Part 1
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[Gravura representando Inês de Castro, acompanhada pelos filhos, prostrada aos pés de D. Afonso V.]
Eis, ó Senhor, os filhos de teu filho. Que vem com tristes lagrimas rogar-te Que d'esta triste Mãi te compadeças. Act. IV. Scen. III
NOVA CASTRO,
TRAGEDIA
DE
JOÃO BAPTISTA GOMES JUNIOR.
QUINTA EDIÇÃO
CORRECTA DE MUITOS ERROS, E AUGMENTADA COM A BRILHANTE SCENA
DA
COROAÇÃO.
LISBOA,
Na Impressão Regia. 1830.
Com Licença da Mesa do Desembargo do Paço.
* * * * *
Vende-se na Loja de Livros de João Henriques,
Rua Augusta N.o 1.
ACTORES.
D. AFFONSO IV Rei de Portugal.
D. PEDRO Principe.
D. IGNEZ DE CASTRO.
D. SANCHO Mestre do Principe.
COELHO Conselheiro.
PACHECO Conselheiro.
D. NUNO Camarista do Rei.
O EMBAIXADOR DE CASTELLA.
ELVIRA Aia de D. Ignez.
DOIS MENINOS Filhos de D. Pedro, e D. Ignez.
_A Scena he em Coimbra, n'huma Sala do Palacio, em que reside D. Ignez._
_A Acção começa ao romper do dia._
ACTO I.
SCENA I.
_Ignez, e Elvira._
_Ign._(1) Sombra implacavel! Pavoroso Espectro! Não me persigas mais... Constança! Eu morro.(2)
(1) _Ignez entra na Scena delirante, e horrorisada._
(2) _Assenta-se desfallecida._
_Elv._ Que afflição!.. Que delirio!.. Oh Deos! Senhora...
_Ign._(3) Onde está... onde está o meu Esposo?...
(3) _Ainda fora de si, e atemorisada._
_Elv._ O Principe, Senhora, inda repousa, Tudo jaz em silencio: tu sómente, Negando-te ao socego, atribulada, Neste Paço, ululando, errante vagas? Que dor acerba o coração te rasga? Que sonhadas visões assim te ancêão?
_Ign._ Contra Ignez se conspira o Ceo, e a Terra.(4) Té das campas os mortos se levantão Para me flagellar: continuamente Negros fantasmas ante mim voltêão... Que horror!.. Oh Ceos!.. Agora mesmo, Elvira, Debuxados na mente inda diviso Os medonhos espectros, que, girando Em torno de mim, me assombrárão... Surgir vejo Constança do sepulchro, Que em furias abrazada a mim caminha... Relampagos fuzilão, treme a terra... Eis-que lá dos abysmos arrojados Impios Ministros da feroz vingança No peito agudos ferros vem cravar-me: Debalde agonisante o Esposo invoco... Proferido por mim seu doce nome Exacerba os furores de Constança, Que á morada dos mortos me arremessa. Oh do crime funestas consequencias!... Desgraçados mortaes!
(4) _Levantando-se._
_Elv._ ............ E póde hum sonho...
_Ign._ Não he hum sonho, Elvira, são remorsos.
_Elv._ Devem elles acaso inda ralar-te? Não bastou Hymenêo a suffoca-los? Ah! Se antes que os seus laços te cingissem, Succumbiste do amor á paixão céga, Assaz tens expiado este delicto, Delicto mais que todos desculpavel.
_Ign._ Huma alma como a minha jámais julga Ter assaz expiado seus delictos: Embora de Hymenêo os sacros laços Agora o meu amor licito fação, Este amor foi no crime começado. Mirrada de pezares, sim, foi elle, Quem despenhou Constança no sepulchro, Constança, essa Princeza desgraçada, Que, a não ser eu, talvez fosse ditosa, Talvez, do Esposo amada, inda vivesse; Eu fui a origem dos seus males todos; Trahi sua amizade, fui-lhe ingrata, Sua rival, oh Ceos! assassinei-a. Oh crime involuntario! Horrendo crime! Tuas iras são justas, sim, Constança; Arrasta-me comtigo á sepultura, Acaba de punir-me, e de vingar-te... Mas ah! Que digo!.. Não... poupa-me a vida, Nella a vida do Principe se int'ressa: Tu não has de querer envenenar-lha: A morte não, não póde certamente A paixão extinguir de que morreste; Mesmo lá do sepulchro inda o adoras... E talvez compassiva me desculpes. Quem melhor do que tu conhecer deve, Que aos affectos de Pedro, aos seus extremos Humanas forças resistir não podem? Se tu, sem ser amada, tanto o amaste, Deixaria eu de ama-lo sendo amada? Sabe o Ceo quanto tempo em viva guerra, Contra o meu coração lutei debalde: Quantas vezes chamando em meu soccorro A virtude, e a razão... auxilio inutil! Immudece a razão quando amor falla. Triunfar de paixões iguaes á minha... Os miseros mortaes não podem tanto... Que profiro infeliz? Até blasfemo!... Perdoa, Summo Deos, ao meu delirio: A meu pezar, Senhor, fui criminosa; Porém tua Justiça adoro, e temo.
_Elv._ O Ceo he justo, Ignez, o Ceo te absolve: Tua alma, onde morou sempre a virtude, Tem por graves delictos leves faltas; Tranquilliza, Senhora, os teus sentidos, Modera as afflicções.
_Ign._ ............. Em breve a morte Ás minhas afflicções virá pôr termo.
_Elv._ Oh Ceos! Na primavera de teus annos, Engolfada em fataes, loucos pezares, Tu propria buscas terminar teus dias, Sem que ao menos te lembres que depende Da tua vida a vida do Consorte; Que numa lagrima só que tu derrames, Se o Principe jámais a divisasse, Seria de sobejo a envenenar-lhe O terno coração, que affagar deves!... Se neste estado agora elle te achasse, Em que estado sua alma ficaria! Por seu amor, te rogo, enxuga o pranto, As afflicções desterra, em que soçobras.
_Ign._ Oxalá que podesse desterra-las! Mas buscarei ao menos reprimi-las, Porque não participe o caro Esposo Dos males, dos horrores que me cercão. Embora o Ceo me opprima, e me castigue, Entorne sobre mim suas vinganças; Porém sobre elle só prazeres mande: O seu socego, mais que o meu, desejo: A fim de lhe mostrar alegre o gesto, A que esforços me não dou continuamente? Para o não affligir... ah! Quantas vezes Calco, suffoco dentro do meu peito Afflicções, que no peito me não cabem!... Quantas vezes, sumindo-se a seus olhos, Dos meus ao coração recúa o pranto! Mas ah, que os meus pezares, meus martyrios, Quanto mais os escondo, muais se azédão, Nem podem já ter fim senão co'a vida. A qualquer parte, oh Ceos, que os olhos mande, Motivos d'afflicção sómente encontro. Do passado a lembrança me horrorisa, E do futuro a idéa me intimida: Contra mim conspirada a intriga, a inveja, Sobranceiras as iras d'hum Monarcha, Tudo me vai cavando a sepultura: O coração m'o diz.
_Elv._ .......... Elle te illude: Que podes tu temer, quando enlaçada Ao mais digno dos Principes do Mundo, Ao melhor dos mortaes que os Ceos formárão, O seu braço invencivel te defende? Em vez de recear sonhados males, Olha os immensos bens, a fausta sorte, Que propicio futuro te apparelha; O Lusitano Solio, que te espera; O respeito, o amor dos Portuguezes, A gloria de imperar sobre este povo, A quem teme, e venera o Mundo inteiro... Tudo, tudo, Senhora, te promette Permanentes venturas: nada temas.
_Ign._ Essas mesmas quimericas venturas, Esses bens illusorios, que me apontas, Justos motivos são dos meus temores. Oxalá que D. Pedro não tivesse Hum Throno por herança que offertar-me! Então fôra eu feliz, passára a vida No regaço da paz, e da alegria: Não haveria então quem se oppozesse Á perpetua união das nossas almas; Nem barbara politica empecêra De nossos ternos corações a escolha: Hum do outro na posse, ambos ditosos, Aos transportes d'amor sem susto entregues, Rodeados dos tenros, caros filhos, Sem ter que desejar, o Throno excelso, Todos esses fantasmas da grandeza Nem huma vez sequer nos lembrarião; Mas o fado nao quiz...
_Elv._ .............. Ahi vem D. Sancho.
_Ign._ Que motivo o conduz a procurar-me? Venero as suas cãs, e o seu caracter; Como elle, junto aos Reis, achão-se poucos.
SCENA II.
_D. Sancho, Ignez e Elvira._(5)
(5) _Elvira, logo que D. Sancho entra na Scena, retira-se para o fundo della, e pouco depois desapparece._
_Sanc._ O Ceo neste lugar faz que eu te encontre: He preciso, Senhora, com franqueza Mostrar-te os imminentes precipicios, Que só tua virtude evitar póde. O Principe despreza os meus conselhos, Meus rogos não attende, nem já céde Ás lagrimas d'hum velho que aprecia, Mais do que a propria vida, a sua gloria: D'hum velho, que incumbido de educa-lo, Sempre a núa verdade ante os seus olhos Tem feito apparecer, buscando sempre Afastar-lhe a lisonja dos ouvidos, Esse das Cortes pessimo veneno, Que os corações dos Principes corrompe. Seu caracter violento, caprichoso, Agora por amor mais inflammado, Já não deixa dobrar-se ás minhas vozes; Cégo resiste aos Paternaes preceitos; He necessario pois que a obedecer-lhe O resolvas tu mesma. Bem conheces Do inflexivel Affonso o genio iroso. Já tres vezes o tem chamado á Corte, Sem que D. Pedro cumpra os seus mandados, Nem queira pesar bem seus ameaços: Muito do Rei severo temo as iras, Por crueis Conselheiros atiçadas: Vendo talvez do filho a rebeldia, Se esqueça de que he Pai. Cumpre, Senhora, Que atalhes as funestas consequencias, Que podem resultar da pertinacia Em que o Principe insiste: que o convenças A beneficio seu, e em teu proveito, A cumprir sem demora os seus deveres: Eu sei que na sua alma podes tudo, E das tuas virtudes tudo espero.
_Ign._ O teu zelo, candura, e probidade Assaz louvo, e respeito. Não te enganas Em suppor-me capaz de emprender tudo, Inda mesmo arriscando a propria vida, Para chamar D. Pedro aos seus deveres; Não tem sido por falta de lembrar-lhos, Que elle ás ordens de hum Pai tem resistido. (Tu, não menos do que eu, seu genio sabes) Nem attender-me quer quando lhe imploro, Que á Corte vá lançar-se ás Regias Plantas. Todavia, D. Sancho, eu te prometto, Que não hão de cessar minhas instancias; Embora, longe delle, Ignez saudosa, Ao furor dos seus émulos exposta, Venha talvez a ser victima triste De insidiosa politica: antes quero Morrer, do que lembrar-me que sou causa De que o Principe falte aos seus deveres.
_Sanc._ Quem nutre em si tão nobres sentimentos, Inda sendo opprimida, he venturosa. Zombou sempre a virtude da desgraça, Debalde a emulação, armando a intriga, Conspira contra ti: mas he preciso Seus designios frustrar: sim....
_Ign._ ........................ Eis D. Pedro.
_Sanc._ Queira o Ceo que o convenças! Eu vos deixo.
SCENA III.
_D. Pedro, e Ignez._
_Ped._ Quanto são vagarosos, cara Esposa, Os poucos melancolicos momentos, Que distante de ti saudoso passo? Só ao teu lado, Ignez, socêgo encontro, Não existo senão quando te vejo.
_Ign._ Quanto me adoras sei, Principe amado; Mais terno cada vez, mais extremoso, As tuas expressões meu pranto excitão; Porém d'amor agora não tratemos: Bradando estão deveres mais sagrados Que preencher te cumpre: antes de tudo Tenho, Esposo, hum favor que supplicar-te: Negar-mo-has tu, Senhor?
_Ped._ ................ Ignez, que dizes? Tu, que tens na minha alma todo o imperio, Ah! Podes duvidar que eu te obedeça?
_Ign._ Pois bem, Senhor, attende á tua Esposa, Ouve meus rogos, e a meus rogos céde: Se tu só junto a mim socêgo encontras, Tambem só junto a ti socêgo eu tenho; Porém quer o destino, o dever manda, Que te apartes de mim por algum tempo.
_Ped._ Apartar-me de ti? Oh Ceos! Que escuto! Apartar-me de ti? Castro he quem falla?
_Ign._ He Castro, sim, Senhor, aquella mesma, Que preza mais que tudo a tua gloria; Aquella, cujo brio não tolera, Que seja o terno amor, que lhe consagras, Motivo de infringires teus deveres. Bem o sabes, Senhor, em nenhum tempo Procurei ardilosa fascinante: Cedi ao teu amor, porque te amava, Porque em ti divisei huma alma terna, Alma que o Ceo formou para encantar-me, De todas as virtudes adornada. Agora pois te cumpre conserva-las, E a mim não consentir que as abandones: Eu de mim propria assaz me horrorizára Se visse que as perdias por amar-me. Não, Principe querido, eu te supplico Por este mesmo amor que a ti me prende, Que á Corte sem demora te dirijas, Onde teu Pai, talvez já fatigado De te chamar em vão, te espera ancioso. Obedecer aos Paternaes preceitos He lei da Natureza, he lei sagrada; Cumpri-la deves: vai...
_Ped._ ............... Basta: Eu conheço Quaes meus deveres são, e sei cumpri-los; Sei que he devida aos Pais a obediencia; Mas igualmente sei que tem limites A Paternal, sagráda authoridade. Tenho pensado bem no que obrar devo: Justos motivos, que não sabes inda, Exigem que eu não cumpra as Regias ordens. Obedecêra a hum Pai, se Pai tivera... Mas eu não vejo mais do que hum tyranno Nesse que o ser me dêo...
_Ign._ ................. Senhor, suspende: He teu Pai; muito embora cruel seja; Tu deves respeita-lo, e obedecer-lhe.
_Ped._ Se quer que lhe obedeça, e que o respeite, Não me imponha preceitos deshumanos.
_Ign._ Não prometeste ha pouco á tua Esposa Conceder-lhe o favor que te pedisse?
_Ped._ Vê pois quando não posso comprazer-te, Se terei razões justas que me estorvem De obedecer a hum Pai!
_Ign._ .............. Não póde have-las.
_Ped._ Tyrannos... que nos julgão seus escravos!(6) Para nos flagellar o ser nos derão!
(6) _Sem attender a Ignez, transportado._
_Ign._ Tu me fazes tremer.
_Ped._ .................. Sabe em fim tudo. Affonso, e o Monarcha de Castella Acabão de firmar a nova alliança, Em que sem meu consenso contratárão, Qu'eu daria a Beatriz a mão de Esposo: Para este fim á Corte sou chamado. Affonso, não contente da violencia Que ao meu coração fez, quando forçado De rôjo me levou ante os altares Para unir-me a Constança em laço eterno, Pezado laço, que rompeo a morte; Não contente de haver sido o motivo De... Mas que digo? Não, ah! não foi elle; Eu em lhe obedecer fui o culpado: Que desenfrêe agora as suas iras; Que rogue, que ameace; mesmo quando Em secreto Hymenêo não estivessem Ligadas para sempre nossas almas, Debalde intentaria submetter-me A hum jugo que a vontade recuzasse, Reconheço porém que a pertinacia, O despotico orgulho de seu genio, Sem que attenda senão ao seu Tractado, Quererá que por força o desempenhe. Não convém descobrir nosso consorcio; E outra escusa qualquer que eu fosse dar-lhe D'irrita-lo inda mais só serviria. Agora julga pois se partir devo. Se me devo ir expôr, talvez... quem sabe! A faltar-lhe ao respeito inteiramente... Mas tu choras?.. Que vejo!.. Acaso temes?...
_Ign._ Nada temo por mim, por ti só temo: Sim, quando vejo sobranceiros males, Por desditoso amor originados; Quando vejo engrossar a tempestade, Que me denota proxima ruina; Nem por isso me assusto: o que me afflige, He vêr hum Pai, hum Reino, e o proprio Esposo, Tudo por meu respeito alvorotado. Em situação tão ardua, e tão penosa, Té chego a desejar... (infeliz Castro!) Que o sacrosanto nó que a mim te prende, Este laço tão doce, e desejado, Dos bens o maior bem que Ignez possue, A ser possivel, hoje se rompesse, Só porque tu podesses livremente Obedecer a hum Pai, fazer ditosos Por hum feliz consorcio dois Imperios. Muito embora Beatriz te possuisse... Mas que digo? Ai de mim! Nos braços d'outra!.. Nos braços d'outra vêr o amado Esposo! Ah! não... não posso tanto, antes a morte.
_Ped._ He teu meu coração, será teu sempre. Os laços de Hymenêo são as mais debeis Prizões que a ti me ligão. Quando amamos, Desnecessarios são ritos, promessas: Mais força tem amor que os juramentos. Inda que ante os altares sacros votos De permanente fé, de amar-te sempre Não tivesse a teu lado proferido, Seria sempre teu, sempre te amára; Sem que jámais podesse força humana Separar corações, que amor uníra.
_Ign._ Mas que, talvez em breve sopeados, Aos golpes da politica succumbão.
_Ped._ Para lhe resistir basta o meu braço.
_Ign._ O teu braço, Senhor, só deve armar-se Para emprezas mais dignas do teu nome: No lance melindroso em que nos vemos Convém, mais que os furores, a brandura; E apezar das razões que ponderaste, Julgo que deves dirigir-te á Corte; Pois talvez, se não corres a embarga-los, Teu Pai avance os começados passos Para as nupcias da Infanta de Castella, Na esperança de ser obedecido, E a ponto chegue que depois não possa...
_Ped._ Sem lhe dizer porque, já fiz saber-lhe, Que taes nupcias jámais celebraria.
_Ign._ Mas não fôra melhor...
SCENA IV.
_D. Pedro, Ignez, e D. Sancho._
_Sanc._ ................... Senhor: ah! corre, Vem esperar teu Pai.
_Ign._ .............. Oh Ceos!
_Ped._ ...................... Que dizes?
_Sanc._ Dirigido a Coimbra em veloz marcha Partio da Corte Affonso, aqui não tarda.
_Ign._(7) Agora sim, minha desgraça he certa.
(7) _Fallando comsigo mesma._
_Ped._ (8) Meu Pai? oh Ceos!.. meo Pai?
(8) _Pensativo, e admirado._
_Sanc._ ........................ Coelho, e Pacheco, Seus crueis Conselheiros, o acompanhão: Toda a Corte, Senhor, em sobresalto Ficou co'esta partida inesperada: Mendonça que ligeiro vem trazer-te A importante noticia, assim o affirma: Murmura o Povo já de recusares As nupcias de Beatriz, que applaudem todos.
_Ped._ Murmure muito embora, embora venha Armado de poder, ardendo em raiva, Da vingança, e das furias escoltado, Esse a quem por meu mal devo a existencia; Que, se intentar comigo ser tyranno, Ha de em seu filho achar hum inimigo Capaz dos mais tremendos attentados; Que em casos taes os crimes não são crimes, São forçoso dever das almas grandes. Espera-lo não vou.
_Sanc._ ........... Senhor, que fazes?
_Ped._ O que me apraz fazer.
_Ign._ .................... Oh Ceos! Nem posso Das tuas expressões horrorizada, Soltar do coração tremulas vozes: Fallem por mim as lagrimas que choro... Não me consternes mais. Ah! vai, não tardes; Vôa a encontrar teu Pai, se ver não queres Estalar de afflicção a tua Esposa.
_Ped._ (9) Eu vou satisfazer-te, sim eu parto; Vou rasgar do segredo a cauta venda: Saiba, sim, saiba Affonso antes que chegue Estes sitios a entrar, que Ignez habita, Que a deve respeitar como Princeza; Que inquebravel prizão a Ignez me liga.(10)
(9) _Depois de ficar hum pouco pensativo, diz resoluto._
(10) _Em acção de partir, e D. Sancho retendo-o._
_Sanc._ Oh Ceos! Não faças tal, melhor discorre; Para lhe revelar hum tal segredo Occasião mais opportuna espera: A cólera azedar não vás de Affonso; No transporte cruel das suas iras, Bem sabes que he capaz...
_Ped._ ................... De que? De nada: Mais de mim, do que eu delle, tremer deve... Se ousasse contra Ignez... Ah! nem pensa-lo. Para vingar o seu menor insulto Seria pouco todo o sangue humano.
_Ign._ Bem me dizia o coração presago... Meu mal he sem remedio; o proprio Esposo He quem vai despenhar-me no sepulchro. Meus crueis inimigos não me assustão: O popular tumulto, hum Rei severo Nada temo, ai de mim! a ti só temo. Ah! Lembra-te, Senhor, do que juraste Antes de conduzir-me ás sacras Aras, Onde eu te não seguira, se primeiro Tu me não prometesses guardar sempre O devido respeito ao teu Monarcha, E a paz não perturbar dos seus Dominios: Tu não has de faltar, o tempo he este, Que eu já prevía então: oh caro Esposo! Lança do coração fataes transportes; Não percas tempo, vai, corre a prostrar-te Aos pés do grande Affonso; mas submisso, Ao beijar de teu Pai a mão augusta, Sobre ella de teus olhos chova o pranto. Pondera que te perdes, que me perdes, Se com elle furioso praticares; Só nos pode salvar docil brandura: Se não queres matar-me, sê submisso.
_Ped._ O temor de affligir-te pode tudo. Respeitoso serei, terei brandura, Se elle brandura igual usar comigo. Nada temas, Princeza: Adeos. Eu juro Pelos Ceos outra vez, e por ti mesma, Que inda que o Mundo inteiro se me opponha, Castro ha de ser de Portugal Rainha.(11)
(11) _Parte._
_Ign._ Não te apartes, D. Sancho, do seu lado: Moderem teus conselhos seus transportes.
_Sanc._ Dai forças, justos Ceos, ás minhas vozes, Lançai a Portugal piedosas vistas.
SCENA V.
_Ignez só._
Que temor, infeliz! de mim se apossa!(12) Caro Principe!.. Esposo!.. oh Deos, quem sabe Se a ver-te tornarão inda os meus olhos. Vai, ó Castro, abraçar-te aos caros filhos, E entrega-te nas mãos da Providencia. (12) _Sem poder despregar os olhos do caminho que tomou D. Pedro._
ACTO II.
SCENA I.
_D. Affonso, e D. Pedro._
_Af._ Basta, Principe, basta: prescindamos De justas arguições, de escusas futeis; Não quizeste ir, vim eu. Quero esquecer-me, Perdoar quero mesmo as tuas faltas, Huma vez que obediente hoje as repares. Concluão-se estas nupcias proveitosas, Que para teu prazer, e a bem do Estado, Prudente contratei. Verás com gosto, Quando Lisboa entrares a meu lado, Com quanto regozijo o Povo todo, Teu consorcio applaudindo, a festeja-lo Com pompa jámais vista se prepara. Que doçura não he para os Monarchas, Espalhar alegria entre os Vassallos! Vê-los mandar ao Ceo ardentes votos, Pela conservação da Regia Prole, Que lhe segura a paz, a dita, a gloria! Vêr que as suas acções o Povo approva, E contente abençôa o seu Reinado, Curvando-se de grado ao leve jugo, Que sómente os máos Reis fazem pezado! Mil graças dou aos Ceos, pois satisfeitos Julgo estarão de mim os Lusitanos. E nada mais desejo que deixar-lhes, Em meu filho, outro eu, que sempre os ame, E que por elles seja sempre amado. Começa desde já neste consorcio A firmar o seu bem. Sim, hoje mesmo Deves partir comigo para a Corte, A fim de o celebrar, logo que chegue A Infanta de Castella, digno objecto Que escolhi para Esposa de meu filho.
_Ped._ Ah! Que seja possivel, por meu damno, Que o melhor dos Monarchas do Universo, Igualmente não seja o Pai mais terno! Que hum Rei, que desvelado buscou sempre Fazer os seus Vassallos venturosos, Queira fazer seu filho desgraçado!... Contratares, Senhor, sem consultar-me Hum consorcio, ignorando se teu filho Pode, ou quer d'Hymenêo ás leis cingir-se! Se essa, que lhe destinas para Esposa, Pode ao seu coração ser agradavel! Acaso julgas tu desnecessaria A minha approvação para estas nupcias! Não será livre hum coração ao menos Na escolha d'huma Esposa, que amar deve... Ah! Não queiras, Senhor, com tal violencia...
_Af._ Immudece, insensato; não prosigas Indignas expressões que me envergonhão... Bem conheço a razão porque assim pensas. Que indignos sentimentos, que fraqueza, Para quem deve hum dia ser Monarcha! Como, quando do Imperio as redeas tomes, Quando na mão a espada formidavel Da severa Justiça sustentares, Das paixões punirás o torpe effeito, Sendo tu proprio das paixões escravo? Como jámais serás obedecido, Se tu mesmo ao teu Rei desobedeces? Com quanta repugnancia os Portuguezes, Murmurando, verão no Luso Solio, Que de tantos Heróes tem sido assento, Hum Rei dado ás paixões, afeminado, Incapaz de empunhar o Sceptro augusto!
_Ped._ Mas capaz de os reger, e defende-los. Se das grandes paixões sou susceptivel, A molleza detesto, bem o sabes: Quando cumpre, Senhor, em campo armado; Ensinado por ti, brandindo a espada Sei por acções mostrar que sou teu filho; Nem para ser bom Rei (Senhor, perdôa) Eu julgo necessario huma alma dura; Mas antes me persuado não devêra O que fosse insensivel reger Homens. Corações que á ternura se não rendem, Jámais sabem carpir alheios males; Nem doêr-se das lagrimas do afflicto.
_Af._ Apagada a razão, cégo deliras; Isentos de paixões os Reis ser devem; Manão dos seus os publicos costumes: Se exemplificão mal os seus Estados, Os vicios dos Vassallos são seus vicios; Devem sacrificar os seus desejos; Ser comsigo crueis a bem dos Povos, Que o Ceo lhes confiou; e os que se ensaião Para lhes dar as Leis, devem mostrar-se Capazes destes nobres sacrificios. Os consorcios dos Principes são obra Dos int'resses do Estado, elles decidem, Elles dispõe de nós. Deixem-se ao Vulgo Caprichosos melindres com que exige, Que aos laços d'Hymenêo Amor presida. As doçuras de Amor para os Monarchas São de pouca valia: a nossa gloria Não se firma em tão fracos alicerces.
_Ped._ Se aos que devem reinar he necessario Ceder dos privilegios, dos direitos Que a Natureza deo aos Homens todos; Por tal preço, Senhor, não quero o Throno! Laços formar, que o coração repugna, Origem de desgraças, e de crimes... Assaz o exp'rimentei... grilhões tão duros, Por tuas mãos lançados, longo tempo Com bem custo arrastei... Supportar outros... Ah! Não, Senhor, não posso.
_Af._ ...................... Temerario! Basta já de soffrer hum filho ingrato. Se aos rogos, ás razões de hum Pai benigno Tu não queres ceder; cede aos preceitos De hum Monarcha severo, e justiçoso. Eu dei minha palavra, has de cumpri-la: Os tratados dos Reis não são falliveis: Debalde pois te oppões...
_Ped._ ................... Mas ah! Pondéra...