superior cathegoria de capitão de ladrões a que o promovêra a voz publica.
Joaquim ouviu estas confidencias intimas sem pavor nem se quer estranheza. A esquineta era-lhe bastante iniciação para ser admittido aos mysterios da Terra-Negra. O Meirinho encareceu-lhe as vantagens, e desfez nos perigos do officio. Principiando pelo argumento mais insinuante a favor dos ladrões, offereceu-lhe de uma grande sacca dinheiro que elle affiançava ter adquirido sem escandalo nem effusão de sangue. Uma das suas regras de bem-viver era (dizia elle ao Faisca) matar sómente em ultima necessidade: talvez a «justa defeza» que a lei indulta. Romulo, o salteador que fundou Roma, não exhibia idéas mais benignas.
A grangearia de um bravo para a jolda foi facil. O Faisca, em uma das proximas noutes, foi apresentado na estalagem da Lagoncinha aos seus irmãos d'armas, e achou-se em melhor sociedade do que elle previra. Condecoravam a cáfila alguns sujeitos que pareciam andar n'aquella vida aventurosa por amor das impressões rijas: eram artistas, como hoje diriamos. Filhos segundos de casas honradas e coutadas desde os reis da primeira dynastia, recrutas foragidos, desertores, jornaleiros, individuos barbaçudos vindos de longes terras, facinorosos escapulidos das cadeias ou dos degredos, gentes varias, como se vê mas todos alegres, chalaceadores, bem-quistos nas aldeias por onde residiam temporariamente, liberaes nas tavernas com conhecidos e desconhecidos, armados até aos dentes, e, segundo a excellente maxima do capitão, matando sómente em ultima necessidade. A malta, por espirito de imitação, chamava-se _Companhia do olho vivo_. Florecera outra, com egual denominação, na côrte, capitaneada por José Nicós Lisboa Corte Real. Quarenta annos antes haviam sido inforcados os mais graduados da companhia, salvante o capitão, por que era protegido pelo infante D. Antonio, tio de el-rei D. José I. Um dos mais novos d'essa horda de ladrões, que teve um periodo de esplendor, fugindo á perseguição, ainda funccionou na malta do Minho, á qual legou o saudoso nome da outra.
A «Companhia do olho vivo» não prosperou no anno em que o filho de Bento de Araujo se alistou. O terror afastára os passageiros dinheirosos do transito por serras infamadas, e os proprietarios das povoações sertanejas mudaram para as villas e cidades as suas residencias.
No programma de Luiz Meirinho estava desde muito inscripto Bento de Araujo; mas, como ainda ha pessoas de bem, ao capitão repugnava-lhe propor em conselho que se planeasse o expediente maís plausivel na exhumação das tres mil peças do pai do Faisca. Os socios mantinham entre si estes decoros, o que não succede em todas as companhias com estatutos legalisados.
Entretanto, como a necessidade apertava, e á noticia do Faisca chegara a má nova de que seu pai, acariciado por uns sobrinhos de Gondifellos, tratava de se passar para a companhia d'elles, o capitão, forte de rasões aconselhadas pela prudencia e applaudidas por Joaquim, poz em discussão a materia, quando ao modo de obrigar o pedreiro a confessar a lura do thesouro. O Faisca tirou a salvo, porém, que o haviam de dispensar de assistir ao assalto, por que, em fim, o homem... sempre era seu pai, e o sangue gritava. Ninguem se riu na assembléa da sentimentalidade d'aquelle filho: é que as ideias grandes e fundas abalam toda a casta de alma. Foi apoiado calorosamente Joaquim, e até abraçado por um socio de Felgueiras, processado por parricida.
VII
N'aquelle tempo, Famalicão, ás nove horas de uma noite de novembro, negrejava silenciosa e rodeada de pinheiraes e carvalheiras. Aquelles palacetes brazonados com seus titulares campeam hoje onde então rebalsavam extensos nateiros de lama, a espaços habitados por cabaneiros. A quadrilha de Luiz Meirinho podia manobrar sem temor e desassombradamente no centro da villa como nas Rodas do Marão.
Em uma d'essas noites, o chefe, com uma duzia de escolhidos, entrou na Congosta de Enxiras, onde morava Bento de Araujo. Elle, com mais dois, acercaram-se da porta; os outros, postaram se de atalaias nas extremidades da viella.
O pedreiro estava ainda sentado á lareira. Desde que lhe disseram que o filho pernoitava ás vezes em casa do Meirinho, velava até ser dia claro. O receio de ser assaltado era tamanho que já tres vezes, em noites tempestuosas, gritára á d'el-rei. Os visinhos, á primeira, acudiram vozeando das janellas com invulneravel intrepidez, e viram d'essa feita que um porco vadio, attrahido talvez pelo cheiro de possilga, foçava contra a porta de Bento. Depois, ainda que elle gritasse, ninguem se mexia, attribuindo a porco as aggressões incommodas ao avarento.
Foi o que aconteceu n'aquella noite de novembro. O pedreiro sentiu o abeirar-se gente da sua porta, e deu tento do raspar de ferro entre a hombreira e o batente. Gritou; mas parecia já gritar com os colmilhos apertados. A lingua da fechadura estalou, e a porta foi diante de dois possantes hombros tão rapidamente que os homens, como duas catapultas, entraram de roldão, e só pararam filando-se á garganta do velho empedrado. Por entre elles, e á luz do canhoto que flammejava, o pedreiro viu lampejar o aço de uma navalha, e ouviu, atravez dos lenços com que os hospedes cobriam as caras, uma voz disfarçada:
--Se grita, vossê morre aqui já. Se quer viver, entregue as tres mil peças que herdou, e ande depressa. Não nos conte lerias, nem faça lamurias. É decidir: o dinheiro ou a vida.
Bento erguera as mãos supplicantes, e pedira soluçante que o não matassem.
--Onde estão as tres mil peças?--perguntou o Meirinho.
--As tres mil peças?!--gaguejou o velho como tolamente espantado de que lhe perguntassem por tres mil peças não tendo elle de seu tres moedas de seis vintens.
--Mate-se este diabo!--accrescentou o Meirinho--e vamos levantar o soalho.
--Eu não tenho aqui o dinheiro, meus senhores...--acudiu o pedreiro desfeito em lagrimas.
--Então, onde o tem vossê?
--Enterrei-o debaixo de uma fraga...
--Perto d'aqui? Avie-se.
--Não, senhor, muito perto não é. São tres quartos de legua... em Vermuim.
--Bem--concluiu o capitão.--Salte para diante de nós, e venha desenterrar o dinheiro. Mexa-se!
O homem sentiu certos alivios n'esta mudança de situação como se expor a vida, salvando o dinheiro, lhe fosse uma consideravel melhoría de fortuna.
A malta, precedida do velho, embrenhou-se nos matos, atravessou o outeiro que toca nas faldas da serra de Vermuim, e por S. Cosme do Valle trepou ao espinhaço de penhascos que lá chamam o _castello_.
--Vossê não vá afflicto--dizia-lhe o Meirinho--por que hade ter o seu quinhão com que pode viver regaladamente. O necessario não se lhe tira; nós o que queremos é o que lhe sobeja. Somos honrados ou não, seu velhote?
E dava-lhe palmadas nos hombros.
--Sim, senhor--dizia o Bento, e recolhia-se a scismar na situação perigosa em que se via, e no modo de a esconjurar.
--Ande depressinha--tornava o chefe empurrando-o brandamente.
--Será bom ajudal-o com alguns pontapés--alvitrava outro, receando que a manhã lhes viesse tolher a empreza.
Chegados ao cabeço da serra, espigado de rochas, disse o Meirinho:
--Cá estamos. Onde é a fraga?
--Não enxergo bem... Só quando fôr dia é que eu conheço o sitio--respondeu Bento.
--Temol-as arranjadas...--tornou o Meirinho com um sorriso agoureiro de más coisas.--Ó Freiamunde, petisca lume, e faze ahi um archote de codêços para este tio ver onde está o arame.
--Parece-me que o melhor seria alumial-o com a luz da polvora...--observou Freiamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de uma cabaça que trazia a tiracollo.--Quer lá, capitão? Se lhe parece, dou dois goles ao velho como se faz aos perús...
--Tio Bento--insistiu Luiz Meirinho--vossê acha a pedra ou não acha? O dinheiro ficará enterrado; mas vossê tambem fica de papo ao ar á espera que o enterrem. Veja lá no que ficamos; lembre-se que está tratando com homens de palavra.
No entretanto, um da companhia petiscara fogo, e communicara o lume da mecha á manada de fetos sêccos apanhados de baixo de uma rocha que figurava um dolmen.
--Ali tem luz que farte--disse Luiz.--Veja lá agora qual é a pedra, tio Bento.
--Parece-me que é aquella...--respondeu elle a tiritar, já convencido de que estava chegado ás ultimas.
--Parece-lhe ou é?--insistiu raivoso o Meirinho.--Ande. Mostre lá o sitio. Ó Zé Landim, se fôr preciso desenterrar o morto serve-te da tua faca. Patrão, estamos ás suas ordens, diga onde quer que se cave; a cova ha de fazer-se ou para sahir o dinheiro ou para entrar vossê.
Bento cahira sobre os joelhos como ferido de subita apoplexia, e começou a gaguejar uns sons inintelligiveis.
--Este alma de dez diabos que está a mastigar?--disse Freiamunde.
N'este momento, o pai de Joaquim cahiu de borco, batendo com a face na pedra; e, quando dois homens o levantaram de repellão e o viram á luz dos fetos, estava morto.
Este incidente nem levemente impressionou aquelles homens fortes. Ninguem fez a minima reflexão ácerca do lance em theatro tão lugubre. Os mais preoccupados bebiam aguardente a froixo, dizendo que o homem morrera de frio. Nem uma ideia philosophica, nem sequer um dito elegiaco! Luiz Meirinho discorreu brevemente sobre a certeza de que o morto os tirára de casa para os desviar do logar onde tinha o dinheiro. Decidiu que se aproveitasse o restante da noite, indo a casa revolver a terra quanto se podesse; e, no caso de lá não apparecer o dinheiro, viriam na seguinte noite escavar debaixo da rocha, no castello.
Assim se fez. Bento de Araujo ficou deitado de costas sobre uma moita de codeços, com os braços hirtos e abertos em cruz, os punhos cerrados, e os olhos envidraçados de lagrimas. Ao alvorecer do dia, uma nuvem pardacenta, que ondolava pela crista da serra, rasgou-se em saraivada glacial, que lhe batia no rosto e saltava pelo peito nú e descarnado. Chovera e nevara depois, durante muitos dias. Nenhum pastor subira com o rebanho áquellas cumiadas, sempre escondidas na negridão da nevoa, e perigosas se o lobo uiva faminto.
Quando o tempo estiou, quem denunciára o cadaver já disforme no rosto fôra uma revoada de corvos que crucitavam pairando sobre os restos do seu banquete disputado ás feras.
VIII
Contava-se assim o caso em Famalicão.
Que o Bento de Araujo, receando os ladrões seus visinhos, desenterrara as suas riquezas que tinha debaixo da lareira, e indo escondel-as nos montados de Vermuim, em uma noite de grande invernia, morrera tolhido pelo frio e traspassado da neve. Fundavam-se os d'esta versão em que a pedra da lareira estava deslocada, e no seu logar uma cova funda; e debaixo dos bancos da cama outra escavação, e no entulho uns cacos de panella, onde com certeza estava porção do thesouro, e a outra porção debaixo da lareira.
Outro boato:
Que a malta da Terra-Negra assaltára o pedreiro, roubara-o, matara-o, e levara o cadaver ao castello de Vermuim. Não se dava a rasão d'este sahimento a tres quartos de legua; mas tambem não era necessaria a logica para explicar tal coisa.
A versão, porém, mais popular e que tinha o suffragio das pessoas mais rasoaveis, era que o Joaquim assassinára o pai na serra, quando o velho voltava do seu trabalho de brocar pedra; e, depois, deixando-o morto, viera a casa desenterrar o dinheiro. Em confirmação do boato, allegava-se o facto de elle ter apparecido em Famalicão a procurar o pai, e a indagar dos visinhos se tinham dado conta do arrombamento da casa--isto no dia em que o pai já estava morto.
A voz publica forçou a auctoridade a prender o Faisca; mas, na noite seguinte á da prisão, algumas duzias de homens armados arrombaram a cadeia de Famalicão, e tiraram de ferros o innocente.
Esta fuga completou a ruina de Joaquim de Araujo. Acreditou-se geralmente no roubo e no parricidio. As aldeias do julgado de Vermuim, com Famalicão á frente, deram montaria á quadrilha da Terra-Negra, com o reforço militar de Guimarães e Braga. A malta dispersou, mortos alguns dos mais audazes; e os dispersos engrossaram, na Povoa de Lanhoso, a celebrada quadrilha que tem a sua historia em um livro dignamente esquecido.[8]
O filho de Bento pedreiro morreu em 1809 no Carvalho-d'Este, defendendo a patria da invasão franceza commandada por Soult. Bateu se com o heroismo do suicida, ao cabo de desoito annos de salteador, arrostando a todos os perigos, mas fugindo a que o filassem vivo, por que tinha grande horror á forca. Afinal, inscreveram-no entre os valorosos defensores da nossa autonomia, e o seu cadaver foi mais acatado que o do general Bernardim Freire, assassinado por outros patriotas da laia do Faisca.
IX
Hão de lebrar-se que Joaquim de Araujo tinha um filho, que aprendera em S. Martinho do Valle o officio de fogueteiro com o parente de sua mãe.
Aos vinte e seis annos, quando seu pae acabou, estava elle ainda na companhia do velho bemfeitor e mestre, ganhando alegremente o seu pão. Fallecido o parente, alguem lhe disse que elle tinha em Villa Nova de Famalicão a casa, boa ou má, de seu avô, que ninguem lhe podia disputar.
Facilmente se habilitou herdeiro de Bento de Araujo e tomou posse do casebre, deshabitado desde 1790. Ás vezes os mendigos, nas noites quentes, levantavam a aldraba, que era um cavaco de castanho, e albergavam-se no sobrado podre, contando casos horrendos que ali passaram--o parricidio e o roubo. As covas estavam ainda abertas, e o desentulho em monticulos de redor.
Silvestre de S. Martinho, o filho do Faisca, não usava dos paternos appellidos: do pai aproveitára sómente a casa, transigindo com a honra o necessario sem prejuizo seu.
Apossado da casa, deu-lhe um geito para poder habital-a, e pendurou meia duzia de foguetes e bombas reaes á porta. Era habilidoso, principalmente para as bonecas de polvora. Gabava-se de haver inventado o barbeiro a amolar navalhas na roda, e levára á perfeição da indecencia a velha que despedia contra a cara combustivel do barbeiro um repucho de chispas pela parte posterior, tudo com uma graça portugueza que era um estoirar de riso o arraial!
Corria-lhe bem a vida, e já tinha casado com uma rapariga dura e trabalhadeira, quando o descuido de um aprendiz, na ausencia dos patrões, deixou pegar o lume em um feixe de bombas. Houve explosão que sacudiu em estilhas o tecto da casa, e abrasou todas as madeiras. Quando Silvestre voltou com a mulher da romagem da Santa Eufemia, nas terras da Maya, encontrou quatro paredes denegridas, e o interior da casa a fumegar, cheio da brilhante claridade da lua. O aprendiz, carbonizado, estava já na cova.
Tiveram compaixão do pobre fogueteiro os villanovenses. Diziam-lhe que contruisse uma cabana com as esmolas que lhe iam tirar pela freguezia; mas que a fizesse n'outra parte, por que n'aquella casa, onde um filho matára seu pai para o roubar, pezava a maldição de Deus. Um visinho comprava-lhe o terreno da casa amaldiçoada para accrescentar á sua; mas deixava-lhe a pedra que era boa para o fogueteiro edificar n'outra parte. Silvestre acceitou, convencido de que o sangue de seu avô funestára para sempre aquelle theatro do grande crime.
Recebido o terreno de esmola, principiou Silvestre a demolir as paredes da casa queimada. Fazia elle este serviço, com ajuda da mulher, em quanto o carreteiro ia carreando a pedra.
Ás tres da tarde de um sabbado, o carreteiro, consoante o costume, despegara do serviço; mas Silvestre e a mulher continuaram a desfazer o ultimo lance de parede que lhe restava, com o fim de na proxima segunda feira acabarem o trabalho da demolição. Observára o fogueteiro que este lado da parede quadrilatera era mais grossa um palmo que os outros que formavam o recinto, reintrando para o interior o excedente da grossura. Estava coberta de pasta de barro e caleada como as outras. Divisava-se ainda no barro gretado o risco traçado pelo atrito de qualquer corpo que se encostára á cal ainda fresca.
Por esta raspadura, conjecturou Silvestre que ali devia estar o banco da cama do avô, até porque ouvira dizer que parte do thesouro estivera enterrado debaixo da cama; e elle, quando tomara posse da casa, ainda vira a cova aberta, dois palmos distante d'aquella parede.
--A pedra aqui é mais larga--disse o fogueteiro á mulher.
--Agora é!--emendou ella--o que a faz parecer mais larga é a camada de barro; se não, olha.
E começou a picar ao longo da parede com a extremidade aguda da alavanca, e o barro, esboroando-se e desacamando a pedaços, deixava descobrir a superficie da pedra que não era mais grossa que a outra.
--Dizes bem, é isso--approvou o marido.--Vamos apeando a parede por esse lado, que o barro elle se despegará.
E, dizendo, pegou d'outra alavanca e começou a derribar as capas da parede, em quanto a mulher, para não estar com as mãos debaixo dos braços, ia descaliçar a camada barrenta. Quando atirava rijamente com a ponta da alavanca á parede, notou que o ferro batera e se cravara em páo.
--Aqui ha madeira--disse ella.
--É alguma cascaria que tinha mão no barro--explicou Silvestre.
A mulher repetiu os golpes em diversos pontos na circumferencia de dois palmos, e tirou sempre o mesmo som.
--Parece que bate em vão...--notou ella.
--O quê?!--acudiu o marido, descendo do andaime em que trabalhava.--Bate em vão! que dizes tu?!
--É o que te eu digo... Olha... Ouves?
--Ó mulher!--exclamou elle, cravando-lhe os olhos cheios de palpites que a lingua não ousava formular.
E como n'esse comenos passasse gente, e parasse a olhar para as ruinas, o fogueteiro fez um tregeito á mulher, que ella intendeu, calando-se.
--Ajunta a ferramenta, Maria, e vamos embora que já mal se enxerga--disse elle.
--Lá vai a casa do Bento pedreiro, Deus lhe falle n'alma!--disse o mais ancião dos curiosos.--Que dinheirão aqui esteve n'este pardieiro! Cincoenta e seis mil cruzados! Era o homem mais rico da villa e seu termo, e tanta necessidade passava aquelle alma do diabo, Deus lhe perdôe, para a final o dinheiro ser repartido pela quadrilha do Luiz Meirinho, que tambem o levou berzabum com duas balas que lhe metteram na barriga ali á ponte de S. Thiago!
--São fadarios, tio Simeão!...--disse Silvestre.
--Vossê podia a esta hora estar rico como um porco, se tivesse outra casta de pai...--tornou o velho.
--Assim é; mas não o quiz Deus. Desgraças...
--Ora faça vossê de conta que tinha achado ahi o dinheirame do seu avô!
--Ainda venho a tempo!...
--Pois sim; mas faça de conta que o topava! Vossê que fazia, ó sôr Silvestre?
--Eu sei cá, tio Simeão!
--Foguetes é que vossê não fazia mais! aposto dobrado contra singelo!
--Não fallemos n'isso... Foguetes é que eu heide fazer toda a minha vida, e Deus me dê saude para os fazer.
--Amen; mas vossê, se se pilhava com as tres mil peças, mettia a villa toda n'um chinello, e pintava ahi o diabo a quatro!
--Está enganado! não pintava nada... Comprava uns bemzinhos, e havia de trabalhar n'elles, como trabalho nos foguetes.
--Vem d'ahi, homem--disse Maria já aborrecida das impertinentes perguntas do Simeão que, encostado á sachola, parecia jubilar nas pachorrentas hypotheses, e nas delicias de cossar uma perna com a outra alternadamente.
Simeão foi seu caminho com os outros; e o fogueteiro e a mulher seguiram para casa; mas, assim que as portas e janellas se fecharam na rua, ahi estavam elles outra vez sobre o cascalho, raspando com ferramentas pouco ruidosas a parede no espaço em que o som do vacuo respondia ao toque do ferro.
No termo de curta fadiga, tinham descoberto uma superficie liza de madeira, invasada na parede como a portada de um postigo. Facilmente desencaixilharam a tabua do invasamento de pedra, por que não tinha dobradiças nem outra firmeza além da que lhe dava a espessa camada de barro. Silvestre introduziu a mão, e topou um corpo frio.
--Que achas?--perguntou Maria offegante com as mãos postas.
--É uma panella de ferro...--balbuciou elle.--Ó mulher!... tem mão em mim, que não sei o que me dá pela cabeça!...
--Nossa Senhora!--exclamou ella--Nossa Senhora!...
E, em vez de ter mão no homem, metteu ambos os braços até achar a panella, em quanto Silvestre abria e fechava a bocca em tregeitos de tão estupida felicidade, que só a suprema desgraça os poderá fazer iguaes.
N'isto, a rija mocetona arrancava da lura o peso enorme de ouro; e, cahindo de cocoras com o pote no regaço, exclamou suffocada:
--Ai Jesus! que eu morro de alegria!...
Sivestre apertava o ventre com as mãos. Esta postura não é ridicula nem inverosimil para os que sabem que os intestinos quasi nunca são estranhos ás commoções grandes.
Aos primeiros assomos da seguinte aurora, a parede estava arrazada. Os visinhos ouviram o ruido da assolação, e cuidaram que a derribára um pegão de vento.
Mas, na proxima semana, a obra da casa nova parára. O fogueteiro dizia aos seus bemfeitores que ia mudar de terra, e talvez mudar de vida
X
Por esse tempo, um fidalgo da côrte de D. João VI mandou vender as suas vastas propriedades na provincia do Minho. Nos arrabaldes de Barcellos demorava a principal das quintas, que havia sido paço senhorial. Chamava-se a _Honra de Romariz_, e já fôra dote de D. Genébra Trocozende, no seculo XII, casada com D. Fafes Romarigues, filho de D. Egas, que gerara D. Fuas, e tão copiosa e compridamente se geraram uns dos outros que a final degeneraram na pessoa do fidalgo que mandou vender a casa solarenga, para cruzar ricamente uma dançarina sobre os leões rompantes do seu escudo.
Chamava-se Silvestre de S. Martinho o comprador, que contara na mesa do tabellião de Barcellos vinte e cinco mil cruzados em peças de 7$500 réis. Quantos casaes e leiras o filho de Joaquim Faisca poude comprar á volta da Honra de Romariz incorporou-as no cinto de muralha que foi alargando a termos de arredondar a mais vasta e formosa vivenda do coração do Minho.
Em 1826, quando Silvestre já desesperava da fecundidade da esposa, em annos bastante serodios, deu-lhe ella uma menina que se chamou Felizarda. Aos oito annos, a moça, filha unica, e conhecida pela morgadinha de Romariz, já bastante espigada e gorda, levava folgada infancia. Aos dezoito annos, compozeram-se-lhe as feições com proeminencias grandes, mas esbeltas. A fertilidade do peito dizia com a curva tumescente das espaduas. Felizarda tinha uns archejos de cansaço que lhe alindavam o carmim do bom sangue.
Um bacharel formado, que aspirava de longe os olores d'esta flôr de gira-sol, queixando-se da demora que ella posera em chegar a uma festividade de igreja, fez-lhe o seguinte improviso, depois de trabalhar tres dias a rima:
_Eu, que sou fogo, não tardo, ella, que é gelo, é que tarda, Se eu, que amo, feliz ardo, Felizarda feliz arda_.
Ella deu pulos a rir como se tivesse a critica de mad. Girardin.