Noticia De Livreiros E Impressores De Lisboa Na 2a Metade Do Se
Chapter 1
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Rita Farinha (Fev. 2008)
GOMES DE BRITO
NOTICIA
DE
Livreiros e Impressores em Lisbôa
NA
2.^a METADE DO SECULO XVI
COMPOSTA EM FACE DE UM CODICE DA CAMARA MUNICIPAL DESTA CIDADE
[Figura]
1911
Imprensa Libanio da Silva _Travessa do Fala-Só, 24_ LISBOA
Livreiros e Impressores em Lisbôa na 2.^a metade do Seculo XVI
GOMES DE BRITO
NOTICIA
DE
Livreiros e Impressores em Lisbôa
NA
2.^a METADE DO SECULO XVI
COMPOSTA EM FACE DE UM CODICE DA CAMARA MUNICIPAL DESTA CIDADE
[Figura]
1911
Imprensa Libanio da Silva _Travessa do Fala-Só, 24_ LISBOA
Do _Boletim da Sociedade de Bibliophilos Barbosa Machado_
Tiragem: 50 exemplares
N.^o 44
NOTICIA
DE
Livreiros e Impressores em Lisbôa
NA
2.^a METADE DO SECULO XVI
Até o tempo em que o Cardeal D. Henrique, depois rei, procedeu á nova circumscripção das parochias de Lisbôa, erijindo mais cinco freguezias a ajuntar ás vinte e cinco já existentes (1564 a 1569), demarcando-lhes o territorio nos recortes feitos a quatro destas, a secular compartilha que resultava deste regimen, estabelecido no intuito de accomodar o serviço religioso ás necessidades dos fieis, e sua mais immediata satisfação, soffrera tres remodelações. Ordenara a ultima, durante a regencia do principe D. João, ausente em França seu pai, o rei D. Affonso V, o celebre cardeal de Alpedrinha.
Por effeito daquelle regimen, grande numero de vias públicas lisbonenses eram, como ainda hoje o são, compartilhadas por diversas freguezias confinantes. O _Summario_ de Christovão Rodrigues de Oliveira, apezar de imperfeito neste ponto, nos mostra, pela repetição das _denominações_, que não dos _disticos_, porque tal providencia estava ainda por nascer, quaes e quantas eram as vias públicas compartilhadas, por effeito da remodelação parochial então vigente.
Comprehendia-se entre as deste numero a muito falada «Rua Nova», dividida em dois troços, um mais antigo que o outro; um, o primeiro, fazendo parte do territorio da freguezia da Magdalena, o outro pertencendo á freguezia de «S. Gião» (S. Julião).
Do mesmo modo, esta notavel rua da Lisbôa medieva, que principiando no Pelourinho, ía entroncar na Calcetaria, era conhecida por duas denominações, correspondentes á sua compartilha. Á parte oriental, territorio da parochia da Magdalena, que terminava no Arco dos Barretes, chama Christovão «Rua Nova dos Ferros»; a que desde o predito Arco ía embeber-se na Calcetaria, um pouco adiante do Chafariz dos Cavallos, é designada na relação do _Summario_, referida á freguezia de S. Gião, pela denominação de «Rua Nova dos Mercadores».
I
É em toda a extensão da Rua Nova, de um e outro lado della, que, mercê de um valioso codice pertencente á Camara Municipal de Lisbôa[1], nós vamos encontrar, de porta aberta, nos annos intermedios dos já preditos (1565 a 1567), não só alguns dos livreiros e editores já conhecidos dos que conversam o passado literario de Portugal, mas outros tambem, ainda até agora não mencionados.
Começando a juzante da formosa linha de agua com a qual a Rua Nova andava, se pode dizer, parallela, o primeiro que se nos depara é Bartholomeu Lopes, que não deixou de si, que saibamos, memoria averiguada, mas que poderá ser, porventura, membro de uma notavel geração de livreiros deste appelido;--os Lopes.[2]
Em 1563, isto é, dois annos, apenas, antes do primeiro dos dois a que o codice de onde extractamos estes apontamentos se refere, havia um Christovão Lopes estabelecido «á Porta da Sé», segundo se vê do titulo seguinte, que abreviamos, mas se pode ler completo em Innocencio, _Diccion. Bibliog._ II, 166:
«_Exposiçam da Regra do glorioso Padre Sancto Augustinho... por frey Diogo de Sam Miguel, &--Vendense_ (sic) _á porta da See, em casa de Christouam Lopes Liureyro a dous tostões em papel.--Foy impresso em Lixboa em casa de Joannes Blavio de Agrippina Colonia--Anno de 1563_».
Vista a propinquidade dos annos, poderá acaso Bartholomeu Lopes ter sido irmão, ou filho (?) de Christovão Lopes, e seu successor, passando o estabelecimento da Porta da Sé para a Rua Nova, ou estabelecendo-se elle ahi de novo.
É possivel tambem que este mesmo livreiro seja pae do livreiro-impressor Simão Lopes, que deu em Lisbôa, em 1593, a primeira edição do _Itinerario_, de Fr. Pantaleão d'Aveiro, as _Cartas do Japão_, etc., e em 1596 reimprimiu a _Chronica de D. João II_, de Garcia de Rezende.
A seguir a Bartholomeu Lopes, seu visinho, estabelecido, até, nas mesmas casas, tendo ambos por senhorio um tal Jeronymo Corrêa, tinha a sua lojinha Sagramor Fernandes. Era livreiro de modestas posses, a julgar pela avaliação que os «lançadores», para tal effeito deputados, deram á sua fazenda, na proporção de cuja totalidade deveria, como todos, pagar o respectivo escote. O nome baptismal do homem era novellesco, mas as _cavallarias_, ao que parece, não eram grandes.
A influencia das novellas de cavallaria faz-se ainda sentir em toda a sua pujança no codice que nos facilita esta noticia, imprimindo-lhe um matiz pictoresco e variado.
O nome novellesco do obscuro livreiro não é unico entre os seus congeneres de ambos os sexos, inscriptos neste curioso recenseamento. A par dos Sagramor ha os Lançarote; de envolta com as Ginevras passam as Briolanjas. A procedencia francesa e a italiana, dando-se as mãos. Lançarote é o «Lancelot» francez; Lancelot du Lac, o heroe cavalheiresco de Gauthier Mapp, o amigo de Henrique II de Inglaterra. Sagramor é o «Sagromoro» milanez, que Jorge Ferreira aportuguesou, fazendo-o heroe do seu _Memorial_; Sagramor Constantino, designado por el-rei Arthur para seu successor, se a sorte das armas lhe fôsse adversa.
Por aproposito, lembraremos a dúvida que Barbosa Machado fez nascer, ácerca da existencia dos _Triumfos de Sagramor_, novella que, segundo elle, teria sido impressa em Coimbra, em 1554, por João Alvarez, mas de que parece que nem o douto Abbade de Sever, nem, de certeza, o seu successor, o diligente Innocencio, viram jámais exemplar algum. Será esta hypotética novella o proprio _Memorial_, assim duplicado pelo auctor da _Bibliotheca Lusitana_? Eis um curioso thema, digno, nos parece, de attrahir a attenção da nossa Sociedade, e a que o artigo de Innocencio (IV, n.^o 2095, pag. 170) prestaria a base.
Em compensação, porém, algumas lojas mais adiante do modesto Sagramor achava-se estabelecido o opulento João de Borgonha. Livreiro-editor de nomeada, fornecedor de artigos do seu ramo para a fazenda de S. A., proprietario nas visinhanças do seu estabelecimento, e em mais de um sitio,[3] os seus teres, como negociante, foram avaliados em «um conto de réis».
Na epoca em que o encontrámos, tinha elle por seu «obreiro», talvez o que hoje chamariamos seu «director-technico», seu administrador ou seu apoderado, a um certo Miguel de Arenas, um castelhano, porventura, como da Borgonha seria, com effeito, o patrão; estranjeiros quasi todos, estes negociantes das letras portuguezas do seculo XVI, que, vindo concorrer com os nacionaes, faziam, ao que parece, mais fortuna que elles.[4]
Certo é que Miguel de Arenas estabeleceu-se posteriormente, com o mesmo ramo de commercio, de sociedade com João de Molina; tambem, e mais vulgarmente conhecido por «João de Hespanha», outro abastado mercador de livros, mas não tanto como o seu confrade borgonhez. O negocio de João de Hespanha foi avaliado em «duzentos mil réis». Como «obreiro» de João de Borgonha, Miguel de Arenas devia fazer bons interesses. Dos seus ordenados--e foi por esta circumstancia que o suppuzemos _empregado superior_ da casa de seu patrão--foram-lhe arbitrados «cinquo mill rs», para na razão delles pagar o respectivo escote.[5]
A João de Borgonha segue-se, nas tendas de Alvaro de Moraes, o livreiro Manoel Carvalho, provavelmente o pae de Sebastião Carvalho, que em 1598 publicou, em 3.^a edição, a _Recopilaçam das cousas que conuem guardarse no modo de preseruar a Cidade de Lisboa_, instrucções redigidas em 1569 pelos medicos Thomaz Alvarez e Garcia de Salzedo Coronel, e repetidas na primeira das datas a que acima nos referimos, «por mandado da cidade de Lisbôa», &.[6] Sebastião Carvalho conservaria assim na mesma Rua Nova o estabelecimento paterno.
Apresentam-se, logo em seguida a Manoel Carvalho, Diogo Machado, João Lopes e «Graviel» de Araujo, dos quaes não viramos ainda noticia, antes que o codice que lhes revelou a existencia no'los désse a conhecer. Ao ultimo destes segue Diogo Moniz, que por ter apresentado carta de familiar do Santo Officio, foi escuso do escote. Porfim, e quasi no extremo da parte da rua pertencente á freguezia da Magdalena, o «Grafeo», isto é, o livreiro-editor Francisco Grapheo, em cujo estabelecimento se vendia a novella _Menina e Moça_, de Bernardim Ribeiro, impressa em Colonia, em 1559,[7] e uma das muitas edições da _Diana_, do nosso Jorge de Montemor, ao qual ainda não chegara a hora de ser incluído nos _Indices expurgatorios_ das duas Inquisições peninsulares.
II
Continuando na mesma Rua Nova, agora já no territorio da freguezia de «S. Giam»; isto é, para a direita do Arco dos Pregos, ainda ahi encontramos um Francisco Mendes, que estará no caso de Sagramor Fernandes, visto o diminuto do escote, bem como o «framengo» Giraldo de Frisa, que pertence tambem, ou nos enganaremos, ao numero dos da sua classe, de que não chegára noticia até nossos dias.
Emfim, na mesma Rua Nova, e territorio da sobredita freguezia de «S. Giam» (S. Julião), mas da banda das Varandas, encontramos, fronteira ao Arco dos Pregos, a «viuva de Salvador Martel», Leonor Nunes, a qual, estabelecida, com seu filho, nas casas de Fernão d'Alvarez de Almeida, teve pelos lançadores a avaliação de duzentos mil réis.
Salvador Martel foi livreiro conhecido. Deverá ter fallecido no decurso das operações do _Lançamento_, de cujo livro tiramos estas singelas notas, visto como Tito de Noronha ainda o refere ao anno de 1566.[8]
Algum tanto mais atrás, e tornando ao territorio da freguezia da Magdalena, voltando da rua de D. Gil Eanes, pelo «Pelourinho», para a rua da Ourivesaria da Prata, em cuja entrada tinham suas lojas os «calciteiros», encontramos o livreiro Jeronymo de Aguiar, que tambem não conheciamos, e, ali perto, no Poço da Fotéa, o já mencionado João de Molina, appelidado no codice que vamos percorrendo «Johão de Espanha», livreiro-editor que rivalisava, sem comtudo o hombrear, como já notámos, com o seu opulento confrade João de Borgonha.
Não era, porém, só na famosa Rua Nova, e suas immediações, que se encontravam os mercadores de livros. Na rua direita da Porta do Ferro,[9] numas casas que ahi possuia a camareira-mór, estava estabelecido «Jorge Dagiar» (Aguiar ou Aguilar?) talvez antecessor de Antonio de Aguilar, que nesse sitio teve a sua loja em 1576.
Pelas vizinhanças, na «travessa da porta travessa da Madalena», que se ligava á «rua do fim do pé da Costa», tinham tambem suas lojas Francisco Fernandes e «Bautista da Fonsequa».[10] Lá para a Porta do Mar, entre a Mizericordia e a «Fonte da Pregiça»,[11] nas tendas da Cidade que jaziam nas costas do Terreiro do Trigo, vendia livros um tal Manoel Francisco, lojista de medianos teres, cuja fazenda foi avaliada em 10$000 réis.
Por pouco mais abastado sería tido um Antonio Dias, com estabelecimento na rua da Gibetaria,--15$000 réis de fazenda.--E nos mesmos casos Pero Castanho, lá para perto de Valverde, numa travessa que vinha de Paio de Novaes para aquelle sitio, isto é, por perto do Rocio.
III
Estes são os livreiros que encontrámos arrolados em 1565-1567 no _Livro do Lançamento_ que nos tem guiado.
São _vinte_, isto é, mais do dobro dos que Tito de Noronha contou em sua já lembrada Memoria, referidos aos mesmos annos.
Não poderemos, todavia, affirmar que o João Lopes (1588), da lista daquelle auctor, seja o mesmo que figura nestas singelas notas. A identidade não se nos afigura improvavel.
Do Christovão Lopes (1563), daquella lista, já dissemos o que temos por presumivel. Quanto ao livreiro Antonio Curvete (1565), mencionado tambem por Tito, não se nos deparou no longo exame feito ao curioso codice, sob este particular ponto de vista. Isto não quere dizer que elle se não ache entre os 15:000 nomes contidos no volumoso recenso. Bem poderá, porém, ter escapado, por isso que nem sempre as profissões dos fintados lhes acompanham os nomes, ou achar-se-ha substituido por outro dos arrolados.
Como quer que seja, um e outro do numero total dos livreiros, apontado por Tito de Noronha e por nós, como estabelecidos em Lisbôa entre 1565 e 1567, está muito longe do que mencionou Christovão, onze annos antes[12]--«54». Este numero, na verdade, inconcebivel por si só, e sem mais explicações, é justificado pelo ignorado auctor da chamada _Estatistica de Lisboa_, de 1552, que se guarda na Bibliotheca Nacional, de modo assás plausivel, e que, demais, acerta muito satisfatoriamente a nossa conta.
Diz, com effeito, o auctor da _Estatistica_:
«Tem XX tendas de livreiros, e [na] maior parte delas i i j, i i i j criados e sserã as p^{as} que nellas trabalham huas per outras lx...... 60 p^{as}».
Se em vez de Antonio Curvete, que nos falta, pode estar algum dos diversos desconhecidos, de que damos os nomes, hypothese que não parece improvavel, haveria nesta capital, de 1565 a 1567, o mesmo numero de livreiros que foi contado pelo auctor da _Estatistica_, em 1552.
Adoptada, com effeito, a conta dos «criados» ou «obreyros de livreiros» que os lojistas teriam a seu serviço, calculada pelo mesmo auctor, ahi teremos o numero de Christovão assaz justificado.
Será a seguinte Noticia dedicada aos _Impressores_.
IV
Ao testemunho do curioso codice do Archivo Municipal, que temos seguido, na famosa Lisbôa da segunda metade do XVI.^o seculo _seis_ individuos exerciam a «arte impressoria», como a denominou Valentim de Moravia, em sua traducção do livro de Nicolau Veneto.
O primeiro dos seis «imprimidores», segundo se lhes então chamava, e elles a si proprios se designavam, encontrados no alludido codice, é o velho João Blavio de Agripina Colonia[13], cujas impressões, conforme a tabella organisada por Tito de Noronha, em sua tão curiosa quanto instructiva monographia;--_A Imprensa Portugueza durante o seculo XVI_, remontam a 1554.
É, porém, de notar que nesta tabella, ou lista chronologica dos impressores deste seculo, assigna-se á actividade de João Blavio os onze annos, apenas, que começam em 1554, e terminam em 1564.
Ora, o ról do _Livro do Lançamento_, onde apparece este impressor, foi recebido pelos _sacadores_ (os encarregados da cobrança da extraordinaria imposição) em 11 de março de 1566, e por elles entregue, com o producto da cobrança, em 17 de agosto, do mesmo anno.
Vê-se pois que a actividade de João Blavio se prolongou algum tanto mais do que o indica a citada lista. O que fica para saber, é que genero de trabalhos produziria este typographo durante o lapso de tempo em que se averigúa agora ter elle ainda conservado a sua typographia, e a data precisa da sua desapparição.[14]
Era pouco importante nesta epoca, segundo parece, a actividade officinal de João Blavio. A moderada avaliação de 3$000 réis, que teve, o está inculcando.
Achava-se o velho impressor estabelecido no «Beco de Gaspar das Naus», freguezia de «Sam Giam», nas casas de um tal Bento Gonçalves. Aquella minguada arteria de Lisbôa tinha sua entrada na Calcetaria, entre a rua dos Fornos, a L. e o beco da Ferraria, a O. Rematando-se, ao N., por uma especie de cotovello, sem sahida, bifurcava-se na ligação com a rua dos Fornos, a que se chamava «beco do Loureiro». O plano Pombalino, assentando sobre esta um tanto emmaranhada topographia, mostra-nos, como pode ver-se na _Est. I_ da obra valedora do sr. Vieira da Silva, _As Muralhas da Ribeira de Lisboa_, o Beco de Gaspar das Naus atravessado transversalmente, de cima para baixo, na entrada da rua do Crucifixo, tendo a sua abertura no quarteirão que fica entre a esquina P. da rua do Crucifixo e a do N. da rua Nova do Almada, fronteira, por conseguinte, á parede lateral esquerda da actual igreja da Conceição Nova.
O personagem que deu o nome a este beco, e provavelmente residiu nelle, fôra, a julgar pelo que allega o «_Negro_», na _Pratica de oito figuras_, do poeta Chiado, sujeito que empunhara no mercado a vara da justiça... policial.
Diz com effeito, «Gama»:
/* «Não vou por esse caminho! Fallae ao que vos pergunto, Dizei, negrinho sandeu: saibamos que mal vos fiz, porque não me daes perdiz, pois que m'a compraes do meu? */
Responde o «Negro»:
/* «Nunca elle mim acha... Muito caro, nunca bem... Mim dá-le treze vintem pr'o dôzo; não querê dá. A regatêra muito máo! Mim dize quére vendê? Elle logo saconde... medo _Gasapar da náo proqu'elle logo prende_.»[15] */
Gaspar das Naus não é o unico a quem tenha sido applicado o cognome. Houve por esta epoca um outro individuo, chamado Manoel Lopes, tambem cognominado «das Naus». Ainda não sabemos em que se occupasse.
V
Segue-se, na ordem da leitura, Marcos Borges, que nos apparece arrolado como «imprimidor obreyro», residindo em uma de tres vias públicas, enfeixadas pelos _lançadores_ da sobredita imposição num só titulo:--«_Rua de quebra q... com travessa de calca_ (calça) _frades e Rua de pino vay_»[16].
O rol onde figura Marcos Borges foi entregue aos _sacadores_ em 2 de maio de 1566, sendo por elles restituido ao thesoureiro da imposição em 1 de agosto seguinte.
Ora, «ao primeyro de janeiro de 1566» appareceu a público, impresso por este typographo, o «_Paradoxo_», de João Cointha, lendo-se no frontispicio da obra, além da sobredita data, mais a seguinte indicação:--«_Vede se na empressam detraz de nossa senhora da Palma_».[17]
Se, pois, Marcos Borges já no 1.^o de janeiro de 1566 estava estabelecido por sua conta, e nos dá testemunho irrecusavel do facto na obra que lhe foi, porventura, estreia, como é que elle nos apparece classificado como «imprimidor obreyro», em maio, deste mesmo anno? Não deviam os individuos que o classificaram conhecer bem a sua posição?
Por outro lado, a indicação um tanto vaga: «detrás de nossa senhora da Palma» poderia até agora fazer suppôr que Marcos Borges estava, com effeito, estabelecido nalgumas casas situadas na parte posterior da capella-mór da ermida daquella invocação, onde, de certeza, havia já neste tempo casas para alugar, como as continuava havendo em 1755, e a ellas se referiram os engenheiros encarregados das medições dos Bairros, ordenadas no começo do anno seguinte pelo ministro do rei D. José.[18]
Desde, porém, que Marcos Borges nos apparece residindo num sitio differente do indicado na obra, de que terá sido o proprio editor, como tal indicação nos auctorisa a crêr, ainda que ambos os locaes fôssem convizinhos, o que parece curial é entender-se que o impressor do «_Paradoxo_», tendo, com effeito, a sua officina no sitio que a obra indica, residiria no «_Pino Vay_», viela ingreme, quasi fronteira á parte posterior da ermida, e que laborava a escarpa, no alto da qual passava a «rua detraz de Santa Justa», correspondendo, salvo o actual aspecto, á rua da Magdalena, na parte que vae da Betesga ao largo dos Caldas. Vamos ver adiante que Antonio Gonçalves, confrade, já agora celebre, de Marcos Borges, morava numas casas de certa rua, e tinha nella, e perto, em outras, a sua officina.
Mas, encosta acima, enlaçava-se no «_Pino vay_» a «_travessa de quebra q..._», que rasgando-se entre a «_rua dos torneiros_» e a «_Correaria_», um tanto mais abaixo da abertura inferior do «_Pino vay_», ía formar com esta viella, a meio da encosta, o enlace que fica apontado.
São poucos os contribuintes arrolados no grupo das tres vias públicas em questão, e tanto se pode suppôr que Marcos Borges, sempre na hypothese de ter a sua officina «_atras de nossa senhora da Palma_», morasse no «_Pino vay_» como na travessa predita, ou na _rua de calça frades_.
A circumstancia, porém, de não mencionarem os lançadores pessoa alguma a fintar na parte posterior da ermida da Palma, justamente no anno em que este impressor se declarara, na obra que citámos, estabelecido nesse sitio desde o 1.^o de janeiro, tenta-nos a ver em tal indicação um _alibi_, por elle empregado, para remediar um inconveniente a que o decoro devia attender. O que se nos afigura por mais certo, é que os _sacadores_ encontraram, com effeito, Marcos Borges residindo na mesma casa onde teria a sua officina, o que era regra, a bem dizer, geral, não «atrás da ermida de nossa senhora da Palma», mas na _travessa de quebra costas_, uma das tres do grupo onde o seu nome apparece, entre outros, e da qual se pode admitir, sem grande violencia, que ficasse fronteira, mas do lado opposto da _Correaria_, á parte posterior daquella ermida.
Quanto á menos exacta qualificação que ao impressor foi attribuida pelos _sacadores_, pode entender-se egualmente, ou que houve equivoco da parte destes, ou que elles quizeram favorecer o recem-estabelecido «imprimidor», conservando-lhe a qualificação de «obreyro», com o fim de lhe minorar a importancia do escote. Marcos Borges, typographo proprietario de officina, poderia, é verdade, ser avaliado em 3$000 réis, como o fôra o seu confrade João Blavio, e pagaria 21 rs. de escote, mas passando, por favor dos _sacadores_, por méro «imprimidor obreyro», alcançava o beneficio da «menor contia», que eram 2$500 rs., correspondendo-lhe a contribuição de 17 rs. Era uma differença apreciavel. Valia a pena acceitar o favor. Marcos Borges, _encolhendo-se_, ganhava 4 réis, isto é, defraudava S. Alteza em obra de 30 réis, de hoje.
Este impressor, ainda em 1567; isto é, no anno seguinte áquelle em que se estabeleceu por sua conta, continuava a dar como séde da sua typographia o mesmo sitio: «_detrás de nossa senhora da Palma_». Assim se lê, com effeito, no fim da «_Chronica do valoroso principe e invencivel capitão Jorge Castrioto_», de Francisco de Andrade. Era então já «impressor delrey nosso senhor».
Não continuou, porém, ahi. Do facto ficou testemunho no depoimento de Pero Alberto, flamengo, seu obreiro, que a 5 de novembro de 1571 declarava seu mestre estabelecido no «Arco dos Carangueijos», se não é Arco do Caranguejo, simplesmente.[19]
A indicação é preciosa, porque nos mostra quem foi o successor da viuva de Germão Galharde, da qual adiante nos occuparemos com tal qual individuação.
VI
Ao «imprimidor» Marcos Borges seguem-se, no codice que estamos examinando, os seus dois confrades Manoel João e Francisco Corrêa, encontrados, este na freguezia de Santa Justa, aquelle, na de S. Christovão.
É Manoel João o primeiro, e delle e da sua actividade industrial vamos dar os breves respigos por nós colhidos nas duas interessantes e eruditas monographias de Tito de Noronha--_A Imprensa Portugueza_, e _Ordenações do Reino_, ambas referidas ao seculo XVI.[20]
Manoel João exerceu a sua arte entre os annos de 1565 e 1578. Destes quatorze annos, porém, os dois primeiros occupou-os o impressor em Lisbôa, transferindo-se após a Vizeu, onde trabalhou durante os seguintes déz. Em 1576, provavelmente, Manoel João terá voltado a esta capital, publicando nella, datados deste mesmo anno, os _Diesisiete coloquios_, de Baltazar Collazos. De 1578 em diante, desapparece.
Deverá ter sido limitada, e pouco sortida, a actividade industrial deste impressor, accrescendo que as obras sahidas do seu prélo não se distinguem por perfeitas. Para o facto concorria tambem o cançado tipo de que dispôs, e o papel em que imprimiu. A decadencia da Arte começava a accentuar-se.