Nova Castro: tragedia

Part 3

Chapter 3 3,573 words Public domain Markdown

_Ped._ Huma vassalla, sim, para quem fôra Do Mundo todo o Imperio inda pequeno: Não duvides, Senhor. Que encontras nella Que indigna de teu filho julgar possas? Eu não quero fallar do Regio sangue, Que, dos teus ascendentes derivado, Lhe circula nas veias: outros dotes Mais bellos, mais sublimes a ennobrecem: Vassalla, a quem os Ceos prodigos derão Todas as perfeições que os Ceos dar podem, Para ser do teu filho digna Esposa, Ser filha de Monarchas não precisa. Se Ignez he virtuosa, que lhe falta? Quem mais digna do Throno que a Virtude! Mas dos seus predicados prescindamos. Castro he minha Consorte, tanto basta; He Princessa, por tal a reconhece, E o decoro lhe guarda de que he digna.

_Af._ Sim, tratada será como merece... Brevemente o verás.

_Ped._ ............. Olha o que fazes... Não queiras constranger-me inexoravel A perpetrar horriveis attentados: Se como Pai benigno, e Rei clemente Praticares comigo, has de em mim sempre Encontrar hum Vassallo respeitoso, E hum filho obediente; mas se acaso Insistes em roubar-me a cara Esposa, Hum mortal inimigo em mim contempla, Que cégo, furioso, e desesp'rado, Sem attender senão aos seus transportes, Será capaz de horrendos sacrilegios. Evitando-os, atalha huma injustiça: Revoga pois a barbara sentença.

_Af._ Sim, por outra mais justa, revogada (Descança.) ella vai ser. Espadanando Ha de ver teu coração da infame o sangue As chammas apagar que te devorão.

_Ped._(21) Primeiro que o seu peito a ferir chegues, Hão de ser-me as entranhas arrancadas: Ha de em rios correr todo o meu sangue E o teu sangue tambem, se for preciso.

(21) _Desesperado._

_Af._ Oh Ceos!.. Tremo de horror!..

_Sanc._ .......................... Senhor, que fazes? Ousas contra teu Pai?

_Ped._ ............... Ah! Que proferes? Pai? Eu tenho inda Pai?..(22) Nao, não, tyranno, Tu meu Pai já não és: não sou teu filho... Hum cruel como tu... Porém que digo!.. Com quem fallo?.. Onde estou?.. Quem me arrebata! O inferno, as furias todas me espedação... Quem falla não sou eu, trovejão ellas... Sacrilego!.. que fiz!..

(22) _A D. Affonso, no mesmo frenetico arrebatamento._

_Af._ .................. Ceos, estais surdos!.. Onde os raios estão, que inda não chovem Sobre hum monstro, que tanto os desafia? Vingança!.. Maldições!..

_Ped._ .................. Tudo mereço. Ah! Se os Ceos inda immoveis não fulminão, He talvez que, assombrados de escutar-me, A desprender os raios não se atrevem. Debaixo de meus pés tremendo a terra, Quer abrir-se, e não ousa devorar-me... Até mesmo os abysmos se horrorisão De hum monstro, que soltou tantas blasfemias... Oh terror!.. Oh remorsos!.. Crime horrendo!.. Mas sabe o Ceo, Senhor, que, involuntarias, Não teve o coração parte nas vozes, Que por meus labios despejou o Inferno... O Inferno todo, que no peito encerro. Não me julgues capaz... Porém que digo!.. Infeliz!.. Desculpar-me intento ainda?.. Horror da Natureza, e de mim proprio, Nem me atrevo, Senhor, a supplicar-te O perdão... Não, eu delle não sou digno. Do pezo da existencia me allivia; Vinga da Natureza as leis sagradas, O respeito devido á Magestade, Que atropellei feroz: eterno exemplo Tu deves dar em mim ao Mundo inteiro. Salpicadas de sangue estas paredes, Que ouvírão minha voz blasfemadora, Aos seculos vindouros apregoem Meu lastimoso fim: ao vê-las tremão As Gerações futuras de imitar-me.(23) Eis-me a teus pés prostrado: vibra o ferro; Eis meu peito, retalha-o: não te lembres Que foste já meu Pai... sou delinquente: Lembra-te só que és Rei, castiga o crime. Porém... ah! não flagelles a virtude... Se me deves punir como culpado, Ignez como innocente absolver deves. Não me custa morrer; porém não posso, Não posso consentir que Ignez padeça... Nem ha de padecer em quanto eu viva. Pertender separar-nos he debalde; Té duvido que a morte possa tanto...(24) Releva ao meu amor estes transportes...(25) Eu sou sensivel... amo... e sou amado.

(23) _Prostra-se aos pés de Affonso._

(24) _Tornando em si._

(25) _No tom mais pathetico._

_Af._ Todos os meus sentidos perturbados, Cheio de ira, e de horror... nem fallar posso... Affastem-me da vista esse rebelde. Ao proximo Castello conduzido, Seja em prizão segura afferrolhado: Sua guarda, D. Sancho, eu te confio; Em quanto justiçoso, inexoravel, Em Conselho d'Estado não decido Qual ser deva o castigo de seus crimes, E o supplicio da infame, que os motiva. Treme do meu furor, malvado, treme: Este dia talvez, dia horroroso! Será na longa serie das idades, De eterno espanto a Portugal, e ao Mundo.

SCENA VI.

_D. Pedro, e D. Sancho._

_Ped._ Inda mais horroroso do que pensas Certamente será, se não desistes De tão crueis designios. Que impiedade! O supplicio d'Ignez! Da minha Esposa!.. Como posso deixar de rebellar-me! Como evitar hum crime necessario, Que o dever, e a ternura me prescrevem?.. Hum crime disse?.. Ah, não; longe os remorsos; Defender huma Esposa não he crime; Crime fôra deixa-la ao desamparo. Longe, maximas vãs, leis oppressivas, Que a tyrrania impoz sobre a ignorancia, Nada se deve aos Pais pela existencia: Os desvelos depois, seus beneficios São os titulos só que lhes conferem Á nossa obediencia hum jus sagrado. Meu coração revoca os seus direitos: Arrependo-me só de arrepender-me Pelos ter justamente sustentado. Querias, Rei cruel, afferrolhar-me Em segura prisão, para a teu salvo Me poderes roubar a cara Esposa?.. Debalde o projectaste, não...

_Sanc._ ...................... Deliras?.. Que intentos são os teus?.. Resistir queres Ás ordens de teu Pai, que enfurecido...

SCENA VII.

_D. Pedro, D. Sancho, e D. Ignez._

_Ign._ Esposo, que fizeste?.. Oh Ceos, eu tremo!.. Da tua voz medonha horriveis écos Inda nestas abobadas retumbão; De furor suffocado, o rosto em fogo, Affonso espavorido, a longos brados Chama pelos atrozes Conselheiros: Certamente, faltando-lhe ao respeito, Lhe exacerbaste as iras. Que fizeste?

_Ped._ Menos inda talvez do que devia. Não te importe o que fiz, faze o que digo. As furias não receies do tyranno; Vai subito buscar os tenros filhos, E dispõe-te a seguir-me.

_Ign._ .................. Como!.. Aonde?..

_Ped._ Deixamos estes sitios, onde imperão A discordia, a injustiça, a iniquidade. Evitemos o extremo dos horrores: Acompanha-me, Esposa, se não queres Ver-me inda parricida.

_Sanc._ ............... Oh Ceos!

_Ign._ ........................ Que insania? Ah! Que dizes? Que intentas?

_Ped._ ...................... Defender-te, E possuir-te em paz; poupar-me ao crime. A tua vida, Ignez, ameaçar ousão; Affonso pertendia encarcerar-me, Talvez para ordenar o teu supplicio: Atreveo-se a dizer-mo: he necessario Fugir-lhe; ou repellir com braço armado Seus barbaros designios: eia, vamos, Não te demores mais.

_Ign._ .............. Eu desfaleço!... Desgraçada!... Onde queres conduzir-me?

_Ped._ Se necessario for, ao fim do Mundo: A meu lado segura, em qualquer parte Seremos venturosos; ermas grutas, Morada simples de prazeres puros, Mais gratas nos serão que aureos Palacios, Habitação fatal dos males todos.

_Ign._ Que me propões, Senhor! A voz me falta...

_Sanc._ Ah, Principe! Contempla o precipicio Em que vás despenhar-te, e a que me arrastas. Responsavel por ti...

_Ped._. .............. A nada attendo.(26) Podes tombem, querendo, acompanhar-nos. Sim, eu te rogo, vem... De cãs coberto Tens conhecido assaz o ar pestilente, Que nas Côrtes costuma respirar-se, Halito venenoso, que derramão A traidora lisonja, a fraude, a intriga, Que em torno aos Solios quasi sempre girão. Longe de tanto horror, ah, vem ao menos Gozar em paz o resto de teus dias.

(26) _Para D. Sancho._

_Sanc._ Feliz eu, se hontem fosse o derradeiro! Ah! Querias que proximo ao sepulchro Fosse ao meu Rei traidor? Que concorresse Para hum tal desatino?.. Eu, que incumbido Da tua educação (funesto emprego) Por elle mesmo fui, socio seria Em teus crimes, soffrendo que infringisses Teu dever!...

_Ped._ ....... Qual dever? Fúteis chimeras! O primeiro dever he ser ditoso, He seguir d'alma o natural instincto. Vamos, querida Ignez.

_Ign._ ............... Oh Deos! Que trance! Frenetico... ai de mim!.. Que premeditas? Teu nome, tua gloria offuscar queres? Seria a triste Ignez tão desgraçada, Que, origem de teus crimes, tolerasse A infamia de te ver por seu respeito A Patria abandonar, e o Throno excelso?.. Ah, que diria o Mundo...

_Ped._ .................. Que diria? Que o esplendor do Solio não deslumbra Huma alma como a minha. Eu nada perco Em deixa-lo por ti, não, cara Esposa; Vale mais ser feliz, que ser Monarcha.

_Ign._ E pode ser feliz quem atropella Da sociedade as leis, do sangue as vozes? Ah! Desiste, Senhor, de teus projectos; Obedece ao teu Rei: jámais esperes, Que eu approve, ou consinta os teus delirios: Nem te deixo partir, nem te acompanho... Eu não quero roubar a hum Pai seu Filho, Nem tolher a ventura aos Lusitanos, Privando-os do melhor dos seus Monarchas. Se os meus rogos...

_Ped._ ............. Teus rogos são inuteis: Que! Recusas, Ignez, acompanhar-me?.. Ah, não vês nestes sitios horrorosos Girar em torno a nós a morte, e os crimes!

_Ign._ He para os evitar que eu te não sigo. A honra, a gloria valem mais que a vida. Entre os crimes, e a morte, a morte escolho. Mas ah! porque tão proxima a divisas? Decretou-ma teu Pai? Nada me encubras: Sabe elle já que em vinculo sagrado...

_Ped._ Tudo lhe revelei: mas o tyranno, Fingindo não poder acreditar-me, Orgulhoso, tenaz em seu capricho, Ameaçou-me... que horror! com teu supplicio; E, para a seu sabor poder julgar-te, Em segura prizão manda encerrar-me No proximo Castello. He pois forçoso...

_Ign._ Obedecer-lhe, sim.

_Ped._ ................. Obedecer-lhe?..

_Ign._ Indispensavel he, vai, caro Esposo; Submisso aos Paternaes Regios preceitos, Eu to rogo, Senhor, á prizão corre. Outro meio não tens para salvar-me; Nem eu por outro meio a vida quero: Outra vez to asseguro, eu não te sigo; Jámais conseguirás...

_Ped._ ............... Basta: não queres Estes sitios deixar? Queres ver nelles Derramados por mim rios de sangue?.. De huma austera virtude enthusiasmado Ao parricidio, em fim, queres forçar-me? Pois bem, a perpetra-lo estou disposto. Eu vou, sim, eu vou já...

_Ign._ ................... Cruel; detem-te: Meus gemidos, meu pranto já não podem Mover-te o coração, domar-te as furias? Onde o imperio que Ignez tinha em tua alma?

_Ped._ Não te cances, debalde são agora Teus rogos, o teu pranto, os teus gemidos: Este dia horroroso he consagrado Á desesperação, ao crime, á morte. Inflammado em meu peito, só com sangue Das furias o tição pode apagar-se. Impedir ninguem pode, nem tu mesma, Os golpes espantosos, que o meu braço Vai já descarregar.

_Ign._ ............. Por mim começa: Rasga-me o coração, da Esposa o sangue Seja o primeiro sangue que derrames; E se elle não bastar a saciar-te, Aos sacrilegios todos te arremeça... Que horror! Nem ouso em ti fitar meus olhos. És tu? Não, tu não és o meu Esposo; O meu Esposo detestava os crimes: Eu amava hum Consorte virtuoso; Virtudes já não tens, já te não amo. Vai, monstro sanguinario... Mas que disse? Eu deixar de te amar? Não me acredites: O terno coração desmente as vozes, Que, a meu pezar, de ouvir-te horrorisada, Sem tino proferi... Olha o meu pranto.(27) Abatida a teus pés, co'elles me abraço... Ou tu has de ceder aos meus lamentos, Ou ver-me aqui morrer, e aos pés calcar-me.

(27) _Prostra-se, e abraça-se com os pés de D. Pedro._

_Ped._ Oh Ceos!.. Querida Esposa.(28)

(28) _Enternecido, querendo levantar D. Ignez._

_Ign._ ......................... Eu não te deixo, Daqui me não levanto, sem primeiro De tua alma banir as negras furias; Sem que tu me promettas obediente Ir subito cumprir as Regias ordens. Ah! se tu amas inda as minhas preces, Não has de resistir...

_Ped._ ................ Nem já resisto.(29) Deixar de obedecer-te, ah, quem, quem pode!.. Para a prizão já parto.(30) Amigo, vamos.(31) Poderás duvidar inda do imperio Que em meu coração tens?

(29) _Levanta D. Ignez._

(30) _A D. Sancho._

(31) _Voltando-se para D. Ignez, e com a maior ternura._

_Ign._ .................. Oh Deos! Conforto!(32) Não me retalhes mais o peito afflicto.(33) Á trémula razão ceda a ternura; Não te demores mais...

(32) _Voltando-se ternissimamente._

(33) _Affectando tranquillidade._

_Ped._ ................ Mas tu...

_Ign._ ......................... Socega; Nada temas por mim: o Ceo me inspira Os meios de abrandar de Affonso as iras. Irei c'os filhos a seus pés prostrar-me: Ninguem resiste á voz da natureza: Por mais duro que seja o seu caracter, Se tem hum coração, ao ver os Netos Abraçados em mim, chorar comigo, Não poderá deixar de commover-se, De perdoar-me em fim; nada receies. Adeos, Esposo, adeos.(34)

(34) _Muito a seu pezar precipitadamente se retira._

_Ped._ ............... Ceos! que supplicio!

ACTO IV.

SCENA I.

_Coelho, e Pacheco._

_Coel._ Vão decidir-se em fim nossos destinos: Este o dia arriscado, em que a Fortuna Segura mão nos dá, ou nos despenha: Ou morre Ignez de Castro, ou nos perdemos. Resolutos a tudo, he necessario Os p'rigos affrontar; deve hum Valído, No cume da grandeza vigilante, Aos Adversarios seus tramando a ruina, Primeiro que o derrubem, derruba-los; O futuro prever, prever a itriga, E destro em conhece-la, e maneja-la, A vida antes perder que o valimento. Nosso plano atéqui tem produzido O desejado effeito. Affonso irado, O Principe em prizão, tudo parece Prometter-nos hum exito ditoso. Tens tu já prevenido, alliciado Os poucos Conselheiros, que nos restão? Constantes votarão de Ignez a morte?

_Pach._ Apenas lho propuz, m'o assegurárão; Dependentes de nós em gráo mais baixo, A hum leve aceno autómatos flexiveis, Eccos da nossa voz, a nosso grado Amoldando-se a tudo, a tudo prestes, Servir nossos caprichos tem por gloria. Entre todos D. Sancho unicamente Velho estoico, singelo em demasia, Que as honras, e os empregos menoscaba, Poderá combater nossos designios; Mas Alvaro Gonçalves, que se int'ressa Igualmente que nós d'Ignez na morte, Se incumbio de sonda-lo, e persuadi-lo.

_Coel._ Desnecessario he, que, encarregado Da guarda de D. Pedro, elle não pode Ao Conselho assistir. Nada mais resta Do que azedar a cólera de Affonso, Dar-lhe a beber na taça da Justiça Adoçado veneno, que o perturbe, E a voz da compaixão d'alma lhe affaste. Convém não perder tempo: aproveitemos Propicia occasião, que fugir pode: Vamos...

_Pach._(35) Espera...

(35) _Pensativo._

_Coel._ ............ Que! tu desfalleces!

_Pach._ Confesso que algum tanto perturbado O coração não sei que me annuncia... Calculemos melhor sobre o futuro. Inda mesmo suppondo inevitavel, Suscitada por nós, de Castro a morte, He de temer que o Principe ferido Na parte mais sensivel da sua alma, Raivando inexoravel, desesp'rado, Sobre nós descarregue atroz vingança. Quem poderá suster?..

_Coel._ .............. Tarde receias: Nas bordas já do aberto precipicio, He preciso transpo-lo, ou cahir nelle: Retroceder o passo não podemos. Assaz já sabe o Principe quaes sejão As nossas intenções, nossos conselhos; Seu odio contra nós he já sobejo. Que lucraremos pois, se ora cobardes Da começada empreza desistirmos?.. Apressar nossa ruina, exacerba-la? Se foi razão bastante a conspirar-nos Contra a vida de Ignez, justo receio De ver hum dia alçada sobre o Throno A Irmã de nossos feros inimigos, Que em nosso damno então fartar podessem A perpetua aversão que nos jurárão; Se a nossa ruina assim era infallivel; Quanto mais o será tendo attrahido Do Principe o rancor!.. Proseguir firmes He somente o recurso que nos resta. Morta Ignez, com o tempo talvez possa O Principe, esquecendo-a, sujeitar-se Ao Consorcio, que Affonso lhe prescreve, E, apagada a paixão, ver-nos sem odio. Ou victima talvez d'amor infausto, De saudades mirrado, não podendo Sobreviver a Ignez idolatrada, D'Ignez á sepultura a dor o arraste. Affonso ha de entretanto defender-nos, E se acaso abortarem finalmente Nossos designios todos, então mesmo Não me hei de arrepender de os ter forjado: Antes quero morrer, inda o repito, Do que ser por meus émulos calcado, Contemplados Irmãos d'huma Rainha.

_Pach._ Sentimentos iguaes me fervem n'alma; Eia, tudo se arrisque; prosigamos: Descarregue-se o golpe derradeiro, Inda que, errando-o, sobre nós desfeche. Eu parto a congregar os Conselheiros, Segurar inda mais todos os votos; E tu no emtanto ao Rei procura, e move; Sua colera atiça; que eu não tardo, Juntos os do Conselho, a vir chama-lo.

_Coel._ Bem: não poupes promessas, nem t'esqueça Desculpar ante o Rei sempre a D. Pedro, Fazendo recahir de seus arrojos Sobre Ignez tão somente a culpa toda. Affonso para aqui dirige os passos... Não percas tempo, vai.

SCENA II.

_D. Affonso,_(36) _e Coelho._

(36) _D. Affonso entra na Scena pensativo._

_Af._ ................. Crueis remorsos! Horroroso castigo de meus crimes!.. Que torpel de afflicções, que acerbos males Vem funestar o resto de meus dias!.. Infeliz Pai!.. Monarcha desgraçado!

_Coel._ Releva-me, Senhor, que ouse, pungido Da dor, em que o meu Rei vejo abysmado, Recordar-te que deves mitiga-la. Tua vida, Senhor, não he só tua. Do teu Povo he tambem: ah não, não queiras Á força de afflicções abbreviar-lha. Sei quanto custa a hum Rei ouvir blasfemias De hum filho, que feroz o não respeita: Mas deves ponderar que hum tal arrojo Tão desculpavel he, quanto he violenta A funesta paixão, de que instigado Teu filho, a teu pezar, o perpetrára; Delicto involuntario...

_Af._ .................. O seu delicto Não he só filho da paixão que o céga: Força maior o arrasta aos sacrilegios: Mais que o seu ímpio arrojo, o que me afflige, He ver que assaz mereço hum tal castigo, Das maldições celestes justo effeito. Oh remorsos crueis!.. Era forçoso Que hum filho de tal Pai fosse rebelde. Mais do que elle rebelde, filho ingrato Eu fui, eu fui tambem... Ardendo em furia Atrevi-me, que horror! a tomar armas Contra Diniz meu Pai; movi-lhe a guerra, Sublevei-lhe os Vassallos, assolei-os; Cavei-lhe assim feroz a sepultura; Todas as leis calquei da Natureza, A Natureza agora quer vingar-se. De hum Pai, que contra o Pai se revoltára, És, sim, filho rebelde, és digno filho! Mais me soffreo Diniz do que eu te soffro; Mas tu has de igualar meus attentados, Inda os has de exceder; talvez já tardas! Nem vós podeis, ó Ceos, jámais impunes Sacrilegios deixar tão execrandos. Dos Avós implacaveis vingadores São, por justo castigo, quasi sempre Máos filhos os do Pai, que foi máo filho. Diniz! Grande Diniz! Sombra iracunda! Terrivel sombra, que ante mim voltêas! Sobre a minha cabeça criminosa, Por mão do ousado neto, descarrega O já tardio, merecido golpe... Ah! Sim... bem vejo... ameaçador me apontas O tremendo futuro, que m'espera... Que flagello! Que horror! Que mar de sangue!.. Tristes vassallos meus! Ah filho! Filho! Suspende...

_Coel._ .... Que delirio te arrebata?.. Teu grande coração sentir não deve Remorsos, que aos malvados só competem: Passadas, leves faltas não recordes; Males não temas, que atalhar bem podes.

_Af._ Porque não vens, ó morte, alliviar-me Do pezo da existencia, e de meus crimes!

_Coel._ Que seria de nós, se os Ceos te ouvissem! Em desordens submerso, dessolado, Comtigo Portugal acabaria. Os clamores escuta do teu Povo, Conserva-lhe o seu Rei; tão necessario A teus tristes Vassallos jámais foste: De mil calamidades ameaçados, Só lhes póde valer tua justiça.

_Af._ E como? De que modo evitar posso Desordens, que a mim mesmo me soçobrão?

_Coel._ Do mal a causa extincta, o mal expira; Extingue a causa pois de tantos males: Em quanto existir Castro, que os fomenta, Debalde intentarás dar-lhe o remedio.

_Af._ Que dizes? Condemnar Ignez á morte? Tão graves são seus crimes, que mereção...

_Coel._ Os seus crimes, Senhor... Ah! por desgraça, Nunca o Mundo vio crimes que brotassem Tão funestas, horriveis consequencias: Desnecessario julgo referi-las; Tu bem as sabes, pois assaz te affligem. Do Principe ardilosa seductora, Se teu filho he rebelde, se he blasfemo, Quem, senão ella, o fórça aos sacrilegios! Não vacilles, Senhor; o seu supplicio Chega a ser, mais que justo, indispensavel. Mas não basta o que eu digo a condemna-la: Tens melhores, mais sabios Conselheiros, Que juntar já mandaste; ouve os seus votos: Que se elles zelo igual ao que me inflamma, Por ti, pelo bem público, tiverem, Hão de todos unanimes rogar-te Que o supplicio de Ignez logo decretes; Pintar-te co'as mais negras, proprias côres De Portugal a ruina, se o dilatas; As dissensões crueis, a horrivel guerra, Que a vingativa Hespanha vai mover-nos, E de que os teus Vassallos, fatigados Das recentes batalhas, já murmurão, A Viuva, que o Esposo perdeo nellas, Não quer perder agora o caro filho, Nem o filho, que em lucto inda o Pai chora, Desamparando a Mãi, expôr-se á morte. Finalmente, Senhor, tudo te brada Que sacrifiques huma a tantas vidas; Que deixes ao futuro eterno exemplo, Para que ninguem mais seduzir ouse, Á imitação de Ignez, corações Regios.

_Af._ Se assim o exige o público socego, O Conselho decida o que for justo, Que eu afflicto não sei o que obrar deva.

_Coel._(37) Que vejo! Ignez!.. He muito! Inda se atreve A vir apparecer-te?.. Ah, melhor fôra Retirar-te, Senhor, sem dar-lhe ouvidos.

(37) _Avistando Ignez ainda fóra da Scena._

_Af._ Vamos, sim... Porém não, devo escuta-la.

_Coel._ Talvez os do Conselho já te esperem.

_Af._ Vai tu juntar-te a elles, que eu não tardo.

SCENA III.

_D. Affonso, Ignez, Elvira, e os meninos._

_Ign._ Chegai, filhos, chegai, vinde prostrar-vos Aos pés de vosso Avô; vinde beijar-lhe Pela primeira vez a Mão Augusta.(38) Eis, ó Senhor, os filhos de teu filho, Que vem com tristes lagrimas rogar-te, Que desta triste Mãi te compadeças. Chorai, chorai comigo, tristes filhos, Intercedei por mim com vosso pranto, Pranto mais expressivo do que as vozes, Que a vossa tenra infancia não permitte: Ajudai meus lamentos, minhas preces, Impetrai meu perdão. Sim, Rei clemente, Eis a Mãi desgraçada de teus Netos, Que abraçada com elles te supplica, Que a misérrima vida lhe conserves. Sei que vai decretar-se o meu supplicio! Alvo da intriga, victima da Inveja, Temerosa, infeliz, desamparada, A morte já diviso, a injusta morte, Que raivosos, tyrannos Conselheiros, Illudindo a piedade de tua alma, Fulminão contra mim... Que atrocidade!.. Porque enormes delictos sou punida?.. Amar, Senhor, teu filho, ser amada, Crime acaso será digno de morte? Imploro, ouso attestar tua justiça. Ah! Consulta, Senhor, tua clemencia, Teu coração consulta, que elle mesmo Te ha de dizer, que a morte nao mereço.

(38) _Prostra-se com os meninos aos pés de Affonso, e Elvira se retira._

_Af._ Levanta-te, infeliz...(39) Oh Natureza!(40) Oh de hum Monarcha rigidos deveres!.. Levanta-te, infeliz.(41) Funesta origem Das crueis afflicções que me consternão... Ao ver-te me enfureço,... e me commovo... O Pai quer perdoar-te... o Rei não pode.

(39) _Enternecido._

(40) _Vai abraçar os netos, volta o rosto afflicto e exclama._

(41) _Levanta Ignez._