# Nova Castro: tragedia

## Part 4

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_Ign._ Ah Senhor! Perdoar aos desgraçados He dos Reis o poder mais doce, e augusto: Sim, do teu coração segue os impulsos; Triunfe a compaixão, e a natureza, Não te has de arrepender por ser piedoso; Antes porém, se á morte me condemnas, Hão de eternos remorsos flagellar-te, Incessantes angustias consumir-te: De Portugal a gloria, as esperanças Vão sobre a minha campa espedaçar-se. Verás por ti mandado á sepultura Comigo, a teu pezar, descer teu filho. Matando-me, Senhor, ah, vê que o matas! Os nossos corações, unidos ambos, Tão ligados estão, que o mesmo golpe Que retalhar o meu, tràspassa o delle; Existir hum sem outro não podemos... Por elle, e não por mim t'imploro a vida. Sim,(42) de rojo outra vez torno a abraçar-me Com tuas Regias Plantas. Tem piedade Da Esposa de teu filho. Ah, se não fossem Estas doces prizões, que me constrangem A viver infeliz, e amar a vida, Longe de instar por ella, sem queixar-me, Tranquilla recebêra o fatal golpe... Mas deixar para sempre o que mais amo!.. Sou Esposa, sou Mãi... Ceos! Desfalleço!(43) Queridos filhos... Desgraçados orphãos!.. E que será de vós quando vos falte. A mais terna das Mãis, o Pai mais terno!.. Ah Senhor! Se inflexivel ao meu pranto, A minha situação te não commove, Presta ouvidos á voz da Natureza: Mova-te a compaixão o desamparo Destas victimas tenras, e innocentes: Elles culpa não tem dos meus delictos. Não te lembres, Senhor, que são meus filhos; Ah, não: lembra-te só, que são teus netos... Mas tu choras? Que vejo! Os Ceos me ouvírão: Tuas lagrimas vem em meu soccorro, Ellas o meu perdão já me annuncião. Acaba de extinguir os meus temores, Dize, dize, Senhor, que me perdoas.

(42) _Prostra-se outra vez aos pés de Affonso._

(43) _Abraça os filhos com a maior ternura, e afflicção._

_Af._ Não posso resistir... Oh quem podéra Neste instante deixar de ser Monarcha!

SCENA IV.

_D. Affonso, Ignez, seus filhos, e Coelho._(44)

(44) _Ignez, apenas avista Coelho, levanta-se atemorisada._

_Coel._ Por ti, Senhor, se espera: vem, não tardes; Que já começa o Povo a amotinar-se.

_Ign._ Oh Deos! Eu morro!

_Af._ .................. Ignez, não desesperes. Inflexivel não sou: meu pranto o affirma; Mas não posso faltar aos meus deveres; Não sou senhor de mim, tenho Vassallos; Perante elles, perante os Ceos, e a Terra, De tudo quanto obrar sou responsavel; Despotico não sou; mas sou piedoso. Tens Affonso por ti, nelle confia: Ao Conselho d'Estado vou eu mesmo Tua Causa advogar. Ceos, inspirai-me.

SCENA V.

_Ignez, e seus filhos._

_Ign._ Debalde seductoras esperanças Por mais tempo illudir-me já não podem. O coração me augura que he chegado De meus dias o termo desastroso. Sim, proximos estais, queridos filhos, A perder vossa Mãi... vinde a meus braços... Em breve... ai triste!.. em breve hão de faltar-vos Os maternaes, ternissimos affagos... Para sempre vos deixo... para sempre... Cruel separação!.. dor insoffrivel!.. Horrorosos momentos! Ceos!.. Nem posso; Nem me atrevo... ai de mim! a ver meus filhos: Quanto mais os contemplo, mais me afflijo... De todo sinto já faltar-me o alento... O coração rebenta... que anciedade! Ah! parece que a morte... ella já chega... A descarnada mão... que horror! Espera Suspende, ó Morte... deixa que primeiro... Meus filhos onde estão?.. Quero inda vê-los... Crueis, não m'os roubeis... Antes que morra, Ao menos huma vez quero abraça-los... Quem se atreve a arranca-los de meu peito?.. Ah barbaros!.. Meu sangue... Esposo? Esposo?.. Onde estás, que não vens em meu soccorro!.. Mas em vão... Já he tarde... a sepultura...

SCENA VI.

_Ignez, seus filhos, e Elvira._

_Elv._ Que vejo, oh Deos!(45)

(45) _Corre para Ignez._

_Ign._ ................. Abertos os abysmos...(46)

(46) _Delirante ainda._

_Elv._ Ignez... (que magoa!) Ignez...

_Ign._ .... Que!.. Quem me chama?.. És tu, Constança, És tu, que vens ainda Da habitação da morte perseguir-me?

_Elv._ Torna, Senhora, em ti... Já não conheces, Não vês a triste Elvira?..

_Ign._ .................... Quem!.. Elvira... És tu? Aonde estou?.. Ah, que me queres?

_Elv._ Mitigar tua dor, chamar-te á vida. Os alentos recobra, as esperanças: Serás inda feliz, verás em breve Trocados em prazer os teus pezares.

_Ign._ Prazeres para mim!.. ah!..

_Elv._ ....................... Que! Não viste As lagrimas do Rei, que o teu indulto No enternecido aspecto promettia?

_Ign._ Qual quimerico indulto!.. Nada esperes: Que importão suas lagrimas, que importa Que perdoar-me queira, sé o rodêão Vís Cortezão, escandalo do Throno, Algozes da innocencia, féros monstros, Sedentos do meu sangue, que ardilosos Seu coração benigno senhorêão? Elvira, a minha morte he infallivel; Pouco pode tardar: antes que chegue, Toma, toma estes orphãos innocentes, Conduze-os á prizão ao meu Esposo; Entrega ao triste Pai os tristes filhos, E dize-lhe que Ignez... Mas ah, que faço?.. Retalhar quero do consorte o peito? (Co'a noticia fatal da minha morte O mortifero golpe antecipar-lhe?.. Ah, não; bem basta que de dor expire. Quando entrar nesta lugubre morada, Onde, chamando em vão a extincta Esposa, Tristes eccos somente lhe respondão; E tintas as paredes do meu sangue, Luctuosos vestigios da consorte A cada passo espavorido encontre. Então, Elvira, então he que eu te rogo Lhe digas...(47) Ah, parece que ouço passos... Serão talvez meus barbaros verdugos... Que cheios de furor, ardendo em raiva Venhão cevar-se no meu sangue?.. Ai triste!.. Ei-los que chegão... não m'engano... Elvira! Vamos na minha Camara encerrar-nos: Já melhor poderei recommendar-te O que exijo de ti; sim, vamos, filhos, Quero morrer ao menos junto ao leito, Que tem sido até agora testemunha D'envenenados, rapidos prazeres, Dos continuos remorsos do meu crime, Das minhas afflicções, e do meu pranto.

(47) _Olhando atemorizada em volta da Scena._

ACTO V.

SCENA I.

_D. Affonso._

Que afflicção, que tumulto n'alma sinto! Vacillante, confuso, atribulado, Mal posso respirar. Ceos! que tormento! D'hum lado a compaixão, d'outro a Justiça... Formidavel Justiça! Em fim venceste. Satisfeito estarás, dever tyranno... O supplicio de Ignez... Oh Deos, e pude, Tremendo, subscrever da sua morte A rigida sentença!.. Eu me horroriso: Dentro em meu coração queixosas sinto Bradar a compaixão, e a natureza... Que! surdo á sua voz, consentir devo, Que á morte, a meu pezar, severamente Seja a Mãi de meus Netos condemnada? E por que crimes? Por amar meu Filho? Ah, não: he tempo ainda; revoguemos A sentença cruel... Porém que faço?.. O público socego, o bem do Estado, O popular clamor, o exemplo, tudo, Tudo em fim contra a triste me constrange, E me estorva o prazer de perdoar-lhe, Ah, dura condição! Pezado Sceptro, E haverá quem dos Reis inveje a sorte? Tormentoso lugar, terrivel Solio, Assento d'afflicções, e de amarguras; Desgraçados aquelles que te occupão!

SCENA II.

_D. Affonso, e D. Sancho._

_Sanc._ Ah Senhor! Se teu filho inda te he caro, Se não queres privar os Lusitanos Do herdeiro Augusto de teu Throno, e gloria; Não percas tempo, evita, remedeia A desesperação que o assassina. Eu conter já não posso os seus transportes, Nem ver as afflicções que o despedação: Humas vezes convulso, delirante, Scintilando furor, acceso em raiva, Morde, intenta romper os duros ferros Da prizão, que o retem; blasfema, e brama: Consternado outras vezes, abatido, Em profundo lethargo, entre agonias, Os olhos razos d'agua, o peito anciado, Succumbe á sua dor, cahe, desfallece. Eis que subito agora por mim chama: "Vai, amigo, (me diz) corre apressado, Saber da minha Esposa, e de meus filhos. Certamente os perversos Conselheiros Ousárão conspirar contra os seus dias: Ah, procura meu Pai, por mim lhe falla; Por mim de Ignez o indulto lhe supplica; O estado em que me vês lhe representa; E se elle persistir inexoravel, Protesta-lhe por mim..." Ah! nem me atrevo A referir-te...

_Af._ .......... Basta: não augmentes A minha confusão: oh Deos!

_Sanc._ ................... Perdoa: Tu silencio me impões; mas eu não posso, Não posso obedecer-te; o grande risco, Em que os dias do Principe contemplo, O amor que lhe consagro, não permittem Que eu cesse de clamar-te que perdoes Á miseranda Ignez, de cuja vida A vida de teu filho está pendente. Ignez já agora he de D. Pedro Esposa... É até digna de o ser. Não acredites Damnados corações; que seus contrarios, D'inveja, d'ambição, de rancor cheios, Intentão denegrir o seu caracter. Vê, meu Rei, que te illudem: crer-mo deves Por meus labios fallou sempre a verdade. Ignez huma alma tem singella, e nobre, Sensivel de sobeja, a amar propensa; Não pôde resistir a amar teu filho: Seu delicto he só este, não tem outros; D'outros não he capaz, e hum tal delicto, Quando tantas virtudes o acompanhão, He digno de perdão, he desculpavel.(48) Perdoa-lhe, meu Rei, não diga o Mundo, Que inflexivel, severo em demasia, Nem de teu filho á Esposa perdoaste.

(48) _Prostra se aos pés de D. Affonso._

_Af._(49) Não, não ha de dizer.(50) Oh lá, D. Nuno!(51) Deixar eu de ser Pai por ser Monarcha?.. Ah! Não.

(49) _Depois de pensar hum pouco._

(50) _Chamando para dentro da Scena._

(51) _Comsigo mesmo._

SCENA III.

_D. Affonso, D. Sancho, e D. Nuno._

_Nun._ ... Que determinas?

_Af._ ................... Apressado Parte em busca de Ignez; aqui ma envia; E aos duros Conselheiros participa, Que a sentença revogo; a Ignez perdôo.

_Sanc._ Graças, benigno Rei!..

_Nun._(52) .................. Oh feliz Castro! Já proxima ao sepulchro á vida tornas.

(52) _Partindo._

SCENA IV.

_D. Affonso, e D. Sancho._

_Sanc._ Que escuto! Á morte já sentenciada!..

_Af._ Longe de nós lembrança tão funesta. O Principe vai pôr em liberdade: Que me venha abraçar; Ignez he sua.

_Sanc._ Que jubilo!(53) Ah Senhor! Deixa que eu banhe Tua mão generosa com meu pranto, Suave pranto, que o prazer me arranca.(54) Eu vou... Sim; a alegria azas m'empresta: Vou levar a D.. Pedro a feliz nova, Restituir-lhe vou a paz, e a vida.

(53) _Prostra-se, e beija a mão do Rei._

(54) _Levanta-se._

SCENA V.

_D. Affonso._

Oh mil vezes feliz todo o que pode Venturosos fazer os desgraçados!.. Desafogado o coração já sinto... Hum Rei sómente he Rei quando perdoa. Minha alma d'antemão já saborêa O jubilo de Ignez, e de meu filho, D'hum, e d'outro os abraços, os transportes, A innocente alegria de meus netos... Delicia dos mortaes, oh Natureza! Cedão ás tuas leis as mais leis todas.

SCENA VI.

_D. Affonso, e o Embaixador._

_Emb._ Condoido, Senhor, da infeliz Castro, Releva que eu me atreva a supplicar-te, Que a decretada morte lhe perdoes: Eu sei que a teu pezar foi condemnada, Satisfação que dás ao meu Monarcha, Quando elle certamente, persuadido Da tua fidelissima amizade, Não quererá, Senhor, que lha confirmes Com o sangue de Ignez, que inda he seu sangue, Atrevo-me em seu nome assegurar-to, Rogando-te pratiques generoso, A piedade que he propria da tua alma.

_Af._ Muito folgo de ver teus sentimentos Tão conformes aos meus; sim, eu espero, Que o teu Rei me não culpe de piedoso, A Ignez já perdoei; fiz mais ainda; Reconheci-a de meu filho Esposa. Não me atrevo a romper o nó sagrado, Em que Hymenêo, e Amor os enlaçava, Ignorado por mim, quando sincero O Tratado firmei, que promettia Com Beatriz de meu Filho os Desposorios, Deves pois ao teu Rei fazer sciente, Das razões poderosas que os estorvão; E por mim segurar-lhe ao mesmo tempo Constante, inalteravel amizade.

_Emb._ Teu leal proceder, as razões todas Que a decidir assim te constrangêrão, Lhe exporei fielmente, e não duvides Que tal resolução lhe agrade, e a louve.

_Af._ Dictou-ma o coração, e de abraça-la Não me hei de arrepender: nunca a piedade Pode manchar as purpuras: se o Mundo De Bruto inda com pasmo escuta o nome, Mais saudoso de Tito o nome adora. Porém que vejo!.. oh Ceos!.. D. Nuno em pranto...

SCENA VII.

_Os ditos, e D. Nuno._

_Nun._ Oh fereza!.. Oh desgraça!..

_Af._ ....................... Que acontece?..

_Nun._ A dôr, e o pranto as expressões me tolhem... Cheguei tarde, Senhor... Ignez...

_Af._ ............................ He morta?..

_Nun._ Brevemente o será.

_Emb._......Oh Deos!..

_Nun._ .............. Debalde Á misera e mesquinha perdoaste: De seu preclaro sangue sequiosos, Os Ministros crueis se antecipárão...

_Af._ Oh detestaveis, sanguinarios monstros! E podestes... acaba.

_Nun._ .............. Mensageiro Da piedosa faustissima noticia, Á Camara de Ignez veloz caminho; Pouco distante ja de seus lamentos Parece, que as abobadas gemião: Accelero inda mais ligeiros passos, E ao tempo que os crueis descarregavão Sobre o peito d'Ignez os duros golpes, Entro... (que horror!) perdão, perdão, exclamo: Á palavra _perdão_ os impios tremem, E até da mão os ferros lhes cahírão: Em vão porém; que o sangue já corria. Servírão só meus gritos de que fosse A ferida talvez menos profunda. Então Coelho, e Pacheco, estatuas ambos, Como espantados do seu crime horrendo, Sem proferir palavra largo tempo, Olhando hum para o outro espavoridos, Apenas a final dizer podérão: "Não ha mais que hum recurso; eia, fujamos;" E subito os crueis desapparecem. Ignez desfallecida, mal ouvíra Que tu lhe perdoáras, levantando As mãos aos Ceos, e os macerados olhos, Mil vezes te bemdiz, por ti mil vezes Aos Ceos envia fervorosas preces. Cheia de gratidão, inda o seu rosto Entre as sombras da morte parecia Que ao proferir teu nome s'alegrava; Em quanto as tristes Damas, que a rodêão, O sangue de seu peito estancar buscão, "Por ultimo favor (lhes diz) imploro, Que á presença d'Affonso me conduzão; Inda quero ir beijar-lhe a mão clemente, E a seus pés expirar agradecida." C'os filhinhos ao lado a malfadada, Buscando-te, Senhor, para estes sitios Já com tremulos passos se encaminha.

_Af._ Oh destino!.. Oh fereza!.. Infeliz Castro!.. Filho infeliz!.. Mais infeliz do que ambos, Atribulado Pai!.. Todos os males, As furias, as desgraças, e os remorsos Desde o berço ao sepulchro me acompanhão. Nasci para flagello dos humanos, Para opprobrio nasci da natureza: Portugal, dos seus Reis na clara historia, Chamará com razão ao quarto Affonso Máo Irmão, Filho ingrato, e Pai tyranno. O culpado sou eu de Ignez na morte, Eu que, pelos perversos enganado, Tarde o grito escutei da humanidade. Ah! fujamos, fujamos destes sitios, Que a vêr a desgraçada não me atrevo... Mas ai de mim!.. As forças me abandonão: Eis ella chega... Amigos, soccorrei-me: Affastai-me daqui...

SCENA VIII.

_Os mesmos, Ignez, os dois meninos seus filhos, Elvira, e duas Aias._(55)

(55) _As Aias sustentão Ignez, que vem ferida._

_Ign._ Ah!.... Não me fujas... Não me fujas, Senhor... toma os teus Netos... Para t'os entregar, agonisante, O Maternal amor aqui me arrasta... Tristes orphãos, adeos... Adeos, meus filhos... Nas tuas mãos, Senhor, os deposito... Em teu bom coração abrigo encontrem... Ampare-os seu Avô, já que a Mãi perdem... Possão elles hum dia, de ti dignos, Dignos filhos do Pai mais virtuoso, Com virtudes iguaes, egregios feitos, Compensar-te o perdão, que me outorgaste... E por ultima graça me concede, Que inda antes d'expirar meu Pai te chame.

_Af._ Chama-me o teu algoz: não queiras dar-me O doce nome que me não compete: Bem quizera eu tambem chamar-te Filha:.. Mas não me atrevo, não; a Natureza, Se visse por meus labios profanado Nome tão deleitoso, estremecêra... Teu sangue está bradando; tu só deves O cruel detestar, que te assassina; Mas bem vingada estás; mais desgraçado Mil vezes do que tu, mil mortes soffro. Ah, poupa ao teu verdugo o horror de ver-te Exhalar d'alma os ultimos arrancos... Eu vou, sim, porque até minha presença Deve ser a teus olhos odiosa.(56) Ninguem me siga, ah, não; deixem-me todos, Fujão todos de mim; quero esconder-me A todos os viventes, té que possa Nos abysmos sumir-me para sempre.(57)

(56) _Vai a partir, e vendo que D. Nuno o quer acompanhar, volta-se, e diz:_

(57) _Parte arrebatadamente._

SCENA IX.

_Os mesmos, excepto Affonso._

_Ign._ Ah Senhor!.. mas debalde; não me attende; Inda mais este golpe!. Não me custão As suas afflicções menos que a morte... Oh quantos desgraçados tenho feito! O triste Pai, o Esposo... Ai! triste Esposo!.. E que será de ti!.. Lembrança horrivel!.. D. Nuno, Elvira, confortai-o todos, Á sua dor buscai dar lenitivo... Ah, s'eu podesse ao menos vê-lo ainda... Morrêra satisfeita... Ceos!.. já sinto A agonia da morte... Filhos... Filhos... Quanto a sua presença me consterna!.. Ah, levem-mos daqui... mas para onde?.. Não; chegai, filhos meus... em vossos labios Quero entornar minha alma... nelles quero Deixar a vosso Pai depositados Meus ultimos suspiros... Ah! são estes... São estes... Que anciedade! A luz me foge... Adeos, Filhos... adeos, Esposo... Eu morro.(58)

(58) _Cahe, e espira nos braços das Damas._

_Emb._ Que doloroso trance!

SCENA X.

_Os mesmos, D. Pedro, e D. Sancho._

_Ped._(59) ............... Amada Esposa, Ignez, querida Ignez, vôa a meus braços, Vem completa fazer minha alegria.(60) Porém que!.. vós chorais! que infausto agouro.(61)

(59) _D. Pedro entra na Scena cheio de alegria, sem vêr o cadaver de Ignez._

(60) _Vendo chorar D. Nuno, e o Embaixador, que estão defronte do cadaver de Ignez._

(61) _Olha para traz, dá com os olhos em Ignez morta, quer correr a ella, recúa espavorido, e cahe desfallecido nos braços de D. Sancho, e do Embaixador._

_Sanc._ Oh Principe infeliz!.. Mortal angustia! Affastai-lhe da vista a extincta Esposa.(62)

(62) _Elvira, e as Aias retirão da Scena Ignez, e os Meninos, acompanhadas de D. Sancho._

_Ped._(63) A Esposa!.. Onde está ella? Ide chamar-ma.

(63) _Em delirio._

_Nun._ Ah! Senhor!..

_Ped._ ............ Não tardeis, ide chamar-ma. Eu mesmo, eu mesmo vou... Ignez, Esposa!(64)

(64) _Convulso, quer caminhar, e não póde._

_Emb._ A extrema dôr o priva dos sentidos.

_Nun._ A tua Esposa... oh Deos!.. já não existe.

_Ped._ He morta? Injustos Ceos! Clarão terrivel!(65) Ah! Sim, eu mesmo a vi... horrida imagem!.. E tornarão a abrir-se inda os meus olhos? Vi morta a cara Esposa, e vivo ainda!(66) Espera, espera Ignez, eu te acompanho, Eu já te sigo, sim...(67) Mas não, primeiro He preciso vingar a sua morte. Quem a matou?.. Dizei... talvez... foi elle, Esse tyranno, que meu Pai se chama?

(65) _Olhando para o lugar onde víra Ignez morta._

(66) _Em acção de desembainhar a espada._

(67) _D. Nuno, e o Embaixador impedem que D. Pedro desembainhe, e este reflectindo hum pouco, diz:_

_Nun._ Ah! não, Senhor, teu Pai lhe perdoava, Mas Coelho, e Pacheco os ímpios forão, Que...

_Ped._ Basta: nada mais.(68) Impios são todos, E eu de todos o sangue beber quero. Treme, barbaro Rei; cruenta guerra Eu protesto fazer-te: sim, eu juro Pelo sangue de Ignez, cujos vestigios Bradando por vingança alli diviso, Juro, cruel, do Throno derrubar-te, E em teu lugar, c'roada alçar a elle A Esposa que me roubas. A meu lado, Mesmo depois de morta, a bella Castro Será Rainha, reinará comigo: Que importa que o seu corpo não respire, Se a sua alma inda existe unida á minha! Hão de todos beijar-lhe a mão já fria, Tributar-lhe as devidas homenagens: Do seu throno degráos por mim calcados Os tyrannos serão que a assassinárão: Seus corações malvados, das entranhas Eu mesmo hei de arrancar, hei de trincar-lhos. Ás minhas iras escapar não podem: Inda que nos infernos vão sumir-se, Lá mesmo, ardendo em raiva irei busca-los. Será tal meu furor, minha vingança, Que o Mundo tremerá de ouvir meu nome: Por toda a parte se hão de ouvir sómente Pranto, desolação, e horrores... tantos Os estragos serão, as mortes tantas, Que ha de em sangue nadar Portugal todo: Sangue o Douro, o Mondego, e sangue o Téjo Hão de, em vez d'agua, despejar aos mares; E os proprios mares arrojar bramindo Ondas de sangue ás mais longinquas praias. Eu vou já começar a derrama-lo. Oh furias! Oh vingança! Acompanhai-me, Meus passos dirigi; guiai meu braço.(69)

(68) _Na mesma furiosa desesperação._

(69) _Parte furioso arrebatadamente da Scena._

_Emb._ Ah Principe, suspende! Mas quem póde Conter as furias, que lhe lutão n'alma!(70)

(70) _Segue a D. Pedro._

_Nun._ Que espantoso tropel de horriveis males!.. Oh de cégas paixões funesto exemplo!.. Misero Esposo!.. Malfadada Castro!.. De quanta compaixão são dignos ambos!.. Muito se amavão, desgraçados forão, Chore-os o Mundo, e de imita-los trema.(71)

(71) _Finda a Tragedia quando não ha coroação._

SCENA X.[NT1]

_D. Nuno, e D. Sancho._(72)

(72) _Impaciente._

_Nun._ Onde corres?..

_Sanc._ ............ Oh Ceos!

_Nun._ ..................... Novos desastres Acaso sobre nós envia o Fado?

_Sanc._ O nosso Excelso Rei, o invicto Affonso, Com força de pezar succumbe aos males, E violenta paixão lhe arranca a vida.

_Nun._ Em que montão d'horrores nos abisma O destino fatal!

_Sanc._ ......... Oh desventura! O Principe me ordena que vos chame: Vinde prestes, D. Nuno; elle turbado Sente a falta d'hum Pai, da Esposa a perda.(73)

(73) _Parte_

_Nun._ Morreo em fim?.. Morreo! No centro d'alma Soffro as ancias crueis, a dôr mais ímpia!

_Acto da Coroação para se representar no fim da Tragedia==Nova Castro==de João Baptista Gomes._

* * * * *

A lembrança de que muitas pessoas desejão vêr no fim daquella optima Tragedia huma Coroação, fez com que se imprimisse esta, apezar da falta de unidade que ha, o que forma hum erro Dramatico, que o seu Auctor não desculparia se existisse.--_Nota do Editor._

* * * * *

_Mutação._

Magnifica Sala com Docel, e Cadeira de espaldar no meio do Theatro, em a qual está D. Ignez assentada, e em lugar competente, e magnifico huma Coroa riquissima.

_Sahem D. Pedro, D. Sancho, D. Nuno, Elvira, os dous Meninos, Grandes, e Guardas Reaes._

_D. Nun._ Esta he a pompa, Senhor, que a brevidade Me permittio do tempo.

_D. Ped._ ............. Que impiedade! He possivel, Ignez, oh dura sorte!.. Quem vida me dêo te désse a morte?! A sacrilega mão, barbara, e fera, Que o teu sangue verteo no duro effeito Não cahio com o ferro? Oh quem podéra Soldar a pura neve de teu peito!.. Quem podéra animar-te a luz perdida, Repartindo comtigo a minha vida?! Quaes serão os castigos acertados Que excogite a lembrança desta scena Contra estes deshumanos inimigos, Sem lei, sem compaixão, e sem respeito? Farei abrir com golpes mui profundos, As espadoas a hum, a outro o peito; E a seus mesmos olhos moribundos, Que vírão este Sangue, desejára Mostrar os corações, que os animára A tão cruel, e aspera fereza, Como abortos crueis da natureza Para monstros indomitos gerados: Choro, meu bem, a tua adversidade, E vivo para minha saudade!..

_D. Sanc._ Aqui te outorgo a Corôa...

_D. Ped._ ....................... De outra sorte Coroar-te intentei, fiel Consorte; Mas preferio á gloria a tyrannia!.. E vós, meus caros, meus fieis Vassallos, Reverentes beijai esta mão fria, Que beijar deverieis n'outro estado, Se tão impio não fosse o nosso fado.

_D. Sanc._ O primeiro sou eu, que esta mão bella Reconheço da minha Soberana, Com o respeito que devo a vós, e a ella. _Beija-lha._

_D. Nun._ Com minha gratidão, e o meu respeito, Qual Vassallo fiel, cumpro o preceito. _O mesmo._

_Os Grandes beijão-lhe a mão ao som de Musica, e no fim diz:_

Mais na morte que em vida respeitado, Depressa cobrir faze, Condestavel.

_D. Sancho corre as cortinas._

Com majestoso fausto veneravel A levai a Alcobaça, e as estradas De tochas estarão illuminadas; E o mesmo esplendor fazer quizera Se, como dezesete legoas são, Dezesete mil fossem; pois venera Tanto minha alma a essa cinza amada, Que desejo exceder no magestoso Aquella maravilha celebrada, Que Artimizia erigio a seu esposo. E vós, que ainda apezar do esquecimento Recommendais com pranto merecido Os amores de Ignez ao sentimento, E seu nome ao respeito que he devido, Com verso humilde aqui vos represento O tragico infortunio desabrido, Que aconteceo á misera mesquinha, Que inda depois de morta foi Rainha.

Fim.

* * * * *

Notas de Transcrição

NT1: No original as últimas duas cenas aparecem ambas identificadas como "Scena X".

