Novelas do Minho

Part 1

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OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO

_Novellas do Minho_

Volume I

SEGUNDA EDIÇÃO

LISBOA Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA-EDITORA _Rua Augusta, 50, 52 e 54_ 1903

OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

XVII

NOVELLAS DO MINHO

VOLUMES PUBLICADOS

I--Coisas espantosas. II--As tres irmans. III--A engeitada. IV--Doze casamentos felizes. V--O esqueleto. VI--O bem e o mal. VII--O senhor do Paço de Ninães. VIII--Anathema. IX--A mulher fatal. X--Cavar em ruinas XI } } Correspondencia epistolar. XII } XIII--Divindade de Jesus. XIV--A doida do Candal. XV--Duas horas de leitura. XVI--Fanny. XVII } XVIII } Novellas do Minho. XIX }

CAMILLO CASTELLO BRANCO

NOVELLAS DO MINHO

SEGUNDA EDIÇÃO

LISBOA Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA EDITORA _Rua Augusta, 50, 52 e 54_ 1903

LISBOA Officinas Typographica e de Encadernação Movidas a vapor _Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.^o_ 1903

I

GRACEJOS QUE MATAM

Isto de querer ter graça e de fazer rir os outros anda por boa gente no dia de hoje.

Theatro de Manoel de Figueiredo. Censores do theatro, T. VI, pag. 36

Ao Dr. Thomaz de Carvalho

*GRACEJOS QUE MATAM*

Ordinariamente, chamam-se á franceza--_espirituosos_--uns sugeitos dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.

O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da nacionalisação d'aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de caza, outros importados:

Chocarreiro--tregeiteador--arlequim--palhaço--proxinella--polichinello-- --maninêllo--truão--jogral--goliardo--histrião--farcista--farçola--végete-- --bobo--pierrot--momo--bufão--folião, etc.

Esta riqueza de synonimia denota que o _bobo_ medieval bracejou na peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso dar nome ás especies.

Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga _jogralidade_, que era mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa, caustica, implacavel.

Ainda assim o estreme _espirito_ portuguez, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é _chalaça_.

Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel, descontavam n'estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anecdotas.

Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas--nem o terá aqui--orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das rizadas.

O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o politico; mais funesto por que vulnéra melindres--coisa que o callôso peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.

É mais funesto, repito; por que me occorre hoje, regressando das Caldas de Vizella, uma historia funestissima de que só eu posso lembrar me. Duas chalaças terçadas entre dois amigos, cavaram sepulturas de vidas e honras. Se as novellas podessem ensinar alguma coisa, corrigindo aleijões da alma, eu pediria aos gracejadores que lessem isto; e, nas occasiões em que a lingua lhes descabe na bocca, engrossada pela opilação da dicacidade, a refreassem com os dentes.

* * * * *

Era em 1851.

Apresso me a declarar que, no tocante a nomes e localidades, desfigurei tudo, salvo generalidades vagas e o logar em que principia a narrativa. O que menos monta na exactidão da historia é o que ahi se illide. Nomear pessoas e terras seria denunciar inutilmente um crime. O criminoso está diante do Juiz inappellavel, e seus filhos innocentes respeitam-lhe a memoria.

Era, pois, em 1851, aos 15 de junho, nas Caldas de Vizella.

Entre os salgueiros que enverdecem uma ilhêta acima da ponte, que hoje chamam «velha», á hora de sesta, emboscaram-se sete pessoas que preferiam aquelle frescor acre do arvoredo, golpeado por meandros do rio, ao cheiro sulphuroso e até sulphydrico da «Lameira».

O grupo compunha-se de pessoas de diversas procedencias:

D. Helena da Penha, chamada na sua terra a _Morgada velha_. Cincoenta e tantos annos, viuva do capitão-mór de Athey, educada em convento, murmurando da educação e dos costumes do claustro, d'onde sahira com incertos conhecimentos do cathecismo, e alguma instrucção em bisca sueca, e no _Feliz independente_ do padre Theodoro d'Almeida. Excellente senhora que se conteve viuva desde os trinta e dois annos viçosos e temperados sanguinamente para não dar padrasto á filha unica.

D. Irene, a _Morgada nova_, vinte e sete annos, galante, mais menina que a sua idade, cheia de denguices, amimada, acriançando-se em tregeitos e dizeres, descompondo os artificios pueris com uns ares de desgarro e desinvoltura--em bom sentido, aliás.

Decerto já observou, leitor, em senhoras de provincia um desembaraço bronco, um remecherem-se e bacharellarem despropositadamente,--desaires resultantes de lhes haverem dito que o pejo e o acanhamento são indicios de educação aldeã. Estes despêjos improvisados sem delicadeza nem natural, quando topam diversa sociedade em praias ou caldas, dão-lhes ares do que não são, e abrem margem a suspeitas indecorosas; por que ellas, com taes artes, conseguem desornar-se dos commedimentos do pudor.

D. Irene era assim. Depois veremos o que ella era mais compridamente.

Direi agora dos cinco sugeitos do grupo.

O abbade de Santa Eulalia, passante da meia idade, pagão em litteratura, mestre de latim no seu concelho de Cabeceiras. Citava Virgilio apropositadamente. Quando alguem se dizia regalado com a frescura do salgueiral, declamava um trecho das _Églogas_ em que havia _sálices_. Ao sentar-se na corcova do tronco retorcido de um amieiro, exclamava sempre, sibilando as delicias do meio-grosso: _sub tegmine_. Tinha rheumatismo e contava muitos cazos milagrosos d'aquellas aguas, e outros cazos de amores que alli passaram, quando elle acompanhava sua mãe, no tempo em que as senhoras de Cabeceiras de Basto por la faziam (dizia elle) o seu _S. Miguel_ d'amor. Em _cavaco_ de homens, gretava-lhe a indole, e declarava-se o personagem ou protogonista dos cazos attribuidos a terceira pessoa em prezença das morgadas. Honestava com citações de Ovidio (_Ars amandi-passim_) a lubricidade dos peccados da sua juventude: e dizia com uncção de velhaco: _Delicta juventutis meoe_, suspirando. Ás vezes, encontrando senhoras sertanejas de Basto, acotovelava o companheiro de passeio, e murmurava: «Aqui vem uma das taes»--_Uma das taes_ vinha a ser uma das suas amadas, de 1825, a sylphide que elle havia ensinado a dançar o minuete e a gavota com outras prendas, e não dava agora, no pizar coixo e na gordura fôfa, o minimo vislumbre de ter sido sylphidica e bastante leveira para o gingar picado da gavota. «Está como eu» dizia o abbade.

............................. Mudado como eu, como ella, Que a vejo sem conhecêl-a!...

Cantava Garrett de uma das suas estrellas cadentes. O abbade, ao menos, conhecia-as, embora enrocadas em tecido adiposo, e remoçava-as na sua imaginação saudosa, alindando-as com o colorido escarlate da paixão. Bom e discreto conversador, se a materia obrigava á seriedade: philosopho ecletico, alegre, rijo de estomago, cabralista por amor da ordem, e herege, por que negava que o Espirito-Santo concorresse ao Concilio Tridentino. Em sciencias ecclesiasticas, ignorantissimo por livre vontade e voto deliberado. Eis o abbade de Santa Eulalia.

Alvaro de Abreu, da estirpe dos Abreus de Regalados, filho segundo da caza e Honra de S. Gens, em Refojos de Basto, bacharel em direito, vinte e nove annos, compacto de carnes, barbaçudo, cara plebea, esbatida nas proeminencias malares, testa descantoada e pilosa até aos arcos das sobrancelhas. Annel de ouro com armas: em campo vermelho cinco azas de ouro sanguineas nas cortaduras postas em sautor; timbre, uma aza identica. As mesmas armas na cigarreira de prata, e nos botões dos punhos, e na amethysta dos berloques antigos, pendentes em _châtelaine_ do coz das calças. Tinha cavallo, e lacaio fardado de azul com guarnições escarlates, botas de picaria com prateleira e espora amarella encorreada de branco. Era intelligente como a maioria dos bachareis formados, e talvez mais. Em Coimbra, dado que não versejasse, era da roda do Couto Monteiro, do Luiz de Bessa Correia, do João de Lemos, do brazileiro Gonçalves Dias, do Lima poeta e de Evaristo Basto. Recitava sentimentalmente ás morgadas os soláos dos irmãos Serpas; e as parodias do Bessa e Couto Monteiro.

Cabula minha pachorrenta e gorda Quem d'entre as folhas te espremeu dos livros!

Ou então, o cazo da castellan que desafogava saudades

........................ tangendo no mandolim, e a chorar dizia assim: «_ó fado que foste fado, ó fado que já não és_!

Cito de memoria, pouco fiel n'estas coisas conspicuas.

Da convivencia d'aquelles rapazes ficou lhe um verniz epigrammatico. Flagellava os padres do seu sitio com chalaças, era mais fino nos remoques ao cirurgião, e fizera mudar de terra o boticario, com quem se inimisára inexoravelmente desde que elle, por causa d'umas eleições municipaes, solemnisadas a arrocho, o doestou, no _Periodico dos Pobres_, de _atheu_ e _carbonario_. Ainda havia carbonarios e atheus n'aquelle tempo. Hoje ha mais fé... e petroleo.

Alvaro d'Abreu tinha a saude athletica e vermelha que eu desejo aos meus leitores. Viera a Caldas porque ali namorara, no anno anterior, a morgada nova, sua prima em quarto gráo; visitou-a em Athey nas festas de Natal e Paschoa, e combinou então encontrarem-se em Vizella.

Outro:

João Pacheco, do Arco de Baulhe, morgado de Valle-Escuro. Um gentil rapaz de vinte e quatro annos, educado em Lisboa, onde tinha nascido, quando seu pae commandava uma brigada realista. Era orfão desde 1832. Aos vinte annos emancipara-se, e retirou se para a provincia, onde possuia fartos bens e tias solteiras que muito lhe queriam, e o indemnisaram dos mimos que não gosara na infancia.

Asseveravam-lhe as tias que elle descendia de Duarte Pacheco Pereira--o _Achilles lusitano_...

--Que morreu no hospital...--atalhava o moço.

--A infamia a quem toca...--emendava a sr.^a D. Izabel Pacheco, freira benedictina bastante instruida.

E, abrindo os _Lusiadas_, apontada dois versos em que Luiz de Camões vingava Duarte Pacheco da injuriosa ingratidão de D. Manuel:

Isto fazem os reis cuja vontade Manda mais que a justiça e que a verdade

João Pacheco sorria-se.

A freira azedava com o desdem do sobrinho, e repetia-lhe a ode pyndarica de Antonio Diniz, consagrada a seu avô. Era, porém, quasi ridiculo o enthusiasmo antigo da filha de S. Bento, declamando com teatral gesticulação a farfalhuda estrophe:

Cem paráos torveados D'onde por bocas mil brota Mavorte Entre horrorosos brados, Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte, Zargunchos, frechas, que em choveiros vôam; Elephantas bramindo a terra atrôam; Neptuno da batalha ao som horrendo No fundo mar se espanta;

Nos eixos muda a terra está tremendo, Mas nada o grande coração quebranta.

--O que eu collijo d'esses versos--dizia o soda transportada senhora--é que o bravo Duarte Pacheco espatifou muito indio, fez espadanar muito sangue de povos que defendiam o seu lar, e nunca vieram aqui attacar o nosso. Ora, a providencia castigou o _Achilles lusitano_, baixando o a tragar na barra dos desvalidos a miseria do rei de Calecut, arrojado por elle do throno á indigencia.

Com poucos mais traços, está bosquejado o perfil ideal de João Pacheco. Completal-o-hão os successos occorrentes n'esta historia.

A sexta pessoa do grupo, que povoava o cinceiral do Vizella, era um dos _Saint-Preux_ portuenses, o modelo acabado da belleza varonil, já passante dos trinta e cinco annos, cançado, mas fingindo que amava sempre porque era deveras querido. Não sei se elle, á imitação do marselhez Luiz Gauffredi, pactuara com o diabo dar-lhe a alma em troca das mulheres que soprasse; o que sei é que as damas que elle quiz, sopradas ou não, amaram-no.[1] Parte d'essas estava nas Caldas a abrir o appetite enfarado ou a diluir os empaches da nutrição rija. As meninas anemicas e chloroticas dos trovistas da cidade, em 1851, pertenciam ainda á embryologia; assim como os bardos, que actualmente lhes receitam boi e vinho do Porto, fermentavam no ventre da Idea... com _i_ grande.

José de Almeida, o _Don Juan_ do Porto, bem que reconhecesse os amavios corporeos da morgada de Athey, chegara á idade em que o espirito, ganhando entojo ás carnalidades, entra a namorar-se da belleza moral. Almeida zombava dos tregeitos, do palavriado, das relamborias denguices de Irene. Quem o attrahia áquelle grupo era João Pacheco; e quem attrahia João Pacheco era o abbade de Santa Eulalia com o engôdo das anecdotas, com a sympathia das bôas tolices, e a prodigiosa arte de exorcisar a tentação do suicidio das pessoas que penam em Vizella quinze dias de junho. José de Almeida me dizia a mim...

A mim?... a um homem muito diverso que ha vinte e quatro annos tinha o meu nome, e esse tal era o ultimo do grupo.

* * * * *

Dizia João Pacheco a José de Almeida uma vez:

--Este Abreu, se não tivesse cartas de bacharel, seria um homem regular; porém, como não advoga, nem faz leis, nem as interpreta, quer á força mostrar que a formatura lhe deu alguma distincção. _Faz espirito_. Traz sempre comsigo as pilherias requentadas que forrageou em Coimbra, e não perde lanço de as desfechar contra o abbade ou contra mim, se D. Irene lh'as pode victoriar com o sorriso parvoeirão. Eu já lhe disse que os seus gracejos incommodavam o abbade e me não lisongeavam a mim. Se não se emendar, um dia jogo-lhe um remoque desagradavel, e amordaço-o na presença da menina.

Isto dissera João Pacheco n'aquelle dia em que o grupo, á hora da sesta, se embrenhou no salgueiral.

N'esta occasião, Alvaro d'Abreu refinara no sestro da mordacidade. O coração tem crises de embriaguez e sobre-excitações sanguineas que refluem ás bossas craneanas. A morgada naturalmente deixara-se apertar suavemente nas pôlpas do antebraço e correspondera á pressão voluptuosa. O bacharel, a meu ver, esponjava as suas chalaças da abundancia do coração. Eu tambem tive dóze na sua liberalidade. Estava eu a intalhar um _M_ na casca de um amieiro. Era inicial de uma das cinco _Marias_ que eu amava.

--Esse _M_, disse elle galhofando, pode significar uma celebrada exclamação vociferada por Cambronne em Waterloo.

--_Prove_ a exclamação historica--interveio José de Almeida, vingando-me com aquelle riso percuciente d'elle.

Todos perceberam, salvante as damas, que não conheciam os aromas da historia de França.

--Que horas são?--perguntou enfastiada a morgada Irene.

--Cinco--responderam todos, abrindo os relogios, excepto João Pacheco.

--Singular caso!--disse elle--tenho este relogio ha doze annos: é a primeira vez que pára, tendo corda. Se o ar sulphurico de Vizella tiver sobre o dono a influencia que tem sobre o relogio, serei obrigado a parar; e parar, diz não sei quem, é morrer.

--Mas é que tu precizas de _corda_...--remoqueou Alvaro.

--De _corda_ precizo; de _carrasco_ é que não, contando comtigo--redarguiu Pacheco.

--Apanhe aquelle pião á unha, sr. doutor!--exclamou o abbade de Santa Eulalia.

As duas morgadas riram-se com bastante intelligencia; e o José de Almeida, golphando tres novêllos de fumo da pipa do cachimbo turco, regougou:

--Bem boa! bem boa! essa vou escrevel-a...

E tirou a carteira.

Alvaro de Abreu enfiou. As damas fitavam-no de modo que o esporeavam a desforrar-se. O rizo vingativo do abbade torturava o; e, por fim, o silencio de todos era um commum vexame: sentia-se mortificada a gente.

D. Helena da Penha ergueu-se do seu frouxel de junco e relva, dizendo:

--Vamos dar um passeio na ponte.

* * * * *

Todos se debruçaram no parapeito da ponte, menos Alvaro de Abreu, que se retirou á entrada, pretextando o que quer que fosse.

--O doutor ficou entupido!--disse o abbade--Foi uma embarrilação bem merecida... Onde se dão ahi se apanham. Cuidava elle que todos nós eramos espolinhadoiro do seu _espirito_!... Sempre com o dedo no gatilho da graçola! Uma graça atura-se; mas estar sempre com o dente mordaz arreganhado, isso é proprio dos botequins, em camaradagem de estudantes e banaboias.

--Tem razão, sr. abbade--obtemperou D. Helena--mas, a fallar o que é verdade, o sr. Pacheco respondeu muito forte.

--Acceito a reprehensão de v. ex.^a--volveu urbanamente o cavalheiro--mas peço licença para não me arrepender. Quem me considera talhado para a _corda_, não se offenda se eu o reputo digno de exercitar o instrumento da forca.

D. Irene exclamou:

--Credo!

Era a expressão espontanea do horror á palavra _forca_.

E, espivitando a lingua, continuou saracoteando se:

--Não gosto d'essas coisas... Estou nervosa... O Alvaro ia pallido e tremulo... Vejam lá se fazem algum desaguizado por causa d'uma graça... Vamos embora, mamã! Estou muito nervosa... veja...

E offerecia o pulso ao abbade.

--Tem febre?--perguntou a mãe alvoraçada ao abbade.

--Está agitadinha,--confirmou o abbade, envesgando para nós os olhos zarolhos de velhacaria--Quer palpar, sr. João Pacheco?

--Não percebo de pulso--disse o convidado.

--Com licença...--interveio José de Almeida--Eu vejo--E, tateando o pulso de Irene com o relogio aberto, disse:--Cem pulsações por minuto. Isto não é febre... é amor, minha senhora...

--Boa!--disse a menina retirando a mão--o sr. Almeida tem lembranças! O amor sente-se no coração, não é no pulso.

--O pulso é o denunciante do coração--retrucou o portuense.--O amor é o sangue mais apressado.

--Faltava-me ouvir essa!--notou D. Helena jubilosa por ver que a menina já sorria.

--Em boa sciencia é aquillo que diz o sr. Almeida--confirmou o abbade--Effectivamente, o amor accelera a circulação do sangue.

--Aqui tem o voto de pessoa experiente--disse Almeida.

--Está feito...--assentiu o abbade dando á cabeça trez ligeiras demonstrações de consentimento.

--É muito prendado não tem duvida...--volveu ironicamente a viuva do capitão-mór de Athey.--Ora, tenham juizo!

--Que remedio, senão tel-o, minha senhora!--redarguiu o clerigo pagão--satyro velho não topa dryadas nas florestas.

--Quê?!--perguntou a senhora que desconhecia os escandalos mythologicos.

--Queria eu dizer, excellentissima senhora! que o juizo em mim, velho de cincoenta annos, não se recommenda, lastima-se.

--Como estás, menina?--perguntou D. Irene á filha.

--Sobresaltada... Tenho medo de alguma desordem... O primo Alvaro tem tão máo genio...

E fez varias visagens.

--Agradeço a sua compaixão, minha senhora--occorreu João Pacheco;--mas peço-lhe que empregue a sua sensibilidade mais opportunamente.

* * * * *

Ao impardecer da tarde, José de Almeida foi procurado na pharmacia da Lameira, onde então florescia um boticario que parecia immortal pelas sandices originaes--e ninguem já hoje se lembra d'elle! Este paiz não é para ninguem; desenganêmo-nos.

Era João Pacheco a chamal-o de parte para lhe dizer:

--Acabo de ser procurado por dois sugeitos de Braga, que se dizem padrinhos do desafio a que sou reptado por parte do Abreu. Respondi-lhes que eu enviaria pessoa com quem se entendessem.

--Estou ás tuas ordens--condescendeu promptamente Almeida, que era padrinho vitalicio de todos os duellos d'aquelle tempo na sua briosa cidade.--Que arma escolhes? sabre? florete? pistola?...

--Mais devagar--atalhou o morgado de Val-Escuro--O Abreu não joga arma nenhuma. O meu mestre de tiro foi o marquez de Niza; de sabre foi o Chico Bellas, e de florete o Petit. Sei pouco; mas sei mais que Alvaro. Se lhe acceito o duello, vou seguro da minha superioridade, e, pouco mais ou menos, não sahirei do campo com a consciencia mais tranquilla que um homicida. Vai tu, se me queres obsequiar, dizer isto aos padrinhos.

José de Almeida voltou á noite.

--O Abreu teima em bater se--disse elle--Quer duello de morte, pistolas carregadas e desfechadas á ponta de lenço.

--Vai declarar aos padrinhos que acceito--deliberou serenamente João Pacheco.

--Estás doido?!

--Faze o que te digo.

--Escolhe outra testemunha, em quanto eu vou avisar o regedor--returquiu sorrindo José de Almeida--eu cuidei que eras um rapaz valente e prudente. Não te batias, ha pouco, por que as tuas vantagens repugnavam ao cavalheirismo; e acceitas o combate, dada a igualdade que pode dar-se entre dois assassinos estupidamente ferozes!

Pacheco ria-se: e Almeida discorria rasoavelmente.

--Faze o que te digo--repetiu o morgado--Pois tu, creança, persuades-te que o Abreu deseja bater-se em taes condições? Os covardes tem fantasias d'essas em quanto o desafio procede nas incruentas conferencias dos parlamentarios. Assevera tu ao Alvaro que eu acceitei o combate á ponta de lenço; e espera o desfêcho.

--Mas suppõe que elle sustenta a palavra!...

--Sustentarei a minha;--e, batendo-lhe no hombro, accrescentou:--Vai socegado. O homem tem mais amor á vida que á honra. Ouviste? Se elle propozer o duello á ponta... de lingua, declara loque não acceito.

Os bracharenses, ouvindo a resposta do Almeida, ficaram embaçados e atonitos. O mais cordato, com o louvavel intento de economisar sangue illustre, ponderou que era uma desgraça matarem-se dois cavalheiros da primeira nobreza do Minho, e aventou o seguinte:

--Se João Pacheco lhe desse uma satisfação na presença das pessoas que ouviram a injuria...

--Satisfação... como?--inquiriu o Almeido--Dizer-lhe que não o reputa _carrasco_? A emenda é peor que o soneto. Não proponho isso. Deixal-os matarem-se! Morrem gloriosamente. Tanto faz morrer de calculos na bexiga como de uma bala no coração. João Pacheco já teve em Lisboa e Madrid quatro duellos de morte, e está vivo.

--Parece-me isso extraordinario!--observou maravilhado o braguez, suppondo que no duello de morte era obrigatorio morrer.

--Não ha nada extraordinario. O estylo estatuido no _Codigo da Honra_ é que as pistolas, uma sevada de polvora e pelouro, e a outra simplesmente de polvora, sejam sorteadas. Pacheco teve sempre a sorte por si. Mas o nosso caso é outro. Morrem ambos irremediavelmente.

--E nós? que hade ser de nós?--atalhou sobresaltado o filho da outr'ora circumspecta Braga.

--Nós?--respondeu Almeida--praticaremos a rara virtude de nos não matarmos. Os senhores fogem para a sua terra e eu para a minha. É o que legisla o _Codigo da Honra_. As testemunhas não podendo depôr ácerca da honra dos afilhados mortos, safam-se a unhas de cavallo. O restante da tragedia pertence ao coveiro.

Um dos padrinhos fez menção de lavar as mãos e disse:

--Eu cá da mim...

--É Pilatos n'este negocio?--perguntou o portuense.

--E dois--respondeu tambem o outro, recordando e recitando tres passagens pezadas de um livro do conselheiro Rodrigues de Bastos a respeito de desafios.