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Part 29

Chapter 294,158 wordsPublic domain

Quem poderia contar sem muitas lagrymas os açoutes, que Deos mandou à Christandade polos Godos, Ostrogodos, Alanos, e toda outra geraçaõ dos barbaros, os quaes partidos da terra fria, que he debaixo do Norte; como huma grande tormenta allagaraõ quasi todalas provincias da Europa; e por me naõ deter nos outros, direy brevemente dos Hunnos: estes sahindo da Tartaria com tres Capitaens, Cheme, Chadrichia, e Bela, chegaraõ ao Reyno de Ungria, e o tomaraõ, lançando os Longobardos, que o tinhaõ occupado; naõ muito depois fallescendo todos tres, foy alevantado Athyla por Rey dos Hunnos, que foy taõ crù, e fez tanto estrago na Christandade, que com muita rezaõ mereceo ser chamado açoute de Deos; matou as onze mil Virgens, venceo, e destruio Alemanha, França, Italia; pellejou nos Campos Cathalonicos, que saõ em Franca, com Echio nobre Capitaõ Romaõ, e Meroueo, que foy o III. Rey de França, e juntamente com Theodorico Rey dos Godos, na qual batalha foraõ mortos cento, e oitenta mil homens: por onde quer que Athyla passava, tudo era fogo, e sangue, em cada parte eraõ ouvidos choros, prantos, e lamentaçoens, eraõ trespassados com feridas crueis os meninos de mama dentro dos braços das Mãys, os Santos Sacerdotes, e devotos Religiosos recebiaõ martirio diante dos Altares, o Sangue das Virgens e innocentes corria em todo o cabo, naõ havia cousa segura, nem que a tanto mal resistir pudesse; conta-se deste cruel tirano, que entrando por força a Cidade de Aquilea, que està perto de Veneza, huma molher nobre de estremada formosura, se lançou dos muros abaixo em huma ribeira muy alta, por naõ vir às mãos do vencedor; e outros que daqui escaparaõ com medo dos barbaros, que daquella parte sohiaõ a entrar em Italia, leyxando Aquilea, se passaraõ a huma pequena Ilha, onde entaõ foy primeiramente fundada a Cidade de Veneza, e sendo os Christaõs taõ atormentados, como eraõ, todavia cessava a ira de Deos, porque naõ cessava a culpa da sem justiça.

Naõ sey para que buscamos exemplos de fora? Tragamos à memoria a destruiçaõ de Hespanha; e veremos, que a sem justiça delRey Rodrigo derradeiro Rey dos Godos foy causa de tanto mal. Castiga Deos as mais vezes os Christaõs por gentes infieis, e barbaros, ou por Christãos de mà vida, e costumes abominaveis, e torpes. Hereges eraõ os que foraõ chamados Adamitas, viviaõ em Comunidade, andavaõ nùs, moravaõ em Covas, e havia entre elles muito torpes, e deshonestos costumes, com tudo por homens de taõ mào viver permitio Deos, que fosse vencido em batalha campal Sigismundo Emperador de Alemanha, e Rey de Ungria; mas quando da sem justiça se naõ seguissem outros males, devia de bastar verem todos claramente quam vituperada foy sempre a memoria dos que cahiraõ nesta culpa, e queria, que me dissessem, que mòr gloria podia set a do Emperador Trajano, e que mòr mofina, que a de Nero? Que aproveitou a Federico II. deste nome, sendo taõ mào homem, como foy, ser Emperador de Alemanha, ser Rey de Sicilia, e herdar o direito do Reyno de Jerusalem, casando com huma filha de Joaõ de Brenha derradeiro Rey della, donde todolos Reys de Sicilia dahi por diante tomaraõ este titulo? Foraõ estas grandes honras, e as mòres, que entre os Christaõs se podiaõ dar, com tudo por ser Federico taõ mào Emperador, naõ sómente naõ deraõ lustro à memoria, que delle ficou, antes tanto mòr nodoa lhe puzeraõ, quanto os defeitos dos Principes se vem, e sabem melhor, que os dos outros homens; qual homem justo, e de boa razaõ aceitaria o estado deste com sua mà fama, sendo como foy muy contrario, e grande inimigo da Igreja Romana, mandando matar hum seu proprio filho por nome Henrique, por sentir nelle, que era bom, e differente de seus màos costumes; dando começo aos bandos dos Guelfos, e Gibilinos, que hoje em dia duraõ em Italia, e Guelfo, e Gibilino saõ nomes Alemães, que segundo se escreve, foraõ postos na Cidade de Pistoya, e dizem, que andava este Emperador correndo as Cidades de Italia, Villas, e lugares, e os que achava de sua banda contra o Papa, e Venezianos, chamava Gibilinos, e os contrarios Guelfos; emfim naõ se contentando com ser, em quanto viveo, tirano, mas sameando cousas de tanto damno, odio, e differenças para sempre nos povos de Italia.

Mas claro he a todos, quam aceita virtude a Deos, e ao mundo, e quam proveitosa as Reespublicas, he a justiça, e polo contrario, quantos, e quam grandes males nascem da semjustiça; por isso que Panegyrico, que louvor naõ merecerà V. Alteza obrando taõ perfeitamente do começo de seu Reynado, todalas cousas, que tocaõ a taõ estremada virtude? Naõ bastaõ forças humanas a dar igual louvor, ou premio a taõ alto merecimento, posto que o verdadeiro deve esperar de Deos, do qual jà tem conseguido hum dos mores bens, que da justiça nascem; este he ter em muita paz, e tranquilidade os seus Reynos, quanta pola ventura nos outros Reynos Christaõs de muitos annos a esta parte naõ houve. Plinio em hum seu Panegyrico, que fez ao Emperador Trajano diz, que entaõ se poderaõ chamar os Reynos, e Reespublicas bemauenturadas, quando se der galardaõ à virtude, e os bons forem estimados, e os màos naõ forem temidos, mas estes taõ grandes bens, que nascem do Principe, ou da Reepublica justa, melhor se mostraõ nos tempos da paz, que da guerra, porque ainda que se a guerra trate, como deva, com tudo naõ sendo os tempos quietos, mal se podem de todo refrear os appetitos dos homens, e por isso naõ hà tempo em que se assi possa usar toda a virtude, como no da paz: esta para ser firme, e qual cumpre ao verdadeiro estado das Reespublicas, he necessario, que tenha seu fundamento na justiça, sem a qual naõ hà cousa segura, nem que possa durar muito.

Dizem as nossas Chronicas, que ElRey D. Pedro de Portugal vosso IV. Avo, filho delRey D. Afonso, a quem chamaraõ do Salado, foy Principe justo, por onde ainda que sua justiça parecesse hum pouco aspera, teve seu Reyno em tanta paz, e foy tambem quisto do povo, que segundo a voz geral, nunca se viraõ taes dez annos; naõ aconteceo assim no mesmo tempo a ElRey D. Pedro de Castella, o qual por sua semjustiça, e cruesa a poz toda em revolta, e lhe foy necessario sahir do seu Reyno deshonradamente, e passar-se a Inglaterra; mas posto que da justiça venha paz, e da semjustiça nasçaõ odios, e differenças, naõ leixa V. Alteza de ter respeito particular à paz, e de tal maneira se reparte em cada virtude por si, que sendo geral em todas, he perfeito em cada huma. Quem poderà dizer, com quanta prudencia, com quanto zelo, tendo guerra entre si a mòr parte dos Principes Christaõs, elle como verdadeiro Pay de todo o seu povo procurou a paz universal destes Reynos, naõ leixando cousa alguma, por onde vivessemos descançados; favoreceo Deos este seu taõ virtuoso zelo, e quiz que em tempos taõ trabalhosos nos pudessemos lograr de hum taõ proveitoso, e dezejado bem, naõ hà no mundo triunfo, nem victoria, que se possa comparar com os bens da verdadeira paz, por tanto pelejem de huma parte os Reys Christaõs, e tenhaõ guerra huns com os outros, vaõ contra a paz, que N. Senhor tanto encomendou a seus Discipulos, e em seu nome a toda Igreja Catholica, vinguem suas paixoens às custas do sangue de seus Vassallos; façaõ em pedaços a Vestidura de Christo, em que naõ hà costura, nem divisaõ; V. Alteza da outra parte prosiga, como faz, sua muy sancta tençaõ, faça guerra aos Infieis, e Mouros d’Africa; e movido do santissimo zelo converta Ethiopia, e Arabia, Persia, e India à verdadeira Fè de Christo.

Saõ por certo estas tençoens, e obras entre si muy differentes, mas bem claro està quanta razaõ elle tem de se naõ arrepender das suas, nem do que atèqui tem feito. Que descanço, ou que contentamento pode haver no Reyno, ou Reepublica, onde naõ há paz? Por isso assi, como o fim do bom Piloto he fazer prospera viagem, e do Medico dar saude, e do Capitaõ alcançar vitoria; assi do bom Principe he conservar a vida, e descanço de seus Vassallos, a qual cousa em tempo de guerra naõ pode ser; alegre parece a guerra de fóra, mas quem a experimenta, este conhece bem os trabalhos de huma, e os bens da outra, porque assi como na doença se conhece o bem da saude, e na tormenta do mar o bem da terra, assi naõ ha tempo em que melhor se julgue, e entenda o bem da paz, que quando se carece della. Se a hum homem que nunca ouvisse fallar em armas, nem tivesse alguma experiencia dellas, supitamente fosse mostrado o apparato de dous grandes Exercitos, por mar, e por terra, ordenados para se darem batalha, e visse os fermosos penachos, as armas reluzentes, a multidaõ dos Cavallos, a ordenança da gente de pè, toda bem disposta, e prestes para pelejar; as bandeiras, os esquadroens em seu concerto: doutra parte visse no mar muitas Nàos, e Galeoens, com muita gente bem armada cubertas de fermosas bandeiras rodeadas de paveses, e cercada de toda a sorte de artelharia, sem duvida quem quer que isto visse, naõ sabendo mais nada, naõ cuido eu que receasse de se meter entre elles, e lhe pareceria, que via a mais fermosa cousa do mundo; mas se depois de travada, e muy cruamente ferida a batalha, este mesmo sentisse, e visse com seus olhos o grande ruido, e estrondo das armas, a grita da gente, os golpes, e tiros d’artelharia, a multidaõ dos mortos, corpos espedaçados, ays, e gemidos dos feridos, outros serem pizados dos Cavallos, a confusaõ, o medo, e o espanto da morte presente, e assi visse no mar as Nàos, e Galeoens arrombadas de tiros de fogo, humas dellas hirem-se ao fundo, outras arderem em fogo, e chamas de alcatraõ, as ondas vermelhas com sangue, o fumo da polvora, os homens lançarem-se ao mar, e afogarem-se.

Quem isto tudo bem visse, bem creyo eu, que escolhesse antes a paz, que a guerra, e que tomasse antes por partido viver em descançada, e segura paz de bayxo da obediencia de hum Principe justo, que naõ querer arriscar-se a tamanhos perigos por huma mostra falsa, e engano d’lhos, e esperança incerta de vitoria; naõ se devem julgar as cousas polo apetito, senaõ pola razaõ. Quem isto assi fizer, verà quanto mais val o descanço da boa paz, que o sobejo exercicio das armas, porque posto que ellas prometaõ vitorias, ou a guerra em si he de todo injusta, e naõ pertence ao Principe Christaõ, ou tem muitos inconvenientes, que della pòdem nascer, que devem todos ser olhados primeiro que nada se cometa; por quanto os começos da guerra estaõ em nosso poder, e os cabos naõ; eu naõ entendo aqui da que se faz aos infieis, e inimigos de nossa Santa Fè, porque esta sendo justa, he proveitosa, e traz grande louvor ao Rey Christaõ; mas toda a outra sorte della, que agora se usa, mais do necessario, naõ sendo em defensaõ da Patria, se deve muito fogir, e estranhar. Quem naõ sabe quam necessaria foy a guerra que ElRey D. Joaõ I. deste nome teve com Castella pola defensaõ, e liberdade destes Reynos?

Com tudo foy provada a vitoria por tantos males, que os taes tempos soem trazer consigo, e por tanto sangue da gente Portugueza, que segundo ouvi dizer, faltou mais da terceira parte da que sohia d’aver, e eu tenho achado em Escriptura authentica, que naquelle tempo naõ ficarão mais na Villa de Monforte que doze pessoas, avendo dantes duas mil, e em Arronches huma só; pois se as perdas que em guerra taõ justa se sentiraõ, toda via fizeraõ ao Reyno tanta falta, e foraõ causa de tantas lagrymas, e dezamparo, quanto se devem guardar os Principes d’a cometerem nunca, naõ tendo para isso justa causa, e grande necessidade? E naõ sey eu, que conta os Reys darão a Deos da vida de seus vassallos, a que elles por muy leves causas, e somente por seguirem seus appetitos, foraõ causa da morte. Naõ foraõ os Reys ordenados por Deos para homicidas de seu povo; mas para o defenderem, e ampararem, nem devem taõ pouco estimar as vidas dos homens, os que naõ tem poder nas almas depois da morte: naõ ha guerra taõ prospera, nem taõ vitoriosa, em que se viva com tanto descanço, como no tempo da paz. Venceo ElRey D. Joaõ I. deste nome a ElRey de Castella, e foy taõ gloriosa a vitoria, que com ella se restituio a liberdade destes Reynos, com tudo quem bem olhar o pacifico, e quieto estado dos tempos delRey D. Dinis, e delRey D. Pedro, verá quanto melhor he viver em honrada paz, que esperar vitoria ganhada com muito trabalho, e destruiçaõ da gente. Muy bem entendia isto o mesmo Rey D. João, o qual sendo como era taõ esforçado, favoreceo muito a paz, e conta-se delle, que estando esperando a confirmação das pazes perpetuas, que lhe haviaõ de vir de Castella, disse hum dia, que esperava por hum recado do mòr prazer, que nunca ouvera.

Mas naõ basta ao bom Principe arredarse dos inconvenientes da guerra de fora, mas cumpre-lhe tambem guardarse, que naõ se levante alguma dentro no seu Reyno, e Casa. Este mal se escuza quando he bem quisto, e faz muita justiça a seu povo, a todos he notorio, quantas desaventuras, quantas fortunas, vem ao Reyno em que ha differenças antre o Rey, e os vassalos, e esta sem duvida he a mais perigosa, que a de fora, por quanto os males doutra parte pòdem se atalhar, antes que cheguem: os de dentro jà naõ tem este remedio, nem pòde o Principe leyxar d’os ter consigo em sua casa, digo isto naõ por se parecerem estes tempos com os passados, e a virtude de V. Alteza, e assi a lealdade de seus vassalos he tanta, que naõ menos o amaõ, do que os ama a elles; mas porque minha tençaõ he que naõ menos saber, e justiça ha mister o Principe para conservar a paz com os naturaes, que com os Estrangeiros; este respeito tiveraõ alguns Reys de Portugal, naõ sómente em manter estes Reynos em muita concordia, mas em trabalhar muito que a ouvesse nos de fóra. ElRey D. Affonso de Castella Onzeno deste nome, indo com seu Exercito para a frontaria dos Mouros disse em publico que os Cavalleiros da frontaria eraõ taõ bons, como os de Castella, polo qual na batalha d’Ilharcos (que dahi a pouco foy) D. Diogo Lopes de Haro seu Alferes Mòr com todolos Cavalleiros estando assi de concerto fugiraõ, e o leyxaraõ sóo, por onde elle se vio em grande aperto, e foy ferido de duas azagayadas polas pernas, e naõ querendo sahir da batalha por ser muy esforçado Principe, foy necessario aos seus, que o tirassem della. Tanto empèceo huma sòo palavra deste Rey dita contra os Cavalleiros, que de sua condição saõ vingativos; mas quam clemente V. Alteza, e humano seja, e quam afastado de toda a sorte d’aspereza, cousa he a todos muy sabida, o qual sempre uzou, e uza palavras cheas de todo o comedimento, de toda virtude, e bom exemplo, acompanhadas daquella authoridade, que cumpre ao bom acatamento da Magestade Real. O Marquez de Villa Viçoza em huma carta, que escreveo a ElRey D. Affonso V. sobre a ida de Castella, louva muito a paz della com Portugal, e trabalha quanto pòde polo apartar de tal empreza, antes lhe prova por muitas razoens, que elle mesmo se deve meter no meyo, e fazer a paz entre ElRey D. Fernando, e os Cavalleiros, e a este proposito traz hum exemplo delRey D. Joaõ I. o qual sendo, como diz, cometido por ElRey d’Aragaõ para se liarem ambos com os Cavalleiros de Castella a partirem antre si, ElRey depois de tomar o parecer dos Grandes se escusou, dizendo que tinha paz com ella: por isso naõ sem cauza V. Alteza trabalha tanto pola conservaçaõ da boa paz, pois a justiça, o respeito de nossa Santa Fé, o proveito universal, e exemplo, e authoridade de seus antepassados assi o requerem.

Verdade he o que se diz, que o bom Principe dà luz, e claridade de si, como o Sol a todos, o que tanto mais se deve estimar, quanto muitas vezes por culpa de màos Governadores he peor tratada, e naõ sómente com os vassallos, mas com os filhos, irmaõs, e parentes tiveraõ jà muitos Principes differenças, e guerra civil. Escreve-se de Iezabel Rainha dos dez Tribus, e mulher delRey Acab, que sendo mulher desarrezoada, e forte, e de crua condiçaõ, foy causa em seu Reyno de muitos odios, e revoltas, matou todos os Profetas, que pode haver à maõ, e mandou, que se adorassem os idolos no Reyno de Israel, e de Samaria. A Rainha Athalia depois da morte delRey Ochozias seu filho governou o Reyno de Judà seis annos taõ soberba, e cruamente, que mandou matar todos os que vinhaõ da linhagem do Rey David, e pera mòr escandalo, e descontentamento do povo fez edificar hum Templo em Hierusalem, em que mandou adorar hum idolo, que chamavaõ Baàl, e ella porèm foy morta, e ouve o castigo que suas grandes maldades mereciaõ.

Que direy de quantas differenças, e guerras civis ouve no Reyno de França antre ElRey, e o povo? Le-se de Broncilde Rainha de França, e mãy delRey Childiberto, que excedendo a toda a sorte de crueza, matou seus filhos, netos, e bisnetos delles a ferro, delles com peçonha, sómente por uzar à sua vontade de seus màos appetitos deshonestos: esta foy semelhante a Euridice, Rainha de Macedonia, e filha de Amintas, que foy nòra de Felippe, pay de Alexandre Magno, a qual soltando-lhe a redea a seu mào, e torpe dezejo, fez tambem matar muitos seus filhos. Se nos passarmos às Chronicas do Reyno d’Ungria, tambem acharemos que ouve antre ElRey, e povo muitos bandos, e differenças, e leixando os males prezentes, em que hoje aquelle Reyno està metido, que tem dado a toda a Christandade assaz bem trabalho: o Rey Pedro, filho delRey Estevaõ primeiro Rey de Ungria foy lançado della por usar contra seus vassallos grandes cruezas, a estes succedeo Abbà, o qual em conjuraçaõ feita contra elle, foy morto, e assi Salamaõ Rey d’Ungria foy lançado por Gersa seu Primo com Irmaõ.

Naõ hà muito, que fiz mençaõ delRey D. Pedro de Castella; este reynou taõ cruamente, que sendo lançado della, e querendo vir-se cà, ElRey D. Pedro, sendo naõ pouco seu parente, o naõ quiz acolher, por onde lhe foy necessario passarse a Inglaterra. Ainda he cousa fresca na memoria dos homens, como o Rey de Dinamarca por semelhantes odios, foy lançado de sua terra deshonradamente, e hoje em dia està prezo: que direy no Reyno de Castella, quantas differenças, quantas conjuraçoens houve antre os Reys della, e seus Filhos, e Irmãos, e outros muitos da Casa Real, mas naõ me quero deter em cousa taõ clara; abaste a comparação destes para se ver quamanho louvor he o de V. Alteza; e quanto lhe devem seus Vassallos, vivendo por sua causa taõ afastados de tantos males. Esta bondade, este amor, que mostra, naõ somente aos Infantes seus Irmãos, de que depois direy, mas a todos em geral, e assi o trabalho, que sempre toma para nosso descanço, accrescenta mais o amor, que lhe seus Vassallos tem, o qual he mais firme, e aproveita mais aos Principes; que todas as fortalezas por mais fortes, que sejaõ.

Aos Emperadores de Roma Tito, e Nerva, e Adriano, e Antonio, e Marco por serem bons Principes, naõ eraõ necessarios Soldados, nem gente armada, que os guardasse; os seus costumes, a boa vontade do povo, o amor do Senado os defendia, e polo contrario aos màos Emperadores, como foraõ Nero, Caligula, Vitelio, e outros muitos, naõ abastavaõ os exercitos, que o Imperio Romaõ tinha em todo Levante, e Ponente para se poderem guardar de seus proprios Vassallos, e por sua mà vida, e costumes eraõ os mòres inimigos, que tinhaõ. He cousa muito para notar, que de vinte e seis Emperadores, que foraõ de Julio Cesar atè o Emperador Maximino, os dezaseis foraõ mortos a ferro, e os dez sómente morrerão de sua morte: por isso tomem os outros Reys Christãos exemplo de V. Alteza, e aprendaõ delle a viver em verdadeira paz, e sem duvida tal deve ser o Principe para em fama, e gloria exceder os outros: jà naõ recearey dizer alguma cousa porq́ sey de mim digo verdadeiramente a qual he, que sempre folgára de ser Portuguez, mas agora o folgo de ser mais, que nunca.

Muitas vezes cuidando eu, quantas mudanças, e differenças d’estados houve nos Reynos de Portugal, acho que nunca tanto floresceraõ, como agora, e para que mais claramente se veja pola comparaçaõ de cada tempo, o que eu digo ser assi, brevemente farey de todos mençaõ. Jobel filho de Jafet, e neto de Noè depois do diluvio veyo ter a Hespanha, a qual delle, e de seus descendentes se povoou, estes se governarão por Reespublicas, e Comunidades. O primeiro homem, se queremos dar fé às fabulas antigas, que nella, e em Portugal entrou com exercitos, e a conquistou, foy Bacho, depois os Curetes, gente da Grecia, seguindo a Gargores seu Capitaõ, se fizeraõ senhores della, o qual Gargores foy excellente Principe, e ensinou aos povos de Hespanha muitas cousas necessarias para a vida, e proveito cõmum, por onde os successores deste pacificamente reinaraõ atè o tempo delRey Giriaõ, em cujo tempo, vindo Hercules o venceo, e nella ordenou novo estado. Depois, segundo dizem, reynou Hispalo, de quem se nomeou Hespanha, mas da successaõ dos Reys, que deste vieraõ, e de como se acabaraõ, a fama he incerta, e muy obscura, posto que os Andaluzes antigamente se sohiaõ gavar, que tinhaõ escripturas de seis mil annos: o que eu destes tempos por conjectura alcanço he, que Hespanha se tornou a governar por Comunidades, e este regimento durou atè que os Cartagineses com achaque de socorrerem a Cidade da Calez, fundada polos Phenices, se fizeraõ senhores da mòr parte della. Ao Emperador dos Cartaginenses succedeo o dos Romaõs, que depois de grande perda, e estrago de seus exercitos em cabo de 300 annos sendo Emperador Octaviano acabaraõ de a conquistar, mas em nenhuma parte desta Conquista tiveraõ os Romaõs mor fadiga, que em Portugal.

Daqui sahio Viriato Portuguez Capitaõ, que desbaratou muitos exercitos Romaõs em batalha campal, e em fim nunca pode ser morto, se naõ à treyçaõ por engano, e astucia de Cayo Lelio Capitaõ dos Romaõs: daqui se fez Sertorio contra elles com a gente Portugueza, lhes deu muito trabalho, alevantando depois Portugal, e naõ querendo obedecer a Roma, foy mandado cà Julio Cesar, e naõ devia Provincia taõ forte ser vencida, se naõ por Capitaõ nunca vencido. Geral opiniaõ de todos he a naçaõ Portugueza ser mais forte, e esforçada de toda Hespanha, mas sendo (pola longa paz) Portugal afastado do uso das armas, e tendo perdida muita parte da gloria, que com o exercicio dellas em outro tempo ganhàra, ouzou Atila Rey dos Hunos mandar contra nos hum exercito de Suevos gente d’Alemanha, que occuparaõ este estado, e assi por espaço de cento, e setenta annos houve muitos Reys Suevos em Portugal, atè que com muito trabalho foraõ lançados polos Godos, porque depois da vinda dos Suevos os Godos seguindo Athanarico (que segundo dizem foy primeiro Rey antre elles) poderosamente entraraõ em Hespanha no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de trezentos e trinta e tres, e a tomaraõ, excepto a Portugal, que entaõ, como disse, estava polos Suevos, depois Theodorico Emperador dos Romaõs venceo os Godos, e os meteo debaixo do seu Imperio; mas naõ duraraõ mais que 18. annos sogeitos; e logo Alarico seu Rey, que era natural do Reyno d’ Ungria, e por geraçaõ vinha dos Balteos gente de baixo do Norte, se alevantaraõ, e tornaraõ a fazer senhores de Hespanha. Este Rey Alarico foy muy esforçado Principe, e se fez Senhor de muita parte de Hespanha: nestes tempos havia hum Rey dos Godos em Castella, e outro dos Suevos em Portugal, atè que ElRey Theodorico, vencendo em batalha campal a ElRey Reciario lhes ganhou Portugal, e porque dos Suevos ficava ainda alguma parte, ElRey Leovigildo acabou d’os lançar de todo, e assi os Reys Godos ficaraõ em posse pacifica de toda Hespanha, atè a derradeira destruiçaõ della, que foy em tempo delRey D. Rodrigo, e sendo depois, como sabemos, lançados os Mouros, se veyo a partir em muitos Reynos como saõ Leaõ, Castella, Aragaõ, Navarra, e Granada, e aos Antecessores de V. Alteza coube Portugal, cujos louvores, e feitos d’armas, porque delles as nossas Chronicas estaõ cheas, naõ he necessario dizellas eu, nem menos se deve tratar em taõ piquena obra.