Part 2
_Moedas delRey D. Joaõ II. §. 30. p. 177._
_Moedas delRey D. Manoel. §. 31. p. 178._
_Moedas delRey D. Joaõ III. §. 32. p. 182._
_Moedas delRey D. Sebastiaõ. § 33. p. 181._
_Moedas delRey D.Joaõ IV. §. 34. p. 182._
_Moedas delRey D. Affonso VI. §. 35. p. 183._
_Moedas DelRey D. Pedro II. §. 36. p. 184._
_Moedas DelRey D. Joaõ V. §. 37. p. 185._
_Das Livras. §. 38. p. 187._
_Das Livras de dez soldos. §. 36. p. 188._
_De outras Livras, que valiaõ dez Livrinhas sómente. §. 40. p. 189._
_Dos Soldos. §. 41. p. 190._
_Dos Dinheiros. §. 42. p. 191._
_Das Mealhas. §. 43. p. 194._
_De outras Moedas Estrangeiras, que corriaõ no Reyno. §. 41. p. ibidem._
DISCURSO V.
_Sobre as Universidades de Hespanha. §. 1 p. 196._
_Principio das Sciencias na Lusitania. §. 2. p. 197._
_Catalogo das Universidades de Hespanha: Universidades de Portugal: Universidade de Coimbra. §. 3. p. 200._
_Universidade de Evora. §. 4. p. 202._
_Universidade de Salamanca. §. 5. p. 203._
_Universidade de Toledo. §. 6. p. 204._
_Siguença. §. 7. p. 205._
_Alcalà de Henares. §. 8. ibidem._
_Osma. §. 9. p. 206._
_Avila. §. 10. p. ibidem._
_Valhadolid. §. 11. p. 207._
_Oropesa. §. 12. p. ibidem._
_Ossuna. §. 13. p. ibidem._
_Sevilha. §. 14. p. 208._
_Granada. §. 15. p. ibidem._
_Baeça. §. 16. ibidem_.
_Murcia. §. 17. p. 209._
_Compostella. §. 18. p. ibidem._
_Onhate. §. 19. p. 210._
_Oviedo. §. 20. p. ibidem._
_Huesca. §. 21. p. 211._
_Çaragoça. §. 22. ibidem._
_Lerida. §. 23. ibidem._
_Perpinhaõ. §. 24. p. 212._
_Barcelona. §. 25. ibidem._
_Tarragona. §. 26. ibidem._
_Girona. §. 27. p. 220._
_Valença. § 28. p. 215._
_Luchente. §. 29. ibidem._
_Origuela. §. 30. ibidem._
_Gandia. §. 31. p. 214._
_Hirache. §. 32. ibidem._
_Estella. §. 33. p. 215._
_Pamplona. §. 34. p. ibidem._
DISCURSO VI
_Sobre a propagação do Evangelho nas Provincias de Guinè. Das condiçoens, com que os Summos Pontifices deraõ aos Reys de Portugal o Senhorio de Guinè. §. 1. p. 216._
_Das causas porque em tantos annos se tem feito taõ pouco fruito na conversaõ dos Povos de Guinè. §. 2. p. 227._
_De como se pòdem remediar todas essas tres cousas, avendo Seminarios destas naçoens. §. 3. p. 222._
_Do proveito temporal, que resultarà à Coroa de Portugal de se fazerem estes Seminarios. §. 4. p. 222._
_Como se poderaõ fazer os Seminarios com pouco custo. §. 5. p. 226._
DISCURSO VII.
_Sobre as causas dos muitos naufragios, que fazem as Nàos da Carreira da India, pela grandeza dellas. p. 230_.
DISCURSO VIII.
_Sobre a Peregrinaçaõ. p. 237_.
ELOGIOS.
_Memorial de alguns Cardeaes Portugueses. p. 247._
_S. Damaso Summo Pontifice. §. 1. ibidem._
_O Cardeal D. Payo. §. 3. p. 249._
_O Cardeal D. Joaõ. §. 3. p. 250._
_Joaõ XX. dito XXI. Summo Pontifice. §. 4. p. 251._
_O Cardeal D. Martinho. §. 5. p. 252._
_O Cardeal D. Joaõ Affonso de Azambuja. §. 6. ibidem._
_O Cardeal D. Pedro da Fonseca. §. 7. p. 254._
_O Cardeal D. Antaõ Martins de Chaves. §. 8. p. 255._
_D. Luiz de Amaral. §. 9. p. 257._
_O Cardeal D. Gemes. §. 10. p. 258._
_O Cardeal D. George da Costa. §. 11. p. 259._
_O Cardeal D. Affonso. §. 12. p. 263._
_O Cardeal D. Miguel da Sylva. §. 13. p. 264._
_O Cardeal D. Henrique. §. 14. p. 266._
_O Cardeal D. Verissimo de Lencastro. §. 15. p. 267._
_O Cardeal D. Luiz de Sousa. §. 16. p. 269._
_O Cardeal Nuno da Cunha de Ataide. §. 17. p. 273._
_O Cardeal D. Jozè Pereira de Lacerda. §. 18. p. 275._
_O Cardeal D. Joaõ da Mota, e Silva. §. 19. p. 277._
_O Cardeal D. Thomàs de Almeida. §. 20. p. 278._
_Panegyrico a ElRey D. Joaõ III. por Joaõ de Barros. p. 287._
_Elogio a ElRey D. Joaõ III. por Antonio de Castilho. p. 381._
_Panegyrico à Infanta Dona Maria. p. 395._
_Elogio do Doutor Fr. Bernardo de Brito. p. 430._
_Elogio de Evora. p. 441._
ERRATA.
_Pag._ _Regra_ _Erratas_ _Emendas._
4. 21. da Sedas das Sedas
4. 30. cousrs cousas
22. 23. Chancea Charneca
56. §. II. XI.
63. §. XI. XIII.
74. §. VII. XVII.
101. 9. Denarcius Denarius
196. 2. do prismeiro do primeiro
197. 3. que o mesmo luso que he o mesmo que luso.
210. §. IXX. XIX.
213. §. XXXX. XXX.
231. alijada alojada.
239. se pos a pag. 139. em lugar de 239.
245. 1. carere carcere.
257. 32. a despeito a respeito
307. 30. estas cheas estaõ cheas
319. 3. por sobre Epiphanes por sobrenome Epiphanes
347. 34. lembarse lembrarse
348. 10. muita muito.
377. 31. desengavava desenganava
386. 37. departir repartir
405. 22. hostorias historias
411. 19. Nanoles Napoles
DISCURSO I.
_Dos meyos com que Portugal pode crescer em grande numero de gente, para augmento da Milicia, Agricultura, e Navegaçaõ._
§. I.
Querendo Salamaõ encarecer, quanto importava ao Rey, e ao Reyno haver muita gente nelle, diz no cap. 4 das suas Parabolas: _In multitudine populi dignitas, & in paucitate plebis ignominia Principis_. Que he o mesmo que dizer: A grandeza dos Reys està na multidaõ do povo, e dos poucos Vassallos nasce a falta da reputaçaõ do Principe. A razaõ he, porque a multidaõ dos subditos defende o senhorio proprio, e pòde conquistar o alheyo. A multidaõ da gente cultiva o terreno, de maneira, que naõ sómente basta para os naturaes, mas pòde prover os estranhos. Da muita gente se colhe a riqueza do Principe pelos direitos, que se pagaõ dos frutos da terra, obras de mãos, e mercancias. Acontece isto naturalmente; porque como cada hum procura a sustentaçaõ de sua propria vida por preceito natural, tanto que chega a idade conveniente, de força a ha de buscar pelos meyos, com que melhor, e com mais commodidade a possa alcançar. Estes commummente se reduzem a quatro, que saõ Agricultura, para a sustentaçaõ necessaria às Artes mechanicas, para a vida politica, e à Mercancia, para levar os frutos proprios às Provincias alheyas, e trazer das alheyas, os que nos faltaõ, e à Milicia, para defensaõ da patria. Pela qual razaõ fica claro, que onde houver muita gente, haverà muita Agricultura, muitas Artes, e muita Mercancia, e muitos Soldados; que saõ as quatro cousas, em que se funda, e consiste a riqueza, o poder, e a felicidade de hum Reyno.
Tratando primeiramente da lavoura, e Agricultura, he de notar, que para por esta via se tirarem della muitas riquezas, he necessario haver muita gente. Grande exemplo temos disto em nossa Espanha no Reyno de Granada; porque no tempo que os Arabes estavaõ Senhores deste Reyno, por ser entaõ habitado de muitos Mouros, que lançados de todas as mais partes de Espanha, se foraõ recolhendo nelle, todos os montes se viaõ cubertos de vinhas, e arvores fructiferas, os valles, e campinas de sementeiras, e hortas, de maneira que naõ se podia ver no mundo terra mais abastada, e abundante de todas as cousas.[1] E era tanto isto assim, que sómente as folhas das amoreiras da Veiga de Granada rendiaõ a ElRey mais de 30U. cruzados, e as rendas das sedas, que se creavaõ no Reyno, rendiaõ mais de 42. contos,[2] e punha o Rey de Granada mais homens de cavallo em campo, que os outros Reynos de Espanha; com serem os mais delles muito mayores, que o de Granada;[3] o qual agora pela falta, que tem de gente, està taõ dessemelhante daquelle tempo, como se naõ fora o mesmo torraõ da terra, e por esta causa vieraõ as rendas delRey naquelle Reyno a tanta quebra, que naõ chegaõ hoje a ametade do que dantes valiaõ.
Na China por ser infinita a gente, he tanto o mantimento, que dà a terra, e tanta a industria com que a cultivaõ seus naturaes, que sendo elles tantos, que por não caberem nas povoaçoens, habitaõ em barcos nos rios, e enseadas; comtudo naõ padecem falta delles, antes os levaõ della continuamente de mercadoria para outras partes.
Nem contra isto se pòde dizer, que ainda, que haja muita gente naõ haverà cultivaçaõ da terra, se ella for de si infructifera, e esteril; porque confórme aos naturaes, e o que se nota nas leys das partidas,[4] nenhuma terra he infructifera; antes he cousa certa, que se alguma terra naõ for boa para dar trigo, serà para produsir cevada, centeyo, ou milho; e quando naõ, serà conveniente para vinhas, pastos de gado, mel, e cera; e a que naõ poder produzir árvores de fruto, darà arvores silvestres, ou pinheiros para madeira, como temos por exemplo nas terras, que estaõ da outra banda do Tejo defronte de Lisboa, onde vemos huma area solta dar excellentes vinhas, e produsir infinidade de pinheiros, e lenha, sem a qual se naõ poderia sustentar o grande povo de Lisboa.[5] O Author das Chiliadas diz, que as campinas de Brabante saõ de area esteril, mas os naturaes com sua multidaõ, e industria as fazem abundar de trigo, mostrando a experiencia contra o proverbio, que naõ he trabalho baldado lançar semente na area: _In Brabantia_, diz elle, _fiunt agricolæ tam industrij, qui sitientissimas arenas cogunt & triticum ferre_. Bem se vè logo, que onde houver muita gente haverà todos os frutos, e proveitos, que da terra se pòdem tirar, e que a falta da gente he a causa da caristia delles.
Quanto às artes, e industria, com que grande parte do povo se mantèm; estas naõ as pòde haver, nem pòdem florecer onde naõ houver muita gente; porque huns ensinaõ os outros, e inventando cada hum novas cousas, fica aos outros mais facil aperfeiçoarem a arte, confórme ao que se diz: _Facilius est inventis addere_. E assim vemos, que depois, que os Estados de Flandes cresceraõ em multidaõ de gente, floreceraõ entre elles mais artes, e industria, que entre todas as mais naçoens de Europa. Porque nesta Provincia se tecem as ricas, e maravilhosas tapeçarias, de que se usa em todo o mundo; que por esta causa se chamaraõ pannos de Arràs, tomando o nome da principal Cidade, em que se principiaraõ; nella se fazem as mais, e as melhores impressões de livros; della vem as pinturas, as olandas, os cofres, e caixas, os espelhos, e milhares de miudezas, e brincos, que em nenhuma outra parte do mundo se fazem, se naõ nesta: donde vem a ser huma das mais ricas Provincias de Europa; sendo assim, que naõ tem minas de ouro, nem prata.
Em Alemanha, por haver muita gente, florece tanto a mechanica, que a ella se attribue a invenção da impressaõ, polvora, e artilheria, as maravilhosas fabricas dos relogios, e dos mais dos instrumentos Mathematicos; de entre elles sahio a artificiosa invençaõ do papel, de que hoje usamos, das quaes cousas todos os antigos naõ tiveraõ noticia.
Isto nasce da multidaõ da gente de Alemanha, que por ser muita, cada hum busca por sua industria, e arte seu melhoramento, e de maneira tem em honra esta occupaçaõ, que desde o Emperador, atè o ultimo homem da Republica se professa algum officio mechanico, e se preza muito de fazer obras de mayor preço. Esta foy a causa porque antigamente em Grecia chegaraõ a tanta perfeiçaõ as artes da pintura, e escultura, porque segundo Plinio[6] toda a nobreza se occupava nellas: o que durou tanto tempo naquella regiaõ, que ainda se refere do Emperador Theodosio II. que as illuminaçoens, que fazia, vendia por grande preço, e se prezava muito disso.
O mesmo succede na China, a qual por ser a mais povoada Provincia do Oriente, tem mais artificios, e obras mechanicas, que todas as outras; porque della vem os leitos, escritorios, bofetes, e mesas douradas, as camas bordadas de ouro, e seda, as perçolanas finas, as telilhas, damascos, tafetàs, e outras mil invençoens da sedas em tão grande quantidade, que todas as Provincias do mundo estaõ cheyas destas mercadorias; e ainda confórme à opiniaõ de alguns modernos, elles acharaõ primeiro, que os Alemaens, o papel, a impressaõ, a polvora, e fundiçaõ da artilharia.
Da copia da Agricultura, e das Mechanicas nasce a mercancia; porque naõ sendo os frutos da terra, e materiaes comuns a todas as Provincias, procuraõ os mercadores levar os frutos, e obras, que nas patrias tem de sobejo a outras partes, onde as taes cousas faltaõ; e trazerem dellas as que se naõ daõ nas suas terras; o que naõ pòde ser, se não havendo abundancia de gente, que se possa occupar nestes tratos, e viagens, como vemos em Alemanha, Flandes, Inglaterra, Italia, e na China,[7] que com a multidaõ de seus baixeis mercantis correm o mundo todo, e o enchem de suas mercadorias.
Porèm para nenhuma cousa he mais necessaria a multidaõ de gente, que para a Milicia; porque como os soldados saõ ordinariamente a gente superflua na Republica, naõ havendo destes muitos, naõ pòde haver exercitos grandes, com os quaes sómente se fundaraõ as quatro Monarquias. Dos Assirios, e Persas lemos, que os exercitos eraõ taõ grandes, que lhes naõ bastavão para beber as agoas dos rios. Os successores de Alexandre, que podemos dizer foraõ os possuidores da Monarquia Grega, tambem se valeraõ de exercitos grossissimos, e a Republica Romana adquirio o senhorio do mundo, não menos com o grande numero das suas Legioens, que com sua prudencia, e valor. A ruina do Imperio de Roma foy mais causada das innumeraveis gentes, que do Norte sahiraõ, que não de sua destreza militar: o mesmo experimentamos no senhorio dos Arabes, que com sua multidaõ subjugarão o Imperio Grego, o Egypto, e Africa, e tiveraõ muito tempo tiranizada a Espanha. Pelo que sem grande numero de gente, não se pòde adquirir, ou conservar, grande Senhorio.
§. II.
_Como a gente naturalmente se multiplica, e deste Reyno se vay diminuindo do anno de 500. a esta parte, e as causas porque._
Se quizermos considerar o que ordinariamente lemos nas historias antigas, não poderemos deixar de confessar, que do tempo do diluvio, ate o presente, sempre a geraçaõ humana foy em grande crescimento, e que de cada vez vay em mayor augmento, e multiplicaçaõ. Porque deixadas as historias muito antigas, e da Sagrada Escritura, onde vemos, que de oito pessoas, que escaparaõ do diluvio, se encheo o mundo de gente, e de 70. que da familia de Jacob entrarão em Egypto, sahirão depois 600000. soldados de peleja, a fóra as mulheres, e meninos: quem ler, e vir as taboas da Geographia de Ptolomeu, e depois os Mapas, que traz Abraham Ortelio no seu Theatro do mundo, verà claramente como em cada Provincia erão sem comparação muito menos as Villas, e Cidades no tempo de Ptolomeu, que as que sabemos estão hoje edificadas, e habitadas. Nem contra isto se pòde dizer, que naquelle tempo se não sabia tanto das Provincias, como hoje se sabe; porque isso seria da India, e de outras terras incognitas, de que Ptolomeu não podia ter perfeita noticia; mas o que trazemos por exemplo, saõ as Provincias da nossa Europa, como Italia, França e Espanha; nas quaes hà agora em cada huma muitas mais povoaçoens do que dantes havia. Bozio contra Machiavelo lib. 3. cap. I. nomea só no Reyno de Napoles muitos milhares de povos mais, que os que tinha toda Italia antigamente segundo Estrabo, Ptolomeu, e Plinio, o qual chega a contar atè os Casaes, e Bozio não conta lugar de menos de 300. visinhos. Flandes, que hoje contèm em si 17. Estados nobilissimos, nos quaes se contaõ 208. Cidades, e mais de 6300. Villas, sem contar as Aldeas, Castellos, e Fortalezas, que saõ em grandissimo numero, sabemos, que no anno de 878, o Papa Joaõ VIII.[8] no Synodo de Troyes concedeo hum só Bispo a Flandes, por ser terra até aquelle tempo cheya de bosques, e pouco povoada, e que então se começava a cultivar, e habitar. E as Ilhas de Holanda, e Zelanda, que saõ as mais povoadas destes Estados, quasi neste mesmo tempo estavão ainda cobertas do mar Oceano, do qual se foraõ descobrindo pouco, e pouco, e agora estaõ todas cheyas de fortissimas, e riquissimas Cidades. Colligese tambem esta mesma verdade dos livros das Cidades de Joaõ Braum, onde se vèm quasi todas com duas cercas, e muralhas; as primeiras, e mais antigas mais pequenas, e quasi interiores, e as modernas muito mais grandes, e capazes, que por os povos crescerem em grande numero, e naõ caberem nos primeiros muros, vem a ser necessarios outros mayores. E para que nos não cansemos com exemplos estrangeiros, venhamos a este nosso Reyno; o qual do tempo delRey D. Afonso Henriques, atè o em que estamos, naõ cresceo menos, que qualquer das outras Provincias, que acima nomeamos. O que se colige evidentemente das Villas, e Cidades fundadas pelos Reys Portuguezes, assim neste Reyno, como fóra delle (alèm das muitas, que particulares Senhores edificarão, e lhes derão seus Foraes) fundou ElRey D. Afonso Henriques de novo as Villas de Almada, Villa-Franca, Villa-Verde, Azambuja, e Lourinhãa. No tempo delRey D. Sancho se povoaraõ por seu mandado as Villas de Penamacor, Sortelha, Valença do Minho, Montemòr o Novo, Penella, Figueirò, Covilhaã, Folgosinho, e a Cidade da Guarda. ElRey D. Afonso III. fez novas povoaçoens em muitas partes do Reyno, que eraõ deshabitadas; entre as quaes edificou de novo Estremòs, e reformou, e povoou de novo a Villa de Pinhel, Vinhaes, Villa-Flor, Mirandella, Freixo de espada na cinta, Villa-Nova de Cerveira, Villa-Real, Muja, Salvaterra, Atalaya, Aceteira, Montargil, e outros muitos lugares; que por todos passaõ de 40. A todos seus antecessores excedeo ElRey D. Diniz, porque podemos dizer, que povoou meyo Reyno. E depois, que o Infante D. Henrique começou o descobrimento da Costa de Africa, e Ilhas do mar Oceano, e se continuou atè chegar à India, foy esta multiplicaçaõ de gente Portugueza em muito mayor crescimento; porque se povoaraõ todas as Ilhas, Brasil, Costa de Africa, e se fundaraõ de novo todas as Cidades, e Fortalezas, e mais povoaçoens do Estado da India. Pelo que consta, que tem os Portuguezes fundado da Barra para fóra hum numero immenso de povoaçoens, em que entraõ muitas, e grandes Cidades.
Com tudo de prezente experimentamos neste Reyno falta de gente, assim para a milicia, como para a navegaçaõ, e muito mais para a cultivaçaõ da terra; pois por falta da gente Portugueza se servem os mais dos lavradores de escravos de Guinè, e mulatos. Pelo que apontaremos as causas, porque neste Reyno falta a gente do povo, e da nobreza, que parece saõ as seguintes.
A primeira causa da falta da gente, que se padece neste Reyno, saõ as nossas Conquistas; porque estas ainda que foraõ de grande utilidade, assim para a propagaçaõ do Evangelho, como para o comercio do mundo, toda via defraudaraõ muito este Reyno da gente, que lhe era necessaria. E assim naõ sómente deste tempo por diante naõ cresceo a gente neste Reyno, como era conveniente para as muitas povoaçoens, que jà nelle havia, e para se poder defender, e offender aos inimigos, mas alèm disto se foy despovoando com as muitas armadas cheyas de gente, que cada anno partem de Portugal para estas Conquistas; e com as muitas Colonias, que se tiraõ para estas povoaçoens. Pelo que ainda que a gente naturalmente và em crescimento, como temos provado; com tudo a nossa naçaõ Portugueza depois, que houve estas Conquistas, se foy diminuindo, naõ por falta da multiplicaçaõ natural, se naõ por os Portuguezes se irem de sua patria a povoar, e fundar tantas Cidades, e lugares, como temos dito, em terras taõ remotas, e taõ largas.[9] Por onde do tempo destes descobrimentos para cà naõ se fundaraõ de novo no Reyno, nem Villas, nem lugares, como atè entaõ se tinhaõ fundado.[10] E passando ElRey D. Joaõ I. à tomada de Ceita com mais de 20U. homens, e ElRey D. Afonso V. às empresas de Africa com exercitos de 30U. homens, no tempo delRey D. Sebastiaõ era jà taõ pouca a gente, que com levar os mais dos soldados por força, naõ pòde ajuntar mais, que onze mil Portuguezes. Donde claro se mostra naõ sómente, que hà falta de gente em Portugal, mas que a primeira causa della saõ as Conquistas; pois do tempo dellas a esta parte se foy sentindo esta diminuiçaõ. Daqui veyo o ser necessario trazerem se Cafres, e Indios para o serviço ordinario. E já em tempo delRey D. Joaõ III. passava isto em tanto crescimento, que disse Garcia de Resende numa copla da sua Miscellanea.
_Vemos no Reyno metter Tantos cativos crescer E irem-se os naturaes. Que se assim for, seraõ mais Elles que nòs a meu ver._
A segunda, causa porque falta a gente deste Reyno, he por naõ terem officios, com que ganhem de comer por sua industria, que he o meyo, que Deos deo para a sustentaçaõ de cada hum; e como os homens naõ tem de que se sustentem, naõ se querem casar, e muitos com esta occasiaõ se fazem vàdios andando pedindo esmola pelas Cidades, e Villas, homens, e mulheres em taõ grande numero, que parecem exercitos; e a desculpa, que daõ para pedirem, he dizerem, que naõ achaõ em que trabalhar. Outros se passaõ a Reynos estranhos, principalmente para os de Castella pela facilidade da vizinhança, onde antes da Acclamaçaõ havia tantos Portuguezes, que muitas pessoas affirmavaõ, que a quarta parte dos moradores de Sevilha eraõ nascidos em Portugal, e que em muitas ruas daquella Cidade se fallava a nossa lingua, e naõ a Castelhana. Quasi o mesmo se podia dizer de Madrid; e por toda Castella a Velha, e Estremadura he notorio, que os mais dos mechanicos eraõ naturaes deste Reyno, os quaes por não terem cà em que trabalhar, hiaõ là ganhar sua vida.
A terceira causa porque falta a gente popular, he por naõ terem neste Reyno terras, que cultivem, e de que possaõ tirar sua sustentaçaõ, porque a Provincia de entre Douro, e Minho, e as mais atè o Tejo estaõ bastantemente povoadas, e não hà nellas lugar para se fundarem nòvos pòvos, que possa cultivar a gente, que cresce. E Alentejo, que podèra socorrer a esta falta (porque he quasi tão espaçoso, como o resto do Reyno) como està todo dividido em herdades, e as mais dellas muito grandes, nem se povôa, nem se cultiva. Porque sendo as herdades de muitas folhas, ficão de ordinario as tres partes dellas por semear, faltando por esta causa os muitos frutos, que se dellas poderaõ colher, e a cõmodidade, que poderaõ dar a tantos homens, que não achaõ lugar, onde poder fazer hum recolhimento em que se metaõ: e por isto se embarca tanta gente para fóra da Barra, obrigando-os a necessidade a ir buscar terras, em que vivaõ a outras partes do mundo; pois lhe faltaõ em sua propria patria.
Estas trez saõ as causas da falta da gente popular deste Reyno; mas as da falta da gente nobre se pòdem reduzir a duas. A primeira he a união de muitos Morgados numa pessoa; porque quando se conserva hum Morgado per si, cada possuidor casa, e propaga sua familia; mas juntando-se muitos Morgados numa só pessoa, essa sómente casa, e as mais familias, para que os outros Morgados foraõ instituidos, ficaõ extintas. Isto tem acontecido em Portugal a grande numero de Morgados;[11] e he tão grande este danno, que já os Reys lhe quizeraõ acodir, como se vè no 4. livro das Ord. tit. 100. onde se diz, que com esta união dos Morgados se ficaõ extinguindo as Casas, e Familias, e faltando a gente nobre para a defensaõ, e conservaçaõ do Reyno. Pelo que esta he a principal razão da falta da Nobreza.
A segunda he a grandeza, a que tem chegado os dotes das mulheres nobres; pois vay em tanto excesso, que poucos saõ os Fidalgos, que pòdem casar huma filha, e quasi nenhum duas, como se disse no capitulo das Cortes do Estado da Nobreza a ElRey Nosso Senhor[12] pedindo-lhe remedio para este danno, por ser gravissimo, e que extinguia grandemente a Nobreza de Portugal.
§. III.
_Do remedio para a falta da gente da primeira, causa, que saõ as Conquistas._