Part 24
E por deixar os estranhos, o mesmo succedeo aos nossos Joaõ de Barros, e a Luiz de Camoens neste Reyno (porque a jornada, que este fez à India, naõ foy para aprender as letras, senaõ as armas) nem o Conde Balthasar Castilhioni obriga ao seu Cortesaõ a mayores jornadas, sendo assim, que o orna de tantas perfeiçoens, que parece impossivel acharse sogeito daquellas partes. Do mesmo modo foraõ tidos antigamente por insignes Capitaens Pirrho, e Filippe de Macedonia sem verem mais Provincias, que aquellas, em que se exercitaraõ nas armas; e modernamente em Espanha, o Graõ Capitaõ Gonçalo Fernandes, Antonio de Leiva; e dos nossos o Conde D. Nuno Alvares Pereira, Nuno Fernandes de Ataide, D. Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque, e outros; deixando os Italianos, que seria largo referir. E na Corte Hypolito de Este, Lourenço de Medices, e Jacobo Senazaro em Italia. Pelo que consta claramente, que todas as outras jornadas, que àlem destas se intentaraõ saõ voluntarias, e ordenadas, naõ por obrigaçaõ, senaõ pelo gosto de cada hum.
Com tudo fazendose esta peregrinaçaõ voluntaria em tempo, e idade conveniente, e por pessoas, que se saibaõ della aproveitar, sem duvida lhes serà de muito fruito, e ornamento: porque nellas se aprendem muitas cousas, e principalmente o sofrimento dos trabalhos, e paciencia, e o viver com temperança, como jà disse Democrito. _Vitæ frugalitatem docent, offa quippe, & thorus herbaceus, famis, & laboris dulcissimæ medullæ sunt._
A idade, e tempo, em que estes caminhos se devem intentar, ha de ser atè aos 25. annos, em que se acaba a adolescencia, assim porque atè entaõ dà a natureza forças para sustentar o trabalho do caminho, alegria, e vigor para se continuar; como porque tambem esta he a idade propria de aprender. O tempo ha de ser desoccupado de outro mayor encargo, como o mostra Plutarco, quando diz: _Quibus nihil domi boni est, dulcis est peregrinatio_. Pelo que saõ mais dignos de reprehensaõ os que deixaõ os ministerios publicos, que tem a seu cargo por esta curiosidade, contra os quaes diz Tulio a Rufo: _Vrbem mi Rufe cole, & in ista luce vive, omnis enim peregrinatio (quod ego ab adolescencia judicavi) obscura, & sordida est ijs, quorum industria Romæ potest illustris esse_. De maneira, que com estas condiçoens poderà ser de bom effeito a peregrinaçaõ, ainda que as que se fazem por causa de Religiaõ, e de venerar os Santuarios, em todo o tempo, e idade saõ louvaveis, e piissimas. Postoque atè os Monges Giravagos, que havia antigamente, e gastavaõ toda a vida, visitando as Celas dos Anacoretas por diversas Provincias do mundo, foraõ muy reprehendidos dos Santos Patriarcas Bento, e Bruno, e em opposiçaõ sua, ordenaraõ o grande recolhimento de seus mosteiros. Porem o bom successo nas vagueaçoens voluntarias aconteceo rarissimas vezes; porque como estes desejos nasçaõ pela mayor parte do animo vago, inquieto, e inconstante, ficaõ sendo os meyos, e fins das jornadas semelhantes aos principios em que se fundaraõ. E assim das cousas, que Seneca louva a seu amigo Lucilio, he naõ lhe ver estes intentos: _Bonam spem,_ diz elle, _de te concipio quod non discurris, nec locorum mutationibus inquietaris: ægri animi jactatio ista est_. _Primum argumentũ bene compositæ mentis existimo posse conesistere, & secum morari._ Mas porque muitos encobrem este vicioso appetite com o louvavel desejo de alcançar perfeitamente a Ethica com o conhecimento proprio, e melhoramento de costumes: serà necessario, que particularmente vejamos o pouco fruito, que dellas se colhe, e os grandes males, que daqui nascem, para que se acabe de entender, quanto se enganaõ os que cuidaõ, que nestas peregrinaçoens sómente consiste toda a sabedoria, e boa reputaçaõ de hum homem. De huma, e outra cousa, tratando particularmente o mesmo Seneca insigne Phylosopho moral, diz: _Quid per se prodesse peregrinatio cuiquam potuit? Non voluptates illa temperavit, non cupiditates refrænavit, non iras repressit, non indomitos amoris impetus fregit, nulla denique animo mala eduxit, non judicium dedit, non excussit errorem, sed ut puerum ignota mirantem ad breve tempus rerum aliqua novitate detinuit; cæterum inconstantiam, quæ maximè agra est lacescit mobiliorem, levioremque reddidit ipsa jactatio. Itaque qui petierant cupidissime loca, cupidius deserunt, & avium modo transuolant, citiusque quàm venerant, abeunt. Peregrinatio notitiam dabit gentium; novas tibi montium formas ostendet, inusitata spatia camporum, & irriguas perenibus aquis valles, & alicujus fluminis sub observatione naturam, sive ut Nilus æstivo incremento tumet; sive ut Tigris eripitur ex oculis, & acto per occulta cursu integrè magnitudini redditur; sive ut Mæander Poetarum omnium exercitatio, & ludus implicatur crebris anfractibus, & sæpè in vicinum alueo suo admotus, antequam sibi influat, flectitur. Cæterum neque meliorem faciet, neque saniorem. Iter studio versandum est, & inter Authores Sapientiæ, ut quæsita discamus, nondum inventa quæramus. Sic eximendus animus ex miserrima servitute in libertatem asseritur. Quandiù quidem nescieris quid fugiendum, quid petendum, quid necessarium, quid supervacuum, quid justum, quid honestum non erit hoc peregrinari, sed errare, nullam tibi opem feret iste discursus, peregrinaris enim cum affectibus tuis, & mala te tua sequuntur. Utinam quidem sequerentur, longius abessent, nunc fers illa, non ducis. Itaque ubique te premunt, & paribus incommodis urunt. Medicina ergo, non regio quærenda est, fregit crus, aut extorsit articulum, non vehiculum navemque conscendit, sed advocat medicum, ut fracta pars jungatur, ut luxata in locum reponatur. Quid ergo animum tot locis fractum, aut extortum credes locorum mutatione posse sanari? Maius est illud malum, quàm ut gestatione curetur. Peregrinatio non facit medicum, non oratorem, nulla ars loco discitur. Quid ergo sapientia res omnium mamima in itinere colligitur?_
Estas sentenças, que por serem proprias desta materia, quiz referir tanto ao largo, saõ todas gravissimas, e dignas de as trazermos diante dos olhos, e na memoria sempre. O mesmo que Seneca, quiz tambem dizer Horacio: _Cælum non animum mutant, qui trans mare currunt_. E o outro: _Congressus sapientum confert prudentiam, non montes, aut maria_. E da mesma opiniaõ saõ quasi todos os modernos. Pelo que naõ hà que duvidar, que os mais destes desejos de ver terras saõ viciosos, e indignos de varaõ prudente. Quanto mais, que se em algum tempo se pòde escusar a noticia do mundo adquirida pessoalmente, he neste nosso Seculo, em que o conhecimento delle està em grào taõ sobido com tantos livros, que nos mostraõ aos olhos, naõ só as Provincias, e Reynos, mas ainda as proprias Cidades, e Povos com tanta perfeiçaõ, e com tal particularidade, que he impossivel hum caminhante por mais curioso, e intelligente, que seja, alcançar a menor parte destas cousas, vendo, e andando, como em casa se conhecem todas, lendo, e estudando. Porque os que caminhaõ naõ se pòdem deter muito nas terras por onde passaõ, e doutras, nem sempre achaõ, quem lhes dè inteiras, e certas informaçoens. Porèm o que estuda, logra com toda a quietaçaõ, e repouso dos trabalhos alheyos, e aquella particular materia em que cada hum dos Authores empregou muitos annos de estudo, alcança perfeitamente em pouco tempo. Donde succede muitas vezes a alguns destes, que vem de Venesa, Roma, Pariz, e outras partes, perguntarem-lhe os que cà leraõ, as cousas daquellas Cidades por particularidades dellas: a que elles naõ sabem responder, nem ainda entender o que lhes perguntaõ. Deixo jà nos trabalhos immensos dos caminhos, os gastos excessivos, as inclemencias do ar, e os perigos da vida, que acompanhaõ estas peregrinaçoens, por razaõ das quaes cousas compara ordinariamente o Espirito Santo na Escritura Sagrada a vida humana, à peregrinaçaõ, e chama patria ao Paraiso Celeste, em que se gosa a visaõ Beatifica, significando no nome da patria a Bemaventurança, e no da peregrinaçaõ, toda a pena, e tormento; porèm he tal a condiçaõ de muitos, que estimaõ tanto mais a mesma cousa, quanto mais lhe custa, o que naõ he digno menos de condenaçaõ, que se hum Capitaõ despresasse a vitoria certa por lhe naõ custar sangue, e a estimasse mais por a alcançar com morte de muitos Soldados; por taes podemos julgar hoje os que podendo facilmente na Patria.
_Sò por puro engenho, e por sciencia Ver do mundo os segredos escondidos._
Como diz o nosso Poeta, os vaõ buscar por meyo de tantos trabalhos, para depois de correrem o mundo contarem, que viraõ o Labirynto de Creta, e Cidades inteiras com seus moradores de pedra, e hum carcre em que estavaõ tresentos mil presos, e que o Espirito Santo apparece nas tormentas em forma de fogo, e que viraõ em certas paragens andar o Sol, e a Lua as avessas, com outros semelhantes, movidos só das apparencias da vista, de que elles tanto caso fazem. Por tanto a verdade das sentenças de Seneca, a mesma experiencia mostrou sempre nestes peregrinantes, hum dos quaes, tornando depois de largo caminho a Athenas; e achandose em tudo tal como partira, perguntou a causa a Socrates, o qual lhe respondeo, que nascia de se levar a si sempre comsigo; e bem fora ainda, que tornaraõ sempre os mesmos, e naõ peyorados. Porèm destes dizia Cataõ, que viera todo o mal a Roma, e o mesmo entendia Amistenes, quando affirmava, que todos os vicios de Grecia eraõ peregrinos; porque daqui nascem os excessos dos trajos, a gula, e sobegidaõ dos banquetes, e soltura dos vicios, os jogos, as pompas, e ainda mil emfermidades contagiosas, lavrando tanto mais depreça estes vicios na Republica, quanto as pessoas, em que se vem, saõ mais conhecidas nella; e pela noticia, que tem do mundo, mais authorisadas. Assaz hà que sentir disto em nossa Espanha, e neste Reyno particularmente, onde com os costumes estrangeiros vimos acabada a temperança, e inteireza antiga dos Portugueses, e com ella o valor, e Imperio padeceraõ tambem grande naufragio. Pelo que com muita razaõ em algumas Respublicas bem ordenadas se prohibiraõ com severissimas leys estas peregrinaçoens. Na dos Lacedemonios se conservava este costume de modo, que mostrando hum mancebo Lacedemonio saber o caminho, que hia para Pileas, foy disso reprendido rigorosamente. Os nobres Athenienses se presavaõ tanto de naõ sahir da patria, que por isso traziaõ continuamente huma cigarra de ouro na cabeça por divisa, mostrando com isto, que eraõ taõ continuos nella, como este animal, o qual entre todos os outros tem tal qualidade, que senaõ muda nunca do sitio donde nasceo. O mesmo guardaõ em nossos tempos as familias clarissimas de Veneza, dos quaes rarissimos saõ os que vaõ fóra da terra, senaõ Enviados da Republica. E o grande Imperio dos Chinas se sustentou por mais de dous mil annos, naõ admittindo estrangeiros no Reyno, nem se permittir aos naturaes sahir da Provincia, senaõ com estreitissima licença. Daqui se poderà entender quanto mais dignos saõ de reprehensaõ, os que intentao estes caminhos só pelo gosto de ver varios lugares, pois tomaõ por deleite o desterro da patria, que todas as gentes julgaraõ pela mayor pena da vida; como pelo contrario o poder estar na patria por a mayor felicidade della, segundo o nota excellentemente Claudiano neste Epigrama.
_Felix, qui patriis ævum transegit in arvis. Ipsa domus puerum, quem videt ipsa senem. Qui baculo nitens, in qua reptavit arena, Unius numerat sæcula longa casæ. Illum non vario traxit Fortuna tumultu, Nec bibit ignotas mobilis hospes aquas. Non freta mercator timuit, non clasica miles. Non rauci lites pertulit ille fori. Indocilis rerum vicinæ nescius urbis, Ad spectu fruitur liberiore poli. Frugibus alternis, non Consule, computat annum. Autumnum pomis ver sibi flore notat. Idem condit ager, soles idemque reducit, Metiturque suo rusticus orbe diem. Ingentem meminit parvo, qui germine quercum, Æquævumque videt consenuisse nemus. Proxima cui nigris Verona remotior Indis, Benacumque putat littora rubra lacum. Sed tamen indomitæ vires firmisque lacertis Ætas robustum tertia cernit avum. Erret, & extremos alter scrutetur Iberos, Plus habet hic vitæ, plus habet ille viæ._
De mesmo modo jà Sophocles chamou antigamente só bemaventurado aquelle, que sempre esteve no lugar onde nasceo; e disse que a mòr fortuna de todas era naõ ver nunca a terra alheya. O mesmo confirmou o Oraculo de Apollo, que por esta razaõ julgou por mais ditoso ao pobre Aglaõ, que nunca se apartara de huma pequena herdade em que nascera, que o grande poder, e riqueza delRey Gyges. E finalmente assim o entenderaõ todas as gentes; como se vé nos celebres Adagios: _Domi manendum: Domus amica: Domus optima_. Pelo que com razaõ teve Euripedes por miseravel o tempo em que se deixa a terra propria.
De tudo o que està dito, se collige claramente como na patria, e com pouco trabalho pòde cada hum alcançar a reputaçaõ de grande, e consummado em qualquer faculdade, ou arte, que professe. E pelo contrario com quantos trabalhos, gastos, e perigos se pòde chegar a este grào pelas peregrinaçoens. Por tanto deve cada hum de procurar de lançar de si estes pensamentos, porque àlem de naõ serem de proveito em cousa alguma, naõ cahirà na sentença de Santo Agostinho, que diz: _Odit patriam, qui sibi bene putat, cum peregrinatur_. Sendo assim, que o amor da patria he taõ natural aos homens, que de todas as gentes foy anteposto sempre à propria vida.
NOTAS DE RODAPÉ:
[251] _Camoens canto 10. est. 153._
[252] _l. 1. Satur. c. 5._
[253] _Chronica de Carlos 5. 2. p. l. 23. §. 25._
[254] _Satyra 3._
MEMORIAL
_De alguns Cardeaes Portuguezes._
Os grandes desejos, que sempre tive de ver conservada a memoria dos Varoens illustres deste Reyno, me obrigou hà annos a escrever o que pude alcançar dos Cardeaes Portugueses. E posto que bem se vé neste Tratado a verdura da primeira idade, com tudo he taõ pouco o que se tem alcançado nesta materia, que me naõ pareceo inconveniente dar com estas lembranças principio às vidas, que em varias occasioens tinha composto, para poderem usar destes notados, os que quiserem seguir semelhante argumento.
§. I.
_S. Damaso Summo Pontifice._
Foy S. Damaso Portuguez, filho de Antonio, nasceo em Entre Douro, e Minho, junto a Guimaraens, ou no mesmo povo, como claramente o testificaõ os Breviarios Bracharense, e Eborense antigos. E Joaõ Vaseu varaõ douto, Joaõ de Barros Jurisconsulto nas suas Antiguidades de Entre Douro, e Minho c. 13. fallando de Guimaraens, onde àlem dos Authores, que por si allega, diz que duas legoas de Guimaraens, e huma de Braga estaõ no Couto de Pedralva humas casas, e edificios muito antigos, e arruinados, os quaes tem por tradiçaõ antiquissima os daquelle lugar, que morou alli a mãy de hum Papa, que foy em Roma Santo, e que dalli se foy para là. O que àlem de ter authoridade pela tradiçaõ, concorda com o que lemos em sua vida, que foy enterrado em Roma com sua mãy, e irmaã; as quaes parece deixaraõ sua pátria, e assento natural, por viver em companhia deste Servo de Deos. Porèm invejosos alguns Estrangeiros do lustre, e honra, que a esta Provincia resultava de ser mãy de taõ santo filho, no lo quiseraõ usurpar, para illustrar com elle suas Patrias; como foy o Doutor Pedro Antaõ Beuter, que sem fundamento, por engrandecer a sua, o faz de Barcellona, e os Castelhanos, que contendem ser nascido em Madrid, e allegaõ com Marineo Siculo, o qual ainda parece sentir o contrario; pois tratando no seu quinto livro muy particularmente dos Santos dos Reynos de Castella, e Aragaõ, naõ poem este, sendo taõ notavel; e sómente fallando de Madrid no livro segundo, acaso diz estas palavras: _Est præterea felicissimum Sancti Damasi Summi Pontificis meritis, qui Maioritanus fuisse perhibetur a multis_. E desta sua opiniaõ naõ dà mais razaõ alguma, nem mostra outros Authores, em que se funde, senaõ huma pedra moderna sem author, nem authoridade. Pelo que se vè claramente, que só suas paixoens particulares os fazẽ desviar da verdade conhecida. Temos àlem de tudo por nós Onufrio Panvino, o qual o nomea sempre Portuguez. E posto que no livro, que compoz de _Vitis Pontificum, & Cardinalium_, diga que era Egitanense, ultimamente no Chronicon dos Pontifices Romanos diz, que he de Guimaraens. E o Doutor Gonçalo de Ilhescas em sua vida confessa esta verdade, e diz estar tido universalmente por Portuguez. O que parece he bastante para abonar a parte de nosso, em que tanto interessamos. De suas acçoens, e hida a Roma, e o mais que passou, atè ser posto no Pontificado, hà pouca noticia. Onufrio diz, que seu antecessor Liberio o fez Diacono Cardeal; por morte do qual foy promovido ao Pontificado no anno 366. Foy insigne Pontifice, muito erudito nas Escrituras Sagradas, e por isso estimou tanto a S. Hieronymo: condennou no Concilio Constantinopolitano as heresias de Eunomio; e Macedonio: fez outro Concilio em Aquileya: edificou em Roma, junto do Theatro de Pompeo, hum insigne templo ao Martyr S. Lourenço Espanhol com huns sumptuosos Paços, que servem de Chancellaria, e se chamaõ commummente S. Lourenço _in Damaso_, e o enriqueceo com muitas doaçoens. Edificou outros fóra de Roma na estrada Ardeatina ad Catacumbas; chamado agora S. Sebastiaõ, onde consagrou a Platonia, sepultura que foy algum tempo dos Apostolos S. Pedro, e S. Paulo. Achou muitos corpos de Santos, cujos sepulchros illustrou com elegantes epitafios. Deixou muitas obras escritas em prosa, e verso, principalmente de _Virginitate_. O que delle exta hoje, saõ cinco Epistolas Decretaes: hum Poema às sepulturas dos Apostolos S. Pedro, e S. Paulo: e as vidas dos Summos Pontifices Romanos atè seu tempo; a qual obra depois supriraõ Anastasio Monacho Bibliothecario da Igreja Romana, e Guilhelmo tambem Bibliothecario, e Pandulfo Pisano, que tambem teve o mesmo officio. Ordenou se cantassem nas Igrejas alternativamente os versos dos Psalmos, e no fim de cada hum o Gloria Patri, &c., posto que jà em algumas Igrejas havia este costume. Governou 17. annos, dous meses, e 26. dias, e cheyo de virtudes passou desta vida em Roma quasi de 80. annos, no de Christo 384. a 11. de Dezembro. Foy sepultado na Basilica, que elle edificou na vida Ardeatina; e depois transferido para a de S. Lourenço, que hoje se chama _In Damaso_, onde sobre sua sepultura se poz este epitafio, que elle em vida compoz.
_Epitatphium Papæ Damasi, quod sibi editit ipse. Qui gradiens pelagi fluctus compressit amaros, Vivere qui præstat morientia semina terræ; Solvere qui potuit Lazaro sua vincula, mortis Post tenebras, fratrem post tertia lumina solis. Ad superos iterum Mariæ donare sorori, Post cineres Damasum saciet, quia surgere credo._
§. II.
_O Cardeal D. Payo Galvaõ._
Pelos annos de 1221. floreceo o Cardeal D. Payo Galvaõ Conego Regular do Mosteiro da Costa, junto a Guimarens, donde era natural, e filho de Pedro Galvaõ, e de Dona Maria Paes. Foy Conego Regrante de Santa Ctuz de Coimbra, e Mestre em Theologia pela Universidade de Pariz. Foy Mestre Escola de Guimaraens, e Embaixador de Obediencia a Roma por ElRey D. Sancho I. O Papa Innocencio III. o creou Cardeal Diacono do titulo de Santa Maria _in Septisolio_ no anno de 1206. e no de 1211. foy Cardeal do titulo de Santa Cecilia, e no de 1215. Cardeal Albanense. O Papa Honorio III. o mandou Legado Apostolico com a Crusada à Conquista da Terra Santa no anno de 1219. e no anno de 1225. foy Legado ao Emperador Federico II. Com grande satisfaçaõ foy Legado nas guerras da Terra Santa em tempo de Joaõ Breno Rey de Chipre, e por ser Portuguez lhe pareceo, que em seu tempo se havia de tomar a Terra Santa por huma prophecia, que dizem hà, que hum natural da ultima Espanha a hà de restituir, segundo se vè da Historia de Basilio Joaõ Helora na continuaçaõ da Terra Santa lib. 3. cap. 2. e se confirma com a memoria do livro dos Obitos do Mosteiro de S. Vicente de fóra de Lisboa no primeiro de Junho, onde se acha deste Cardeal expressa mençaõ.
§. III.
_O Cardeal D. Joaõ Froes._
O Cardeal D. Joaõ Froes foy natural de Coimbra filho de Alvaro Froes Senhor de Mayorca, e Alhadas no territorio daquella Cidade de D. Elvira Cidiz tambem Senhora de terras. Foy Conego Regular de Santa Cruz de Coimbra, e sendo Bispo Sabinense, e Legado Apostolico consagrou a Igreja do mesmo Mosteiro em 7. de Janeiro de 1228. como consta de hum letreiro da mesma Igreja, e pelo livro dos obitos de Santa Cruz falleceo aos 9. de Agosto de 1236. A noticia deste Cardeal deu o Licenciado George Cardoso a este Reyno, como muitas outras de que està cheyo o seu Agiologio, obra taõ insigne, e de tanto estudo, que se pòde admirar igualmente o zelo, e piedade, com que està composta, e o immenso trabalho, com que seu Author tirou das trevas do esquecimento tantas noticias de gloriosos Santos, com que Deos tem illustrado a este Reyno, e avantejado a muitos outros de Europa.
§. IV.
_Joaõ 20. ditto 21. Summo Pontifice._
Joaõ 20. ditto vulgarmente 21. foy natural de Lisboa da Freguezia de S. Juliaõ, filho de Juliaõ, donde tomou o patronimico de Juliaens; posto que nas obras que compoz sómente se intitula _Petrus Hispanus_. E Onufrio lhe chama tambem Pedro Perez. Foy Arcediago de Vermuim na Sè de Braga, e D. Prior de Guimarẽes apresentado por ElRey D. Afonso III. no anno de 1273. Foy doutissimo Varaõ, particularmente nas Mathematicas, e Medicina; creou o Bispo Cardeal Tusculano Gregorio X. no Concilio Geral Lugdunense no Pentecostes do anno 1274. Teve o nosso Cardeal a estimavel circunstancia de ser creado pelo Papa S. Gregorio X. e ter por companheiros a S. Boaventura, a Fr. Pedro de Tarantasia, que depois foy Papa Innocencio V. a Fr. Visdomino de Visdominis, que alguns dizem que foy eleito Papa, e que morreo no dia da sua eleiçaõ, e Fr. Bertando de S. Martinho Arcebispo de Arles, a quem concedeo Clemente IV. que trouxesse diante de si a Cruz à maneira do Summo Pontifice. Era jà neste tempo Arcebispo de Braga, como o diz Joaõ de Barros Jurisconsulto em hum Prologo de certa obra que compoz, e dedicou ao Cardeal Infante D. Afonso, sendo Arcebispo de Braga, e Commendatario do Mosteiro de Pedroso, no qual lhe mandou fazer, e reformar o Cartorio; e nesta obra, que contèm o numero das Escrituras daquella casa (que saõ muitas, insignes, e antigas) diz fallando em muitos deste Reyno, que foraõ eminentes em virtudes, e letras, estas palavras. _Da Cidade de Lisboa foy natural o Papa Joaõ XXI. que primeiro se chamou Mestre Pedro Hispano, e que primeiro foy Physico, e fez Summulas da Logica, que hoje se lèm; e assim outras muitas obras, do qual Pedro Hispano eu achey neste Cartorio huma Epistola, assellada do seu sello, que elle escrevia sendo Cardeal, estando em Perosa aos Officiaes de Braga, sendo tambem eleito Arcebispo de Braga; cuja vida foy pelos annos do Senhor 1270._ Atèqui Joaõ de Barros.
O tempo, em que parece succedeo nesta dignidade, devia de ser o primeiro anno de 1274. porque este foy o ultimo do Arcebispo D. Sancho de Braga, a quem elle succedeo.