Nova Academia De Pintura Dedicada As Senhoras Portuguezas Que A

Chapter 1

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Rita Farinha (Mar. 2008)

NOVA ACADEMIA

DE

PINTURA

DEDICADA

ÁS SENHORAS PORTUGUEZAS

_Que amão ou se applicão ao estudo das Bellas Artes_.

....las Mugeres quando Talves, applicar se han visto A las Letras, o las Artes, Los Hombres han excedido.

LISBOA:

NA IMPRESSÃO REGIA.

ANNO 1817.

_Com Licença_.

PROEMIO.

Quando vou discorrer sobre a Arte da Pintura, parece que deveria começar pelo seu elogio; mas não o farei, por me parecer cousa superflua, e bem sabida de todos: observarei sómente, que a Arte por si só, inda que fosse levada a hum alto gráo de perfeição, não poderia fazer illustre, e estimavel aquelle que tivesse o odioso, ou ridiculo comportamento de hum Brouwer,[1] de hum Aleixo Transpadano,[2] ou de hum Bufalmaco;[3] mas se pelo contrario, algum soubesse ajuntar á honra, e á virtude os talentos de Rafael, de Corregio, ou de outro grande Pintor, estas raras qualidades assim reunidas, constituirião (diz Richardson) hum mortal «cujo esplendor poderia luzir mùito, mesmo em hum mundo ainda melhor de que este». Na Poesia não se admittem medianias; mas na Pintura ha tantas e taes difficuldades a vencer, que «O Pintor de segunda ou terceira classe merece o mesmo gráo de estimação que hum homem de primeira ordem em qualquer outra Faculdade.»

Mas se esta scientifica Arte, pela sua belleza e profundidade, tem sido digna da applicação de muitos homens da mais alta esphera, não deixa ella tambem, de ser igualmente propria, ou talvez mais propria ainda, para as Senhoras; principalmente naquelles casos em que são mais necessarias a graça, e a delicadeza: assim, tem feito as Nações conhecedoras o maior apreço das obras da Sirani, da Sophonisba, da Rosalba, e de muitas outras, cujos nomes fazem tanta honra ao bello Sexo, como ás suas patrias.

A Musica he huma arte angelica, e pode entreter deliciosamente qualquer Senhora, huma ou duas horas cada dia; a leitura a divertirá tres ou quatro; mas a Pintura faz parecer pequenos os maiores dias de Junho, e torna amavel e apetecivel a mesma solidão: he huma arte não só imitadora de toda a Natureza, mas tambem creadora; arte emfim, que sympathisa grandemente com a vivacidade das pessoas espirituosas, e discretas, muitas das quaes desejão saber pintar, e nem sempre o conseguem; ou por viverem em terras aonde não ha quem as ensine, ou por se limitarem nas lições a huma pratica mui superficial. A Pratica he de absoluta necessidade, e por ella se deve não só começar, mas avançar muito, sem nunca a perder de vista; porém ha huma baliza, além da qual senão podem fazer ulteriores progressos sem estudar a fundamento os preceitos theoricos.

Os Poetas, e Oradores tem as suas regras fundamentaes, escritas por bons Authores; nós tambem temos as nossas: o numero dos Escriptores que as tratão he muito grande; os idiomas em que correm impressas são mui diversos; e he assaz difficultoso poder fazer dellas huma sufficiente collecção; e quando se fizesse serviria talvez, mais para confundir a mente de hum principiante, que para a illustrar. Ha em taes livros muitas cousas inuteis, e outras que parecem, ou são contradictorias; por tanto he preciso escolher, resumir, e concordar: he o que nós procurámos fazer nesta pequena obra, extrahindo de muitas flores, como fazem as abelhas, só o balsamo que he proprio para compor o mel; pondo de parte quanto nos pareceo improprio, ou desnecessario.

A Praxe, como dissemos, he indispensavel aos Artistas; mas a theoria he indispensavel á perfeição da mesma pratica. Ella nos manifesta em pouco tempo as descobertas de muitos seculos.

Desde que os restaudores da Arte começárão a fazer alguns progressos, cuidárão logo em ir estabelecendo, como maximas fundamentaes, as verdades que forão descobrindo; e para que ellas fossem bem apuradas e debatidas, antes de se adoptarem, e bem interpretadas depois de estabelecidas, fundárão Academias, compostas dos mais sabios Artistas daquelles tempos; e ás especulações mais e mais apuradas dos seus Academicos, he que se deve a perfeição a que chegou a Arte no tempo de Raphael: e como a doutrina da nossa nova Academia he derivada, e recopilada das doutrinas de todas ellas, não será fóra de proposito dizer de passagem alguma cousa a respeito das mais notaveis.

Tendo-se perdido a Arte, nos seculos que as invasões dos Godos fizerão barbaros, e infelices, só em Constantinopla, aonde elles não entrárão, se conservou huma sombra della, que no seculo XI. começou a diffundir-se pela Italia. Pelos annos 1000 forão alguns daquelles chamados Pintores, fazer de Mosaico, o coro da Igreja de Santa Miniata em Florença: por 1072, sendo Doge de Veneza, Domingos Contarino, forão outros Gregos de Constantinopla ornar tambem de Mosaico a igreja de S. Marcos: hum seculo depois o Abbade Joaquim fez pintar sobre a porta do Thesouro, como por inspiração, os retratos de S. Francisco, e S. Domingos, que ainda não erão conhecidos: os Annaes de Sena fazem menção de alguns estatutos da Arte no seculo XIII.; mas huma das mais antigas sociedades de Artistas, foi a dos Padres Gaudentes, em Florença, no fim do mesmo seculo; muitos dos quaes bordavão, escrevião bem, miniavão, e pintavão.

Gioto, no principio do seculo XIV. fundou a primeira Academia das tres Artes, em Florença; e Jacomo Casentino concorreo muito para se erigir a Irmandade de S. Lucas em Santa Maria a Nova. A Pintura fazia progressos; e quando as Artes sobem, os discipulos excedem os mestres: Thaddeo Gaddi excedeo seu mestre Gioto, no colorido, e nas expressões: Paulo Ucéllo fez grandes progressos na perspectiva: Pedro Cavallini, e Fr. João Angelico derão hum ár muito devoto ás Santas Imagens:[4] o Massolino[5] deu grande nobreza ás figuras, e huma certa vida aos olhos; mas o seu discipulo Massacio excedeu-o tanto, quanto elle havia excedido os outros; porque deu muita força de relevo, muita correcção, graça, e bellas attitudes ás personagens que pintava; e póde-se dizer que abrio o templo da Immortalidade a Miguel Angelo, e a Raphael.

Lourenço de Medicis estabeleceo no seu Palacio, e Jardim, huma destas Universidades, ou Academias, bem provida de preciosos Cartões, desenhos, quadros, e estatuas; e dava premios, e pensões aos estudantes mais aproveitados. Dalli sahio o Buonarota, o Torrigiani, o Ghirlandáro, e outros sabios.

Fr. João Angelo, que era bom Escultor, obteve o beneplacito, e a protecção do Grão Duque, para se restabelecer a antiga Academia, e a Irmandade de S. Lucas, já quasi extinctas, no Convento dos Anjos, e depois em S. Lourenço.

Em quanto isto se passava em Italia, tambem se fundárão iguaes estabelecimentos á quem dos seus montes, taes como o de Antuerpia, o de Nuremberg, o de Bruxellas, etc.; sendo hum dos mais antigos o de Bruges, aonde João Van-Eych no seculo XIV. inventou a pintura a oleo.

No principio do seculo XVI. erigio em Roma, o divino Raphael, a mais douta Universidade da Pintura que virão os modernos; mas durou pouco tempo; porque faltou o Reitor della em 1520, e os alumnos todos se dispersárão, sete annos depois, quando o exercito do Condestavel Carlos de Borbon saqueou aquella Capital: porém Gregorio XIII, fundou outra, em consideração do Musiano, e do Zucaro, que a dotárão. Os seus Academicos edificárão o Templo de S. Lucas, e Santa Martinha, hum dos mais bellos e mais sumptuosos de Roma, pelos desenhos do famoso Pintor Pedro de Cortona; o qual lhe deixou 200$000 cruzados para se construir o Altar mór, de bronzes e marmores finos, e se lhe erigir hum mausoléo.[6] O Painel da dita Capella mór, o qual representa S. Lucas retratando Nossa Senhora, he de Raphael.

Pela Lombardia fez a Arte grandes progressos, e teve boas Academias em Milão, Veneza, Módena, Parma, Bolonha, etc. A dos Caraches foi a mais célebre, pela quantidade de grandes homens que della sahio. Alli se estudavão as tres Artes, a gravura, a perspectiva, e a anatomia: era provîda de esqueletos, manequins, gessos originaes, vestidos, armas, arnezes, etc. Alli se distribuião lugares, empregos, e premios, tudo debaixo da direcção de Luiz Carache. Depois desta houve tambem em Bolonha a do Guido, que teve 200 discipulos, a do Albani, a do Pasinelli, a do Conde Cignani, as do Conde e do Senador Ghisiliere, e outras muitas; mas como todas erão de particulares, depressa se extinguião. Em Julho de 1706, juntárão-se 80 ou 90 Pintores (entre os quaes, diz Zanoti, havia alguns que tinhão o seu merecimento) na Galeria do Conde Fava, que sabia pintar, e tinha boa collecção de pinturas, a fim de buscarem meios para reprimir a ousadia de certos _artigiani_ intrusos, que abusando da illimitada liberdade da Pintura, em hum paiz aonde não havia Academia, se incumbião da direcção de grandes emprezas, e reduzião os habeis artistas a huma abjecta servidão. O resultado foi que o dito Conde, o General Marsili, e Carlos Maratti obtiverão do Papa Clemente XI., que se estabelecesse a desejada Academia de Pintura, e fosse alojada, com a Filosofia, no Palacio do Instituto de Bolonha, debaixo da Protecção de Santa Catharina de Vigri, religiosa de S. Domingos, e Pintora Bolonheza.

Os Authores Francezes fallão em desenhos seus, feitos á penna no seculo XII., com estylo nada inferior ao que depois usou Cimabue:[7] e nos tempos de Gioto, tinhão já muitos daquelles que alli se chamão _barbouilleurs_, formado huma corporação, mecanica sim, mas muito privilegiada pelo Parlamento; e em virtude dos seus privilegios ousárão incommodar os grandes Pintores, que apparecerão no tempo de Luiz XIV. Estes, indignados contra a sua audacia, fundárão a Academia Real de Pintura, e Esculptura, que em 1663 foi dotada com 4$ libras annuaes; mas Luiz XVI. lhe condeo 10$.

Mr. Urry, director das obras Reaes, em 1737, inventou o chamado Salão; lugar aonde de dois em dois annos, os Artistas expõem ao Publico as melhores obras que vão fazendo; cousa que foi mui vantajosa á Arte. Não lhe forão menos uteis os que se chamão quadros de Maio: os Ourives começárão em 1449 a offerecer a Nossa Senhora com grande solemnidade, hum ramo verde, a que chamavão o Maio: depois, juntárão aos ramos certas maquinetas; e por fins, desde 1630 começárão a offerecer cada anno, hum painel, feito sempre por algum dos melhores Pintores da França.

Luiz XV. estabeleceo o grande Concurso da Academia Real em París, sendo o premio dos vencedores, a sustentação em Roma (aonde tem outra Academia) por tempo de quatro annos, para se aperfeiçoarem.

Na Hespanha fundárão-se tambem varias Academias; mas a mais famosa foi a de Sevilha, aberta por Morilho em 1660. A de Madrid estabeleceo-se muito mais tarde pelas dissensões dos mesmos Artistas. O partido dos menos habeis, que era muito maior, triumphou por mais de 120 annos, até o de 1744; tempo em que Philippe V. mandou absolutamente que se fundasse. Fernando VI., dois annos depois, a dotou em 12$ pezos; e exaltou-a extraordinariamente, e aos seus professores.

Inda que estas mimosas Artes sejão mui pouco fecundas nos climas frios, tem-se estabelecido as suas Academias na Dinamarca, na Russia, e por todo o Norte da Europa. Os Pintores Inglezes tambem se associárão em _S. Martin's-lane_ em 1750, a fim de deitarem os fundamentos n'huma especie de Academia: dez annos depois convierão em fazer huma exhibição publica das suas melhores obras, em hum salão similhante ao de França, aonde se entraria por dinheiro. Em 65 obtiverão o beneplacito Regio para se estabelecerem; e em 68 teve a Sociedade o titulo de Academia Real das tres Artes. O dote era o producto das exhibições; mas como nos primeiros annos não chegasse para as despezas, supprio o bolsinho Real a falta de 45$ cruzados.

Os Artistas expõem á venda, ou á censura pública, naquelle Salão, as obras que querem; e os curiosos que as pertendem ver, pagão pela entrada hum xelim cada hum: estas entradas produzirão 13 a 14$ cruzados annuaes até o anno 1779; mas no seguinte, que foi o primeiro da exhibição em _Somerset-Palace_, subio a receita a 27$ cruzados; e dalli até o anno de 96 andou sempre por 22 a 23$ de sorte que excedendo a receita a despeza, comprou a Academia huma boa propriedade, e applicou os seus rendimentos em beneficio dos Artistas precisados. Este estabelecimento, soffreo tambem, como todos os mais, grandes opposições; porque os não admittidos em a nova Academia, fundárão outra; e outra exhibição; mas como não tinhão grande credito, tudo desappareceo em pouco tempo.

De todas estas, e outras famosas Eschólas, he que deriva a Doutrina, que em compendio vamos ensinar nesta nova Academia: mas antes de começar as lições, he preciso dar ás nossas illustres Academicas huma idea verdadeira da Arte.

A Pintura póde ser considerada de duas sortes, ou como natural, ou como artificial. A Pintura natural he aquella que naturalmente se imprime na retina dos nossos olhos; e dalli, pelos nervos opticos, se communica á alma; e a Pintura artificial, he a imitação da Pintura natural. A esta imitação, se he bem feita, chama-se _Verdade_. A Verdade na Pintura, ou he simples, ou ideal, ou composta de huma e outra: Verdade simples he a imitação exacta da Pintura natural, tal como ella se estampa dentro dos nossos olhos, com todas as suas bellezas, e defeitos: Verdade ideal, he a imitação daquellas imagens, que se nos representão na imaginação: Verdade mixta he a imitação da Pintura natural, emendada nos seus defeitos, pelos modelos de perfeição que o grande Artista concebe na sua mente. Esta verdade mixta, ou composta, he a que se acha nas obras de Raphael, e de outros grandes homens; mas principalmente no _Antigo_.[8]

Os que estudão a Arte devem, primeiro que tudo, adquirir a pratica da verdade simples, costumando-se a imitar perfeitamente tudo quanto se apresentar diante dos seus olhos; mas podem, e devem faze-lo de sorte que em virtude da boa escolha dos objectos, achem tambem nos seus exemplares a verdade composta. As Pinturas do Carache no palacio Farnesio, e as de Raphael no Vaticano são as duas grandes eschólas de Desenho. A terceira, e não menos importante para os que estão mais adiantados, he a das boas estatuas antigas: os que não puderem estudar pelos originaes, basta que estudem por exactissimas copias.

A Pintura comprehende tudo quanto se póde ver, e imaginar; e como he tão vasta, divide-se em muitas partes, e em muitos generos. Os generos, são: 1.^o o Historico, ou (como os authores lhe chamão) o grande Genero: 2.^o o dos Retratos: 3.^o o das Batalhas: 4.^o o das Bambochatas: 5.^o o das Paizagens e Perspectivas: 6.^o o das Marinhas: 7.^o o dos Animaes: 8.^o o das cousas inanimadas, como flores, fructos, ornatos, quadraturas, etc.

As partes de que se compõe a Pintura, são: a Invenção; a Expressão; a Distribuição, ou Disposição; o Desenho; o Colorido; o Clar'escuro; o Estylo, ou Pincel; a Graça; a Grandeza; o bello Ideal; etc. etc.: mas todas estas partes se podem reunir debaixo de tres principaes chefes, que vem a ser: _Composição, Desenho, e Colorido_. Na ordem dos estudos praticos, começa-se pelo Desenho; mas na ordem da doutrina theorica principia-se pela Composição, por ser a primeira cousa que o pintor habil tem a fazer quando quer começar o seu painel; motivo porque principiaremos tambem por esta parte o nosso compendio.

NOVA ACADEMIA DE PINTURA

PRIMEIRA PARTE.

_Composição._

«Crear, ou para dizer melhor, reproduzir de novo as obras do Creador; renovar e perpetuar sobre hum painel os feitos heroicos, os acontecimentos memoraveis, he o mais nobre emprego do genio pitoresco. Dispôr as idéas em huma bella ordem, apresenta-las debaixo d'hum aspecto luminoso, he o grande primor da arte. Desta duplicada operação, da Arte, e do Genio, nasce a Composição. Os pensamentos são os seus membros. Mas assim como os materiaes de hum edificio não o poderião formar, se não estivesse cada hum no seu lugar; assim as idéas não representarião bem huma passagem historica, senão estivessem distribuidas na composição do quadro, com sabia economia, e com reflexão magistral. A composição divide-se em Invenção, e Disposição.»

SECÇÃO I.^a

_Invenção._

«A invenção he a combinação dos pensamentos que concorrem para a composição de qualquer assumpto: he huma Musa que sendo dotada de todas as bellas qualidades das suas irmãs, as Musas das Bellas letras, e inspirada pelo espirito de Apolo, vem por isso mesmo a ser mais elevada, e a resplandecer com mais viva flamma: he hum talento natural que se não adquire pelo estudo, nem pela pratica; porque a fonte das invenções está na faculdade imaginativa, e requer tres cousas, _imaginação_, _prudencia_, _erudição_.»

«Não ha regras para a Invenção, porque a arte de imaginar não se communica; mas podem haver conselhos uteis. Racine, quando compunha as suas tragedias fazia todos os esforços para entrar nos sentimentos que queria dar a Hippolito, a Phedra, a Athalia, e a Esther.»

«A Invenção he a poesia da Pintura, e a parte mais propria para descobrir o talento do artista: ella desenvolve a primeira idéa de toda a obra; e o Pintor não a deve perder de vista até a ultima pincelada. Não basta que elle encha hum painel com muitas e boas figuras, se estas não servirem todas para explicar o principal objecto; e se a totalidade da obra não declarar logo ao espectador qual he o assumpto de que se trata; preparando, e dispondo a mente de quem vê a pintura, para ser commovida com as expressões, e affectos das figuras principaes: sem o que, de nada serviria dar-lhes expressões violentas e exaggeradas, como fazem aquelles que querem affectar muito espirito. O excesso, ou affectação he a cousa mais nociva á boa invenção.»

«A Pintura sustenta-se, assim como a Poesia, pela fabula, e vive de ficções; cada virtude se transforma n'huma divindade: Minerva he a Prudencia; Venus a formosura; Diana a castidade; Écho não he hum som, he huma nympha; o cabo das tormentas não he hum promontorio, he o gigante Adamastor. Assim o Pintor, e o Poeta, ornão e elevão todas as cousas.»

«He tambem importante, associar á escolha dos objectos todas as circumstancias, e todos os episodios, que podem augmentar o seu interesse; tendo porém muito cuidado em que os accessorios não prejudiquem em cousa alguma a acção principal.»

«As particularidades relativas ao _costume_ devem ser exactamente observadas na Invenção: transportemo-nos em idéa aos diversos paizes; chamemos á nossa imaginação os passados seculos; occupemo-nos dos usos, costumes, e trajes de todas as personagens, para não cahir-mos naquelles anachronismos, que são capazes de tirar o merecimento ao quadro mais felizmente concebido, e executado.»

«Tudo o que se chama original he inventado; mas nem tudo o que he inventado merece o titulo de original; porque esta palavra não só dá idéa de invenção, mas tambem de grande magisterio. Arrojar-se a inventar sem ter subido todos os degráos da escada optica, he querer precipitar-se. Alguns desfigurão ás vezes os seus pensamentos querendo enriquece-los.»

«Lêa o Pintor muitas vezes a historia que ha de compôr, e quando estiver bem senhor della imagine as personagens: faça o desenho interno na sua idéa; porque sem isso rascunhará muito, e não fará nada. Depois da composição mental, querendo passar á execução da obra, retire-se do tumulto; porque entre rumores, e estrépitos nada se fará com acerto. Não pinte senão quando se sentir excitado por hum certo impulso; porque a pezar das Musas não se póde fazer obra louvavel.»

«A _Invenção_ requer muito fogo, e muito genio; e a _Disposição_ muita fleuma, e prudencia: e como estas cousas tão oppostas raras vezes se combinão, por isso tem sido raros os grandes Pintores. He porém mais facil moderar o genio de fogo, que escaldar o de gelo.»

«Nem todos os pensamentos são proprios para formar huma intelligivel e elegante composição. Lucas Jordão rejeitou as Invenções dos sabios que por ordem de Carlos II. lhe davão assumptos Theologicos para elle executar no Escurial. Todos erão orthodoxos, discretos, eruditos; mas não erão capazes de fazer por elles huma bella e pittoresca composição: portanto deve-se escolher hum assumpto nobre, e que seja susceptivel de bom colorido, graça, belleza, instrucção, recreio, etc.: escolhendo, para o compor, o mais bello de toda a Natureza, segundo o gosto dos antigos, e dos modernos que melhor os souberão imitar.»

«A escolha das Invenções deve ser analoga aos lugares que ellas vão ornar. Nas Casas Reaes convem as acções dos Principes, e dos grandes Capitães; convém triumphos, victorias, e outros assumptos capazes de levantar o nosso espirito a pensamentos heroicos, e a desejos de honra, e de gloria. O grande Artista póde, e deve ser grato aos beneficios que recebe da Patria, dos Principes, e dos grandes Senhores: e se Virgilio immortalisou os Romanos, Camões os Portuguezes, e Homero os Gregos; tambem Raphael teve poder para perpetuar a gloria de Julio II., e Leão X.; Lebrun a de Luiz XIV.; e o Ticiano a de Carlos V.»

«Nos Consistorios ecclesiasticos, tem bom lugar a assembléa dos Filosofos, ou o concilio dos Theologos; como fez Raphael no palacio Pontificio: mas nos seculares, não será impropria a pintura do conselho dos Gregos para a expedição de Troya: a de Licurgo, Demosthenes, etc. Nos templos claros pode-se pintar S. João prégando á turba; a absolvição da Adultera; a conversão de S. Paulo; e outras passagens alegres: mas n'hum tribunal de Justiça será a proposito representar o juizo de Salomão; aquelles que se dedicárão á morte por amor das leis; e outros semelhantes.»

«Nos jardins, ao pé das fontes, não serão improprias as metamorphoses de Acteon, Arethusa, Salmacis, Narciso, e Egeria; mas entre os bosques Hippomenes, Atalanta, Meleagro, Marsyas, Apollo; os quatro tempos, e os mezes do anno; bailes de nynfas, e satyros; e tambem algumas perspectivas, e paizagens, com Cephalo, etc.»

«Sobre as chaminés das salas pintar-se-ha Prometheu furtando o fogo do Ceo, Hercules na pyra, Ascanio com a flamma nos cabellos, Vulcano, Phaetonte, Perillo, Scevola, Curcio, Medéa, Ceres procurando a filha, e outras. Os corredores ou galerias abertas, sendo nobres como são as lojas de Raphael, ou o Claustro do Escurial, podem ser enfeitados com elegantes ornatos, e arabescos, compostos de aves, flores, fructos, medalhas de estuque, paizagens, perspectivas, folhagens, animaes, insectos, monstros, figuras humanas, e tudo quanto cria a Natureza, e a idéa póde imaginar.»

«As galerias interiores, bem pintadas, são como preciosos volumes, sempre abertos, e escriptos em huma linguagem universal, que todos entendem; onde vemos descriptas as proezas de Luiz XIV.; a protecção efficaz que elle concedeo ás Artes e Sciencias; as acções de Francisco I.; e tantas outras cousas nobres, sublimes, e interessantes, executadas pelo Rosso, pelo Primaticio, pelo divino Raphael, por Le Brun, por Mignard, e por muitos outros sapientissimos Pintores. Rubens na Galeria do palacio de Luxemburgo, edificado por Maria de Medicis, tambem deixou em vinte e quatro paineis immortalisadada a vida daquella heroina. No primeiro, onde está representado o seu destino, apparecem as tres parcas fiando os bellos dias da futura Rainha, debaixo dos auspicios de Juno, e de Jupiter. No segundo está Lucina allumiando com a sua flamma as Graças da Princeza recem-nascida; e deposita-a entre as mãos da Cidade de Florença: Os Destinos espalhão sobre ella flores ás mãos cheias: o signo de Sagittario indica o tempo do seu nascimento: o Genio da felicidade, deixando ver a coroa, o sceptro, e as flores de liz, claramente manifesta que aquella menina nasce para ser Rainha de França.»